terça-feira, 26 de maio de 2026

Bourdieu - Coisas da vida

 Leituras para distrair

Trocando conversas com amigos cachaceiros, cheguei a um texto do Pierre Bourdieu que achei interessantíssimo. Ignorante que sou, nunca tinha visto (o texto), mas soube que é famoso.

Achei de leitura chata, aporrinhante, como os textos que conheço do Bourdieu, embora com reflexões importantíssimas.  Seu estilo de redação é aquele que abre parênteses intermináveis, cujas leituras faz-nos esquecer a proposta inicial. É preciso ler com marcador de textos. Enfim, esse é o Bourdieu.

O texto (cópia em seguida) fala especificamente sobre a produção de biografias, mas é uma reflexão também sobre as autobiografias e, consequentemente, uma reflexão filosófica sobre a vida – nossas vidas, ou seja, como refletimos sobre as nossas experiencias.

Li o texto (recomendo a leitura do resumo, também anexo) e tento fazer reflexões. Quem sabe, desculpar-me sobre as merdas que fiz (auto indulgência), ou culpar-me excessiva e injustificadamente (auto intolerância) sobre outras decisões.

De qualquer forma, o sacana do Bourdieu bateu na veia. A vida não é uma linha, sinuosa ou linear. Enganamo-nos porque o aspecto biológico (nascer, viver, morrer) sugere uma via temporal linear para os demais aspectos, mas não é assim que acontece.

Somos resultado de uma malha temporal de acontecimentos e não de uma linha reta, embora seja mais fácil pensar assim. Faz refletir sobre o significado do tempo (coisas da Física).

Somos o produto de situações e circunstâncias que não permitem a fixação dos eventos em uma corda esticada no quintal, como se fosse um varal de roupas estendidas, embora seja mais fácil recordar assim, quem sabe, justificar nossas ações e escolhas – causas e efeitos.

A leitura de Bourdieu, para mim, trouxe outras perspectivas. Não esclareceu a vida, obvio, mas ajudou bastante a pensar sobre ela. ###

NOTA

Sugiro a leitura do texto do Bourdieu (link ao final), mas antes dele sugiro a leitura de um bom resumo que achei na web. Cá pra nós, o francês é importantíssimo, mas é chato pra caralho. Gosto dele.

 

A ilusão biográfica – Pierre Bourdieu

"A ilusão biográfica" é um conceito do sociólogo Pierre Bourdieu que critica a crença de que a vida de uma pessoa segue uma história coerente, linear e guiada por um propósito. Para ele, tentar narrar uma trajetória de forma contínua é uma falácia, visto que o real é fragmentado e condicionado pelas estruturas sociais.

Pontos centrais da crítica de Bourdieu incluem:

 

A vida como narrativa: O senso comum tende a transformar existências em histórias com começo, meio, fim e sentido lógico. Bourdieu argumenta que isso é uma imposição artificial da linguagem e da memória.

A ilusão do projeto: Acreditar que nossas escolhas são frutos apenas de uma intenção ou projeto individual ignora o peso do mundo social. Nossas trajetórias são, na verdade, um conjunto de rupturas, acasos e descontinuidades moldados pelo habitus e pela posição nos campos sociais.

 

O sentido retrospectivo: Relatar a própria vida é reorganizar o passado para que ele pareça fazer sentido no presente. A biografia cria uma falsa sensação de destino ou de linearidade que não existiu na prática.

Para Bourdieu, a análise sociológica não deve buscar uma essência ou um "projeto de vida" unificado, mas sim compreender os espaços, as redes de relações e as condições materiais/sociais que possibilitaram as ações do indivíduo no decorrer do tempo.

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O texto integral do Bourdieu pode ser encontrado em:  <https://historiacultural.mpbnet.com.br/pos-modernismo/BORDIEU_Pierre-A_ilusao_biografica.pdf>

Acessado em 25/05/2026.

sábado, 16 de maio de 2026

Seu Lico e o Profeta

 Leituras para distrair

 

Eu paro pra ver malucos de rua. Sei que é comportamento politicamente incorreto, desqualificação do outro etc. Mas paro, desde que não constituam uma ameaça. Tenho para mim que a maioria não constitui perigo. Geralmente são pobres coitados, figuras que surtam diante de provocações específicas e que, ao mesmo tempo, são segregadas e incorporadas ao cotidiano das comunidades. Quase todos os núcleos populacionais tem os seus malucos de rua.

Quando rapaz, trabalhei num depósito onde a maioria dos empregados era de carregadores em caminhões de entregas de milho, farinhas e derivados, e diariamente havia o carregamento e despacho dos caminhões para as entregas.

Os caminhões estacionavam na rua, e a rotina do carregamento era um encontro de diversão e até de aprendizagem de valores que afloravam no meio das brincadeiras e sacanagens daquela moçada que trabalhava carregando sacos de 50 ou 60 quilos no lombo.

Havia um maluco local que respondia pelo nome de "Seu Lico". Era um desajustado mental, mas não um “perdido” na rua, ele tinha uma família cuidadora. Praticamente todas as manhãs ele aparecia por lá, entre a movimentação dos carregadores, e logo começava uma ladainha festiva porque, sem que ele visse quem era, alguém do grupo gritava:

eu pensei que Seu Lico latia, mas Seu Lico mia".

Por razões que ninguém sabia, nem se procurou saber, o cacófato da frase acionava uma chave interna em Seu Lico que respondia ofendido gritando xingamentos, gerando uma retroalimentação de novas provocações, palavrões, risadas e piadas.

Não bastasse isso, Seu Lico executava uma dança de estranha coreografia pela rua e calçadas, animando a manhã dos transeuntes e daqueles trabalhadores que teriam ao longo do dia a tarefa árdua de distribuir as toneladas de milho e farinha.

Os malucos foram muitos – excluo-me. E após meus dias como auxiliar de escritório naquele depósito, fui cursar engenharia na Universidade Federal Fluminense, em Niterói.

Eu morava em São Gonçalo (Saigon), e com alguns colegas caminhávamos diariamente pela estação das barcas Rio–Niterói. Foi assim que durante 4 ou 5 anos acompanhei a construção da ponte Rio-Niterói e também as manifestações de outro maluco que virou um mito carioca: o Profeta Gentileza. Um mito de falsos atributos, digo desde já.

Atualmente há um terminal rodoviário no Rio com o seu nome, em referência ao pregador da frase "Gentileza gera gentileza". Contudo, o Gentileza que conheci, entre 1969 - 1973, em frente as barcas de Niterói, não tinha nada de gentil.

Vestido de uma túnica branca, cabelos longos, cheio de penduricalhos, voz estridente, e incitado por uma galera masculina que se acumulava na frente da estação, ele interpelava e constrangia as mulheres que passavam. Criticava suas vestes, decotes, feitios e maquiagens. Agressão.

A galera batia palma pro maluco, e o avisava sobre a aproximação de uma “vítima”. Quando a vítima identificava a situação, ela tentava se desviar, se fosse possível, caso contrário, caia numa teia formada por homens em multidão, ou seja, completamente irracionais, com aquele maluco constrangendo-a, insultando e pregando agressivamente sua pretensa moralidade.

Esse foi o maluco que eu vi durante anos - tanto quanto vi as obras da Ponte. Na lembrança de pessoa contemporânea: “um doido que xingava principalmente as mulheres que estavam sozinhas ... não sei de onde saiu esse mito "gentileza"... se fosse hoje, ele arrumava um jeito rápido de levar um tiro”.

Há uma lenda que Gentileza teria enlouquecido após perder a família no incêndio do Gran Circo Norte-Americano, em 1961. Mas, isso é tão fake quanto a história do Gentileza gentil. Quem quiser conhecer melhor essa história sugiro recorrer ao livro O Espetáculo mais triste da Terra de Mauro Ventura (Ed. Cia. das Letras).

Ainda assim, não tenho nada contra o mito Gentileza que foi criado. O “Gentileza gentil” é uma lenda urbana positiva, embora o maluco que eu vi fosse escroto, agressivo e nada tivesse de gentil. Contudo, criaram um mito positivo, e é bom que existam mitos positivos. Aprendi que por trás dos mitos existem desejos e, consequentemente, a possibilidade de realizações.

A propósito, apenas para registro: nunca vi Seu Lico nem Gentileza comerem merda nem rasgarem dinheiro. 

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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Velocidade de escape

 

Leituras para distrair

Desenhe um círculo, sem precisão, do tamanho que quiser — algo entre dois e três centímetros de diâmetro. Imagine que essa bolota é o globo terrestre. Agora, escolha um ponto da superfície e marque como se alguém estivesse atirando uma pedra na horizontal. Desenhe o percurso da pedra até ela retornar ao chão.

O desenho revelará um efeito real que não percebemos no dia a dia: para voltar ao solo, a pedra acompanha a curvatura do globo. Na prática, não notamos isso porque a Terra nos parece plana — uma questão de escala, embora alguns acreditem que seja assim de fato.

Repita o desenho como se a pedra fosse lançada com maior velocidade, de modo a cair mais distante. Veremos que ela se afastará mais do ponto inicial, mas continuará acompanhando a curvatura, tocando o solo em um ponto do círculo abaixo, mais distante, do anterior. Isso ocorre porque a força gravitacional da Terra a atrai de volta.

Agora simule lançamentos com velocidades progressivamente maiores. Observe que a pedra se afastará cada vez mais da superfície. Haverá, porém, um ponto em que a gravidade já não conseguirá trazê-la de volta: a pedra simplesmente não retornará.

Essa é a chamada Velocidade de Escape — a velocidade mínima necessária para que um corpo escape do campo gravitacional de um planeta. É a partir do equilíbrio de energias nessas situações que se dimensionam as velocidades de propulsão dos foguetes para colocar satélites em órbitas da Terra ou para enviar naves em viagens espaciais.

Pensando nisso, enquanto beberico umas e outras, imagino que quase todo cachaceiro já tenha observado — em si ou em terceiros — alguém escapar  da força gravitacional da sobriedade e sair numa viagem da qual só retorna quando o organismo metaboliza o combustível ingerido e reequilibra suas energias.

Os cachaceiros com razoáveis litragens de experiência já terão observado quase tudo: aqueles que dosam a ingestão, intercalando água para evitar uma propulsão indesejada rumo ao espaço sideral; os que, com quantidades mínimas, já se desligam do planeta; e outros que literalmente capotam antes mesmo de experimentarem a viagem. Situações indesejáveis, reprováveis e, por vezes, perigosas.

Escapar do eu isolado e buscar transcendência — imaginando o planeta como um Pálido Ponto Azul, na expressão de Carl Sagan — não é, em si, uma transgressão. Em interessante digressão sobre a autotranscedência e seus mecanismos (entre eles, o álcool), Aldous Huxley escreveu:

 

A ingestão regular de água era uma penalidade imposta aos malfeitores (...). Não beber bebidas alcoólicas era uma excentricidade suficientemente notável para provocar comentários e a aplicação de um mote mais ou menos desonroso. Assim nasceram sobrenomes como Bevilacqua, Boileau e Drinkwater” (Os demônios de Loudun, 1952).

 

A situação se complica é quando o prazer cede lugar à adicção, e o sujeito, sem controle, chuta o pau da barraca e imprime velocidades muito além da de escape, lançando-se para além das órbitas desejadas, em trajetórias sem direção nem perspectiva de retorno. Isso, certamente, não é prática de um bom cachaceiro. Nesses casos, cabe a frase que se tornou meme histórico após o incidente que abortou a descida na Lua da Apollo 13, em 1970: 

Houston, we have a problem!”  ### (Jorge Santos – Rio, 20/04/2026)