quinta-feira, 25 de junho de 2026

Trinca popular

 Leituras para distrair

Desde os 9 até os 19 anos de idade, eu morei numa rua ao lado do cemitério de Saigon, minha cidade. São Gonçalo para os visitantes. O muro de fundos da minha casa, pequeno quintal, era o muro do cemitério. Quando mudamos para lá era um muro largo e coberto com cacos de vidro, mas logo tratamos de arrumá-lo, retirando os cacos para que se tornasse um muro habitável. 

Uma goiabeira e uma groselheira branca juntas ao muro eram o acesso natural, mas, além das árvores, tínhamos escadas que tornavam o muro quase transparente fazendo do cemitério uma extensão do nosso quintal. Hoje, o Aterro do Flamengo, diante minha janela, funciona com meu quintal atual. Lembro ironicamente do cemitério em Saigon. Lembranças e experiências boas.

A minha casa era o caminho de acesso da molecada ao cemitério – campo de diversão – balões e cafifas (pipas para os cariocas). Ninguém pedia licença, minha mãe não se importava. A molecada da rua entrava sem cerimônias em nossa casa e acessava o cemitério atrás de cafifa ou balão. Passagem livre.

Hoje é dia de São João. Dia chuvoso, garoa fina. Não é comum. Aprendemos que no inverno não chove, ou melhor, quando não chove é inverno, dai a possibilidade de festas juninas ao ar livre, festas noturnas, enfeitadas com bandeirolas, fogueiras, danças (quadrilhas) e balões. Além da prática, hoje politicamente incorreta, de caricaturar a vida rural, caipira.

Às vezes, como hoje, aparecia uma chuva fina ameaçando melar as brincadeiras, mas a natureza tem sido fiel. Chuva em festa junina é implicância do acaso.

Onde moro atualmente as festas juninas são poucas e “empacotadas” – as que conheço são realizadas em espaços escolares, algumas em áreas de igrejas, mas todas, como não poderia deixar de ser, bem distantes daquelas experiências de ruas da infância. Sei que nunca mais sentirei a emoção de ver um balão apagado ou semiapagado, um vulto identificado no céu e caindo numa noite escura, enquanto fazíamos vigílias acomodados no muro do cemitério. Cochichar com um cúmplice que um balão apagado foi avistado e que deveria ser acompanhado, sem despertar a atenção de outros.

Não são lembranças apenas de práticas e costumes, são também de tempos que passaram. Guardadas com bastante saudade, mas sem nostalgia.

É interessante pensar que não haverá relato que consiga transmitir aquelas experiências, nem mecanismo que permita repassá-las como herança. As gerações mais novas certamente criarão outras que serão as suas. Tomara que o façam e que possam desfrutá-las como faço hoje, saboreando uma cachaça e lembrando que o coração batia forte ao pular do muro e correr à noite entre as sepulturas em busca de resgatar um balão em queda. Também os enfrentamentos que resultavam em balões tascados (era o verbo que usávamos) quando disputados por grupos rivais.

Viva os santos Antônio, João e Pedro, essa trinca popular, inventada pelos brasileiros em algumas regiões do país e que privilegiou a minha geração. Um ia casar com a filha do outro, mas o terceiro fugiu com a noiva, na hora de ir para o altar. ###

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