terça-feira, 3 de novembro de 2020

Dia de visitas e muito trabalho

 Leituras para distrair


Durante parte da minha infância os dias de Finados tiveram um significado especial – nada religioso. Morávamos em rua vizinha ao cemitério e o terreno da casa era limitado lateralmente por vizinhos vivos e os fundos por outros que já não respondiam por si. O muro de fundos do nosso quintal era comum com o cemitério. 

O muro não passava de 2,30 metros, se muito. Uma pequena escada que construímos ficava permanentemente encostada no mesmo para acesso rápido ao topo. Rente ao muro, ainda do nosso lado, havia um mamoeiro, uma goiabeira de pequeno porte e uma groselheira, essa de porte razoável. A goiabeira era nosso acesso preferencial dispensando a escada. Do outro lado, colados ao muro, existiam túmulos acima do solo e a descida ou subida prescindia de escada. No máximo um apoio nas cruzes e capelinhas das sepulturas para impulsionar a subida. 

As casas vizinhas tinham características similares, mas não tinham crianças,  e a nossa era uma casa de molecada, embora casa e terreno fossem diminutos. Casa alugada para operários como o meu pai. Contudo, o cemitério funcionava como extensão do nosso quintal. Curiosamente, hoje o Aterro do Flamengo é o meu quintal, extensão frontal da minha moradia. Quando criança, o cemitério de São Gonçalo teve esse papel. 

Uma cafifa torada (uma  pipa solta porque foi  cortada por cruzamento de linhas) ou um balão caindo sempre tinham o enorme campo do cemitério como destino provável. Era cena comum um bando de moleques, minha tribo, adentrarem correndo pelo nosso quintal,  pulando o muro, sem pedir licença e sem encontrar  objeções, atrás de uma cafifa ou balão. Além dos sustos, a preocupação da minha mãe era ninguém se machucar na correria. Fazia parte das nossas vidas. 

Nas noites de meio de ano ficávamos empoleirados no muro, que era nosso e do cemitério, um posto estratégico, em vigília para identificar algum vulto de balão apagado que apontasse cair  entre as tumbas. Uma cumplicidade silenciosa porque sabíamos que outros grupos também espreitavam em outros locais. 

Pode parecer uma situação assustadora e mórbida, mas praticamente ninguém pensava em “assombração”, salvo para sacanear algum eventual moleque novato. Todos sabíamos que havia uma pedinte de esmolas que passava o dia na calçada principal do cemitério e que, à noite, abrigava-se entre as tumbas. Ela fazia parte da comunidade e seu apelido era Arraia Mijona. Embora todos soubéssemos que ela morava no cemitério, tínhamos um enorme cagaço de encontrá-la durante a noite, por mais que estivéssemos prevenidos. Esse era um medo comum. 

Os dias de Finados eram especiais porque era dia de ganhar dinheiro. Acordávamos cedo. Dia de trabalhar oferecendo serviços gerais aos visitantes. Limpeza de sepulturas. Algumas mais ricas, com acabamento em mármore ou azulejos,  precisavam de uma faxina geral – gorjeta boa. Outras, mais modestas, eram elevadas, mas precisavam de uma carpina das tiriricas que cresciam sobre a terra. Não eram comuns as atuais coberturas com placas de cimento.  Sem outros acabamentos além das capelinhas nas cabeceiras que pediam uma pintura de cal (caiação). 

As sepulturas  mais pobres e distantes e feitas diretamente no solo pediam a formação de um montículo de terra reconstruindo o suposto limite do enterramento. Em muitas o serviço era simplesmente fornecer água para encher as jarras de flores que eram renovadas ou uma limpeza na placa de identificação. Passávamos o dia caminhando equipados de vassourinha, pá de pedreiro, lata de água, regadores e outros apetrechos  oferecendo nossos serviços e recebendo as gratificações correspondentes. 

Hoje seríamos empreendedores. Alguns já contavam com networking de anos anteriores, outros iniciantes. Abordávamos os clientes com um elevator pitch e num sepulcro grande com target além das possibilidades individuais, então trabalhávamos em coworking. 

A nossa casa e quintal era um posto de suporte privilegiado para as nossas atividades. Um diferencial que  também  era aproveitado por colegas mais próximos. Meu irmão não tinha ainda idade para se lançar na busca de clientes e trabalhava no muro vendendo refrescos ou repondo baldes de água para a galera que trabalhava “na pista”. Porém, sorte dele,  havia uma sepultura bem próxima ao nosso muro – sepultura de luxo, construída em mármore - cujo responsável se tornou um cliente cativo do meu irmão e que garantia o faturamento dele, adicional à venda dos refrescos, inclusive em datas diferentes do dia de Finados.

O dia era intenso de atividades e nem mesmo queríamos parar para as refeições. As oportunidades precisavam ser aproveitadas. À noite era a hora de conferir o faturamento e de contar histórias, os casos, a concorrência, as chances aproveitadas e as perdidas. Isso e aquilo. Era um monte de sensações, recordações  que  me acompanharam pela vida. Volta e meia alguma me surpreende. Um susto, tipo uma aparição da Arraia Mijona – mas um susto amigo que sempre remete para uma lembrança boa e feliz. Sorte minha!   #####

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Mata ou engorda, mas é bom! Um dilema

Opinião


Nesse mês de setembro de 2020 estreou na Netflix um documentário intitulado “O dilema das redes” que trata dos impactos (negativos) do estado atual de uso das redes sociais de comunicação e informação e da exploração comercial por suas administrações.  O documentário tem sido bastante divulgado com as observações de quem o assistiu, e essas notas são os registros das minhas observações. Trata-se de assunto que tenho interesse especial e até já tratei aqui, no blog.

 O documentário é muito legal. Conteúdo e forma. O assunto é apresentado com uma qualidade de produção que seduz o espectador e o faz mergulhar num mundo de especulação e de imaginação.

 O próprio documentário resgata um aforismo do Arthur C. Clarke (autor de 2001 – Uma odisseia no espaço): “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia".

 Esse aspecto, além de incitar nossa especulação e imaginação, também nos posiciona como objetos de um mundo fantástico que parece estar fora da compreensão do nosso senso comum e da nossa capacidade de intervenção.

 Deixa-nos com a sensação que a única alternativa para fugir de seus prejuízos seria não usufruir das funcionalidades oferecidas.  Esse seria o dilema. Os comentários dos  que assistem ao vídeo revelam bastante essa avaliação: Impressionante! Assustador! Estonteante etc.

 De fato, são situações desafiadoras. Mas, nem por isso devemos alocá-las em planos metafísicos, olímpicos, inalcançáveis para nós e sujeitos apenas à intervenção de deuses sem compromissos com os mortais. Daí, para quem assistiu e se impressionou com o documentário da Netflix, eu sugiro avançar um pouco e assistir à  apresentação do professor Marcos Dantas que teve o título “Economia política da internet”. Link abaixo.

 Aviso, desde já: a apresentação está longe de ter a qualidade de produção do documentário. Contudo, o conteúdo compensa e talvez até  supere o do documentário. Marcos Dantas identifica as redes sociais, que ele chama de sócio-digitais, à luz da Teoria do Valor  segundo as categorias marxistas.

 Ele faz uma breve introdução sobre o modelo marxista de transformação e de circulação de capital em suas formas dinheiro e mercadoria para, em seguida, abordar a questão das redes digitais e das apropriações do trabalho humano associadas ao mundo que vivemos.

A apresentação é uma aula. Um grande mérito do Dantas é trazer as questões para mais próximo de nós e, melhor do que isso, desvelar a sua essência. Ele desfaz a mágica mostrando o que tem no fundo da cartola, atrás das cortinas, dentro do baú: o modo de produção capitalista, suas categorias, a prática de uma relação social determinada pela troca de mercadorias e a apropriação de trabalho alheio, pelo capital,  na forma identificada como mais valor.

 Antes de uma fantasia, o que existe são os aspectos conflitantes da dimensão socioeconômica, numa proporção que desequilibra as identidades naturais da dimensão sociocultural. E as alternativas de solução estarão sem qualquer duvida na dimensão sociopolítica. Contudo, ressalte-se, são soluções ao nosso alcance, ao alcance de nossas escolhas. Não decorrem de um mundo fantasioso, virtual ou coisa que o valha.

Recorrendo às imagens do Dantas: se a internet é uma cidade, um mundo, então ela precisa ter regras como qualquer cidade no mundo. E se as tecnologias estão determinando serviços que se tornaram essenciais, que não podem sequer ser interrompidos sob pena de um caos social, então esses serviços devem ser considerados essenciais e sujeitos a regulamentações.

 A eletricidade, lembra ele, também não era essencial nos seus primórdios, porém hoje é um serviço de natureza pública controlado e regulamentado pela sociedade com formas distintas de exploração.

Por último, para quem não conhece, os atributos curriculares do Marcos Dantas fazem parte da apresentação. Ressalte-se, também, que no documentário da Netflix há dois ou três depoimentos da professora Shoshana Zuboff  (Harvard Business School), pesquisadora que popularizou o termo “Capitalismo de Vigilância“, título de um excelente documentário do youtube, quase integralmente com ela.

 No mais, seria conversar sobre o gênio Karl Marx, mas a conversa seria outra.    ###

 

NOTA

SÁBADO DE FORMAÇÃO ( Economia política da internet, com Marcos Dantas) – Acesso em 21/09/2020 em <https://www.youtube.com/watch?v=3Jn2GDi6lKg&t=3013s>


terça-feira, 8 de setembro de 2020

Fogueira do século XXI


Leituras para distrair


Somos assim. Uma sociedade cujos troncos fundamentais de criação e desenvolvimento foram: uma diversidade de povos nativos invadidos em seus espaços de vida, hábitos e costumes; um contingente europeu oriundo do projeto colonizador do império português, e uma enorme população trazida escravizada do continente africano seguindo a lógica mercantil da colonização.

O grupo europeu, tipicamente branco em suas características étnicas, impôs-se pela força como poder socioeconômico e sociopolítico. Mas, o mesmo não aconteceu  na dimensão sociocultural. Os nativos, que passaram a ser chamados de indígenas, assim como os escravizados, que passaram a ser genericamente referidos como negros, eram grupamentos sociais que traziam consigo histórias e culturas distintas, riquíssimas em seus conteúdos, além de seculares, com enraizamentos profundos e suficientes para não desaparecerem.

Esses grupos aglutinaram-se formando uma sociedade miscigenada que veio a ser predominante, mas completamente impregnada  e marcada pelas raízes culturais dos negros e indígenas, apesar das agressões que esses dois grupos sofreram em seus processos históricos. Entre essas marcas congênitas e determinantes das sociedades negra e indígena herdamos: a oralidade. É um fato. Carregamos a oralidade como um traço fortíssimo, resultado e descendência direta das sociedades que nos deram origem, sociedades sem representação escrita de seus conhecimentos e culturas. Sociedades ágrafas.

Seguindo a sua lógica, o poder colonial fez valer no plano institucional os seus valores culturais, positivos em inúmeros aspectos, diga-se de passagem, mas também impôs, na medida em que conseguiu, a negação dos nossos valores culturais de origens indígenas e africanas. Uma perda para nós.

Ocorre que a cultura se impõe como prática social. Ela não é determinada por leis e decretos. Daí que, felizmente, mesmo de forma inconsciente, fizemos da oralidade um dos aspectos característicos de nossa identificação cultural. Os registros literários nunca foram a forma original de guardar nossas histórias, nossas relações interpessoais ou relações com o mundo. Nem as nossas impressões, fantasias  e experiências com esse mesmo mundo. Obviamente incorporamos os registros literários como prática, aliás importantíssima, mas tal prática veio bem tarde em nossa formação.

A nossa praia sempre foi outra. Praticamos a transmissão de conhecimentos pela fala, pelo contar de histórias, pelas narrativas dos causos. Pela repetição dos aforismos populares, pelo gosto das conversas nas esquinas, tanto entre os moleques nas ruas como entre as gerações que se tornam maduras. As histórias e ensinamentos propagados pelas conversas nos espaços comunitários ou familiares. Pelos papos, pelo anedotário. Pelas conversas nas esquinas e nessa instituição nacional: os botecos. Ignorar ou desvalorizar isso é não perceber o Brasil em sua inteireza.

É com essa percepção e sentimento que tenho acompanhado com imenso prazer e interesse, entre as incontáveis “laives” que impregnaram as redes sociais informáticas nesses tempos de pandemia, a “Tendinha do Coletivo Sindicato do Samba”.

A iniciativa vem sendo desenvolvida com a participação permanente dos artistas: Paulão 7 Cordas, Marquinho China e Marquinhos Diniz, além do jornalista e produtor cultural Camilo Árabe que opera como um mediador e coordenador da Tendinha. Até onde identifiquei, teria estreado em 29/05/2020.

A apresentação se desenrola sem muitos recursos de produção, mas suficiente. O ambiente é de uma conversa na cozinha, na área dos fundos, no quintal ou num balcão de uma Tendinha. O tema, claro,  é o Samba.

Os seus protagonistas dispensam apresentações. Abordam suas experiências que não são poucas conversando entre si e resgatando músicas, comentando e trocando histórias sobre o samba e seus personagens. São parceiros trocando histórias e aventuras curiosas e interessantes para quem gosta de samba ou quiser saber sobre ele. Nem sei se pararam para pensar na importância do trabalho que estão realizando.

Geralmente recebem convidados - ícones do samba – monumentos vivos dessa manifestação popular tão importante, marca indelével do nosso país e, particularmente, do Rio de Janeiro. Cantam e contam sobre suas obras e suas histórias. Em grande parte figuras simples e modestas, muitos ainda gatinhando no aprendizado de usos desses recursos de internet que se tornaram imperativos nos dias atuais. Mas, antes de tudo e principalmente: gigantes virtuoses em sua arte.

Tomara que o programa continue – se não continuar, já deu sua contribuição que não pode ser ignorada. Eu e alguns amigos – à distancia – fazemos um coro de assistência e audição. Em torno de um terminal de vídeo. Fogueira do século XXI. Cantarolamos e rimos em nossas casas. Trocamos comentários. Molhamos nossos cantarolares e sorrisos com umas cervejas e, certamente, com uma deliciosa cachaça. A Tendinha segue. Eu paro por aqui, lembrando Martinho da Vila:

“Os meninos à volta da fogueira. Vão aprender coisas de sonho e de verdade. Vão perceber como se ganha uma bandeira. E vão saber o que custou a liberdade. Palavras são palavras não são trovas. Palavras deste tempo sempre novo. Lá os meninos aprenderam coisas novas. E até já dizem que as estrelas são do povo” (À  volta da fogueira - Martinho da Vila, Rui Mingas e Manoel Rui)

Acho muito difícil que alguém que se embale nesse tipo de sonho faça opção pelo fascismo como forma de sociedade ou de liderança política.


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quarta-feira, 2 de setembro de 2020

E agora, meu chapa?


Opinião


Seu Bozo acabou. O fascismo em que você votou tá aí, mais cagado do que pau de galinheiro. Milícia, queima de arquivos, rachadinhas, empregado dando grana  pra patroa sem ninguém saber a razão, loja de chocolate suspeita de lavagem de grana, fake news,  contas falsas nas redes sociais, atitude genocida frente à pandemia, destruição das leis trabalhistas, fim das aposentadorias, destruição ambiental, ameaças de golpe, o sistema de saúde acéfalo, o ex-piloto do sistema educacional fugiu para o exterior, tentativa de compra de popularidade com abono social, troca de nomes de programas sociais de governos anteriores, cooptação da moçada verde-oliva com cabides de emprego em massa, tentativa de formação de uma milícia nacional com as polícias estaduais e seleção por espionagens criminosas dos policiais que se manifestam como antifascistas. *Obrigado, Centrão!*  Deve gritar todos os dias ao acordar, afinal está se segurando nesse pau melado de lixo e de corrupção. O país apresentado ao mundo como uma caricatura grotesca e medíocre, uma subcolônia do imperialismo americano.

O juiz de primeiro piso – em cuja defesa você saiu em passeatas e manifestações – vem  sendo desmascarado como corruptor da justiça que deveria servir e na qual se apoiou para seus golpes e chantagens eleitorais. Suas sentenças viciadas estão sendo anuladas, uma atrás da outra. Foi descartado  pelo patrão como inservível.  A vassalagem de virar mundos e fundos para retirar Lula da disputa presidencial e a montagem do circo para divulgar a falsa delação do Palocci  em vésperas da eleição não foi suficiente para lhe garantir os cargos prometidos. Desmoralizado está aí, sem escada e com a brocha na mão. Nem mesmo a Vênus Platinada, o instrumento principal e mais eficaz do golpe que derrubou uma presidenta eleita e que se desdobrou nessa podridão de governo,  quer saber de nada com ele.

E o moço do Power Point? Está fugindo com o rabo entre as pernas, com as calças borradas devido ao medo de ser penalizado. Inventou mentiras, tramoias, articulou ações com agências federais do governo americano. Em cumplicidade com o juiz de primeiro piso fez de tudo para fuder a Petrobrás. Comprometer o patrimônio público transformando a empresa de vítima em ré obrigada a pagamentos de multas em ações ajuizadas no exterior. Um acordo lesa-pátria com as autoridades americanas para a repartição do dinheiro das multas provenientes do golpe: R$ 3 bilhões  para os acionistas americanos e R$ 2,5 bilhões para criar um fundo a ser gerido pelos “patriotas” da Vaza-Jato – golpe frustrado - além de outras centenas de milhões de reais para isso e aquilo. A república de Curitiba que fez ironia com a morte da mulher e do neto de Lula agora usa um suposto problema familiar para tentar proteger seu xerife de meia-tigela.

*José (Carlos Drumond de Andrade)*
 ...
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Novas eleições estão aí – vereador e prefeito não mudarão a situação crítica do nosso país. Nem a pracinha bonita da cidade, nem mesmo o prometido posto de saúde, o hospital ou a escola mudarão porra nenhuma, se você continuar bancando o babaca, ignorando o seu papel e servindo de bucha pra essa gente.

Acorda meu chapa! Se o seu candidato a vereador ou prefeito não estiver gritando forte e antes de tudo: *Fora Bozo! Fora Bozo!* Você estará novamente entrando em uma furada!
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terça-feira, 18 de agosto de 2020

Tão terrível quanto

Opinião

Acesso em 18/08/2020



Um covarde estuprou e engravidou uma menina de 10 anos. Um hospital universitário (Cassiano Antonio Morais – Vitórias, ES) recusou-se a realizar o aborto com uma desculpa burocrática, apesar da determinação legal. Uma fascista divulgou informações sobre a menina excitando mobilizações contra a realização do aborto. O presidente da CNBB, D. Walmor de Oliveira, diante de todas essas circunstâncias, diz que o aborto da menina é um crime "crime hediondo" e que a "violência do aborto não se explica” – Você saberia distinguir o que é mais hediondo?

A CNBB não ficou por aí. Abaixo um  trecho do artigo de um bispo de Rio Grande (RS):

 “A violência do estupro e do abuso sexual é infame e horrenda, mas a violência do aborto provocado em um ser inocente e sem defesa é tão terrível quanto. Ambos são crimes” [1]

[1]
Extrato de nota da CNBB com o título: POR QUE NÃO VIVER? – Assinada por Dom Ricardo Hoepers - Presidente da Comissão Vida e Família CNBB – Rio Grande (RS) - Copiado de <https://www.agazeta.com.br/es/cotidiano/bispo-de-sao-mateus-e-cnbb-se-posicionam-contra-aborto-feito-em-menina-0820> Acesso em em 18/08/2020.




domingo, 16 de agosto de 2020

Quarenta e sete por cento


Opinião


Qualquer que seja o rumo da guerra, uma coisa é certa: o ex-capitão Bozo ganhou a importante batalha sobre o juízo da sua ação no combate à pandemia. Caminhamos para 110 mil mortos nos próximos dias e com expectativas trágicas para os meses seguintes,  mas essa quantidade enorme de mortos parece não afetar nossa sociedade.

A tragédia só impressiona a visão que inclui o óbito de alguém próximo ou querido. No mais, nossa sociedade reage como se estivesse cagando e andando para o que significa essa multidão de cadáveres. A morte por coronavírus no Brasil está completamente banalizada e a propagação do vírus continua sem qualquer ação consistente de controle e sem sinal de reversão. A fábrica de mortos mantém  sua produtividade de 1000 (mil) mortos por dia.

As mortes já não espantam. Não surpreendem. Não chocam. Nem são notícias que mereçam destaques, salvo quando associadas a algum outro fato que “adicione valor”  ao evento. Um nome conhecido, uma situação inusitada, um fato pitoresco ou de morbidez acentuada. De resto é complacência total. Ou seria cumplicidade?

O ex-capitão Bozo conseguiu. É importante admitir. Emplacou seu discurso e comportamento. Seu rebanho arrastou consigo a sociedade, mesmo que muitos possivelmente não quisessem acompanhar a boiada, mas se deslocam no mesmo sentido, talvez  para evitar o atropelamento. Assim, validam o discurso do Bozo.  Vejamos as pesquisas. Que pessoas são essas que isentam completamente os responsáveis por essa prática genocida adotada em relação à pandemia no Brasil?

Mergulho em Hannah Arendt. Afinal, essas pessoas que apoiam e isentam o Bozo não são especialmente malignas, malévolas. São pessoas comuns, normais. Assustadoramente normais, como disse Arendt referindo-se ao perfil dos carrascos nazistas. Uma normalidade mais apavorante do que suas próprias atrocidades,  dizia ela, porque aponta  um tipo humano criminoso que comete seus crimes sem, nem mesmo, saber ou sentir que está agindo errado. A filósofa alemã pagou preço alto por essas suas observações.

São pessoas que abrem  mão da sua capacidade de pensar e distinguir o bem do mal. Abrem mão da sua humanidade. E o mal,  disse  Arendt, é como um fungo que se alastra e provoca uma espécie de colapso moral na sociedade. Afeta inclusive as vítimas. Impede a capacidade de pensar.

Aqui, no Brasil, vamos para as ruas, abrimos as escolas, enchemos os ambientes públicos, mas  não nos sentimos responsáveis. Cumprimos ordens. Hannah Arendt chamou isso de *a banalidade do mal*.

Minhas observações podem ser repetições toscas de outras verdadeiramente  importantes e mais consistentes que já trouxeram a memória de Hannah Arendt para a análise dos tempos atuais. Mas, é o jeito que consigo fazer. Precisamos desse  exercício porque também nós estamos no limiar dessa banalidade.

Enfrentamos a falta total de expectativas de um encaminhamento sadio. Não é possível deixar que a pandemia siga esse caminho, devorando vidas indefesas até que aconteça um imaginado e esperançoso equilíbrio por saturação de oportunidades de contaminação.

Parcela significativa da sociedade ainda não está infectada pelo coronavírus, mas está doente. Está infectada pelo fungo de um mal que embota a sua capacidade de pensar e reagir. Vê com uma naturalidade apática o extermínio de membros de populações em comunidades carentes, entre elas as comunidades indígenas. Absurdo!

Essa parcela de sociedade banaliza a quantidade de mortes e contaminações. Adota sem rebeldia as decisões de governantes genocidas. Decisões sem qualquer sustentação que não seja atender o interesse de grupos de poderes políticos e econômicos.

Estamos apenas cumprindo ordens, não somos responsáveis? Foi assim que a sociedade alemã, contaminada pelo fungo do mal, banalizou as patrulhas oficiais e milícias que aprisionavam  cidadãos judeus e os encaminhava para o holocausto. Tudo dentro da lei e da normalidade.

Não nos iludamos. Estamos em meio a uma pandemia e um golpe político. Um golpe de estado que ainda não acabou. A pretensão e crendice eleitoral que abre mão de qualquer prática dos valores esquerdistas e que  evita tratar qualquer  tema  que ponha em risco o sonho de uma solução via vitória eleitoral é um suicídio.  #####

NOTA
Citado no texto:
Arendt, Hannah - Eichmann em Jerusalém, um relato sobre a banalidade do mal – Ed. Cia. das Letras, São Paulo, 1999
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sábado, 8 de agosto de 2020

Quarup

Opinião




quarta-feira, 29 de julho de 2020

O sol voltará a brilhar?


 Opinião


Quem conseguir acessar os links, busque saber sobre a situação da pandemia e da crise econômica na Índia que é dramática e apavorante,  muito similar à situação brasileira. Lá, um Bozo maluco determinou o lockdown e, depois, a abertura sem qualquer compromisso com a situação real e seus possíveis desdobramentos, tanto em uma decisão como em outra.

Embora por caminho distinto, mas direcionado por incompetência similar, no Brasil estamos no limiar de entrar no mesmo pântano de uma crise com miséria e fome, perseguidos por um merda de um predador orgânico que ataca e mata os mais fracos e incapazes.

Além do mais, há os predadores econômicos que fazem qualquer coisa para não interromper os seus ganhos. O  sindicato patronal das escolas privadas de Santa Catarina (SINEPE – SC) publicou um vídeo que me fez pesquisar se a origem era mesmo verdadeira. Achei que era fake, tal o absurdo do seu conteúdo e a raiva que despertou em mim.

O vídeo do SINEP tenta disfarçar a origem da publicação associando-a aos termos "escola" e "professores". Mas, não passa de uma propaganda patronal fazendo pressão para a retirada das restrições ao seu funcionamento. e ganhos. Felizmente tem recebido as merecidas porradas contestatórias das diversas representações dos professores e profissionais da área.

O fato é que quando a doença começou matando os ricos, era hora de se trancar. Agora, que a morte grassa entre os pobres:

"o sol pode voltar a brilhar" – “aprendemos a conviver com o vírus” - “sabemos lidar, tratar e nos proteger”.

Esse é o discurso desses assassinos no vídeo que divulgaram.

A canalha jagunça representante desses assassinos chegou ao poder eleita  num processo de esquizofrenia sociopolítica difícil de reverter. Afinal, essa é a democracia liberal. Aspas não resolverão o problema. A solução - vamos encontrá-la nas mobilizações e nas ruas.

Quem nunca conseguiu imaginar o significado real de barbárie tem agora um exemplo concreto. Estamos todos no limiar, embora ela já seja a realidade para alguns. Não é possível qualquer consideração com esses genocidas.

FORA CORONAVÍRUS – FORA BOZO – FORA MOURÃO!

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A dramática via da Índia na pandemia - Crise poderá afetar o desenvolvimento do país por anos - Por Amy Kazmin — Financial Times, de Nova Délhi. Conteúdo que pode ser compartilhado utilizando o link https://valor.globo.com/impresso/noticia/2020/07/29/a-dramatica-via-da-india-na-pandemia.ghtml- Acessado em 29/07/2020


Com todos os cuidados... Vamos voltar! – Publicação do SINEP – Acessado em 29/07/2020 no link <https://www.youtube.com/watch?time_continue=14&v=Hn5-aykhEYY&feature=emb_logo>

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Você é você?


Leituras para distrair


Atenção! Se você se interessar por ler esse texto, antes de iniciar faça uma careta para demonstrar que você é você e que não é uma máquina.

Durante a 2ª. Guerra Mundial, as forças aliadas conseguiram quebrar o código de mensagens criptografadas dos seus inimigos alemães. O maior êxito foi obtido por um grupo de especialistas trabalhando para o serviço de inteligência  inglês, coordenados pelo jovem cientista Alan Turing, um monstro da matemática e da lógica cuja memória ficou como sendo um dos pais da ciência de computação. O grupo inglês criou uma máquina que decifrava as mensagens em tempo hábil para a adoção de contra medidas aos ataques alemães, e há registros que os trabalhos de Turing contribuíram efetivamente para encurtar o período de guerra.

O comando britânico não querendo que o inimigo soubesse que suas mensagens estavam sendo decifradas, mesmo detendo a informação sobre todos os ataques e alvos, escolhia quais alvos seriam protegidos  e quais seriam deixados  a mercê dos ataques alemães. Na prática, decidia quem morreria e quem viveria. Por conta dessas controversas decisões, em nome do objetivo estratégico de ganhar a guerra, a participação (ou uso) de Turing e seu grupo na guerra foi mantida em segredo, só vindo a público muito tempo depois.

Após a guerra Turing seguiu trabalhando em suas especialidades, porém, por mais absurdo que se imagine, ele foi perseguido por seu próprio governo e apontado como criminoso por ser homossexual. Ele foi preso  e condenado, e a sua prisão só foi comutada em troca da concordância de ser punido com castração química para continuar trabalhando. Assim, o jovem e brilhante cientista que foi peça importantíssima na vitória contra o nazismo foi obrigado a tomar injeções hormonais. A castração química levou-o à deterioração física e mental, até o suicídio com ingestão de cianeto, em 1954.

Turing morreu com apenas 41 anos, assassinado por uma ordem social  escrota, onde o sexo homossexual foi considerado crime até 1967. Um pedido de desculpas do governo britânico só ocorreu em 2009, após uma campanha via internet, e o perdão real concedido pela rainha Elizabeth II só veio em  2013.

 Entre os tantos trabalhos de Turing, um clássico ficou conhecido como “Teste de Turing” ou “Jogo da Imitação”, título do primeiro parágrafo do seu trabalho. Nele Turing aborda a questão: “Máquinas podem pensar?”. E discorre sobre um conjunto de conceitos e abordagens para que alguém, tratando com um interlocutor, busque identificar se está tratando com um ser humano ou com uma máquina. A gênese da Inteligência Artificial.

Hoje em dia, ao fazer transações na internet, por procedimentos de segurança temos que repetir letrinhas confusas e quase invisíveis, devemos apontar se estamos vendo árvores ou outros objetos em certas imagens ou, simplesmente, levados a fazer um tique num quadradinho declarando que não somos um robô. O que ocorre, de fato, é que alguém ou algo está nos submetendo a um tipo de teste de Turing.

A maioria de nós nem sabe que, às vezes, ao responder a esses testes, podemos estar sendo usados como parte de uma enorme máquina virtual, e que quando identificamos umas letrinhas, sem saber, podemos estar trabalhando para a tradução de uma publicação antiga e que alguém está ganhando dinheiro com esse nosso trabalho involuntário. Assinalamos um pequeno tique num quadradinho sem saber que com tal gesto disparamos  processos que, à nossa revelia,  resgatam o histórico de todos os movimentos que fizemos através do teclado e com o mouse. Movimentos que geram conjuntos enormes de informações sobre nós a título de nos identificarem como um ser humano – ou não. 

Quem quiser saber mais sobre como essas coisas acontecem, eu sugiro assistir ao vídeo do link mais abaixo:  “Não sou um robô! A verdade sobre o reCAPTCHA”. Garanto que vale assistir.


Mas, também convido a participar do time de admiradores de Alan Turing e a juntar forças na luta contra essa maré reacionária que vem tomando conta da sociedade brasileira e de outras pelo mundo. Alguns acham que se trata de uma fantasia ou bobagem. Faço lembrar que o perdão real concedido a Turing, condenado e punido como devasso numa sociedade hipócrita, só aconteceu com campanha popular, ainda assim, quase 60 anos após sua morte.  #####


NOTA

“Não sou um robô! A verdade sobre o reCAPTCHA” – Link para o canal Integrando Conhecimento – Acessado em 21/07/2020 em:



Recorte do artigo original de Turing, disponível em - https://phil415.pbworks.com/f/TuringComputing.pdf - acessado em 22/07/2020

The Imitaion Game - título do primeiro parágrafo do artigo de Alan Turing, também foi o título de uma dramatização de sua biografia para o cinema, em 2014, sob a direção de Morten Tyldum.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

O Lado Sombrio da Força


Leituras para distrair


Eu fiz essas anotações ainda em 2018 quando li uma notícia e assisti um vídeo com depoimento de uma mãe negra sobre discriminação praticada por crianças em relação à sua filha. Eu ia publicar as anotações, mas desisti porque achei de muito baixo astral, e também porque poderia parecer estar surfando em ondas de um mar que eu mal conheço. Guardei as anotações.

Nos últimos meses, no embalo da divulgação dos conflitos nos EUA, a questão do racismo no Brasil ganhou algum foco, ainda que tenham sido apenas relances, permitindo a exposição e confronto entre mitos e realidades do racismo por nossas bandas. Hoje não me sinto mais capaz do que quando embotei meus comentários, mas até por isso, por não saber muito como contribuir, mudei a opinião e resgatei as observações para não deixar o assunto esquecido, uma tentativa de mínima colaboração no enfrentamento dessa doença social que é o racismo.

O vídeo (link ao final) bateu forte e me alertou, então achei que poderia ser um alerta para todos nós. Um alerta para evitarmos cair na armadilha de detalhes que passam despercebidos e que nos levam (não me excluo) a repetir e realimentar preconceitos e discriminações.

Em casa, em família, ensinamos e praticamos valores que são referências para os nossos pequerruchos, porém a prática da relação social se dá no ambiente externo, no mundo onde eles estão inseridos e posicionados por nós buscando o melhor para eles.

Além do mais, o nosso mundo atual não é mais aquele de gerações anteriores, onde a convivência se dava em espaços públicos de bairros populares, entre famílias de baixo poder socioeconômico e sem distinções expressivas em seus ganhos. Vivendo os mesmos tipos de necessidades e, muitas vezes, se apoiando em laços de solidariedade que não deixavam muitas oportunidades para discriminações, embora essas existissem.

O mundo da nossa meninada é naturalmente outro. Com trabalho e esforço tem sido possível oferecer a eles recursos e oportunidades que muitos não tivemos.  Viabilizamos para eles o ingresso e a participação em um mundo que é de acesso restrito e que possivelmente esteve fechado para muitos entre nós. Mas, esse espaço que abrimos, essas possibilidades, na maior parte das vezes são privilégios de um mundo branco, elitista, preconceituoso, discriminatório e também sedutor. E nesse mundo os nossos pequeninos ficam imersos, expostos e quase indefesos, ainda que armados pelos valores que conseguimos transmitir.

Redobra, então, a nossa responsabilidade e necessidade de atenção. Armamos nossas crianças com nossos valores morais e éticos. Somos escudeiros, mas quem enfrentará as disputas serão eles. Nosso papel é rever e verificar a cada dia e a cada momento se o armamento está suficiente, se está no lugar. Se tem sido usado e se estão sabendo fazer uso dele.

Não dá para ir para as batalhas no lugar deles. Daí, precisamos repetir as instruções. Encher o saco. Cuidar e observar se esses nossos cavaleiros jedaizinhos estão preparados para enfrentar e rechaçar as tentações, sem que sejam levados para o Lado Sombrio da Força.

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Vídeo do canal Youtube de Ana Paula Xongani – acessado em 09/072020 em <https://www.youtube.com/watch?time_continue=42&v=5fBhjPzXNi4&feature=emb_logo>