quinta-feira, 7 de maio de 2026

Velocidade de escape

 

Leituras para distrair

Desenhe um círculo, sem precisão, do tamanho que quiser — algo entre dois e três centímetros de diâmetro. Imagine que essa bolota é o globo terrestre. Agora, escolha um ponto da superfície e marque como se alguém estivesse atirando uma pedra na horizontal. Desenhe o percurso da pedra até ela retornar ao chão.

O desenho revelará um efeito real que não percebemos no dia a dia: para voltar ao solo, a pedra acompanha a curvatura do globo. Na prática, não notamos isso porque a Terra nos parece plana — uma questão de escala, embora alguns acreditem que seja assim de fato.

Repita o desenho como se a pedra fosse lançada com maior velocidade, de modo a cair mais distante. Veremos que ela se afastará mais do ponto inicial, mas continuará acompanhando a curvatura, tocando o solo em um ponto do círculo abaixo, mais distante, do anterior. Isso ocorre porque a força gravitacional da Terra a atrai de volta.

Agora simule lançamentos com velocidades progressivamente maiores. Observe que a pedra se afastará cada vez mais da superfície. Haverá, porém, um ponto em que a gravidade já não conseguirá trazê-la de volta: a pedra simplesmente não retornará.

Essa é a chamada Velocidade de Escape — a velocidade mínima necessária para que um corpo escape do campo gravitacional de um planeta. É a partir do equilíbrio de energias nessas situações que se dimensionam as velocidades de propulsão dos foguetes para colocar satélites em órbitas da Terra ou para enviar naves em viagens espaciais.

Pensando nisso, enquanto beberico umas e outras, imagino que quase todo cachaceiro já tenha observado — em si ou em terceiros — alguém escapar  da força gravitacional da sobriedade e sair numa viagem da qual só retorna quando o organismo metaboliza o combustível ingerido e reequilibra suas energias.

Os cachaceiros com razoáveis litragens de experiência já terão observado quase tudo: aqueles que dosam a ingestão, intercalando água para evitar uma propulsão indesejada rumo ao espaço sideral; os que, com quantidades mínimas, já se desligam do planeta; e outros que literalmente capotam antes mesmo de experimentarem a viagem. Situações indesejáveis, reprováveis e, por vezes, perigosas.

Escapar do eu isolado e buscar transcendência — imaginando o planeta como um Pálido Ponto Azul, na expressão de Carl Sagan — não é, em si, uma transgressão. Em interessante digressão sobre a autotranscedência e seus mecanismos (entre eles, o álcool), Aldous Huxley escreveu:

 

A ingestão regular de água era uma penalidade imposta aos malfeitores (...). Não beber bebidas alcoólicas era uma excentricidade suficientemente notável para provocar comentários e a aplicação de um mote mais ou menos desonroso. Assim nasceram sobrenomes como Bevilacqua, Boileau e Drinkwater” (Os demônios de Loudun, 1952).

 

A situação se complica é quando o prazer cede lugar à adicção, e o sujeito, sem controle, chuta o pau da barraca e imprime velocidades muito além da de escape, lançando-se para além das órbitas desejadas, em trajetórias sem direção nem perspectiva de retorno. Isso, certamente, não é prática de um bom cachaceiro. Nesses casos, cabe a frase que se tornou meme histórico após o incidente que abortou a descida na Lua da Apollo 13, em 1970: 

Houston, we have a problem!”  ### (Jorge Santos – Rio, 20/04/2026)

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