domingo, 12 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (24)


Opinião


Conversando com um amigo por telefone, ele observou “ agora sim, entramos no século XXI ”. Logo fiz coro com ele. Poderíamos associar como significativo da mudança de século, quem sabe, o setembro de 2001 com a queda das torres gêmeas ou aquele tsunami no Japão ocorrido em 2011, mas em mim bateu forte: o que caracterizou o nosso salto de século foi esse tal de coronavírus.

Entramos no século XXI vinte anos após o seu início e com o pé esquerdo. Esse vírus irá jogar-nos nesse século como aquelas cenas hollywoodianas de gladiadores que são jogados nas arenas dos coliseus romanos esperando o que sairá dos tantos  buracos que os cercam.

Por ora ainda estamos nos porões, tratando nossas feridas e insalubridades. Aqui, isolados nos bastidores, enfrentamos o vírus. Alguns ele eliminará. Os sobreviventes ele empurrará para a arena e lá, dos malditos  buracos é que sairão os leões, tigres, carruagens ocupadas com guerreiros, enfim qualquer coisa com o potencial de detonar nossas vidas. Será lá, na arena do pós-isolamento que as lutas  efetivamente acontecerão, e acho que deveríamos falar sobre isso.

Não faço apologia do caos nem rendo tributos ao pessimismo, mas estamos vivendo uma situação que, independentemente de nossas vontades, empurra-nos para um estado de lassidão que retira a nossa energia e vontade de pensar o futuro. Então, acho importante tratar esse assunto desde já, inseri-lo em nossas conversas como forma de reação e de organização para os tempos que virão.

Não haverá uma chave ON – OFF que nos desligará do hoje conectando-nos imediatamente com o amanhã. Passada essa fase de isolamento, não despertaremos em um mundo novo, com as coisas no lugar, como se estivéssemos retornando às nossas casas ao fim de uma viagem. Pensar assim é um engano.

O ambiente pós-isolamento, ao que tudo indica, será difícil e confuso. Enfrentaremos o prolongamento da recessão econômica na qual já entramos. Enfrentaremos o desemprego. Mesmo pessoas que hoje ocupam cargos relativamente estáveis e bem remunerados serão dispensadas. Isso está ocorrendo em algumas cidades do exterior.

O conjunto de interesses representados por corporações econômicas privadas e um minúsculo grupo de biliardários aos quais nos referimos genericamente como “sistema capitalista” não interrompeu os seus mecanismos e avançará em seus objetivos, apertando cada vez mais os torniquetes de exploração dos trabalhadores.   

Muitas serão as pessoas que revisarão os seus conceitos na vida pessoal e na vida social (política), para o bem e para o mal. Haverá uma migração em ambos os sentidos. Muitos estarão perdidos procurando por um mundo que não existirá.

Os idosos, eu inclusive, estaremos mais expostos. O vírus estará por aí, possivelmente derrotado pelo processo de adaptação do ser humano e dos seus recursos científicos e tecnológicos, mas ainda caçando  presas entre os mais frágeis das manadas – os idosos. Abraçar um filho ou um neto será um risco para os idosos que estarão obrigados a se manterem distante sei lá em que condições e por quanto tempo mais.

É um cenário esquisito, mas bem possível. Alguns já perceberam as perspectivas futuras e, os que podem, ocupam o seu tempo reunindo riquezas acumuladas já pensando no porvir. Outros nem pensaram no assunto, acreditam e esperam a virada da chave liga-desliga.

Em casos de barbárie a regra é sempre cada um pra si, mas acho que o nosso rumo será outro, e no rumo que estaremos o individualismo e a solidariedade serão escolhas possíveis. A luta continuará, então precisamos conversar sobre ela.

#####

sábado, 11 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (23)


Opinião


Recebi um zap com uma relação de possíveis Judas, e eu deveria responder qual deles malharia hoje. Era uma relação de personalidades políticas que deveriam ir, todas, para um poste. Mas não me senti contemplado porque na relação não tinha “o eleitor do Bozo”, meu Judas preferido no sábado de Aleluia dessa semana santa.

Sempre tive implicância com a semana santa. Minha criação foi, ao mesmo tempo, católica e umbandista, e as datas religiosas eram sincretizadas e celebradas com missas, ladainhas e também com sessões espíritas de umbanda (macumba). Mas, não lembro de celebrações espíritas no período da semana santa. Pesquisarei.

As minhas  semanas santas sempre foram marcadas pelos rituais católicos que eram mórbidos. Bem menino, em nossas casas cobria-se os espelhos na semana santa, uma prática que, felizmente, logo entrou em desuso. No bairro onde eu morava, em São Gonçalo (RJ), bem próximo à igreja Matriz, realizavam-se procissões com umas imagens enormes representativas do martírio do Cristo na semana santa. Uma delas, que desfilava nas sextas-feiras santas, era um enorme Jesus morto, um terror.

Lembro-me bem que, praticando o catecismo escolar, nos dias de confissões aguardávamos a vez de entrar no confessionário na mesma sala da igreja onde guardavam as tais imagens das procissões. Elas ficavam embaixo dos altares, geralmente com algumas partes visíveis. No início a molecada brincava, mas os últimos na fila da confissão iam ficando sozinhos naquela sala,  sabendo que embaixo do altar tinha uma porra de um Cristo enorme e morto. Era apavorante.

Não me lembro de ter aparecido qualquer filho da puta de orientador religioso para contextualizar as histórias e atenuar nossas aflições. Hoje, ao saber sobre os inúmeros casos de pedófilos nas igrejas católicas, acho até que foi sorte nossa. Mas, tudo se apoiava em nosso medo. O último da fila de confissão ficava tão encagaçado que confessava qualquer merda  para ir embora dali o mais rápido possível.

Saindo da infância, a semana santa passou a ser o grande feriado, com a brincadeira da malhação do Judas no sábado de Aleluia. Até fazíamos a brincadeira, mas nosso bairro era uma tribo bem fechada e ninguém arriscava exibir as mazelas dos vizinhos colocando cartazes no Judas. Não que as fofocas não existissem, mas era quase impossível divulgá-las na oportunidade do Judas assegurando o anonimato. Também não havia críticas políticas. A malhação era considerada brincadeira de crianças e os que poderiam fazer as críticas não participavam. O resultado é que a malhação do Judas nunca teve muita graça para mim.

Passada a adolescência, eu cumpria os rituais religiosos familiares sem qualquer comprometimento, os católicos e os da macumba, achando esses últimos mais atrativos. Só mais tarde tentei me identificar religiosamente e com clareza. Os marcos foram muitos, mas a ópera rock Jesus Cristo Superstar, que assisti com mais de vinte anos, foi relevante. O texto sintético e forte das letras, as melodias lindas, a trama sobre as crises existenciais de Judas e Jesus e a identificação dos interesses políticos mexeram comigo.

 Acho que foi quando formei a noção que qualquer mito religioso pode ser analisado, compreendido, admirado e assimilado sem que haja necessidade de sua sacralização. Uma revelação e alívio! Foi quando o meu ateísmo, até então encabulado e ainda inibido por uma culpa cristã,  saiu do armário.  Bem mais tarde, já em fase adulta, eu me reencontraria com esse tema e me espermatozaria com a leitura  de Jose Saramago em seu maravilhoso O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

Guardo lembranças de Jesus Cristo Superstar. Tenho  um LP em vinil, a fita em VHS e com o advento do Youtube várias vezes assisti trechos do filme. Recebi a dica de um amigo querido que nesses tempos de coronavírus o compositor e produtor musical da ópera, Andrew Lloyd Weber, tornaria disponível grátis, por 48 horas a partir da sexta-feira santa, a apresentação de uma montagem supermoderna, onde  estão mantidas as letras e as canções originais. Conferi. Está tudo lá.

Ainda acho intrigantes as cobranças de Judas ao Cristo por não ter realizado a revolução a que eles se propunham, apesar dos tantos poderes desse último, e os questionamentos a Deus por nunca ter compreendido porque ele, Judas,  tinha sido escolhido para praticar um crime que era do próprio Deus. 

 A montagem atual é uma das coisas mais belas desses últimos tempos. Mas, reafirmo, minha opinião é suspeita.
#####

Stream Jesus Christ Superstar for Free - This Friday at 7pm BST on The Shows Must Go On YouTube channel – Recuperado em 11/04/2020 de<https://www.andrewlloydwebber.com/the-shows-must-go-on/>

Andrew Lloyd Weber é o compositor das canções e produtor dos respectivos musicais a seguir: The Music of the Night do musical O Fantasma da Ópera, ou Don’t Cry for me Argentina do musical Evita ou  Memory do musical Cats ou, ainda, I Don't Know How to Love Him do musical Jesus Cristo Superstar.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (22)


Opinião


Muitos trabalhadores, mesmo empregados, estão sendo colocados diante de escolhas difíceis. Eles sabem da necessidade de ficar em casa para a preservação de suas vidas, das vidas de  suas famílias  e, também, das vidas de outros. Contudo, ainda assim, arriscam-se e saem às ruas adotando decisões que até podem ser classificadas como individualistas, mas que decorrem de puro instinto de conservação e sobrevivência.

No outro lado da linha está o individualismo ideológico. Há o exemplo de um dos apoiadores diretos do ex-capitão boquirroto, um empresário que participou de um vídeo (ver mais abaixo) estimulando os trabalhadores a desrespeitarem o isolamento.

Para convencer os trabalhadores, o tal patrão finge solidariedade. Diz que  está preocupado com a economia do país e seus trabalhadores e que não está pensando em si próprio nem em  seu negócio. Que pode até fechar as lojas e fazer umas vinte e duas mil demissões que ainda terá dinheiro no bolso para ir para a praia. Outros patrões fazem coro com o filho da puta. Um deles diz que quinze mil mortes num universo de sete bilhões de pessoas até que é pouco.

Essas situações, embora se manifestem aqui dessa forma criminosa, não são um privilégio tupiniquim. O jornal New York Times de hoje publica matéria sobre adoecimentos e óbitos entre trabalhadores nas indústrias de processamento de alimentos nos EUA. Mesmo estando doentes, os trabalhadores tem sido convocados a comparecerem ao trabalho com o apelo que eles precisam ir trabalhar para alimentarem a America.

São esses canalhas, reis de minas e fornalhas, que querem o retorno da galera às ruas o mais rápido possível. Fodam-se os trabalhadores que se expuserem à contaminação, desde que garantam as suas riquezas. Os versos da Internacional sintetizam essa situação com uma clareza e sentido que parecem terem sido criados ontem, após os discursos do ex-capitão boquirroto e dos que patrocinaram sua subida ao poder. Contudo, eles apenas traduzem aquilo que é intrínseco ao capitalismo: as classes e os interesses de cada uma que são distintos e conflitantes.

A luta de classes não é uma invenção socialista ou comunista. Trata-se de uma realidade da sociedade contemporânea que,  ao se organizar para produzir e reproduzir sua vida material, o faz de uma maneira na qual grupos reduzidíssimos de seres humanos vivem à custa da exploração do trabalho da maioria da humanidade. Nessa forma de organização, chamada de capitalismo, os interesses dos grupos ou classes de explorados e os interesses dos exploradores são conflitantes, daí a luta de classes.

Porém, o capitalismo não se caracteriza exclusivamente por esse aspecto, embora ele seja o fundamental, e é importante atentar para isso porque diz direto ao que está ocorrendo, nesse momento, à nossa volta.

O capitalismo também incorpora aspectos que tanto viabilizam as condições para a sua continuidade, como para sabotar as possibilidades de  organização das classes que lhe são antagônicas – os explorados. Para tanto, o seu aparato vai além da estrutura econômica do modo de produção e inclui, também,  estruturas jurídico­política e ideológica. Consequentemente, os conflitos ou luta de classes se manifestam em todas essas estruturas  permanentemente, inclusive durante a crise do coronavírus.
.
Nesse momento, o vírus está fudendo por completo  com importantes estruturas econômicas capitalistas, embora isso não queira dizer que esteja fudendo o capitalismo. As corporações que representam os exploradores sabem disso e atuam para manter seus domínios sem interrupções dos processos de exploração porque esse  movimento permanente é a base para a continuidade do capitalismo.

Por sua vez, as organizações e pensadores da esquerda política não têm expectativa que o capitalismo será comido pelo vírus. Contudo, buscam avaliar quais serão os abalos, as transformações e como estarão as estruturas de poder no  cenário pós-coronavírus porque será nesse novo cenário que os conflitos ou a luta de classes prosseguirá.

Há visões otimistas e pessimistas. A meu juízo, um sujeito que sintetiza muito bem as questões (não as respostas), embora não seja uma referência política para mim,  é o  historiador israelense Yuval Noah Harari, um autor que tem estado de bola cheia pelo sucesso de recentes best-sellers de sua autoria.

Segundo o Harari, no período pós-coronavírus, entre as questões de importância a serem tratadas, a primeira será o dilema será entre a vigilância totalitária e o empoderamento dos cidadãos e o segundo desafio será entre o isolamento nacionalista e a solidariedade global.

Detalhes sobre essas questões exigem reflexões e estudos que consomem tempo e dedicação. No meu caso, até gosto de estudar, mas sem qualquer constrangimento abro mão e sinto-me perfeitamente contemplado com a síntese da Internacional  já expressa nesse hino dos trabalhadores desde o século 19:

O povo quer só o que é seu. A terra pertence aos que produzem. Os parasitas devem deixar esse mundo!

#####

NOTAS

Vídeo produzido por PSTU e CSP Conlutas – Copiado em 26/03/2020 - Disponível em <https://drive.google.com/open?id=1KH2e53Mr0khXiCDxcx-jvKiWEXOLKo9a>

Letra da Internacional – Recuperado em 10/04/2020 de <https://www.marxists.org/portugues/tematica/musica/international.htm>

“Como será o mundo depois do coronavírus, segundo Yuval Noah Harari” – Recuperado em 10/04/2020 de <http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/597364-como-sera-o-mundo-depois-do-coronavirus-segundo-yuval-noah-harari>

quinta-feira, 9 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavirus (21)


Opinião


O individualismo é  natural quando  determinado pelo instinto de conservação, mas também pode ser construído socialmente. Esse é o caso do individualismo que valoriza  a exploração do outro. Um individualismo opcional, uma escolha política que se contrapõe à solidariedade.

A solidariedade, por sua vez, é um valor construído socialmente. Não é natural. É um ato de vontade. Para uns ela é uma prática eventual ou oportuna, uma resposta a certas situações que se apresentam. Para outros ela é uma disposição tão forte que se estabelece como uma prática de vida.

Lidar com as manifestações de individualismo e com práticas de solidariedade é uma das tantas questões impostas à sociedade nesses tempos de coronavirus.

Há trabalhadores que, embora vivendo à custa de seus trabalhos e atividades, sobrevivem matando um leão por dia. Porém, a temporada de caça foi suspensa. Sequer têm o que caçar. Garçons, barbeiros, artistas, vendedores, diaristas, ambulantes, qualquer tentativa de exemplos será incompleta.

Há, ainda, pessoas que vivem das sobras das ruas e até do lixo da cidade, mas de uma cidade viva. Ocorre que, estando a cidade em estado quase cataléptico, semimorta,  não há onde nem o que chafurdar. A carência é total.

A crise está colocando essas camadas de população numa dependência de correntes de solidariedade e agregando-as a outras camadas cujas vidas já dependem  exclusivamente dessas correntes. Correntes das quais alguns de nós até participam e incluem em seus orçamentos ou em suas atividades as doações e colaborações que realizam.

Essas novas situações estão colocando à prova as nossas opções políticas. É hora também de ajudar, de ser solidário.

#####

quarta-feira, 8 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (20)


Opinião


Não deixará de ser um comentário medíocre, sem imaginação, mas pagarei o preço:  Fazer 69 isolado é um paradoxo. Em qualquer sentido, literal ou metafórico. Talvez seja essa a verdadeira sacanagem!

Chegará o tempo em que o coronavírus será apenas um registro nos  históricos sanitários do nosso país, e o vírus Bozo estará  no lugar que lhe cabe: o lixo da história, parafraseando o companheiro Trotsky. Isolados, ou não, seguiremos combatendo um e outro. Enquanto isso, não tem jeito, a posição que me cabe nestes 69 é a do isolamento obsequioso.  

Compensa a felicidade de receber cumprimentos das minhas diversas tribos e com quem tenho compartilhado felicidade e experiências. Amigos de trabalhos, de escolas, de infância, de militâncias, de cachaças e familiares, entre outros. Quem me conhece sabe que não comemoro aniversários, simplesmente não gosto. Mas sinto-me feliz ao receber cumprimentos. Sinto-me lembrado e abraçado. Isso é muito bom e não há palavras para agradecer. Assumo a dívida.

Busquei uma forma, mínima que fosse, de compartilhar a alegria que sinto com tanto carinho que tenho recebido. Tentarei fazer isso, então, postando aqui um poema que gosto muito. Seu título é Canción e da autoria do poeta cubano Nicolás Guillén.  Lembrei do poema porque, além de ter um significado especial para mim, ele cita o mês de abril, embora associando-o à estação primavera. Estando no hemisfério norte, a primavera em Cuba estende-se no período de 20 de março até 21 de junho, período do lindo outono aqui, em nosso hemisfério.

O compositor Pablo Milanez musicou o poema, e a canção ficou muito famosa em minha geração sendo gravada por importantes artistas na época e conhecida por seu primeiro verso "De que calada maneira". Segue então, as referências do livro com o poema e um link para quem quiser ouvir a canção. Como nas festinhas de criança, um brinde de  lembrança de “cumpleaños”. Obrigado.


Canción   (Nicolás Guillén)

¡De que callada manera
se me adentra usted sonriendo,
como si fuera
la primavera!
(Yo, muriendo)

Y de que modo sutil
me derramó en la camisa
todas las flores de abril

¿Quién le dijo que yo era
risa siempre, nunca llanto,
como si fuera
la primavera?
(No soy tanto)

En cambio, ¡qué espiritual
que usted me brinde una rosa
de su rosal principal!

¡De que callada manera
se me adentra usted sonriendo,
como si fuera
la primavera!
(Yo, muriendo.)

#####

NOTAS
Guillén, Nicolás – Todas las flores de abril – Editorial Letras Cubanas – La Habana,  Cuba (1993)

Canción (1972) Nicolás Guillén CUBA – Recuperado em 08/04/2020 de <https://www.youtube.com/watch?v=LEZWKMv74XA>

terça-feira, 7 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (19)



Opinião


Tudo bem que o isolamento mexe com a cabeça da gente, já comentei  isso, mas felizmente ainda não atrofiou meu discernimento político, nem meus valores, nem minhas lembranças. Então, não serei eu quem irá bater panelas nem aderir a esse chamado absurdo:  # ficamandetta.

Ao contrário, se dependesse da minha vontade, tanto essa essa figura como a canalha em sua volta, da qual ele não se diferencia em nada, incluindo seus chefes imediatos, um apologista de torturadores e milicianos e outro líder do coronelismo rural que assassina trabalhadores no campo, todos deveriam ir para a corona que os pariu.

Ao seguir diretrizes da OMS no quadro de uma crise sanitária mundial,  os dirigentes do sistema de saúde brasileiro cumprem uma obrigação. E o nosso quadro de profissionais da saúde pública são supercapacitados, até mesmo para assumir a direção dessa nau sem rumo em que vem sendo transformado o sistema de saúde pública brasileiro. Não dependem das orientações dessa corja, muito menos desse ministro cambeta de virtudes. Conhecem o ofício. Assim como a marujada da Revolta da Chibata conhecia e tomou em suas mãos o comando de moderníssimas embarcações, fazendo evoluções na Baia de Guanabara e dispensando a elite assassina e torturadora que ocupava a oficialidade da Marinha em 1910.

Em conflito com o seu chefe maior, que insiste em levar todo o país para uma ruína total, e oportunamente apoiado por forças de direita que antagonizam o ex-capitão boquirroto, o atual ministro da saúde está com o seu nome inflado como um suposto herói – herói com pés de barro.

Que as forças de direita façam isso, é uma questão do interesse delas.  Mas, é um equívoco completo quando partidos ou grupos de esquerda caem na esparrela e endossam a palavra de ordem #ficamandetta.  A obrigação da esquerda política é apontar para a sociedade alternativas que efetivamente nos levem para fora desse lodo, dessa imundície, dessa cloaca para onde o voto de iludidos por grupos fascistas  trouxe o país.

É até uma ofensa aos profissionais da saúde brasileiros realizar qualquer gesto de apoio à manutenção no cargo desse pulha bozominion cujos caráter e valores ele mesmo revelou com suas atuações durante o golpe parlamentar – judicial - midiático de 2016 e nas votações parlamentares subsequentes que mandaram os direitos dos trabalhadores para a casa da caceta.

Não existe essa coisa de ruim com ele, pior sem ele. São todos ruins. Mandetta, Perneta, Corneta, Caderneta, Maneta, Maçaneta, Proxeneta, Veneta, Picareta, Capeta, Cegueta, Mutreta,  Tarraqueta, Greta, Ampulheta, Punheta, Sarjeta, Chapeleta, Xereta, Cabueta, Caceta, Falseta, sejam os que forem. Estando juntos da gang fascista que se apossou do governo, são todos a mesma merdeta, iguais ao  Bozoeta. Especialmente nesse Dia Mundial da Saúde a palavra de ordem deve ser: Fora todos!


#####

segunda-feira, 6 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (18)


Opinião


Esse tal de isolamento social já durou tempo bastante para deixar em nós as suas marcas. Não será apenas uma experiência ocasional e sem importância, essa ficará gravada nas gerações que a estão vivenciando. Nem estou falando da possibilidade de um fato trágico como a morte. Falo sobre as práticas e comportamentos que estamos adotando ou transformando e que assumiremos, conscientes ou não, ao deixar esse anacoretismo que o sacana do coronavírus nos impôs.

Excluo as crianças. Essas guardarão lembranças inconscientes. Pode ser que, mais tarde, alguns queiram saber o que houve, aí consultarão os registros ou os mais velhos. Da minha infância, por exemplo,  lembro dos dias de racionamento de energia elétrica. Na década de 60, durante um período de tempo que não lembro, todas as noites, durante uma ou duas horas, a energia elétrica era desligada e toda a cidade de São Gonçalo (RJ) onde eu morava ficava no escuro.

Não fazia a menor ideia das dificuldades que meus pais e outras famílias passavam. Não sei como era em outras cidades, mas para a molecada local foi um período especial e divertido. Sentados nas calçadas, conversando e trocando brincadeiras e putarias, como os moleques costumam fazer, passávamos o período de apagão quando até mesmo a iluminação pública era cortada.

Só mais tarde aprendi que foi a época em que o Estado assumiu o controle público do setor elétrico e que os apagões estavam no contexto de disputas contra corporações privadas internacionais que a sociedade brasileira enfrenta até hoje. Enfim, não tinha a menor compreensão do processo político que estávamos vivendo. Também nada sabia sobre a angústia dos mais velhos, responsáveis por guiar suas famílias atravessando aqueles dias complicados, meus pais entre eles. Apenas lembro dos encontros felizes nas esquinas do nosso bairro.

Hoje a óptica é outra. Não sei como as crianças lembrarão, mas penso nas marcas que ficarão em nós, além das lembranças. A insegurança, o medo, a sensação de dias “perdidos”. A inquietação de ser obrigado a conviver consigo mesmo e aturar suas próprias idiossincrasias. A alimentação perturbada em conteúdos e horários. A vontade de abraçar os amigos, beijar e cafungar os entes queridos.

O sono e a rotina do dormir afetados. Dia desses saí da cama ao meio dia, sem saber sequer que dia da semana era. Emburaquei pela madrugada fazendo coisas e fiz  um esforço enorme para me colocar novamente nos trilhos e recuperar a organização dos dias,

Tento planejar as atividades e horários – quase sempre sem sucesso. A barba está sem fazer, mas não sei ficar sem cortar o cabelo. Reflito sobre a vida e sobre as possibilidades futuras. Organizo e arrumo coisas. Bato panelas contra o palhaço filho da puta. Escrevo. Faço ginástica. Aplico-me com perseverança aos meus temas de estudo. Cochilo!

Bebo minhas cachaças com uma moderação incomum. Essa moça branca é amiga e vive assim à toa, sem querer se impor, como diz o samba enredo de Geraldo Babão (Salgueiro), mas tenho enorme cagaço de uma relação sem limites. Tá bom do jeito que tá. Sairei do isolamento cachaceiro, tanto quando entrei.

Ainda não fui tomado por qualquer epifania que tenha me tornado um ser renovado, pós-coronavírus. Naturalmente estarei remarcado por essa experiência, mas não serei “outro” no sentido de um novo alguém. Pelo menos, até agora. Continuo mais comunista do que nunca, consciente dos meus valores e disposto a lutar por eles. Aspirante a me tornar uma figura melhor para o outro ou, no mínimo, que reconheça o outro – tarefa que acho dificílima. Não é simples desviar o olhar desse espelho narcisista que é o próprio umbigo.

Mas, a minha grande curiosidade é sobre quais marcas permanecerão indeléveis e que estão sendo estampadas em mim, nesse momento, sem que eu perceba. Quando eu sair, algumas outros perceberão, outras apenas eu. Pensar sobre isso é um exercício interessante que recomendo.
#####

domingo, 5 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (17)


Opinião


Uma amiga enviou-me um poema lindo de sua autoria. Com muita sensibilidade e síntese, a poetisa transmite angústias e ansiedades que também habitam em muitos de nós. Uma prisão labiríntica, sem limites, é assim que ela expressa a situação que vivemos.

O poema trouxe a lembrança de um filme que assisti nesses dias de coronavírus. “A trincheira Infinita”. Trata-se da história de um sujeito que ficou 33 anos escondido em casa. Baseado em fatos reais, o personagem é uma das  chamadas “toupeiras”, pessoas que viveram ocultas em sótãos, paredes falsas ou buracos desde o final da guerra civil espanhola e durante o subsequente regime franquista.

Partidário dos Republicanos e vivendo numa aldeia do interior da Espanha, um sujeito é feito prisioneiro pelos Nacionalistas, mas consegue escapar escondendo-se em um buraco dentro de sua própria casa. Mais tarde, com a ajuda da mulher, transfere-se para a casa do pai que construiu  um cubículo  disfarçado por uma parede falsa.

Perseguido por um dedo-duro que era seu vizinho, e na expectativa de uma mudança no quadro político que viesse com o fim da 2ª. Guerra Mundial, o sujeito esperou em vão.

A guerra civil terminou em abril de 1939, com a vitória dos Nacionalistas liderados pelo General Francisco Franco, e a Segunda Guerra Mundial terminou em maio de 1945 com a vitória dos Aliados e rendição da Alemanha, mas sem intervenção dos Aliados na Espanha franquista que, apesar de simpática aos nazistas, manteve-se neutra no conflito mundial.

Na Espanha pós-guerra civil e sob o regime Franco implantou-se uma tal de Lei de Responsabilidades Políticas (LRP) que botava pra fuder em cima de todos que contribuíram para “criar o agravar a subversão da ordem”. E se o sujeito já estivesse morto as sanções eram aplicadas sobre sua família, conforme o caso.

O “toupeira” manteve-se escondido porque estava sentenciado de morte e só saiu de casa no fim da década de 60 quando o governo franquista promulgou uma anistia aos presos e extinguiu formalmente a LRP. Com a anistia, na Espanha, começou a aparecer gente que viveu anos escondida. Algumas mais de 30 anos. Foram chamadas “toupeiras”.

Eu tive a oportunidade de ver, brevemente, algumas dessas aldeias antigas nos arredores de Lisboa, em Portugal, e pela descrição muito parecidas com as aldeias do interior espanhol. Vilas minúsculas, ruas estreitas e as construções coladas entre si. Não faço a menor ideia como alguém conseguiu sobreviver tanto tempo isolado e naquelas condições. Não consigo imaginar.

Não resgato essa lembrança como um consolo para as nossas angústias de isolamento, mas vejo-a como uma motivação para que possamos contribuir e acabar com esse tipo de aflição o mais cedo que pudermos. Ademais, como é impossível desligar do assunto, tento faze-lo da forma mais agradável, buscando o prazer na leitura dos versos dessa poetisa especial. Uma forma de borrifar beleza sobre esses tempos de coronavírus.


(sem título) – Vera Versiani

Essa prisão labiríntica
me confunde
não há limite que imponha
sua extensão

que passos  seguir?
que trajeto?
qual o tempo para o não?

Essa prisão labiríntica
me confunde
e revira o caos
onde o infinito me, se esconde.

<====>

NOTA

Filme: A Trincheira Infinita, premiado no Goya 2020, dirigido por Aitor Arregi, Jon Garaño e Jose Mari Goenaga – Disponível em Netflix

Haro, Fernando Ampudia de. (2010). Gerir a dissidência: vencedores e vencidos na espanha franquista. Análise Social, (194), 91-113. Recuperado em 05/04/2020, de http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0003-25732010000100004&lng=pt&tlng=pt.

Versiani, Vera – Poeta, cantora, compositora, violonista. Lançou seu primeiro livro de poemas: NADA PARA HUMANOS, em outubro de 2003, pela OFICINA Editores (RJ)

sábado, 4 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (16)


Opinião


Hoje o dia está especialmente lindo no Rio de Janeiro. Não chega a ser uma novidade nessa cidade privilegiada pela natureza, mas provavelmente outros dias assim virão na sequência. Inicia-se o outono, a meu juízo  a época onde ocorrem os dias mais bonitos em nossa região. Certamente quem representa a cara do Rio de Janeiro é o verão, mas os dias mais bonitos, não abro mão da minha preferência, ocorrem no outono. Eles são ensolarados e claros como no verão, mas as temperaturas são amenas e não agressivas. A natureza pode ser apreciada sem a necessidade de correr em busca de um abrigo na sombra. Mesmo caminhando por obrigação de trabalho, no clímax das temperaturas, ainda assim é possível desfrutar a visão da beleza dos dias do outono.

Da minha janela tem-se a impressão que a natureza está sacaneando a todos nós. Sedutora e provocante, mas protegida por nossas proibições de isolamento, ela convida-nos ao pecado. Sair às ruas, integrá-la, penetrá-la, fazer parte dela. Quase me entrego ao seu chamado. Acho que essa porra dessa natureza votou no Bozo!

Ao mesmo tempo, temos a oportunidade de aprendizados. Aliás, essa é a principal característica das crises, depois do fato gerador, naturalmente. A oportunidade de aprender. Estamos recebendo lições políticas duras, mas importantíssimas. O coronavírus desnudou as teses capitalistas, liberais e neoliberais. Os fatos têm mostrado que a doutrina dessas teses, carro chefe desse governo adorador de torturadores, é uma furada para os brasileiros. Para os que o rejeitam e também para os que o apoiam. A crise está aí, ensinando-nos que essa doutrina atende apenas a uma elite socioeconômica aproveitadora e lambedora de cú das corporações privadas internacionais. Essa mesma elite que convoca os trabalhadores a irem para as ruas e morrerem por elas.

As aulas da natureza, por sua vez - e por enquanto - são mais agradáveis. A web está cheia de imagens de paraísos naturais, de praias e recantos diversos, vazios da presença humana e que assim podem ser mostrados na plenitude suas belezas. Essas imagens são verdadeiras aulas da natureza que nos ensina, que apela proteção e nos alerta dizendo:

“Aproveitem-me! Não sejam babacas! Não estou aqui para ser estuprada, ferida e morta. Estou aqui para ser apreciada e para dar gozo e prazer para vocês e suas gerações. Sou bela, mas minha beleza só faz sentido e se completa com a presença humana. Sem essa presença isso aqui será apenas mais um planeta entre os incontáveis do universo!”

Em artigo recente,  o jornalista angolano Jose Eduardo Agualusa escreveu que seria um fracasso reconhecer que o planeta ficaria mais bonito se o homem desaparecesse por completo da sua superfície. Eu concordo, e nosso grande aprendizado deveria ser como não fracassar.

Na visão do filósofo Michel Serres, como todas as  os demais espécies ocupantes do planeta, sujamos o espaço que ocupamos determinando o nosso território. Não somos diferentes, diz ele.

Gosto muito da visão desse velhinho francês que admiro tanto. Acho que o nosso grande aprendizado será reconhecer isso e alcançar uma compreensão de valor superior – o da ocupação compartilhada, eventual, não proprietária e comprometida com a preservação. Assim como compartilhamos um banheiro ou um quarto. Conscientes e responsáveis por sua arrumação, limpeza e manutenção. Outros também usarão, outras espécies e outras gerações.

Até porque, não nos enganemos, a professora natureza entre os seus atributos também é rigorosa e não passa a mão na cabeça de ninguém.

”Aprendam!” diz ela. “E não se enganem, antes que me destruam eu fuderei com as vidas de vocês e com a sua espécie. Outras se servirão de mim!”.

#####

NOTAS

Artigo do jornalista José Eduardo Agualusa – “Os paradoxos do fim do mundo”. Disponível em <https://oglobo.globo.com/cultura/os-paradoxos-do-fim-do-mundo-1-24320212> - Acesso em 04/04/2020.

Livro filósofo Michel Serres – “O Mal limpo – Poluir para se apropriar?” – Ed. Bertrand Brasil – RJ – 2011

sexta-feira, 3 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (15)


Opinião


Alerto que essa publicação é longa, tipo textão, e abusa do leitor que, em consideração, dá atenção a essas anotações. Acontece que li um artigo e fiquei superimpressionado. Arrisco DUVIDAR que alguém que tenha lido o clássico “1984” de George Orwell não se impressione também.

O romance 1984 foi publicado em 1949, e nele do autor inglês apontava um futuro distópico de vigilância governamental onipresente, o “Big Brother”. Tal futuro estaria distante 35 anos daquela publicação. Hoje, distantes mais de 70 anos, vejam esse relato de um filósofo alemão de origem sul-coreana: Byung-Chul Han. O autor é reconhecidamente alguém muito bem informado e escreveu um artigo sobre a pandemia do coronavírus. No artigo vieram as informações que me impressionaram e extrai para publicar aqui. O link para o artigo completo (longo) está no final.

###############
........
As vantagens da Ásia (no combate à pandemia)

Em comparação com a Europa, quais vantagens o sistema da Ásia oferece que são eficientes para combater a pandemia? Estados asiáticos como o Japão, Coreia, China, Hong Kong, Taiwan e Singapura têm uma mentalidade autoritária, que vem de sua tradição cultural (confucionismo). As pessoas são menos relutantes e mais obedientes do que na Europa. Também confiam mais no Estado. E não somente na China, como também na Coreia e no Japão a vida cotidiana está organizada muito mais rigidamente do que na Europa. Principalmente para enfrentar o vírus os asiáticos apostam fortemente na vigilância digital. Suspeitam que o big data pode ter um enorme potencial para se defender da pandemia. Poderíamos dizer que na Ásia as epidemias não são combatidas somente pelos virologistas e epidemiologistas, e sim principalmente pelos especialistas em informática e macrodados. Uma mudança de paradigma da qual a Europa ainda não se inteirou. Os apologistas da vigilância digital proclamariam que o big data salva vidas humanas.

A consciência crítica diante da vigilância digital é praticamente inexistente na Ásia. Já quase não se fala de proteção de dados, incluindo Estados liberais como o Japão e a Coreia. Ninguém se irrita pelo frenesi das autoridades em recopilar dados.

Enquanto isso a China introduziu um sistema de crédito social inimaginável aos europeus, que permitem uma valorização e avaliação exaustiva das pessoas. Cada um deve ser avaliado em consequência de sua conduta social. Na China não há nenhum momento da vida cotidiana que não esteja submetido à observação. Cada clique, cada compra, cada contato, cada atividade nas redes sociais são controlados. Quem atravessa no sinal vermelho, quem tem contato com críticos do regime e quem coloca comentários críticos nas redes sociais perde pontos. A vida, então, pode chegar a se tornar muito perigosa. Pelo contrário, quem compra pela Internet alimentos saudáveis e lê jornais que apoiam o regime ganha pontos. Quem tem pontuação suficiente obtém um visto de viagem e créditos baratos. Pelo contrário, quem cai abaixo de um determinado número de pontos pode perder seu trabalho. Na China essa vigilância social é possível porque ocorre uma irrestrita troca de dados entre os fornecedores da Internet e de telefonia celular e as autoridades. Praticamente não existe a proteção de dados. No vocabulário dos chineses não há o termo “esfera privada”.

Na China existem 200 milhões de câmeras de vigilância, muitas delas com uma técnica muito eficiente de reconhecimento facial. Captam até mesmo as pintas no rosto. Não é possível escapar da câmera de vigilância. Essas câmeras dotadas de inteligência artificial podem observar e avaliar qualquer um nos espaços públicos, nas lojas, nas ruas, nas estações e nos aeroportos.

Toda a infraestrutura para a vigilância digital se mostrou agora ser extremamente eficaz para conter a epidemia. Quando alguém sai da estação de Pequim é captado automaticamente por uma câmera que mede sua temperatura corporal. Se a temperatura é preocupante todas as pessoas que estavam sentadas no mesmo vagão recebem uma notificação em seus celulares. Não é por acaso que o sistema sabe quem estava sentado em qual local no trem. As redes sociais contam que estão usando até drones para controlar as quarentenas. Se alguém rompe clandestinamente a quarentena um drone se dirige voando em sua direção e ordena que regresse à sua casa. Talvez até lhe dê uma multa e a deixe cair voando, quem sabe. Uma situação que para os europeus seria distópica, mas que, pelo visto, não tem resistência na China.

Na China e em outros Estados asiáticos como a Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura, Taiwan e Japão não existe uma consciência crítica diante da vigilância digital e o big data. A digitalização os embriaga diretamente. Isso obedece também a um motivo cultural. Na Ásia impera o coletivismo. Não há um individualismo acentuado. O individualismo não é a mesma coisa que o egoísmo, que evidentemente também está muito propagado na Ásia.

Ao que parece o big data é mais eficaz para combater o vírus do que os absurdos fechamentos de fronteiras que estão sendo feitos nesses momentos na Europa. Graças à proteção de dados, entretanto, não é possível na Europa um combate digital do vírus comparável ao asiático. Os fornecedores chineses de telefonia celular e de Internet compartilham os dados sensíveis de seus clientes com os serviços de segurança e com os ministérios de saúde. O Estado sabe, portanto, onde estou, com quem me encontro, o que faço, o que procuro, em que penso, o que como, o que compro, aonde me dirijo. É possível que no futuro o Estado controle também a temperatura corporal, o peso, o nível de açúcar no sangue etc. Uma biopolítica digital que acompanha a psicopolítica digital que controla ativamente as pessoas.

É possível que no futuro o Estado controle também a temperatura corporal, o peso, o nível de açúcar no sangue

Em Wuhan se formaram milhares de equipes de pesquisa digitais que procuram possíveis infectados baseando-se somente em dados técnicos. Tendo como base, unicamente, análises de macrodados averiguam os que são potenciais infectados, os que precisam continuar sendo observados e eventualmente isolados em quarentena. O futuro também está na digitalização no que se refere à pandemia. Pela epidemia talvez devêssemos redefinir até mesmo a soberania. É soberano quem dispõe de dados. Quando a Europa proclama o estado de alarme e fecha fronteiras continua aferrada a velhos modelos de soberania.

Não somente na China, como também em outros países asiáticos a vigilância digital é profundamente utilizada para conter a epidemia. Em Taiwan o Estado envia simultaneamente a todos um SMS para localizar as pessoas que tiveram contato com infectados e para informar sobre os lugares e edifícios em que existiram pessoas contaminadas. Já em uma fase muito inicial, Taiwan utilizou uma conexão de diversos dados para localizar possíveis infectados em função das viagens que fizeram. Na Coreia quem se aproxima de um edifício em que um infectado esteve recebe através do “Corona-app” um sinal de alarme. Todos os lugares em que infectados estiveram estão registrados no aplicativo. Não são levadas muito em consideração a proteção de dados e a esfera privada. Em todos os edifícios da Coreia foram instaladas câmeras de vigilância em cada andar, em cada escritório e em cada loja. É praticamente impossível se mover em espaços públicos sem ser filmado por uma câmera de vídeo. Com os dados do telefone celular e do material filmado por vídeo é possível criar o perfil de movimento completo de um infectado.

São publicados os movimentos de todos os infectados. Casos amorosos secretos podem ser revelados. Nos escritórios do Ministério da Saúde coreano existem pessoas chamadas “tracker” que dia e noite não fazem outra coisa a não ser olhar o material filmado por vídeo para completar o perfil do movimento dos infectados e localizar as pessoas que tiveram contato com eles ....
#####
Byung-Chul Han é um filósofo e ensaísta sul-coreano que dá aulas na Universidade de Artes de Berlim. Autor, entre outras obras, de ‘Sociedade do Cansaço’, publicou há um ano ‘Loa a la tierra’, na editora Herder.

Texto do artigo disponível em: