quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Sem resposta, nem proposta

 

Opinião

 

Recebi mensagem reproduzindo notícia de um jornal local com a manchete:

Nova Operação estoura Cracolândia em frente ao Palácio do Catete

A notícia se referia a um  ajuntamento, ainda pequeno, embora permanente e crescente de indigentes que ocupam o corredor entre o muro do Museu da República e  as construções do elevador e de ventilação do Metro Catete, aqui, na cidade do Rio de Janeiro, e onde consomem o crack que é um derivado da cocaína. Segundo a notícia, houve operação anterior, 9 meses antes, e sobre a ação na quarta feira última, 09 de janeiro de 2024, o jornal disse:

“ Os 11 cracudos abordados possuíam antecedentes criminais, como roubo, furto, Lei Maria da Penha, entre outros. Um deles, possuía oito passagens pela polícia... “

Em conversa com pessoa amiga comentamos sobre como responder a esse tipo de  desafio social partindo da premissa que agir contra o aumento de moradores de rua viciados em crack e que formam as apelidadas cracolândias, com todas as suas características e consequências, não pode ser simplesmente tirá-los da nossa frente ou matá-los.

De minha parte, assumo que não tenho resposta nem proposta para esse enfrentamento. Nem  mesmo se eu tivesse poderes econômico e político absolutos eu não saberia como tratar tal problema, esse tipo de vício e viciados.

Conheço algumas iniciativas beneméritas, mas que são de caracteres praticamente individuais, de pessoas que dedicam suas vidas aos cuidados desses necessitados. Mas, eu não estou entre essas pessoas e a sociedade não é povoada de padres lancellottis. Também não acho que esse seja o tipo de política pública que possa responder a esse problema social.

Faço o exercício de tentar, mas não consigo imaginar uma sociedade de seres que se autodiagnostiquem como sadios  e que se organizem em um ambiente de aceitação e convivência em espaços comuns com outros também humanos, mas que por circunstâncias infelizes e diversas foram transformados em mortos-vivos. Uso a voz passiva porque acredito que ninguém terá mergulhado nessa situação por vontade consciente .

Imagino iniciativas de repressão ao tráfico e comercio de drogas que contribuam para mitigar as taxas de aparecimento de novos viciados, assim como imagino ações de natureza sanitária que possam auxiliar os indigentes, mas o vício sempre existirá e sou completamente ignorante sobre o assunto. Nem mesmo sei de iniciativas aqui ou acolá que possam ser tomadas como exemplos a seguir ou tentar. Apego-me à expectativa de que elas existam e a minha contribuição possível será conhece-las e, conforme o caso, adotá-las como bandeira assumindo a luta por elas.

 

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quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Pobres que apavoram

 

Opinião

 

Brincando recentemente com a lembrança do romance “1984” de George Orwell, registrei alguns termos que chamei de Novilíngua 2023.  Uma brincadeira para ajudar a pensar a vida e o mundo contemporâneo. Narrativa; Arcabouço; Estrutural; Ancestralidade,  foram alguns deles.

Ainda no finalzinho do ano, dei de cara com o termo Aporofobia que tem sido divulgado pelo padre católico Júlio Lancellotti  praticante de ações sociais com moradores de rua na cidade de São Paulo (SP). Sem entrar nas raízes etimológicas do vocábulo, vale o significado nos termos em que tem sido divulgado pelo padre Júlio:

Aporofobia significa rejeição ou aversão aos pobres

Não se trata de uma aversão à pobreza, mas aos pobres, e o padre Julio, em suas ações para mitigar as situações de miséria dos moradores de rua, também tem denunciado veementemente a Aporofobia.

As pregações do padre têm tido repercussões, ao ponto da Câmara de Vereadores da cidade de São Paulo, em dezembro último, num ato de escrotice extrema, ter aprovado um pedido de comissão parlamentar de inquérito (CPI) para investigar organizações não governamentais (ONGs) que atuam na região da Cracolândia, mas cujo objetivo principal  – não é novidade – é constranger a atuação do padre Julio Lancellotti

O padre Julio parece estar cagando para a possível CPI. Já declarou que nem trabalha em ONG, que faz  trabalho da Arquidiocese, a Pastoral do Povo da Rua de São Paulo. A Arquidiocese,  por sua vez, já se manifestou oficialmente criticando a iniciativa do pedido de CPI.

Um termo, um vocábulo, não aparece na língua vindo do nada, ele é praticado enquanto faz sentido na sociedade onde circula. Não é um fato novo  a existência entre nós de pessoas que manifestam sua aversão aos pobres sem demonstrar aversão a pobreza. É tão comum que até se faz caricaturas disso.

Um personagem de sucesso na TV , Caco Antibes, fazia a caricatura da Aporofobia - “ Tenho horror a pobre!“ - era o bordão do personagem interpretado pelo ator Miguel Falabella. E em minha infância, ainda na era do rádio e antes da TV, o programa "Balança, mas não cai!" divertia as pessoas com a dupla caricata: Primo Rico e Primo Pobre interpretada pelos atores Paulo Gracindo e Brandão Filho, respectivamente.

A sociedade tem instituído alguns constrangimentos às piadas de humor com homossexuais,  negros, gordos e carecas,  que antes eram caricaturas comuns no anedotário  público, e hoje são politicamente incorretas. Porém, ainda não há constrangimentos para as exposições caricatas da Aporofobia.

Muitos implicam com o chamado politicamente incorreto. Não me excluo. Busco me corrigir, mas não é uma reação espontânea, é elaborada. Acredito que o incômodo desaparecerá com o fim da minha geração, as que virão reagirão melhor. Mas, o fato é que o constrangimento representa um estado de amadurecimento cívico e social. Sabemos a origem das proibições, e a contrapartida é que elas carregam consigo uma vontade de desmontar visões preconceituosas e, consequentemente, discriminatórias.

Enquanto isso segue a realidade social com seus conflitos e, felizmente, existem padres Julios para pregar a distinção entre pobres e pobreza, adentrando em espaços onde a militância tradicional nem mesmo se atreve, e fazendo suas mensagens ressoarem com tal potência que chega a abalar e apavorar canalhas com armaduras de mandatos parlamentares que além de aporófobos são padrejuliófobos.

Em tempo: continuarei registrando termos da Novilíngua, agora 2024.

 

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segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

O fim da vida, sem direito a Bis

Opinião

 

Nas primeiras linhas, do primeiro capítulo, da primeira seção do primeiro volume da sua obra O Capital, há mais de um século e meio, Karl Marx escreveu assim:

“A riqueza das sociedades onde reina o modo de produção capitalista aparece como uma “enorme coleção de mercadorias”, e a mercadoria individual como sua forma elementar” 

O sacana do Marx compreendeu, definiu e ensinou sobre o núcleo do modo de produção em que ele vivia: o modo capitalista ou capitalismo. Surpreendentemente para muitos em suas primeiras leituras, o tal núcleo não é o trabalho, nem o homem, nem a exploração, muito menos a revolução. O núcleo é a mercadoria.

No capitalismo tudo é tomado como mercadoria, se não for, não tem vez no sistema. Quem tiver alguma  mercadoria pode ir ao mercado e tentar trocá-la por outras que poderá consumir para sua sobrevivência. Quem não tiver está fora. É descartável.

E prosseguiu Marx:

“A mercadoria é, antes de tudo, um objeto externo, uma coisa que, por meio de suas propriedades, satisfaz necessidades humanas de um tipo qualquer. A natureza dessas necessidades – se, por exemplo, elas provêm do estômago ou da imaginação – não altera em nada a questão. Tampouco se trata aqui de como a coisa satisfaz a necessidade humana, se diretamente, como meio de subsistência, isto é, como objeto de fruição, ou indiretamente, como meio de produção”

(Nota: Essas traduções foram copiadas das edições de O Capital da Editora. Boitempo) 

O velho Mouro viu muito além do seu tempo. Mas, não cometamos o equívoco de imaginar que ele profetizou ou idealizou os dias de hoje. Não!  Ele não era mágico e nem fazer idealizações era a sua praia. Materialista, ele  pensava no mundo a partir das suas experiências e das realidades que conhecia e, ainda assim, ele viu o coração do sistema – a mercadoria. Aliás, esse é o título do Capítulo 1 de O Capital. Ovo em pé. Depois que alguém mostra a solução ela parece óbvia.

Hoje os jornais informam que o  estádio de futebol Morumbi será, a partir de janeiro de 2024 e durante os próximos três anos chamado de MorumBis – uma referência à marca de chocolate Bis. Um negócio de 75 milhões de reais. Alguém vendeu e outro alguém comprou o nome do estádio!

O tipo do negócio chama-se “naming rights” e a mercadoria é o “nome” do estádio. A mercadoria atende às necessidades humanas. Se elas provêm do estômago ou da imaginação – não altera em nada a questão. Essa assertiva foi estabelecida pelo Mouro há mais de 150 anos.

São muitos os exemplos de “naming rights”. Negociações similares já foram feitas pelos clubes Palmeiras e Corinthians. Em 2021 os jornais anunciaram uma crise no Metro RJ que vendeu o nome da estação Botafogo que passou a se chamar: Botafogo/Coca Cola.

Muitos comentarão com indiferença que capitalismo é isso mesmo, vida que segue, mas sem compreender ou considerar a abrangência desse modo de produção que entende tudo como potencial mercadoria.

Marx foi além. Apontou que o futuro do capitalismo é a extinção da nossa espécie, na medida em que até mesmo a natureza que viabiliza a vida humana no planeta será consumida como “mercadoria”. E tem gente que acha que a bandeira de fim do capitalismo é coisa de comunista e de sonhador inconsequente.

Superar o capitalismo é imperativo se o ser humano não quiser ser o seu próprio algoz. Tarefa de quem ainda está ou estiver por aqui. Que venha 2024!

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terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Fungível ou Não Fungível? Eis uma questão

 

Leituras para distrair

 

Pode ser que você esteja efetivamente conectado às novidades do mundo contemporâneo, particularmente as decorrentes das novas tecnologias. Quem sabe, até,  olhe com desdém outros, como eu, que estando ainda atrelados a invisíveis grilhões geracionais atrasam o passo sem conseguir acompanhar a corrida frenética da humanidade para um futuro que ninguém discutiu se deveria ser o nosso objetivo.

Pois bem, qualquer que seja o seu grupo, sugiro como atividade interessante uma visita à exposição no Centro Cultural Banco do Brasil RJ – CCBB, intitulada  “Década dos Oceanos - I Mostra Nacional de Criptoarte”.

Se buscarmos informações sobre a tal exposição vamos encontrar a seguinte descrição:

 

“  Através de 27 artes digitais, na forma de NFTs “ ... “ A exposição propõe um espaço para o debate sobre as novas fronteiras da arte contemporânea e apresenta a primeira geração brasileira de artistas digitais que usam a plataforma blockchain para validação da sua produção”

 

Se você entendeu, ponto pra você! Mas eu admito que fiquei feito um babaca, dado que não me adiantou muito traduzir “blockchain” como “cadeia de blocos” e muito menos ao saber que “NFT “ significa  “ non - fungible tokens” ou “ tokens não-fungíveis “

A exposição em si é um monte de telas, tipo TVs enormes, com imagens, a maioria em movimento, representando paisagens ou cenas referentes a oceanos e coisas associadas. Para o babaca aqui, ou leigo, se quiserem, não pareceu coisa muito diferente das inúmeras animações you tube que recebemos via zap, salvo, naturalmente, o gigantismo e a qualidade das produções. Mas, o meu interesse em nenhum momento esteve atrelado às imagens ou obras. Eu fiquei invocado com a tal da criptoarte, o blockchain e aquelas coisas “não fungíveis”.

Até onde consegui saber (passei mais tempo no google do que na exposição), blockchain refere-se a um conjunto de computadores e de softwares que formam uma rede com um sistema de processamento, armazenamento e transmissão de informações em códigos (criptografados), nos quais a segurança das informações é extremada e garantida.

Essa estrutura já é utilizada entre grandes corporações para tratar seus negócios e mesmo para o processamento interno de informações. É essa a estrutura utilizada para as negociações com as moedas virtuais chamadas de “bitcoins” ou criptomoedas, mas agora estão sendo adotadas para uso em “artes digitais” e, assim, denominadas de criptoartes.

Uma das características desses mecanismos é que, ainda com objetivo de segurança, o que circula nas redes não são as informações em si, mas um código ou senha que representa o conjunto de informações denominado “ token”.

Podendo representar vários dados, o token pode representar um produto, um serviço, um pagamento, um meio de pagamento, e até mesmo um ativo economicamente tangível.

Com essa concepção, um vídeo criado por um artista pode ser representado ou “validado” por um token e circular numa blockchain sem o risco de ser copiado,  garantindo a exclusividade de sua propriedade e a impossibilidade de replicação da obra. No limite, sem entrar na discussão sobre o que isso significa em termos de valores sociais, o uso dessas tecnologias garante até a manutenção do princípio da escassez da obra.

Um token que represente dinheiro, por exemplo as bitcoins, pode ser gasto, consumido em partes ou integralmente. Bens com essa característica na linguagem jurídica são chamados de bens “fungíveis”. Os que não podem ser gastos ou consumidos, integralmente ou em partes, são os “não fungíveis”. Os tokens que representam as obras de artes são do tipo “não fungíveis” ou NFT – “ non - fungible tokens”. Foi essa porra que fui ver no CCBB.

Buscando saber sobre o assunto, vi notícias que já existem casos de leilões de criptoartes com peças negociadas no valor de  dezenas de milhões de dólares.

Eu não faço juízo sobre valor de produtos artísticos. Trata-se de uma discussão que foge da intenção aqui. Mas, faço um juízo negativo da valorização de objetos artísticos  apenas pela condição de serem propriedade exclusiva ou da raridade e escassez da obra. Acho uma valorização escrota e sem sentido. Não sinto o constrangimento em expressar: F... -se os que valorizam isso (o “f ...” não é de fungível).

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EXPOSIÇÃO - DÉCADA DOS OCEANOS - 1ª MOSTRA NACIONAL DE CRIPTOARTE

CCBB RJ – de 30 de novembro de 2023  a  26 de fevereiro de 2024

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Puxando conversas - humanidade

Opinião 

Aprendi a não gostar do termo “humanidade” porque, salvo, talvez,  o seu significado biológico,  ele idealiza algo que não se verifica materialmente. Pior do que isso, ele generaliza e encoberta a realidade das relações sociais que, por sua vez,  são determinadas pelos nossos papéis no modo que nos organizamos para produzir os bens básicos da nossa subsistência. Atualmente, o modo de produção capitalista.

 No mundo real não existe uma “humanidade”, existem pessoas que  se organizam para suprir suas necessidades vitais e que, atualmente, salvo algumas poucas comunidades, estão divididas em classes sociais conforme o papel de cada um na produção, na propriedade e na troca de mercadorias.

 Apoiado nessas premissas, penso que há um fator que fica escondido, como se estivesse disfarçado, em quase todas as intervenções que tenho acompanhado sobre a tragédia na Palestina: o papel do capitalismo e suas decorrências.

 Estamos, sim, diante de uma tragédia que “não nasceu no vácuo” como expressou o secretário geral da ONU, mas quando se discorre sobre as causas do conflito, dificilmente são alegadas as decorrências do modo de produção capitalista, com sua dinâmica e os seus atores, entre eles as mega corporações cujos interesses determinam as políticas governamentais que provocam discriminação, apartação, segregação, guerras e coisas do gênero. O capitalismo fica dissimulado, nunca vem à tona, como se ele não tivesse importância. Nunca é debatido.

 Sem desqualificar as vítimas civis israelenses assassinadas pelo Hamas nem os assassinatos em massa de palestinos que o governo israelense está praticando, arrisco dizer que tais horrores e tragédias estão abstraídos da motivação central dessas disputas, qual seja, a manutenção de uma ordem na relação de poderes mundiais que é a ordem capitalista ou o capitalismo.

 Vale ressaltar que essa abstração não retira o realismo triste e trágico da chamada questão palestina. Não desfaz as atrocidades que tenham sido cometidas pelo Hamas e, muito menos, o genocídio que "Bibi" Netanyahu vem praticando com as bençãos de Joe Biden (EUA), Emmanuel Macron (França) ,  Rishi Sunak (Inglaterra) e  Olaf Scholz (Alemanha), para não citar outros.

 Contudo, essa abstração distrai nossos olhares, muitos até conformados ao assistir genocídios em horários da tarde nas TVs. Navios de guerra da China “visitam” o Kwait; aviões da Russia com mísseis hipersônicos monitoram esquadra americana no Mar Negro; porta aviões dos EUA nas proximidades de Israel; navio de guerra da Inglaterra nas proximidades do conflito; bombardeio do aeroporto de Damasco por Israel. Parece que tudo está organizado e esperando um estopim. Ficamos hipnotizados e ninguém debate que essa suruba bélica resulta de uma rearrumação do capitalismo.

 O capital em suas várias formas precisa explorar, circular, acumular e repetir o ciclo. Para o capitalismo vidas humanas não importam, fodam-se os judeus e os palestinos. Essa é a sua lógica que não é uma lógica do bem contra o mal, de palestinos contra judeus. É a natureza de um modo de produção que inventamos e que precisamos superar. Ainda assim estamos entupidos de narrativas sobre a origem dos conflitos na Palestina, afogados em histórias da Bíblia, Torá e Alcorão quando deveríamos estar forçando um questionamento:

 O que faz os principais governos ocidentais empenharem-se na manutenção daquele Forte Apache, encravado no Oriente Médio e chamado Israel?

 Afinal, quem acredita que foi o assassinato de um duque lá na puta que pariu que provocou a primeira guerra mundial? 

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sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Gaza - ainda tomando partido

Opinião 


Em postagem anterior, aqui, nesse blog, eu publiquei:

 “embora consciente que essa não é a opção política de toda a população israelense, o fato é que Israel tornou-se um estado racista e empenhado numa limpeza étnica cuja vítima principal tem sido as populações palestinas ”

Recebi discordâncias dessa afirmação. De minha parte, gostaria sinceramente de estar enganado, e vou além: gostaria que conjuntura política, tão conturbada, afetasse o rumo dos acontecimentos e negasse minhas avaliações. Contudo, até lá eu reafirmo essas avaliações.

No cenário atual eu tenho procurado não ser abalado pelas narrativas e notícias.  Praticamente todas, de um lado e de outro, e também de alguns outros, estão contaminadas de preconcepções, quando não são simplesmente falsas, fakes, montagens oportunas.

Isso não muda fatos históricos já filtrados e reafirmados por suas próprias consequências, entre eles a política que tem sido adotada pelo estado de Israel em relação a população palestina.

O apartheid israelense é uma realidade inquestionável, Gaza e Golan são exemplos vivos (enquanto ainda existirem palestinos vivos) e, a continuar assim, na medida em que a onda fascista mundial, já conhecida no Brasil, contaminou também parte da sociedade israelense na escolha de lideranças políticas, não será absurdo imaginar que os palestinos estão ameaçados de uma “solução final” dado que estão no limite de suportarem a vida em guetos.

 

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terça-feira, 17 de outubro de 2023

Gaza - Tomando partido (2)

Opinião 


A situação na Palestina divide opiniões. É uma pena que tenha sido necessária uma tragédia provocada pelo grupo Hamas contra a população civil israelense para que o mundo dedicasse um pouco de atenção para a outra tragédia que vêm ocorrendo há anos e provocada pelos sucessivos governos de Israel contra a população civil Palestina. A essa altura dos acontecimentos não acho que  caiba resgatar aqui fatos históricos. As fontes são várias e consistentes.

Não há um sistema internacional para a medição e comparação de tragédias. Uma única vida perdida em um conflito é tão importante quanto qualquer quantidade perdida em outra situação. Não há equiparações por relação aritmética, não se trata de conferência de estoques.

Já expressei minha visão sobre o Estado de Israel representado por seus sucessivos governos. Embora consciente que essa não é a opção política de toda a população israelense, o fato é que Israel tornou-se um estado racista e empenhado numa limpeza étnica cuja vítima principal tem sido as populações palestinas. Qualquer que seja a proporção de opinião da população israelense, essa tem sido a pratica resultante de seus governos, todos escolhidos num processo que aquela população aceita como democrático.

Não acho que deveria haver dois estados na região. Até aqui sou adepto da solução de um estado único, laico, multinacional e com direção política determinada por seus habitantes de qualquer etnia ou religião – um cidadão um voto. Obviamente isso significaria o fim do estado de Israel nos termos atuais.

Ao mesmo tempo, não titubeio ao avaliar o ato do Hamas no dia 7 de outubro. Foi um ato violentíssimo e covarde na medida em que deliberou pelo massacre de população civil desarmada. Não, repito, não contaria com o meu voto caso eu tivesse essa opção. Eu não ignoro as justificativas para a atuação do Hamas, e se estivesse por lá, no centro das decisões, eu precisaria escolher. Sorte minha, não estava.

Não caio na armadilha de discutir se é terrorismo ou não. Terrorismo  é uma expressão que nada diz e que serve às circunstâncias. O status quo, os poderes instituídos e vigentes, usualmente denominam de “terrorismo” as ações violentas contra si e lançam mão da consigna: contra a violência e contra o terrorismo – como se isso fosse um dever sagrado e inquestionável. Mas, nunca se dispõem a debater as razões de um ou de outro. Afinal, por que “terrorismo”  ou  por que  “violência”?

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sábado, 14 de outubro de 2023

Gaza - Tomando partido

Opinião 

Não sou um jogador nessa partida, estou mais para espectador, torcedor e ainda meio perdido porque as ocupações do estádio são confusas. Busco o melhor lugar de observação e onde eu possa também manifestar minhas reações, minhas emoções.

Faço questão de ressalvar minha ignorância para aprofundar discussões sobre o que tenho aprendido e avaliado, ainda assim, incluo-me entre aqueles que apostam que a saída para o complexo labirinto de questões na região da Palestina seria a formação de um estado único, multinacional e laico, modelo África do Sul pós-apartheid e baseado na experiência histórica das lutas sul-africanas contra a discriminação racista naquelas paragens.

Isso daria fim ao atual estado de Israel que é incontestavelmente um estado somente judeu e para judeus, assim como a África do Sul do apartheid era um estado de brancos e só para brancos, onde negros eram cidadãos de segunda classe e sem direitos.

Não ignoro que esse tipo de escolha tem contra si um estigma muito forte porque traz embutido o fim do estado de Israel que, mesmo sendo apenas um simbolismo redutor, é dificílimo superar, um obstáculo para fazer avançar qualquer debate. Ainda assim, a solução na qual aposto é a de um estado laico, multinacional e com direção política determinada por seus habitantes de qualquer etnia ou religião – um cidadão um voto.

Essa é uma alternativa tem sido apontada por importantes analistas do setor ainda que seja de difícil de adoção no quadro atual de composição das forças políticas e armadas, mas estou convencido que deveríamos lutar por ela e divulga-la buscando adeptos.

Com um discurso bem mais competente, em artigo recente, Illan Pappé, um professor da Universidade de Exeter (Inglaterra) se expressou assim:

“... há uma alternativa. Na verdade, sempre houve: uma Palestina dessionizada, liberta e democrática do rio ao mar; uma Palestina que acolha de volta os refugiados e construa uma sociedade que não discrimine com base na cultura, religião ou etnia. Esse novo Estado trabalharia para corrigir, tanto quanto possível, os males do passado, em termos de desigualdade econômica, roubo de propriedade e negação de direitos. Isso pode anunciar um novo amanhecer para todo o Oriente Médio...“ (texto publicado originalmente publicado no  Palestine Chronicle - acesso em 13/10/2023)


sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Meus fantasmas

Leituras para distrair 

Gosto de estar com os meus fantasmas. Eles me iluminam, não me assombram Não enchem o meu saco apontando caminhos nem me recriminando pelos percursos que fiz. Fazem-me companhia e com que eu sinta que eles estão na área, comigo.

Sinto saudades, mas já não é mais aquela falta trágica, doída de ferida recente. Hoje é uma saudade suave, consciente que a vida passa, e acabo unindo mundos onde se misturam os meus fantasmas e os queridos presentes. Sou a  ligação desses mundos. Quero continuar assim, entre eles, e do jeito que convivemos até aqui. Virá o dia em que também serei fantasma, não me apoquento com isso, a ideia não tira o meu sono. Quero seguir com a experiência atual, ela me faz feliz.


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quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Ainda sobre Gaza e a Palestina

 Opinião

Quais  foram os principais objetivos dos ataques do 11 de setembro de 2001 nos EUA? Mostrar que o gigante imperialista, apesar de sua imensa fortaleza, não é inatacável? Forçar novas leituras do contexto geopolítico mundial e denunciar o papel dos EUA? Trazer o medo e insegurança para dentro das fronteiras e lares americanos que se consideravam inatingíveis, o mesmo medo sentido em lares distantes e levados pela política externa americana?

Os ataques foram planejados com antecedência. Certamente também foram avaliadas as consequências adversas para os seus executores e para as populações que diziam representar. Um custo altíssimo foi pago. Vidas.

Os objetivos foram alcançados? Em parte, avalio que sim. Não faço ideia, nem poderia, da relação custo/objetivos, mas certamente há um EUA e uma sociedade americana pós 11 de setembro diferentes. Ambos menos senhores de si quanto às suas possibilidades e isenções decorrentes dos seus atos. Quem sabe, até, menos arrogantes.

Estou vendo assim, por ora, os acontecimentos em Israel e Gaza. Suponho que não haja qualquer reação israelense que não tenha sido prevista pelo Hamas. Salvo, naturalmente, um gesto de busca de entendimento e solução para o conflito, mas esse tem probabilidade zero. No mais, nada será novidade, nem mesmo a extinção efetiva da população de Gaza. O Hamas, por deliberação direta ou instrumentalizado por outras forças políticas, decidiu pagar o preço. Afinal, a moeda é a própria população palestina.

A ação do Hamas promoveu uma aglutinação de apoios políticos a Israel. Agora sem fingimentos, o Hamas deu motivos. Violência injustificável, um ataque armado e letal contra uma população civil desarmada. Então, já não é preciso disfarçar que Gaza é um campo de concentração, a atenção total é sobre as vítimas do ataque.

As narrativas que tenho ouvido fazem parecer que até o último dia 7/10 a vida seguia tranquila e ordeira na região de Gaza, até que um grupo de extremistas resolveu invadir o território israelense com mísseis e tropas armadas assassinando e raptando civis.

No 11 de setembro americano houve algo parecido. Todo o mundo contra Bin Laden! Tudo que foi orquestrado pela máquina de guerra dos EUA foi endossado, justificado, aprovado. Guantánamo, Afeganistão, Iraque. Contudo, também outros fatos ocorreram. O rei foi despido, verdades vieram à tona, a falsa democracia americana já não engana ninguém. Se o mundo ganhou ou ganhará com isso é questão não respondida.

E em Gaza? Estamos no meio dos acontecimentos e a moçada local está literalmente no calor deles. As críticas que ouço ao governo de Israel, em maioria, resumem-se em apontar a culpa do sistema de inteligência israelense por não detectar com antecedência o ataque palestino. Quase ninguém aponta com clareza  a história da permanente e recorrente violência do estado de Israel contra a população palestina, incluindo a manutenção do campo de concentração de Gaza. É como se não existisse uma população palestina que atormentada pela opressão israelense, entre os seus espasmos de reação gerou deformidades como o Hamas.

Nós assistimos em casa, vemos a guerra pela TV, em certos momentos até abaixamos o volume para que o som das explosões não incomode.

 

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