segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Subindo pelas paredes

 

Leituras para distrair

Lavar uma pilha de louças e panelas engorduradas é tarefa ingrata; sem detergente, é pior. Ainda em casa, proteger estofados com impermeabilizantes para evitar a penetração de líquidos é uma prática comum. Ambas as soluções exploram propriedades físicas da natureza.

Nos líquidos, as moléculas atraem-se mutuamente. Em um recipiente, as da superfície são puxadas para o interior e interligam-se, formando uma película ultrafina. Esse “lençol” é capaz de sustentar insetos leves ou até uma agulha cuidadosamente apoiada sobre ele. Trata-se da tensão superficial, propriedade responsável pela formação de bolhas e gotas e por inúmeras aplicações práticas.

Na lavagem de louças, detergentes reduzem a tensão superficial da água, facilitando sua mistura com a gordura e sua remoção. Já os impermeabilizantes alteram a superfície de contato: a tensão superficial na interface faz com que o líquido forme gotas que escorrem sem penetrar no tecido.

Uma aplicação curiosa surge no tratamento do desconforto causado por gases intestinais. A simeticona, presente em medicamentos como o Luftal, reduz a tensão superficial das bolhas, permitindo que se unam e se desfaçam, facilitando a sua eliminação num aliviador e reconfortante pum.

A tensão superficial também aparece na cultura da cachaça. Variações dessa tensão fazem com que moléculas de regiões de maior tensão atraiam as de regiões mais fracas, num movimento de equilíbrio conhecido como efeito Gibbs-Marangoni.

Ao girarmos uma taça de cachaça, o álcool — mais volátil que a água — evapora nas bordas, tornando ali o líquido mais aquoso e com maior tensão superficial. As bordas então puxam o líquido do centro, de menor tensão, fazendo-o subir pelas paredes da taça, enquanto a gravidade atua no sentido oposto.

Dessa disputa invisível surgem as *“lágrimas da cachaça”*: filetes que escorrem com diferentes velocidades e espessuras. Equivocadamente, costuma-se  atribuir as lágrimas à viscosidade, mas esta é apenas resistiva; o efeito motriz é a variação da tensão superficial, o efeito Gibbs-Marangoni.

Diz a sabedoria popular que “_cachaça boa tem que chorar_”. De fato, água pura não produz lágrimas, e que o aspecto dessas se relaciona com o teor alcoólico, podendo sugerir complexidade da bebida. Contudo, o que isso diz sobre a qualidade da cachaça, as opiniões divergem.

Eu gosto da cachaça servida em copo grande, nada de copos tipo shots. Pode ser até o popular copo americano. Gosto de girar o líquido e apreciar as lágrimas descendo. É um momento de prazer. Recomendo! ###

 

Um comentário :

  1. Desse belo texto e imagens da Internet, conclui-se que cachaça é Ciência & Cultura... Abraços do Crenato.

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