Leituras para distrair
Lavar uma pilha de louças e panelas engorduradas é
tarefa ingrata; sem detergente, é pior. Ainda em casa, proteger estofados com
impermeabilizantes para evitar a penetração de líquidos é uma prática comum.
Ambas as soluções exploram propriedades físicas da natureza.
Nos líquidos, as moléculas atraem-se mutuamente. Em
um recipiente, as da superfície são puxadas para o interior e interligam-se,
formando uma película ultrafina. Esse “lençol” é capaz de sustentar insetos
leves ou até uma agulha cuidadosamente apoiada sobre ele. Trata-se da tensão
superficial, propriedade responsável pela formação de bolhas e gotas e por
inúmeras aplicações práticas.
Na lavagem de louças, detergentes reduzem a tensão
superficial da água, facilitando sua mistura com a gordura e sua remoção. Já os
impermeabilizantes alteram a superfície de contato: a tensão superficial na
interface faz com que o líquido forme gotas que escorrem sem penetrar no
tecido.
Uma aplicação curiosa surge no tratamento do
desconforto causado por gases intestinais. A simeticona, presente em
medicamentos como o Luftal, reduz a tensão superficial das bolhas, permitindo
que se unam e se desfaçam, facilitando a sua eliminação num aliviador e reconfortante
pum.
A tensão superficial também aparece na cultura da
cachaça. Variações dessa tensão fazem com que moléculas de regiões de maior
tensão atraiam as de regiões mais fracas, num movimento de equilíbrio conhecido
como efeito Gibbs-Marangoni.
Ao girarmos uma taça de cachaça, o álcool — mais
volátil que a água — evapora nas bordas, tornando ali o líquido mais aquoso e
com maior tensão superficial. As bordas então puxam o líquido do centro, de
menor tensão, fazendo-o subir pelas paredes da taça, enquanto a
gravidade atua no sentido oposto.
Dessa disputa invisível surgem as *“lágrimas da
cachaça”*: filetes que escorrem com diferentes velocidades e espessuras. Equivocadamente,
costuma-se atribuir as lágrimas à
viscosidade, mas esta é apenas resistiva; o efeito motriz é a variação da
tensão superficial, o efeito Gibbs-Marangoni.
Diz a sabedoria popular que “_cachaça boa tem
que chorar_”. De fato, água pura não produz lágrimas, e que o aspecto dessas
se relaciona com o teor alcoólico, podendo sugerir complexidade da bebida. Contudo,
o que isso diz sobre a qualidade da cachaça, as opiniões divergem.
Eu gosto da cachaça servida em copo grande, nada de
copos tipo shots. Pode ser até o popular copo americano. Gosto de girar o
líquido e apreciar as lágrimas descendo. É um momento de prazer. Recomendo! ###
Desse belo texto e imagens da Internet, conclui-se que cachaça é Ciência & Cultura... Abraços do Crenato.
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