sexta-feira, 3 de julho de 2020

Por trás de um sujeito medíocre


Opinião


Você acha que já viu e ouviu de tudo? E a Maria Antonieta do Século XXI? Quem já viu ou ouviu? Veja essa matéria de O Dia (link abaixo) e assista ao vídeo.

“A primeira-dama do estado de São Paulo, Bia Doria, disse em uma entrevista ao lado da socialite Val Marchiori que não se deve dar marmita para os moradores de rua, "porque eles têm que se conscientizar de que têm que sair da rua".
A esposa de João Doria (PSDB) é a presidente do Fundo Social de São Paulo atualmente. "As pessoas que estão na rua... Não é correto você chegar lá na rua e dar marmita, porque a pessoa tem que se conscientizar de que ela tem que sair da rua. A rua hoje é um atrativo, a pessoa gosta de ficar na rua", diz Bia Doria.” [1]




[1]
O trecho de matéria e o vídeo foram copiados, sem autorização, de publicação de O Dia, acessada em 03/07/2020 em <https://odia.ig.com.br/brasil/2020/07/5945178-em-video--bia-doria-diz-que-pessoas-gostam-de-morar-na-rua---a-rua-hoje-e-um-atrativo.html >

domingo, 21 de junho de 2020

Quero acordar “puto da vida!”


Leituras para distrair


Muita gente, talvez todos das minhas relações e da minha geração, deve ter ouvido alguma informação sobre o Blade Runner – o Caçador de Androides. Um filme da década de 80 e que deu origem à uma sequência intitulada Blade Runner 2049 lançada no ano 2017.

Há muitas controvérsias sobre o filme, mas o fato é que ele se tornou um clássico da ficção científica, e mesmo aqueles da minha geração que não tiveram ligação com o filme lembrarão da música tema da trilha sonora – um sucesso em nossos tempos da autoria do compositor Vangelis (buscar na web).

Blade Runner é uma história linda (a meu juízo). Trata de um futuro distópico (curioso é que o futuro é o ano de 2019) onde a maioria da população terrestre é obrigada a migrar para outro planeta, para onde também são transportados androides.

Os androides eram robôs com aspectos físicos indistinguíveis dos aspectos humanos, mas com potencialidades físicas  superiores e eram destinados a realizar as tarefas escrotas, liberando o ser humano de fazê-las. Eram projetados para uma vida limitada, curta, e sempre substituídos por versões mais atuais e aprimoradas.

Na Terra, só fica uma ralé de considerados incapazes, proibidos de migrar, além de  supermilionários que tinham o interesse em ficar no planeta. Desenvolve-se, então,  mundos paralelos. Um literalmente superior onde as pessoas se deslocam por máquinas voadoras entre pontos localizados em arranhas-céus, e um mundo inferior habitado pelos que não puderam emigrar para o planeta distante: Marte.

Aos androides, chamados de replicantes, era proibida a vida na Terra. Só poderiam existir no local para onde foram projetados. Porém, alguns arrumavam um jeito de fugir para a Terra onde havia uma polícia especial (Esquadrão da Morte) para caçá-los. Quando encontrados, os replicantes  eram  “aposentados”,  um termo metafórico para a eliminação das figuras.

A história do Blade Runner (primeira filmagem) se desenvolve em torno de um caçador de androides e de um grupo especial de androides que voltou à Terra buscando pelo seu “pai”, o sujeito que inventou os replicantes e que, naturalmente, era um arquimilionário dono da maior empresa de tecnologia de robôs.

Os replicantes questionavam tanto sobre a brevidade de suas vidas como o fato de não poderem  ser como os humanos, Os replicantes não tinham empatia, não conseguiam se identificar com os sentimentos de uma outra pessoa. Aliás, essa característica era a chave para identificá-los quando eram submetidos a interrogatórios. Mas, também era um critério contraditório na medida em que a própria sociedade estava se transformando em uma sociedade não empática. Qual a diferença, afinal? Paro por aqui, não deixem de ver o filme, versão original.

Ufa! Finalmente, cheguei onde queria.

O filme Blade Runner é uma adaptação de um livro originalmente chamado  "Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?” do autor Philip K. Dik – Editora Aleph – São Paulo-SP  que, mais tarde, devido ao sucesso do filme, assumiu o subtítulo Blade Runner.  

O filme baseia-se no livro, mas não é o livro. São duas peças de arte, ambas admiráveis. Porém, no livro, o autor refere-se a um objeto que não é valorizado no filme: o Sintetizador de Ânimos.

Em sua rotina caseira, o caçador de androides (no filme ele é solteiro) e sua esposa dispõem de um aparelho chamado Sintetizador de Ânimos através do qual podem sintonizar (canais) e programar (liga/desliga) o ânimo que assumirão pelo tempo programado. Por exemplo, o ânimo que acordarão e, ao longo do dia.

Em uma discussão (no livro), a mulher do caçador de androides ameaça sintonizar em um canal mais agressivo. Há também a opção de sintonia em um canal de “depressão”. Os casais podem sintonizar em canais comuns ou distintos.

Existem funções  ou canais, tais como: “atitude profissional”; “depressão autoacusatória de seis horas”; “criativa e vigorosaa atitude em relação ao trabalho”;  “agradecido reconhecimento da sabedoria superior do marido sobre todas as coisas”; “orgasmo”, além de outras para quem tiver curiosidade de ler o livro.

Claro que em decorrência dos tempos, busquei em minha estante meus Blade Runner.  Imaginei e resolvi compartilhar a pergunta:

Se você dispusesse de um Sintetizador de Ânimos, em qual canal você sintonizaria?

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quinta-feira, 18 de junho de 2020

Dia de nada, véspera de nada


Opinião


Hoje até poderia ser um dia de notícias alegres, se não fossem trágicas. Finalmente entrou em cana o criminoso foragido que parece ser peça chave numa das tantas engrenagens que fazem mover a corrupção de agentes públicos. Nesse caso, também  das associações desses agentes com as milícias. Gangs de policiais que praticam todos os tipos imagináveis de crimes, entre eles: extorsões e assassinatos.

O trágico é que o criminoso preso tem história, abrigo e ninho na família do presidente da República com quem sempre teve relações sociais diretas, além de outras relações, que estão sob investigações policiais, com os seus filhos e esposa. Trágico ainda é perceber que a figura, que parecia estar guardada e protegida até hoje,  foi desentocada por ações policiais que estão fora do âmbito da intervenção presidencial e, coincidentemente, próximas diretamente ou indiretamente do mando de ação de seus recentes desafetos governadores do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Também deveria ser recebida com alegria a demissão, na tarde de hoje, do fulano que trouxe prejuízos enormes para o país orquestrando o desmonte do nosso já combalido sistema educacional. Finalmente foi demitido. Possivelmente a contragosto do seu chefe, mas certamente por sua incomensurável mediocridade e incompetente arrogância. Ganhou um emprego onde talvez possa praticar sua estupidez à custa do dinheiro público, mas felizmente foi embora. Xô!!

Trágico, nesse caso, é imaginar que essa figura nefasta ainda assim ocupou durante tanto tempo o cargo que deveria ser um dos mais importantes do país, o de ministro da Educação e, tão trágico, ainda, é saber que para substituí-lo acenam com figura de mesma qualidade e valores.

Já nem me surpreendo tanto. Achei que aquela ministra da goiabeira era um marco que estabelecia a fronteira da mediocridade.Que não seria possível algo pior do que aquilo. Um tolinho eu fui. Recentemente, sei lá de onde, conseguiram sacar e fazer reviver a viúva Porcina que, mais uma vez, não mais em ficção, mas na vida real, foi sem nunca ter sido. Sabe-se lá, então, o que virá agora para o Ministério da Educação.

O poço de mediocridades onde esse governo se abastece parece não ter fundo. Felizmente, enorme também é a lixeira de história. Hoje ela está recebendo mais esse enxurro cujo nome em poucos dias será esquecido. Pode ser até que seja lembrado mais à frente,  se tiver que responder por alguns dos crimes que cometeu, porém seu destino é a irrelevância e o esquecimento. Vade retro!

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sábado, 13 de junho de 2020

Me dá um dinheiro aí!


Opinião


Demorou um pouco, mas o “entendimento” chegou à parte mais sensível do corpo: o bolso!

O guru estadunidense abriu o verbo e ameaçou a derrubada “... dessa merda de governo”.  Comprometido com suas responsabilidades, não deixou de dar orientações políticas: “... enfia essa condecoração no seu cú”.

O que o guru queria mesmo era um dindim. Logo providenciaram para ele um calaboca de alguns milhões. Resultado de uma vaquinha. Alguns com mais informações sugerem que a suposta vaquinha teria pastado em recursos públicos.

Outros parceiros também  começam a enxugar as lágrimas: os chacais do Centrão. Abocanharam cargos públicos, porém mais do que os salários que ganharão o que lhes interessa mesmo são as verbas que poderão administrar. Muita grana!

Esperava-se que o MCTI - Ministério da Ciência Tecnologia e Inovações fosse desocupado para ser negociado. Em vez disso, recriou-se o falecido Minicom enxertado com novas funções e com o seu orçamento mais atrativo. O cargo de ministro foi para o genro do Silvio Santos que é do Centrão. O MCTI desmembrado permanece útil para futuras barganhas.

Governadores que insinuaram rebeldia estão acossados pela PF. O sniper do Rio de Janeiro pediu arrego na primeira prensa que levou. O herdeiro do clã Barbalho, no Pará, está mordido nos calcanhares pelos farejadores da PF. O midiático governador de São Paulo botou as barbas de molho porque já foi avisado que a sua batata assando. O ruralista de Goiás até anunciou um rompimento, mas se fechou em copas. Afinal, membro da UDR que se preze não rompe com governo reacionário.

Na Câmara, Maia Junior afinou o discurso, finge que estica a corda, com bastante cuidado para não romper. O chefe do Senado fez firula. Rejeitou a MP que daria poderes ao sinistro da Educação para nomear reitores biônicos. Quem não te conhece que te compre!  Esse cara foi levado ao cargo numa briga de foice denunciada até pelos seus pares. Sua eleição foi considerada a primeira vitória política do Bozo pós-eleição. Nada sairá dali porque de onde não se espera nada é que  não sai nada mesmo.

O pessoal da capa preta, vagabundos conforme o sinistro da Educação, sentiram-se violados em seus pudores. Quem diria!  Revidaram autorizando a publicação daquela pornoreuniãoministerial. Aqui e acolá fazem despachos onde insinuam outras retaliações, mas sabem que uma reação à altura desvelaria suas próprias cumplicidades. Foram coniventes na trama que destituiu a Dilma e desaguou na eleição desse governo fascista. O Bozo está dando um tempo. Colocará seu pessoal lá dentro e um deles será “terrivelmente evangélico”. Cá pra nós, nem será novidade se aparecer no STF mais um general fardado, de pijamas, toga ou cuecas, quem sabe.

Por falar em general, tem a turma que apareceu com a recomendação: ”Quem me mandou aqui foi o Gandola!”. Essa turma é geneticamente golpista. Sempre buscou compensar sua natureza desenvolvendo seu lado de competência técnica inegável em diversas áreas, mas a natureza parece ser mais forte. O governo está prenhe de incapazes com distintivos e insígnias que estão conseguindo degradar até o histórico de competência.  Salários altos trocados por fidelidade.

Porém, muito, muito, muito mais importante do que as tratativas com o Centrão, o Maia júnior, governadores, Senado, com algum mamulengo no STF ou os indicados pelo Gandola serão aquelas com o PIG – Partido da Imprensa Golpista. A indignada tríade marrom: estadão-folhão-globão.

Não nos enganemos. Se forem bem irrigados com as verbas de propaganda que desejam, esse fingimento midiático sobre:  “pretos, marielle, paraisópolis, pobres, sobradinhovale, índiomortoqueimadas” e outros acabará. Essas pautas  cederão espaço para: “agroépop,  empreendedorismo,  computadornaescola” e mais o que for necessário para maquiar a cara desse governo genocida.

Embarcar na possibilidade de alianças ou arranjos de qualquer natureza com esses atores é uma furada. Será ignorar o papel deles e o nosso.

Não é possível qualquer aliança com essa turma sob a perspectiva de uma transformação da ordem social em nosso país que seja favorável à maioria da população, aos seus trabalhadores ou à correção de históricas e monstruosas distorções na distribuição da riqueza que produzimos.

Muito menos à criação de um espaço onde seja possível efetivamente avançar as temáticas de discriminações sociais, de preservação ambiental e de outras ordens que, felizmente e finalmente, a própria organização popular está colocando em pauta,  rompendo bolhas institucionais.

Nossos objetivos são conflitantes, e mesmo os que parecem comuns, só parecem. 

Isso não exclui a agregação e aglutinação nas lutas de participantes diversos. Mas, se existirem ações comuns que elas se consolidem  nas ruas, na prática e nas lutas para botar pra fora esse governo fascista e capataz do capitalismo.

Nesse momento, as fronteiras de nossas diferenças estão demarcadas pelas palavras de ordem: Fora Bolsonaro e Mourão!.  E não haverá grana que apague essas diferenças, nem santo casamenteiro que abençoe essas alianças.
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domingo, 31 de maio de 2020

Em gaiola de porcos não se espera ver pássaros


Opinião


Conjecturo sobre a nossa situação política. Construímos caminhos por onde prosseguirão  pessoas que são nossas queridas. Gerações mais jovens, além de outras que estão por vir. Sequer estaremos com elas que deverão, a seu modo, construir seus atalhos e caminhos. Mas nem por isso deveríamos “deixar pra lá”.

Resgatei imagens do Amilton Krenak (link abaixo) - liderança indígena que hoje é uma referência política e que têm um papel importante na história do nosso país. Muitos da minha geração se emocionaram com a apresentação do Krenak em uma das audiências para a elaboração da Constituição de 1988. 

Divulgada até pela Globo, a apresentação do Krenak, em setembro de 1987, impactou decisões e contribuiu para o reconhecimento de direitos das nações indígenas, determinando compromissos para os atuais e futuros habitantes desse país que, afinal, resulta de uma ocupação violenta e do extermínio de povos que eram seus habitantes originais.

Hoje, mais de 30 anos após a apresentação de Krenak, a sociedade brasileira levou ao poder, como ministro da Educação, um infeliz que vomita e extravasa a sua discriminação preconceituosa, afirmando que “odeia o termo povos indígenas”.

Krenak foi questionado sobre a fala do ministro, e respondeu:

“ Não somos a humanidade que pensamos, não há uma qualidade “humana”. Se ela existisse, não estaríamos discutindo. Perturbou-me que alguém como essa figura tenha sido escolhida como ministro da Educação. Isso foi uma surpresa, mas dado que isso aconteceu ...”
“Nessa gaiola de porcos eu não esperava nenhum pássaro”

Busquei na internet e vi que a pústula, atual ocupante do Ministério a Educação, tinha cerca de 16 anos de idade quando Krenak, também jovem, ainda com seus 34 anos, impactou o Brasil discorrendo sobre os seus ancestrais e as pessoas de sua origem.

Naquela ocasião Krenak não reivindicou um direito de posse absoluta. Argumentou que suas reivindicações apoiavam-se nas relações dos povos indígenas com a natureza que os cercava. Sua apresentação na constituinte foi emocionante. Mas, vale a pena abster-se da dramatização que ele representou e concentrar-se no seu discurso.

Eu não cobraria de um adolescente de 16 anos a compreensão e  significado do conteúdo da defesa do Krenak na Constituinte. Contudo, independentemente de minha vontade, aquele jovem de 1987 hoje se aproxima dos 50 anos de idade e  assumiu uma  postura canalha com a qual não há como contemporizar.

A pústula adolescente em 1987 transformou-se nesse tumor horrível que infecta toda a sociedade. Contamina todos nós. Precisaria ser lancetado. Expurgado. Ele faz mal e nos putrefaz – mesmo os que não votamos nos fascistas e que não contribuímos para a formação dessa excrescência.

De qualquer forma, estamos falando de política, de escolhas. Não existem deuses nem certezas absolutas. Valores, interesses e intenções são distintos. Acho que vale buscar conhecer melhor e lembrar Krenak – e continuar firme em nossas lutas. Faria bem se essa merda fedorenta e insalubre que ocupa a posição de ministro da Educação fosse desfeita em descarga sanitária. Decomposta, filtrada pela natureza. Talvez, em situação futura, até possa voltar estrumando possibilidades saudáveis de vida. Por ora, é lixo.

Trecho do documentário “Índio Cidadão” – acesso em 31/05/2020 em <https://www.youtube.com/watch?v=kWMHiwdbM_Q>

Live promovida pela editora Companhia das Letras em 24/05/2020 - Mesa 6: Sonhos para adiar o fim do mundo, com Ailton Krenak e Sidarta Ribeiro – Acesso em 31/05/2020 em <https://www.youtube.com/watch?v=95tOtpk4Bnw>

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sábado, 23 de maio de 2020

O carteiro, o poeta e o cú


Opinião


Ardiente Paciencia é o título original de uma novela do autor chileno Antonio Skármeta que se tornou um sucesso internacional quando foi adaptada para o filme “O carteiro e o poeta”, uma ficção baseada na relação entre Pablo Neruda e um carteiro, quando o poeta estava exilado em uma ilha na Itália.

Parte do filme se circunscreve ao desejo do carteiro conquistar uma amada e que não compreendia porque ele (carteiro) se apaixonava pelas descrições de Neruda. Descrições que eram distantes da sua realidade concreta, mas que, ainda assim, o emocionava e ele conseguia compreender os seus significados. Neruda conversa e fala ao carteiro sobre as metáforas poéticas. O filme é lindo, vale a pena ver e rever.

Na sexta-feira última, divulgou-se por decisão do STF o vídeo da uma tal reunião do Bozo com os seus ministros, na qual ele chutou o pau da barraca e, junto com a barraca, o seu ministro mais importante, o juiz de primeiro piso já revelado como um pilantra pelos áudios da agência de notícias Intercept.

Sim, mas até aqui, onde o cú se relaciona com as calças?

Amigos, sei perfeitamente que a quarentena que já caminha para a setentena está insuportável. Mas, após ver o vídeo da tal reunião, conclamo: Aguentem firme! A batalha é bem mais cruel nas linhas de frente, onde está o Bozo, representante eleito da nação, e a trupe que ele montou como seu corpo ministerial.

Deduz-se ao assistir o vídeo que, duro mesmo, deve estar sendo para o ex-capitão boquirroto. Em  meio à calamidade de uma pandemia internacional, ele se mostra transtornado porque acha que querem estourar com as suas hemorroidas e, provavelmente, também as hemorroidas ministeriais devido à relações de compromissos que ele declara durante a reunião

“Eles querem a nossa hemorroida, a nossa liberdade” – é a fala do Bozo

Você que está ai, em seu isolado conforto seria capaz de imaginar essa ameaça? Faço essa interrogação porque, adianto,  eu sucumbiria diante de tal ameaça.

Um bozominion apressado levará os dedos ao ânus, fará uma redução (reposição na posição anatômica correta de um órgão - hérnia, invaginação) da sua própria veia que poderá estar evaginando (protusão de um órgão ou de parte de um órgão para fora da sua localização normal) e gritará por seu mito, ao mesmo tempo em que tentará reposicionar suas hemorroidas: “Ele está falando metaforicamente, simbolicamente”.

Imaginei Pablo Neruda tentando ensinar ao carteiro Mássimo essa metáfora.

Companheiro, busque todos os autores literários, os romancistas ou poetas. Busque em outras artes: teatro, cinema, dança. Busque na escultura, na arquitetura, na pintura. Busque na música essa arte que nos é tão próxima.

Qual artista foi capaz de construir essa imagem poética, essa expressão metafórica, essa representação simbólica da liberdade: as hemorroidas.

De fato, esse presidente é um mito, um cú!

NOTA:
Trecho de reunião ministerial de 22/04/2020 - Acessado em 23/05/20220
 em <https://vimeo.com/421714691>

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domingo, 10 de maio de 2020

A vida em tempos de coronavírus (52)


Opinião


Um Dia das Mães bem estranho. É certo que há bastante tempo eu acho Dia das Mães um troço bem avacalhado e sem significado para mim, mesmo quando ainda tinha a minha. A data tem origens controversas, mas hoje não passa de um artifício comercial com recordes de vendas nos dias que antecedem. De qualquer forma, hoje não poderia deixar de estar estranho, é o primeiro Dia das Mães em meio a pandemia do coronavírus. Tomara que seja o único.

Como as famílias estão, em grande número, praticando o isolamento social, muitas mães que já são avós possivelmente estarão isoladas, sem a companhias dos filhos e netos. Certamente isso é motivo de uma tristeza não superada pelas vídeo chamadas via celular. O lado positivo é que muitas mamães não estarão sofrendo maus tratos em restaurantes. Geralmente uma porção de filhos resolve “compensar” suas mães no “seu” dia e, em vez de preparar, eles próprios, alguma recepção confortável para a mamãezinha, levam-nas para almoçar fora.  O que se vê nas ruas da cidade são filas enormes nas portas de restaurantes e churrascarias, cheias de velhinhas esperando a liberação de alguma mesa onde, apertadinhas e desconfortáveis, serão maltratadas pelos garçons atrapalhados no atendimento da casa lotada e prestando um péssimo serviço.

Aqui, no Rio, o Zeca Pagodinho montou uma apresentação ao vivo com acompanhamento musical e transmitida pelo youtube. Não faço ideia do local físico – acho que nem foi divulgado – mas ele esteve lá, numa belíssima apresentação. Os músicos afastados entre si e o único público, ao que pareceu, foram moradores da vizinhança que puderam assistir pelas janelas. Estava lá, afastado do Zeca e conduzindo musicalmente o show o maravilhoso Paulão 7 Cordas, um dos grandes artistas musicais do nosso país.

Essas tais de “lives” (hoje estão programadas várias) passaram a fazer parte das nossas vidas isoladas, e as cenas do show do Zeca, em que pese a beleza do show, foram de um significado que nada tem de belo. Não sabemos como será a vida após o coronavírus, mas se a impossibilidade de proximidade e de contatos, como as cenas que temos assistido, se tornarem uma prática obrigatória, arrisco dizer que nosso futuro estará fudido. Os seres humanos, pelo menos essa espécie que conhecemos, não suportarão. Naturalmente a adaptação ocorrerá, mas os adaptados formarão quase uma outra espécie. O coronavírus terá sido o marco da nossa transformação.

Usarei esse Dia das Mães como uma referência simbólica do término de uma prática que iniciei junto com o isolamento social: escrever diariamente nesta serie “A vida em tempos de coronavírus”. Hoje interromperei a sequência. Sem motivo especial, apenas para dedicar o tempo a outras tarefas sem o compromisso comigo mesmo de alguma redação diária. Sempre usei o blog como um caderno de anotações e continuarei usando, mas sem a rotina diária a qual me obriguei no começo do isolamento.  

Nas datas de Dia das Mães e Dia dos Pais, há algum tempo, com alguns amigos celebramos o dia dos “sem mães” ou “sem pais” bebericando juntos umas cachaças e provando uns tira-gostos. Hoje a celebração será isolada, típica da vida em tempos de coronavírus.

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sábado, 9 de maio de 2020

A vida em tempos de coronavírus (51)


Opinião


O dia lá fora está lindo – hoje, sim, um sábado carioca. Com um dia bonito desses é dificílimo para qualquer um ir embora do Rio, incluindo esse sacana desse coronavírus. Como não se maravilhar e se deixar ficar?

São tempos difíceis, mas eu estaria sendo hipócrita se me incluísse entre os que amargam as penúrias desse tempo. Estou no grupo dos privilegiados, felizmente. Minhas angústias são por solidariedade. Então, não haverá muito o que inventar hoje. Sentar e descansar porque é sábado, comer feijão com arroz  (arroz de carreteiro que já estou preparando) porque nessa conjuntura sou  efetivamente um príncipe, dançar e gargalhar ouvindo Aldir Blanc e, mas tarde , bebericar umas em um encontro de bar virtual com amigos.

Entre os compromissos prazerosos gravarei um vídeo pra minha netinha linda que aniversariará na próxima semana e terá que se contentar com uma festinha virtual. Nunca imaginei isso em minhas projeções futurísticas, mas o século XXI está aí, desse jeito. Esse é o século das nossas crianças.

O governador do Estado, aquele que gosta de passear de helicóptero atirando sobre as comunidades como se fosse uma prática de tiro ao alvo, resolveu não decretar o tranca-rua estadual . Deixou sob a responsabilidade das prefeituras. O prefeito do Rio, onde moro, não adotou a medida em toda a cidade, mas o prefeito da minha cidade de origem – São Gonçalo – determinou o tranca-rua no município durante cinco dias, sujeito à prorrogação. 

A partir da próxima segunda-feira (11) até a sexta-feira (15), a ordem é haver isolamento social rígido, com fechamento total de todos os estabelecimentos não essenciais e proibição de permanência da população  em vias e locais públicos durante esse período.

São Gonçalo é a cidade mais populosa do Rio de Janeiro depois da capital, e no Brasil é a 16ª. cidade em população, incluindo as capitais. Tem cerca de um milhão e cem mil habitantes, mas é uma cidade pobre. O PIB per capita da cidade é aproximadamente R$ 16.500,00 bem menor que suas primas ricas e vizinhas: Maricá e Niterói

O PIB per capita  de Niterói é aproximadamente R$ 55.000,00 e o  de Maricá é aproximadamente R$ 75.000,00. O PIB per capita de Maricá é 1,36 vezes maior que o de Niterói e 4,5 vezes o de São Gonçalo. E o PIB per capita de Niterói é 3,3 vezes o de São Gonçalo.

Essa "pobreza" gonçalense se reflete naturalmente nos recursos para o enfrentamento da pandemia. Embora eu ache que a decisão do prefeito tenha sido uma boa medida, que torço para dar certo, suponho que será bem difícil a imposição efetiva do tranca-rua se não houver uma adesão em massa e consciente da população.

No mais, tentarei passar bem o dia para não atrapalhar o sábado.

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sexta-feira, 8 de maio de 2020

A morte em tempos de coronavírus (50)


Opinião


Um companheiro antigo, foi trabalhador da Embratel, militante político e sindical de primeira linha, costumava brincar que a sociedade é como uma  mulher maravilhosa que se apresenta para nós nua  e com olhar cativante, incluindo o irradiado por aquele olho vesgo no meio da testa. Com seios à mostra, sedutores e desejados, todos os três, desfila com graciosidade sem depender nada de sua perna atrofiada. Com um gestual engraçadíssimo e uma narrativa que infelizmente eu não consigo reproduzir, ele prosseguia descrevendo uma figura completamente deformada, embora singular e  até bela nas particularidades de algumas de suas  partes.

Lembro da brincadeira desse companheiro sempre que me deparo com certas situações que  - para mim – são inesperadas e que me surpreendem porque estão bem além das que eram as minhas expectativas. Isso aconteceu hoje, ao ver as notícias que viralizaram na web sobre a entrevista, na TV CNN, da namoradinha do Brasil, levada ao cargo de Secretária Especial da Cultura no Ministério do Turismo do governo Bozo.

Seria ignorância minha surpreender-me com esse ou aquele fulano mostrando-se colado ao governo fascista. Afinal, o governo foi eleito e alguém terá que ter votado nele, embora ele mesmo diga que, apesar da sua vitória, o processo eleitoral foi fraudulento. Também não me surpreende que parte das pessoas tenham efetivamente valores fascistas. É verdade que uma parte expressiva de eleitores foi manipulada por lideranças religiosas evangélicas e, também, que no Brasil existe uma máquina eleitoral, super eficiente, manobrada pelo capital privado que sustenta o loteamento do país em verdadeiros currais eleitorais.

Sei que o voto obtido como produto dessa estrutura de domínio do processo eleitoral não tem qualquer relação com ideologia ou compromisso com valores fascistas. Mas, também é verdade que uma boa parte dos apoiadores da trupe Bozo são pessoas que tem acesso à informação e que fizeram a adesão por escolha sustentada por seus valores - a namoradinha do Brasil está nesse grupo. Em princípio, não deveria surpreender-nos assisti-la declarar os seus valores políticos.

Mas, a entrevista da namoradinha foi bem além das expectativas. Foi um espetáculo de reacionarismo, fascismo, idiotice e cretinice, pra Damares nenhuma colocar defeito. A moça constrangeu o entrevistador cantarolando “Pra frente Brasil!”, o jingle da TV Globo na Copa de 1970 que acabou se transformando num hino de memória da ditadura. Sorrindo e rebolando na cadeira, gesticulava e perguntava se “não era bom quando a gente cantarolava isso”. 

Cara a cara com a entrevistada, o sujeito, sem sem graça, e que pela jovem aparência nem devia ser nascido na época da canção inesquecível da namoradinha, comentou que as questões tinham a ver com as mortes na ditadura (militar) e ela replicou perguntando: “por que as pessoas se espantavam – na humanidade não se para de morrer – sempre houve tortura”.

Em estúdio distante, os repórteres colocaram um vídeo de outra artista, a Maite Proença, gravado no dia anterior e especialmente para a entrevista. A Maite Proença criticou o silêncio da secretária sobre as mortes recentes de artistas que são verdadeiros ícones da área. A namoradinha surtou. Empombou com os repórteres. Disse que aquele não era o combinado. Disse que estavam desenterrando vídeos, desenterrando mortos, que os repórteres estavam carregando um cemitério nas costas e que deviam estar cansados por isso. Os repórteres ainda replicaram que não estavam desenterrando, ao contrário o país estava enterrando centenas de pessoas em decorrência da pandemia do coronavírus. Foi um desbunde geral e a produção do programa encerrou a entrevista. Acredite quem quiser! A gravação da entrevista está acessível na web.

Mas, não ficou por aí. Um general de pijamas, o mesmo que em 2018 fez ameaças à nação em vésperas de julgamento do Lula, fez questão de emitir nota dizendo: “ fiquei encantado com a Regina pela demonstração de humanismo, grandeza, perspicácia, inteligência, humildade, segurança, doçura e autoconfiança que nos transmitiu”

Cara! Eu fico estarrecido, e me acho um merda em minha capacidade de avaliações de situações e de possibilidades, quando vejo uma figura como essa, a namoradinha do Brasil,  desabrochando politicamente.

Claro que a mediocridade não tem limites, sei plenamente disso, mas burramente eu imaginava que o governo Bozo já havia esgotado as possibilidades de novas figuras para os seus quadros que fossem a um só tempo “notáveis” e caricatamente escrotas. Aí aparece essa coisa, essa namoradinha, desse jeito, sem nenhuma necessidade de explicação ou adjetivação. Puta que pariu! Acho que estou encarando aquele olho vesgo que o meu amigo descrevia.
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quinta-feira, 7 de maio de 2020

A vida em tempos de coronavírus (49)


Opinião


Hoje o dia não amanheceu carioca. Algum implicante diria que ele está meio paulista, mas seria apenas implicância, dessa típica de vizinhos que sempre trocaram farpas sem assumirem a admiração de um pelo outro.

Mas, paulista, ou qualquer coisa, o certo é que a cara desse dia não está nada carioca. Pode ser até que, considerando o fato de estarmos em isolamento social e que as coisas estão todas andando numa velocidade meio barrichello, quem sabe, o dia resolveu despertar mais tarde. Porém, já passou a metade dele e ainda está escuro, triste, chuvoso e desanimado. Parece que está esperando o que vem sendo anunciado pra hoje: o tal do  lockdown – já batizado pelos cariocas como o “tranca – rua”.

Desde ontem as notícias dão conta que uma decisão governamental ocorreria hoje, com a deliberação de um lockdown em todo o estado, incluindo a capital. Algumas regiões já estão com determinações de lockdown parcial, mas agora seria “à vera”.

A coisa tá feia! Tem encaminhamentos feitos pelo Ministério Público para esse tipo de decisão e pareceres da Fundação Oswaldo Cruz para que a medida seja adotada. Há uma quantidade enorme de casos de contaminação e óbitos na cidade, tem a velocidade das contaminações, tem a não adesão de parte significativa da população ao isolamento social e, especialmente, tem as condições e capacidade de atendimentos da rede de saúde. 

A rede pública já está com esperas de internações em UTI ultrapassando a casa do milhar e a rede privada com cerca de 90% da sua capacidade de atendimento comprometida. Em suma, estamos no limiar do colapso da rede de saúde como um todo ou até já entramos nele. Tudo leva à necessidade do tranca-rua. Pode ser até que a decisão seja anunciada enquanto elaboro esse texto.

As notícias que tenho acompanhado de outros locais informam que, na sequência do colapso assumido do sistema de saúde, outras situações se caracterizam, como a derrubada de pedras enfileiradas de um dominó. O sistema funerário é um deles. Há outros cujas restrições ainda não se fizeram sentir devido a esse isolamento social meia bomba que, entre outras dificuldades, vem sendo sabotado numa atitude genocida do governo federal. A determinação oficial do tranca-rua e o endurecimento dos controles teria consequência sobre tais sistemas que ainda funcionam oficiosamente.

Particularmente acho que é necessário esse tranca-rua. Assumo que o meu “acho” é quase leviano, mas essa não é a intenção. Uma das nossas fragilidades é justamente não contarmos com informações que permitam a qualquer cidadão a formação de uma massa crítica e emissão de uma opinião mais consistente, até para auxiliar as autoridades em suas decisões. Então, o jeito é fechar exclusivamente com a opinião de especialistas confiáveis, como é o caso dos profissionais da Fundação Oswaldo Cruz, e apoiar esse tranca-rua sem outras considerações.

Também vale esclarecer que me refiro a “esse” tranca-rua porque a entrada em cena do “outro”, aquele com letras maiúsculas, além de ser fundamental, não depende de decisão de governador.  Certamente ele já deve estar por aí, há bastante tempo, trabalhando e esforçando-se para atender às solicitações da galera que a ele já recorreu.

Curiosamente, ao mesmo tempo em que talvez seja preciso atender a esse tranca-rua social, é fundamental não assumirmos o lockdown individual, dos sentidos e das emoções. Particularmente não me sinto ameaçado por essa possibilidade, felizmente, mas seria estupidez não considerá-la. Essa não pode acontecer. Tudo que vi mostra que essa contaminação não é muito diferente do coronavírus, não vemos chegar e quando percebemos já estamos contaminados.

Pensando assim, precisamos assumir essa atitude de resistência e enfrentamento como referência. Quem não o fez, sugiro adotá-la. Nem que seja por curiosidade. Talvez não seja uma razão nobre, mas sempre será um motivo e o importante é não esmorecer. Pode até ser um motivo mórbido, mas quero saber onde essa merda toda vai dar - e também quero ver muitos, muitos  e mais, mais, mais  dias cariocas.

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