segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Subindo pelas paredes

 

Leituras para distrair

Lavar uma pilha de louças e panelas engorduradas é tarefa ingrata; sem detergente, é pior. Ainda em casa, proteger estofados com impermeabilizantes para evitar a penetração de líquidos é uma prática comum. Ambas as soluções exploram propriedades físicas da natureza.

Nos líquidos, as moléculas atraem-se mutuamente. Em um recipiente, as da superfície são puxadas para o interior e interligam-se, formando uma película ultrafina. Esse “lençol” é capaz de sustentar insetos leves ou até uma agulha cuidadosamente apoiada sobre ele. Trata-se da tensão superficial, propriedade responsável pela formação de bolhas e gotas e por inúmeras aplicações práticas.

Na lavagem de louças, detergentes reduzem a tensão superficial da água, facilitando sua mistura com a gordura e sua remoção. Já os impermeabilizantes alteram a superfície de contato: a tensão superficial na interface faz com que o líquido forme gotas que escorrem sem penetrar no tecido.

Uma aplicação curiosa surge no tratamento do desconforto causado por gases intestinais. A simeticona, presente em medicamentos como o Luftal, reduz a tensão superficial das bolhas, permitindo que se unam e se desfaçam, facilitando a sua eliminação num aliviador e reconfortante pum.

A tensão superficial também aparece na cultura da cachaça. Variações dessa tensão fazem com que moléculas de regiões de maior tensão atraiam as de regiões mais fracas, num movimento de equilíbrio conhecido como efeito Gibbs-Marangoni.

Ao girarmos uma taça de cachaça, o álcool — mais volátil que a água — evapora nas bordas, tornando ali o líquido mais aquoso e com maior tensão superficial. As bordas então puxam o líquido do centro, de menor tensão, fazendo-o subir pelas paredes da taça, enquanto a gravidade atua no sentido oposto.

Dessa disputa invisível surgem as *“lágrimas da cachaça”*: filetes que escorrem com diferentes velocidades e espessuras. Equivocadamente, costuma-se  atribuir as lágrimas à viscosidade, mas esta é apenas resistiva; o efeito motriz é a variação da tensão superficial, o efeito Gibbs-Marangoni.

Diz a sabedoria popular que “_cachaça boa tem que chorar_”. De fato, água pura não produz lágrimas, e que o aspecto dessas se relaciona com o teor alcoólico, podendo sugerir complexidade da bebida. Contudo, o que isso diz sobre a qualidade da cachaça, as opiniões divergem.

Eu gosto da cachaça servida em copo grande, nada de copos tipo shots. Pode ser até o popular copo americano. Gosto de girar o líquido e apreciar as lágrimas descendo. É um momento de prazer. Recomendo! ###

 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

À toa, sem querer se impor

 

Leituras para distrair

Talvez por sermos politicamente jovens — afinal, a nação brasileira, como hoje a entendemos, tem pouco mais de 200 anos e, quem sabe, por nossa descolonização não decorrer de uma ruptura efetiva com o colonizador, ainda nos sentimos inibidos de assumir plenamente nossa nacionalidade cultural.

Nossa história é marcada por uma castração da autoestima e desqualificação de elementos das suas raízes. Um jornalista traduziu essa sofrência brasileira ao cunhar a expressão: complexo de vira-latas.

Curiosamente, copiamos facilmente costumes e comportamentos estrangeiros fúteis, mas raramente suas práticas de valorização cultural. Tome-se a cachaça como exemplo: bebida tradicionalmente brasileira, popular, produzida em quase todos os estados e com origens no início da nossa colonização, é o destilado nacional por excelência, mas sofre discriminação e exclusão.

Outros países valorizam os destilados que fazem parte de suas histórias: como o uísque na Irlanda e Escócia; a vodca na Rússia; o pisco no Chile e Peru; o rum no Caribe; a grapa na Itália; a tequila no México, entre outros. Isso sem falar nas bebidas fermentadas como o saquê, as cervejas e os vinhos. Muitos países até promovem incentivos e proteções oficiais.

Contudo, no Brasil, a cachaça, com um volume declarado de produção em 2024 maior que 290 milhões de litros (dados do MAPA - Ministério da Agricultura e Pecuária), ainda é escondida e mesmo proibida em muitos ambientes. Em certos ambientes ela só é admitida e valorizada quando está envolta em embalagens sofisticadíssimas e até adornada com ouro ou diamantes, isto é, vestida em trajes que não guardam qualquer relação com a sua origem popular.

Em várias situações, apesar de admirada, muitos admiradores renegam assumir essa condição e serem identificados como cachaceiros. Beber cachaça é vulgar. Degustar: pode! O complexo de vira-latas é forte quando se trata da “marvada”. Ainda assim, a cachaça segue por aí, vivendo à toa, sem querer se impor, como disse o samba-enredo do Salgueiro em 1977.

É nesse cenário que a Confraria de Cachaça Copo Furado do Rio de Janeiro atua, combatendo preconceitos e valorizando a cachaça de qualidade, promovendo eventos e contribuindo para a divulgação de boas práticas, incluindo a orientação de procedimentos adequados para o serviço da bebida nos pontos de atendimento. Faz muito bem essa tal de Copo Furado!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Peões, cabras, prendas e xodós

 

Leituras para distrair

 

No último dia 7 de setembro passei pelo Festival Brasilidades, uma feira de artesanato, gastronomia, música, teatro e literatura no Museu da República, no Catete, Rio de Janeiro.

Nos jardins, que adquirem uma beleza especial quando ocupados pela população, apresentava-se um grupo folclórico gaúcho muito aplaudido. Observando as danças e cantorias do grupo, refleti que, para mim, a região sul parece culturalmente mais distante do que o nordeste brasileiro. Apenas uma sensação, sem outro dado consistente, mas uma sensação forte. Será que outras pessoas aqui, do Sudeste, também se sentem assim?

Talvez isso decorra do fluxo das migrações populacionais que, por carências socioeconômicas históricas, foi mais expressivo no sentido nordeste para sudeste. Além de pessoas, o fluxo traz consigo costumes e culturas. O fato é que “cabra e xodó” são bem mais próximos de mim do que “peão e prenda”.

Esse desequilíbrio na balança cultural é ruim. Ficamos distantes do contato com o mundo cultural sulista, riquíssimo em sua variedade, e esse afastamento se desdobra, quase inevitavelmente, em uma indesejável e descabida discriminação entre as populações sulistas e as demais do país.

A essa altura da nossa história e num país do tamanho do nosso, acumulam-se essas distorções. Repará-las é uma tarefa difícil, um embrulho de três cocos para moçada que luta pela integração nacional.

Pensei com os meus botões em dois aspectos curiosos. A região sul, particularmente o Rio Grande do Sul, é onde está a maior proporção de praticantes de umbanda e candomblé, e onde está o maior número de casas de terreiro do Brasil (IBGE).

Também na região sul, a "densidade cachaceira", um índice que contabiliza a quantidade de estabelecimentos produtores de cachaça por habitante de uma região, é relevante. Segundo o Anuário da Cachaça 2025 (MAPA), dos 19 municípios mais bem servidos de cachaça no Brasil, 13 são mineiros, 3 são catarinenses, 2 são gaúchos e 1 capixaba. E nós, cachaceiros, sabemos bem sobre as pérolas de qualidade e delicias que são muitas das cachaças da região sul.

Não paro de pensar que talvez uma desejada integração cultural do nosso país passará por aí. Até arrisco apostar que não poderia ser outro o caminho das pedras. Ele passa por esses dois elementos tão representativos e originais da nossa cultura. Nossa integração se completará pela macumba e pela cachaça. ###

Publicado originalmente em "Pinga nos III" - 34 -  Janeiro 2026, um jornal da Confraria de Cachaça Copo Furado Rio de Janeiro.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Doces e enganosas ilusões

 Leituras para distrair

Quando um garfo mergulhado na água parece torto, ou quando o fundo da piscina parece mais raso do que é, estamos diante de um mesmo fenômeno: a refração da luz. Esse efeito ocorre quando a luz muda de direção ao atravessar meios diferentes, como ar-água ou entre camadas da atmosfera.

É por isso também que as estrelas que vemos estão em posições ligeiramente alteradas em relação às suas posições reais; por isso vemos o céu azul; vemos o horizonte avermelhado ao entardecer ou, ainda, que surgem as miragens nos desertos.

Cada substância desvia a luz de forma diferente, o que pode ser medido pelo chamado índice de refração da luz. Esse índice é tão preciso que sua medida permite calcular, por exemplo, a quantidade de açúcar dissolvido em uma solução. Assim nasceu a escala Brix usada para medir o teor de açúcares numa solução: 1 grau Brix corresponde a 1 grama de açúcar em 100 gramas de solução.

Na produção de cachaça, o Brix do caldo de cana é fundamental. Usando um refratômetro, o alambiqueiro mede o índice de refração e sabe se o caldo está pronto para a fermentação e destilação. Em geral, busca-se entre 16 graus e 20 graus Brix. Mestres mais experientes chegam a identificar o ponto ideal apenas pelo odor.

A escala leva o nome do engenheiro alemão Adolf Ferdinand Wenceslaus Brix, que a desenvolveu no século 19. Hoje, continua indispensável na indústria alimentícia e em engenhos de cachaça.

Vale lembrar que embora a refração explique ilusões como miragens, estrelas fora da posição ou algumas coisas parecendo tortas, ver o chão próximo ou o mundo girando depois de exagerar nas doses de cachaça já é outro fenômeno – nenhuma relação com o Brix! ### (Jorge Santos – Rio, 08/01/2026)

 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Vejo outra coisa!

 Opinião

Na CPI do MST, o professor José Geraldo, da UnB, fez uma intervenção que virou meme ao responder a uma deputada da direita (o nome pouco importa). Citando Octavio Paz, afirmou que ela não tinha cognição para compreender os temas em debate. Com fina ironia, disse que a deputada só enxergava o mundo pelo estreito recorte que fazia da realidade, o que tornava qualquer diálogo impossível. Não foi desrespeito, mas uma constatação dos limites dela. A cena, junto do comentário abobalhado da deputada, entrou para os anais da nossa política.

Lembrei disso hoje (30/11/2025), dia especial para muitos, com o tetracampeonato do Flamengo na Libertadores. Sempre que o assunto é futebol, sinto como se o professor estivesse falando comigo. Vejo a multidão em transe coletivo, sob o sol de domingo, superlotando o centro da cidade normalmente abandonado, idolatrando profissionais do futebol que carregam no peito o anúncio de uma empresa de apostas on-line.

No meu bairro, passam aos gritos: “ganhamos a porra toda!”, “o Rio de Janeiro é nosso!”. Justo aqui, nas mesmas ruas alagadas dois dias antes, atrasando o retorno dos trabalhadores; no mesmo estado cujo governador comemorou uma operação policial com 122 mortos; na mesma semana em que mais uma criança foi baleada durante uma operação policial.

Ninguém ergue a voz diante desses fatos, mas com a vitória de um campeonato de futebol todos parecem entrar em possessão, com surtos incontidos que os fazem urrar como guerreiros saídos de uma batalha campal.

Nada contra o futebol ou os flamenguistas, mas admito: não tenho cognição para entender. Como os indígenas citados pelo professor José Geraldo, que não viam as caravelas apesar de estarem lá; como a deputada incapaz de compreender o significado do MST; eu — talvez também um idiota — sem capacidade cognitiva, não consigo representar mentalmente essa horda de barões famintos e napoleões retintos venerando não sei o quê nas suas estranhas catedrais. ###


PROFESSOR DA UnB DEIXA SEM CHÃO DEPUTADA BOLSONARISTA NA CPI DO MST  -  Acesso em 02/12/2025

https://www.youtube.com/watch?v=Z8FsNvUwN9o

sábado, 22 de novembro de 2025

Teje preso!

 Opinião

 

Hoje foi um dia especial – 22 de novembro. Acordei lembrando a Revolta da Chibata e João Cândido, talvez meu herói nacional preferido. Nunca passo a data sem pensar no que ela representa.

Antes de ver as notícias, li uma mensagem sobre a prisão do Bozo e não entendi de imediato. Achei que fosse só formalização das condenações, até perceber que era prisão preventiva. Liguei a TV e confirmei.

A partir daí o dia virou um turbilhão de notícias, comentários e memes sobre o enquadramento do ex-presidente fascista. Até o encerramento da COP 30 ficou em segundo plano. A galera progressista comemorou numa catarse cheia de simbolismos.

Mesmo assim, em minhas ingênuas elucubrações algumas coisas não fecham. Apesar da alegria de ver o Bozo preso, achei estranha a violação tosca da tornozeleira. Tenho ferros de solda, estanho, pasta e sugador em casa e sei usar. Aquela maquininha cheia de marcas de solda, parecendo tentativa infantil de abrir um brinquedo, não convence. Talvez expliquem depois, mas ali tem algo errado que não está certo.

A propósito, o número da tornozeleira – 85916-5 – deverá estar cotado nas apostas no jogo do bicho, essa contravenção ainda tolerada pela ética nacional. A milhar deve bombar.

Lembraram também que hoje é aniversário da deputada Maria do Rosário, aquela que o então deputado escroto, em 2014, disse que não estupraria porque ela “não merecia”. Imagino que ela tenha recebido a notícia como presente.

A festa para João Cândido pode passar despercebida, mas o 22 de novembro ganha agora novo significado. Assim funciona nossa história.

A canção de Aldir Blanc e João Bosco lembra que, nas águas da Guanabara, o dragão do mar reapareceu na figura de um bravo marinheiro. Poucos sabem que o “dragão do mar” é o jangadeiro cearense Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde, que no fim do século XIX liderou os jangadeiros contra o embarque de escravizados no Ceará.

Chico da Matilde iluminou João Cândido no século seguinte, e acho que agora foi o Almirante Negro quem reapareceu para tornar este dia ainda mais memorável com a prisão de um fascista escroto. Quem sabe para compensar aquele almirante que aderiu ao golpe e ganhou 24 anos de cana por crime de organização criminosa e golpe de Estado?  Há motivos para celebrar!

Glória à farofa, à cachaça, às baleias e às lutas inglórias que não esquecemos. Salve o Almirante Negro, cujo monumento são as pedras pisadas do cais. ### (Jorge Santos – Rio, 22/11/2025)

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Um quantum de física

 Leituras para distrair

 

A física estuda os fenômenos da natureza em todas as escalas, buscando compreendê-los. O avanço desses estudos e observações tem revelado eventos em dimensões subatômicas que são invisíveis na escala humana e muitas vezes contrários ao senso comum.

Quando se fala em “escala”, vale uma pausa. O tamanho de um próton, por exemplo, é medido por seu “raio de carga”, da ordem de 10¹⁵ metros — um quatrilhão de vezes menor que o metro. Difícil até de imaginar.

Há partículas subatômicas chamadas mésons, presentes nos núcleos atômicos, cujo tempo de vida é de 10²⁴ segundos (elas se transformam em outras partículas), isso equivale a:

 

 0,000 000 000 000 000 000 000 001 s — um septilionésimo de segundo.

 

Essas quantidades são extraordinariamente pequenas, e a física quântica se ocupa justamente dos fenômenos que ocorrem nesse domínio que, embora pareçam distantes do cotidiano, eles são aspectos fundamentais da natureza. É o chamado mundo quântico.

Quando alguém afirma que uma partícula como o múon apresenta comportamento “estranhíssimo”, isso só impressiona o cientista que sabe o que  esperava observar, mas não traz qualquer surpresa para quem não faz a menor ideia do que seja um múon. Por isso, como em outras áreas, tenta-se traduzir para o público leigo as peculiaridades do mundo quântico por meio de analogias. Porém, quando replicadas sem cuidados, essas comparações trazem mais confusão do que esclarecimentos — sem contar quando se faz delas usos maliciosos.

Um dos fenômenos que deram origem à física quântica, e que inspirou seu nome, foi a constatação de que a energia de um sistema não varia de forma contínua, mas em quantidades discretas, pacotes, chamadas quanta (plural de quantum). Essa descoberta foi surpreendente porque, na experiência humana, as transformações de energia parecem sempre contínuas.

Pense em uma bola largada de certa altura. No alto, ela tem energia potencial,  ao cair, essa energia se converte em cinética (velocidade). Tudo parece ocorrer de forma suave, ininterrupta. Imaginar que a troca de energia se faz em “pacotes” — como se a bola caísse em saltos sucessivos, como em degraus de uma escada — soa absurdo para o senso comum.

Mas, em escala quântica, é exatamente isso que acontece. No caso de uma bola real, a diferença entre níveis de energia seria tão minúscula — trilhões de trilhões de níveis por milímetro — que se torna impossível de perceber. Por isso, no mundo macroscópico, o movimento parece contínuo, embora, em essência, resulte de um conjunto de trocas quantizadas.

Tentar aplicar diretamente as leis do mundo quântico à escala humana produz situações aparentemente absurdas, mas assim como a troca de energia em pacotes, fato experimentalmente comprovado, e que está na base de grande parte da tecnologia moderna, há outros efeitos quânticos que parecem estranhos ou absurdos para o senso comum, mas que são reais e indispensáveis para explicar a natureza.

Invisíveis ao olhar cotidiano, mas essenciais à estrutura da matéria, esses fenômenos desafiam o senso comum e isso provoca um fascínio, debates e avanços no conhecimento do nosso mundo. Eles estão ai, há mais de 100 anos, determinando praticamente todos os desenvolvimentos da tecnologia contemporânea.

Vale lembrar que a aparente contradição entre o mundo quântico e o senso comum também abriu espaço para os vendedores de ilusões. Multiplicam-se produtos e serviços “quânticos” — pomadas, terapias, rezas, e outros que usam o termo para soar científico e justificar absurdos. Esse charlatanismo é antigo, surgiu bem antes de Planck propor a energia quantizada, de Einstein introduzir o fóton como exemplo da quantização e de Bohr aplicar essas ideias para explicar a estabilidade dos átomos. ### (Jorge Santos – Rio, 07/11/2025).

domingo, 19 de outubro de 2025

A boiada da IA (Inteligência Artificial)

 Opinião

 

O Intercept Brasil fez uma serie especial de reportagens intitulada “A boiada da IA” tratando sobre como o aumento da demanda por inteligência artificial tornou o Brasil especialmente interessante para fornecer infraestrutura para big techs e sobre o impacto da indústria de data centers no Brasil. A última matéria da serie trata da construção, pela TikTok, de um mega data center em uma cidade com histórico de seca no Ceará.

Vale ressaltar que os interesses são de origens diversas e não existe um grupo “bonzinho”. Americanos, russos, chineses ou de outra identificação nacional competem entre si. O nome disso é capitalismo. E toda leitura precisa ser bem crítica, inclusive essa publicada aqui.

A reportagem especial do Intercept pode ser acessada pelo link a seguir. ###

 

A boiada da IA (Serie especial do Intercept Brasil – Acesso em 15/10/2025)

<https://www.intercept.com.br/especiais/a-boiada-da-ia/>

Colonialismo digital

 Opinião

 

O jornal O Globo de 15/10/2025 publicou uma longa matéria sobre tecnologia no Rio de Janeiro e menciona um projeto de data center na Barra da Tijuca. Segundo o texto, o consumo projetado seria de 1,5 GW, podendo chegar a 3,2 GW. O site da prefeitura confirma essa publicação – a criação do “Rio AI City” e anuncia consumos projetados de 1,8 a 3,0 GW.

A maioria dos leitores — eu incluso — não tem noção do que isso significa. Recorrendo ao ChatGPT, o oráculo digital do momento, para perguntar qual seria a demanda elétrica de uma cidade com 100 mil habitantes, a  resposta foi: entre 0,02 e 0,06 GW, dependendo do padrão de consumo. Por regra de três, e sem o rigor de um cálculo oficial, a demanda inicial desse data center equivaleria à de cinco cidades de porte médio, como Niterói (RJ).

Para comparar: Itaipu, uma das maiores hidrelétricas do mundo, tem uma capacidade energética instalada de 14 GW. Ou seja, esse único empreendimento consumiria cerca de 10% da capacidade instalada de Itaipu. A matéria, no entanto, não questiona os impactos desses números — e sequer menciona o enorme consumo de água necessário para resfriar as máquinas.

 Será que isso é bom para o país? 

O tema evoca os anos 1980, quando poucos entendiam o significado  de  “comunicação de dados” e a sua importância para os projetos estratégicos nacionais. Hoje, os data centers povoam esse universo tecnológico misterioso e acessível apenas ao iniciados — símbolos de modernidade, mas também de consumo absurdo de energia e recursos naturais. O Brasil parece ser um paraíso para as gigantes corporações digitais que vêm a exploração do nosso potencial hídrico como a possibilidade de uma versão atualizada da velha lógica de exploração colonial. Um amigo cunhou a expressão: um e-colonialismo.

É urgente discutir os impactos reais dessa corrida tecnológica. Como foi na década de 80 com as telecom, não faltarão os iludidos, fascinados ou emburrecidos pelas seduções tecnológicas, e que servirão como buchas de canhão na defesa da irreversibilidade desses processos e da inutilidade de questioná-los. Ainda assim, com alguns amigos, buscamos romper essas barreiras de silêncio e acomodação insistindo em provocar o debate do assunto. Um esforço necessário e justificado.

Seguem sugestões de leituras sobre o tema: um vídeo da BBC, um matéria da Revista Fapesp e um link para publicação da prefeitura do Rio de Janeiro. Os números impressionam e inquietam. ###

 

A água potável 'perdida' em data centers de Inteligência Artificial  (BBC News Brasil) – Acesso em 16/10/2025:

https://www.youtube.com/watch?v=JS-PRom-dpA

 

As estratégias para tornar os data centers mais sustentáveis (Revista FAPESP – Março de 2025)

https://revistapesquisa.fapesp.br/as-estrategias-para-tornar-os-data-centers-mais-sustentaveis/

 

Rio anuncia o projeto “Rio AI City”: o maior hub de data centers da América Latina e um dos dez maiores do mundo – Site da prefeitura do Rio de Janeiro

https://prefeitura.rio/noticias/rio-anuncia-o-projeto-rio-ai-city-o-maior-hub-de-data-centers-da-america-latina-e-um-dos-dez-maiores-do-mundo/

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Carta da Paz do Esquivel 2025

 Opinião

 

O mundo está estranho. No aniversário de 533 anos da chegada de Colombo às Américas, o governo argentino de Javier Milei divulgou vídeo afirmando que a colonização marcou “a prevalência da civilização sobre a selvageria” e que os povos originários viviam “ mergulhados na barbárie.”

É difícil conter a bronca contra os hermanos portenhos, mas no mesmo 12/10/2025, felizmente, o também argentino Adolfo Pérez Esquivel, Nobel da Paz de 1980, reagiu com em carta aberta à venezuelana Corina Machado, Nobel de 2025, que dedicou o seu prêmio a Donald Trump. Carajo!!

O vídeo do governo argentino está disponível na web. Nada fake. Ver link no final dessa publicação. A carta do Esquivel estou replicando a seguir.

 

Carta de Adolfo Pérez Esquivel (Nobel da Paz 1980) a Maria Corina Machado (Nobel da Paz 2025)

 

De Nobel para Nobel

 

Envio-lhe as saudações de Paz e Bem que a humanidade e os povos que vivem na pobreza, no conflito, na guerra e na fome tão desesperadamente necessitam. Esta carta aberta é para expressar sua gratidão e compartilhar algumas reflexões.

Fiquei surpreso com sua designação como Prêmio Nobel da Paz pelo Comitê Nobel. Isso me fez lembrar das lutas contra as ditaduras no continente e em meu país sob ditaduras militares que suportamos de 1976 a 1983 e resistimos às prisões, à tortura e ao exílio com milhares de pessoas desaparecidas, crianças sequestradas e desaparecidas e os voos da morte dos quais sou um sobrevivente.

Em 1980, o Comitê Nobel me concedeu o Prêmio Nobel da Paz. 45 anos se passaram e continuamos trabalhando a serviço dos mais pobres e ao lado dos povos latinoamericanos. Em nome de todos eles, assumi esta alta distinção, não pelo Prêmio em si, mas pelo compromisso ao lado dos povos compartilhando as lutas e esperanças para construir um novo amanhecer. A paz se constrói dia a dia, e devemos ser coerentes entre palavras e ações.

Aos 94 anos, continuo aprendendo com a vida e me preocupo com sua postura e suas decisões sociais e políticas. Por isso, envio estas reflexões.

O governo venezuelano é uma democracia com seus altos e baixos. Hugo Chávez abriu caminho para a liberdade e a soberania do povo e lutou pela unidade continental; foi um despertar da Pátria Grande.

Os Estados Unidos a atacaram constantemente; não podem permitir que nenhum país do continente escape de sua órbita e dependência colonial; continuam a sustentar que a América Latina é seu “quintal”. O bloqueio americano a Cuba há mais de 60 anos é um atentado à liberdade e aos direitos do povo. A resistência do povo cubano é um exemplo de dignidade e força.

Estou surpreso com o quanto você se apega aos Estados Unidos, e você deve saber que eles não têm aliados nem amigos, apenas interesses. As ditaduras impostas na América Latina foram instrumentalizadas por seus interesses de dominação, destruindo a vida e a organização social, cultural e política dos povos que lutam por sua liberdade e autodeterminação. Nós, o povo, resistimos e lutamos pelo direito de sermos livres e soberanos, não uma colônia dos Estados Unidos.

O governo de Nicolás Maduro vive sob a ameaça dos Estados Unidos e do bloqueio. Basta considerar as forças navais no Caribe e o perigo de invasão do seu país. Vocês não disseram uma palavra, ou apoiam a interferência desta grande potência contra a Venezuela. O povo venezuelano está pronto para enfrentar essa ameaça.

Corina, pergunto-lhe. Por que você pediu aos EUA que invadissem a Venezuela? – Quando recebeu o anúncio de que receberia o Prêmio Nobel da Paz, você o dedicou a Trump. O agressor do seu país, mentindo e acusando a Venezuela de narcotráfico, uma mentira semelhante à de George Bush, que acusou Saddam Hussein de possuir “armas de destruição em massa”. Um pretexto para invadir o Iraque e saqueá-lo, causando milhares de vítimas, mulheres e crianças. Eu estava em Bagdá no final da guerra, no hospital pediátrico, e vi a destruição e as mortes causadas por aqueles que se proclamam defensores da liberdade. A pior forma de violência é a mentira.

Não se esqueça, Corina, que o Panamá foi invadido pelos EUA, causando morte e destruição para capturar um antigo aliado, o General Noriega. A invasão deixou 1.200 mortos em Los Chorrillos. Hoje, os EUA tentam tomar novamente o Canal do Panamá. É uma longa lista de intervenções e sofrimento na América Latina e no mundo por parte dos EUA. As veias da América Latina continuam abertas, como diz Eduardo Galeano.

Preocupa-me que você não tenha dedicado o Prêmio Nobel ao seu povo, mas sim ao agressor da Venezuela. Acredito, Corina, que você precisa analisar e saber onde se posiciona, se você é apenas mais uma peça do sistema colonial estadunidense, sujeita aos seus interesses de dominação, que nunca poderão ser para o bem do seu povo. Como opositora do governo Maduro, suas posições e opções geram muita incerteza. Você recorre ao pior quando pede que os EUA invadam a Venezuela.

O importante a ter em mente é que construir a paz exige muita força e coragem para o bem do seu povo, que eu conheço e amo profundamente.

Onde antes havia barracos nas montanhas sobrevivendo na pobreza e na miséria, hoje há moradia digna, saúde, educação e cultura. A dignidade do povo não se compra nem se vende.

Corina, como diz o poeta: “Caminhante, não há caminho, o caminho se faz caminhando”. Agora você tem a oportunidade de trabalhar pelo seu povo e construir a paz, não de provocar mais violência. Um mal não se resolve com outro mal maior. Teremos apenas dois males e nunca uma solução para o conflito.

Abra sua mente e seu coração ao diálogo, ao encontro com seu povo, esvazie o jarro da violência e construa a paz e a unidade entre seus povos para que a luz da liberdade e da igualdade possa entrar.

Adolfo Pérez Esquivel 12-10-25


Link para o vídeo do governo argentino - Acesso em 15/10/2025

Casa Rosada 12 de outubro de 2025