Leituras para distrair
A física estuda os fenômenos da
natureza em todas as escalas, buscando compreendê-los. O avanço desses estudos
e observações tem revelado eventos em dimensões subatômicas que são invisíveis
na escala humana e muitas vezes contrários ao senso comum.
Quando se fala em “escala”, vale
uma pausa. O tamanho de um próton, por exemplo, é medido por seu “raio de
carga”, da ordem de 10⁻¹⁵ metros — um quatrilhão de vezes
menor que o metro. Difícil até de imaginar.
Há partículas subatômicas chamadas
mésons, presentes nos núcleos atômicos, cujo tempo de vida é de 10⁻²⁴ segundos (elas se transformam em outras partículas), isso equivale a:
0,000 000 000 000 000 000 000 001 s — um
septilionésimo de segundo.
Essas quantidades são
extraordinariamente pequenas, e a física quântica se ocupa justamente dos
fenômenos que ocorrem nesse domínio que, embora pareçam distantes do cotidiano,
eles são aspectos fundamentais da natureza. É o chamado mundo quântico.
Quando alguém afirma que uma
partícula como o múon apresenta comportamento “estranhíssimo”, isso só
impressiona o cientista que sabe o que esperava observar, mas não traz qualquer
surpresa para quem não faz a menor ideia do que seja um múon. Por isso, como em
outras áreas, tenta-se traduzir para o público leigo as peculiaridades do mundo
quântico por meio de analogias. Porém, quando replicadas sem cuidados, essas
comparações trazem mais confusão do que esclarecimentos — sem contar quando se
faz delas usos maliciosos.
Um dos fenômenos que deram origem
à física quântica, e que inspirou seu nome, foi a constatação de que a energia
de um sistema não varia de forma contínua, mas em quantidades discretas, pacotes,
chamadas quanta (plural de quantum). Essa descoberta foi surpreendente porque,
na experiência humana, as transformações de energia parecem sempre contínuas.
Pense em uma bola largada de certa
altura. No alto, ela tem energia potencial, ao cair, essa energia se converte em cinética
(velocidade). Tudo parece ocorrer de forma suave, ininterrupta. Imaginar que a
troca de energia se faz em “pacotes” — como se a bola caísse em saltos
sucessivos, como em degraus de uma escada — soa absurdo para o senso comum.
Mas, em escala quântica, é
exatamente isso que acontece. No caso de uma bola real, a diferença entre
níveis de energia seria tão minúscula — trilhões de trilhões de níveis por
milímetro — que se torna impossível de perceber. Por isso, no mundo
macroscópico, o movimento parece contínuo, embora, em essência, resulte de um
conjunto de trocas quantizadas.
Tentar aplicar diretamente as leis
do mundo quântico à escala humana produz situações aparentemente absurdas, mas
assim como a troca de energia em pacotes, fato experimentalmente comprovado, e que
está na base de grande parte da tecnologia moderna, há outros efeitos quânticos
que parecem estranhos ou absurdos para o senso comum, mas que são reais e
indispensáveis para explicar a natureza.
Invisíveis ao olhar cotidiano, mas
essenciais à estrutura da matéria, esses fenômenos desafiam o senso comum e
isso provoca um fascínio, debates e avanços no conhecimento do nosso mundo. Eles
estão ai, há mais de 100 anos, determinando praticamente todos os
desenvolvimentos da tecnologia contemporânea.
Vale lembrar que a aparente
contradição entre o mundo quântico e o senso comum também abriu espaço para os
vendedores de ilusões. Multiplicam-se produtos e serviços “quânticos” —
pomadas, terapias, rezas, e outros que usam o termo para soar científico e
justificar absurdos. Esse charlatanismo é antigo, surgiu bem antes de Planck
propor a energia quantizada, de Einstein introduzir o fóton como exemplo da
quantização e de Bohr aplicar essas ideias para explicar a estabilidade dos
átomos. ### (Jorge Santos – Rio, 07/11/2025).
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