quinta-feira, 2 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (14)


Opinião


“Vamos conseguir atravessar esse túnel e ver o outro lado! “

Esse foi o comentário de um amigo querido em conversa telefônica. A um só tempo foi uma brincadeira, uma manifestação de esperança e, especialmente, estava “botando uma pilha”, preocupado com o meu estado de ânimo. Sigo embalado nesse incentivo e tenho , sim, enorme curiosidade em ver o que virá depois. Uma curiosidade esperançosa porque  sequer conseguimos ver a luz no fim desse túnel. Podemos até imaginá-la, mas ainda não podemos vê-la.

Contudo, não devemos descuidar do caminho porque viver é o caminhar. A vida está aqui, não está após o túnel. Descuidar do agora é não viver, e navegando no escuro temos coisas importantíssimas para tratar e realizar. Um tropeço imprudente, um degrau não percebido, mesmo que seja aquele último da portaria, poderá ser apenas um inchaço no joelho ou se transformar em uma enorme cagada.

Mas, vale também pensar em como será lá, na saída. A vida será outra. Como serão as coisas mais simples? As relações familiares, os amigos, a vida social e a vida afetiva? Outro companheiro observou: depois dessa, quem irá a um restaurante, a um teatro ou cinema como ia antes?

As  escolas e a vida escolar das crianças serão diferentes. Também os encontros, os passeios, as viagens, até o futebol. A ida a praia e aos cultos religiosos. A dinâmica dos grupos de cachaceiros dos quais participo certamente será outra.

Nesses poucos dias de coronavírus,  as nossas vidas, como eram, foram desarrumadas. Não foram destruídas, mas já estão desengonçadas, e mesmo que queiramos rearrumá-las  nos padrões anteriores isso levará tempo. Quem ainda não se deu conta disso e imagina que tudo estará ok daqui a pouco, no final do mês, está dando uma de Barrichello.

Sem contar os impactos em nossas vidas econômicas e financeiras (naturalmente refiro-me ao grupo de minhas relações. Posso especular, mas não conheço nem tenho relações com qualquer extrato da elite socioeconômica, tampouco com aqueles que já são, hoje, indigentes sociais).  Haverá impacto em nossos empregos, nossos negócios e compromissos. Alguém publicou uma brincadeira que gostei muito:

“Sobe para 9 os casos de boleto aqui em casa que não serão pagos, já são: 6 confirmados e 3 suspeitos. O pico de aumento vai ser agora do final de março a 15 de abril. “

Noam Chomsky, linguista,  filósofo e ativista político norte-americano, uma das principais referências para mim, foi entrevistado sobre a crise do coronavírus. Ele testemunhou e  vivenciou os mais importantes processos e eventos  históricos do século XX,  e o fez de uma forma crítica que o projetou como um dos grandes historiadores e pensadores políticos contemporâneos.

Segundo Chomsky,  a ideia de que o destino dos EUA e do mundo estão nas mãos de um palhaço sociopata é chocante. Para ele, o coronavírus é sério, mas há horrores maiores se aproximando:  a ameaça crescente da guerra nuclear, a ameaça do aquecimento global, além da deterioração da democracia.

O coronavírus é uma praga horrível e terá consequências terríveis, diz ele, mas poderá  ter uma recuperação. Para a guerra nuclear e o aquecimento global a recuperação não existe. Mas, são ameaças que podem ser tratadas,  embora não haja  muito tempo para isso,  e no caso da democracia, ela é a única esperança para superar as crises. Uma população informada, envolvida e assumindo o controle do seu destino é fundamental. Se isso não acontecer estaremos fudidos (esse termo é meu, não fiz tradução literal). E se deixarmos nosso destino nas mãos de bufões sociopatas (aqui são palavras do Chomsky) será o nosso fim.

Governados por palhaços, bufões sociopatas? A generalização  do Chomsky  foi perfeita!

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Nota:
Entrevista do Chomsky  publicada pelo no site Youtube  pelo site “acTVism Munich”em 28/03/2020  -  Trancrição em :< https://www.actvism.org/wp-content/uploads/2020/03/Noam-Chomsky-on-the-Coronavirus.pdf>


quarta-feira, 1 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (13)


Opinião


Penso nas coisas da vida como quase todo mundo, e também sem a pretensão de serem indagações filosóficas. Minhas especulações sobre o ser humano, a natureza, o planeta e o universo dividem espaço (e geralmente perdem) com dúvidas abissais sobre o que vou preparar para comer. Isso quando as questões sobre a manutenção da casa e  a lavagem da roupa já estão superadas.

Busco, então, fontes que conheço e outras sugeridas por dicas, para refletir a partir delas. Vou catando aqui e acolá tentando avaliar as possibilidades de transformação do mundo e os  desdobramentos sociais pós-crise coronavírus.  As avaliações de certas figuras são sempre educativas e nem sempre consensuais. Vão desde os cenários pessimistas até os otimistas esperançosos.

Ao mesmo tempo, e também por dicas de amigos, acompanho notícias sobre ações de gerenciamento econômico da crise que são reveladoras tanto de interesses como de interessados. As manchetes dessas notícias algumas vezes disfarçam a realidade, e mesmo os seus conteúdos passam batidos quando as atenções estão voltadas para a quantidade de contaminados e de mortos pelo coronavírus.

Recolhi, então, algumas notícias recentes cujos títulos eu reproduzi na íntegra e em caixa, alta entre aspas, seguidos da releitura dos seus conteúdos que fala por si e dispensa comentários adicionais:

“PARA DEPUTADOS DO NOVO, GOVERNO PRECISA FAZER INTERVENÇÃO” [Valor Econômico – RJ – 20/03/2020]
Trata-se de reivindicação do partido Novo, ultra neo liberal, pedindo  verba do governo para reforço do capital de giro das empresas. O mesmo partido que prega o fim do Estado e dá suporte ao governo para o corte de verbas para a saúde, educação, e transporte, além das ações para acabar com os funcionários públicos e aposentados.

“GOVERNO ASSUME RISCO E BANCO DEVE REATIVAR OFERTA DE CRÉDITO”  [Valor Econômico – RJ – 30/03/2020]
Essa notícia relata que os bancos pararam de emprestar dinheiro alegando medo de quebradeira generalizada. “Isso é problema do governo” disseram os bancos. O governo então está repassando 40 bilhões de reais para os bancos que emprestarão às empresas cobrando juros. E o Tesouro arcará com 85% do risco. O mais caricato é que os bancos fizeram propaganda junto aos micros e pequenos empresários em nome do Bradesco, Itaú e Santander. Salários dos trabalhadores garantidos por dois meses. “Tudo que a gente quer é que você cuide da sua saúde sim, mas mantendo sua empresa viva” – diz o comunicado dos bancos.

“CONSTRUÇÃO DE HOSPITAL DA FIOCRUZ TERÁ APOIO DO ITAÚ” [Valor Econômico – RJ – 31/03/2020]
Quem ler essa notícia sem crítica não valorizará como esse apoio “filantrópico” é operacionalizado. Na verdade, a grana, R$ 10 milhões, é repassada para o hospital  via o Instituto Unibanco e a Fundação Itaú para a Educação e Cultura, um mecanismo legal, ao qual as grandes corporações recorrem para obter reduções no Imposto de Renda.

“DONOS DO GRUPO VOTORANTIM DOAM R$ 50 MILHÕES” [Valor Econômico – RJ – 31/03/2020]
Ora, quem não te conhece que te compre! A informação está no corpo da notícia. O dinheiro do grupo vai para uma conta do Instituto Votorantim na mesma linha do mecanismo utilizado pelo Itau.

Enquanto isso, outra notícia diz assim: “VAREJO ACUSA BANCOS DE ELEVAR JUROS” [Valor Econômico – RJ – 30/03/2020]
A notícia refere-se a uma recorrência das associações de grandes varejistas junto ao governo denunciando o aumento expressivo da cobrança de taxas de juros pelos bancos após o início da crise que, em certos casos,  chegam a ser superiores a  70 por cento.

Com essas e outras, recorro a uma reflexão do sul coreano Byung-Chul Yang, um dos caras aos quais me referi no início desse texto:

“O vírus não vencerá o capitalismo ... Não podemos deixar a revolução nas mãos do vírus. Precisamos acreditar que após o vírus virá uma revolução humana. Somos NÓS, PESSOAS dotadas de RAZÃO, que precisamos repensar e restringir radicalmente o capitalismo destrutivo, e nossa ilimitada e destrutiva mobilidade, para nos salvar, para salvar o clima e nosso belo planeta” [ El País – Brasil – 22/03/2020]
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terça-feira, 31 de março de 2020

A vida em tempos de coronavírus (12)


Opinião


Estou entre os emocionalmente abalados com essa crise do coronavirus. Mas, não desesperado. Qualquer sentimento de autocomiseração é logo afastado quando levanto o olhar do umbigo e me dou conta dos tantos que não têm o mínimo de suporte e condições para atravessar essa crise. Ainda assim, vendo os prognósticos de alguns especialistas sobre as possíveis decorrências dessa situação, mesmo as otimistas, isento de alarmismos e de supervalorização do caos, sinto-me triste.

Minhas angústias não passam pelo risco, no meu caso relativamente grande devido à idade, de uma eventual contaminação. Pretendo ainda viver mais um tanto, mas me considero no lucro em termos de longevidade. Uma premissa que me permite encarar e tratar o risco com naturalidade, sem negar o cagaço nem a insegurança.

Contudo, penso nas outras gerações e, sem falso altruísmo, penso nos mais próximos. Meus netinhos  também estão vivenciando o afastamento social. Protegidos na medida do possível, mas sem fazer ideia do que está ocorrendo, em que pese as proteções que privilegiadamente eles podem desfrutar, não compreendem porque, de uma hora para outra, foram levados a um confinamento domiciliar e apartados do mundo que para eles não tinha limites.

Alguns especialistas alertam que não voltaremos à sociedade que deixamos antes do isolamento. Compreendo essa avaliação, mas  não penso nela como inusitada. Afinal, “ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio” – reflexão heraclitiana acertada e elaborada desde 500 A.C. Tudo flui, e assim como a sociedade pós-isolamento será outra, os meus pequeninos também já não serão os mesmos pequeninos. Mas, o vovô aqui gostaria que essa nova sociedade não fosse determinantemente distópica. Mas, uma sociedade com um mínimo de oportunidades para que eles possam projetar os seus sonhos e viverem os seus momentos de felicidade enquanto tentam construir o melhor para suas vidas.

No mais, sigo puto da vida, submetendo-me ao necessário afastamento provocado por esse sacana desse bichinho que não mede mais do que 0,0000001 metros. Controlo minhas vontades, meus desejos. Abraçar, beijar, cafungar e cheirar meus netinhos. Sempre fiz esse exercício de tentar deixá-los impregnados com a lembrança do meu cheiro (bom ou mau). Uma lembrança inconsciente porque aquelas conscientes serão naturalmente esquecidas com tempo.

Será pensando naqueles pequerruchos  e em nome de um futuro desejado melhor para eles que mais tarde cumprirei uma obrigação. Irei pra janela me manifestar contra esse grupo de filhos das putas que louvam os torturadores e assassinos que praticaram o golpe civil-militar de 31 de março de 1964 implantando uma ditadura em nosso país. Não passarão!
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segunda-feira, 30 de março de 2020

A vida em tempos de coronavírus (11)


 Opinião


Se forem mantidas as tendências, daqui a dois dias, no dia primeiro de abril, o Brasil contabilizará cerca de 5000 infectados e mais de 200 mortos pelo coronavírus. São números que refletem os casos  oficialmente confirmados, mas há estimativas, não oficiais, de quantidades maiores.

Um ex-ministro da saúde, médico sanitarista e atualmente pesquisador da Fiocruz, exemplificou a gravidade do quadro. Segundo o médico, nos meses de fevereiro e março nos últimos anos, em todo o país, tem sido de 250 casos a média de internações diagnosticadas como pneumonia viral. Já em fevereiro e março de 2020, antes mesmo do término de março, o registro era de 2250 casos. Certamente, afirma o médico, muitos dos casos decorrem do coronavírus sem estarem contabilizados na quantidade total de infectados.

Ainda assim, a quantidade de casos prosseguirá em curva ascendente e a tendência da situação, nesse momento, é ainda de se tornar mais grave até que apareçam resultados das medidas que estão sendo adotadas.

 Os relatos sobre os óbitos são tristes. Os procedimentos fúnebres precisam ser agilizados, o tempo para as cerimônias é reduzido e pré-determinado e o número de presentes limitado em torno de dez pessoas, São condicionantes impostos para reduzir as chances de novas contaminações.

Mais doloroso ainda, é que os casos fatais são tipicamente de idosos já com alguma fragilidade de saúde e com vida recente dependente do acompanhamento por familiares. Contudo, a porra da contaminação pelo coronavírus impõe o isolamento dos pacientes graves, sem qualquer contato com a família, mesmo nos períodos derradeiros de vida. As mediações desses pacientes com o mundo exterior tem sido realizadas pelos agentes de saúde que acabam absorvendo uma carga emocional para a qual não estão preparados, tornando-se eles próprios vítimas colaterais da situação.

Sinto como se estivéssemos nessa situação há uma eternidade, mas sei que infelizmente ainda é cedo para prognósticos. O afastamento social é uma necessidade e não dispomos nesse momento de alternativa melhor, embora a namoradinha do Brasil classifique como “egoísmo”. Atual secretária de cultura do governo federal, ela faz coro ao chamado imbecil para o suicídio que o ex-capitão boquirroto vem promovendo. Parece que a namoradinha resolveu responder ao grito de Cazuza: “Brasil, mostra sua cara!”  exibindo ela sua verdadeira cara e seus valores.

Em vez de chamar as pessoas para as ruas, esse povo que votou no fascismo e que ainda não se arrependeu poderia muito bem organizar uma festa e confraternizar, juntinhos, bem próximos, como uma demonstração de confiança em suas teses. Poderia juntar suas panelas e armas, abraçar-se e dançar coladinhos ao som das marchas militares que tanto apreciam, num grande baile celebrando sua mediocridade e estupidez. Quem sabe, na baía de Guanabara, naquele palácio bonito da Ilha Fiscal. Aliás, o nome original da ilha Fiscal era ilha dos Ratos.

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domingo, 29 de março de 2020

A vida em tempos de coronavírus (10)


Opinião


Hoje é domingo e mesmo que o dia peça um cachimbo para relaxar, isolado e com os serviços de entrega abarrotados de solicitações, nem mesmo tenho a quem pedir. A necessidade impôs uma ida ao mercado que fiz cercada de precauções, e no caminho fui pensando com os meus botões. Porém, sem qualquer criatividade, minhas reflexões não foram além do que deve estar na cabeça de milhões de pessoas no Brasil e no mundo: até quando vai durar essa merda?

Engraçado é que comecei a escrever esse texto, sem uma ideia completa de onde chegaria, mas minha diretriz era não gastar letras com referências ao ex-capitão Bozo e sua trupe. Afinal, tenho feito isso em outros textos. Mas, fui traído pelo subconsciente.  Até quando vai durar essa merda?

Na rua e no mercado achei as pessoas menos tensas, mais relaxadas, diferentes dos primeiros dias de isolamento. Lembrei do fotógrafo Sebastião Salgado, esse profissional especial que tem registrado e divulgado para o mundo tanto as atrocidades praticadas pela humanidade entre si, como as maravilhas naturais do planeta.

Em entrevista que não tenho como resgatar, Salgado foi questionado  sobre as coisas que mais o impressionaram em suas experiências. Segundo ele, entre outras ele se impressionava com a capacidade de adaptação do ser humano. Ele já tinha visitado acampamentos e cidades que viviam horrores inimagináveis, contudo, ainda assim, as pessoas buscavam alguma maneira de auto-organização  e de tocar suas vidas, mesmo que viver não fosse além de sobreviver.

O fotógrafo relatou que viu cidades (acho que se referia à Guerra da Bósnia) onde o genocídio era a prática corrente, e ainda assim as famílias tentavam levar suas vidas, indo fazer compras e desenvolver outras atividades . Até as crianças iam para as escolas, num cenário onde podiam ser assassinadas ou assaltadas e estupradas por um vizinho. Nunca esqueci esse depoimento.

Essa vontade inquebrantável de viver é uma característica do ser humano. Naturalmente não estou fazendo qualquer comparação de cenário entre a experiência que estamos vivendo com o coronavírus e aquelas registradas pelo fotógrafo, mas é interessante observar que vamos nos ajeitando, nos arrumando.

Esse comportamento não deve ser interpretado como indiferença, ao contrário, é justamente devido à sensibilidade à dor que vamos adotando uma indolência que nos permite suportá-la. Até onde eu sei, os faquires praticam exercícios que os permitem, por vontade própria, alcançarem um estado de indolência física. Parece que em certas circunstâncias os seres humanos em geral são levados inconscientemente a um plano de indolência social, talvez como forma de sobreviver e conseguir superar seus sofrimentos. Trata-se, acho, de uma característica que se desenvolve de forma distinta em cada um de nós. Em alguns ela se desenvolve como fé religiosa, não é o meu caso. Eu tenho esperanças.  

Hoje é domingo e pede cachimbo, mas optarei por uma cachaça e prosseguirei com minhas divagações esperançosas. Superar essa etapa e prosseguir buscando um mundo melhor. Com o mesmo sonho lírico de Riobaldo nas grandes veredas:

“ Para que eu carecia de tantos embaraços? Pois os próprios antigos não sabiam que um dia virá, quando a gente pode permanecer deitada em rede ou cama, e as enxadas saindo sozinhas para capinar roça, e as foices, para colherem por si, e o carro indo por sua lei buscar a colheita, e tudo, o que não é o homem, é sua, dele, obediência?”

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Nota:
O destaque da fala de Riobaldo eu copiei do livro “A Foice e o Robô: As Inovações Tecnológicas e a Luta Operária” - autor Eduardo Albuquerque – Ed. Página 7 – SP - 1990.

sábado, 28 de março de 2020

A vida em tempos de coronavírus (9)


Opinião


A natureza não está dando mole para a humanidade. Mas, não se pode dizer que fomos pegos de surpresa. As possibilidades de uma pandemia como a que estamos passando já foram apontadas por especialistas. Há vídeos sobre o assunto na web com premonições tão acertadas que até superam fantasias e ficções.

Diferentemente do  tsunami no Japão, em 2011, quando a natureza se manifestou com uma fúria incontrolável, sem dar qualquer chance de reação, nesse caso do coronavírus a humanidade teve e tem chances de reagir à adversidade natural. Os mecanismos de enfrentamentos além de serem possíveis e realizáveis, estiveram e estão condicionados quase exclusivamente à decisões políticas, ou seja, à escolhas sobre o modelo de organização social que os grupos humanos preferem adotar.

Ainda assim, mesmo que as melhores escolhas não tenham sido feitas, temos a oportunidade de mitigar os efeitos da pandemia e de corrigir aquelas opções. Isso significa, na prática, distribuir uma acumulação indecente de riqueza e recursos e significa, também, assumir práticas solidárias,  estabelecendo para os tempos futuros um acordo social que se contraponha ao modelo atual. Um modelo que se mostra frágil e incompetente nesses tempos de necessidades globais, tempos de crise. Então, temos escolhas.

Busquem nas agências de notícias internacionais. Não é preciso recorrer aos jornais de esquerda e sites socialistas. Busquem nas agências tradicionais e vejam a situação dos EUA e a zona total que está rolando por lá. Sem um sistema de saúde pública sob o controle e coordenação estatal, as autoridades americanas não conseguem sequer confirmar a quantidade de infectados cujas estimativas já ultrapassam 100.000 mil.

O governador do estado e, particularmente, o prefeito da cidade de Nova Iorque não saem da televisão. Ambos estão com um pau no cú  tentando explicar o que  vão fazer diante de uma situação que exige em uma estrutura pública de saúde, mas que está montada em bases exclusivamente privadas, o serviço de saúde mais caro do mundo.

Há o relato da BBC News de um sujeito que retornou da China e temendo estar contagiado foi a uma sala de emergências em Miami. Lá foi diagnosticado com resfriado comum e teve prescrições médicas. Duas semanas depois recebeu notificação que devia mais de 3 mil dólares ao hospital. Aí o sujeito adoeceu de fato!

Caricaturas a parte, certamente os EUA encontrarão suas saídas. Afinal, trata-se de uma sociedade rica, uma riqueza acumulada a custa de guerras e da exploração de outros países, diga-se de passagem. Assim, eles já estão comprando médicos e enfermeiros. O Departamento de Estado americano está oferecendo visto e contratação para os profissionais de saúde tratarem da pandemia coronavírus. Vejam cópia de matéria da revista Época, de hoje:

 “ ...  A notícia provocou o temor de que os EUA estejam tentando tirar médicos de países que já estão sofrendo com a pandemia do coronavírus e poderiam ficar sem mão de obra qualificada em um momento de extrema necessidade..”

Avaliando esse cenário é pertinente perguntar: e em nosso pobre Brasil, que escolhas faremos?  

Estamos como uma nau de insensatos. Um sequelado na direção do país e uma corja que o cerca tentando levar-nos para um caminho cujo único destino é a barbárie. Para esses filhos das putas a sociedade brasileira não passa de  ratos e crianças, e assim como o flautista de Hamelin querem guiar-nos  para o suicídio ou aprisionamento.

É mais do que hora da galera que elegeu esse pulha repensar suas escolhas. É preciso e possível mudar. A natureza e a história estão nos dando essa chance.


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sexta-feira, 27 de março de 2020

A vida em tempos de coronavírus (8)


Opinião


Por cacoete de formação, passei a registrar os números oficiais de infectados e mortos pelo coronavírus e a construir meus gráficos e linhas de tendências. Sei que os números reais distanciam-se dos oficiais do ministério da saúde, mas contento-me com esses últimos. Algumas revistas e jornais têm publicado gráficos da evolução da pandemia através dos quais é possível comparar sua evolução no Brasil com a Itália e o mundo

Naturalmente quaisquer comparações precisam ser cuidadosas, relativizadas, contextualizadas, evitando-se conclusões falsas e até absurdas. Então, mesmo feitas todas essas ressalvas, os números assustam. Uma relativização não elaborada, mas simples, é analisar a evolução de casos em quantidade de dias a partir do primeiro dado registrado. Por exemplo, no Brasil, 25 dias após o primeiro caso de contaminação, são contabilizados 1128 casos. Na Itália, após 25 dias da primeira contaminação a quantidade de infectados era 59.138. Já a quantidade de mortos 9 dias após a primeira morte registrada, no Brasil são 77 casos e na Itália foram 79. Hoje, na Itália, passados 32 dias da primeira morte registrada, o número de óbitos é de 8.215 casos numa população de 80.589 infectados..

Esses números só não assustam os que forem insensíveis qualquer que seja o caso ou ignorantes que não conseguem elaborar um mínimo de projeção sobre as possibilidades (não certeza) de evolução da pandemia. Entre os primeiros estão alguns que compreendem o quadro, mas, insensíveis, atuam maliciosamente valorizando exclusivamente os seus interesses. Entre os últimos estão aqueles que potencialmente podem ser utilizados como massa de manobra pelos primeiros. Sem generalizações, quem quiser saber dos primeiros busquem os empresários que estão colados nas teses da trupe Bozo, além do próprio líder da trupe. Já a massa de manobra está entre aqueles que apesar, de tudo, seguem apoiando o presidente Bozo , ele próprio, um vírus social. .

Tentando elaborar um mínimo de crítica sobre o quadro geral, entre amigos temos trocado ideias em videoconferências, sem a pretensão de conclusões apressadas ou definitivas. Fazemos brincadeiras sobre a situação de cada um e sobre nossas dificuldades técnicas e intelectuais no uso das ferramentas teleinformáticas. Ontem conversamos sobre o impacto dos pronunciamentos do ex-capitão boquirroto. A esse propósito, comentamos sobre as repercussões no comportamento geral. Um desgaste na imagem do apoiador de torturadores ou uma adesão às suas teses?

O ídolo dos milicianos trouxe para a ordem do dia a manifestação de mais um preconceito discriminatório, ao lado dos tantos que tem sido a suas referências de valores sociais. Agora a discriminação dos idosos. Sem constrangimentos essa pústula com mandato presidencial faz aflorar mais uma doença social que até aqui era mantida controlada. Já tem velhinhos xingados e sofrendo constrangimentos nas ruas.

Também conversamos sobre a falta de protagonismo da esquerda. Essa avaliação é quase consensual, embora existam divergências sobre as causas dessa situação. Mas há concordância sobre a tomada do discurso pela direita política.   As dissidências, os conflitos, as referências dessa ou daquela posição que estão sendo divulgadas na mídia de massa são (oportunamente) referências da direita. Esse é, entre outros, mais um dos obstáculos que a esquerda precisa superar

Enfim, apesar das dificuldades, geralmente concentradas entre a cadeira e o computador ou celular, acho que deveríamos insistir nessa prática dos encontros virtuais. Sugiro que outros também o façam. Parece um bom exercício nesses tempos de coronavírus.

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quinta-feira, 26 de março de 2020

A vida em tempos de coronavírus (7)


Opinião


Quando menino morávamos ao lado de um cemitério, e um comercio local típico eram as funerárias. A vizinhança toda se conhecia. O fulano, o beltrano, o sicrano donos dos comércios tal e qual, bem como os seus familiares. Uma organização social bem diferente dos dias de hoje quando vizinhos de portas em corredor de edifício são completamente estranhos.


Em uma das funerárias trabalhava o filho do proprietário, um moleque pouco mais velho que os da minha idade. A rapaziada local inventou que ele ficava na porta da funerária, na beira da rua principal, incentivando os idosos a atravessarem a rua cujo tráfego nem era intenso, mas não havia sinal (semáforo) naquele trecho.

 Dizia-se que ao ver idosos aguardando a oportunidade de atravessar a rua, mesmo vendo que vinha um veículo, o cara tapava a boca com uma das mãos e falava baixinho, mas alto o suficiente para o pedestre ouvir: “Pode ir que dá!” ou então “Aproveita, essa é a boa ... vão agora!”  Além de outras frases de estímulo que a galera criava. Segundo a rapaziada, ele fazia isso para turbinar o negócio do pai na venda de caixões e coroas de flores. Um atropelamento sempre seria uma oportunidade.

Essas conversas rolavam geralmente à noite, quando nos encontrávamos em uma das esquinas  e, naturalmente,  sempre com a presença do guia de velhinhos que ficava puto da vida, mas participava da gozação.

Eu nunca imaginei que um dia assistiria à representação trágica e real daquela invenção de moleques gonçalenses. Foi dela que lembrei ao ver o ex-capitão boquirroto estimulando os brasileiros a irem para as ruas e serem atropelados pelo coronavírus. Tudo para turbinar o negócio dos seus apoiadores.

Vão! É só uma gripezinha! Levem as crianças! Abram o comercio e as escolas! O ex-capitão incorporou o agente funerário que estimulava os velhinhos  a atravessarem a rua na frente dos carros. Mas, o fez  sem dissimulações. Bem alto e em pronunciamento nacional, ele exortou os brasileiros: Vão ... vão se fuder!

O ato do presidente funerário assustou até alguns que bancaram política e economicamente  sua marcha para o poder. O ato também provocou um efeito indesejado para esses apoiadores. Ele permitiu que a moçada que entregou o seu voto ao defensor  de torturadores veja a merda que fez.

Os seus  partidários espertos e ideológicos, na linha criminosa das fake news, até já forjaram vídeos para sustentar o pronunciamento do boquirroto.  Ao mesmo tempo, os seus partidários otários são usados como  buchas de canhão e tentam  divulgar os falsos vídeos. Mas, felizmente, esses buchas estão passando vergonha e constrangimentos porque são ridicularizados pelos destinatários que pensam e que refletem.

Por mim, quem achar que as medidas preventivas são indevidamente alarmantes deveria pegar a sua família e sair para as ruas. Há restaurantes abertos, até com promoções. Que vão às praias, estão vazias. Façam piqueniques.  Espirrem, tussam entre si, abracem-se. Façam-se de exemplo. Organizem-se em grupos e façam festas e encontros. Só não venham me visitar. Busquem alternativas. Atravessem  a rua, eu estimularei: Vão... vão  para a puta que os pariu!

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quarta-feira, 25 de março de 2020

A vida em tempos de coronavírus (6)


Opinião

Hoje é dia 25 de março, e para o Brasil inteiro essa data remete à famosíssima rua de S. Paulo, um centro comercial que em ocasiões especiais chega a receber 1 milhão de visitantes em um único dia. O nome da rua refere-se à data em que D. Pedro I impôs ao país a sua primeira constituição, em 1824.

Enquanto a constituição de 1988 ficou conhecida como a “cidadã”, aquela imposta em 1824 foi a constituição “mandioca”. Esse apelido decorreu do fato que ela instituiu um tipo de eleição onde só votava quem tivesse terras e escravos – quem tivesse mandioca.

O texto original da “mandioca” foi elaborado por uns caras que o imperador designou logo após declarar a independência, um arremedo de constituinte. O grupo elaborou um projeto e levou para o imperador assinar, mas ele não gostou porque mexia com seus poderes. Ficou puto da vida, chutou o pau da barraca, mandou prender alguns dos constituintes, reuniu outra meia dúzia de caras e fez, ele mesmo, a constituição que queria e empurrou-a goela a baixo do país, com mandioca e tudo. Aliás, o imperador entubou bem a mandioca que já constava no texto censurado.

Ontem, o ex-capitão presidente em pronunciamento na TV fez lembrar a mandioca.. O boquirroto deu um “foda-se!” para os trabalhos que a sua própria equipe vem elaborando e divulgando. Chutou o pau da barraca. Vamos todos para as ruas! Mandem as crianças para os colégios! Uns velhinhos podem se dar mal, a gente tenta cuidar deles, tá okey? Sou atleta, sujeito homem, e pra mim esse tal de coronavírus é só uma gripezinha!

A noite de 1824 em que o imperador mandou os seus milicianos enfiarem a mandioca nos constituintes e prender alguns deles ficou conhecida como a Noite da Agonia. Acho que os brasileiros não infectados com o vírus Bozo e alguns que estão convalescendo dessa contaminação foram dormir com a sensação de uma noite também de agonia. O ex-soldado boquirroto é a própria expressão de um vírus, de uma doença. Uma  doença social, anterior à Covid-19,  que acometeu a nossa sociedade. Uma pandemia nacional cuja contaminação foi bastante para se expressar eleitoralmente e levá-lo ao poder. Ele e as suas circunstâncias.

A pandemia Bozo naturalmente gerou uma crise. Seus eleitores não sabem o que fazer. Tal e qual doentes depressivos estão conscientes do seu mal e de que cura está dentro de cada um mas, não conseguem alcançá-la. Sentem pânico. Medo da “esquerda” e “ódio ao PT”.

Os apoiadores do projeto político Bozo estão cabreiros. Apostaram na astúcia de levar um Chapolin ao poder, mas não contaram com tanta estultice. O sujeito é a caricatura da caricatura. Não são apoiadores amadores. Orientam-se por uma cartilha liberal de autoria internacional e vão empurrando para levar seu projeto adiante. Manifestam-se aqui e acolá. Federações industriais, representantes nas casas legislativas, no pode judiciário, nas corporações financeiras, nas grandes mídias. Tentam constranger o boquirroto, mas sem negá-lo porque  ele  ainda é útil para os seus propósitos.

Um grupo especial de empresários faz coro direto de apoio ao Chapolin. Uma canalha que ver a grana rápido e que se  dirige aos seus empregados: Saiam pra rua e venham trabalhar! Encher nossos bolsos!  Venham queimar suas vidas em nossas fornalhas. Contaminem-se, desde que não encostem em nós! Não podemos é deixar a máquina capitalista parar!

Assim vamos e outro dia de agonia passará. Meus planos furaram. Hoje seria data de aniversário do meu falecido (e muito querido) pai. Eu e meu irmão bebericaríamos umas cachaças nas praias da cidade onde ele mora. Ironicamente foi o vírus quem isolou a humanidade revertendo a prática científica. Precisei cancelar nossa programação. Se passarmos por essa celebraremos depois. Fica pra outra. No meu caso, há vírus de diversos tipos para combater.

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terça-feira, 24 de março de 2020

A vida em tempos de coronavírus (5)


Opinião 


Sei de pessoas próximas que moram em localidades distintas, distantes de capitais e com tratamentos de saúde e medicação monitorados pela saúde pública. São sexagenárias, e nesses dias de exceção elas foram visitadas por agentes de saúde que lhes levaram os medicamentos para que não saíssem de casa expondo-se à contaminação pelo coronavírus e para que cumprissem as orientações do isolamento cautelar.

Seria leviano e uma estupidez apontar  esses casos específicos como representativos da prática e da qualidade do serviço social em nosso país. Contudo, vale dizer que não são casos isolados. E mais do que isso, vale refletir sobre quais são os elementos concretos que dão suporte a essas ações e que permitem essa prática, que deveria ser  padrão em todas a unidades de administração da saúde pública.

Com essa premissa, para quem tiver curiosidade e um momento de folga, sugiro buscar a  Constituição do Brasil  e ler uma de suas partes mais bonitas e importantes: o Artigo 194 do Título VIII (Da Ordem Social).  O acesso é simples, uma busca na web e chega-se lá.

A leitura é breve, curtinha, nem é preciso cair dentro. É lá que está instituído um conceito que poucos conhecem: a: SEGURIDADE SOCIAL. Trata-se de um conjunto que integra um tripé: Saúde – Previdência Social – Assistência Social. Coisas distintas que formam o conceito de seguridade   e cujos detalhes se desdobram nos artigos seguintes ao 194.

 É a garantia estabelecida no conceito de Seguridade Social que suporta o atuação daqueles agentes de saúde que visitaram os beneficiados para entregar as suas medicações. Infelizmente, porém, é a nossa ignorância sobre esse conceito  que estimula propostas que fodem a população, entre outras, aquelas que se justificam como decorrentes do tal “déficit da Previdência”.  Os argumentos dessas propostas misturam os conceitos para convencer aqueles que não têm noção dos significados dessa garantia constitucional. A recente reforma da previdência usou e abusou dessa ignorância.

O Artigo 194 é onde está determinada a responsabilidade dos poderes públicos e da sociedade para assegurar os direitos associados  ao tripé:  Saúde, Previdência Social e Assistência Social. É lá, ainda , que o parágrafo único estabelece como princípios, entre outros: a  universalidade da cobertura e do atendimento da seguridade; a irredutibilidade do valor dos benefícios e a   diversidade da base de financiamento.

Foram difíceis as batalhas na Constituinte em 1987/88 para a garantia desses direitos. Sem eles, hoje precisaríamos comprá-los sob a forma de serviços das corporações privadas. E eles vêm sendo permanentemente ameaçados e degradados. Contudo, são esses direitos que estão obrigando o empenho governamental para assegurar o enfrentamento da crise de saúde que estamos vivenciando.

Já virou lugar comum nesses dias de coronavírus o anúncio da situação especialmente positiva da sociedade brasileira por contar com um Sistema Único de Saúde, o SUS, que é parte integrante da Seguridade Social e que abriga todo e qualquer cidadão. Nessa hora de sufoco, a população não conta com um puto de níquel, sequer, dos grupos privados. Todos os recursos são públicos e direcioná-los para uma cobertura universal do atendimento é um direito nosso.

Passada essa crise, a onda para a privatização da Seguridade Social retornará. Tomara que possamos (quem sobrar) nos apresentar como uma sociedade mais instruída sobre nossas possibilidades e direitos, e que as ações daqueles agentes de saúde que citei no início do texto sejam uma prática corriqueira e nacional.
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