sábado, 4 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (16)


Opinião


Hoje o dia está especialmente lindo no Rio de Janeiro. Não chega a ser uma novidade nessa cidade privilegiada pela natureza, mas provavelmente outros dias assim virão na sequência. Inicia-se o outono, a meu juízo  a época onde ocorrem os dias mais bonitos em nossa região. Certamente quem representa a cara do Rio de Janeiro é o verão, mas os dias mais bonitos, não abro mão da minha preferência, ocorrem no outono. Eles são ensolarados e claros como no verão, mas as temperaturas são amenas e não agressivas. A natureza pode ser apreciada sem a necessidade de correr em busca de um abrigo na sombra. Mesmo caminhando por obrigação de trabalho, no clímax das temperaturas, ainda assim é possível desfrutar a visão da beleza dos dias do outono.

Da minha janela tem-se a impressão que a natureza está sacaneando a todos nós. Sedutora e provocante, mas protegida por nossas proibições de isolamento, ela convida-nos ao pecado. Sair às ruas, integrá-la, penetrá-la, fazer parte dela. Quase me entrego ao seu chamado. Acho que essa porra dessa natureza votou no Bozo!

Ao mesmo tempo, temos a oportunidade de aprendizados. Aliás, essa é a principal característica das crises, depois do fato gerador, naturalmente. A oportunidade de aprender. Estamos recebendo lições políticas duras, mas importantíssimas. O coronavírus desnudou as teses capitalistas, liberais e neoliberais. Os fatos têm mostrado que a doutrina dessas teses, carro chefe desse governo adorador de torturadores, é uma furada para os brasileiros. Para os que o rejeitam e também para os que o apoiam. A crise está aí, ensinando-nos que essa doutrina atende apenas a uma elite socioeconômica aproveitadora e lambedora de cú das corporações privadas internacionais. Essa mesma elite que convoca os trabalhadores a irem para as ruas e morrerem por elas.

As aulas da natureza, por sua vez - e por enquanto - são mais agradáveis. A web está cheia de imagens de paraísos naturais, de praias e recantos diversos, vazios da presença humana e que assim podem ser mostrados na plenitude suas belezas. Essas imagens são verdadeiras aulas da natureza que nos ensina, que apela proteção e nos alerta dizendo:

“Aproveitem-me! Não sejam babacas! Não estou aqui para ser estuprada, ferida e morta. Estou aqui para ser apreciada e para dar gozo e prazer para vocês e suas gerações. Sou bela, mas minha beleza só faz sentido e se completa com a presença humana. Sem essa presença isso aqui será apenas mais um planeta entre os incontáveis do universo!”

Em artigo recente,  o jornalista angolano Jose Eduardo Agualusa escreveu que seria um fracasso reconhecer que o planeta ficaria mais bonito se o homem desaparecesse por completo da sua superfície. Eu concordo, e nosso grande aprendizado deveria ser como não fracassar.

Na visão do filósofo Michel Serres, como todas as  os demais espécies ocupantes do planeta, sujamos o espaço que ocupamos determinando o nosso território. Não somos diferentes, diz ele.

Gosto muito da visão desse velhinho francês que admiro tanto. Acho que o nosso grande aprendizado será reconhecer isso e alcançar uma compreensão de valor superior – o da ocupação compartilhada, eventual, não proprietária e comprometida com a preservação. Assim como compartilhamos um banheiro ou um quarto. Conscientes e responsáveis por sua arrumação, limpeza e manutenção. Outros também usarão, outras espécies e outras gerações.

Até porque, não nos enganemos, a professora natureza entre os seus atributos também é rigorosa e não passa a mão na cabeça de ninguém.

”Aprendam!” diz ela. “E não se enganem, antes que me destruam eu fuderei com as vidas de vocês e com a sua espécie. Outras se servirão de mim!”.

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NOTAS

Artigo do jornalista José Eduardo Agualusa – “Os paradoxos do fim do mundo”. Disponível em <https://oglobo.globo.com/cultura/os-paradoxos-do-fim-do-mundo-1-24320212> - Acesso em 04/04/2020.

Livro filósofo Michel Serres – “O Mal limpo – Poluir para se apropriar?” – Ed. Bertrand Brasil – RJ – 2011

sexta-feira, 3 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (15)


Opinião


Alerto que essa publicação é longa, tipo textão, e abusa do leitor que, em consideração, dá atenção a essas anotações. Acontece que li um artigo e fiquei superimpressionado. Arrisco DUVIDAR que alguém que tenha lido o clássico “1984” de George Orwell não se impressione também.

O romance 1984 foi publicado em 1949, e nele do autor inglês apontava um futuro distópico de vigilância governamental onipresente, o “Big Brother”. Tal futuro estaria distante 35 anos daquela publicação. Hoje, distantes mais de 70 anos, vejam esse relato de um filósofo alemão de origem sul-coreana: Byung-Chul Han. O autor é reconhecidamente alguém muito bem informado e escreveu um artigo sobre a pandemia do coronavírus. No artigo vieram as informações que me impressionaram e extrai para publicar aqui. O link para o artigo completo (longo) está no final.

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As vantagens da Ásia (no combate à pandemia)

Em comparação com a Europa, quais vantagens o sistema da Ásia oferece que são eficientes para combater a pandemia? Estados asiáticos como o Japão, Coreia, China, Hong Kong, Taiwan e Singapura têm uma mentalidade autoritária, que vem de sua tradição cultural (confucionismo). As pessoas são menos relutantes e mais obedientes do que na Europa. Também confiam mais no Estado. E não somente na China, como também na Coreia e no Japão a vida cotidiana está organizada muito mais rigidamente do que na Europa. Principalmente para enfrentar o vírus os asiáticos apostam fortemente na vigilância digital. Suspeitam que o big data pode ter um enorme potencial para se defender da pandemia. Poderíamos dizer que na Ásia as epidemias não são combatidas somente pelos virologistas e epidemiologistas, e sim principalmente pelos especialistas em informática e macrodados. Uma mudança de paradigma da qual a Europa ainda não se inteirou. Os apologistas da vigilância digital proclamariam que o big data salva vidas humanas.

A consciência crítica diante da vigilância digital é praticamente inexistente na Ásia. Já quase não se fala de proteção de dados, incluindo Estados liberais como o Japão e a Coreia. Ninguém se irrita pelo frenesi das autoridades em recopilar dados.

Enquanto isso a China introduziu um sistema de crédito social inimaginável aos europeus, que permitem uma valorização e avaliação exaustiva das pessoas. Cada um deve ser avaliado em consequência de sua conduta social. Na China não há nenhum momento da vida cotidiana que não esteja submetido à observação. Cada clique, cada compra, cada contato, cada atividade nas redes sociais são controlados. Quem atravessa no sinal vermelho, quem tem contato com críticos do regime e quem coloca comentários críticos nas redes sociais perde pontos. A vida, então, pode chegar a se tornar muito perigosa. Pelo contrário, quem compra pela Internet alimentos saudáveis e lê jornais que apoiam o regime ganha pontos. Quem tem pontuação suficiente obtém um visto de viagem e créditos baratos. Pelo contrário, quem cai abaixo de um determinado número de pontos pode perder seu trabalho. Na China essa vigilância social é possível porque ocorre uma irrestrita troca de dados entre os fornecedores da Internet e de telefonia celular e as autoridades. Praticamente não existe a proteção de dados. No vocabulário dos chineses não há o termo “esfera privada”.

Na China existem 200 milhões de câmeras de vigilância, muitas delas com uma técnica muito eficiente de reconhecimento facial. Captam até mesmo as pintas no rosto. Não é possível escapar da câmera de vigilância. Essas câmeras dotadas de inteligência artificial podem observar e avaliar qualquer um nos espaços públicos, nas lojas, nas ruas, nas estações e nos aeroportos.

Toda a infraestrutura para a vigilância digital se mostrou agora ser extremamente eficaz para conter a epidemia. Quando alguém sai da estação de Pequim é captado automaticamente por uma câmera que mede sua temperatura corporal. Se a temperatura é preocupante todas as pessoas que estavam sentadas no mesmo vagão recebem uma notificação em seus celulares. Não é por acaso que o sistema sabe quem estava sentado em qual local no trem. As redes sociais contam que estão usando até drones para controlar as quarentenas. Se alguém rompe clandestinamente a quarentena um drone se dirige voando em sua direção e ordena que regresse à sua casa. Talvez até lhe dê uma multa e a deixe cair voando, quem sabe. Uma situação que para os europeus seria distópica, mas que, pelo visto, não tem resistência na China.

Na China e em outros Estados asiáticos como a Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura, Taiwan e Japão não existe uma consciência crítica diante da vigilância digital e o big data. A digitalização os embriaga diretamente. Isso obedece também a um motivo cultural. Na Ásia impera o coletivismo. Não há um individualismo acentuado. O individualismo não é a mesma coisa que o egoísmo, que evidentemente também está muito propagado na Ásia.

Ao que parece o big data é mais eficaz para combater o vírus do que os absurdos fechamentos de fronteiras que estão sendo feitos nesses momentos na Europa. Graças à proteção de dados, entretanto, não é possível na Europa um combate digital do vírus comparável ao asiático. Os fornecedores chineses de telefonia celular e de Internet compartilham os dados sensíveis de seus clientes com os serviços de segurança e com os ministérios de saúde. O Estado sabe, portanto, onde estou, com quem me encontro, o que faço, o que procuro, em que penso, o que como, o que compro, aonde me dirijo. É possível que no futuro o Estado controle também a temperatura corporal, o peso, o nível de açúcar no sangue etc. Uma biopolítica digital que acompanha a psicopolítica digital que controla ativamente as pessoas.

É possível que no futuro o Estado controle também a temperatura corporal, o peso, o nível de açúcar no sangue

Em Wuhan se formaram milhares de equipes de pesquisa digitais que procuram possíveis infectados baseando-se somente em dados técnicos. Tendo como base, unicamente, análises de macrodados averiguam os que são potenciais infectados, os que precisam continuar sendo observados e eventualmente isolados em quarentena. O futuro também está na digitalização no que se refere à pandemia. Pela epidemia talvez devêssemos redefinir até mesmo a soberania. É soberano quem dispõe de dados. Quando a Europa proclama o estado de alarme e fecha fronteiras continua aferrada a velhos modelos de soberania.

Não somente na China, como também em outros países asiáticos a vigilância digital é profundamente utilizada para conter a epidemia. Em Taiwan o Estado envia simultaneamente a todos um SMS para localizar as pessoas que tiveram contato com infectados e para informar sobre os lugares e edifícios em que existiram pessoas contaminadas. Já em uma fase muito inicial, Taiwan utilizou uma conexão de diversos dados para localizar possíveis infectados em função das viagens que fizeram. Na Coreia quem se aproxima de um edifício em que um infectado esteve recebe através do “Corona-app” um sinal de alarme. Todos os lugares em que infectados estiveram estão registrados no aplicativo. Não são levadas muito em consideração a proteção de dados e a esfera privada. Em todos os edifícios da Coreia foram instaladas câmeras de vigilância em cada andar, em cada escritório e em cada loja. É praticamente impossível se mover em espaços públicos sem ser filmado por uma câmera de vídeo. Com os dados do telefone celular e do material filmado por vídeo é possível criar o perfil de movimento completo de um infectado.

São publicados os movimentos de todos os infectados. Casos amorosos secretos podem ser revelados. Nos escritórios do Ministério da Saúde coreano existem pessoas chamadas “tracker” que dia e noite não fazem outra coisa a não ser olhar o material filmado por vídeo para completar o perfil do movimento dos infectados e localizar as pessoas que tiveram contato com eles ....
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Byung-Chul Han é um filósofo e ensaísta sul-coreano que dá aulas na Universidade de Artes de Berlim. Autor, entre outras obras, de ‘Sociedade do Cansaço’, publicou há um ano ‘Loa a la tierra’, na editora Herder.

Texto do artigo disponível em:

quinta-feira, 2 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (14)


Opinião


“Vamos conseguir atravessar esse túnel e ver o outro lado! “

Esse foi o comentário de um amigo querido em conversa telefônica. A um só tempo foi uma brincadeira, uma manifestação de esperança e, especialmente, estava “botando uma pilha”, preocupado com o meu estado de ânimo. Sigo embalado nesse incentivo e tenho , sim, enorme curiosidade em ver o que virá depois. Uma curiosidade esperançosa porque  sequer conseguimos ver a luz no fim desse túnel. Podemos até imaginá-la, mas ainda não podemos vê-la.

Contudo, não devemos descuidar do caminho porque viver é o caminhar. A vida está aqui, não está após o túnel. Descuidar do agora é não viver, e navegando no escuro temos coisas importantíssimas para tratar e realizar. Um tropeço imprudente, um degrau não percebido, mesmo que seja aquele último da portaria, poderá ser apenas um inchaço no joelho ou se transformar em uma enorme cagada.

Mas, vale também pensar em como será lá, na saída. A vida será outra. Como serão as coisas mais simples? As relações familiares, os amigos, a vida social e a vida afetiva? Outro companheiro observou: depois dessa, quem irá a um restaurante, a um teatro ou cinema como ia antes?

As  escolas e a vida escolar das crianças serão diferentes. Também os encontros, os passeios, as viagens, até o futebol. A ida a praia e aos cultos religiosos. A dinâmica dos grupos de cachaceiros dos quais participo certamente será outra.

Nesses poucos dias de coronavírus,  as nossas vidas, como eram, foram desarrumadas. Não foram destruídas, mas já estão desengonçadas, e mesmo que queiramos rearrumá-las  nos padrões anteriores isso levará tempo. Quem ainda não se deu conta disso e imagina que tudo estará ok daqui a pouco, no final do mês, está dando uma de Barrichello.

Sem contar os impactos em nossas vidas econômicas e financeiras (naturalmente refiro-me ao grupo de minhas relações. Posso especular, mas não conheço nem tenho relações com qualquer extrato da elite socioeconômica, tampouco com aqueles que já são, hoje, indigentes sociais).  Haverá impacto em nossos empregos, nossos negócios e compromissos. Alguém publicou uma brincadeira que gostei muito:

“Sobe para 9 os casos de boleto aqui em casa que não serão pagos, já são: 6 confirmados e 3 suspeitos. O pico de aumento vai ser agora do final de março a 15 de abril. “

Noam Chomsky, linguista,  filósofo e ativista político norte-americano, uma das principais referências para mim, foi entrevistado sobre a crise do coronavírus. Ele testemunhou e  vivenciou os mais importantes processos e eventos  históricos do século XX,  e o fez de uma forma crítica que o projetou como um dos grandes historiadores e pensadores políticos contemporâneos.

Segundo Chomsky,  a ideia de que o destino dos EUA e do mundo estão nas mãos de um palhaço sociopata é chocante. Para ele, o coronavírus é sério, mas há horrores maiores se aproximando:  a ameaça crescente da guerra nuclear, a ameaça do aquecimento global, além da deterioração da democracia.

O coronavírus é uma praga horrível e terá consequências terríveis, diz ele, mas poderá  ter uma recuperação. Para a guerra nuclear e o aquecimento global a recuperação não existe. Mas, são ameaças que podem ser tratadas,  embora não haja  muito tempo para isso,  e no caso da democracia, ela é a única esperança para superar as crises. Uma população informada, envolvida e assumindo o controle do seu destino é fundamental. Se isso não acontecer estaremos fudidos (esse termo é meu, não fiz tradução literal). E se deixarmos nosso destino nas mãos de bufões sociopatas (aqui são palavras do Chomsky) será o nosso fim.

Governados por palhaços, bufões sociopatas? A generalização  do Chomsky  foi perfeita!

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Nota:
Entrevista do Chomsky  publicada pelo no site Youtube  pelo site “acTVism Munich”em 28/03/2020  -  Trancrição em :< https://www.actvism.org/wp-content/uploads/2020/03/Noam-Chomsky-on-the-Coronavirus.pdf>


quarta-feira, 1 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (13)


Opinião


Penso nas coisas da vida como quase todo mundo, e também sem a pretensão de serem indagações filosóficas. Minhas especulações sobre o ser humano, a natureza, o planeta e o universo dividem espaço (e geralmente perdem) com dúvidas abissais sobre o que vou preparar para comer. Isso quando as questões sobre a manutenção da casa e  a lavagem da roupa já estão superadas.

Busco, então, fontes que conheço e outras sugeridas por dicas, para refletir a partir delas. Vou catando aqui e acolá tentando avaliar as possibilidades de transformação do mundo e os  desdobramentos sociais pós-crise coronavírus.  As avaliações de certas figuras são sempre educativas e nem sempre consensuais. Vão desde os cenários pessimistas até os otimistas esperançosos.

Ao mesmo tempo, e também por dicas de amigos, acompanho notícias sobre ações de gerenciamento econômico da crise que são reveladoras tanto de interesses como de interessados. As manchetes dessas notícias algumas vezes disfarçam a realidade, e mesmo os seus conteúdos passam batidos quando as atenções estão voltadas para a quantidade de contaminados e de mortos pelo coronavírus.

Recolhi, então, algumas notícias recentes cujos títulos eu reproduzi na íntegra e em caixa, alta entre aspas, seguidos da releitura dos seus conteúdos que fala por si e dispensa comentários adicionais:

“PARA DEPUTADOS DO NOVO, GOVERNO PRECISA FAZER INTERVENÇÃO” [Valor Econômico – RJ – 20/03/2020]
Trata-se de reivindicação do partido Novo, ultra neo liberal, pedindo  verba do governo para reforço do capital de giro das empresas. O mesmo partido que prega o fim do Estado e dá suporte ao governo para o corte de verbas para a saúde, educação, e transporte, além das ações para acabar com os funcionários públicos e aposentados.

“GOVERNO ASSUME RISCO E BANCO DEVE REATIVAR OFERTA DE CRÉDITO”  [Valor Econômico – RJ – 30/03/2020]
Essa notícia relata que os bancos pararam de emprestar dinheiro alegando medo de quebradeira generalizada. “Isso é problema do governo” disseram os bancos. O governo então está repassando 40 bilhões de reais para os bancos que emprestarão às empresas cobrando juros. E o Tesouro arcará com 85% do risco. O mais caricato é que os bancos fizeram propaganda junto aos micros e pequenos empresários em nome do Bradesco, Itaú e Santander. Salários dos trabalhadores garantidos por dois meses. “Tudo que a gente quer é que você cuide da sua saúde sim, mas mantendo sua empresa viva” – diz o comunicado dos bancos.

“CONSTRUÇÃO DE HOSPITAL DA FIOCRUZ TERÁ APOIO DO ITAÚ” [Valor Econômico – RJ – 31/03/2020]
Quem ler essa notícia sem crítica não valorizará como esse apoio “filantrópico” é operacionalizado. Na verdade, a grana, R$ 10 milhões, é repassada para o hospital  via o Instituto Unibanco e a Fundação Itaú para a Educação e Cultura, um mecanismo legal, ao qual as grandes corporações recorrem para obter reduções no Imposto de Renda.

“DONOS DO GRUPO VOTORANTIM DOAM R$ 50 MILHÕES” [Valor Econômico – RJ – 31/03/2020]
Ora, quem não te conhece que te compre! A informação está no corpo da notícia. O dinheiro do grupo vai para uma conta do Instituto Votorantim na mesma linha do mecanismo utilizado pelo Itau.

Enquanto isso, outra notícia diz assim: “VAREJO ACUSA BANCOS DE ELEVAR JUROS” [Valor Econômico – RJ – 30/03/2020]
A notícia refere-se a uma recorrência das associações de grandes varejistas junto ao governo denunciando o aumento expressivo da cobrança de taxas de juros pelos bancos após o início da crise que, em certos casos,  chegam a ser superiores a  70 por cento.

Com essas e outras, recorro a uma reflexão do sul coreano Byung-Chul Yang, um dos caras aos quais me referi no início desse texto:

“O vírus não vencerá o capitalismo ... Não podemos deixar a revolução nas mãos do vírus. Precisamos acreditar que após o vírus virá uma revolução humana. Somos NÓS, PESSOAS dotadas de RAZÃO, que precisamos repensar e restringir radicalmente o capitalismo destrutivo, e nossa ilimitada e destrutiva mobilidade, para nos salvar, para salvar o clima e nosso belo planeta” [ El País – Brasil – 22/03/2020]
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terça-feira, 31 de março de 2020

A vida em tempos de coronavírus (12)


Opinião


Estou entre os emocionalmente abalados com essa crise do coronavirus. Mas, não desesperado. Qualquer sentimento de autocomiseração é logo afastado quando levanto o olhar do umbigo e me dou conta dos tantos que não têm o mínimo de suporte e condições para atravessar essa crise. Ainda assim, vendo os prognósticos de alguns especialistas sobre as possíveis decorrências dessa situação, mesmo as otimistas, isento de alarmismos e de supervalorização do caos, sinto-me triste.

Minhas angústias não passam pelo risco, no meu caso relativamente grande devido à idade, de uma eventual contaminação. Pretendo ainda viver mais um tanto, mas me considero no lucro em termos de longevidade. Uma premissa que me permite encarar e tratar o risco com naturalidade, sem negar o cagaço nem a insegurança.

Contudo, penso nas outras gerações e, sem falso altruísmo, penso nos mais próximos. Meus netinhos  também estão vivenciando o afastamento social. Protegidos na medida do possível, mas sem fazer ideia do que está ocorrendo, em que pese as proteções que privilegiadamente eles podem desfrutar, não compreendem porque, de uma hora para outra, foram levados a um confinamento domiciliar e apartados do mundo que para eles não tinha limites.

Alguns especialistas alertam que não voltaremos à sociedade que deixamos antes do isolamento. Compreendo essa avaliação, mas  não penso nela como inusitada. Afinal, “ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio” – reflexão heraclitiana acertada e elaborada desde 500 A.C. Tudo flui, e assim como a sociedade pós-isolamento será outra, os meus pequeninos também já não serão os mesmos pequeninos. Mas, o vovô aqui gostaria que essa nova sociedade não fosse determinantemente distópica. Mas, uma sociedade com um mínimo de oportunidades para que eles possam projetar os seus sonhos e viverem os seus momentos de felicidade enquanto tentam construir o melhor para suas vidas.

No mais, sigo puto da vida, submetendo-me ao necessário afastamento provocado por esse sacana desse bichinho que não mede mais do que 0,0000001 metros. Controlo minhas vontades, meus desejos. Abraçar, beijar, cafungar e cheirar meus netinhos. Sempre fiz esse exercício de tentar deixá-los impregnados com a lembrança do meu cheiro (bom ou mau). Uma lembrança inconsciente porque aquelas conscientes serão naturalmente esquecidas com tempo.

Será pensando naqueles pequerruchos  e em nome de um futuro desejado melhor para eles que mais tarde cumprirei uma obrigação. Irei pra janela me manifestar contra esse grupo de filhos das putas que louvam os torturadores e assassinos que praticaram o golpe civil-militar de 31 de março de 1964 implantando uma ditadura em nosso país. Não passarão!
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segunda-feira, 30 de março de 2020

A vida em tempos de coronavírus (11)


 Opinião


Se forem mantidas as tendências, daqui a dois dias, no dia primeiro de abril, o Brasil contabilizará cerca de 5000 infectados e mais de 200 mortos pelo coronavírus. São números que refletem os casos  oficialmente confirmados, mas há estimativas, não oficiais, de quantidades maiores.

Um ex-ministro da saúde, médico sanitarista e atualmente pesquisador da Fiocruz, exemplificou a gravidade do quadro. Segundo o médico, nos meses de fevereiro e março nos últimos anos, em todo o país, tem sido de 250 casos a média de internações diagnosticadas como pneumonia viral. Já em fevereiro e março de 2020, antes mesmo do término de março, o registro era de 2250 casos. Certamente, afirma o médico, muitos dos casos decorrem do coronavírus sem estarem contabilizados na quantidade total de infectados.

Ainda assim, a quantidade de casos prosseguirá em curva ascendente e a tendência da situação, nesse momento, é ainda de se tornar mais grave até que apareçam resultados das medidas que estão sendo adotadas.

 Os relatos sobre os óbitos são tristes. Os procedimentos fúnebres precisam ser agilizados, o tempo para as cerimônias é reduzido e pré-determinado e o número de presentes limitado em torno de dez pessoas, São condicionantes impostos para reduzir as chances de novas contaminações.

Mais doloroso ainda, é que os casos fatais são tipicamente de idosos já com alguma fragilidade de saúde e com vida recente dependente do acompanhamento por familiares. Contudo, a porra da contaminação pelo coronavírus impõe o isolamento dos pacientes graves, sem qualquer contato com a família, mesmo nos períodos derradeiros de vida. As mediações desses pacientes com o mundo exterior tem sido realizadas pelos agentes de saúde que acabam absorvendo uma carga emocional para a qual não estão preparados, tornando-se eles próprios vítimas colaterais da situação.

Sinto como se estivéssemos nessa situação há uma eternidade, mas sei que infelizmente ainda é cedo para prognósticos. O afastamento social é uma necessidade e não dispomos nesse momento de alternativa melhor, embora a namoradinha do Brasil classifique como “egoísmo”. Atual secretária de cultura do governo federal, ela faz coro ao chamado imbecil para o suicídio que o ex-capitão boquirroto vem promovendo. Parece que a namoradinha resolveu responder ao grito de Cazuza: “Brasil, mostra sua cara!”  exibindo ela sua verdadeira cara e seus valores.

Em vez de chamar as pessoas para as ruas, esse povo que votou no fascismo e que ainda não se arrependeu poderia muito bem organizar uma festa e confraternizar, juntinhos, bem próximos, como uma demonstração de confiança em suas teses. Poderia juntar suas panelas e armas, abraçar-se e dançar coladinhos ao som das marchas militares que tanto apreciam, num grande baile celebrando sua mediocridade e estupidez. Quem sabe, na baía de Guanabara, naquele palácio bonito da Ilha Fiscal. Aliás, o nome original da ilha Fiscal era ilha dos Ratos.

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domingo, 29 de março de 2020

A vida em tempos de coronavírus (10)


Opinião


Hoje é domingo e mesmo que o dia peça um cachimbo para relaxar, isolado e com os serviços de entrega abarrotados de solicitações, nem mesmo tenho a quem pedir. A necessidade impôs uma ida ao mercado que fiz cercada de precauções, e no caminho fui pensando com os meus botões. Porém, sem qualquer criatividade, minhas reflexões não foram além do que deve estar na cabeça de milhões de pessoas no Brasil e no mundo: até quando vai durar essa merda?

Engraçado é que comecei a escrever esse texto, sem uma ideia completa de onde chegaria, mas minha diretriz era não gastar letras com referências ao ex-capitão Bozo e sua trupe. Afinal, tenho feito isso em outros textos. Mas, fui traído pelo subconsciente.  Até quando vai durar essa merda?

Na rua e no mercado achei as pessoas menos tensas, mais relaxadas, diferentes dos primeiros dias de isolamento. Lembrei do fotógrafo Sebastião Salgado, esse profissional especial que tem registrado e divulgado para o mundo tanto as atrocidades praticadas pela humanidade entre si, como as maravilhas naturais do planeta.

Em entrevista que não tenho como resgatar, Salgado foi questionado  sobre as coisas que mais o impressionaram em suas experiências. Segundo ele, entre outras ele se impressionava com a capacidade de adaptação do ser humano. Ele já tinha visitado acampamentos e cidades que viviam horrores inimagináveis, contudo, ainda assim, as pessoas buscavam alguma maneira de auto-organização  e de tocar suas vidas, mesmo que viver não fosse além de sobreviver.

O fotógrafo relatou que viu cidades (acho que se referia à Guerra da Bósnia) onde o genocídio era a prática corrente, e ainda assim as famílias tentavam levar suas vidas, indo fazer compras e desenvolver outras atividades . Até as crianças iam para as escolas, num cenário onde podiam ser assassinadas ou assaltadas e estupradas por um vizinho. Nunca esqueci esse depoimento.

Essa vontade inquebrantável de viver é uma característica do ser humano. Naturalmente não estou fazendo qualquer comparação de cenário entre a experiência que estamos vivendo com o coronavírus e aquelas registradas pelo fotógrafo, mas é interessante observar que vamos nos ajeitando, nos arrumando.

Esse comportamento não deve ser interpretado como indiferença, ao contrário, é justamente devido à sensibilidade à dor que vamos adotando uma indolência que nos permite suportá-la. Até onde eu sei, os faquires praticam exercícios que os permitem, por vontade própria, alcançarem um estado de indolência física. Parece que em certas circunstâncias os seres humanos em geral são levados inconscientemente a um plano de indolência social, talvez como forma de sobreviver e conseguir superar seus sofrimentos. Trata-se, acho, de uma característica que se desenvolve de forma distinta em cada um de nós. Em alguns ela se desenvolve como fé religiosa, não é o meu caso. Eu tenho esperanças.  

Hoje é domingo e pede cachimbo, mas optarei por uma cachaça e prosseguirei com minhas divagações esperançosas. Superar essa etapa e prosseguir buscando um mundo melhor. Com o mesmo sonho lírico de Riobaldo nas grandes veredas:

“ Para que eu carecia de tantos embaraços? Pois os próprios antigos não sabiam que um dia virá, quando a gente pode permanecer deitada em rede ou cama, e as enxadas saindo sozinhas para capinar roça, e as foices, para colherem por si, e o carro indo por sua lei buscar a colheita, e tudo, o que não é o homem, é sua, dele, obediência?”

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Nota:
O destaque da fala de Riobaldo eu copiei do livro “A Foice e o Robô: As Inovações Tecnológicas e a Luta Operária” - autor Eduardo Albuquerque – Ed. Página 7 – SP - 1990.

sábado, 28 de março de 2020

A vida em tempos de coronavírus (9)


Opinião


A natureza não está dando mole para a humanidade. Mas, não se pode dizer que fomos pegos de surpresa. As possibilidades de uma pandemia como a que estamos passando já foram apontadas por especialistas. Há vídeos sobre o assunto na web com premonições tão acertadas que até superam fantasias e ficções.

Diferentemente do  tsunami no Japão, em 2011, quando a natureza se manifestou com uma fúria incontrolável, sem dar qualquer chance de reação, nesse caso do coronavírus a humanidade teve e tem chances de reagir à adversidade natural. Os mecanismos de enfrentamentos além de serem possíveis e realizáveis, estiveram e estão condicionados quase exclusivamente à decisões políticas, ou seja, à escolhas sobre o modelo de organização social que os grupos humanos preferem adotar.

Ainda assim, mesmo que as melhores escolhas não tenham sido feitas, temos a oportunidade de mitigar os efeitos da pandemia e de corrigir aquelas opções. Isso significa, na prática, distribuir uma acumulação indecente de riqueza e recursos e significa, também, assumir práticas solidárias,  estabelecendo para os tempos futuros um acordo social que se contraponha ao modelo atual. Um modelo que se mostra frágil e incompetente nesses tempos de necessidades globais, tempos de crise. Então, temos escolhas.

Busquem nas agências de notícias internacionais. Não é preciso recorrer aos jornais de esquerda e sites socialistas. Busquem nas agências tradicionais e vejam a situação dos EUA e a zona total que está rolando por lá. Sem um sistema de saúde pública sob o controle e coordenação estatal, as autoridades americanas não conseguem sequer confirmar a quantidade de infectados cujas estimativas já ultrapassam 100.000 mil.

O governador do estado e, particularmente, o prefeito da cidade de Nova Iorque não saem da televisão. Ambos estão com um pau no cú  tentando explicar o que  vão fazer diante de uma situação que exige em uma estrutura pública de saúde, mas que está montada em bases exclusivamente privadas, o serviço de saúde mais caro do mundo.

Há o relato da BBC News de um sujeito que retornou da China e temendo estar contagiado foi a uma sala de emergências em Miami. Lá foi diagnosticado com resfriado comum e teve prescrições médicas. Duas semanas depois recebeu notificação que devia mais de 3 mil dólares ao hospital. Aí o sujeito adoeceu de fato!

Caricaturas a parte, certamente os EUA encontrarão suas saídas. Afinal, trata-se de uma sociedade rica, uma riqueza acumulada a custa de guerras e da exploração de outros países, diga-se de passagem. Assim, eles já estão comprando médicos e enfermeiros. O Departamento de Estado americano está oferecendo visto e contratação para os profissionais de saúde tratarem da pandemia coronavírus. Vejam cópia de matéria da revista Época, de hoje:

 “ ...  A notícia provocou o temor de que os EUA estejam tentando tirar médicos de países que já estão sofrendo com a pandemia do coronavírus e poderiam ficar sem mão de obra qualificada em um momento de extrema necessidade..”

Avaliando esse cenário é pertinente perguntar: e em nosso pobre Brasil, que escolhas faremos?  

Estamos como uma nau de insensatos. Um sequelado na direção do país e uma corja que o cerca tentando levar-nos para um caminho cujo único destino é a barbárie. Para esses filhos das putas a sociedade brasileira não passa de  ratos e crianças, e assim como o flautista de Hamelin querem guiar-nos  para o suicídio ou aprisionamento.

É mais do que hora da galera que elegeu esse pulha repensar suas escolhas. É preciso e possível mudar. A natureza e a história estão nos dando essa chance.


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sexta-feira, 27 de março de 2020

A vida em tempos de coronavírus (8)


Opinião


Por cacoete de formação, passei a registrar os números oficiais de infectados e mortos pelo coronavírus e a construir meus gráficos e linhas de tendências. Sei que os números reais distanciam-se dos oficiais do ministério da saúde, mas contento-me com esses últimos. Algumas revistas e jornais têm publicado gráficos da evolução da pandemia através dos quais é possível comparar sua evolução no Brasil com a Itália e o mundo

Naturalmente quaisquer comparações precisam ser cuidadosas, relativizadas, contextualizadas, evitando-se conclusões falsas e até absurdas. Então, mesmo feitas todas essas ressalvas, os números assustam. Uma relativização não elaborada, mas simples, é analisar a evolução de casos em quantidade de dias a partir do primeiro dado registrado. Por exemplo, no Brasil, 25 dias após o primeiro caso de contaminação, são contabilizados 1128 casos. Na Itália, após 25 dias da primeira contaminação a quantidade de infectados era 59.138. Já a quantidade de mortos 9 dias após a primeira morte registrada, no Brasil são 77 casos e na Itália foram 79. Hoje, na Itália, passados 32 dias da primeira morte registrada, o número de óbitos é de 8.215 casos numa população de 80.589 infectados..

Esses números só não assustam os que forem insensíveis qualquer que seja o caso ou ignorantes que não conseguem elaborar um mínimo de projeção sobre as possibilidades (não certeza) de evolução da pandemia. Entre os primeiros estão alguns que compreendem o quadro, mas, insensíveis, atuam maliciosamente valorizando exclusivamente os seus interesses. Entre os últimos estão aqueles que potencialmente podem ser utilizados como massa de manobra pelos primeiros. Sem generalizações, quem quiser saber dos primeiros busquem os empresários que estão colados nas teses da trupe Bozo, além do próprio líder da trupe. Já a massa de manobra está entre aqueles que apesar, de tudo, seguem apoiando o presidente Bozo , ele próprio, um vírus social. .

Tentando elaborar um mínimo de crítica sobre o quadro geral, entre amigos temos trocado ideias em videoconferências, sem a pretensão de conclusões apressadas ou definitivas. Fazemos brincadeiras sobre a situação de cada um e sobre nossas dificuldades técnicas e intelectuais no uso das ferramentas teleinformáticas. Ontem conversamos sobre o impacto dos pronunciamentos do ex-capitão boquirroto. A esse propósito, comentamos sobre as repercussões no comportamento geral. Um desgaste na imagem do apoiador de torturadores ou uma adesão às suas teses?

O ídolo dos milicianos trouxe para a ordem do dia a manifestação de mais um preconceito discriminatório, ao lado dos tantos que tem sido a suas referências de valores sociais. Agora a discriminação dos idosos. Sem constrangimentos essa pústula com mandato presidencial faz aflorar mais uma doença social que até aqui era mantida controlada. Já tem velhinhos xingados e sofrendo constrangimentos nas ruas.

Também conversamos sobre a falta de protagonismo da esquerda. Essa avaliação é quase consensual, embora existam divergências sobre as causas dessa situação. Mas há concordância sobre a tomada do discurso pela direita política.   As dissidências, os conflitos, as referências dessa ou daquela posição que estão sendo divulgadas na mídia de massa são (oportunamente) referências da direita. Esse é, entre outros, mais um dos obstáculos que a esquerda precisa superar

Enfim, apesar das dificuldades, geralmente concentradas entre a cadeira e o computador ou celular, acho que deveríamos insistir nessa prática dos encontros virtuais. Sugiro que outros também o façam. Parece um bom exercício nesses tempos de coronavírus.

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quinta-feira, 26 de março de 2020

A vida em tempos de coronavírus (7)


Opinião


Quando menino morávamos ao lado de um cemitério, e um comercio local típico eram as funerárias. A vizinhança toda se conhecia. O fulano, o beltrano, o sicrano donos dos comércios tal e qual, bem como os seus familiares. Uma organização social bem diferente dos dias de hoje quando vizinhos de portas em corredor de edifício são completamente estranhos.


Em uma das funerárias trabalhava o filho do proprietário, um moleque pouco mais velho que os da minha idade. A rapaziada local inventou que ele ficava na porta da funerária, na beira da rua principal, incentivando os idosos a atravessarem a rua cujo tráfego nem era intenso, mas não havia sinal (semáforo) naquele trecho.

 Dizia-se que ao ver idosos aguardando a oportunidade de atravessar a rua, mesmo vendo que vinha um veículo, o cara tapava a boca com uma das mãos e falava baixinho, mas alto o suficiente para o pedestre ouvir: “Pode ir que dá!” ou então “Aproveita, essa é a boa ... vão agora!”  Além de outras frases de estímulo que a galera criava. Segundo a rapaziada, ele fazia isso para turbinar o negócio do pai na venda de caixões e coroas de flores. Um atropelamento sempre seria uma oportunidade.

Essas conversas rolavam geralmente à noite, quando nos encontrávamos em uma das esquinas  e, naturalmente,  sempre com a presença do guia de velhinhos que ficava puto da vida, mas participava da gozação.

Eu nunca imaginei que um dia assistiria à representação trágica e real daquela invenção de moleques gonçalenses. Foi dela que lembrei ao ver o ex-capitão boquirroto estimulando os brasileiros a irem para as ruas e serem atropelados pelo coronavírus. Tudo para turbinar o negócio dos seus apoiadores.

Vão! É só uma gripezinha! Levem as crianças! Abram o comercio e as escolas! O ex-capitão incorporou o agente funerário que estimulava os velhinhos  a atravessarem a rua na frente dos carros. Mas, o fez  sem dissimulações. Bem alto e em pronunciamento nacional, ele exortou os brasileiros: Vão ... vão se fuder!

O ato do presidente funerário assustou até alguns que bancaram política e economicamente  sua marcha para o poder. O ato também provocou um efeito indesejado para esses apoiadores. Ele permitiu que a moçada que entregou o seu voto ao defensor  de torturadores veja a merda que fez.

Os seus  partidários espertos e ideológicos, na linha criminosa das fake news, até já forjaram vídeos para sustentar o pronunciamento do boquirroto.  Ao mesmo tempo, os seus partidários otários são usados como  buchas de canhão e tentam  divulgar os falsos vídeos. Mas, felizmente, esses buchas estão passando vergonha e constrangimentos porque são ridicularizados pelos destinatários que pensam e que refletem.

Por mim, quem achar que as medidas preventivas são indevidamente alarmantes deveria pegar a sua família e sair para as ruas. Há restaurantes abertos, até com promoções. Que vão às praias, estão vazias. Façam piqueniques.  Espirrem, tussam entre si, abracem-se. Façam-se de exemplo. Organizem-se em grupos e façam festas e encontros. Só não venham me visitar. Busquem alternativas. Atravessem  a rua, eu estimularei: Vão... vão  para a puta que os pariu!

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