sábado, 16 de maio de 2026

Seu Lico e o Profeta

 Leituras para distrair

 

Eu paro pra ver malucos de rua. Sei que é comportamento politicamente incorreto, desqualificação do outro etc. Mas paro, desde que não constituam uma ameaça. Tenho para mim que a maioria não constitui perigo. Geralmente são pobres coitados, figuras que surtam diante de provocações específicas e que, ao mesmo tempo, são segregadas e incorporadas ao cotidiano das comunidades. Quase todos os núcleos populacionais tem os seus malucos de rua.

Quando rapaz, trabalhei num depósito onde a maioria dos empregados era de carregadores em caminhões de entregas de milho, farinhas e derivados, e diariamente havia o carregamento e despacho dos caminhões para as entregas.

Os caminhões estacionavam na rua, e a rotina do carregamento era um encontro de diversão e até de aprendizagem de valores que afloravam no meio das brincadeiras e sacanagens daquela moçada que trabalhava carregando sacos de 50 ou 60 quilos no lombo.

Havia um maluco local que respondia pelo nome de "Seu Lico". Era um desajustado mental, mas não um “perdido” na rua, ele tinha uma família cuidadora. Praticamente todas as manhãs ele aparecia por lá, entre a movimentação dos carregadores, e logo começava uma ladainha festiva porque, sem que ele visse quem era, alguém do grupo gritava:

eu pensei que Seu Lico latia, mas Seu Lico mia".

Por razões que ninguém sabia, nem se procurou saber, o cacófato da frase acionava uma chave interna em Seu Lico que respondia ofendido gritando xingamentos, gerando uma retroalimentação de novas provocações, palavrões, risadas e piadas.

Não bastasse isso, Seu Lico executava uma dança de estranha coreografia pela rua e calçadas, animando a manhã dos transeuntes e daqueles trabalhadores que teriam ao longo do dia a tarefa árdua de distribuir as toneladas de milho e farinha.

Os malucos foram muitos – excluo-me. E após meus dias como auxiliar de escritório naquele depósito, fui cursar engenharia na Universidade Federal Fluminense, em Niterói.

Eu morava em São Gonçalo (Saigon), e com alguns colegas caminhávamos diariamente pela estação das barcas Rio–Niterói. Foi assim que durante 4 ou 5 anos acompanhei a construção da ponte Rio-Niterói e também as manifestações de outro maluco que virou um mito carioca: o Profeta Gentileza. Um mito de falsos atributos, digo desde já.

Atualmente há um terminal rodoviário no Rio com o seu nome, em referência ao pregador da frase "Gentileza gera gentileza". Contudo, o Gentileza que conheci, entre 1969 - 1973, em frente as barcas de Niterói, não tinha nada de gentil.

Vestido de uma túnica branca, cabelos longos, cheio de penduricalhos, voz estridente, e incitado por uma galera masculina que se acumulava na frente da estação, ele interpelava e constrangia as mulheres que passavam. Criticava suas vestes, decotes, feitios e maquiagens. Agressão.

A galera batia palma pro maluco, e o avisava sobre a aproximação de uma “vítima”. Quando a vítima identificava a situação, ela tentava se desviar, se fosse possível, caso contrário, caia numa teia formada por homens em multidão, ou seja, completamente irracionais, com aquele maluco constrangendo-a, insultando e pregando agressivamente sua pretensa moralidade.

Esse foi o maluco que eu vi durante anos - tanto quanto vi as obras da Ponte. Na lembrança de pessoa contemporânea: “um doido que xingava principalmente as mulheres que estavam sozinhas ... não sei de onde saiu esse mito "gentileza"... se fosse hoje, ele arrumava um jeito rápido de levar um tiro”.

Há uma lenda que Gentileza teria enlouquecido após perder a família no incêndio do Gran Circo Norte-Americano, em 1961. Mas, isso é tão fake quanto a história do Gentileza gentil. Quem quiser conhecer melhor essa história sugiro recorrer ao livro O Espetáculo mais triste da Terra de Mauro Ventura (Ed. Cia. das Letras).

Ainda assim, não tenho nada contra o mito Gentileza que foi criado. O “Gentileza gentil” é uma lenda urbana positiva, embora o maluco que eu vi fosse escroto, agressivo e nada tivesse de gentil. Contudo, criaram um mito positivo, e é bom que existam mitos positivos. Aprendi que por trás dos mitos existem desejos e, consequentemente, a possibilidade de realizações.

A propósito, apenas para registro: nunca vi Seu Lico nem Gentileza comerem merda nem rasgarem dinheiro. 

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