Opinião
O jornal O Globo de 15/10/2025 publicou uma longa matéria
sobre tecnologia no Rio de Janeiro e menciona um projeto de data center na
Barra da Tijuca. Segundo o texto, o consumo projetado seria de 1,5 GW, podendo
chegar a 3,2 GW. O site da prefeitura confirma essa publicação – a criação do “Rio
AI City” e anuncia consumos projetados de 1,8 a 3,0 GW.
A maioria dos leitores — eu incluso — não tem noção do que
isso significa. Recorrendo ao ChatGPT, o oráculo digital do momento, para
perguntar qual seria a demanda elétrica de uma cidade com 100 mil habitantes, a
resposta foi: entre 0,02 e 0,06 GW,
dependendo do padrão de consumo. Por regra de três, e sem o rigor de um cálculo
oficial, a demanda inicial desse data center equivaleria à de cinco cidades de
porte médio, como Niterói (RJ).
Para comparar: Itaipu, uma das maiores hidrelétricas do
mundo, tem uma capacidade energética instalada de 14 GW. Ou seja, esse único
empreendimento consumiria cerca de 10% da capacidade instalada de Itaipu. A
matéria, no entanto, não questiona os impactos desses números — e sequer
menciona o enorme consumo de água necessário para resfriar as máquinas.
O tema evoca os anos 1980, quando poucos entendiam o significado
de “comunicação de dados” e a sua importância para
os projetos estratégicos nacionais. Hoje, os data centers povoam esse universo
tecnológico misterioso e acessível apenas ao iniciados — símbolos de
modernidade, mas também de consumo absurdo de energia e recursos naturais. O
Brasil parece ser um paraíso para as gigantes corporações digitais que vêm a
exploração do nosso potencial hídrico como a possibilidade de uma versão
atualizada da velha lógica de exploração colonial. Um amigo cunhou a expressão:
um e-colonialismo.
É urgente discutir os impactos reais dessa corrida
tecnológica. Como foi na década de 80 com as telecom, não faltarão os iludidos,
fascinados ou emburrecidos pelas seduções tecnológicas, e que servirão como buchas
de canhão na defesa da irreversibilidade desses processos e da inutilidade de
questioná-los. Ainda assim, com alguns amigos, buscamos romper essas barreiras
de silêncio e acomodação insistindo em provocar o debate do assunto. Um esforço
necessário e justificado.
Seguem sugestões de leituras sobre o tema: um vídeo da BBC, um
matéria da Revista Fapesp e um link para publicação da prefeitura do Rio de
Janeiro. Os números impressionam e inquietam. ###
A água potável 'perdida' em data centers de Inteligência
Artificial (BBC News Brasil) –
Acesso em 16/10/2025:
https://www.youtube.com/watch?v=JS-PRom-dpA
As estratégias para tornar os data centers mais sustentáveis (Revista
FAPESP – Março de 2025)
https://revistapesquisa.fapesp.br/as-estrategias-para-tornar-os-data-centers-mais-sustentaveis/
Rio anuncia o projeto “Rio AI City”: o maior hub de data
centers da América Latina e um dos dez maiores do mundo – Site da
prefeitura do Rio de Janeiro
É como fazer festa com cartão de crédito. Um abraço do Crenato.
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