segunda-feira, 29 de março de 2021

Dia de luz, festa de sol

 Leituras para distrair

 Um amigo me sacaneou dizendo que logo eu acordasse iria teorizar sobre a influência das relações no Oriente Médio e encalhe do cargueiro no canal de Suez. Não tenho essa capacitação, mas assumo que seria um bom tema. Ainda assim, em tempo de coronavírus e na iminência de uma primeira dose de vacinação, deixei-me entrar na pilha, curtindo o tempo com o regate de algumas lembranças, longe de atender às expectativas do amigo sacana.

 Aos 16 anos conheci uma figura que estava voltando de Suez (Egito) onde fazia parte das tropas militares  brasileiras sob o comando da ONU, um conchavo internacional para garantir  o controle do canal que tinha sido nacionalizado pelo governo egípicio na década de 50 do século 20.

 As forças militares na região estavam sendo desativadas (anos 60).  Lembro da data porque na ocasião eu troquei de emprego, e o contato com aquela figura que estava voltando de Suez fez parte dos novos relacionamentos no novo ambiente.

 Eu tinha curiosidade em saber sobre o assunto porque a ignorância era total e não existiam possíveis fontes de esclarecimentos. O fulano que retornara era mais ignorante do que eu. Não fazia ideia do que esteve fazendo lá, e sentia-se confortavelmente instalado em sua ignorância. Lamentava apenas  a perda da grana que recebia e que lhe permitia coçar o saco, sem trabalhar durante certo período. Aliás, os carregadores de fubá do depósito onde eu trabalhava puseram-lhe o apelido de “Fulano 99”. Diziam que se ele continuasse assim, preguiçoso e sem fazer porra nenhuma, iria durar 99 anos.

 Na mesma época, havia conhecidos  mais velhos que estavam designados para integrar as forças militares da OEA que ocuparam a República Dominicana. A intervenção dava uma cara de legitimidade à recente invasão americana no país em nome do combate ao comunismo e para evitar o controle do poder por um governo de esquerda.

Também nesse caso a minha ignorância era absurdamente grande. Os caras que eu conhecia e que estavam por lá (São Domingos) eram todos irmãos mais velhos de colegas da minha idade. Nenhum sabia nada sobre o papel que estavam desempenhando.

O nosso interesse era grande porque os colegas recebiam cartas dos irmãos mais velhos contando as maravilhas de estarem em um local onde o sexo era abundante e com menininhas, novinhas,  que chegavam a ser oferecidas por parentes próximos, como irmãos e primos, em troca de poucos dólares. Bugigangas americanas eram compradas a preços baratíssimos, e o acesso à uísque e cigarros estrangeiros era irrestrito.

 Meninos, adolescentes, não fazíamos ideia do que representava aqueles relatos.  Cada grupo que retornava trazia pacotes de cigarros americanos,  bebidas, aparelhos eletrônicos,  dólares  e novos relatos sobre a miséria e desagregação social em um país ocupado, que para nós era o relato de um paraíso. Despertava a inveja de não poder estar lá.

 Em nossos grupos e ambientes, mesmo no colégio, não havia quem nos informasse sobre o significado daqueles fatos. ONU, Suez, São Domingos, OEA era tudo uma merda só, desconhecida. A esses termos somaram-se outros, estes mais conhecidos: Parliament, um cigarro com um filtro completamente diferente do que conhecíamos, e Half and Half,  outro cigarro que exalava um fedor que empestava todo ambiente quando aceso.

 Meu amigo sacana talvez fique frustrado, mas com as notícias do barco encalhado não vou além das lembranças daqueles tempos de ignorância e da alegria de ter superado parte delas, ainda que pequena.

 O atolamento do barco é simbólico. Estamos atolados socialmente. Contudo, se eu fosse capaz,  discorreria sobre o o ridículo e irônico daquelas imagens de uma embarcação de 400 metros, lotada de containeres, a região em volta completamente esmerdalhada pelo  congestionamento de navios, e o paredão lateral do barco pintado com letras enormes: EVERGREEN.

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segunda-feira, 22 de março de 2021

O pecado e a fome. Coisas dos home

 Opinião

O devorador de pecados é um mito. Não sei a origem, detalhes nem coisa que o valha, apenas sei sobre o mito. O devorador é alguém que, em ritual, absorve os pecados de outros e alimenta-se deles. Quem nunca soube, sugiro que busque saber.

 Sou um filho da puta!  Contudo,  tenho a alternativa de repassar os meus pecados para um devorador de pecados. Em alguma etapa do ritual, o pecador sussurra no ouvido do devorador as merdas que fez e... foda-se o resto. O devorador que cuide das consequências. 

Acho que, afinal,  esse é o fundamento do atributo de mito  concedido ao presidente Bozo. Incapaz de articular qualquer sentença lógica, seu rebanho muge numa tentativa exasperada de expiação de seus pecados que o mito devora. Alimenta-se deles. Ambos se satisfazem. Complementam-se. 

Deve ser constrangedor para o pecador, ainda que seus pecados tenham sido devorados pelo mito, tratar suas relações cotidianas: familiares, afetivas, sociais, profissionais, etc. Nos círculos próximos é inevitável que algum impertinente, infantil ou não,  pergunte: "Afinal, em quem você votou?"

Não sei como os caras respondem, no máximo faço suposições. Imagino alguém respondendo ao filho ou neto em uma mesa de refeições ou encontro de família:  “ Votei no Bozo, mas estou livre porque ele devorou meus pecados”. 

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sábado, 6 de março de 2021

Bacurau

Leituras para distrair

Trocando mensagens com um querido amigo ele usou a expressão “Comigo não, bacurau ! ”. E isso foi o mote para esticarmos conversa sobre a palavra “bacurau”. Segundo esse amigo, “... só quem tem raízes telúricas conhece e já viu o bacurau”, e ficou de recuperar uma crônica de autoria do seu avô paterno intitulada “O bacurau” que ele guarda entre relíquias da família.

 Engraçado que para a web, hoje, é preciso distinguir o termo bacurau entre a  “ave” e o “filme”. O filme é uma produção nacional de 2019 sobre um povoado do sertão brasileiro explorado por um chefe político local que chega a tirar a cidade do mapa e a contratar matadores profissionais para dizimar os moradores em nome dos seus interesses. A trama se desenvolve narrando a reação dos moradores.

 A ave é uma de hábitos noturnos que, por esse fato e sua própria aparência, às vezes é confundida com a coruja, embora não haja parentesco entre os dois tipos de pássaros. Tem um canto curioso que parece falar “amanhã eu vou!”, e há uma lenda associada ao canto do bacurau. Vale procurar saber.

Quando menino caçávamos passarinhos em um sítio/fazenda num bairro de Saigon, chamado Monjolos (para o pessoal local é Munjolos), que na época era uma vila quase isolada dos bairros populosos. Bem cedo aprendi a lidar com espingardas de “cartucho” (vários calibres)   e também de “projétil” (calibre 22). Matávamos passarinhos por motivo torpe, apenas pelo prazer de disparar contra aquele tipo de alvo.

A única regra ética que seguíamos era a proibição de atirar em “sabiá laranjeira”. Só podíamos atirar em “sabiá  poca”. Com isso, naturalmente, aprendi a distinguir um do outro. Nunca tive relação de afeição com animais e a consciência da sacanagem que era atirar nos passarinhos só veio mais tarde. Mas, no contexto de então, a prática não era considerada um absurdo. O caseiro do sítio (chamava-se Zé Magro) alimentava-se exclusivamente de caça, e alguns moradores próximos também consumiam caça, embora não regularmente.

 Um dos moleques era exímio com a “seta” (atiradeira) e batia todos os demais, não importava que armas tivessem. Ele tinha aquela habilidade desde muito criança, e os pais contavam que, certa vez, era início da noite, ele entrou correndo em casa (em Saigon) dizendo ter abatido uma coruja e contando vantagens. Os pais foram verificar e constataram que ele matou um bacurau. E esse foi o apelido que ele ganhou e que já tinha quando o conheci. Poucos sabiam o seu nome  verdadeiro e ele respondia naturalmente por Bacurau.

 Essa história transformou em ponto de honra e indicador de qualificação entre a molecada saber distinguir um bacurau de uma coruja, e não correr o risco de pagar o mico do Bacurau.

Não lembro mais o nome de batismo de Bacurau, que era primo de um falecido compadre. Quando perdi o contato, Bacurau estudava odontologia. Não sei se foi chamado de Dr. Bacurau.     

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quinta-feira, 4 de março de 2021

Flanando

 Opinião

Vou ao centro da cidade quinzenalmente e pratico as cautelas que a situação atual exige. Não sei como estão outros bairros além do meu próprio, mas o cenário do centro da cidade está difícil de qualificar. Refiro-me à região que vai desde a altura da Central e Campo de Santana,  até a Praça XV, e desde a Lapa e Cinelândia, até a Praça Mauá. O cenário é decadente, deprimente, triste. Todos esses adjetivos se aplicam. 

Ressalvo que não tenho dados que justifiquem meus comentários, mas é como a situação aparece para mim. A quantidade de lojas comerciais que, visivelmente, foram fechadas no decorrer da pandemia é enorme. O entorno da Cinelândia e Largo da Carioca, incluindo os espaços que foram criados na Av. Rio Branco,  é um enorme camelódromo. 

Excluo a rua da Carioca que já sofria um esvaziamento desde antes da pandemia. Lá, felizmente, no número 10 da rua, ainda é possível o prazer de beber algumas branquinhas especiais no “_Café do Bom Cachaça da Boa_”. Sugiro a visita. 

Os transeuntes no centro são “_muitos_”, porém poucos para quem conhece o ritmo da cidade. Quase não se vê uma moçada flanando como era habitual. São trabalhadores que precisam circular por conta de seus afazeres, assim como são os ambulantes que enchem as ruas de gritos oferecendo seus produtos e até conversando entre si. 

O sujeito da carroça de salgadinhos relata aos berros para o vendedor de capas de celulares casos e situações (geralmente associadas à violência) do bairro onde ele mora. Essa cena se repete por todo o centro da cidade. A máscara é artefato de uso dos transeuntes, são poucos os ambulantes que a usam. Todos estão correndo atrás do prejuízo, tentando seguir com suas vidas apesar da pandemia, mas os olhares por trás das máscaras ou nos rostos descobertos irradiam decadência e desesperança. 

Sempre achei o Rio de Janeiro (refiro-me ao centro da cidade) uma cidade cotidianamente bagunçada, fato que nunca me agradou.  Mas, sempre vi uma bagunça misturada com manifestações de alegria e descontração. Injustificáveis a meu juízo, mas essa é uma característica da cidade,  a cara do Rio. Hoje não vejo assim, a cidade parece estar se desmantelando. 

Preciso acreditar que em algum momento a situação se reverterá, mas arrisco dizer que nem as cervejas, nem os rastapés de blocos das ofegantes epidemias de muitos carnavais serão suficientes para tal. Será necessário algo mais. 

As notícias informam que a cidade adotará um toque de recolher proibindo as atividades comerciais noturnas e a permanência das pessoas em vias e áreas públicas durante a madrugada. Não li o instrumento legal, apenas as notícias. Não vi como será tratada a multidão que todas as noites se amontoa em áreas públicas, nas calçadas em ambos os lados da Av. Presidente Vargas, além de outras ruas, tentando abrigar-se durante a madrugada até reiniciar suas batalhas no dia seguinte. Tomara que tenham previsto uma solução que considere as necessidades daquela galera.  

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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Bicho feroz ou fera ferida?

Opinião

Ao endossar a prisão do deputado federal que fez ameaças ao STF, os partidos e outras organizações da esquerda política afiaram o cutelo de uma guilhotina que mais adiante poderá ameaçar os seus próprios pescoços e cabeças.

É fato que as práticas e antecedentes do deputado são reconhecidamente canalhas e bastantes para se desejar o seu afastamento da Câmara dos Deputados ou de qualquer convívio social. Mas, a decisão do STF foi um ato autoritário, uma retaliação contra um representante que tem mandato popular com imunidade constitucional para a expressão de opinião, mesmo que tenham sido medíocres, estúpidas e absurdas como foram.

 Tolerar esse autoritarismo e, mais do que isso, endossá-lo é um equívoco. A decisão do STF, mesmo ratificada pela Câmara, está muito distante de alguma coisa parecida com defesa da democracia. Ao contrário, significou a imposição do Estado sobre a sociedade, uma inversão de valores que significa, na prática, uma relação ditatorial. E as vítimas futuras desse equívoco, não tenhamos dúvidas, serão os movimentos, organizações, simpatizantes e militantes da esquerda política.

 Sem fato específico que caracterizasse a verborreia do deputado como uma ameaça concreta de perigo iminente para a sociedade, a decisão do STF só desvelou ainda mais o casuísmo daquela corte. Infelizmente os partidos e parlamentares de esquerda embarcaram na canoa furada como se estivessem defendendo a nossa alegada democracia. Bobinhos! Renderam honras ao mesmo STF golpista de 2016 e colaboracionista da fraude eleitoral de 2018 que cassou a candidatura Lula e levou ao poder o governo Bozo que dispensa qualificações.

 Em 2018, um general golpista mandou recado para o STF – com cópia para quem quisesse ler - dizendo que a corte sofreria intervenção caso fosse concedido habeas corpus ao Lula. O esquema que praticou o golpe de 2016 não permitiria a candidatura de Lula em 2018. O STF nem precisou se considerar intimidado, cumpriu o papel que lhe cabia na armação. Enfiou o rabo entre as pernas, chupou a cana e fez cara de que estava doce. Lula se fudeu.

 Agora, em 2021, o mesmo general golpista em entrevistas registradas em livro ratificou as ameaças que fez. Para que não ficassem dúvidas, esclareceu que não se tratou de iniciativa pessoal, mas da quadrilha de forças armadas cobrando submissão das forças desarmadas. Só faltou desenhar.

 Outra vez o STF, que sabe o seu papel e posição nessa peça teatral, fez cara de paisagem – tudo normal, salvo uma nota tímida de um ministro que imediatamente foi ironizada pelo general. A propósito da pressão, disse o ministro “Anoto ser intolerável e inaceitável”, o general zombeteiramente comentou: “três anos depois?” Fez lembrar uma piada mundana onde alguém, de forma supostamente indignada, reclama de assedio: “Você tem 24 horas para tirar a mão da minha bunda”. O deputado merdinha, por sua vez, ao contrário do STF, não chegou a aprender o seu lugar, não decorou o seu papel. Achou que estava com a bola toda. Perdeu!

Os partidos e organizações de esquerda também parecem não ter aprendido o jogo ou esqueceram ou parece terem aberto mãos dos seus papeis. Em nome da defesa da democracia saíram em “apoio ao STF”, essa “coisa” que se transformou em um Estado dentro do Estado. Elevaram ao status de importante questão institucional a chicana que foi utilizada para colocar o deputado em cana. Amanhã serão as organizações da esquerda que estarão aí, obrigadas a prestar contas de suas opiniões sob ameaça de prisão.

O deputado merdinha e marombadinho continua no xilindró. Dizem que com mordomias, mas está lá. Os registros do seu depoimento em audiência de custódia mostraram que já não é bicho feroz, pareceu mais fera ferida. A valentia acabou. A cidade do Rio de Janeiro conhece bem esse tipo de figura. O falecido sambista “Bezerra da Silva” registrou em gravação inesquecível o samba de “Claudio Inspiração” e “Tonho Magrinho”. Ele cantava assim:

 Você com revólver na mão é um bicho feroz, feroz

Sem ele, anda rebolando e até muda de voz

 

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sábado, 30 de janeiro de 2021

O gado e o leite

                                                                                                             Opinião

Não estou entre aqueles que se empolgam com fatos sensacionalistas desqualificando os adversários políticos. Geralmente são distorcidos e acabam banalizando a crítica. São comuns as "denúncias" de corrupção e, na sequência, um desfile de caricaturas dos fatos, hilárias, mas que não ajudam muito.

No caso do governo Bozo, nenhum crime será mais importante do que a política genocida que ele vem promovendo e que deveria estar no centro das nossas atenções.

Agora, cá para nós, não há preço que pague o espetáculo de ver esse gado assustado, estouro da boiada, tentando explicar as opções que fizeram ao votarem num governo fascista e de índole genocida. Nem mesmo é preciso criar fake news. Os fatos estão aí, explícitos e assumidos. O governo Bozo é a caricatura de si próprio.

O lado trágico é que todos já estamos pagando por isso. O lado triste é que será um pagamento custoso e de longo prazo, e o lado insuportável é que, ao contrário do fascista que prega a extinção dos seus adversários políticos, precisaremos aturar e tratar essa boiada doente – agora acuada pela história do leite condensado - que está a dar chifradas para lá e para cá, sem nem mesmo compreender a merda que fez.

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domingo, 20 de dezembro de 2020

Eleição Câmara dos Deputados

 Opinião

Um grupo de partidos identificados como “esquerda” deliberou compor com Rodrigo Maia (DEM) e aderir à candidatura de quem vier a ser o seu preposto para a presidência da Câmara dos Deputados.

 A justificativa é recorrente: “qualquer coisa menos o Bozo”. O partido PSOL ainda não aderiu e anunciará a sua decisão na segunda-feira próxima, 21/12/2020.

 Trata-se de uma adesão escrota que só permite caracterizar como farinha de mesmo saco essas figuras e grupos ainda identificados como esquerda.

 Esses chamados partidos de esquerda, em vez de estabelecerem um marco de referência política através de uma candidatura própria, optaram por se embolar com a direita, tudo junto e misturado, e assinaram um documento onde  “justificam” sua posição. Destaco alguns trechos da carta:

 “razão principal ... nos  tornamos (a Câmara dos Deputados) a fortaleza da democracia no Brasil; o território da liberdade; exemplo de respeito e empatia com milhões de cidadãos brasileiros.”

 “Este grupo que hoje se apresenta ... nos fortalecemos nas divergências, no respeito, na civilidade e nas regras do jogo democrático.”

 “Esta é a eleição entre ser livre ou subserviente"

 “A Câmara vai escolher se  ...  e será livre para defender e aprofundar a nossa democracia, preservando nosso compromisso com o desenvolvimento do país.

 Pasmem! Os chamados partidos de esquerda, avacalhados no golpe que iniciou em 2016 e que ainda não terminou,  estão se referindo à Câmara dos Deputados.

 “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco.”

 Esse último destaque não é da carta assinada pelos partidos. Foi assim que Orwell concluiu a redação do seu best seller internacional “Animal Farm” (A fazenda dos bichos). Qualquer semelhança NÃO  será coincidência.     ####

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Papai Noel! ... Papai Noel!

Leituras para distrair 

Muitos dos bairros da cidade de São Gonçalo (RJ), na década de 60 do século XX, identificavam-se a partir de suas “praças” que eram núcleos em torno dos quais e em cujas proximidades concentrava-se um comércio que atendia à população local. 

A geografia da cidade podia ser esboçada assinalando-se as tais praças e suas interligações. Algumas próximas entre si, umas mais dinâmicas que outras, cada uma com histórias e tipos caricatos próprios. Na época, sob o aspecto da movimentação comercial, os bairros Zé Garoto, Rodo e Alcântara e suas respectivas praças já se destacavam entre os demais. 

O nome estranho, bairro do “Rodo”, devia-se ao fato de ser o ponto final de uma das linhas de  bondes da cidade que, ao chegarem à praça, “rodavam” percorrendo um círculo formado pelos trilhos e retornavam aos pontos de origens das linhas. No Rodo, uma figura bem popular  era um colega, um pouco mais velho que eu,  cujo apelido era “Arroto”. Ele respondia ao apelido sem qualquer contestação ou constrangimentos. Também seus familiares o tratavam assim: “Fulano Arroto” (seu nome eu omitirei). 

Arroto ganhou o apelido porque conseguia eructar com uma facilidade enorme. De forma impressionante, ele modulava o arroto pronunciando palavras e até frases enquanto arrotava. As pessoas pediam e ele se exibia com seus arrotos altos e prolongados. Inacreditáveis. 

O assunto pode ser um tanto escatológico, até grosseiro, mas o melhor sinônimo que encontrei para o verbo arrotar foi o tal de eructar que usei no parágrafo anterior. Mas, enfim, Arroto era um fenômeno. Fazia jus ao apelido e orgulhava-se disso. 

Certa vez, era proximidade do Natal quando o comercio do Rodo promoveu uma carreata festiva. Tinha bandinha, buzinaço,  balões de ar, etc. Os carros tinham decorações natalinas diversas e patrocinadas pelas lojas que promoviam a carreata. Em um dos carros desfilava um Papai Noel  que acenava e mandava beijos para o povo e para a criançada que respondia das calçadas com palmas. 

As lojas de comercio intercalavam com residências, e o público era também grupos de conhecidos ou vizinhos, além dos passantes. Pessoas que estavam em casa e vinham aos portões para ver a carreata. Nada a ver com canários atuais, lá se vão mais de 50 anos. 

Estávamos em uma das esquinas, em grupo, e a carreata desfilava lentamente enquanto a garotada gritava: Papai Noel! ... Papai Noel! ...  Papai Noel! Uma alegria só.

Quando o carro do Papai Noel passou em frente à nossa galera o velhinho fez o tradicional aceno de saudação, mas complementou com um gesto especial que era bem familiar para todos nós. Papai Noel estufou o peito, tamborilou a barriga com uma das mãos, altura do estômago, e emitiu um sonoro e prolongado arroto que sobressaiu de todas as outras manifestações. 

Dizem que ele falou “Feliz Natal”. Mas, o susto e a gargalhada geral seguida ao susto não permitiu a confirmação. O fato é que o Papai Noel repetiu o aceno carinhoso de saudação e prosseguiu em carreata que dispersaria mais adiante.

 Sim, o sacana do Papai Noel não era outro além do Arroto, fantasiado e desfilando para a loja que patrocinava o carro. Fazia um “bico” para garantir o seu Natal. O desfile entrou para o folclore da esquina, e a história contada e repetida pelos que estavam lá e pelos que só tomaram conhecimento.

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segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Qualquer coisa é qualquer coisa

 Opinião

Quem ler o editorial da Folha de São Paulo de ontem, 13/12/2020, domingo, mas sem saber a origem, poderá achar que está lendo uma irada publicação esquerdista. Veja extratos do editorial fazendo referências aos atributos e qualificações do presidente Bozo:

“estupidez assassina” ...  “irresponsabilidade delinquente” ... “molecagens com a vacina” ...  “cego por ambição política” ... “sabotador de primeira hora das medidas sanitárias” ... “principal responsável por esse conjunto de desgraças” ... “esbulha a confiança dos brasileiros” ... “com ajuda do fantoche apalermado posto no Ministério da Saúde” ... “abarrotou a diretoria da Anvisa com serviçais do obscurantismo” ...” não faltarão meios para obrigar Bolsonaro e seu círculo de patifes” .

Quem diria? Essa é a “opinião”  de um grupo político (o jornal é instrumento) golpista de 64 e que teve participação ativa, se não tiver sido também propositiva, no golpe de 2016. Esse editorial evidencia que o golpe explode em contradições internas e, consequentemente, em disputa de poder. O ataque ao governo miliciano é parte dessa disputa, mas também faz parte do projeto garantir a exclusão de Lula do cenário de disputas eleitorais.

Há tese que para as eleições presidenciais de 2022 busca-se a criação de um Biden tupiniquim suportado por uma frente ampla que reuniria golpistas e aproveitadores, além de equivocados  esquerdistas que nela embarcarem. Estou entre os que acham essa tese consistente e, em minha opinião, o voto de muitos militantes da esquerda em um  representante do DEM para prefeitura do Rio de Janeiro no segundo turno, em 2020, foi manifestação desse equívoco.

O discurso de “qualquer coisa, menos o Bozo” é tão apolítico quanto “qualquer coisa, menos o PT”. Afinal, qualquer coisa é qualquer coisa e esculachar o Bozo está longe de ser exemplo de madurez política. A própria direita o faz, sem dó nem piedade, se isso for conveniente.

 

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

A garota sob a lanterna

 Leituras para distrair

Recebi imagens de uma animação com luzes adornando a Torre Eiffel (Paris). Um show de um evento em 2019 celebrando 130 anos do monumento. O show desenvolve-se  o som de músicas diversas que se relacionam não apenas com a história da torre, de Paris ou da França, mas de todo mundo ocidental.

O vídeo está sendo divulgado com uma mensagem fake. Como se fosse a Torre Eiffel reabrindo com homenagem às vítimas da Covid-19. Sacanagem! 

Sempre que revejo, minha atenção se prende ao trecho que faz referência ao período da guerra contra o nazismo, quando se  ouve a canção “Lili Marlene” (minuto 5:20 do vídeo). Execute-se os primeiros acordes e todos a reconhecerão, mesmo os mais jovens da atual geração. Gosto muito do simbolismo dessa canção. Trata-se de uma canção romântica que foi adotada pelos soldados alemães na segunda guerra, especialmente pelo grupo de tropas que avançou na invasão e ocupação da França. 

"Das Mädchen unter der Laterne" (A garota sob a lanterna), título original da canção, tornou-se famosa como "Lili Marleen" e curioso é que o alto comando político alemão (Goebbels) chegou a proibir a sua divulgação, uma manifestação que fugia ao seu controle, mas voltou atrás e inclusive passou estimular a divulgação pelas rádios. 

Mais curioso ainda – e me encanta - é que Lili Marlene provocou um impacto emocional tão forte que as forças aliadas também se apropriaram da canção, fizeram versão em inglês e endossaram o seu cântico. Lili Marlene viralizou. 

Lili Marlene traz consigo muito mais que essas notas para distrair. Há centenas de versões da canção, há documentários, livros e filmes sobre suas origens e sobre os personagens da canção. Também sobre a sua exploração comercial e interesses, desde a época da guerra. 

Contudo, para mim o fato importante é que Lili Marlene se transformou na representação simbólica de um ideal comum de trabalhadores transformados em soldados e usados como buchas dos canhões nas disputas capitalistas:  o desejo de retornar aos seus lares. Hoje ela é executada em uma festa na capital francesa. Faz bem ao coração comunista.      ###

 

NOTA

Links com interpretações da fabulosa Marlene Dietrich, a letra original em alemão e uma versão em inglês e link da festa em Paris. Os links foram acessados em 07/12/2020. 

https://www.youtube.com/watch?v=YjXC4N1HXf0 

https://www.youtube.com/watch?v=hZAV4hsP5WU 

https://www.youtube.com/watch?v=_JiWv6xj5GM&feature=emb_logo