sábado, 7 de setembro de 2024

Democracia e Comunicações

 Opinião

Para a galera historicamente engajada no projeto de democratização das comunicações que se estruturou efetivamente no combate contra a privatização das telecomunicações, a atualidade tem demonstrado o enorme prejuízo da desmobilização sindical pós desmonte e venda do sistema Telebrás.

Ao lutar pelo monopólio e pela garantia de um sistema público de telecom , tínhamos uma visão nítida e acertada sobre o valor estratégico das redes, incluindo as tecnologias sem fio e de satélites - que eram o objeto de disputa naquele momento.

Já fazíamos conjecturas sobre as possibilidades futuras dos ainda infantis serviços de comunicações de dados, como eram chamados por nós, embora naquelas décadas de 80 e 90 do século 20 ainda estivéssemos anos-luz distantes e sem a noção do que viriam a ser as redes e serviços criados na camada de aplicações da teleinformática, como a própria internet  e, notadamente, as atuais redes sociais.

Infelizmente, a degradação da organização sindical arrastou consigo os poucos núcleos então formados ou ainda em formação que agregavam às suas opções ideológicas conhecimentos profissionais e capacitação técnica,  certamente úteis na formulação e sugestão de pautas de intervenções, de mobilizações e de lutas por políticas de democratização das comunicações.

Não dá pra voltar a roda do tempo, nem cabe lamentar leite derramado, mas a reflexão nunca será demais e sempre contribuirá para o nosso aprendizado.

O estado da arte das tecnologias, a inclassificável concentração de riquezas, e o surto neoliberal  das privatizações trouxeram-nos ao cenário atual:  as big techs e suas redes, até mesmo um indivíduo, caso notório da rede X, ameaçam e disputam o poder com os Estados nacionais.

Aquilo que antes era tido como papo ininteligível de “ingênuos” tecnicistas, hoje é um poder que se materializou na realidade cotidiana com potencialidade e velocidade de transformações assustadoras.

Tal poder ameaça as estruturas das organizações sociais quando não destrói ou suprime valores e direitos fundamentais para um projeto de independência,  emancipação e libertação da humanidade.

A consigna “a luta continua” – desprestigiada - até parece brincar ironicamente conosco, mas sem outra eu continuo com ela. (Jorge Santos – Rio, 06/09/2024)

domingo, 1 de setembro de 2024

Uma revolta sem heróis

 

Leituras para distrair

 

No século 17 ou no Seiscentos ainda não existiam “brasileiros”. O conceito de identidade nacional é relativamente recente, mesmo no resto do mundo. Naquela época tinha dinastia, rei, império, donatários, metrópoles, colônias etc. A produção de cachaça no Brasil prejudicava os interesses da metrópole portuguesa que emitiu uma Carta Regia proibindo a fabricação e comercialização do produto por aqui, na colônia.

A proibição emputeceu a galera do agro fluminense que se desenvolvia no outro lado da baía de Guanabara em relação à cidade do Rio de Janeiro. Nada pop, senhores de terras e escravos,  mancomunados na atual cidade de São Gonçalo, que então era uma freguesia, organizaram-se a partir da região onde hoje é o bairro Gradim. Atravessaram a poça e promoveram um sapeca iá iá  na cidade do Rio de Janeiro, invadindo a Câmara de Vereadores, depondo o governador interino (o efetivo estava em São Paulo), assumindo o governo da capitania e conseguindo, mais tarde,  revogar as proibições.

A proibição da Coroa portuguesa foi em 13 de setembro de 1649, mas só dez anos depois, em 1659, o governador da ocasião resolveu fazer valer a determinação que seus antecessores ignoraram. O sapeca iá iá aconteceu em 8 de novembro de 1660 e a revogação das proibições foi conquistada em 18 de junho de 1661.

Recentemente, ano de 2021, nosso Congresso aprovou a instituição do dia 13 de setembro como o Dia Nacional da Cachaça, embora, curiosamente, a justificativa do projeto de lei (5428/09) esteja errada em relação às datas dos acontecimentos, mas o projeto vingou.

A Revolta da Cachaça não teve heróis. Foi iniciativa de proprietários de terras, contudo, segundo um importante jornalista e historiador sobre a época (Vivaldo Coaracy) as narrativas reduzem a participação popular que já acumulava descontentamentos com a corrupção do governo (aqui uma novidade: o governador do Rio de Janeiro era corrupto).  Segundo Coaracy:

"... Foi uma verdadeira revolução, em que pela primeira vez no Brasil o povo rebelado depôs um governador ... o simples fato da cidade ter durante seis meses se governado a si própria, exercendo todas as funções administrativas e legais, é suficiente para caracterizar a importância desse movimento.”

A produção e o consumo da cachaça acompanharam o curso do desenvolvimento econômico no Brasil. A produção de açúcar no Nordeste e Sudeste;  a extração do ouro avançando pelos confins mineiros; depois as práticas dos imigrantes açorianos, italianos e alemães que se repetiram no Sul. E a cachaça instituiu-se em todo o país como elemento de uma “cultura brasileira”, parte da nossa identidade, embora pagando o preço dos recalques e discriminações por sua origem popular.

Segundo Câmara Cascudo:

“...a banalização da cachaça foi o segredo-motor de sua sobrevivência. Ficou com o povo, não mais numa quinta fidalga do Minho, e essa força obscura garantiu-lhe a contemporaneidade funcional.”

Gosto dessa interpretação do pesquisador. Com interesses finais e papeis distintos, hoje há um conjunto diverso de atores que trabalham para superar as discriminações e divulgar a cachaça de qualidade como bem cultural, agora brasileiro. A Confraria de Cachaça Copo Furado do Rio de Janeiro está engajada nesse projeto há 30 anos.

 

13 de setembro – 2024 – Dia Nacional da Cachaça

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Copo Furado - 30 anos

 

Leituras para distrair

 

“ Vem cá Brasil, deixa eu ler a sua mão, menino. Que grande destino reservaram pra você. E o Brasil cresceu tanto que virou interjeição. Lá lá lá lá lauê. Fala Martim Cererê

Martin Cererê é um poema ufanista (1928) que o Zé Katimba, em 1972, musicou em um lindo samba enredo para a Imperatriz Leopoldinense,  e que foi tema de muitas controvérsias.

A letra do samba diz que a expressão “ Brasil! ” se tornou uma interjeição de emoção positiva. As chamadas dos programas esportivos da Globo confirmam isso.

Controvérsias à parte, são fenômenos da linguagem. Autores e personagens literários deram origens a adjetivos. Termos como  dantesco, maquiavélico, quixotesco, kafkiano, orwelliano incorporaram-se ao nosso linguajar com maior ou menor popularização. E um desses termos que já foi super popular  é “ balzaquiana ” . Um adjetivo feminino referido originalmente às mulheres com idades em torno dos trinta anos ou passadas deles.

O francês Honoré de Balzac, lá pela metade do século 19, em seu romance “ A mulher de trinta anos “ tornou públicas questões que eram veladas pela moral de sua época. A inutilidade social e frustrações da mulher que atingia os trinta anos, auge de sua maturidade, sem cumprir as formalidades sociais obrigatórias de casamento e constituição de família.

Balzac expôs a opressão que sofriam as mulheres com a interdição de expressarem suas emoções, sonhos e desejos. Infelizmente a caricatura misógina prevaleceu no uso do termo.

Hoje a referência dos trinta anos das mulheres tornou-se quase caricata e foi deslocada na escala etária, contudo são muitos os interditos da época que permanecem e ainda obrigam e mobilizam a organização política feminina.

A Confraria de Cachaça Copo Furado do Rio de Janeiro, em  agosto de 2024, aos seus trinta anos, se faz balzaquiana de maturidade e experiência.

Porém, diferente da personagem Julia d’Aiglemont de Balzac, a Copo Furado celebra, manifesta e proclama seus sonhos e projetos. Ousadia! A Copo Furado chega aos seus trinta anos exuberando vontades e possibilidades, longe da personagem de Balzac.

A Confraria busca ser um centro convergente de pessoas com projetos em torno da divulgação da cachaça de alambique em diversas dimensões, cachaceiros assumidos que expressam suas preferências sem admitir  constrangimentos que não sejam aqueles auto impostos por suas finalidades.

Uma situação inusitada. Poucas áreas de interesse comercial nesse universo capitalista  contarão com uma " confraria " que trabalha para o fortalecimento dessa área sem outras motivações.

Tomara que continuemos assim. Até arrisco dizer que a Copo Furado está criando um novo significado para a expressão Confraria de Cachaça. Gosto disso. Beber unidos é um prazer enorme e sozinhos também! ### (Jorge Santos – Rio, 17/08/2024)

terça-feira, 6 de agosto de 2024

Vera e Lili

 

Leituras para distrair

 

Uma das canções da ópera rock The Wall  do Pink Floyd chama-se “Vera” onde o personagem Pink pergunta sobre a cantora Vera Lynn cobrando dela a  promessa de uma de suas canções: um reencontro num dia ensolarado.

Vera Lynn foi uma cantora britânica que morreu velhinha, em 2020, com 103 anos. Ela foi uma referência durante a segunda guerra mundial quando a sua interpretação da canção We’ll meet again (Nós nos encontraremos outra vez), fez sucesso entre as tropas e se tornou um ícone da memória daqueles tempos.

“Eu sei que nos encontraremos novamente em algum dia ensolarado. Sorria como você sempre faz.  Até que o céu afaste para longe as nuvens escuras. Nos encontraremos novamente. Não sei onde, não sei quando, mas eu sei que nos encontraremos novamente em algum dia ensolarado”

## (tradução livre de trechos da canção We’ll meet again)

Acho interessante que nos caldos de tantas tragédias e estupidezes humanas ainda sobre esse tipo de lembrança, coisas tão bonitas.

Do mesmo período trágico ficou a lembrança de Lili Marlene. Uma poesia feita por um soldado alemão durante a primeira guerra (1915) que foi transformada em canção em 1938 e usada pelo ministério nazista da propaganda, já na segunda guerra mundial, para elevar o moral das tropas (transmissão via rádio e reprodução por alto-falantes).

O curioso é que a canção, captada e ouvida também pelos combatentes do outro lado das trincheiras, fez sucesso entre as tropas aliadas, a ponto dos nazistas suspenderem as transmissões e proibirem a reprodução da canção gravada originalmente pela cantora Lale Andersen. Mas, ela fez tanto sucesso que as tropas alemães questionaram a censura, e a propaganda aliada bancou uma gravação e passou a divulgar uma versão com Marlene Dietrich que arrebentou a boca do balão.

“Nossas duas sombras pareciam uma só e todos percebiam nosso amor, toda a gente ficava a contemplar quando estávamos junto ao lampião, como outrora, Lili Marlene. O lampião reconhece teus passos, teu belo caminhar. Ele ilumina tudo na noite, mas há tempos esqueceu de mim. E se algo me acontecer, quem vai estar junto ao lampião com você Lili Marlene?”

## (tradução livre de trechos da canção Lili Marleen)

Lili Marlene fez sucesso no mundo inteiro com várias versões, inclusive uma em português sob a óptica de um pracinha da FEB que é muito legal.

As várias gravações, versões, curiosidades, histórias e registros oficiais com nomes e datas podem ser encontradas na web. Para quem se interessar eu recomendo ouvir as gravações originais de We’ll meet again com a Vera Lynn e de  Lili Marlene com a Lale Andersen. Eu acho emocionantes. Claro, também sugiro a ópera The Wall – saber porque o personagem Pink buscava e cobrava a promessa da Vera Lynn.

Sobrará alguma coisa bonita nesses caldos fedorentos de Gaza, Ucrânia, Síria, Iêmen, Sudão, Etiópia, Somália, Mianmar entre outros? Consta que são mais de 30 conflitos armados no mundo, neste momento, em 2024. Sobrará alguém para ouvir e cantar?

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quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Futuro duvidoso, vejo grana, vejo dor.

 Leituras para distrair

O boteco próximo onde gosto de bebericar umas cachaças acolhe torcedores  de futebol e tem vários telões que são atrativos de clientes. Eu não tenho qualquer relação com esportes, mas gosto de observar a galera quando isso é possível. Apenas curiosidade.

Constato que houve uma mudança especial no comportamento dos expectadores.  Antes a galera se agrupava quase exclusivamente como torcida  que, em coro, gritava, xingava, comemorava ou lamentava os lances da partida. O interesse era pelo desempenho do seu clube ou por resultados de outros jogos que pudessem afetá-lo. Mas, isso mudou, e muito.

A tecnologia arrombou as porteiras das proibições existentes com a possibilidade das apostas virtuais – as BETs (do inglês “to bet” – apostar) - onde os banqueiros são corporações com centro de comando fora do país. Assim, se antes a galera ficava bestificada (meu juízo) diante das telas, agora ela fica BETficada.

As BETs tomaram conta das torcidas. Menos interessada no jogo em si, a assistência fica trocando informações (daí eu saber) sobre suas apostas. Quem apostou em “que”, “quem”, “quando”, “onde” ?

Nos botecos, além dos clientes, os garçons e garçonetes, a moçada dos balcões e até da cozinha, todos fazem paradinhas possíveis em frente a tela mais próxima na expectativa de faturar a aposta que fez. É de impressionar a quantidade de participantes. Afinal, no Brasil as apostas mobilizam um mercado que em 2023 foi estimado em mais de R$ 120 bilhões. Bilhões, com “Bi”.

Até onde observei, sou um dos poucos não apostadores. Nenhum mérito por isso. Apenas não tenho o hábito de apostar. Felizmente! Acho que sou um viciado potencial, então não participo de jogos, e nestes tempos de BETs já considero uma sorte enorme. ###  (Jorge Santos – Rio – 01/08/2024

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Genocídio – Descarte de inservíveis para o capitalismo

 

Opinião

Insisto na avaliação que não se dará qualquer passo importante no avanço das políticas progressistas sem uma manifestação explícita do fim do capitalismo como meta. É verdade que aqui ou acolá aponta-se os males do capitalismo, mas quase sempre sem negá-lo, como se houvesse a alternativa de um capitalismo bom no lugar de um capitalismo ruim. Não há isso! Será o fim do capitalismo ou a barbárie que, aliás, já se manifesta.

Os agrupamentos da esquerda hesitam em apontar com clareza que o grande empecilho de uma evolução sociopolítica progressista é o capitalismo e suas determinações, incluindo as atuais democracias liberais. Suas manifestações sugerem a possibilidade de um capitalismo domesticado, e a única expressão que aparece como proposta concreta e sem tergiversações é:  "resistir". Isso é pouco, muito pouco.

As populações mais carentes estão descrentes das propostas políticas da esquerda. Já perceberam que elas não são alternativas para modificar efetivamente suas situações e, assim, respondem equivocadamente ao toque de chamada fascista que convoca para a derrubada de todas as estruturas sociais embora elas, as populações carentes, sejam os verdadeiros alvos e principais vítimas dessa escolha. Preferem arriscar.

Veja-se o caso do Brasil. O governo Lula empenhado em realizar os seus compromissos de frente ampla, desdobra-se em malabarismos para ajustar o inajustável, isto é, as desejadas metas sociais versus as insaciáveis buscas de ganhos das organizações capitalistas e dos seus representantes parlamentares.

O governo até tenta se justificar para a população, mas erra quando cede às barganhas parlamentares sem denunciar e desnudar a farsa que se desenrola no palco político. Pior do que isso, não aponta com clareza para a população uma alternativa de transformação real do quadro atual. Quem propõe sem constrangimentos mudanças revolucionárias é a direita fascista.

A maior parte das correntes de esquerda ou, genericamente, as correntes progressistas confundem o apoio ao governo com a obediência acrítica e quase religiosa  às suas decisões. Negam ao presidente a possibilidade de ouvir opiniões de fora de sua bolha de apóstolos. Isso é messianismo puro, situação catalisada pelas características pessoais e personalidade do presidente. Sem essa crítica, assim como em outras partes do mundo, seguem perplexos diante do avanço da extrema direita. E não nos iludamos com os resultados recentes na Inglaterra e França, positivos, sem dúvidas, mas não revertem o avanço reacionário.

Genocídios. Guerras. Não estão ocorrendo por acasos, coincidências ou idiossincrasias de dirigentes políticos caricatos ou de líderes religiosos fanáticos. As determinações do capitalismo não incluem carregar consigo uma massa humana que deixou de servir aos seus propósitos em decorrência dos ganhos tecnológicos na produção. A solução é o descarte. E essa é a função do fortalecimento e propagação da ideologia e dos agrupamentos de extrema-direita. Esse movimento prosseguirá porque ele faz parte da lógica capitalista cujas corporações sustentam financeiramente suas atividades. Ele crescerá enquanto os movimentos progressistas, de esquerda ou quaisquer que sejam suas designações, não assumirem que as soluções para os enfrentamentos passam imperativamente pela explicitação da luta pelo  fim e superação do capitalismo. Passam também por se desavergonharem de falar em socialismo, comunismo ou revolução. Mas, cá pra nós, nem todos querem isso, talvez ainda por medo ou, quem sabe, por convicção.

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sábado, 22 de junho de 2024

Escolha difícil

 

Leituras para distrair

 

Hoje gozei meu privilégio de morar na Praia do Flamengo, frente para o mar e em local com fácil travessia das pistas de rolamento do Aterro. Semáforos e  passarelas em frente ao meu prédio permitem e acesso a parte especial da praia com quiosques, barraquinhas, posto de salva vidas etc.

Com o recente desvio do Rio Carioca, que agora despeja suas sujeiras diretamente no interceptador oceânico em vez de fazê-lo na Praia do Flamengo, a praia está quase despoluída, e uma conjunção de eventos  climáticos favoráveis de ventos e marés - noticiados nos jornais – tornam as águas claras e sem detritos. Um passeio na praia e mesmo um eventual mergulho são um prazer especial, como eu disse antes: um privilégio.

Com a audição congestionada de ouvir Chico Buarque por conta da passagem do seu aniversário e da quantidade incontável de mensagens anexando suas composições, cada uma mais bela que a outra, envolvi-me num clima de alegria, felicidade e presunção de conviver uma geração especial de poetas musicais inigualáveis como Aldir Blanc, Paulo Cesar Pinheiro, Cartola e Chico Buarque.

Mas, o inusitado e que justifica essas anotações é que toda aquela atmosfera de sublime Caribe Carioca pareceu desmanchar no ar ao ouvir os sons musicais emanados das barraquinhas e quiosques. Chico, Cartola, Aldir e Paulo Cesar são ilustres desconhecidos naqueles espaços.

Faço um esforço permanente para não fazer coro ao discurso equivocado do tipo: “já não se faz música como antigamente”. Não endosso esse discurso, compreendo as distancias entre as gerações, as experiências distintas, contextos e , naturalmente, as produções e relações artísticas. Mas, tô fora! Salvo nichos especiais que tenho acesso, a maioria das coisas que ouço são feias e sem graça para o meu gosto musical. Pior para mim!

As bolhas de comunicações e os hiatos geracionais são uma realidade que deve ser compreendida para que não caiamos na mesmice do conservadorismo ou, pior, do reacionarismo. Talvez eu esteja na praia errada, mas, ainda assim,  não deixo de imaginar como seria prazeroso se o som de fundo nas barraquinhas do Flamengo fosse alguma composição do Chico. Qualquer uma porque certamente ela me faria lembrar outras e eu seguiria cantarolando mentalmente, sonhando esse sonho impossível de desafiadora auto interrogação: tentar responder qual a minha preferida composição do Chico?  

### (Jorge Santos – Rio, 21/06/2024)

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Qualquer preço?

 Opinião

“Precisamos garantir a governabilidade do governo que elegemos, e pagamos um preço por isso”. Com argumentos iguais ou similares, essa tem sido uma justificativa recorrente de alguns militantes diante de certas ações ou omissões do governo Lula quando pressionado pela direita política.

Contudo, vale perguntar: devemos pagar qualquer preço? E na sequência da pergunta: como saber se devemos pagar, qual é o critério?.

Tomemos como exemplo a atual investida da bancada de estupradores do Congresso e a intimidada reação governo Lula. Felizmente a mobilização popular arrefeceu o avanço dos parlamentares estupradores, embora sem calar suas intenções porque a proposta está mantida, e também forçou o governo se manifestar, embora tardiamente.

Parte do ministério governamental chegou a se manifestar, mas não autorizados a falar em nome do presidente - como se isso fosse necessário nesse tipo de questão. Lula, no exterior, inicialmente disse que teria que tomar mais conhecimento do assunto – como se a questão fosse uma novidade para ele. Quem não te conhece que te compre! Diria minha avó.

O seu representante na Câmara dos Deputados, quando questionado respondeu que “essa não é uma questão de governo”. Enfim, Lula atuou com as mesmas referências do comando de estupradores da direita que apostou em passar a boiada sem mobilização popular e foi surpreendido. Lula pisou na bola e pisou feio, outra vez teve uma reação de cagão.

Não há um consenso sobre o Lula cagão, nem eu trato essa questão como um atributo ontológico do presidente. Para mim é circunstancial e uma avaliação objetiva do governo deve decorrer de como ele responde às demandas que lhes são colocadas pela conjuntura política e não por minhas simpatias, empatias ou admirações por seus reconhecidos méritos. Dou mais valor à questão inicial:

Devemos  deixar de reagir às questões dessa ordem em nome de uma suposta garantia de governabilidade  e de evitar um impeachment? Qual deve ser o critério que determinará o sim ou não diante destas questões?.

A resposta é que só os fins justificam os meios, contudo não se justificam os meios que contradizem os fins que eles visam alcançar Esse é o critério!

Não dá para governar “esquecendo” os crimes da ditadura contra a população com a justificativa da garantia de um governo progressista e de representação popular. Assim como não dá para governar endossando o avanço de uma bancada de estupradores contra crianças e meninas mulheres em nome da garantia de um governo que teria como princípio justamente a defesa, a liberdade e a garantia de direitos dessas mesmas meninas mulheres. Isso é um contrassenso!

Essa prática contradiz o fim que ela diz querer alcançar. É um absurdo lógico e político! Não dá para praticar um governo escroto com a justificativa de garantir um governo que supostamente não seria assim.

Trata-se de um governo de alianças, então todas as questões terão esse caráter? Certamente não! Possivelmente o governo será uma sequência de concessões aos seus propósitos programáticos, mas há um limite, e esse limite são princípios que nem precisam ser enunciados, eles afloram na dinâmica dos embates. Não deverá haver contradições entre os meios e os fins.

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sexta-feira, 14 de junho de 2024

Uma bancada de estupradores

Opinião

Esse assunto PL do Estuprador não deveria ser deixado esquecer com o arquivamento, retirada de pauta ou coisa que o valha. O ideal seria que a mobilização que embotou o projeto se voltasse agora para marcar a ferro e fogo os seus autores e patrocinadores. 

Basta de consumir energias classificando a escrotidão do projeto, o que foi dito até aqui tem sido suficiente para denunciar a sua natureza. É preciso, contudo, apontar os canhões da indignação e repulsa para desvelar os seus autores, e para carimbá-los de tal forma que suas faces e nomes não consigam ser vistos, lidos ou pronunciados sem que sejam associados ao crime que executaram. 

Essas figuras não deveriam ficar impunes sob pena de se esconderem até sob outros crimes que certamente cometerão mais adiante. A punição deveria  ser  rebatizá-los acrescentando um apêndice, um identificador político. Por exemplo: O Eduardo, o Nicolas, a Bia, a Carla, o Escambau da PL do Estuprador. 

Também não dá para deixar ser levada pelo entusiasmo das mobilizações e passar batida a postura do governo Lula que fingiu que o assunto não era com ele. Como o vizinho inocente do Bezerra da Silva "...nasceu ai, não sou agricultor, desconheço a semente... " 

Outra vez cagão, Lula escondeu-se sob a autoridade de alguns dos seus ministros (de utilidades eventuais) que denunciaram o projeto, mas sem o endosso do chefe do governo nem autorizados a falar em seu nome. Cresce o número de situações em que o governo Lula assume essa postura. Está virando prática. ###

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Mísseis de Cuba e a inundação do Guaíba

Leituras para distrair


O colégio da minha neta, buscando integrar os alunos (crianças) aos eventos do RS, propôs como atividade que elas escrevessem cartas a um coleguinha imaginário riograndense. Os textos são emocionantes.

Guardadas as proporções e contextos, esse fato me fez pensar sobre como as crianças sentem ou percebem esses momentos de apreensões e angústias coletivas, e me fez lembrar da minha incompreensão e dos colegas, quando meninos, durante a crise dos misseis em Cuba e da ameaça de uma guerra atômica no ano de 1962.

Eu tinha 11 anos, iniciava o ginasial, e lembro do esforço de um determinado professor tentando explicar o significado das notícias que ocupavam todos os espaços da imprensa de então. A partir dessas lembranças, venho tentando imaginar como as crianças atuais do meu convívio estão absorvendo essas informações que anunciam um mundo sem perspectivas que não sejam tragédias.

Os fatos são trágicos e cotidianos e as versões são várias, umas consistentes outras com falsidades oportunistas. Gaza, Ucrânia, além de outros, e agora Rio Grande do Sul cujas inundações estão arrastando consigo o tema sombrio do aquecimento global e o esperado aumento da frequência das crises climáticas agudas. Sem contar a já quase banalizada tragédia das periferias brasileiras.

Alguém lembrará que enquanto as “minhas” ainda estão protegidas, há crianças que já estão sendo vítimas diretas desses acontecimentos. Replico: com toda razão! Não sei o que dizer.

No meu caso, por razões diversas não tenho conversado esses assuntos com os meus netos. São crianças de 8, 10 e 12 anos que independentemente das nossas vontades e apesar das blindagens que façamos são expectadores e ouvintes quase permanentes das notícias, além de potenciais personagens ou vítimas desse teatro dantesco. Não imagino como eles estão percebendo esses cenários.

Vivemos uma época em que a internet nos faz pensar que as crianças sabem tudo, e talvez saibam mesmo, no sentido de ter acesso a praticamente todas as informações – elas dominam aplicativos e navegam em redes de informações com mais desenvoltura que muitos de nós (do que eu, pelo menos). Contudo, como elas estarão introjetando essas informações? Quais serão suas dúvidas, angústias e inseguranças? Minha entrada na adolescência foi na Guerra Fria e eu tinha muito medo da tal bomba atômica.

Penso também que o ser humano tem certas defesas que são ativadas em situações extremas. Uma dessas defesas é a banalização dos eventos como forma de não sofrer com eles. Quem sabe, tais defesas sejam ativadas nas crianças que passam a ver as tragédias como fatos corriqueiros e que dispensam a solidariedade, aliás, o capitalismo cuida bem disso. A indústria do entretenimento cuida de misturar a ficção com a realidade de um futuro distópico. A nova temporada desta série eu não assistirei, a natureza cuidará disso.

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