Leituras para distrair
No último dia 7 de setembro passei pelo Festival
Brasilidades, uma feira de artesanato, gastronomia, música, teatro e literatura
no Museu da República, no Catete, Rio de Janeiro.
Nos jardins, que adquirem uma beleza especial quando ocupados
pela população, apresentava-se um grupo folclórico gaúcho muito aplaudido. Observando
as danças e cantorias do grupo, refleti que, para mim, a região sul parece
culturalmente mais distante do que o nordeste brasileiro. Apenas uma sensação,
sem outro dado consistente, mas uma sensação forte. Será que outras pessoas
aqui, do Sudeste, também se sentem assim?
Talvez isso decorra do fluxo das migrações populacionais que,
por carências socioeconômicas históricas, foi mais expressivo no sentido
nordeste para sudeste. Além de pessoas, o fluxo traz consigo costumes e culturas.
O fato é que “cabra e xodó” são bem mais próximos de mim do que “peão e
prenda”.
Esse desequilíbrio na balança cultural é ruim. Ficamos distantes
do contato com o mundo cultural sulista, riquíssimo em sua variedade, e esse
afastamento se desdobra, quase inevitavelmente, em uma indesejável e descabida
discriminação entre as populações sulistas e as demais do país.
A essa altura da nossa história e num país do tamanho do
nosso, acumulam-se essas distorções. Repará-las é uma tarefa difícil, um
embrulho de três cocos para moçada que luta pela integração nacional.
Pensei com os meus botões em dois aspectos curiosos. A região
sul, particularmente o Rio Grande do Sul, é onde está a maior proporção de
praticantes de umbanda e candomblé, e onde está o maior número de casas de
terreiro do Brasil (IBGE).
Também na região sul, a "densidade cachaceira", um
índice que contabiliza a quantidade de estabelecimentos produtores de cachaça
por habitante de uma região, é relevante. Segundo o Anuário da Cachaça 2025
(MAPA), dos 19 municípios mais bem servidos de cachaça no Brasil, 13 são
mineiros, 3 são catarinenses, 2 são gaúchos e 1 capixaba. E nós, cachaceiros,
sabemos bem sobre as pérolas de qualidade e delicias que são muitas das
cachaças da região sul.
Não paro de pensar que talvez uma desejada integração cultural do nosso país passará por aí. Até arrisco apostar que não poderia ser outro o caminho das pedras. Ele passa por esses dois elementos tão representativos e originais da nossa cultura. Nossa integração se completará pela macumba e pela cachaça. ###
Publicado originalmente em "Pinga nos III" - 34 - Janeiro 2026, um jornal da Confraria de Cachaça Copo Furado Rio de Janeiro.
Mais uma boa reflexão do jorsan. Abraço do Crenato.
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