quarta-feira, 25 de março de 2020

A vida em tempos de coronavírus (6)


Opinião

Hoje é dia 25 de março, e para o Brasil inteiro essa data remete à famosíssima rua de S. Paulo, um centro comercial que em ocasiões especiais chega a receber 1 milhão de visitantes em um único dia. O nome da rua refere-se à data em que D. Pedro I impôs ao país a sua primeira constituição, em 1824.

Enquanto a constituição de 1988 ficou conhecida como a “cidadã”, aquela imposta em 1824 foi a constituição “mandioca”. Esse apelido decorreu do fato que ela instituiu um tipo de eleição onde só votava quem tivesse terras e escravos – quem tivesse mandioca.

O texto original da “mandioca” foi elaborado por uns caras que o imperador designou logo após declarar a independência, um arremedo de constituinte. O grupo elaborou um projeto e levou para o imperador assinar, mas ele não gostou porque mexia com seus poderes. Ficou puto da vida, chutou o pau da barraca, mandou prender alguns dos constituintes, reuniu outra meia dúzia de caras e fez, ele mesmo, a constituição que queria e empurrou-a goela a baixo do país, com mandioca e tudo. Aliás, o imperador entubou bem a mandioca que já constava no texto censurado.

Ontem, o ex-capitão presidente em pronunciamento na TV fez lembrar a mandioca.. O boquirroto deu um “foda-se!” para os trabalhos que a sua própria equipe vem elaborando e divulgando. Chutou o pau da barraca. Vamos todos para as ruas! Mandem as crianças para os colégios! Uns velhinhos podem se dar mal, a gente tenta cuidar deles, tá okey? Sou atleta, sujeito homem, e pra mim esse tal de coronavírus é só uma gripezinha!

A noite de 1824 em que o imperador mandou os seus milicianos enfiarem a mandioca nos constituintes e prender alguns deles ficou conhecida como a Noite da Agonia. Acho que os brasileiros não infectados com o vírus Bozo e alguns que estão convalescendo dessa contaminação foram dormir com a sensação de uma noite também de agonia. O ex-soldado boquirroto é a própria expressão de um vírus, de uma doença. Uma  doença social, anterior à Covid-19,  que acometeu a nossa sociedade. Uma pandemia nacional cuja contaminação foi bastante para se expressar eleitoralmente e levá-lo ao poder. Ele e as suas circunstâncias.

A pandemia Bozo naturalmente gerou uma crise. Seus eleitores não sabem o que fazer. Tal e qual doentes depressivos estão conscientes do seu mal e de que cura está dentro de cada um mas, não conseguem alcançá-la. Sentem pânico. Medo da “esquerda” e “ódio ao PT”.

Os apoiadores do projeto político Bozo estão cabreiros. Apostaram na astúcia de levar um Chapolin ao poder, mas não contaram com tanta estultice. O sujeito é a caricatura da caricatura. Não são apoiadores amadores. Orientam-se por uma cartilha liberal de autoria internacional e vão empurrando para levar seu projeto adiante. Manifestam-se aqui e acolá. Federações industriais, representantes nas casas legislativas, no pode judiciário, nas corporações financeiras, nas grandes mídias. Tentam constranger o boquirroto, mas sem negá-lo porque  ele  ainda é útil para os seus propósitos.

Um grupo especial de empresários faz coro direto de apoio ao Chapolin. Uma canalha que ver a grana rápido e que se  dirige aos seus empregados: Saiam pra rua e venham trabalhar! Encher nossos bolsos!  Venham queimar suas vidas em nossas fornalhas. Contaminem-se, desde que não encostem em nós! Não podemos é deixar a máquina capitalista parar!

Assim vamos e outro dia de agonia passará. Meus planos furaram. Hoje seria data de aniversário do meu falecido (e muito querido) pai. Eu e meu irmão bebericaríamos umas cachaças nas praias da cidade onde ele mora. Ironicamente foi o vírus quem isolou a humanidade revertendo a prática científica. Precisei cancelar nossa programação. Se passarmos por essa celebraremos depois. Fica pra outra. No meu caso, há vírus de diversos tipos para combater.

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terça-feira, 24 de março de 2020

A vida em tempos de coronavírus (5)


Opinião 


Sei de pessoas próximas que moram em localidades distintas, distantes de capitais e com tratamentos de saúde e medicação monitorados pela saúde pública. São sexagenárias, e nesses dias de exceção elas foram visitadas por agentes de saúde que lhes levaram os medicamentos para que não saíssem de casa expondo-se à contaminação pelo coronavírus e para que cumprissem as orientações do isolamento cautelar.

Seria leviano e uma estupidez apontar  esses casos específicos como representativos da prática e da qualidade do serviço social em nosso país. Contudo, vale dizer que não são casos isolados. E mais do que isso, vale refletir sobre quais são os elementos concretos que dão suporte a essas ações e que permitem essa prática, que deveria ser  padrão em todas a unidades de administração da saúde pública.

Com essa premissa, para quem tiver curiosidade e um momento de folga, sugiro buscar a  Constituição do Brasil  e ler uma de suas partes mais bonitas e importantes: o Artigo 194 do Título VIII (Da Ordem Social).  O acesso é simples, uma busca na web e chega-se lá.

A leitura é breve, curtinha, nem é preciso cair dentro. É lá que está instituído um conceito que poucos conhecem: a: SEGURIDADE SOCIAL. Trata-se de um conjunto que integra um tripé: Saúde – Previdência Social – Assistência Social. Coisas distintas que formam o conceito de seguridade   e cujos detalhes se desdobram nos artigos seguintes ao 194.

 É a garantia estabelecida no conceito de Seguridade Social que suporta o atuação daqueles agentes de saúde que visitaram os beneficiados para entregar as suas medicações. Infelizmente, porém, é a nossa ignorância sobre esse conceito  que estimula propostas que fodem a população, entre outras, aquelas que se justificam como decorrentes do tal “déficit da Previdência”.  Os argumentos dessas propostas misturam os conceitos para convencer aqueles que não têm noção dos significados dessa garantia constitucional. A recente reforma da previdência usou e abusou dessa ignorância.

O Artigo 194 é onde está determinada a responsabilidade dos poderes públicos e da sociedade para assegurar os direitos associados  ao tripé:  Saúde, Previdência Social e Assistência Social. É lá, ainda , que o parágrafo único estabelece como princípios, entre outros: a  universalidade da cobertura e do atendimento da seguridade; a irredutibilidade do valor dos benefícios e a   diversidade da base de financiamento.

Foram difíceis as batalhas na Constituinte em 1987/88 para a garantia desses direitos. Sem eles, hoje precisaríamos comprá-los sob a forma de serviços das corporações privadas. E eles vêm sendo permanentemente ameaçados e degradados. Contudo, são esses direitos que estão obrigando o empenho governamental para assegurar o enfrentamento da crise de saúde que estamos vivenciando.

Já virou lugar comum nesses dias de coronavírus o anúncio da situação especialmente positiva da sociedade brasileira por contar com um Sistema Único de Saúde, o SUS, que é parte integrante da Seguridade Social e que abriga todo e qualquer cidadão. Nessa hora de sufoco, a população não conta com um puto de níquel, sequer, dos grupos privados. Todos os recursos são públicos e direcioná-los para uma cobertura universal do atendimento é um direito nosso.

Passada essa crise, a onda para a privatização da Seguridade Social retornará. Tomara que possamos (quem sobrar) nos apresentar como uma sociedade mais instruída sobre nossas possibilidades e direitos, e que as ações daqueles agentes de saúde que citei no início do texto sejam uma prática corriqueira e nacional.
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segunda-feira, 23 de março de 2020

A vida em tempos de coronavírus (4)


Opinião


“Se o homem desaparecesse por completo da superfície do planeta este ficaria mais bonito. Reconhecer isto é reconhecer um fracasso. Talvez, depois que tudo serenar, a humanidade perceba que é possível um outro começo, mais próximo dos sonhos de Greta, com menos aviões, menos consumo, trabalho a partir de casa, mais solidariedade e mais harmonia.” [Jose Eduardo Agualusa -Jornal O Globo -  21/03/2020)

Esse é um trecho de artigo publicado pelo escritor angolano sobre as ironias e paradoxos decorrentes da pandemia coronavírus. A “Greta” citada no texto é a menina sueca Greta Thunberg,  ativista ambiental cujo protesto viralizou na internet.

O artigo é interessante, o que não é uma novidade considerando seu autor, mas impliquei com a parte que destaquei. Não há como discordar do sonho utópico, mas não compartilho da mesma expectativa.  Impliquei porque tenho ouvido outras pessoas repetirem essa expectativa de “conversão social” que, para mim, chega a ser pueril. Salvo se estiverem imaginando que a crise virótica levará a humanidade ao limiar da extinção.

É duro aceitar, mas o sonho utópico que compartilhamos traz consigo o imperativo de uma mudança radical e revolucionária das relações sociais, especificamente no modo de produção e distribuição das riquezas. Sendo enxuto e direto: uma superação do modo de produção capitalista. Porém, até o momento, tudo que assistimos nega essa possibilidade. Ao contrário, o que estamos vendo é a reafirmação dos valores capitalistas, mesmo diante da crise.

A leitura atenta das notícias mostra que as determinações governamentais em quase todos os países, sem risco de erros, apontam para o suporte e sustentação dos valores capitalistas dominantes no período pré-virus. Isso não mudou. Está nos jornais, nas margens das notícias apavorantes sobre o avanço da contaminação.

Partidos assumidos como radicalmente neoliberais pedem verbas públicas para reforçar capital de giro das empresas; especuladores de fundos financeiros são elogiados por seus ganhos no período do corona; socorro aos bancos são 11 vezes mais do que os direcionados a população mais pobre; o SUS disputa caixa com empresas em busca de capital de giro, e a mais recente: governo chegou a autorizar as demissões “temporárias” por 4 meses (está voltando atrás após a repercussão do absurdo da medida).

Todas as medidas apontam para suporte ao capital e às corporações do sistema capitalista cujos mecanismos estão tão ativos como sempre. Movimentações financeiras especulativas de toda a natureza, a busca de apropriação oportuna de recursos e a corrida por abrigo nos cofres públicos desses picaretas. Liberais de meias tigelas.

Não nos enganemos. Sairemos da crise, mas precisamos sair fortes e organizados para a luta política e as transformações que queremos. Não se trata de luta do bem contra o mal, mocinho contra bandido,   nem de arrependimentos e conversão de consciências. Trata-se da necessidade de superar um modo de produção que foi engendrado pela própria sociedade, mas que não tem futuro. Um sistema sem espaço para sonhos nem para a felicidade que só terão alguma chance em uma sociedade que deixe o capitalismo para trás.

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domingo, 22 de março de 2020

A vida em tempos de coronavirus (3)


Opinião


O Aterro do Flamengo está estranhíssimo. As pistas de rolagem que sempre fecham aos domingos e feriados estão abertas, mas quase não tem trânsito. As pistas internas de pedestres e onde fazemos as nossas caminhadas estão praticamente vazias. A praia está vazia e monitorada por helicópteros do exercito ou marinha.

Engraçado é que aqui, nesse retiro espiritual, sinto-me como se estivesse fazendo as caminhadas matinais. Isso porque estamos ainda no início dessa crise e eu só penso no momento em que ela irá acabar, o mesmo sentimento que tenho quando dou os primeiros passos nas caminhadas que odeio fazer. Será que falta muito pra acabar essa merda?

A natureza vista da minha janela continua linda – e sem gente. Com tempo para pensar bobagem, reflito. A vida no planeta sem o ser humano é uma realidade já imaginada, já concebida. O ser humano em momento nenhum sequer ameaçou o planeta, mas sim a sua própria existência como espécie. De fato, a extinção planetária é um evento previsto astronomicamente, mas num prazo de tempo cuja escala escapa da nossa compreensão, e não decorrente da ação humana.

O inusitado, sem ser novidade para o ser humano, é que, apesar de todas as potencialidades de intervenção na natureza para o seu benefício, um atributo negado às demais espécies conhecidas, só nós  desenvolvemos ações que podem implicar em nossa autoextinção.

É irônico que os alertas sobre a necessidade de uma alteração radical no modo de ocupação humana do planeta tem sido divulgados pelos próprios seres humanos. Contudo, é uma outra espécie, uma porrinha dum vírus, quem está impondo uma alteração no comportamento de parte significativa das populações. É irônico também que a pausa para meditação provocada por essa merdinha de vírus se faça da maneira mais tosca, radical e imbecil: a morte de uma porrada de gente sem excluir, no limite, a possibilidade concreta de uma extinção em massa.

CARLOTA, LEVANTA E ME SERVE UM CAFÉ, QUE O MUNDO ACABOU!

Um amigo querido me lembrou dessa exclamação enviando para mim um vídeo do Eduardo Dussek cantando Nostradamus (1980). Obrigado amigo!

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sábado, 21 de março de 2020

A vida em tempos de coronavirus (2)


Opinião

Ontem assisti entrevista do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis. Ele é membro das Academias Francesa, do Vaticano e Brasileira de Ciências. Renomado e premiado pesquisador, autor de livros interessantíssimos, ele é coordenador do projeto “exoesqueleto”. Um personagem cujas opiniões eu gosto de acompanhar. A entrevista me impressionou, não pela novidade das informações, mas porque elas assumem uma proporção mais relevante (no caso, assustadora) quando divulgadas por pessoas que, para nós, são referências de autoridade em suas opiniões.
Para o Nicolelis  essa será a crise mais complexa que o país já enfrentou, opinião na mesma linha das declarações da primeira ministra Angela Merkel referindo-se à Alemanha. Mas, em nosso caso, ressalta o cientista, temos um governo que é incapaz de compreender o que estamos enfrentando.
Assustadoras e quase desesperadoras são as simulações de cálculos que ele faz a partir de projeções que foram divulgadas pelo NY Times para os EUA. Projeções conservadoras apontam 35% de infectados na população, com 1% de mortalidade desse conjunto. Na Alemanha, segundo a ministra Angela Merkel, as expectativas são de 50% de infectados na população, e na Itália a mortalidade está em 8% dos infectados.
Esses números (50% e 1%) se aplicados para os 200 milhões de brasileiros, teríamos a hipótese de 100 milhões de infectados e um milhão de mortos. Tô fudido! Penso eu com os meus botões.
Nicolelis aponta o SUS como um fator a nosso favor. O SUS se caracteriza por um serviço público que tem uma rede capilar. “Se não houvesse o SUS, estávamos roubados”. Contudo, complementa, as decisões necessárias  não podem ser tomadas por pessoas que não acreditam no Estado, que criaram a mitologia de que a intervenção do Estado é maléfica. Ele também chama atenção para o fato que o único país em condições de fornecer um apoio efetivo a Brasil seria a China. Porém, as relações com aquele país estão sendo achincalhadas por autoridades brasileiras. Aliás, sobre esse assunto, ontem, 20/03/2020, a Band TV publicou editorial com crítica contundente e correta ao ministro das relações exteriores qualificando-o explicitamente como um “idiota” que ocupa cadeira tão importante.
Para o pesquisador deveríamos criar uma comissão nacional  de crise formada por mentes mais capacitadas nas áreas específicas necessárias para combater a pandemia que é multidimensional – não é só saúde, ela tem dimensões econômicas, sociais, geopolíticas e  de logística.
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A vida em tempos de coronavirus (1)


Opinião


Hoje completará 07 dias desde que configurei-me no modo “antiviral”. Sem estresse, nem paranoia, assumi um autoisolamento parcial. Caminho pela manhã ao ar livre no Aterro e, se muito necessário, faço alguma compra. No mais, fico em casa trocando zap, assistindo Youtube, Now e Netflix. Estudo alguns assuntos e tento fazer anotações (esse texto é um resultado desse exercício). Cancelei as atividades programadas e aulas na UFF também tiveram o início adiado. Faço um esforço para passar o dia ativo e sem cair na tentação de bebericar umas deliciosas cachaças do meu pequenino acervo. Atendendo às restrições de circulação, até a praia está proibida a partir de hoje, possivelmente interromperei a caminhada diária.

Apareceu uma doença que mata gente branca e de classe média, sem discriminação, e estamos todos apavorados. Enquanto só estava morrendo preto e pobre por causas diversas, o mundo não ligava muito, mas o bicho pegou. Ainda assim, as medidas que vêm sendo tomadas e noticiadas cuidam do “mundo visível”, expressão que tomei do professor Boaventura de Sousa Santos. Uma parte enorme da população que é “invisível”, no mundo e aqui no Brasil, está aos cuidados do azar. Eu não consigo pensar em nossa situação sem fazer essas vinculações

Em minha tribo familiar as coisas estão ainda – FELIZMENTE - sob controle, embora todos inseguros por conta das notícias, e bem atrapalhados com as aulas das crianças interrompidas. Na verdade, considerando o cenário, estamos privilegiados pelos recursos que ainda temos acesso. Durante a semana fizemos uma conversa em vídeo conferência pelo celular onde pude ver e brincar com os netinhos. Vamos levando.

Em torno de mim a cidade está vazia e o ambiente tenso. As notícias se tornam assustadoras na medida em que passam os dias e a contaminação progride ameaçando-nos mais de perto. Além de buscar me proteger, tento estar preparado emocionalmente para o que está por vir. Considerando as datas das primeiras contaminações no Brasil, estamos entrando nos prazos de notificações de óbitos e isso deverá afetar as nossas reações emocionais.

Enfim, vamos em frente. Hoje eu deveria estar no Mercado de Peixe bebendo umas cachaças e cervejas com amigos, mas estou aqui, escrevendo essa merda de registro.  Virusinho filho da puta!

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sexta-feira, 6 de março de 2020

Agruras de março, mais um verão


Opinião


Vejam que impressionante  (mais abaixo) a matéria da Carta Capital – Original da AFP – France Presse, de 06/03/2010. Segundo a ONU, 90% da população mundial tem preconceito contra as mulheres.

Não bastasse a exploração intrínseca ao modo de produção capitalista sobre todos os trabalhadores, as trabalhadoras enfrentam adicionalmente batalhas culturais seculares da discriminação de gênero. Servindo adequadamente às classes dominantes e ao sistema de poder político vigente, esses aspectos culturais  se expressam sob a forma de penalidades econômicas sobre as mulheres,  tanto na remuneração de suas tarefas como na desconsideração e desqualificação de suas capacitações profissionais.

Assim, deveríamos considerar um desrespeito para com a história das trabalhadoras a glamourização do dia 8 de Março – Dia Internacional da Mulher. Essa data foi estabelecida  para ser reverenciada e celebrada pelos trabalhadores de todos os gêneros como um marco simbólico de suas lutas. A glamourização é um insulto contra esse propósito.

A prática dos presentinhos, das florzinhas, dos convites para almoços e jantares, dos elogios, das mensagens com cumprimentos e cortesias babacas (agora potencializadas pelo zap) que, no fundo, reafirmam a discriminação precisam ser estancadas. São práticas que só contribuem para disfarçar essa marginalização covarde – inclusive praticada por muitas mulheres que em seus comportamentos repetem os mesmos assédios , destratos e práticas de exploração.

Dia 8 de março é dia de celebrar a luta. E de refletirmos, cada um de nós (não me excluo), de todos os gêneros, o tanto que estamos impregnados dessa herança preconceituosa e escrota, e o tanto que a praticamos inconscientemente porque não paramos para a reflexão.

Sugiro a leitura da matéria da France Presse. Leitura abaixo ou através do link.
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90% da população mundial tem preconceito contra as mulheres, diz ONU


 AFP -  6 DE MARÇO DE 2020

Em torno de 90% da população mundial, sem importar o sexo, têm preconceito contra as mulheres, revela um estudo da ONU divulgado nesta quinta-feira, dias antes do Dia da Mulher.
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) analisou 75 países, que representam 80% da população global, e concluiu que nove a cada dez pessoas, inclusive mulheres, têm preconceito de gênero.
Estes preconceitos incluem que os homens são melhores políticos e líderes de negócios; que ir à universidade é mais importante para os homens; ou que deveriam ter um tratamento preferencial em mercados de trabalho competitivos.
Os países no topo da lista são Paquistão, onde 99,81% têm ao menos um preconceito em relação às mulheres, Qatar e Nigéria, ambos com 99,73%.
Os países com população menos sexista são Andorra, 27,01%; Suécia, 30,01%; e Holanda, 39,75%.
Em França, Reino Unido e Estados Unidos, os índices de quem tem ao menos um preconceito sexista são de 56%, 54,6% e 57,31%, respectivamente.
Na Espanha, o percentual é de 50,50%.
Na América Latina, a pior situação ocorre no Equador (93,34%), seguido por Colômbia (91,40%), Brasil (89,50%), Peru (87,96%) e México (87,70%).
Argentina, Chile e Uruguai se situam entre 75,4% e 74,6%.
Os números revelam “novas pistas sobre as barreiras invisíveis que as mulheres enfrentam para obter a igualdade”, apesar de “décadas de progresso”, destaca o relatório.
“O trabalho tem sido eficaz para garantir o fim das brechas na saúde ou na educação, mas agora deve evoluir para abordar algo muito mais desafiante: um viés profundamente arraigado, tanto em homens como em mulheres, contra a igualdade genuína”, disse o administrador do PNUD, Achim Steiner.
A agência pede aos governos e instituições que trabalhem para mudar estes preconceitos e práticas discriminatórias através da educação. ####


sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Os cúmplices (autoria da jornalista Eliane Brum)


Opinião

Texto de autoria da jornalista Eliane Brum. Publicado no jornal El País em 01/01/2020. Ver link no final. Reproduzido sem autorização. Sua leitura dispensa justificativas.


Em 2020, cada um saberá quem é diante de uma realidade que exige coragem para enfrentar e coragem para perder


Nenhum autoritarismo se instala ou se mantém sem a cumplicidade da maioria. É o que a história nos ensina. Não haveria nazismo sem a conivência da maioria dos alemães, os ditos “cidadãos comuns”, nem a ditadura militar no Brasil teria durado tanto sem a conivência da maioria dos brasileiros, os ditos “cidadãos de bem”. O mesmo vale para cada grande tragédia em diferentes realidades. Os déspotas não são alimentados apenas pelo silêncio estrondoso de muitos, mas também pela pequena colaboração dos tantos que encontram maneiras de tirar vantagem da situação. Em tempos de autoritarismo, nenhum silêncio é inocente —e toda omissão é ação. Esta é a escolha posta para os brasileiros em 2020. Diante do avanço autoritário liderado pelo antidemocrata de ultradireita Jair Bolsonaro, que está corroendo a justiça, destruindo a Amazônia, estimulando o assassinato de ativistas e roubando o futuro das novas gerações, cada um terá que se haver consigo mesmo e escolher seu caminho. 2020 é o ano em que saberemos quem somos —e quem é cada um.

Há várias ações em curso. E várias mistificações. Quem viveu a ditadura militar (1964-1985) conhece bem, guardadas as diferenças, como o roteiro vai se desenhando. No final de 2019, parte da imprensa, da academia e do que se chama de mercado começou a exaltar os sinais de “melhora econômica”. A alta da bolsa, a “queda gradual” do desemprego, a indicação de aumento do PIB em 2020 são elencados entre os sinais. Ainda que se esperasse mais, afirmam, “os inegáveis avanços do ponto de vista econômico”, entre eles a reforma da Previdência, “a inflação comportada” e os juros fechando 2019 “em patamar inimaginável” permitem —e aí vem uma das expressões favoritas deste seleto grupo de players— um “otimismo moderado”. Até a pesquisa de uma associação de lojistas divulgou uma incrível alta de 9,5% nas vendas de Natal, imediatamente contestada por outra associação de lojistas. É como se a “economia” fosse uma entidade separada da carne do país, é como se houvesse uma parte que pudesse ser isolada e sobre a qual se pudesse discorrer usando palavras enfiadas em luvas de cirurgião. É como se bastasse enluvar jargões técnicos para salvar os donos das mãos de todo o sangue.

Enquanto esse diálogo empolado e bem-educado do pessoal da sala de jantar, dos que sempre estão na sala de jantar, independentemente do governo, é estabelecido, bombas explodiram no prédio da produtora do programa de humor Porta dos Fundos, policiais matam como nunca nas periferias de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, ampliando o genocídio da juventude negra, o antipresidente legaliza o roubo de terras públicas na Amazônia, ambientalistas são acusados de crimes que não cometeram, ONGs são invadidas sem nenhuma justificativa remotamente legítima, adolescentes pobres morrem pisoteados porque decidiram se divertir num baile funk numa noite de sábado, indígenas guardiões da floresta e agricultores familiares são executados, as polícias vão se convertendo em milícias como se isso fosse parte da normalidade, e são também os policiais e “agentes de segurança” condenados por crimes os únicos que são libertados no indulto de Natal. Os sinais estão por toda parte, mas membros respeitados de instituições da República que deveriam ser os primeiros a percebê-los —e combatê-los— seguem inflando a boca para assegurar que “a democracia no Brasil não está ameaçada”.

A qual Brasil se referem estes senhores bem-educados? De qual país estes luminares do presente falam? Certamente não do meu nem do de muitos, não o das favelas onde as pessoas se trancam sabendo que não há porta capaz de barrar a violência da polícia, não este em que os policiais já exterminam os pretos sem responderem por isso há muito, mas esperam mais já que o extermínio vai sendo legalizado pelas beiradas. Não este em que os templos de religiões afro-brasileiras são invadidos e destruídos apesar de o Estado ser formalmente laico. Não este em que as lideranças da floresta enxergam o Natal e o Ano-Novo como os piores momentos do ano porque é o tempo de deixar a família e fugir, pelo menos até que as capengas instituições voltem do recesso.

Neste país, pessoas da sala de jantar, há muita gente escondida neste exato momento para poder virar o ano vivo. Não esperam brindar, desejam apenas não ter o corpo atravessado por uma bala —ou por quatro na cabeça, como ocorreu com Marielle Franco, num crime não decifrado quase dois anos depois. Democracia onde? Os escondidos, os ameaçados, os parentes dos mortos querem saber. Todos nós queremos muito viver neste país em que vocês enxergaram “inegáveis avanços na economia em 2019” e “instituições que funcionam”. Não fiquem com o endereço só para vocês.

As pessoas da sala de jantar, porém, só podem seguir na sala de jantar ditando o que é a realidade porque a maioria assim permite, omitindo-se ou aproveitando-se das sobras. São as pessoas, no dizer da historiadora franco-alemã Géraldine Schwarz, “que seguem a corrente”. A questão é se você, que lê este texto, vai engrossar o rebanho dos que seguem a corrente.

Não o rebanho de ovelhas. Esta imagem evoca passividade, engano, uma obediência absolvida pela inocência. Não. Este rebanho, o dos que agem se omitindo, ou o dos que agem tirando pequenos proveitos, “porque afinal é assim mesmo e quem sou eu para mudar a realidade”, é um rebanho de lobos. Porque o ativismo de sua omissão é cúmplice do sangue das vítimas, estas que tombam, estas que vivem uma vida de terror. É cúmplice também das ruínas de um país. No caso da Amazônia, é cúmplice das ruínas da vida da nossa e de muitas espécies no único planeta disponível.

Géraldine Schwarz escreveu um premiado livro chamado Os amnésicos (Flammarion), infelizmente sem tradução no Brasil. A historiadora, cuja família foi uma dessas que obteve vantagens no nazismo, mas se considerava inocente do Holocausto, deu uma excelente entrevista ao jornalista Fernando Eichenberg, em O Globo. Ela aponta como a adesão aos déspotas do século 21 mantém a estrutura da adesão aos totalitarismos do século 20:

“No imaginário coletivo, temos tendência a dividir a sociedade em três categorias históricas no século 20: heróis, vítimas e carrascos. Na verdade, a maioria da população não se reconhece em nenhuma delas. É a via mais fácil não se incluir em nenhuma das três categorias, mas apenas seguir a corrente. Há o magnífico filme baseado no romance de Alberto Moravia [O conformista, de Bernardo Bertolucci], que mostra muito bem como o conformista acaba aceitando o que antes era inaceitável. 

No ensino da história, muitas vezes por meio da ficção ou de comemorações, temos uma visão um pouco distorcida do passado. Se tem a impressão de que a população não teve nenhum papel nessa história. E teve, muitas vezes, um papel de pilar e consolidador de ditaduras. É nisso que a democracia tem um papel importante, pois o povo tem os meios de impedir um golpe e a instalação de um regime criminoso. Eleger Bolsonaro, por exemplo, para mim, é brincar com o fogo, pois parece alguém capaz de tudo.”

A historiadora defende a memória como um dos principais instrumentos de defesa da democracia. “O importante é tomar consciência de nossa falibilidade e reconhecer que podemos nos transformar também em um bárbaro”, afirma. "A história não se repete, mas os métodos de manipulação, sim, porque a psicologia humana não muda. Em um contexto de crise, em meio a um grupo, o homem terá reações similares. Um dos métodos é difundir o medo, muitas vezes exagerado em relação à realidade. [...] Trata-se de confundir a fronteira entre o verdadeiro e o falso, desorientando totalmente as pessoas. Perde-se as referências, não se sabe mais no que acreditar. E, como dizia [a filósofa alemã] Hannah Arendt, quem não acredita em mais nada é manipulável à vontade. Ao ponto de inverter seus valores: o que era bom ontem já não o é mais hoje. É o que se observa em várias sociedades do mundo. As pessoas que, hoje, apoiam Jair Bolsonaro, há dez anos provavelmente defendiam os direitos humanos. Por isso que o ensino do Terceiro Reich é capital. Na história há muito poucos exemplos de uma sociedade tão civilizada, moderna, intelectual, que derivou rapidamente para a barbárie. É um ensinamento universal, que serve de alarme a todo mundo.”

O problema é que países como o Brasil não produziram a memória da ditadura justamente para absolver os assassinos, sequestradores e torturadores de Estado. A condição da retomada da democracia foi o perdão ao imperdoável. Essa política de amnésia resultou, em 2018, na eleição de um presidente que tem como herói um torturador e assassino de civis. Diante de uma população desmemoriada, ao final do primeiro ano do governo do déspota eleito vimos um roteiro semelhante se repetir, com as necessárias adaptações a uma época impactada pela Internet. Ainda que a memória no Brasil seja frágil, porém, ela existe. Não há desculpa para omissão. Nem há qualquer inocência no suposto conformismo.

O problema, no Brasil e em outros países que vivem processos políticos semelhantes, é também de memória recente. Esta que está sendo construída agora, não só nas mentiras disseminadas nas redes sociais por Bolsonaro e sua familícia, mas também nas narrativas que isolam a economia da carne que sangra. Como se a evocação do AI-5 por Paulo Guedes não tivesse nada a ver com suas escolhas econômicas, como se o Posto Ipiranga fosse radicalmente diferente do dono do posto. Está em produção uma memória falsa, o que é pior do que desmemória. Pior do que não lembrar é lembrar de um acontecido que nunca aconteceu.

Entre as tantas perversões da ditadura, uma se mostrava particularmente enlouquecedora para aqueles que escolheram lutar contra o regime de opressão. Enquanto homens e mulheres eram vigiados e perseguidos dia e noite, afastados de seus postos, demitidos de seus empregos, transformados em párias e criminalizados, enquanto livros, jornais, filmes e peças de teatro eram censurados, enquanto brasileiros precisavam deixar o país para salvar a vida ameaçada pelo Estado, enquanto os que ficavam eram sequestrados, torturados e mortos por agentes do Estado, uma maioria fingia que nada estava acontecendo. Fingia tanto que acabava acreditando que não eram gritos de dor e de terror o que ouvia. Era o cidadão de bem que apenas seguia a corrente, protegendo os próprios interesses e avaliando o que poderia ganhar com o estado das coisas.

Começamos a testemunhar hoje o mesmo mecanismo perverso. Com todas as desculpas possíveis, auxiliadas pela polarização que desloca o perigo para uma falsa oposição. Com todos os erros e os crimes do PT no poder, o antipetismo não é justificativa aceitável para alguém seguir a corrente. Não tem mais clima para se fingir de iludido. Basta ter vergonha na cara para perceber que não se trata mais do PT. Se trata da corrosão do que ainda resta de democracia no Brasil. Se trata da autorização para roubar enormes pedaços de floresta, desmatá-los e botá-los no nome dos autores do crime. Se trata da conversão das forças de segurança em milícias com autorização para matar. Se trata da criminalização de quem defende os mais frágeis, usando para isso o aparato do Estado. Se trata de genocídio de negros —e também de indígenas.

Há muita gente se fingindo de ovelha para lavar as mãos diante do que vive o Brasil. Mas há também gente angustiada perguntando o que fazer diante do que já não consegue deixar de ver. A estes, respondo que ninguém vai dar a resposta. Esta resposta terá que ser criada, coletivamente, por iniciativa dos que fazem a pergunta. Em cada profissão há o que fazer. Este é um momento em que precisamos fazer melhor o que sabemos fazer, mas também precisamos fazer bem o que não sabemos. Apenas o que sabemos já não é suficiente. O que somos já não é suficiente. Temos que ser melhores do que somos para enfrentar este tempo em que já não há tempo. E temos que ser juntos, fazendo laços e tecendo redes entre nós.

Este é o desafio de 2020. O ano novo não está dado. 2020 só será novo se nossa resistência resgatar o presente das mãos dos déspotas. Esta é a única resolução possível diante do que vivemos e do que testemunhamos. Cada um de nós precisa se responsabilizar pelo horror do nosso tempo.


Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Brasil, construtor de ruínas, Coluna Prestes - O avesso da lenda, A vida que ninguém vê, O olho da rua, A menina quebrada e Meus desacontecimentos, e do romance Uma duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum/ Instagram: brumelianebrum




segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Vamu nessa!


Opinião


Os chilenos voltaram às ruas no dia 13 de dezembro, o dia em que foi divulgado o  relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre violência e violações aos direitos humanos por parte da polícia durante as manifestações recente. Emocionante! Vejam o link abaixo.

Aqui, muitos de nós indagamos sobre a tolerância da nossa população e quando daremos um basta, saindo para o enfrentamento contra esse sistema escroto que nos submete.

Porém, tanto essa visão de tolerância como essa dúvida são INCORRETAS. A questão que precisamos tratar é: QUANDO OUTROS DE NÓS ESTAREMOS AO LADO E REFORÇANDO OS QUADROS DAQUELES QUE JÁ ESTÃO REALIZANDO ESSE ENFRENTAMENTO.

A luta já está nas ruas. Ela tem sido o cotidiano de índios, negros, pobres, marginalizados e discriminados sociais de toda ordem, inclusive por opções de atitudes de vida e até por opções religiosas.

Esses grupos já estão enfrentando tentativas de dizimá-los, de abatê-los. Estão sendo assassinados pelos braços armados do estado que antes eram tipicamente institucionais e agora reforçados por mercenários. Milicianos nos centros urbanos, jagunços nas regiões rurais.

A luta já está nas ruas. O que precisamos é aderir.

Evento Praça da Dignidade - Chile - em 13/12/2019 - Acesso em 16/12/2019 




domingo, 1 de dezembro de 2019

Tá com medo tabaréu?

Leituras para distrair


Talvez por conta da idade, as memórias recentes  perdem prioridade, como se não encontrassem um alojamento. As vagas estão tomadas por outras de tempos distantes. Indício de Alzheimer? Não importa, esquecerei também! O fato é que as lembranças mais antigas povoam o meu cérebro de uma forma até implicante.

Vi um menino empinando uma pipa na praia. O moleque corria pra lá e pra cá num movimento repetido por milhões de crianças em todo o mundo. Lembrei que, a rigor, nunca “empinei pipa”. Tive familiares que moravam em subúrbio da cidade do Rio de Janeiro e que empinavam pipas. Mas, lá em São Gonçalo, outro lado da poça, a molecada  “soltava cafifa”.

Empinar pipa e soltar cafifa eram exatamente a mesma brincadeira, mas as designações e  tipos de cafifas ou de pipas eram distintos. Cafifa e pipa eram designações genéricas, em São Gonçalo e no Rio. Porém, cafifas não usavam as “rabiolas” um complemento fundamental nas pipas cariocas. Arraias, piões, morcegos e marias-largas eram tipos específicos de cafifas.  Distinguiam-se pelos formatos das armações de bambu. Nenhuma delas com rabiolas. Entre as pipas cariocas havia os morceguinhos, piões e outros tipos que eu nunca soube, não era minha praia. Invariavelmente, todas com rabiolas enormes.

As cafifas e as pipas que falo nada tinham a ver com as peças que hoje frequentam os campeonatos de pipas. Por mais lindas que sejam, e apesar de carregarem consigo a experiência e a prática popular, não eram essas pipas de campeonato que povoavam os céus em nossa infância. Sem desfazer da qualidade técnica de suas construções , nem da beleza e encantamento que lhes são peculiares, as atuais pipas de campeonato não representam a memória das nossas brincadeiras infantis, aqui, no estado do Rio de Janeiro. As atuais pipas de campeonato parecem representar uma história recente de cópia e assimilação de práticas estrangeiras.  

No alto, as cafifas eram presas e controladas por linhas de algodão esticadas e embebidas em uma mistura de cola de madeira e vidro moído que chamávamos de “cerol”. Com as pipas também era assim,  mas a mesma mistura era chamada de “cortante”. Através de manobras que faziam as linhas deslizarem uma sobre a outra, era possível cortar uma delas conforme a eficiência do cerol ou cortante. Entre as cafifas essa disputa era chamada de “torar”. Entre as pipas o termo mais comum era “cruzar”.

Interessante é que, em linha reta,  as populações de moleques não se distanciavam mais que 50 quilômetros. Porém, os vocabulários eram distintos, embora atualmente se confundam. Eles identificavam territórios, as nossas origens. Possivelmente alguém nessa web que é a enciclopédia do mundo terá registrado as correspondências. Eu só guardei algumas.

Quando uma linha esticada no alto precisava ser alcançada, amarrávamos duas pedras em cada ponta de um pedaço de outra linha, imitando uma boleadeira gaúcha, e jogávamos para fazer a linha esticada descer. A nossa boleadeira tinha o nome de “landrola” e a mesma peça era chamada pelos moleques cariocas de “marimba”.

Após passar o cerol (essa expressão hoje tem um significado macabro) na linha esticada, para tirar os excessos acumulados tensionávamos a linha brevemente, como se faz ao tocar uma corda de violão. Essa ação era chamada de “estancar”. A linha esticada se prendia à cafifa através de um pedaço também de linha chamado “cabresto”, e quando numa tora entre duas cafifas o corte se dava bem longe do cabresto causando a perda de uma grande quantidade linha, que ia junto a cafifa torada, a garotada dizia que a cafifa foi torada “na mão”.

Sem rabiolas era muito difícil capturar uma cafifa torada ainda solta no ar. Mas, havia os virtuoses que conseguiam realizar essa façanha que se chamava “aparar”. Cortei e aparei! Gabava-se o triunfante do embate.

Esse tal alemão que apavora as velhices poderá até me deixar bastante confuso, mas não vai me tirar essas lembranças, jamais. Fecho os olhos e “dou linha” no carretel do tempo.
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