terça-feira, 14 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (26)


Opinião


O impacto negativo da crise do coronavírus na estrutura social do país já está ocorrendo. Projeta-se a sua versão para o período pós-isolamento, mas seus efeitos já estão sendo experimentados. Não será necessário esperar para percebê-los ou senti-los.

Assim, não temos que esperar o agravamento, nem o clímax, nem o refluxo pandêmico para encaminhar, propor, apregoar e lutar por providências que assegurem melhores condições de vida para a população, especificamente na área socioeconômica.  E o  que desejamos é, na mais modesta das hipóteses, maior distribuição da riqueza que, nunca é demais repetir, é construída exclusivamente pelos trabalhadores e apropriada por parasitas no sistema de produção.

Infelizmente, para um enorme número de pessoas esse discurso soa como um “blá, blá, blá político”, no sentido pejorativo do termo. Parece uma conversa já vista e vazia, e o próprio termo “discurso” é assimilado como algo sem valor e inconsequente. Essa maioria não é engajada e, pior do que isso, é  alienada das disputas por modelos sociais, embora sofra todas as consequências  desses embates.

Por outro lado, há um grupo de sujeitos e de organizações que não pensa assim. Não são alienados e conhecem perfeitamente a estrutura e os seus papeis na organização social. Sabem que o não engajamento da maioria lhes é favorável, e tratam com abnegação os seus interesses que conflitam com os da maioria que “detesta a política”.

Esse grupo reduzidíssimo está organizado em grandes corporações privadas e está correndo atrás das eventuais reduções de seus ganhos. Alguns, na verdade, até estão tratando de como ganhar mais, e todos estão buscando garantir as melhores posições para os embates que ocorrerão nos períodos pós-coronavírus.

Hoje há manchetes nos jornais anunciando que “doações de empresas chegam a 2,2 bilhões”. Fazem parecer que a ordem capitalista mudou. Como se alguns empresários e corporações estivessem colocando a mão no bolso e repartindo suas riquezas, revertendo o fluxo natural do sistema. Assim, são anunciadas como “doações” operações financeiras que, antes de tudo, visam o posicionamento estratégico de capitais buscando o melhor aproveitamento dos mesmos, com garantias de seu controle, redução de riscos, reduções de impostos e o escambau.

Nós também precisamos cuidar dos nossos interesses, e a hora de começar já passou, já estamos correndo atrás do prejuízo. E um dos nossos interesses principais deve ser fazer com que essa repartição  ocorra efetivamente, e há formas de fazer isso.

Na cidade de São Gonçalo (RJ) está em montagem um hospital de campanha com aporte de grana do próprio município, do Estado e dos municípios de Niterói e Maricá. O hospital está sendo montado num campo de futebol de um clube da cidade, um espaço privado,  e o uso desse espaço é uma intervenção da prefeitura que tem o título “requisição administrativa”. Esse uso está apoiado em uma sequência instrumentos oficiais, mas decorre originalmente de um poder instituído pelo inciso XXV do artigo 5° da Constituição, que estabelece: “no caso de iminente perigo público, a autoridade competente poderá usar de propriedade particular, assegurada ao proprietário indenização ulterior, se houver dano”.

Para fins diversos, assim como em São Gonçalo, existem casos de requisições administrativas em outras cidades do país e, consequentemente, articulam-se defesas da propriedade privada contra esse poder público, mas aqui o foco não é debater a legislação. Trata-se, principalmente, de colocar em pauta a possibilidade de usos de tais instrumentos para o interesse público.

Pequenos produtores de cachaças de alambiques, contribuindo para o combate ao coronavírus,  têm tomado a iniciativa de doarem – efetivamente – para a produção de álcool 70 graus, as parcelas das destilações que não são utilizadas na elaboração da bebida (cabeça) e que são ricas em concentração de etanol. Mas, são iniciativas tímidas. É preciso que as autoridades, em nome do iminente perigo público, atuem diretamente sobre meia dúzia de grandes produtores de cachaças, que produzem mais de 800 milhões de litros anuais, para que se organizem para suprir essa necessidade pública.

Da mesma forma, a FIESP, FIERJ, FIEMG e as FIE** que existirem devem se movimentar, elas próprias, junto aos seus filiados, para produzirem máscaras e aparelhos de ventilação mecânica para as necessidades da crise e sem ônus para a sociedade – em nome do iminente perigo público.

Não há que viabilizar financiamentos para esses enormes conglomerados realizarem essas ações. Seus lucros já são absurdos  e continuarão a ser após a crise. Há muita riqueza acumulada e que pode ser distribuída – efetivamente e agora - no atendimento das necessidades públicas.

Esses grupos têm recursos, conhecimento e capacitação para atender   a essas necessidades públicas emergenciais. Sem cobranças disfarçadas de doações, subsídios etc. Não estarão fazendo favor nenhum, e esse imperativo da sociedade ainda assim, estará longe, muito longe, a anos luz de qualquer coisa que possa ser chamada de socialismo ou comunismo.

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NOTAS
[1]
São Gonçalo começa construção de hospital de campanha – Recuperado em 14/04/2020 de <https://alcantaratemdetudo.com.br/sao-goncalo-comeca-construcao-de-hospital-de-campanha/>

 [2]
A requisição administrativa em tempos de Covid-19 – Recuperado em 14/04/2020 de <https://www.migalhas.com.br/depeso/323162/a-requisicao-administrativa-em-tempos-de-covid-19>

[3]
Produtores de cachaça na Paraíba doam 'álcool 70' para hospitais em combate ao coronavírus - Recuperado em 14/04/2020 de <https://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2020/03/19/produtores-de-cachaca-na-paraiba-doam-alcool-70-para-hospitais-em-combate-ao-coronavirus.ghtml>

segunda-feira, 13 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (25)


Opinião


Estou bastante cismado. Hoje, segunda-feira, pela manhã, olhando da janela para as pistas do Aterro (RJ) tem-se a impressão que a cidade está voltando ao seu cotidiano. Sei que não passa de impressão, que essa não é essa a realidade, mas a impressão decorre da observação da quantidade de veículos e pessoas transitando. Um número muitíssimo abaixo do que costuma ser – daí eu saber que a normalidade é falsa, que não passa de uma impressão. Porém, um número muito maior do que deveria ser para uma cidade em estado de isolamento social.

Até a praia que tem estado deserta nos últimos dias, hoje está com uma quantidade observável  de pessoas, tem gente para lá e pra cá, em bicicletas na calçada e algumas na areia. Adultos sozinhos, não vejo crianças e famílias.

Pelas notícias que acompanhei, a quantidade de testes de contaminação que está sendo realizada no Brasil é um número irrisório se comparado com as referências internacionais. Isso não me surpreende considerando as características e o estado das coisas em nosso país. Mas, como os casos oficiais de infectados e de óbitos são apenas aqueles registrados por testes,  a consequência direta é que os números oficiais estão subestimados em relação à realidade. Esse fato também não é uma novidade para quem tem acesso à informação e acompanhado o noticiário. As próprias autoridades da saúde não escondem essa situação.

A questão que surge daí, a meu ver, é o quanto esses números oficiais estão distantes da realidade e o que representa desconsiderá-los sem, ao menos, divulgar as estimativas.

Hoje, por exemplo, há notícias (Estado de S. Paulo – 1ª. página)  que a quantidade de óbitos por insuficiência respiratória e pneumonia, em março 2020, no Brasil, foi de 2239 casos a mais do que no mesmo período do ano passado. Esses óbitos não foram classificados como coronavírus (Covid – 19) cuja quantidade oficial aponta 1223 casos até ontem. Sem intenção de banalizar a morte, trata-se de um número modesto no quadro da crise mundial. Ora, se as relações forem diretas (ressalvo que é uma especulação, mas bem razoável),  além dos 1223 casos oficiais haverá mais de 2000 casos não notificados.

Voltando à questão do que significa desconsiderar a realidade, se esses 2000 óbitos representam realmente uma subnotificação, desconsiderá-los é um crime, mesmo com ressalvas que se trata de estimativas. Um crime porque certamente esses rolézinhos de praia, de calçadas e de ruas seriam repensados se esses números estivessem nas primeiras páginas dos jornais em vez de estarem em matérias colaterais às manchetes.

É preciso cobrar essa divulgação sob pena de cumplicidade com esse crime. Eu não estou falando do fascista maior, nem dos seus seguidores. Desses não há o que esperar. Falo de cada um de nós que estamos aflitos e impactados por essa pandemia. Falo dos grandes meios de comunicação – que até tem sido elogiados por suas atividades nesses tempos de coronavírus. Esse mundo paralelo, se ele realmente tem existência,  precisa ser trazido para a frente das telas.

Mesmo reconhecendo que não temos testes em quantidades suficientes ou que não tenhamos  condições de realizá-los para assegurar com consistência a quantidade de contaminações e de óbitos, há recursos técnicos para a realização de inferências e estimativas. Isso é possível.

Afinal, está morrendo essa porrada de gente ou não?

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domingo, 12 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (24)


Opinião


Conversando com um amigo por telefone, ele observou “ agora sim, entramos no século XXI ”. Logo fiz coro com ele. Poderíamos associar como significativo da mudança de século, quem sabe, o setembro de 2001 com a queda das torres gêmeas ou aquele tsunami no Japão ocorrido em 2011, mas em mim bateu forte: o que caracterizou o nosso salto de século foi esse tal de coronavírus.

Entramos no século XXI vinte anos após o seu início e com o pé esquerdo. Esse vírus irá jogar-nos nesse século como aquelas cenas hollywoodianas de gladiadores que são jogados nas arenas dos coliseus romanos esperando o que sairá dos tantos  buracos que os cercam.

Por ora ainda estamos nos porões, tratando nossas feridas e insalubridades. Aqui, isolados nos bastidores, enfrentamos o vírus. Alguns ele eliminará. Os sobreviventes ele empurrará para a arena e lá, dos malditos  buracos é que sairão os leões, tigres, carruagens ocupadas com guerreiros, enfim qualquer coisa com o potencial de detonar nossas vidas. Será lá, na arena do pós-isolamento que as lutas  efetivamente acontecerão, e acho que deveríamos falar sobre isso.

Não faço apologia do caos nem rendo tributos ao pessimismo, mas estamos vivendo uma situação que, independentemente de nossas vontades, empurra-nos para um estado de lassidão que retira a nossa energia e vontade de pensar o futuro. Então, acho importante tratar esse assunto desde já, inseri-lo em nossas conversas como forma de reação e de organização para os tempos que virão.

Não haverá uma chave ON – OFF que nos desligará do hoje conectando-nos imediatamente com o amanhã. Passada essa fase de isolamento, não despertaremos em um mundo novo, com as coisas no lugar, como se estivéssemos retornando às nossas casas ao fim de uma viagem. Pensar assim é um engano.

O ambiente pós-isolamento, ao que tudo indica, será difícil e confuso. Enfrentaremos o prolongamento da recessão econômica na qual já entramos. Enfrentaremos o desemprego. Mesmo pessoas que hoje ocupam cargos relativamente estáveis e bem remunerados serão dispensadas. Isso está ocorrendo em algumas cidades do exterior.

O conjunto de interesses representados por corporações econômicas privadas e um minúsculo grupo de biliardários aos quais nos referimos genericamente como “sistema capitalista” não interrompeu os seus mecanismos e avançará em seus objetivos, apertando cada vez mais os torniquetes de exploração dos trabalhadores.   

Muitas serão as pessoas que revisarão os seus conceitos na vida pessoal e na vida social (política), para o bem e para o mal. Haverá uma migração em ambos os sentidos. Muitos estarão perdidos procurando por um mundo que não existirá.

Os idosos, eu inclusive, estaremos mais expostos. O vírus estará por aí, possivelmente derrotado pelo processo de adaptação do ser humano e dos seus recursos científicos e tecnológicos, mas ainda caçando  presas entre os mais frágeis das manadas – os idosos. Abraçar um filho ou um neto será um risco para os idosos que estarão obrigados a se manterem distante sei lá em que condições e por quanto tempo mais.

É um cenário esquisito, mas bem possível. Alguns já perceberam as perspectivas futuras e, os que podem, ocupam o seu tempo reunindo riquezas acumuladas já pensando no porvir. Outros nem pensaram no assunto, acreditam e esperam a virada da chave liga-desliga.

Em casos de barbárie a regra é sempre cada um pra si, mas acho que o nosso rumo será outro, e no rumo que estaremos o individualismo e a solidariedade serão escolhas possíveis. A luta continuará, então precisamos conversar sobre ela.

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sábado, 11 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (23)


Opinião


Recebi um zap com uma relação de possíveis Judas, e eu deveria responder qual deles malharia hoje. Era uma relação de personalidades políticas que deveriam ir, todas, para um poste. Mas não me senti contemplado porque na relação não tinha “o eleitor do Bozo”, meu Judas preferido no sábado de Aleluia dessa semana santa.

Sempre tive implicância com a semana santa. Minha criação foi, ao mesmo tempo, católica e umbandista, e as datas religiosas eram sincretizadas e celebradas com missas, ladainhas e também com sessões espíritas de umbanda (macumba). Mas, não lembro de celebrações espíritas no período da semana santa. Pesquisarei.

As minhas  semanas santas sempre foram marcadas pelos rituais católicos que eram mórbidos. Bem menino, em nossas casas cobria-se os espelhos na semana santa, uma prática que, felizmente, logo entrou em desuso. No bairro onde eu morava, em São Gonçalo (RJ), bem próximo à igreja Matriz, realizavam-se procissões com umas imagens enormes representativas do martírio do Cristo na semana santa. Uma delas, que desfilava nas sextas-feiras santas, era um enorme Jesus morto, um terror.

Lembro-me bem que, praticando o catecismo escolar, nos dias de confissões aguardávamos a vez de entrar no confessionário na mesma sala da igreja onde guardavam as tais imagens das procissões. Elas ficavam embaixo dos altares, geralmente com algumas partes visíveis. No início a molecada brincava, mas os últimos na fila da confissão iam ficando sozinhos naquela sala,  sabendo que embaixo do altar tinha uma porra de um Cristo enorme e morto. Era apavorante.

Não me lembro de ter aparecido qualquer filho da puta de orientador religioso para contextualizar as histórias e atenuar nossas aflições. Hoje, ao saber sobre os inúmeros casos de pedófilos nas igrejas católicas, acho até que foi sorte nossa. Mas, tudo se apoiava em nosso medo. O último da fila de confissão ficava tão encagaçado que confessava qualquer merda  para ir embora dali o mais rápido possível.

Saindo da infância, a semana santa passou a ser o grande feriado, com a brincadeira da malhação do Judas no sábado de Aleluia. Até fazíamos a brincadeira, mas nosso bairro era uma tribo bem fechada e ninguém arriscava exibir as mazelas dos vizinhos colocando cartazes no Judas. Não que as fofocas não existissem, mas era quase impossível divulgá-las na oportunidade do Judas assegurando o anonimato. Também não havia críticas políticas. A malhação era considerada brincadeira de crianças e os que poderiam fazer as críticas não participavam. O resultado é que a malhação do Judas nunca teve muita graça para mim.

Passada a adolescência, eu cumpria os rituais religiosos familiares sem qualquer comprometimento, os católicos e os da macumba, achando esses últimos mais atrativos. Só mais tarde tentei me identificar religiosamente e com clareza. Os marcos foram muitos, mas a ópera rock Jesus Cristo Superstar, que assisti com mais de vinte anos, foi relevante. O texto sintético e forte das letras, as melodias lindas, a trama sobre as crises existenciais de Judas e Jesus e a identificação dos interesses políticos mexeram comigo.

 Acho que foi quando formei a noção que qualquer mito religioso pode ser analisado, compreendido, admirado e assimilado sem que haja necessidade de sua sacralização. Uma revelação e alívio! Foi quando o meu ateísmo, até então encabulado e ainda inibido por uma culpa cristã,  saiu do armário.  Bem mais tarde, já em fase adulta, eu me reencontraria com esse tema e me espermatozaria com a leitura  de Jose Saramago em seu maravilhoso O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

Guardo lembranças de Jesus Cristo Superstar. Tenho  um LP em vinil, a fita em VHS e com o advento do Youtube várias vezes assisti trechos do filme. Recebi a dica de um amigo querido que nesses tempos de coronavírus o compositor e produtor musical da ópera, Andrew Lloyd Weber, tornaria disponível grátis, por 48 horas a partir da sexta-feira santa, a apresentação de uma montagem supermoderna, onde  estão mantidas as letras e as canções originais. Conferi. Está tudo lá.

Ainda acho intrigantes as cobranças de Judas ao Cristo por não ter realizado a revolução a que eles se propunham, apesar dos tantos poderes desse último, e os questionamentos a Deus por nunca ter compreendido porque ele, Judas,  tinha sido escolhido para praticar um crime que era do próprio Deus. 

 A montagem atual é uma das coisas mais belas desses últimos tempos. Mas, reafirmo, minha opinião é suspeita.
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Stream Jesus Christ Superstar for Free - This Friday at 7pm BST on The Shows Must Go On YouTube channel – Recuperado em 11/04/2020 de<https://www.andrewlloydwebber.com/the-shows-must-go-on/>

Andrew Lloyd Weber é o compositor das canções e produtor dos respectivos musicais a seguir: The Music of the Night do musical O Fantasma da Ópera, ou Don’t Cry for me Argentina do musical Evita ou  Memory do musical Cats ou, ainda, I Don't Know How to Love Him do musical Jesus Cristo Superstar.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (22)


Opinião


Muitos trabalhadores, mesmo empregados, estão sendo colocados diante de escolhas difíceis. Eles sabem da necessidade de ficar em casa para a preservação de suas vidas, das vidas de  suas famílias  e, também, das vidas de outros. Contudo, ainda assim, arriscam-se e saem às ruas adotando decisões que até podem ser classificadas como individualistas, mas que decorrem de puro instinto de conservação e sobrevivência.

No outro lado da linha está o individualismo ideológico. Há o exemplo de um dos apoiadores diretos do ex-capitão boquirroto, um empresário que participou de um vídeo (ver mais abaixo) estimulando os trabalhadores a desrespeitarem o isolamento.

Para convencer os trabalhadores, o tal patrão finge solidariedade. Diz que  está preocupado com a economia do país e seus trabalhadores e que não está pensando em si próprio nem em  seu negócio. Que pode até fechar as lojas e fazer umas vinte e duas mil demissões que ainda terá dinheiro no bolso para ir para a praia. Outros patrões fazem coro com o filho da puta. Um deles diz que quinze mil mortes num universo de sete bilhões de pessoas até que é pouco.

Essas situações, embora se manifestem aqui dessa forma criminosa, não são um privilégio tupiniquim. O jornal New York Times de hoje publica matéria sobre adoecimentos e óbitos entre trabalhadores nas indústrias de processamento de alimentos nos EUA. Mesmo estando doentes, os trabalhadores tem sido convocados a comparecerem ao trabalho com o apelo que eles precisam ir trabalhar para alimentarem a America.

São esses canalhas, reis de minas e fornalhas, que querem o retorno da galera às ruas o mais rápido possível. Fodam-se os trabalhadores que se expuserem à contaminação, desde que garantam as suas riquezas. Os versos da Internacional sintetizam essa situação com uma clareza e sentido que parecem terem sido criados ontem, após os discursos do ex-capitão boquirroto e dos que patrocinaram sua subida ao poder. Contudo, eles apenas traduzem aquilo que é intrínseco ao capitalismo: as classes e os interesses de cada uma que são distintos e conflitantes.

A luta de classes não é uma invenção socialista ou comunista. Trata-se de uma realidade da sociedade contemporânea que,  ao se organizar para produzir e reproduzir sua vida material, o faz de uma maneira na qual grupos reduzidíssimos de seres humanos vivem à custa da exploração do trabalho da maioria da humanidade. Nessa forma de organização, chamada de capitalismo, os interesses dos grupos ou classes de explorados e os interesses dos exploradores são conflitantes, daí a luta de classes.

Porém, o capitalismo não se caracteriza exclusivamente por esse aspecto, embora ele seja o fundamental, e é importante atentar para isso porque diz direto ao que está ocorrendo, nesse momento, à nossa volta.

O capitalismo também incorpora aspectos que tanto viabilizam as condições para a sua continuidade, como para sabotar as possibilidades de  organização das classes que lhe são antagônicas – os explorados. Para tanto, o seu aparato vai além da estrutura econômica do modo de produção e inclui, também,  estruturas jurídico­política e ideológica. Consequentemente, os conflitos ou luta de classes se manifestam em todas essas estruturas  permanentemente, inclusive durante a crise do coronavírus.
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Nesse momento, o vírus está fudendo por completo  com importantes estruturas econômicas capitalistas, embora isso não queira dizer que esteja fudendo o capitalismo. As corporações que representam os exploradores sabem disso e atuam para manter seus domínios sem interrupções dos processos de exploração porque esse  movimento permanente é a base para a continuidade do capitalismo.

Por sua vez, as organizações e pensadores da esquerda política não têm expectativa que o capitalismo será comido pelo vírus. Contudo, buscam avaliar quais serão os abalos, as transformações e como estarão as estruturas de poder no  cenário pós-coronavírus porque será nesse novo cenário que os conflitos ou a luta de classes prosseguirá.

Há visões otimistas e pessimistas. A meu juízo, um sujeito que sintetiza muito bem as questões (não as respostas), embora não seja uma referência política para mim,  é o  historiador israelense Yuval Noah Harari, um autor que tem estado de bola cheia pelo sucesso de recentes best-sellers de sua autoria.

Segundo o Harari, no período pós-coronavírus, entre as questões de importância a serem tratadas, a primeira será o dilema será entre a vigilância totalitária e o empoderamento dos cidadãos e o segundo desafio será entre o isolamento nacionalista e a solidariedade global.

Detalhes sobre essas questões exigem reflexões e estudos que consomem tempo e dedicação. No meu caso, até gosto de estudar, mas sem qualquer constrangimento abro mão e sinto-me perfeitamente contemplado com a síntese da Internacional  já expressa nesse hino dos trabalhadores desde o século 19:

O povo quer só o que é seu. A terra pertence aos que produzem. Os parasitas devem deixar esse mundo!

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NOTAS

Vídeo produzido por PSTU e CSP Conlutas – Copiado em 26/03/2020 - Disponível em <https://drive.google.com/open?id=1KH2e53Mr0khXiCDxcx-jvKiWEXOLKo9a>

Letra da Internacional – Recuperado em 10/04/2020 de <https://www.marxists.org/portugues/tematica/musica/international.htm>

“Como será o mundo depois do coronavírus, segundo Yuval Noah Harari” – Recuperado em 10/04/2020 de <http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/597364-como-sera-o-mundo-depois-do-coronavirus-segundo-yuval-noah-harari>

quinta-feira, 9 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavirus (21)


Opinião


O individualismo é  natural quando  determinado pelo instinto de conservação, mas também pode ser construído socialmente. Esse é o caso do individualismo que valoriza  a exploração do outro. Um individualismo opcional, uma escolha política que se contrapõe à solidariedade.

A solidariedade, por sua vez, é um valor construído socialmente. Não é natural. É um ato de vontade. Para uns ela é uma prática eventual ou oportuna, uma resposta a certas situações que se apresentam. Para outros ela é uma disposição tão forte que se estabelece como uma prática de vida.

Lidar com as manifestações de individualismo e com práticas de solidariedade é uma das tantas questões impostas à sociedade nesses tempos de coronavirus.

Há trabalhadores que, embora vivendo à custa de seus trabalhos e atividades, sobrevivem matando um leão por dia. Porém, a temporada de caça foi suspensa. Sequer têm o que caçar. Garçons, barbeiros, artistas, vendedores, diaristas, ambulantes, qualquer tentativa de exemplos será incompleta.

Há, ainda, pessoas que vivem das sobras das ruas e até do lixo da cidade, mas de uma cidade viva. Ocorre que, estando a cidade em estado quase cataléptico, semimorta,  não há onde nem o que chafurdar. A carência é total.

A crise está colocando essas camadas de população numa dependência de correntes de solidariedade e agregando-as a outras camadas cujas vidas já dependem  exclusivamente dessas correntes. Correntes das quais alguns de nós até participam e incluem em seus orçamentos ou em suas atividades as doações e colaborações que realizam.

Essas novas situações estão colocando à prova as nossas opções políticas. É hora também de ajudar, de ser solidário.

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quarta-feira, 8 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (20)


Opinião


Não deixará de ser um comentário medíocre, sem imaginação, mas pagarei o preço:  Fazer 69 isolado é um paradoxo. Em qualquer sentido, literal ou metafórico. Talvez seja essa a verdadeira sacanagem!

Chegará o tempo em que o coronavírus será apenas um registro nos  históricos sanitários do nosso país, e o vírus Bozo estará  no lugar que lhe cabe: o lixo da história, parafraseando o companheiro Trotsky. Isolados, ou não, seguiremos combatendo um e outro. Enquanto isso, não tem jeito, a posição que me cabe nestes 69 é a do isolamento obsequioso.  

Compensa a felicidade de receber cumprimentos das minhas diversas tribos e com quem tenho compartilhado felicidade e experiências. Amigos de trabalhos, de escolas, de infância, de militâncias, de cachaças e familiares, entre outros. Quem me conhece sabe que não comemoro aniversários, simplesmente não gosto. Mas sinto-me feliz ao receber cumprimentos. Sinto-me lembrado e abraçado. Isso é muito bom e não há palavras para agradecer. Assumo a dívida.

Busquei uma forma, mínima que fosse, de compartilhar a alegria que sinto com tanto carinho que tenho recebido. Tentarei fazer isso, então, postando aqui um poema que gosto muito. Seu título é Canción e da autoria do poeta cubano Nicolás Guillén.  Lembrei do poema porque, além de ter um significado especial para mim, ele cita o mês de abril, embora associando-o à estação primavera. Estando no hemisfério norte, a primavera em Cuba estende-se no período de 20 de março até 21 de junho, período do lindo outono aqui, em nosso hemisfério.

O compositor Pablo Milanez musicou o poema, e a canção ficou muito famosa em minha geração sendo gravada por importantes artistas na época e conhecida por seu primeiro verso "De que calada maneira". Segue então, as referências do livro com o poema e um link para quem quiser ouvir a canção. Como nas festinhas de criança, um brinde de  lembrança de “cumpleaños”. Obrigado.


Canción   (Nicolás Guillén)

¡De que callada manera
se me adentra usted sonriendo,
como si fuera
la primavera!
(Yo, muriendo)

Y de que modo sutil
me derramó en la camisa
todas las flores de abril

¿Quién le dijo que yo era
risa siempre, nunca llanto,
como si fuera
la primavera?
(No soy tanto)

En cambio, ¡qué espiritual
que usted me brinde una rosa
de su rosal principal!

¡De que callada manera
se me adentra usted sonriendo,
como si fuera
la primavera!
(Yo, muriendo.)

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NOTAS
Guillén, Nicolás – Todas las flores de abril – Editorial Letras Cubanas – La Habana,  Cuba (1993)

Canción (1972) Nicolás Guillén CUBA – Recuperado em 08/04/2020 de <https://www.youtube.com/watch?v=LEZWKMv74XA>

terça-feira, 7 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (19)



Opinião


Tudo bem que o isolamento mexe com a cabeça da gente, já comentei  isso, mas felizmente ainda não atrofiou meu discernimento político, nem meus valores, nem minhas lembranças. Então, não serei eu quem irá bater panelas nem aderir a esse chamado absurdo:  # ficamandetta.

Ao contrário, se dependesse da minha vontade, tanto essa essa figura como a canalha em sua volta, da qual ele não se diferencia em nada, incluindo seus chefes imediatos, um apologista de torturadores e milicianos e outro líder do coronelismo rural que assassina trabalhadores no campo, todos deveriam ir para a corona que os pariu.

Ao seguir diretrizes da OMS no quadro de uma crise sanitária mundial,  os dirigentes do sistema de saúde brasileiro cumprem uma obrigação. E o nosso quadro de profissionais da saúde pública são supercapacitados, até mesmo para assumir a direção dessa nau sem rumo em que vem sendo transformado o sistema de saúde pública brasileiro. Não dependem das orientações dessa corja, muito menos desse ministro cambeta de virtudes. Conhecem o ofício. Assim como a marujada da Revolta da Chibata conhecia e tomou em suas mãos o comando de moderníssimas embarcações, fazendo evoluções na Baia de Guanabara e dispensando a elite assassina e torturadora que ocupava a oficialidade da Marinha em 1910.

Em conflito com o seu chefe maior, que insiste em levar todo o país para uma ruína total, e oportunamente apoiado por forças de direita que antagonizam o ex-capitão boquirroto, o atual ministro da saúde está com o seu nome inflado como um suposto herói – herói com pés de barro.

Que as forças de direita façam isso, é uma questão do interesse delas.  Mas, é um equívoco completo quando partidos ou grupos de esquerda caem na esparrela e endossam a palavra de ordem #ficamandetta.  A obrigação da esquerda política é apontar para a sociedade alternativas que efetivamente nos levem para fora desse lodo, dessa imundície, dessa cloaca para onde o voto de iludidos por grupos fascistas  trouxe o país.

É até uma ofensa aos profissionais da saúde brasileiros realizar qualquer gesto de apoio à manutenção no cargo desse pulha bozominion cujos caráter e valores ele mesmo revelou com suas atuações durante o golpe parlamentar – judicial - midiático de 2016 e nas votações parlamentares subsequentes que mandaram os direitos dos trabalhadores para a casa da caceta.

Não existe essa coisa de ruim com ele, pior sem ele. São todos ruins. Mandetta, Perneta, Corneta, Caderneta, Maneta, Maçaneta, Proxeneta, Veneta, Picareta, Capeta, Cegueta, Mutreta,  Tarraqueta, Greta, Ampulheta, Punheta, Sarjeta, Chapeleta, Xereta, Cabueta, Caceta, Falseta, sejam os que forem. Estando juntos da gang fascista que se apossou do governo, são todos a mesma merdeta, iguais ao  Bozoeta. Especialmente nesse Dia Mundial da Saúde a palavra de ordem deve ser: Fora todos!


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segunda-feira, 6 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (18)


Opinião


Esse tal de isolamento social já durou tempo bastante para deixar em nós as suas marcas. Não será apenas uma experiência ocasional e sem importância, essa ficará gravada nas gerações que a estão vivenciando. Nem estou falando da possibilidade de um fato trágico como a morte. Falo sobre as práticas e comportamentos que estamos adotando ou transformando e que assumiremos, conscientes ou não, ao deixar esse anacoretismo que o sacana do coronavírus nos impôs.

Excluo as crianças. Essas guardarão lembranças inconscientes. Pode ser que, mais tarde, alguns queiram saber o que houve, aí consultarão os registros ou os mais velhos. Da minha infância, por exemplo,  lembro dos dias de racionamento de energia elétrica. Na década de 60, durante um período de tempo que não lembro, todas as noites, durante uma ou duas horas, a energia elétrica era desligada e toda a cidade de São Gonçalo (RJ) onde eu morava ficava no escuro.

Não fazia a menor ideia das dificuldades que meus pais e outras famílias passavam. Não sei como era em outras cidades, mas para a molecada local foi um período especial e divertido. Sentados nas calçadas, conversando e trocando brincadeiras e putarias, como os moleques costumam fazer, passávamos o período de apagão quando até mesmo a iluminação pública era cortada.

Só mais tarde aprendi que foi a época em que o Estado assumiu o controle público do setor elétrico e que os apagões estavam no contexto de disputas contra corporações privadas internacionais que a sociedade brasileira enfrenta até hoje. Enfim, não tinha a menor compreensão do processo político que estávamos vivendo. Também nada sabia sobre a angústia dos mais velhos, responsáveis por guiar suas famílias atravessando aqueles dias complicados, meus pais entre eles. Apenas lembro dos encontros felizes nas esquinas do nosso bairro.

Hoje a óptica é outra. Não sei como as crianças lembrarão, mas penso nas marcas que ficarão em nós, além das lembranças. A insegurança, o medo, a sensação de dias “perdidos”. A inquietação de ser obrigado a conviver consigo mesmo e aturar suas próprias idiossincrasias. A alimentação perturbada em conteúdos e horários. A vontade de abraçar os amigos, beijar e cafungar os entes queridos.

O sono e a rotina do dormir afetados. Dia desses saí da cama ao meio dia, sem saber sequer que dia da semana era. Emburaquei pela madrugada fazendo coisas e fiz  um esforço enorme para me colocar novamente nos trilhos e recuperar a organização dos dias,

Tento planejar as atividades e horários – quase sempre sem sucesso. A barba está sem fazer, mas não sei ficar sem cortar o cabelo. Reflito sobre a vida e sobre as possibilidades futuras. Organizo e arrumo coisas. Bato panelas contra o palhaço filho da puta. Escrevo. Faço ginástica. Aplico-me com perseverança aos meus temas de estudo. Cochilo!

Bebo minhas cachaças com uma moderação incomum. Essa moça branca é amiga e vive assim à toa, sem querer se impor, como diz o samba enredo de Geraldo Babão (Salgueiro), mas tenho enorme cagaço de uma relação sem limites. Tá bom do jeito que tá. Sairei do isolamento cachaceiro, tanto quando entrei.

Ainda não fui tomado por qualquer epifania que tenha me tornado um ser renovado, pós-coronavírus. Naturalmente estarei remarcado por essa experiência, mas não serei “outro” no sentido de um novo alguém. Pelo menos, até agora. Continuo mais comunista do que nunca, consciente dos meus valores e disposto a lutar por eles. Aspirante a me tornar uma figura melhor para o outro ou, no mínimo, que reconheça o outro – tarefa que acho dificílima. Não é simples desviar o olhar desse espelho narcisista que é o próprio umbigo.

Mas, a minha grande curiosidade é sobre quais marcas permanecerão indeléveis e que estão sendo estampadas em mim, nesse momento, sem que eu perceba. Quando eu sair, algumas outros perceberão, outras apenas eu. Pensar sobre isso é um exercício interessante que recomendo.
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domingo, 5 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (17)


Opinião


Uma amiga enviou-me um poema lindo de sua autoria. Com muita sensibilidade e síntese, a poetisa transmite angústias e ansiedades que também habitam em muitos de nós. Uma prisão labiríntica, sem limites, é assim que ela expressa a situação que vivemos.

O poema trouxe a lembrança de um filme que assisti nesses dias de coronavírus. “A trincheira Infinita”. Trata-se da história de um sujeito que ficou 33 anos escondido em casa. Baseado em fatos reais, o personagem é uma das  chamadas “toupeiras”, pessoas que viveram ocultas em sótãos, paredes falsas ou buracos desde o final da guerra civil espanhola e durante o subsequente regime franquista.

Partidário dos Republicanos e vivendo numa aldeia do interior da Espanha, um sujeito é feito prisioneiro pelos Nacionalistas, mas consegue escapar escondendo-se em um buraco dentro de sua própria casa. Mais tarde, com a ajuda da mulher, transfere-se para a casa do pai que construiu  um cubículo  disfarçado por uma parede falsa.

Perseguido por um dedo-duro que era seu vizinho, e na expectativa de uma mudança no quadro político que viesse com o fim da 2ª. Guerra Mundial, o sujeito esperou em vão.

A guerra civil terminou em abril de 1939, com a vitória dos Nacionalistas liderados pelo General Francisco Franco, e a Segunda Guerra Mundial terminou em maio de 1945 com a vitória dos Aliados e rendição da Alemanha, mas sem intervenção dos Aliados na Espanha franquista que, apesar de simpática aos nazistas, manteve-se neutra no conflito mundial.

Na Espanha pós-guerra civil e sob o regime Franco implantou-se uma tal de Lei de Responsabilidades Políticas (LRP) que botava pra fuder em cima de todos que contribuíram para “criar o agravar a subversão da ordem”. E se o sujeito já estivesse morto as sanções eram aplicadas sobre sua família, conforme o caso.

O “toupeira” manteve-se escondido porque estava sentenciado de morte e só saiu de casa no fim da década de 60 quando o governo franquista promulgou uma anistia aos presos e extinguiu formalmente a LRP. Com a anistia, na Espanha, começou a aparecer gente que viveu anos escondida. Algumas mais de 30 anos. Foram chamadas “toupeiras”.

Eu tive a oportunidade de ver, brevemente, algumas dessas aldeias antigas nos arredores de Lisboa, em Portugal, e pela descrição muito parecidas com as aldeias do interior espanhol. Vilas minúsculas, ruas estreitas e as construções coladas entre si. Não faço a menor ideia como alguém conseguiu sobreviver tanto tempo isolado e naquelas condições. Não consigo imaginar.

Não resgato essa lembrança como um consolo para as nossas angústias de isolamento, mas vejo-a como uma motivação para que possamos contribuir e acabar com esse tipo de aflição o mais cedo que pudermos. Ademais, como é impossível desligar do assunto, tento faze-lo da forma mais agradável, buscando o prazer na leitura dos versos dessa poetisa especial. Uma forma de borrifar beleza sobre esses tempos de coronavírus.


(sem título) – Vera Versiani

Essa prisão labiríntica
me confunde
não há limite que imponha
sua extensão

que passos  seguir?
que trajeto?
qual o tempo para o não?

Essa prisão labiríntica
me confunde
e revira o caos
onde o infinito me, se esconde.

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NOTA

Filme: A Trincheira Infinita, premiado no Goya 2020, dirigido por Aitor Arregi, Jon Garaño e Jose Mari Goenaga – Disponível em Netflix

Haro, Fernando Ampudia de. (2010). Gerir a dissidência: vencedores e vencidos na espanha franquista. Análise Social, (194), 91-113. Recuperado em 05/04/2020, de http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0003-25732010000100004&lng=pt&tlng=pt.

Versiani, Vera – Poeta, cantora, compositora, violonista. Lançou seu primeiro livro de poemas: NADA PARA HUMANOS, em outubro de 2003, pela OFICINA Editores (RJ)