quarta-feira, 22 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (34)


Opinião


Sendo múltipla a natureza humana, sujeitos diversos originaram situações diversas e algumas impactaram quase toda a humanidade. Um desses caras  foi  Vladimir Ilyich Ulianov, cujo pseudônimo era  Lenin, nascido em 22 de abril de 1870 numa cidade da Rússia então chamada  Simbirsk e que hoje tem o nome de Ulianovsk em sua homenagem. Hoje fazem 150 anos do seu nascimento.

Lenin foi  o principal dos líderes de uma revolução que transformou o mundo. Não apenas o cotidiano dos seus pares, mas que apontou para a humanidade a possibilidade real de uma alternativa de organização social sem a exploração do homem  pelo homem. Uma alternativa ao capitalismo.

A comunhão de ideais, além de admiração pelo empenho e dedicação desse militante extraordinário permite a muitos – entre os quais me incluo – referir-se a ele como “companheiro Lenin”.

Os ideais de uma sociedade melhor para todos os seres indistintamente não saíram da  cabeça do companheiro Lenin. Pensar assim é uma ignorância infantil. Germinaram com o próprio desenvolvimento humano, tiveram versões e interpretações. Em alguns momentos foram sacralizados. Geraram lutas e revoluções. Em sua defesa muitos sacrifícios foram realizados. Essa é a história da humanidade.

Mas, no século XIX, na linha de encontrar caminhos para uma sociedade melhor, na linha de transformar a realidade em que estavam inseridos, dois militantes especiais buscaram desvendar os obstáculos que efetivamente barravam as possibilidades de avanços na conquista desse sonho. E foi numa  parceria fenomenal que Friedrich Engels  e Karl Marx participaram ativamente dos movimentos políticos e se debruçaram para estudar os mecanismos de organização social de sua própria época,

Nesse esforço, Karl Marx, o gigante entre os gigantes, desvelou os meandros do emergente modo de produção na sociedade inglesa de então - o capitalismo – registrando-os em uma obra até hoje incontestável, Marx dissecou em detalhes o capitalismo, sua natureza e sua incompatibilidade com a ideia de uma sociedade solidária. Apontou suas potenciais direções de desenvolvimento  e deixou as pistas para que outros prosseguissem com sua obra.

No rastro das elaborações de Marx, e inconformado com as condições de miséria e de exploração da população  na sociedade em que vivia, o companheiro Lenin liderou movimentos sociais que levaram à revolução russa em 1917  e a formação da  União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em 1922.

A revolução liderada por Lenin estabeleceu outra perspectiva de visão do mundo. Foi feita com um apelo aos trabalhadores para que se unissem e a replicassem em todas as partes do mundo. Não foi por outro motivo que o mundo capitalista de então se virou contra aquele movimento.  

Além de duríssimas sanções econômicas impostas ao governo revolucionário, no intervalo de 1918 até 1920 os países capitalistas lançaram-se numa campanha de agressão às fronteiras soviéticas que reuniu: França, Inglaterra, Japão, EUA, Polônia, Grécia, Canadá numa mobilização militar cujas estimativas chegam a cerca de 180.000 homens.

A agressão terminou na medida em que a URSS abriu mão da proposta de internacionalização da revolução e também do cagaço das potências agressoras que os seus soldados fossem cooptados pelo ideal revolucionário que levou os trabalhadores a tomarem o poder no antigo império russo.

Mas, aqui não é e nem seria o local adequado para se saber sobre a história da revolução socialista de 1917. Hoje há uma quantidade enorme de fontes de informações disponíveis a qualquer um que tiver interesse e se dedicar ao assunto. Aqui o enfoque é celebrar a lembrança do companheiro Lenin. Não como um super homem, um super humano ou, um deus, mas como um militante ativo e excepcional que dedicou a sua vida a um projeto para o benefício coletivo. Infelizmente o companheiro Lenin morreu ainda nos primeiros anos da revolução que liderou (1924), e a sua morte foi determinante no rumo dos acontecimentos. O seu exemplo ficou.

Refletir sobre as suas lutas é importante num momento em que a pandemia do coronavírus está provocando expectativas de que a realidade se transformará por si própria ou como efeito colateral da contaminação. Uma expectativa de que sairemos “melhores” dessa pandemia. Ledo engano.

O sistema capitalista está ai, tão vivo quanto nunca. Querendo jogar os trabalhadores na fogueira viral e queimá-los como combustível. Basta ver os jornais. Aqui no Brasil e em todo o mundo capitalista as medidas que estão sendo tomadas visam tão somente recuperar o movimento do sistema que foi abalado. Mudar isso não será simples. Mas, é possível. O companheiro Lenin apontou a direção. Chegar lá é tarefa nossa.


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terça-feira, 21 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (33)



Opinião


Hoje é feriado nacional, celebração do vulto histórico Tiradentes e também do nascimento da agora sessentona Brasília. Em outras circunstâncias seria um daqueles feriados  bons de curtir. No Rio faz um dia bonito e agradável. Descanso do trabalho, reuniões com amigos, com a família, cair na gandaia pra quem tem o hábito, bebericar umas cachaças ou apenas ficar “coçando”, aproveitando um merecido dia de lazer. Mas, o coronavírus virou tudo de cabeça pra baixo, ou de ponta cabeça como dizem os paulistas. Isolados ou não, nada está normal. Esse feriado está mais com cara de enforcamento do que de aniversário.

Sem a alternativa de desfrutar  as alegrias da folga, é possível viajar mentalmente pela representatividade da data. Mas, cá pra nós, não é passeio de grande prazer. O principal homenageado é um herói que  a historiografia oficial nos empurrou goela abaixo desde os textos didáticos infantis. Um mito fabricado nas coxas, parido da necessidade de um símbolo para o golpe militar que criou nossa controversa república .

Nosso herói ganhou o apelido de “mártir da independência”, mas foi o bucha de um grupo que não queria pagar impostos à coroa portuguesa, e para os quais a ideia de uma autonomia para a região onde viviam pareceu boa alternativa. Faz-me lembrar alguns empresários que em nome de seus interesses já fizeram várias tentativas de emancipar a região do bairro de Alcântara em São Gonçalo (RJ) criando um novo município, aliás prática recorrente em todo o país. A ideia de independência do Brasil que cultivamos nem passava pela cabeça dos chamados inconfidentes e o próprio conceito de “Brasil”, se existia, era embrionário.

Fosse hoje, quem sabe, os tais inconfidentes teriam montado um “impostômetro” igual aquele patrocinado pelos coxinhas da Associação Comercial de São Paulo, além de organizar uma caixinha para a eleição de parlamentares que garantiriam jogar para as costas dos trabalhadores as obrigações devidas pelos seus lucros.

De qualquer forma, não tenho competência para fazer tratados nem defesa de teses históricas, apenas comento sobre fatos que são de conhecimento geral. Mesmo assim, resguardo o respeito pelo símbolo que é legalmente o Patrono Cívico da Nação Brasileira, além de patrono oficial de algumas instituições do Estado.

Prefiro associar o nome de Tiradentes à agradável cidade mineira e à sua vizinha  Coronel Xavier Chaves que já fez parte da primeira, embora eu não saiba se foi criada numa daquelas iniciativas que citei antes. Mas, o tal “coronel” foi um descendente do Joaquim José da Silva Xavier o alferes que dançou na frustrada conspiração. É lá que se produz a cachaça Século XVIII que também é vendida com o rótulo de Santo Grau - Cel. Xavier Chaves. Uma pinga deliciosa destilada naquele que é tido como o mais antigo alambique do Brasil ainda em funcionamento. Não fosse o coronavírus, viajar para bebericar uma Século VIII “in loco” seria uma boa alternativa para um feriado de terça-feira com a segunda-feira “enforcada”.

Já o aniversário de Brasília, como não poderia deixar de ser, reflete a representação que a cidade tem para o país. Brasília é  história viva e a sua criação resulta de uma escolha política que, para o bem ou para o mal, ainda hoje suscita discussões.. Quis o acaso que a capital completasse os seus sessenta anos justamente na época em que os cidadãos dessa faixa etária estão numa berlinda discriminatória  e classificados como grupo de risco na pandemia.

Tudo bem que sessenta anos é infância na escala de tempo da vida das cidades, mas na escala de tempo da vida humana Brasília assume agora a sua condição de idosa. Mais um atributo para a cidade que já tem uma imagem caricata por abrigar a representação dos poderes políticos com todas as suas deformações.

O fato é que a cidade está aí (ou lá), com suas virtudes e imperfeições. Abriga uma geração já amadurecida de descendentes dos candangos, e merece cumprimentos e agradecimentos solidários da sociedade brasileira. Afinal, sessentona, hospeda involuntariamente o SARS – CoV-2 responsável pela COVID-19, mas também involuntariamente hospeda um vírus boquirroto e infeccioso que contamina e abate o corpo social desse já combalido país.

Não deixarei de olhar a natureza e admirar a beleza desse dia de feriado, mas minhas celebrações ficarão por conta do aniversário de uma amiguinha querida, “meio isolada” a algumas quadras daqui, e para quem eu envio beijos e parabéns!

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segunda-feira, 20 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (32)


Opinião


Recebi cópia de uma foto tirada durante carreata que ocorreu, ontem, domingo, no Rio de Janeiro. O autor da foto, um fotógrafo da Reuters, destaca o fato de um policial estar apontando uma arma em direção a casas da favela do Vidigal que jogavam ovos e objetos em carros que participavam de carreata pró-Bozo e a favor da reabertura do comércio durante a pandemia do Covid-19.

O fotógrafo também destaca que ampliando-se a  foto é possível ver que o policial não está com o dedo no gatilho e que nenhum tiro foi disparado enquanto ele esteve lá.

A imagem está reproduzida abaixo e naturalmente cabem todas as observações e ressalvas. Uma imagem estática, sem registro detalhado de contexto , a própria imagem bem poderia ser o resultado de uma edição etc..

Porém, quem não é quadrado nem redondo não se surpreenderá em ver uma imagem capturada durante uma carreata de bozominions no Vidigal (bairro do Rio de Janeiro) com um policial fardado e de arma em punho que claramente não está em função de proteção dos manifestantes ou de ordenamento do tráfego. Até porque cenas similares repetiram-se em outros pontos do país e registram o avanço das manifestações fascistas.

Conversando sobre o assunto em videoconferência, ontem,  um amigo lembrou da poesia “No Caminho com Maiakovski”. Um poema do niteroiense, Eduardo Alves da Costa, que viralizou como se fosse da autoria do poeta russo. O poeta niteroiense teve a sensibilidade de expressar em seus versos:

“... Na primeira noite eles se aproximam e  roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. ... Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.”

Classifiquem como quiserem. Alarmismo, romantismo babaca, esquerdismo, imaginação pueril ou uma combinação qualquer dessas expressões que desqualifique minha avaliação, mas o fato é que essas mobilizações fascistas fazem a imaginação viajar para o que terá sido a realidade de Maiakovski e resgatada pelo poeta niteroiense.

Vivemos uma situação social tensa. As condições socioeconômicas agravadas pela pandemia coronavírus estão uma merda total e a expectativa é de que fiquem piores, embora possam estar distantes da realidade de muitos de nós que, felizmente, ainda desfrutamos de situações privilegiadas. O caos social, isso é, uma agitação popular sem direção política é tudo que interessa a esse bando fascista, e eles sabem disso.

Em criança, minha mãe, como outras, aporrinhava-nos para comer isso ou aquilo,  enfrentando nossas objeções infantis e arrogantes que cobravam a alimentação de nossa preferência.  A velha tentava resolver a situação da melhor forma. Suas imposições até  decorriam da preocupação com o necessário equilíbrio nutricional, mas na prática eram determinadas principalmente pela realidade  e pela disponibilidade das opções. Meu pai, mais calmo, e sem lançar mão de seus atributos  físicos, aconselhava com tranquilidade: “Ninguém passa fome tendo a comida perto. Pode deixar a comida aí”. Nunca esqueci essas observações.

Lembrei dessa passagem porque, dia desses, um líder comunitário, entrevistado sobre a conjuntura e as perspectivas das comunidades mais pobres, observou  com a tranquilidade que foi, ao meu juízo, também uma advertência: “ninguém vai morrer de sede ao lado de um poço, só porque o poço tem dono” .

Esse recado, claríssimo, dá a medida das circunstâncias que vivemos e dos conflitos e contradições que precisamos tratar. Por um lado, uma rebeldia mais do que justificada, embora sem direção política determinada e, de outro, uma corja fascista oportunista que conta com o caos que pode resultar dessa rebeldia. Receita explosiva.

Um grande problema é que essa questão crucial divide a esquerda, e sem resolve-la não saberemos para onde caminhar hora do “sapeca-iaiá” recorrendo agora à expressão poética do Bezerra da Silva.

Há os que insistem em consertar o sistema como se ele estivesse com algum defeito, e há os que entendem que o sistema não está com defeito – ele é assim, precisa ser trocado, substituído.  Incluo-me entre esses últimos.

A onda fascista avança. As manifestações do ex-capitão boquirroto , ontem, em Brasília, estão na primeira página de todos os jornais. Os caras mandaram até a democracia liberal pra casa do cacete e gritaram por ditadura.

Enquanto isso,  o maior partido de oposição, numa deliberação equivocada, recusa-se a assumir a palavra de ordem “fora Bozo”. Em vídeo, o pronunciamento da sua liderança mais parece com os de uma autoridade da área da saúde do que o de uma líder política. Aposta claramente no caminho de uma disputa eleitoral, na  possibilidade de uma posição segura e privilegiada no status quo. 

É hora de apontar direções políticas claras e alternativas às propostas fascistas que já ocupam ruas sem quaisquer constrangimentos, provocando e contando com o caos social. As carreatas avançam. É uma pena.


Imagem de fotógrafo da Reuters - capturada em 19/04/2020 de <https://www.instagram.com/p/B_Kvh38pn4Q/?utm_source=ig_web_copy_link>



Pronunciamento da liderança do PT - resgatado em 20/04/2020 de <https://youtu.be/_RHj1XfO_iM>

domingo, 19 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (31)


Opinião


Acho que  entrei na fase de receber notícias de “amigos de amigos” vitimados pelo coronavírus. Era uma fase prevista. Em minha expectativa essa fase antecede aquela em que as notícias desagradáveis se referirão diretamente às pessoas mais próximas. Faço figa para estar enganado e que esse tipo de avaliação não passe de uma reflexão medíocre e de buteco,  mas as coisas estão seguindo por esse caminho que parece inexorável.

De tudo que tenho buscado saber, nada alterou as avaliações iniciais sobre a melhor estratégia de combate à pandemia: tentar retardar a velocidade da evolução da contaminação,  empurrando para frente o pico e achatando a curva  da quantidade de casos. Com isso, ganharemos tempo para as chamadas  medidas profiláticas e para uma melhor adequação dos recursos disponíveis que são precários frente à demanda de contaminados. E como tática mais adequada para alcançar esse propósito: praticar, intensificar e garantir o afastamento social. Tática difícil de ser praticada porque conflita com as características e necessidades da maior parte da população.

Com esse tipo de avaliação, não é possível encarar com indiferença uma carreata de bozominions desfilando no Aterro, no sábado, fazendo a apologia desses pulhas defensores de torturadores e milicianos e convocando as pessoas a irem para as ruas. É difícil de aceitar e até podemos buscar termos mais elaborados para sintetizar e qualificar esses comportamentos: desinformação, descontentamento generalizado, revolta, indignação com partidos e políticos, enfim não excluo essas avaliações. Contudo, o fato real é que, seduzida por mecanismos diversos, há uma massa de pessoas que assumiu valores populistas e fascistas e que parece ter entrado em um estágio de possessão. Uma autotranscendência descendente (termo de Aldoux Huxley) que é impermeável a qualquer abordagem para conversar sobre alternativas políticas para o país.

A pandemia coronavírus talvez seja o resultado de uma ocorrência fortuita. Não sabemos. Mas, o cenário triste da nossa situação política não decorre do acaso. Ao contrário, resulta de ações conscientes praticadas por grupos parasitas que sobrevivem da exploração dos trabalhadores. Esse processo se alimenta da própria riqueza que os trabalhadores produzem, é garantido por armas e poderio bélico adquiridos com essa riqueza e se protege institucionalmente fazendo uso desses zumbis possessos que hoje estão nas ruas em carreatas.

Será desses grupos que partirão os primeiros gestos de violência e barbárie nos limiares dos estágios de extrema tensão social para os quais estamos caminhando. A direita política é quem tomará a iniciativa desses gestos porque é da sua natureza e esses possuídos, que hoje desfilam em carreatas, que fazem tocar marchas militares durante os panelaços, que se fantasiam com camisas da CBF, que gritam pelo ex-capitão boquirroto chamando-o de mito, é que  serão utilizados como  buchas de canhão e massa de manobras . Estão aí para esse uso e cumprirão essa finalidade. Devemos tentar estar preparados para isso.

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sábado, 18 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (30)


Opinião


A Toponímia é uma área da ciência (Linguística) que  estuda os nomes dos lugares. O nome dado a uma rua, um acidente geográfico, um bairro, uma cidade ou local qualquer é genericamente um topônimo.

Usualmente os topônimos carregam consigo registros da cultura ou da história de uma sociedade, e podem ser uma fonte de informação e pesquisa, até por prazer ou simples curiosidade. Eu, por exemplo, tenho um livreto “Estudo dos Topônimos Gonçalenses de Origem Tupi” que é uma publicação da Academia Gonçalense de Letras, Artes e Ciências e cuja leitura acho bem interessante para quem conhece e guarda uma relação de carinho com a cidade, como é o meu caso.

Contudo, eu tenho implicância com os topônimos que homenageiam “vultos” históricos de qualquer natureza: políticos, artistas, atletas e por aí vai. Acho que o valor histórico do homenageado sempre estará sujeito a avaliações controversas e que podem variar até com a própria história. Por outro lado, não implico com os topônimos de fatos históricos. As avaliações sobre eles também podem variar, mas são fatos e pronto.

Por exemplo, o nome de um viaduto na cidade do Rio de Janeiro homenageia  o golpe de 64: “Viaduto 31 de Março”. Alguns pensarão no golpe com reverência e eu como uma indecência, mas o fato existiu e até acho que não deveria ser esquecido. Mas, não gosto das homenagens a golpistas escrotos como “Rodovia Castelo Branco” (SP) ou “Ponte Pres. Costa e Silva” (RJ). 

Também não endosso as iniciativas de nomeação de logradouros com nomes importantes da esquerda política. Um exemplo dos mais significativos é o nome “Marielle Franco” entre outros. Até tenho em casa uma réplica da placa que identifica a rua com o nome da Marielle, mas não curto a iniciativa.

Por mim não existiriam topônimos com nomes de pessoas físicas vivas ou mortas. Não contribui para nada e sugere a barganha de favores. É uma prática ruim, especialmente numa época e situação em que os locais que carecem de nomeação são, em geral, logradouros ou obras públicas, já que não existem muitos rios, mares ou montanhas, cidades a serem criados ou descobertos e nomeados.

Eu suponho que não faltarão puxa-sacos para nomear logradouros homenageando  membros dessa galera fascista está governando a nação. Mas, por coincidência, feliz ou infeliz, esse período será mais lembrado pelo coronavírus do que por essa corja que será logo esquecida. Os topônimos que porventura levarem os seus nomes não significarão absolutamente nada, e foi pensando nisso que me lembrei de uma situação aqui, no Rio de Janeiro.

No Rio de Janeiro, em algumas placas de identificação das ruas, embaixo do nome da rua costuma vir uma informação que auxilia a identificar a origem do topônimo, por exemplo: Rua Dois de Dezembro -  embaixo do nome da rua está escrito “ data de nascimento do imperador D. Pedro II”. Acompanhar essas leituras às vezes é bem interessante e outras vezes cômico.  

No bairro Flamengo, em duas ruas adjacentes, uma das placas identifica “Rua Barão de Icaraí” e embaixo vem a informação “1821 – 1896 – Constantino Pereira de Barros foi capitalista e proprietário de terras” , ou seja, não tem porra nenhuma que justifique a homenagem ao sujeito além do fato dele ser rico. Porém, mais interessante ainda, é a placa da rua seguinte: “Rua Honório de Barros” e, embaixo: “filho do Barão de Icaraí”. Contado é até difícil de acreditar, então eu fiz fotos.

Essas situações me fizeram pensar na trupe Bozo e na identificação sequencial dos pulhas: 01, 02 e 03 – como seriam as placas?

Deixo essa questão para quem tiver o saco de ler esse texto. Para mim, uma placa com o nome “coronavírus” seria bem mais simbólica e importante do que qualquer tipo de menção a passagem desses merdas pela história do país.

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sexta-feira, 17 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (29)


Opinião


Toda sociedade convive com elementos internos que trabalham contra as possibilidades do seu desenvolvimento. São elementos da própria sociedade que a agridem e que trazem consigo um potencial de auto-apodrecimento e de subsequente autodestruição. As sociedades convivem com esses elementos, mas usualmente estão imunes, porque também são portadoras de anticorpos que destroem ou isolam esses agentes doentios impedindo sua propagação. 

Quando por alguma razão essa proteção falha, a podridão se espalha em proporção suficiente para que a sociedade se apresente adoecida, fragilizada, com baixa imunidade e com a contaminação expressa em partes diversas do corpo social. A nossa sociedade está assim. Temos um gravíssimo problema de saúde, além do coronavírus e anterior a ele.

Tudo indica que esse processo de ruptura das barreiras de proteção social iniciou em 2013. Sem ações políticas que a contivesse, a doença se espalhou liberando agentes que já eram doentios, mas que estavam contidos, e criando outros por mecanismos de contaminação. O resultado está aí, ou melhor, está aqui. Esse processo de autodestruição do país e. consequentemente, da nossa sociedade, está sendo levado a cabo por personagens a quem a própria sociedade entregou poderes através de votos.

As manifestações da doença ocorrem de formas diversas e distintas. As tentativas do ex-capitão boquirroto de transformar o Brasil em uma “bozotown”, incitando seus seguidores ao suicídio coletivo,  é a ação de um indivíduo doente, mas também é manifestação de uma doença social quando seus prosélitos fazem carreatas de apoio, tal e qual os suicidas seguidores de Jim Jones há quase cinquenta anos na Guiana. Assim como como apoiar a entrega da soberania e das riquezas nacionais ao capital privado, de todo e qualquer jeito, ou a destruição dos direitos trabalhistas e dos direitos sociais. Levar o país ao caos e à morte, é desse jeito que essa doença evolui.

Assim, o quadro circense que teve clímax ontem com a troca de fascista no ministério da Saúde não deveria surpreender – estamos doentes. Outro fascista entrou no cenário.  Ele não precisa ter atributo especial. Estar próximo politicamente, sustentar ou apoiar esse projeto já qualifica, ou melhor, desqualifica o sujeito, entre eles o tal ministro que substitui o anterior.

Mas, a sociedade estar adoecida não quer dizer que ela não possa reagir, e no caso da sociedade brasileira ainda temos recursos para tal. Felizmente. Somos uma quantidade relevante de agentes sadios,  em número suficiente para varrer esse vírus fascista do corpo social. Uma corja que precisa ser extinta e os seus remanescentes, que sempre existirão, precisam estar isolados politicamente.

Buscamos aqui e ali como fazer, mas ainda não encontramos o jeito. Já deveríamos ter aprendido que essa transformação não ocorrerá através de eleições, mas alguns ainda pensam assim. Naturalmente temos uma contradição para tratar – o isolamento social imposto pelo coronavírus conflita com a necessidade de irmos para a rua tratar dessa doença política. Um remédio prejudica o outro. Mas, isso não é novidade na medicina e, muito menos, na política. Chegaremos lá.

Não temos uma bozoquina milagrosa, feito aqueles remédios propagandeados em nome das bigfarmas do patrão americano. Nada que nos salve desse mal que avança, além da nossa vontade de fazer um mundo melhor. Claro que só a vontade não basta, mas será ela que nos empurrará para frente até derrubarmos essa canalha.

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quinta-feira, 16 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (28)


Opinião


Entre os 14 e 16 anos de idade trabalhei como office boy em um posto de arrecadação e pagamentos de um instituto de aposentadorias. Na época, o modelo de  previdência social ainda era o criado pelo Estado Novo na década de 30, isto é, existiam os institutos de pensões e aposentadorias (IAPs) que eram caixas bancadas por trabalhadores, patrões e Estado. Um modelo que atendia às categorias mais organizadas, assim, existiam os IAPI, IAPC, IAPM, IAPB, IPASE  além de outros. Eram, respectivamente, os institutos de aposentadoria e pensões dos industriários, comerciários, marítimos, bancários, servidores do estado etc. A estrutura original foi se modificando e, mais tarde, após o golpe de 64, em 1966 , foi criado o INPS. Eu trabalhei auxiliando um funcionário do IAPC,  e então conheci “Seu Borralho”.


Seu Borralho era aposentado e tratado pelo sobrenome. Não lembro seu primeiro nome. Tinha uma das pernas mecânica e apoiava-se em bengala. Ele era uma figura bem caricata com traços que  o assemelhava muito aos do ex-presidente Jânio Quadros. Um bigode enorme que escondia a boca, e fazia questão de aguardar a vez de ser atendido porque era conversador e não perdia a oportunidade. Não era chato, e isso era fundamental. Oferecíamos uma cadeira e ele distraia todos com suas conversas.

Seu Borralho era presidente ou coisa que o valha de um grupo da fraternidade Ordem Rosacruz (não sei qual) que funcionava em sua residência. Sempre que cumprimentado “como vai o senhor?”, ele respondia: “a cada dia que passa, eu continuo cada vez melhor!”. Tratava-me carinhosamente e fazia questão de me aconselhar. Do seu jeito e com suas palavras, afirmava que aquela resposta afastava os “maus olhados” que pudessem vir junto com os cumprimentos.

Se não fosse tão criança possivelmente teria aproveitado mais a convivência com aquele velhinho meio maluco que não devia ter muito mais idade do que a que eu tenho hoje. Mas, embora sem a neura de Seu Borralho, o fato é que nunca esqueci o aprendizado e, muitas vezes, respondo aos cumprimentos dessa forma. É bem interessante porque a resposta, quase sempre, provoca uma espécie de surpresa ou susto.

Na portaria do prédio onde moro, onde sempre tem acúmulo de passantes ou visitantes, vez ou outra, alguns porteiros, de sacanagem, cumprimentam-me em voz alta, botando uma pilha para ouvir a resposta que já conhecem.

Geralmente a expectativa do outro é de uma resposta pessimista e formal, tão descomprometida quanto costumam ser os cumprimentos cotidianos: “como vai ... tudo bem?”, e a resposta que assimilei de Seu Borralho empurra o interlocutor a pensar sobre si e sobre o seu próprio cumprimento.

Isolado pelo coronavírus não tenho exercido esse hábito. Mas, não deixo de pensar sobre a adequação dessa resposta na situação atual. Não disponho de Seu Borralho para conversar sobre isso e, pela lógica da natureza, ele já não deve sequer existir.


Na situação atual, além de um cenário sofrido, ainda temos que tratar com fascistas que foram indevidamente levados ao poder. Nesse momento, a trupe está apresentando um esquete onde dois palhaços fascistas, um fantasiado de presidente e outro de ministro da saúde, disputam um troféu de “maior imbecil”. Registre-se que ambos são mais do que qualificados para a disputa que trata apenas de uma comparação de currículos.

A disputa dos imbecis revela bastante sobre a nossa sociedade. Estamos bem doentes, além da Covid-19. Infectados por um vírus que, na contramão do primeiro, em vez de isolamento requer ajuntamento e agitação.  Requer botar o bloco na rua, pra gemer, gingar, pra dar e vender. Botar pra quebrar! E pra isso estou prontíssimo. Se alguém perguntar, a resposta está na ponta da língua:  “a cada dia que passa, eu continuo cada vez melhor!”

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quarta-feira, 15 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (27)


Opinião


“Because, you come to me, with naught save love, ... “ – esses são os versos iniciais de uma canção que acho linda. Nem sei  a letra completa, mas sei a melodia guardada em minha memória desde a infância, infância mesmo.

A música original é francesa com o título “Parce que”, mas fez sucesso quando sua versão em inglês “Because” foi gravada por Bing Crosby. Bing Crosby morreu em 1977 com 73 anos e, para quem nunca ouviu falar do cara, segundo a Wikipédia ele chegou ao primeiro lugar das paradas americana mais vezes do que Frank Sinatra e Elvis Presley juntos. Não é pouca coisa.

Durante um grande período da minha infância,  sempre aos domingos, estávamos juntos com um tio e tia que moravam em Niterói. Em semanas alternadas, nós os visitávamos ou eles nos visitavam em São Gonçalo. Minha tia era, a rigor, uma prima mais velha que tratei como tia até o fim da sua vida, e o meu tio, falecido prematuramente, foi o melhor amigo do meu pai até onde eu lembro. Nossas famílias eram muito unidas, nunca tiveram desentendimentos, e crescemos praticamente juntos até o fim da adolescência: eu, meus irmãos e minhas primas – queridas até hoje.

Quando estávamos em Niterói, a casa do meu tio geralmente era visitada por um vizinho bem próximo que tinha uma voz de tenor – “seu Ribas”. Passado o dia, na hora das despedidas, fazia parte do ritual o meu tio por na vitrola um disco com a gravação de Bing Crosby interpretando "Because", e acompanhado em dupla por “seu Ribas” com sua voz potentíssima, possivelmente animado também por umas cervejas. Era sempre "Because",  esse era o ritual e a graça da brincadeira.

A canção, para quem tiver a curiosidade de ouvir, é muito bonita. A gravação terminava com o Bing Crosby estendendo a voz ao máximo e acompanhado em altura e volume por “seu Ribas”. O karaokê finalizava sob a admiração e aplauso dos presentes. Muitas vezes sob o apelo de “bis”.

Era o término de um dia feliz e, para mim,  tudo era belo. Era um assombro e admiração ver alguém tão próximo cantando em inglês, algo completamente distante do meu mundo de então.

Pouco tempo depois, mas já passada a infância e com a idade de 14 anos, eu trabalhava como office boy para um primo que também cantava e tinha uma voz muito bonita. Nosso escritório, na Praça do Barro Vermelho, um bairro de São Gonçalo (RJ),  era um enclave, montado com divisórias de eucatex, no canto de um enorme salão que funcionava como depósito de materiais de um armazém. Meu primo gostava de cantar e muitas vezes, a meu pedido, ele enchia os pulmões cantando “Because”. Era muito legal porque quando tinha carga ou descarga de materiais, os carregadores interrompiam a tarefa para ouvir o que era, sem dúvidas, uma bela audiência.

O biólogo Richard Dawkins (autor de “O Gene Egoísta”) cunhou o termo “meme” para identificar a unidade mínima de memória  e a propriedade de autopropagação e replicação de informação entre locais de seu armazenamento. O termo adquiriu significados específicos na internet e muitas das vezes se confunde com o termo “vírus” da informática, embora conceitualmente distintos.

Pensei nisso quando acordei hoje com os fragmentos da lembrança de “Because”. Alguns memes se auto replicaram assegurando essa memória prazerosa, porém foram atacados, na fração de segundo seguinte, como não poderia deixar de ser, pelos memes desse maldito e vírus que nos assombra.  Mas, cagarei para o coronavírus, confiarei na seleção da natureza. Entre os sonhos prazerosos dos memes distantes e esse pesadelo da experiência atual a natureza cuidará de me brindar com os primeiros.

NOTA
Bing Crosby - Because (1962) – Recuperado em 15/04/2020 de <https://www.youtube.com/watch?v=N25-G6Mndog>
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terça-feira, 14 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (26)


Opinião


O impacto negativo da crise do coronavírus na estrutura social do país já está ocorrendo. Projeta-se a sua versão para o período pós-isolamento, mas seus efeitos já estão sendo experimentados. Não será necessário esperar para percebê-los ou senti-los.

Assim, não temos que esperar o agravamento, nem o clímax, nem o refluxo pandêmico para encaminhar, propor, apregoar e lutar por providências que assegurem melhores condições de vida para a população, especificamente na área socioeconômica.  E o  que desejamos é, na mais modesta das hipóteses, maior distribuição da riqueza que, nunca é demais repetir, é construída exclusivamente pelos trabalhadores e apropriada por parasitas no sistema de produção.

Infelizmente, para um enorme número de pessoas esse discurso soa como um “blá, blá, blá político”, no sentido pejorativo do termo. Parece uma conversa já vista e vazia, e o próprio termo “discurso” é assimilado como algo sem valor e inconsequente. Essa maioria não é engajada e, pior do que isso, é  alienada das disputas por modelos sociais, embora sofra todas as consequências  desses embates.

Por outro lado, há um grupo de sujeitos e de organizações que não pensa assim. Não são alienados e conhecem perfeitamente a estrutura e os seus papeis na organização social. Sabem que o não engajamento da maioria lhes é favorável, e tratam com abnegação os seus interesses que conflitam com os da maioria que “detesta a política”.

Esse grupo reduzidíssimo está organizado em grandes corporações privadas e está correndo atrás das eventuais reduções de seus ganhos. Alguns, na verdade, até estão tratando de como ganhar mais, e todos estão buscando garantir as melhores posições para os embates que ocorrerão nos períodos pós-coronavírus.

Hoje há manchetes nos jornais anunciando que “doações de empresas chegam a 2,2 bilhões”. Fazem parecer que a ordem capitalista mudou. Como se alguns empresários e corporações estivessem colocando a mão no bolso e repartindo suas riquezas, revertendo o fluxo natural do sistema. Assim, são anunciadas como “doações” operações financeiras que, antes de tudo, visam o posicionamento estratégico de capitais buscando o melhor aproveitamento dos mesmos, com garantias de seu controle, redução de riscos, reduções de impostos e o escambau.

Nós também precisamos cuidar dos nossos interesses, e a hora de começar já passou, já estamos correndo atrás do prejuízo. E um dos nossos interesses principais deve ser fazer com que essa repartição  ocorra efetivamente, e há formas de fazer isso.

Na cidade de São Gonçalo (RJ) está em montagem um hospital de campanha com aporte de grana do próprio município, do Estado e dos municípios de Niterói e Maricá. O hospital está sendo montado num campo de futebol de um clube da cidade, um espaço privado,  e o uso desse espaço é uma intervenção da prefeitura que tem o título “requisição administrativa”. Esse uso está apoiado em uma sequência instrumentos oficiais, mas decorre originalmente de um poder instituído pelo inciso XXV do artigo 5° da Constituição, que estabelece: “no caso de iminente perigo público, a autoridade competente poderá usar de propriedade particular, assegurada ao proprietário indenização ulterior, se houver dano”.

Para fins diversos, assim como em São Gonçalo, existem casos de requisições administrativas em outras cidades do país e, consequentemente, articulam-se defesas da propriedade privada contra esse poder público, mas aqui o foco não é debater a legislação. Trata-se, principalmente, de colocar em pauta a possibilidade de usos de tais instrumentos para o interesse público.

Pequenos produtores de cachaças de alambiques, contribuindo para o combate ao coronavírus,  têm tomado a iniciativa de doarem – efetivamente – para a produção de álcool 70 graus, as parcelas das destilações que não são utilizadas na elaboração da bebida (cabeça) e que são ricas em concentração de etanol. Mas, são iniciativas tímidas. É preciso que as autoridades, em nome do iminente perigo público, atuem diretamente sobre meia dúzia de grandes produtores de cachaças, que produzem mais de 800 milhões de litros anuais, para que se organizem para suprir essa necessidade pública.

Da mesma forma, a FIESP, FIERJ, FIEMG e as FIE** que existirem devem se movimentar, elas próprias, junto aos seus filiados, para produzirem máscaras e aparelhos de ventilação mecânica para as necessidades da crise e sem ônus para a sociedade – em nome do iminente perigo público.

Não há que viabilizar financiamentos para esses enormes conglomerados realizarem essas ações. Seus lucros já são absurdos  e continuarão a ser após a crise. Há muita riqueza acumulada e que pode ser distribuída – efetivamente e agora - no atendimento das necessidades públicas.

Esses grupos têm recursos, conhecimento e capacitação para atender   a essas necessidades públicas emergenciais. Sem cobranças disfarçadas de doações, subsídios etc. Não estarão fazendo favor nenhum, e esse imperativo da sociedade ainda assim, estará longe, muito longe, a anos luz de qualquer coisa que possa ser chamada de socialismo ou comunismo.

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NOTAS
[1]
São Gonçalo começa construção de hospital de campanha – Recuperado em 14/04/2020 de <https://alcantaratemdetudo.com.br/sao-goncalo-comeca-construcao-de-hospital-de-campanha/>

 [2]
A requisição administrativa em tempos de Covid-19 – Recuperado em 14/04/2020 de <https://www.migalhas.com.br/depeso/323162/a-requisicao-administrativa-em-tempos-de-covid-19>

[3]
Produtores de cachaça na Paraíba doam 'álcool 70' para hospitais em combate ao coronavírus - Recuperado em 14/04/2020 de <https://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2020/03/19/produtores-de-cachaca-na-paraiba-doam-alcool-70-para-hospitais-em-combate-ao-coronavirus.ghtml>

segunda-feira, 13 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (25)


Opinião


Estou bastante cismado. Hoje, segunda-feira, pela manhã, olhando da janela para as pistas do Aterro (RJ) tem-se a impressão que a cidade está voltando ao seu cotidiano. Sei que não passa de impressão, que essa não é essa a realidade, mas a impressão decorre da observação da quantidade de veículos e pessoas transitando. Um número muitíssimo abaixo do que costuma ser – daí eu saber que a normalidade é falsa, que não passa de uma impressão. Porém, um número muito maior do que deveria ser para uma cidade em estado de isolamento social.

Até a praia que tem estado deserta nos últimos dias, hoje está com uma quantidade observável  de pessoas, tem gente para lá e pra cá, em bicicletas na calçada e algumas na areia. Adultos sozinhos, não vejo crianças e famílias.

Pelas notícias que acompanhei, a quantidade de testes de contaminação que está sendo realizada no Brasil é um número irrisório se comparado com as referências internacionais. Isso não me surpreende considerando as características e o estado das coisas em nosso país. Mas, como os casos oficiais de infectados e de óbitos são apenas aqueles registrados por testes,  a consequência direta é que os números oficiais estão subestimados em relação à realidade. Esse fato também não é uma novidade para quem tem acesso à informação e acompanhado o noticiário. As próprias autoridades da saúde não escondem essa situação.

A questão que surge daí, a meu ver, é o quanto esses números oficiais estão distantes da realidade e o que representa desconsiderá-los sem, ao menos, divulgar as estimativas.

Hoje, por exemplo, há notícias (Estado de S. Paulo – 1ª. página)  que a quantidade de óbitos por insuficiência respiratória e pneumonia, em março 2020, no Brasil, foi de 2239 casos a mais do que no mesmo período do ano passado. Esses óbitos não foram classificados como coronavírus (Covid – 19) cuja quantidade oficial aponta 1223 casos até ontem. Sem intenção de banalizar a morte, trata-se de um número modesto no quadro da crise mundial. Ora, se as relações forem diretas (ressalvo que é uma especulação, mas bem razoável),  além dos 1223 casos oficiais haverá mais de 2000 casos não notificados.

Voltando à questão do que significa desconsiderar a realidade, se esses 2000 óbitos representam realmente uma subnotificação, desconsiderá-los é um crime, mesmo com ressalvas que se trata de estimativas. Um crime porque certamente esses rolézinhos de praia, de calçadas e de ruas seriam repensados se esses números estivessem nas primeiras páginas dos jornais em vez de estarem em matérias colaterais às manchetes.

É preciso cobrar essa divulgação sob pena de cumplicidade com esse crime. Eu não estou falando do fascista maior, nem dos seus seguidores. Desses não há o que esperar. Falo de cada um de nós que estamos aflitos e impactados por essa pandemia. Falo dos grandes meios de comunicação – que até tem sido elogiados por suas atividades nesses tempos de coronavírus. Esse mundo paralelo, se ele realmente tem existência,  precisa ser trazido para a frente das telas.

Mesmo reconhecendo que não temos testes em quantidades suficientes ou que não tenhamos  condições de realizá-los para assegurar com consistência a quantidade de contaminações e de óbitos, há recursos técnicos para a realização de inferências e estimativas. Isso é possível.

Afinal, está morrendo essa porrada de gente ou não?

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