Leituras para distrair
Eu paro pra ver malucos de
rua. Sei que é comportamento politicamente incorreto, desqualificação do outro
etc. Mas paro, desde que não constituam uma ameaça. Tenho para mim que a
maioria não constitui perigo. Geralmente são pobres coitados, figuras que
surtam diante de provocações específicas e que, ao mesmo tempo, são segregadas e
incorporadas ao cotidiano das comunidades. Quase todos os núcleos populacionais
tem os seus malucos de rua.
Quando rapaz, trabalhei num depósito
onde a maioria dos empregados era de carregadores em caminhões de entregas de milho,
farinhas e derivados, e diariamente havia o carregamento e despacho dos
caminhões para as entregas.
Os caminhões estacionavam na rua,
e a rotina do carregamento era um encontro de diversão e até de aprendizagem de
valores que afloravam no meio das brincadeiras e sacanagens daquela moçada que trabalhava
carregando sacos de 50 ou 60 quilos no lombo.
Havia um maluco local que respondia pelo nome de "Seu Lico". Era um desajustado mental, mas não um “perdido” na rua, ele tinha uma família cuidadora. Praticamente todas as manhãs ele aparecia por lá, entre a movimentação dos carregadores, e logo começava uma ladainha festiva porque, sem que ele visse quem era, alguém do grupo gritava:
“eu pensei que Seu Lico latia, mas Seu Lico mia".
Por razões que ninguém sabia, nem
se procurou saber, o cacófato da frase acionava uma chave interna em Seu Lico
que respondia ofendido gritando xingamentos, gerando uma retroalimentação de novas
provocações, palavrões, risadas e piadas.
Não bastasse isso, Seu Lico executava
uma dança de estranha coreografia pela rua e calçadas, animando a manhã dos
transeuntes e daqueles trabalhadores que teriam ao longo do dia a tarefa árdua de
distribuir as toneladas de milho e farinha.
Os malucos foram muitos –
excluo-me. E após meus dias como auxiliar de escritório naquele depósito, fui
cursar engenharia na Universidade Federal Fluminense, em Niterói.
Eu morava em São Gonçalo (Saigon),
e com alguns colegas caminhávamos diariamente pela estação das barcas Rio–Niterói.
Foi assim que durante 4 ou 5 anos acompanhei a construção da ponte Rio-Niterói
e também as manifestações de outro maluco que virou um mito carioca: o Profeta Gentileza.
Um mito de falsos atributos, digo desde já.
Atualmente há um terminal rodoviário
no Rio com o seu nome, em referência ao pregador da frase "Gentileza gera
gentileza". Contudo, o Gentileza que conheci, entre 1969 - 1973, em frente
as barcas de Niterói, não tinha nada de gentil.
Vestido de uma túnica branca, cabelos
longos, cheio de penduricalhos, voz estridente, e incitado por uma galera masculina
que se acumulava na frente da estação, ele interpelava e constrangia as
mulheres que passavam. Criticava suas vestes, decotes, feitios e maquiagens.
Agressão.
A galera batia palma pro
maluco, e o avisava sobre a aproximação de uma “vítima”. Quando a vítima
identificava a situação, ela tentava se desviar, se fosse possível, caso contrário,
caia numa teia formada por homens em multidão, ou seja, completamente
irracionais, com aquele maluco constrangendo-a, insultando e pregando agressivamente
sua pretensa moralidade.
Esse foi o maluco que eu vi
durante anos - tanto quanto vi as obras da Ponte. Na lembrança de pessoa
contemporânea: “um doido que xingava principalmente as mulheres que
estavam sozinhas ... não sei de onde saiu esse mito "gentileza"... se
fosse hoje, ele arrumava um jeito rápido de levar um tiro”.
Há uma lenda que Gentileza teria
enlouquecido após perder a família no incêndio do Gran Circo Norte-Americano,
em 1961. Mas, isso é tão fake quanto a história do Gentileza gentil. Quem
quiser conhecer melhor essa história sugiro recorrer ao livro O Espetáculo mais
triste da Terra de Mauro Ventura (Ed. Cia. das Letras).
Ainda assim, não tenho nada
contra o mito Gentileza que foi criado. O “Gentileza gentil” é uma lenda urbana positiva,
embora o maluco que eu vi fosse escroto, agressivo e nada tivesse de gentil. Contudo,
criaram um mito positivo, e é bom que existam mitos positivos. Aprendi que por
trás dos mitos existem desejos e, consequentemente, a possibilidade de
realizações.
A propósito, apenas para registro: nunca vi Seu Lico nem Gentileza comerem merda nem rasgarem dinheiro.
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