quinta-feira, 25 de junho de 2026

Trinca popular

 Leituras para distrair

Desde os 9 até os 19 anos de idade, eu morei numa rua ao lado do cemitério de Saigon, minha cidade. São Gonçalo para os visitantes. O muro de fundos da minha casa, pequeno quintal, era o muro do cemitério. Quando mudamos para lá era um muro largo e coberto com cacos de vidro, mas logo tratamos de arrumá-lo, retirando os cacos para que se tornasse um muro habitável. 

Uma goiabeira e uma groselheira branca juntas ao muro eram o acesso natural, mas, além das árvores, tínhamos escadas que tornavam o muro quase transparente fazendo do cemitério uma extensão do nosso quintal. Hoje, o Aterro do Flamengo, diante minha janela, funciona com meu quintal atual. Lembro ironicamente do cemitério em Saigon. Lembranças e experiências boas.

A minha casa era o caminho de acesso da molecada ao cemitério – campo de diversão – balões e cafifas (pipas para os cariocas). Ninguém pedia licença, minha mãe não se importava. A molecada da rua entrava sem cerimônias em nossa casa e acessava o cemitério atrás de cafifa ou balão. Passagem livre.

Hoje é dia de São João. Dia chuvoso, garoa fina. Não é comum. Aprendemos que no inverno não chove, ou melhor, quando não chove é inverno, dai a possibilidade de festas juninas ao ar livre, festas noturnas, enfeitadas com bandeirolas, fogueiras, danças (quadrilhas) e balões. Além da prática, hoje politicamente incorreta, de caricaturar a vida rural, caipira.

Às vezes, como hoje, aparecia uma chuva fina ameaçando melar as brincadeiras, mas a natureza tem sido fiel. Chuva em festa junina é implicância do acaso.

Onde moro atualmente as festas juninas são poucas e “empacotadas” – as que conheço são realizadas em espaços escolares, algumas em áreas de igrejas, mas todas, como não poderia deixar de ser, bem distantes daquelas experiências de ruas da infância. Sei que nunca mais sentirei a emoção de ver um balão apagado ou semiapagado, um vulto identificado no céu e caindo numa noite escura, enquanto fazíamos vigílias acomodados no muro do cemitério. Cochichar com um cúmplice que um balão apagado foi avistado e que deveria ser acompanhado, sem despertar a atenção de outros.

Não são lembranças apenas de práticas e costumes, são também de tempos que passaram. Guardadas com bastante saudade, mas sem nostalgia.

É interessante pensar que não haverá relato que consiga transmitir aquelas experiências, nem mecanismo que permita repassá-las como herança. As gerações mais novas certamente criarão outras que serão as suas. Tomara que o façam e que possam desfrutá-las como faço hoje, saboreando uma cachaça e lembrando que o coração batia forte ao pular do muro e correr à noite entre as sepulturas em busca de resgatar um balão em queda. Também os enfrentamentos que resultavam em balões tascados (era o verbo que usávamos) quando disputados por grupos rivais.

Viva os santos Antônio, João e Pedro, essa trinca popular, inventada pelos brasileiros em algumas regiões do país e que privilegiou a minha geração. Um ia casar com a filha do outro, mas o terceiro fugiu com a noiva, na hora de ir para o altar. ###

terça-feira, 26 de maio de 2026

Bourdieu - Coisas da vida

 Leituras para distrair

Trocando conversas com amigos cachaceiros, cheguei a um texto do Pierre Bourdieu que achei interessantíssimo. Ignorante que sou, nunca tinha visto (o texto), mas soube que é famoso.

Achei de leitura chata, aporrinhante, como os textos que conheço do Bourdieu, embora com reflexões importantíssimas.  Seu estilo de redação é aquele que abre parênteses intermináveis, cujas leituras faz-nos esquecer a proposta inicial. É preciso ler com marcador de textos. Enfim, esse é o Bourdieu.

O texto (cópia em seguida) fala especificamente sobre a produção de biografias, mas é uma reflexão também sobre as autobiografias e, consequentemente, uma reflexão filosófica sobre a vida – nossas vidas, ou seja, como refletimos sobre as nossas experiencias.

Li o texto (recomendo a leitura do resumo, também anexo) e tento fazer reflexões. Quem sabe, desculpar-me sobre as merdas que fiz (auto indulgência), ou culpar-me excessiva e injustificadamente (auto intolerância) sobre outras decisões.

De qualquer forma, o sacana do Bourdieu bateu na veia. A vida não é uma linha, sinuosa ou linear. Enganamo-nos porque o aspecto biológico (nascer, viver, morrer) sugere uma via temporal linear para os demais aspectos, mas não é assim que acontece.

Somos resultado de uma malha temporal de acontecimentos e não de uma linha reta, embora seja mais fácil pensar assim. Faz refletir sobre o significado do tempo (coisas da Física).

Somos o produto de situações e circunstâncias que não permitem a fixação dos eventos em uma corda esticada no quintal, como se fosse um varal de roupas estendidas, embora seja mais fácil recordar assim, quem sabe, justificar nossas ações e escolhas – causas e efeitos.

A leitura de Bourdieu, para mim, trouxe outras perspectivas. Não esclareceu a vida, obvio, mas ajudou bastante a pensar sobre ela. ###

NOTA

Sugiro a leitura do texto do Bourdieu (link ao final), mas antes dele sugiro a leitura de um bom resumo que achei na web. Cá pra nós, o francês é importantíssimo, mas é chato pra caralho. Gosto dele.

 

A ilusão biográfica – Pierre Bourdieu

"A ilusão biográfica" é um conceito do sociólogo Pierre Bourdieu que critica a crença de que a vida de uma pessoa segue uma história coerente, linear e guiada por um propósito. Para ele, tentar narrar uma trajetória de forma contínua é uma falácia, visto que o real é fragmentado e condicionado pelas estruturas sociais.

Pontos centrais da crítica de Bourdieu incluem:

 

A vida como narrativa: O senso comum tende a transformar existências em histórias com começo, meio, fim e sentido lógico. Bourdieu argumenta que isso é uma imposição artificial da linguagem e da memória.

A ilusão do projeto: Acreditar que nossas escolhas são frutos apenas de uma intenção ou projeto individual ignora o peso do mundo social. Nossas trajetórias são, na verdade, um conjunto de rupturas, acasos e descontinuidades moldados pelo habitus e pela posição nos campos sociais.

 

O sentido retrospectivo: Relatar a própria vida é reorganizar o passado para que ele pareça fazer sentido no presente. A biografia cria uma falsa sensação de destino ou de linearidade que não existiu na prática.

Para Bourdieu, a análise sociológica não deve buscar uma essência ou um "projeto de vida" unificado, mas sim compreender os espaços, as redes de relações e as condições materiais/sociais que possibilitaram as ações do indivíduo no decorrer do tempo.

 ###

 

O texto integral do Bourdieu pode ser encontrado em:  <https://historiacultural.mpbnet.com.br/pos-modernismo/BORDIEU_Pierre-A_ilusao_biografica.pdf>

Acessado em 25/05/2026.

sábado, 16 de maio de 2026

Seu Lico e o Profeta

 Leituras para distrair

 

Eu paro pra ver malucos de rua. Sei que é comportamento politicamente incorreto, desqualificação do outro etc. Mas paro, desde que não constituam uma ameaça. Tenho para mim que a maioria não constitui perigo. Geralmente são pobres coitados, figuras que surtam diante de provocações específicas e que, ao mesmo tempo, são segregadas e incorporadas ao cotidiano das comunidades. Quase todos os núcleos populacionais tem os seus malucos de rua.

Quando rapaz, trabalhei num depósito onde a maioria dos empregados era de carregadores em caminhões de entregas de milho, farinhas e derivados, e diariamente havia o carregamento e despacho dos caminhões para as entregas.

Os caminhões estacionavam na rua, e a rotina do carregamento era um encontro de diversão e até de aprendizagem de valores que afloravam no meio das brincadeiras e sacanagens daquela moçada que trabalhava carregando sacos de 50 ou 60 quilos no lombo.

Havia um maluco local que respondia pelo nome de "Seu Lico". Era um desajustado mental, mas não um “perdido” na rua, ele tinha uma família cuidadora. Praticamente todas as manhãs ele aparecia por lá, entre a movimentação dos carregadores, e logo começava uma ladainha festiva porque, sem que ele visse quem era, alguém do grupo gritava:

eu pensei que Seu Lico latia, mas Seu Lico mia".

Por razões que ninguém sabia, nem se procurou saber, o cacófato da frase acionava uma chave interna em Seu Lico que respondia ofendido gritando xingamentos, gerando uma retroalimentação de novas provocações, palavrões, risadas e piadas.

Não bastasse isso, Seu Lico executava uma dança de estranha coreografia pela rua e calçadas, animando a manhã dos transeuntes e daqueles trabalhadores que teriam ao longo do dia a tarefa árdua de distribuir as toneladas de milho e farinha.

Os malucos foram muitos – excluo-me. E após meus dias como auxiliar de escritório naquele depósito, fui cursar engenharia na Universidade Federal Fluminense, em Niterói.

Eu morava em São Gonçalo (Saigon), e com alguns colegas caminhávamos diariamente pela estação das barcas Rio–Niterói. Foi assim que durante 4 ou 5 anos acompanhei a construção da ponte Rio-Niterói e também as manifestações de outro maluco que virou um mito carioca: o Profeta Gentileza. Um mito de falsos atributos, digo desde já.

Atualmente há um terminal rodoviário no Rio com o seu nome, em referência ao pregador da frase "Gentileza gera gentileza". Contudo, o Gentileza que conheci, entre 1969 - 1973, em frente as barcas de Niterói, não tinha nada de gentil.

Vestido de uma túnica branca, cabelos longos, cheio de penduricalhos, voz estridente, e incitado por uma galera masculina que se acumulava na frente da estação, ele interpelava e constrangia as mulheres que passavam. Criticava suas vestes, decotes, feitios e maquiagens. Agressão.

A galera batia palma pro maluco, e o avisava sobre a aproximação de uma “vítima”. Quando a vítima identificava a situação, ela tentava se desviar, se fosse possível, caso contrário, caia numa teia formada por homens em multidão, ou seja, completamente irracionais, com aquele maluco constrangendo-a, insultando e pregando agressivamente sua pretensa moralidade.

Esse foi o maluco que eu vi durante anos - tanto quanto vi as obras da Ponte. Na lembrança de pessoa contemporânea: “um doido que xingava principalmente as mulheres que estavam sozinhas ... não sei de onde saiu esse mito "gentileza"... se fosse hoje, ele arrumava um jeito rápido de levar um tiro”.

Há uma lenda que Gentileza teria enlouquecido após perder a família no incêndio do Gran Circo Norte-Americano, em 1961. Mas, isso é tão fake quanto a história do Gentileza gentil. Quem quiser conhecer melhor essa história sugiro recorrer ao livro O Espetáculo mais triste da Terra de Mauro Ventura (Ed. Cia. das Letras).

Ainda assim, não tenho nada contra o mito Gentileza que foi criado. O “Gentileza gentil” é uma lenda urbana positiva, embora o maluco que eu vi fosse escroto, agressivo e nada tivesse de gentil. Contudo, criaram um mito positivo, e é bom que existam mitos positivos. Aprendi que por trás dos mitos existem desejos e, consequentemente, a possibilidade de realizações.

A propósito, apenas para registro: nunca vi Seu Lico nem Gentileza comerem merda nem rasgarem dinheiro. 

###

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Velocidade de escape

 

Leituras para distrair

Desenhe um círculo, sem precisão, do tamanho que quiser — algo entre dois e três centímetros de diâmetro. Imagine que essa bolota é o globo terrestre. Agora, escolha um ponto da superfície e marque como se alguém estivesse atirando uma pedra na horizontal. Desenhe o percurso da pedra até ela retornar ao chão.

O desenho revelará um efeito real que não percebemos no dia a dia: para voltar ao solo, a pedra acompanha a curvatura do globo. Na prática, não notamos isso porque a Terra nos parece plana — uma questão de escala, embora alguns acreditem que seja assim de fato.

Repita o desenho como se a pedra fosse lançada com maior velocidade, de modo a cair mais distante. Veremos que ela se afastará mais do ponto inicial, mas continuará acompanhando a curvatura, tocando o solo em um ponto do círculo abaixo, mais distante, do anterior. Isso ocorre porque a força gravitacional da Terra a atrai de volta.

Agora simule lançamentos com velocidades progressivamente maiores. Observe que a pedra se afastará cada vez mais da superfície. Haverá, porém, um ponto em que a gravidade já não conseguirá trazê-la de volta: a pedra simplesmente não retornará.

Essa é a chamada Velocidade de Escape — a velocidade mínima necessária para que um corpo escape do campo gravitacional de um planeta. É a partir do equilíbrio de energias nessas situações que se dimensionam as velocidades de propulsão dos foguetes para colocar satélites em órbitas da Terra ou para enviar naves em viagens espaciais.

Pensando nisso, enquanto beberico umas e outras, imagino que quase todo cachaceiro já tenha observado — em si ou em terceiros — alguém escapar  da força gravitacional da sobriedade e sair numa viagem da qual só retorna quando o organismo metaboliza o combustível ingerido e reequilibra suas energias.

Os cachaceiros com razoáveis litragens de experiência já terão observado quase tudo: aqueles que dosam a ingestão, intercalando água para evitar uma propulsão indesejada rumo ao espaço sideral; os que, com quantidades mínimas, já se desligam do planeta; e outros que literalmente capotam antes mesmo de experimentarem a viagem. Situações indesejáveis, reprováveis e, por vezes, perigosas.

Escapar do eu isolado e buscar transcendência — imaginando o planeta como um Pálido Ponto Azul, na expressão de Carl Sagan — não é, em si, uma transgressão. Em interessante digressão sobre a autotranscedência e seus mecanismos (entre eles, o álcool), Aldous Huxley escreveu:

 

A ingestão regular de água era uma penalidade imposta aos malfeitores (...). Não beber bebidas alcoólicas era uma excentricidade suficientemente notável para provocar comentários e a aplicação de um mote mais ou menos desonroso. Assim nasceram sobrenomes como Bevilacqua, Boileau e Drinkwater” (Os demônios de Loudun, 1952).

 

A situação se complica é quando o prazer cede lugar à adicção, e o sujeito, sem controle, chuta o pau da barraca e imprime velocidades muito além da de escape, lançando-se para além das órbitas desejadas, em trajetórias sem direção nem perspectiva de retorno. Isso, certamente, não é prática de um bom cachaceiro. Nesses casos, cabe a frase que se tornou meme histórico após o incidente que abortou a descida na Lua da Apollo 13, em 1970: 

Houston, we have a problem!”  ### (Jorge Santos – Rio, 20/04/2026)

terça-feira, 24 de março de 2026

Mensageiro é o escambau!

 

Opinião

O encaminhamento que está sendo dado às prisões do capitão ex-boquirroto e do banqueiro da peleleca, dois criminosos que incluem em seus portifólios o planejamento de agressões e até de assassinato de opositores, institucionaliza a canalhice das relações sociais no país.

Não que seja uma surpresa, nunca foi, mas as decisões recentes, tais como: assistência médica  especial, integral e permanente; prisão domiciliar; troca para celas com instalações mais confortáveis; enfim, benesses e mordomias típicas de roteiros de filmes sobre chefões mafiosos e quadrilheiros, além de escancararem a situação real do poder aqui, por nossas bandas, escancaram também o papel de muitos profissionais da mídia, que tentam passar apenas como mensageiros, mas que, a rigor, desempenham papel importante na configuração da  hipocrisia institucional.

Tem sido frequente as denúncias de militantes da esquerda sobre as tratativas que vários jornalistas têm dado aos assuntos que permeiam o cenário político do país, embora algumas dessas críticas até disputem em escrotidão com as situações e as práticas que denunciam. Em resposta, figuras importantes da mídia nacional desfilam com um discurso recorrente: são mensageiros, revelam fatos e protagonistas, as críticas são descabidas porque confundem os mensageiros com as mensagens.

Essa tem sido uma retórica frequente, mas é um argumento falso. Esses jornalistas, considerando a estrutura do conglomerado de mídia em nosso país, não são apenas mensageiros, embora tentem parecer assim. São figuras públicas, com representatividade na sociedade, dispõem de canais alternativos de comunicação, tipicamente redes sociais, e emprestam os seus nomes e currículos como endosso das notícias que divulgam, mesmo quando tratadas e orientadas por suas respectivas gerências editoriais.

E agora? Diante do descabimento das situações atuais, o que fazem esses mensageiros? Calam-se! O silêncio é total.

O powerpoint da vênus platinada no dia 20/03/2026, e a sua tentativa de desqualificação da importância do fato com um esfarrapado pedido de desculpas no dia 23/03/2023,  passou a ser o caso mais recente. O caso compromete todo o quadro dos pretensamente isentos jornalistas. Não dá pra jogar culpas para os conselhos e redatores editoriais. Não dá para classificar as bancadas entre os “do bem” e os “do mal”. Quem viu e calou concordou, foi cúmplice, porque todos viram. 

###

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Subindo pelas paredes

 

Leituras para distrair

Lavar uma pilha de louças e panelas engorduradas é tarefa ingrata; sem detergente, é pior. Ainda em casa, proteger estofados com impermeabilizantes para evitar a penetração de líquidos é uma prática comum. Ambas as soluções exploram propriedades físicas da natureza.

Nos líquidos, as moléculas atraem-se mutuamente. Em um recipiente, as da superfície são puxadas para o interior e interligam-se, formando uma película ultrafina. Esse “lençol” é capaz de sustentar insetos leves ou até uma agulha cuidadosamente apoiada sobre ele. Trata-se da tensão superficial, propriedade responsável pela formação de bolhas e gotas e por inúmeras aplicações práticas.

Na lavagem de louças, detergentes reduzem a tensão superficial da água, facilitando sua mistura com a gordura e sua remoção. Já os impermeabilizantes alteram a superfície de contato: a tensão superficial na interface faz com que o líquido forme gotas que escorrem sem penetrar no tecido.

Uma aplicação curiosa surge no tratamento do desconforto causado por gases intestinais. A simeticona, presente em medicamentos como o Luftal, reduz a tensão superficial das bolhas, permitindo que se unam e se desfaçam, facilitando a sua eliminação num aliviador e reconfortante pum.

A tensão superficial também aparece na cultura da cachaça. Variações dessa tensão fazem com que moléculas de regiões de maior tensão atraiam as de regiões mais fracas, num movimento de equilíbrio conhecido como efeito Gibbs-Marangoni.

Ao girarmos uma taça de cachaça, o álcool — mais volátil que a água — evapora nas bordas, tornando ali o líquido mais aquoso e com maior tensão superficial. As bordas então puxam o líquido do centro, de menor tensão, fazendo-o subir pelas paredes da taça, enquanto a gravidade atua no sentido oposto.

Dessa disputa invisível surgem as *“lágrimas da cachaça”*: filetes que escorrem com diferentes velocidades e espessuras. Equivocadamente, costuma-se  atribuir as lágrimas à viscosidade, mas esta é apenas resistiva; o efeito motriz é a variação da tensão superficial, o efeito Gibbs-Marangoni.

Diz a sabedoria popular que “_cachaça boa tem que chorar_”. De fato, água pura não produz lágrimas, e que o aspecto dessas se relaciona com o teor alcoólico, podendo sugerir complexidade da bebida. Contudo, o que isso diz sobre a qualidade da cachaça, as opiniões divergem.

Eu gosto da cachaça servida em copo grande, nada de copos tipo shots. Pode ser até o popular copo americano. Gosto de girar o líquido e apreciar as lágrimas descendo. É um momento de prazer. Recomendo! ###

 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

À toa, sem querer se impor

 

Leituras para distrair

Talvez por sermos politicamente jovens — afinal, a nação brasileira, como hoje a entendemos, tem pouco mais de 200 anos e, quem sabe, por nossa descolonização não decorrer de uma ruptura efetiva com o colonizador, ainda nos sentimos inibidos de assumir plenamente nossa nacionalidade cultural.

Nossa história é marcada por uma castração da autoestima e desqualificação de elementos das suas raízes. Um jornalista traduziu essa sofrência brasileira ao cunhar a expressão: complexo de vira-latas.

Curiosamente, copiamos facilmente costumes e comportamentos estrangeiros fúteis, mas raramente suas práticas de valorização cultural. Tome-se a cachaça como exemplo: bebida tradicionalmente brasileira, popular, produzida em quase todos os estados e com origens no início da nossa colonização, é o destilado nacional por excelência, mas sofre discriminação e exclusão.

Outros países valorizam os destilados que fazem parte de suas histórias: como o uísque na Irlanda e Escócia; a vodca na Rússia; o pisco no Chile e Peru; o rum no Caribe; a grapa na Itália; a tequila no México, entre outros. Isso sem falar nas bebidas fermentadas como o saquê, as cervejas e os vinhos. Muitos países até promovem incentivos e proteções oficiais.

Contudo, no Brasil, a cachaça, com um volume declarado de produção em 2024 maior que 290 milhões de litros (dados do MAPA - Ministério da Agricultura e Pecuária), ainda é escondida e mesmo proibida em muitos ambientes. Em certos ambientes ela só é admitida e valorizada quando está envolta em embalagens sofisticadíssimas e até adornada com ouro ou diamantes, isto é, vestida em trajes que não guardam qualquer relação com a sua origem popular.

Em várias situações, apesar de admirada, muitos admiradores renegam assumir essa condição e serem identificados como cachaceiros. Beber cachaça é vulgar. Degustar: pode! O complexo de vira-latas é forte quando se trata da “marvada”. Ainda assim, a cachaça segue por aí, vivendo à toa, sem querer se impor, como disse o samba-enredo do Salgueiro em 1977.

É nesse cenário que a Confraria de Cachaça Copo Furado do Rio de Janeiro atua, combatendo preconceitos e valorizando a cachaça de qualidade, promovendo eventos e contribuindo para a divulgação de boas práticas, incluindo a orientação de procedimentos adequados para o serviço da bebida nos pontos de atendimento. Faz muito bem essa tal de Copo Furado!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Peões, cabras, prendas e xodós

 

Leituras para distrair

 

No último dia 7 de setembro passei pelo Festival Brasilidades, uma feira de artesanato, gastronomia, música, teatro e literatura no Museu da República, no Catete, Rio de Janeiro.

Nos jardins, que adquirem uma beleza especial quando ocupados pela população, apresentava-se um grupo folclórico gaúcho muito aplaudido. Observando as danças e cantorias do grupo, refleti que, para mim, a região sul parece culturalmente mais distante do que o nordeste brasileiro. Apenas uma sensação, sem outro dado consistente, mas uma sensação forte. Será que outras pessoas aqui, do Sudeste, também se sentem assim?

Talvez isso decorra do fluxo das migrações populacionais que, por carências socioeconômicas históricas, foi mais expressivo no sentido nordeste para sudeste. Além de pessoas, o fluxo traz consigo costumes e culturas. O fato é que “cabra e xodó” são bem mais próximos de mim do que “peão e prenda”.

Esse desequilíbrio na balança cultural é ruim. Ficamos distantes do contato com o mundo cultural sulista, riquíssimo em sua variedade, e esse afastamento se desdobra, quase inevitavelmente, em uma indesejável e descabida discriminação entre as populações sulistas e as demais do país.

A essa altura da nossa história e num país do tamanho do nosso, acumulam-se essas distorções. Repará-las é uma tarefa difícil, um embrulho de três cocos para moçada que luta pela integração nacional.

Pensei com os meus botões em dois aspectos curiosos. A região sul, particularmente o Rio Grande do Sul, é onde está a maior proporção de praticantes de umbanda e candomblé, e onde está o maior número de casas de terreiro do Brasil (IBGE).

Também na região sul, a "densidade cachaceira", um índice que contabiliza a quantidade de estabelecimentos produtores de cachaça por habitante de uma região, é relevante. Segundo o Anuário da Cachaça 2025 (MAPA), dos 19 municípios mais bem servidos de cachaça no Brasil, 13 são mineiros, 3 são catarinenses, 2 são gaúchos e 1 capixaba. E nós, cachaceiros, sabemos bem sobre as pérolas de qualidade e delicias que são muitas das cachaças da região sul.

Não paro de pensar que talvez uma desejada integração cultural do nosso país passará por aí. Até arrisco apostar que não poderia ser outro o caminho das pedras. Ele passa por esses dois elementos tão representativos e originais da nossa cultura. Nossa integração se completará pela macumba e pela cachaça. ###

Publicado originalmente em "Pinga nos III" - 34 -  Janeiro 2026, um jornal da Confraria de Cachaça Copo Furado Rio de Janeiro.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Doces e enganosas ilusões

 Leituras para distrair

Quando um garfo mergulhado na água parece torto, ou quando o fundo da piscina parece mais raso do que é, estamos diante de um mesmo fenômeno: a refração da luz. Esse efeito ocorre quando a luz muda de direção ao atravessar meios diferentes, como ar-água ou entre camadas da atmosfera.

É por isso também que as estrelas que vemos estão em posições ligeiramente alteradas em relação às suas posições reais; por isso vemos o céu azul; vemos o horizonte avermelhado ao entardecer ou, ainda, que surgem as miragens nos desertos.

Cada substância desvia a luz de forma diferente, o que pode ser medido pelo chamado índice de refração da luz. Esse índice é tão preciso que sua medida permite calcular, por exemplo, a quantidade de açúcar dissolvido em uma solução. Assim nasceu a escala Brix usada para medir o teor de açúcares numa solução: 1 grau Brix corresponde a 1 grama de açúcar em 100 gramas de solução.

Na produção de cachaça, o Brix do caldo de cana é fundamental. Usando um refratômetro, o alambiqueiro mede o índice de refração e sabe se o caldo está pronto para a fermentação e destilação. Em geral, busca-se entre 16 graus e 20 graus Brix. Mestres mais experientes chegam a identificar o ponto ideal apenas pelo odor.

A escala leva o nome do engenheiro alemão Adolf Ferdinand Wenceslaus Brix, que a desenvolveu no século 19. Hoje, continua indispensável na indústria alimentícia e em engenhos de cachaça.

Vale lembrar que embora a refração explique ilusões como miragens, estrelas fora da posição ou algumas coisas parecendo tortas, ver o chão próximo ou o mundo girando depois de exagerar nas doses de cachaça já é outro fenômeno – nenhuma relação com o Brix! ### (Jorge Santos – Rio, 08/01/2026)

 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Vejo outra coisa!

 Opinião

Na CPI do MST, o professor José Geraldo, da UnB, fez uma intervenção que virou meme ao responder a uma deputada da direita (o nome pouco importa). Citando Octavio Paz, afirmou que ela não tinha cognição para compreender os temas em debate. Com fina ironia, disse que a deputada só enxergava o mundo pelo estreito recorte que fazia da realidade, o que tornava qualquer diálogo impossível. Não foi desrespeito, mas uma constatação dos limites dela. A cena, junto do comentário abobalhado da deputada, entrou para os anais da nossa política.

Lembrei disso hoje (30/11/2025), dia especial para muitos, com o tetracampeonato do Flamengo na Libertadores. Sempre que o assunto é futebol, sinto como se o professor estivesse falando comigo. Vejo a multidão em transe coletivo, sob o sol de domingo, superlotando o centro da cidade normalmente abandonado, idolatrando profissionais do futebol que carregam no peito o anúncio de uma empresa de apostas on-line.

No meu bairro, passam aos gritos: “ganhamos a porra toda!”, “o Rio de Janeiro é nosso!”. Justo aqui, nas mesmas ruas alagadas dois dias antes, atrasando o retorno dos trabalhadores; no mesmo estado cujo governador comemorou uma operação policial com 122 mortos; na mesma semana em que mais uma criança foi baleada durante uma operação policial.

Ninguém ergue a voz diante desses fatos, mas com a vitória de um campeonato de futebol todos parecem entrar em possessão, com surtos incontidos que os fazem urrar como guerreiros saídos de uma batalha campal.

Nada contra o futebol ou os flamenguistas, mas admito: não tenho cognição para entender. Como os indígenas citados pelo professor José Geraldo, que não viam as caravelas apesar de estarem lá; como a deputada incapaz de compreender o significado do MST; eu — talvez também um idiota — sem capacidade cognitiva, não consigo representar mentalmente essa horda de barões famintos e napoleões retintos venerando não sei o quê nas suas estranhas catedrais. ###


PROFESSOR DA UnB DEIXA SEM CHÃO DEPUTADA BOLSONARISTA NA CPI DO MST  -  Acesso em 02/12/2025

https://www.youtube.com/watch?v=Z8FsNvUwN9o

sábado, 22 de novembro de 2025

Teje preso!

 Opinião

 

Hoje foi um dia especial – 22 de novembro. Acordei lembrando a Revolta da Chibata e João Cândido, talvez meu herói nacional preferido. Nunca passo a data sem pensar no que ela representa.

Antes de ver as notícias, li uma mensagem sobre a prisão do Bozo e não entendi de imediato. Achei que fosse só formalização das condenações, até perceber que era prisão preventiva. Liguei a TV e confirmei.

A partir daí o dia virou um turbilhão de notícias, comentários e memes sobre o enquadramento do ex-presidente fascista. Até o encerramento da COP 30 ficou em segundo plano. A galera progressista comemorou numa catarse cheia de simbolismos.

Mesmo assim, em minhas ingênuas elucubrações algumas coisas não fecham. Apesar da alegria de ver o Bozo preso, achei estranha a violação tosca da tornozeleira. Tenho ferros de solda, estanho, pasta e sugador em casa e sei usar. Aquela maquininha cheia de marcas de solda, parecendo tentativa infantil de abrir um brinquedo, não convence. Talvez expliquem depois, mas ali tem algo errado que não está certo.

A propósito, o número da tornozeleira – 85916-5 – deverá estar cotado nas apostas no jogo do bicho, essa contravenção ainda tolerada pela ética nacional. A milhar deve bombar.

Lembraram também que hoje é aniversário da deputada Maria do Rosário, aquela que o então deputado escroto, em 2014, disse que não estupraria porque ela “não merecia”. Imagino que ela tenha recebido a notícia como presente.

A festa para João Cândido pode passar despercebida, mas o 22 de novembro ganha agora novo significado. Assim funciona nossa história.

A canção de Aldir Blanc e João Bosco lembra que, nas águas da Guanabara, o dragão do mar reapareceu na figura de um bravo marinheiro. Poucos sabem que o “dragão do mar” é o jangadeiro cearense Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde, que no fim do século XIX liderou os jangadeiros contra o embarque de escravizados no Ceará.

Chico da Matilde iluminou João Cândido no século seguinte, e acho que agora foi o Almirante Negro quem reapareceu para tornar este dia ainda mais memorável com a prisão de um fascista escroto. Quem sabe para compensar aquele almirante que aderiu ao golpe e ganhou 24 anos de cana por crime de organização criminosa e golpe de Estado?  Há motivos para celebrar!

Glória à farofa, à cachaça, às baleias e às lutas inglórias que não esquecemos. Salve o Almirante Negro, cujo monumento são as pedras pisadas do cais. ### (Jorge Santos – Rio, 22/11/2025)

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Um quantum de física

 Leituras para distrair

 

A física estuda os fenômenos da natureza em todas as escalas, buscando compreendê-los. O avanço desses estudos e observações tem revelado eventos em dimensões subatômicas que são invisíveis na escala humana e muitas vezes contrários ao senso comum.

Quando se fala em “escala”, vale uma pausa. O tamanho de um próton, por exemplo, é medido por seu “raio de carga”, da ordem de 10¹⁵ metros — um quatrilhão de vezes menor que o metro. Difícil até de imaginar.

Há partículas subatômicas chamadas mésons, presentes nos núcleos atômicos, cujo tempo de vida é de 10²⁴ segundos (elas se transformam em outras partículas), isso equivale a:

 

 0,000 000 000 000 000 000 000 001 s — um septilionésimo de segundo.

 

Essas quantidades são extraordinariamente pequenas, e a física quântica se ocupa justamente dos fenômenos que ocorrem nesse domínio que, embora pareçam distantes do cotidiano, eles são aspectos fundamentais da natureza. É o chamado mundo quântico.

Quando alguém afirma que uma partícula como o múon apresenta comportamento “estranhíssimo”, isso só impressiona o cientista que sabe o que  esperava observar, mas não traz qualquer surpresa para quem não faz a menor ideia do que seja um múon. Por isso, como em outras áreas, tenta-se traduzir para o público leigo as peculiaridades do mundo quântico por meio de analogias. Porém, quando replicadas sem cuidados, essas comparações trazem mais confusão do que esclarecimentos — sem contar quando se faz delas usos maliciosos.

Um dos fenômenos que deram origem à física quântica, e que inspirou seu nome, foi a constatação de que a energia de um sistema não varia de forma contínua, mas em quantidades discretas, pacotes, chamadas quanta (plural de quantum). Essa descoberta foi surpreendente porque, na experiência humana, as transformações de energia parecem sempre contínuas.

Pense em uma bola largada de certa altura. No alto, ela tem energia potencial,  ao cair, essa energia se converte em cinética (velocidade). Tudo parece ocorrer de forma suave, ininterrupta. Imaginar que a troca de energia se faz em “pacotes” — como se a bola caísse em saltos sucessivos, como em degraus de uma escada — soa absurdo para o senso comum.

Mas, em escala quântica, é exatamente isso que acontece. No caso de uma bola real, a diferença entre níveis de energia seria tão minúscula — trilhões de trilhões de níveis por milímetro — que se torna impossível de perceber. Por isso, no mundo macroscópico, o movimento parece contínuo, embora, em essência, resulte de um conjunto de trocas quantizadas.

Tentar aplicar diretamente as leis do mundo quântico à escala humana produz situações aparentemente absurdas, mas assim como a troca de energia em pacotes, fato experimentalmente comprovado, e que está na base de grande parte da tecnologia moderna, há outros efeitos quânticos que parecem estranhos ou absurdos para o senso comum, mas que são reais e indispensáveis para explicar a natureza.

Invisíveis ao olhar cotidiano, mas essenciais à estrutura da matéria, esses fenômenos desafiam o senso comum e isso provoca um fascínio, debates e avanços no conhecimento do nosso mundo. Eles estão ai, há mais de 100 anos, determinando praticamente todos os desenvolvimentos da tecnologia contemporânea.

Vale lembrar que a aparente contradição entre o mundo quântico e o senso comum também abriu espaço para os vendedores de ilusões. Multiplicam-se produtos e serviços “quânticos” — pomadas, terapias, rezas, e outros que usam o termo para soar científico e justificar absurdos. Esse charlatanismo é antigo, surgiu bem antes de Planck propor a energia quantizada, de Einstein introduzir o fóton como exemplo da quantização e de Bohr aplicar essas ideias para explicar a estabilidade dos átomos. ### (Jorge Santos – Rio, 07/11/2025).

domingo, 19 de outubro de 2025

A boiada da IA (Inteligência Artificial)

 Opinião

 

O Intercept Brasil fez uma serie especial de reportagens intitulada “A boiada da IA” tratando sobre como o aumento da demanda por inteligência artificial tornou o Brasil especialmente interessante para fornecer infraestrutura para big techs e sobre o impacto da indústria de data centers no Brasil. A última matéria da serie trata da construção, pela TikTok, de um mega data center em uma cidade com histórico de seca no Ceará.

Vale ressaltar que os interesses são de origens diversas e não existe um grupo “bonzinho”. Americanos, russos, chineses ou de outra identificação nacional competem entre si. O nome disso é capitalismo. E toda leitura precisa ser bem crítica, inclusive essa publicada aqui.

A reportagem especial do Intercept pode ser acessada pelo link a seguir. ###

 

A boiada da IA (Serie especial do Intercept Brasil – Acesso em 15/10/2025)

<https://www.intercept.com.br/especiais/a-boiada-da-ia/>

Colonialismo digital

 Opinião

 

O jornal O Globo de 15/10/2025 publicou uma longa matéria sobre tecnologia no Rio de Janeiro e menciona um projeto de data center na Barra da Tijuca. Segundo o texto, o consumo projetado seria de 1,5 GW, podendo chegar a 3,2 GW. O site da prefeitura confirma essa publicação – a criação do “Rio AI City” e anuncia consumos projetados de 1,8 a 3,0 GW.

A maioria dos leitores — eu incluso — não tem noção do que isso significa. Recorrendo ao ChatGPT, o oráculo digital do momento, para perguntar qual seria a demanda elétrica de uma cidade com 100 mil habitantes, a  resposta foi: entre 0,02 e 0,06 GW, dependendo do padrão de consumo. Por regra de três, e sem o rigor de um cálculo oficial, a demanda inicial desse data center equivaleria à de cinco cidades de porte médio, como Niterói (RJ).

Para comparar: Itaipu, uma das maiores hidrelétricas do mundo, tem uma capacidade energética instalada de 14 GW. Ou seja, esse único empreendimento consumiria cerca de 10% da capacidade instalada de Itaipu. A matéria, no entanto, não questiona os impactos desses números — e sequer menciona o enorme consumo de água necessário para resfriar as máquinas.

 Será que isso é bom para o país? 

O tema evoca os anos 1980, quando poucos entendiam o significado  de  “comunicação de dados” e a sua importância para os projetos estratégicos nacionais. Hoje, os data centers povoam esse universo tecnológico misterioso e acessível apenas ao iniciados — símbolos de modernidade, mas também de consumo absurdo de energia e recursos naturais. O Brasil parece ser um paraíso para as gigantes corporações digitais que vêm a exploração do nosso potencial hídrico como a possibilidade de uma versão atualizada da velha lógica de exploração colonial. Um amigo cunhou a expressão: um e-colonialismo.

É urgente discutir os impactos reais dessa corrida tecnológica. Como foi na década de 80 com as telecom, não faltarão os iludidos, fascinados ou emburrecidos pelas seduções tecnológicas, e que servirão como buchas de canhão na defesa da irreversibilidade desses processos e da inutilidade de questioná-los. Ainda assim, com alguns amigos, buscamos romper essas barreiras de silêncio e acomodação insistindo em provocar o debate do assunto. Um esforço necessário e justificado.

Seguem sugestões de leituras sobre o tema: um vídeo da BBC, um matéria da Revista Fapesp e um link para publicação da prefeitura do Rio de Janeiro. Os números impressionam e inquietam. ###

 

A água potável 'perdida' em data centers de Inteligência Artificial  (BBC News Brasil) – Acesso em 16/10/2025:

https://www.youtube.com/watch?v=JS-PRom-dpA

 

As estratégias para tornar os data centers mais sustentáveis (Revista FAPESP – Março de 2025)

https://revistapesquisa.fapesp.br/as-estrategias-para-tornar-os-data-centers-mais-sustentaveis/

 

Rio anuncia o projeto “Rio AI City”: o maior hub de data centers da América Latina e um dos dez maiores do mundo – Site da prefeitura do Rio de Janeiro

https://prefeitura.rio/noticias/rio-anuncia-o-projeto-rio-ai-city-o-maior-hub-de-data-centers-da-america-latina-e-um-dos-dez-maiores-do-mundo/

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Carta da Paz do Esquivel 2025

 Opinião

 

O mundo está estranho. No aniversário de 533 anos da chegada de Colombo às Américas, o governo argentino de Javier Milei divulgou vídeo afirmando que a colonização marcou “a prevalência da civilização sobre a selvageria” e que os povos originários viviam “ mergulhados na barbárie.”

É difícil conter a bronca contra os hermanos portenhos, mas no mesmo 12/10/2025, felizmente, o também argentino Adolfo Pérez Esquivel, Nobel da Paz de 1980, reagiu com em carta aberta à venezuelana Corina Machado, Nobel de 2025, que dedicou o seu prêmio a Donald Trump. Carajo!!

O vídeo do governo argentino está disponível na web. Nada fake. Ver link no final dessa publicação. A carta do Esquivel estou replicando a seguir.

 

Carta de Adolfo Pérez Esquivel (Nobel da Paz 1980) a Maria Corina Machado (Nobel da Paz 2025)

 

De Nobel para Nobel

 

Envio-lhe as saudações de Paz e Bem que a humanidade e os povos que vivem na pobreza, no conflito, na guerra e na fome tão desesperadamente necessitam. Esta carta aberta é para expressar sua gratidão e compartilhar algumas reflexões.

Fiquei surpreso com sua designação como Prêmio Nobel da Paz pelo Comitê Nobel. Isso me fez lembrar das lutas contra as ditaduras no continente e em meu país sob ditaduras militares que suportamos de 1976 a 1983 e resistimos às prisões, à tortura e ao exílio com milhares de pessoas desaparecidas, crianças sequestradas e desaparecidas e os voos da morte dos quais sou um sobrevivente.

Em 1980, o Comitê Nobel me concedeu o Prêmio Nobel da Paz. 45 anos se passaram e continuamos trabalhando a serviço dos mais pobres e ao lado dos povos latinoamericanos. Em nome de todos eles, assumi esta alta distinção, não pelo Prêmio em si, mas pelo compromisso ao lado dos povos compartilhando as lutas e esperanças para construir um novo amanhecer. A paz se constrói dia a dia, e devemos ser coerentes entre palavras e ações.

Aos 94 anos, continuo aprendendo com a vida e me preocupo com sua postura e suas decisões sociais e políticas. Por isso, envio estas reflexões.

O governo venezuelano é uma democracia com seus altos e baixos. Hugo Chávez abriu caminho para a liberdade e a soberania do povo e lutou pela unidade continental; foi um despertar da Pátria Grande.

Os Estados Unidos a atacaram constantemente; não podem permitir que nenhum país do continente escape de sua órbita e dependência colonial; continuam a sustentar que a América Latina é seu “quintal”. O bloqueio americano a Cuba há mais de 60 anos é um atentado à liberdade e aos direitos do povo. A resistência do povo cubano é um exemplo de dignidade e força.

Estou surpreso com o quanto você se apega aos Estados Unidos, e você deve saber que eles não têm aliados nem amigos, apenas interesses. As ditaduras impostas na América Latina foram instrumentalizadas por seus interesses de dominação, destruindo a vida e a organização social, cultural e política dos povos que lutam por sua liberdade e autodeterminação. Nós, o povo, resistimos e lutamos pelo direito de sermos livres e soberanos, não uma colônia dos Estados Unidos.

O governo de Nicolás Maduro vive sob a ameaça dos Estados Unidos e do bloqueio. Basta considerar as forças navais no Caribe e o perigo de invasão do seu país. Vocês não disseram uma palavra, ou apoiam a interferência desta grande potência contra a Venezuela. O povo venezuelano está pronto para enfrentar essa ameaça.

Corina, pergunto-lhe. Por que você pediu aos EUA que invadissem a Venezuela? – Quando recebeu o anúncio de que receberia o Prêmio Nobel da Paz, você o dedicou a Trump. O agressor do seu país, mentindo e acusando a Venezuela de narcotráfico, uma mentira semelhante à de George Bush, que acusou Saddam Hussein de possuir “armas de destruição em massa”. Um pretexto para invadir o Iraque e saqueá-lo, causando milhares de vítimas, mulheres e crianças. Eu estava em Bagdá no final da guerra, no hospital pediátrico, e vi a destruição e as mortes causadas por aqueles que se proclamam defensores da liberdade. A pior forma de violência é a mentira.

Não se esqueça, Corina, que o Panamá foi invadido pelos EUA, causando morte e destruição para capturar um antigo aliado, o General Noriega. A invasão deixou 1.200 mortos em Los Chorrillos. Hoje, os EUA tentam tomar novamente o Canal do Panamá. É uma longa lista de intervenções e sofrimento na América Latina e no mundo por parte dos EUA. As veias da América Latina continuam abertas, como diz Eduardo Galeano.

Preocupa-me que você não tenha dedicado o Prêmio Nobel ao seu povo, mas sim ao agressor da Venezuela. Acredito, Corina, que você precisa analisar e saber onde se posiciona, se você é apenas mais uma peça do sistema colonial estadunidense, sujeita aos seus interesses de dominação, que nunca poderão ser para o bem do seu povo. Como opositora do governo Maduro, suas posições e opções geram muita incerteza. Você recorre ao pior quando pede que os EUA invadam a Venezuela.

O importante a ter em mente é que construir a paz exige muita força e coragem para o bem do seu povo, que eu conheço e amo profundamente.

Onde antes havia barracos nas montanhas sobrevivendo na pobreza e na miséria, hoje há moradia digna, saúde, educação e cultura. A dignidade do povo não se compra nem se vende.

Corina, como diz o poeta: “Caminhante, não há caminho, o caminho se faz caminhando”. Agora você tem a oportunidade de trabalhar pelo seu povo e construir a paz, não de provocar mais violência. Um mal não se resolve com outro mal maior. Teremos apenas dois males e nunca uma solução para o conflito.

Abra sua mente e seu coração ao diálogo, ao encontro com seu povo, esvazie o jarro da violência e construa a paz e a unidade entre seus povos para que a luz da liberdade e da igualdade possa entrar.

Adolfo Pérez Esquivel 12-10-25


Link para o vídeo do governo argentino - Acesso em 15/10/2025

Casa Rosada 12 de outubro de 2025

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Copacabana - 21/09/2025

 

Opinião

 

Cheguei tarde no ato em Copacabana, ontem, domingo - 21/09/2025. Tive outro compromisso. Mas, fiz questão de comparecer para que a ferramenta da USP que contabiliza multidões incluísse a minha careca. Ainda assim, no período em que estive lá, teve Caetano, Ivan Lins, Zeca Baleiro, Frejat, outros . . . e Chico. Quem poderia pedir mais?

Festa boa e fim de festa especial, nada de bagaço da laranja. A cara de uma geração, a minha, certamente , talvez a nossa. As pessoas passavam cantando emocionadas. Bonito de ver.

O que mais ouvi e li  foram comentários falando da emoção. Até mais do que críticas políticas. Pudera! Um “revival” com a galera que participou desse evento é coisa de "machucar" o coração da nossa geração. Aprendemos assim.

As repercussões políticas saberemos depois. A direita fascista, incluindo alguns deputados petistas – esse fato não deveria ser esquecido - não teve constrangimentos em avançar seu projeto na Câmara dos Deputados. Assim, não creio que as manifestações tenham sido suficientes para inibi-los. O Senado, por sua vez, ainda  está com o pé atrás. Nosso papel é esse: pressionar.

Ouvi a indicação de um jornalista sugerindo que não deveríamos generalizar o termo "congresso". Afinal, 133 deputados votaram contra a PEC da bandidagem. Acho que faz sentido, pensarei nisso, mas é irresistível não traduzir  a sigla PCC como Primeiro Comando do Congresso.

O desdobramento da minha participação será ouvir, ver e ler os noticiários e como esses fatos reverberam. Outro dia registrei um comentário sobre a alternativa de fazermos atos musicais em vez dos enfadonhos discursos polítricos que não agregam nada e ninguém.

Uma amiga observou: "se essa história de comícios musicais colar, já pensou que desgraceira vai ser os comícios com Chitãozinho, Xororó, Gustavo Lima e por aí?"

Também tinha pensado nisso. Apavorei-me! #####


Um complemento

 O que me apavora não tem a ver com o conteúdo, preferência ou preconceito musical. Ao contrário, estou entre os admiradores da pluralidade artística em nosso país que vejo como mérito, especialmente no caso da música.

Não cago regras sobre qualidade artística, gosto é gosto, e tem gosto pra tudo. A minha avó dizia: “_mais vale um gosto que dez vinténs_”. Apavora-me é a consciência da capacidade de mobilização dos artistas sertanejos que citei, além de outros – que sequer conheço – e que são apoiadores, estimuladores ou apenas participantes de eventos patrocinados pela direita fascista, como já acontece em diversas cidades do país.

Os meus ídolos musicais (que ainda são os mesmos), talvez nossos, nunca foram artistas de mobilizar multidões, em que pese o brilhantismo de suas capacidades artísticas. E nesse aspecto, a direita leva uma enorme vantagem.

#####


sábado, 13 de setembro de 2025

Nem brasileira, nem popular

 Leituras para distrair

Um sujeito vestindo um saiote  estampado e tocando uma gaita de foles. Essa será a primeira lembrança trazida pela palavra “escocês”, quando não for o uísque.

O saiote chama-se Kilt e Tartan é o nome do tecido em xadrez. Eu sempre pensei que aquela vestimenta fosse uma tradição de identificação dos clãs escoceses, até aprender que a tal “tradição” é fake.

Mesmo aqueles rituais com os caras de saiotes tocando a gaita de foles, tudo aquilo é uma tradição inventada (1). Uma fake que pegou. Sobre o uísque,  ainda tenho muito o que aprender.

Lembro esse assunto ao pensar no Dia Nacional da Cachaça, 13 de setembro, celebrado  em data que resgata uma revolta por conta da corte portuguesa proibir a produção e o comercio da cachaça no Brasil.

Não foi um movimento qualquer, contudo apesar da importância cultural da nossa popular cachaça, cuja história é aderente à própria história da formação do nosso país, a revolta, onde se foi buscar a data de referência para o Dia Nacional da Cachaça, nada teve de brasileira e muito menos foi popular.

Foi uma trama de proprietários portugueses, latifundiários, senhores de escravos, fiéis à coroa e circunstancialmente indignados com as políticas tributárias da corte que prejudicavam os seus negócios. Na ocasião não existia sequer conceito de brasilidade ou de cidadania brasileira.

As circunstâncias que levaram à revolta nos anos seiscentos estão bem distantes dos aspectos que fizeram a cachaça tornar-se o que se tornou: um símbolo cultural da identidade brasileira, bebida nacional com centenas de designações pelo país afora, produzida em todas as unidades da federação, presente em todas as nossas representações artísticas e literárias e objeto de interesse e de uma quantidade enorme de estudos e pesquisas universitárias.

Assim, a relação direta de uma “revolta” com o Dia Nacional da Cachaça sem as devidas mediações históricas poderá ser a invenção de uma tradição. Mas, isso faz parte da história do mundo, um bom tema para se conversar lambendo umas.

(1) HOBSBAWN, Eric; RANGER, Terence. A invenção das tradições.  Paz e Terra – RJ, 1997.

Publicado originalmente em "Pinga nos III" - 33 -  Agosto - Setembro 2025, um jornal da Confraria de Cachaça Copo Furado Rio de Janeiro.

Para saber mais sobre esse assunto: Uma revolta sem heróis ; Um golpe gonçalense

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Êxtase e Agonia

 Opinião

Se o dia 09 de setembro, último, foi um dia de êxtase para a militância da esquerda, com os votos de Xandão e Dino condenando a cúpula fascista pela prática do golpe, o dia seguinte foi de agonia e desânimo com o voto do peruquento Fux.

O voto de Fux no não foi apenas um voto em favor do Bozo e da cúpula fascista, mas também um voto de desqualificação dos trabalhos de acusação da PGR, da relatoria, e até das investigações da Policia Federal. Foi também um voto de estímulo para a sanha golpista que não terminou com os atos de 8 de janeiro de 2023, mas que permanece viva e pululante entre as bancadas de oposição no congresso nacional.

A quarta-feira (10) foi um dia de frustração que pareceu que não iria terminar, com aquela figura escrota fazendo uma descrição dos fatos que deixou perplexas até mesmo as bancadas de defesa, embora elas tivessem uma certa expectativa otimista contando com algumas divergências já anunciadas pelo próprio Fux.

Contudo, surpresa! Boquiabertos e impedidos de fazer intervenções por um acordo preliminar proposto pelo próprio peruquento, a moçada da primeira turma do STF, assim como toda a militância progressista sofreu um dia torturante. A vontade comum era que o peruquento declarasse logo a absolvição da malta criminosa, desde que acabasse com o martírio provocado pela leitura do seu voto.

Os jornalistas que acompanham os trabalhos no STF com suas fontes e análises erraram feio. Todos subestimaram suas avaliações sobre o Fux. Nem os mais pessimistas imaginavam que ele desceria até onde foi. Se fosse o caso, se fizesse parte do processo, o peruquento seria capaz até de declarar que nunca existiu uma pandemia, nem as 700 mil mortes para as quais colaborou a prática genocida da cúpula fascista que ele absolveu.

Fica uma questão: será que também estarão erradas as expectativas em relação aos votos de Cármen Lucia e de  Zanin?

Hoje, 11/09, é data simbólica. Em 1973 o golpe no Chile e a morte de Allende. Em 2001 a derrubada das torres gêmeas nos EUA. Como será, para nós, esse 11 de setembro de 2025? #####

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Por um DJ engajado!

 Opinião

Estive presente na Marcha dos Excluídos (RJ) que esse ano incluiu em seus temas a manifestação contra a anistia dos fascista que estão sendo julgados no STF. A concentração para a Marcha foi na esquina das ruas Uruguaiana e Presidente Vargas, no centro da cidade, em ponto vizinho ao tradicional desfile militar que ocorreu no mesmo dia, 07/09/2025.

Em conversa com uma amiga, ao lado do carro de som onde desfilavam as “intervenções” de dois minutos dos representantes das entidades participantes do evento, surgiu uma questão:

 

Por que os discursos nos atos políticos da esquerda são tão chatos, tão desimportantes, e quase insuportáveis?

 

Salvo em situações ou oradores super especiais, não presto a mínima atenção aos discursos nos atos políticos, embora tenha que tolerá-los, contribuindo com a minha presença porque a quantidade de manifestantes valoriza o ato.

Discursos talvez sejam importantes para o gado direitista que via de regra precisa ser hipnotizado e guiado pelos ditos influencers. A galera da esquerda que comparece aos atos políticos não está lá por um impulso inconsequente nem atendendo a um chamado messiânico. Aliás, se for assim, a meu juízo é melhor que não compareça. Os participantes sabem o que estão fazendo lá, não precisam desse tipo de convencimento,  e as tais “falações” não contribuem com nada.

Na concentração, entre os discursos aporrinhantes  que ouvi, um orador, certamente sem ter o que falar, mas sem abrir mão de ocupar o microfone,  fez recomendações para que eu estivesse atento ao meu voto em 2026.

Puta que pariu!  Saio num domingo ou feriadão para engrossar e referendar um ato político que acho importante, e ouço uma recomendação desse tipo de um boquirroto que perdeu a oportunidade de ficar calado. Tenha paciência!

Seria bom se os coordenadores dos atos, via de regra emergentes das organizações sindicais, mudassem suas abordagens. Quem sabe uma cantoria, uma música, uma festa. Já estamos em campo, precisamos mais dos cantos e dos batuques de animação para as lutas do que essas falações água de batata, que só enchem o saco sem despertar a atenção de um único participante, e sem agregar uma vírgula sequer às nossas motivações.

Por razões históricas, o repertório musical nacional está repleto de obras de fundo e motivações políticas que embalam multidões de militantes em seus primeiros acordes. Seus refrões dizem muito mais que os recorrentes e insípidos discursos de representantes de entidades,  na medida em que são sínteses emocionais e poéticas de desejos e de experiências de lutas.

Não se trata de excluir completamente os discursos, há a necessidade de divulgar informações, apoios, participações etc. Contudo, vale resgatar que as cantorias políticas já decorrem justamente dos discursos e dos enfrentamentos. Em coro e por serem populares, são capazes de elevar as manifestações a um patamar bem superior de participações. Precisamos de um DJ engajado!  ###

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Burguesia quinta-coluna

 Opinião

Aparados os excessos ufanistas, as falsidades ou redações maliciosas, além dos memes que são divertidíssimos, as notícias mostram a robustez do monstro americano. Fera ferida, mas não de morte nem derrotada.

Trump é o que é. Um parafuso solto numa engrenagem complexa. É tão caótico como um pêndulo duplo, mas ele é parte de uma engrenagem e precisa obedecer a outras determinações. Pode até parecer e agir como doidão, mas não vai queimar dinheiro nem comer merda.

A burguesia nacional, por sua vez, há muito fez sua escolha, e não foi ontem. Uma escolha histórica de dependência e subordinação ao capital internacional. A burguesia nacional nem mesmo tentou construir uma independência.  Desde os seus primórdios optou por alinhar o país como nação dependente no contexto das nações capitalistas.

Nesse momento vivemos uma crise que não é um ponto fora da trajetória e que precisa ser corrigido para tudo voltar ao normal. Trata-se de uma mudança da própria trajetória. Não é uma perturbação na relação bilateral entre as economias dos EUA e a brasileira, mas uma mudança de trajetória para a economia mundial. Essa é uma observação do professor Marcelo Carcanholo (UFF) que assumo completamente.

Ao lado das corretas intervenções do governo que estão sendo realizadas para a redução de danos provocados pelo tarifaço, e de outras situações que possam vir, é hora de se pensar também em uma modificação radical em nossa estratégia de desenvolvimento

Segundo o professor (em entrevistas e participações em fóruns publicados na web), podemos não saber muito bem para onde as coisas caminham, mas é justamente nesses momentos que precisamos considerar os custos e benefícios dos cenários possíveis, e de colocar na mesa o debate de reformas estruturais que repensem a inserção e a subordinação do país no comercio internacional.

Outros pensadores, com observações que não divergem do professor Carcanholo, advertem sobre a necessidade de também baixarmos o olhar que mira distante, na direção de Trump. A necessidade de mirarmos  a burguesia nacional, esse adversário interno que sempre atuou como quinta-coluna das grandes corporações capitalistas, e que, agora, revela-se sem pudores como aliado assumido das práticas intervencionistas de Trump.

Sem perder de vista a conjuntura internacional, porém buscando uma  restauração e fortalecimento de nossas energias, antes de tentativas provavelmente ineficazes de longo alcance, deveríamos optar pelo combate  direto, exposição e, na medida do possível, a exclusão, desses inimigos internos.

Os partidos políticos que se autoproclamam como partidos de esquerda, bem como as organizações que se assumem como progressistas, deveriam assumir essas diretrizes como orientadoras de suas atuações.

É infantilidade ignorar as atuais correlações de forças e o que significa antagonizar o império americano. Contudo, nesse caso, não se trata de escolhas, mas de circunstâncias. Também não se trata de assumir um alinhamento político automático com o governo Lula ou seu partido, mas de adotar práticas e propostas que signifiquem enfrentamentos concretos e objetivos com esse inimigo próximo. Chega de tratar a burguesia nacional como se algo positivo pudesse sair dali. Ela fede!   ####