segunda-feira, 27 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (39)


Opinião


Dia desses li uma matéria bem interessante sobre a experiência de um artista alemão que colocou um monte de celulares ativados em um carrinho de mão e saiu puxando o carrinho pelas ruas de uma cidade. Com isso ele enganou o aplicativo do Google (Google Maps) que interpretou a concentração de celulares como um congestionamento de trânsito. Na medida em que o sujeito puxava o carrinho, o Google indicava uma faixa vermelha de via congestionada e, consequentemente, a rua ficou completamente vazia e sem trânsito porque as pessoas passaram a buscar alternativas para o congestionamento. No final desse texto tem link para a matéria e vídeo com a experiência do artista.

Sem aprofundar as análises, a matéria sobre o cara que enganou o Google Maps aponta alguns aspectos importantes desse mundo novo e virtual. O texto chama atenção para o que ele atribui como novas formas de mercantilização na produção capitalista que,  além de determinarem comportamento e opiniões, viabilizam o exercício do poder e o controle do conhecimento.

Outra novidade, interessantíssima, foi apresentada pela Microsoft e que até viralizou na web: um software que produz um holograma (imagem em 3 dimensões) de um apresentador que pode se apresentar discursando em qualquer idioma, mas com a dicção e a entonação do apresentador original. Algo impressionante, sem dúvidas, mas cabe a pergunta: quem além das grandes corporações privadas lucrará com isso?

Trata-se de um assunto sobre o qual vale refletir, mas geralmente o próprio fascínio pelas novas funcionalidades tecnológicas desvia a nossa atenção de pensar sobre elas. Deixamos de considerar como essas inovações se prestam mais para a criação de novos mecanismos de exploração do que para uma melhoria efetiva no bem estar dos seres humanos. 

Esse tema deveria ser bem explorado, especialmente no momento quando a humanidade – ou parte significativa dela – está acuada em suas casas por conta do coronavírus. O quanto e como essas inovações contribuíram positivamente para a humanidade até o aparecimento do coronavírus? E agora, durante a pandemia e depois, no período pós pandemia?

Não se trata de demonizar ou navegar contra a corrente, o que seria impossível, mas de fazer balanços. Geralmente nas conversas não faltam exemplos de potenciais usos das modernas tecnologias para a satisfação e gozo da humanidade, mas na prática não se vê muito mais do que o aprimoramento de meios visando extração do mais valor na produção capitalista. 

O conhecimento científico, como qualquer outro, é um produto social, assim como as inovações tecnológicas construídas a partir dele. Nada mais justo  do que questionar quem está se apropriando e aproveitando efetivamente dos benefícios desse conhecimento.

NOTAS

[1]
Google Maps Hacks by Simon Weckert – Acessado em 27/04/2020 em < http://www.simonweckert.com/googlemapshacks.html>

[2]
Demo: The magic of AI neural TTS and holograms at Microsoft Inspire 2019 – Acessado em 27/04/2020 em <https://www.youtube.com/watch?v=auJJrHgG9Mc>


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domingo, 26 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (38)



Opinião


Os números oficiais do Ministério da Saúde informam que estamos no limiar dos 60 mil casos de infectados com o coronavírus e já com mais de 4 mil mortes. O próprio ministério não esconde que esses números se referem apenas aos casos em que tanto as causas das infecções como as dos óbitos foram constatadas por testes.

Esses números por si só são apavorantes e mais ainda quando pensamos que eles representam subnotificações. Diversas reportagens, inclusive reportagens em jornais internacionais, tratam da questão das subnotificações no Brasil e quase todos estimam que os números oficiais representam menos de um décimo dos casos. As matérias estimam que os casos reais sejam de 11 a 15 vezes  os números oficiais. Tomara que esses números estejam errados porque, se estiverem corretos, no caso mais otimista, o Brasil já está com mais  de 600 mil casos de contaminações e mais de 40 mil óbitos. Isso já é uma visão do inferno.

Não acho absurdo que os números oficiais registrem apenas os casos testados e nem me surpreende que estejam tão distantes da realidade. Afinal, não é novidade para ninguém que vivemos num país carente de recursos. Esses números exibem a carência de testes e de uma logística que permita acelerar a quantidade de testados com as doses disponíveis. Será um absurdo se as autoridades estiverem se referenciando exclusivamente por esses números.

Existem métodos científicos para avaliações e estimativas dos números reais, mesmo que os testes não tenham sido realizados, e existem profissionais supercapacitados para realizar essas avaliações e estimativas. Porém, não acredito que as figuras da trupe Bozo no Ministério da Saúde, nem o merdetta que saiu nem o punheta que entrou, sejam capazes de dar tais diretrizes ou quaisquer outras. Essa corja  que ocupa o governo já nem consegue se disfarçar. Já tocou um “foda-se” para a nação e ontem deram uma demonstração disso.

 A minha expectativa – e quase certeza - é que os profissionais das diversas áreas estejam trabalhando por suas próprias iniciativas. Por motivos diversos, e para sorte nossa, a sociedade brasileira ainda não assimilou culturalmente e integralmente os valores da  lógica capitalista que determinam a nossa ordem econômica, e isso é bom. Aliás, é a nossa tábua de salvação nesse momento.

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sábado, 25 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (37)


Opinião


Ontem foi dia da  “Mãe das lives”. Talvez preocupado com os efeitos depressivos sobre a população provocados pelo isolamento social, o governo Bozo protagonizou uma encenação burlesca, rigorosamente uma Farsa (gênero dramático cômico que se utiliza de personagens caricatos e excêntricos) que deve ter concorrido e batido qualquer live recente das chamadas duplas sertanejas.

A apresentação se deu em dois atos e “mediocridade acima de tudo e de todos” deve ter sido a orientação dos diretores do espetáculo. No primeiro ato o juiz de primeiro piso, antes ministro, e no segundo ato o ex-capitão boquirroto acompanhado de parte da trupe. Uniram-se todos em atuação especial.

Bozo e o juiz de primeiro piso engalfinharam-se, arrancaram perucas e cabelos um do outro. Rasgaram roupas e desnudaram-se. É verdade que o que se viu não foi novidade. São conhecidos canastrões e suas fantasias não melhoram as suas representações. De qualquer forma, um arrancou do outro todos os disfarces e isto foi importante para quem ainda confunde ator com personagem e tem expectativa de que alguma coisa boa exista sob os seus costumeiros trajes e caretas circenses.

Oportunista, mentiroso, chantagista, criminoso. Crime de responsabilidade, obstrução de Justiça, interferência em investigações. Tentativas de acesso indevido a documentos sigilosos de inteligência, falsidade ideológica – esse foi o script das apresentações. Conversa de bandidos trocando acusações em delegacia de polícia. Só faltaram as algemas.

Até os governos do PT foram trazidos  à cena como referências de trato politicamente correto da coisa pública. Quem diria!

Há mais de trinta anos, uma novela global teve um enredo que se passava em um degradado reino de Avilan, onde os poderes eram ocupados por personagens caricatos e corrompidos. A novela ficou como uma fantasia satírica da situação nacional na época. Acho até que já foi reprisada como uma história distante. Porém  - a vida é uma caixinha de surpresas – esse era o bordão repetido pelo narrador da história do azarado Joseph Climber.  E aqui os azarados somos nós porque o reino de Avilan é aqui e hoje. E quem tiver dúvidas pergunte ao chefe da trupe Bozo. Ele já disse em alto e bom som: A constituição sou eu!



O rei e sua corte próxima já não posam para fotos. Hoje tem-se vídeos. E estavam todos lá. A ministra dos Direitos Humanos bem atrás, sem uma goiabeira na qual pudesse subir e se destacar. O ministro da Saúde tomou conta da festa. Como se estivesse dopado, fazia caras e bocas atrás do ministro da Educação. As chamadas  gifs com suas imagens ocuparam a web. Luizinho Mandetta foi substituído por Nelsinho Masturbação (ou rima que se aplique), essa era a legenda das gifs.

O ministro da Educação foi apontado pelo Bozo como exemplo. Reconhecimento justo. Nada mais coerente do que aquela figura como uma representação exemplar desse governo. O da Economia, de máscara, devia estar sorrindo e pensando em como incluir aquelas imagens num dos tantos pacotes que ele está fazendo para entregar o país e faturar uns trocadinhos a mais.

E os milicos? Altivos - era o que lhes cabia. Orgulhosos do papel que têm desempenhado de símbolos da ameaça permanente de uma ditadura militar e avalistas do ex-capitão boquirroto e de seus atos. Cúmplices da abertura de Alcântara para os EUA e da entrega da Embraer para a Boeing. Endossam sem constrangimentos as continências do ex-capitão à Star-Spangled Banner.

Certamente foi o dia mais divertido da quarentena. Será inesquecível. E quem perdeu poderá ver a síntese reproduzida em um dos quadros do vídeo com a imagem  do tradutor de Libras (que também viralizou na web, possivelmente até para fora do país - imagem abaixo). Comenta-se que outras apresentações desse tipo virão, focalizando outros personagens. Cada um em sua vez de ocupar o lugar na frigideira.

Enquanto isso, vamos por aí, buscando o que haverá de melhor para nós. Outros conseguiram, porque não haveríamos de conseguir. Certamente esqueceram uma semente em algum canto de jardim.

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sexta-feira, 24 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (36)


Opinião


Hoje deve estar complicado lá, para o lado de São Jorge. Para nós, alguns dias santificados são de feriado e lazer, mas para os santos o “day after” deve ser uma complicação total. A moçada não alivia a barra e carrega nos pedidos de proteções e  graças apelando para os poderes que imaginam que os santos possam ter. Assim, lá no barracão ou escritório das santidades, hoje deve ser dia de separar os agradecimentos dos pedidos, de organizar esses últimos cuja quantidade certamente será infinitamente maior que os primeiros, de separar o válidos dos inválidos, enfim, uma trabalheira, sem falar na operacionalização.

Tudo bem que aqui, no Rio de Janeiro, o santo guerreiro poderá pedir uma ajuda a São Sebastião com quem divide o cargo de padroeiro. Porém, tem o caso da Inglaterra, Portugal e outros países onde ele também é padroeiro, tem mais de uma matrícula, e onde estão todos igualmente enfrentando pandemias de coronavírus. Não consta que os fiéis desses lugares sejam mais parcimoniosos que os daqui nesses assuntos de rezar por proteção.

Mas, tem assunto que nem São Jorge nem São Sebastião vão dar jeito. “É coisa dos home”, lembrando Aldir Blanc e João Bosco. “ ... A fome tem que ter raiva pra interromper, a raiva e a fome de interromper, e a  fome e a raiva é coisa dos home”. E parece que ainda não acumulamos fome e raiva bastante para interromper esse processo político maluco que estamos vivendo. Maluco, entenda-se bem,  no sentido figurado, nas suas manifestações caricatas. Porque seus efeitos e propósitos  obedecem a projetos elaborados, organizados e criteriosos para fazer do país uma nação de categoria inferior, com uma sociedade de porão, encolhida em quartinho de fundos e sem janelas para o futuro.

A trupe Bozo está dando o máximo de si para expressar sua mediocridade. Entreter a população, mostrar que há estágios da condição humana que podem ser mais miseráveis do que a contaminação viral, esse parece ser o seu papel nessa crise e, justiça seja feita, está desempenhando com afinco.

Parece que os ministros da trupe revezam-se na tarefa de se mostrarem imbecis. Em plena crise pandêmica um ministro faz piada com a morte da sogra de um médico equatoriano. “Morte suspeita” foi a piadinha do ministro. Mas, pasmem! Não foi conversa privada grampeada, foi em mensagem pública que ele mesmo divulgou.

Outro ministro não deixou por menos. Um filósofo de fama internacional apontou contradições expostas pela pandemia. Todas as ações de recuperação da ordem capitalista estão sendo  realizadas pelo Estado e com recursos públicos seguindo uma lógica que nega completamente os aclamados valores do pensamento neoliberal. Aliás, um fato de constatação obvia e irrefutável. Porém, como se disputasse um concurso de estultice, o ministro do governo Bozo fez artigo em blog intitulado “Chegou o comunavírus” acusando filósofo, professor da universidade de Londres , de usar a pandemia para "instaurar o comunismo, o mundo sem nações nem liberdade, um sistema feito para vigiar e punir".

Tá bão ou quer mais?

Volta e meia um desses idiotas da trupe entra em processo de fritura e conflito com o chefe, como está ocorrendo nesses dias. Mas essas defecções ministeriais, tanto as ocorridas como as anunciadas, não me parecem sinalizar ratos abandonando navio que afunda, Parecem mais baratas alvoroçadas por alguma perturbação em sua tranquilidade. A  barata da vez é juiz de primeiro piso.

Essas baratas que estão saindo buscarão e logo acharão agasalho em outro bueiro de restos e sujeira. É da natureza delas ziguezaguear de um bueiro para outro. Mas, o foco de onde saíram permanece  imundo, e para lá outras baratas  convergirão. É esse foco que precisa de uma limpeza e desinfecção em regra. Dessas que mesmo sendo realizada com o uso de luvas, obriga-nos a lavar, lavar e lavar as mãos ao terminar. Tal limpeza é realizada com muita mobilização política – nossa tarefa. E tem que ter raiva para interromper.

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quinta-feira, 23 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (35)


Opinião


Há algum tempo, realizando certa atividade precisei dar o meu nome a uma jovem que me atendia. Ela então comentou “Jorge! O meu avô também se chama Jorge”. Eu retruquei “se a idade dele for perto da minha, deve ser filho de turco ou de macumbeiro” Ela então, meio encabulada, disse “Como o senhor adivinhou?”. Nem foi preciso detalhar, mas ela estava se referindo à segunda alternativa.

No Brasil, muitos dos diversos imigrantes de origem árabe receberam o apelido genérico de “turcos”, embora por aqui, no Rio de Janeiro, não sejam tantas as famílias dessa origem específica.  Daí que devem ser poucos os “Jorge” de minha idade que tiveram os seus nomes inspirados diretamente pela origem turca do santo católico. O mais provável é que tenham sido nominados por influência religiosa sim, mas por uma influência religiosa umbandista ou candomblecista. Uma questão de estatística.

Então, gosto de fazer essa brincadeira porque ela tem bastante validade para os "Jorge" da minha geração e usualmente acerto. Às vezes erro. Tenho um xará que é português e foi batizado como Jorge Amado pela admiração que o seu pai, lá em Portugal, tinha pelo escritor baiano.

No meu caso, o nome saiu direto da macumba para a pia batismal. Sempre gostei do meu nome porque ele evoca essa figura mítica de  santo guerreiro e talvez o mais popular e conhecido sincretismo entre as religiões católicas e aquelas de origens africanas. Essa referência positiva sempre me deixou vaidoso e certamente contribuiu bastante para a minha autoestima.

É uma pena que  esse ano, por conta da pandemia do coronavírus,  as igrejas católicas não abriram para as celebrações de São Jorge e as homenagens ao santo foram adiadas. Suponho que o mesmo ocorrerá nos espaços umbandistas.

Então, celebrando a data de hoje e homenageando esse Ogum carioca e Oxossi baiano eu vou “copiar e colar” sem qualquer constrangimento, e mesmo sem pedir permissão, o recorte de uma publicação do Luis Antonio Simas no seu facebook. Simas, é uma dessas figuras especiais, um tesouro do Rio de Janeiro. Estudioso, pesquisador da cultura popular carioca e brilhante comunicador. 

Mas, hoje também é Dia Nacional do Choro – dia de Pixinguinha. Então inclui (abaixo) um link com a peça musical “São Jorge” da autoria de Hermeto Pascoal e que acho linda. Também, pudera, com esse nome. Segundo Hermeto ela descreve a cavalgada de “Faísca”, o cavalo de São Jorge. Na web tem diversas interpretações, incluindo a do próprio Hermeto, cada uma mais bonita que a outra. Escolhi uma que gosto e, no mais, tenhamos todos um bom dia de São Jorge.

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Trecho da publicação BRINCADEIRA DE RODA E GIRA DE SANTO - Luiz Antonio Simas (ver link para texto completo no final)
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Marcado por estes cruzamentos todos, é por isso que no meu calendário particular o dia 23 de abril é o dia internacional da macumba e dos macumbeiros.

Macumbeiro, no meu dicionário afetuoso, é definição de caráter brincante e político, que subverte sentidos preconceituosos atribuídos de todos os lados ao termo repudiado, e admite as impurezas, contradições e rasuras como fundantes de uma maneira encantada de se encarar e ler o mundo no alargamento das gramáticas, com a predisposição para incorporar forças vitais.

A expressão macumba (que em quimbundo designa um antigo instrumento musical similar ao reco-reco) vem muito provavelmente, em seu sentido religioso, do quicongo "kumba"; feiticeiro (o prefixo "ma", no quicongo, forma o plural). Kumba também designa os encantadores das palavras; poetas. Macumba seria, então, a terra dos poetas do feitiço; os encantadores de corpos e palavras que podem fustigar e atazanar a razão intransigente e propor maneiras plurais de reexistência e descacetamento urgente, pela radicalidade do encanto, em meio às doenças geradas pela retidão castradora do mundo como experiência singular de morte. Aqui, nas Áfricas, e nas terras geladas onde a terra termina.

O macumbeiro reconhece a plenitude da beleza, da sofisticação e da alteridade entre as gentes. Sigurd matou o dragão que Jorge matou de novo, com a espada feita na forja de Ogum, parecida com a forja de Ilmarinem, para que todos acabassem aos pés do altar, batendo tambor, cabeça no gongá, e ouvindo um choro de Pixinguinha numa esquina do Rio, tomando a cerveja que foi do Duque da Baviera e hoje é do santo guerreiro nos terreiros de fé.

Como diria Guimarães Rosa, viver é etecetera.

Saravá para a beleza do mundo!
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NOTAS
Wallace Oliveira | São Jorge (Hermeto Pascoal) | Instrumental Sesc Brasil - Capturado em 25/04/2020 de < https://www.youtube.com/watch?v=4mzENydulho>

BRINCADEIRA DE RODA E GIRA DE SANTO – Luis Antonio Simas – Facebook – Copiado em 25/04/2020 de <https://www.facebook.com/luizantonio.simas/posts/2975144142575067

quarta-feira, 22 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (34)


Opinião


Sendo múltipla a natureza humana, sujeitos diversos originaram situações diversas e algumas impactaram quase toda a humanidade. Um desses caras  foi  Vladimir Ilyich Ulianov, cujo pseudônimo era  Lenin, nascido em 22 de abril de 1870 numa cidade da Rússia então chamada  Simbirsk e que hoje tem o nome de Ulianovsk em sua homenagem. Hoje fazem 150 anos do seu nascimento.

Lenin foi  o principal dos líderes de uma revolução que transformou o mundo. Não apenas o cotidiano dos seus pares, mas que apontou para a humanidade a possibilidade real de uma alternativa de organização social sem a exploração do homem  pelo homem. Uma alternativa ao capitalismo.

A comunhão de ideais, além de admiração pelo empenho e dedicação desse militante extraordinário permite a muitos – entre os quais me incluo – referir-se a ele como “companheiro Lenin”.

Os ideais de uma sociedade melhor para todos os seres indistintamente não saíram da  cabeça do companheiro Lenin. Pensar assim é uma ignorância infantil. Germinaram com o próprio desenvolvimento humano, tiveram versões e interpretações. Em alguns momentos foram sacralizados. Geraram lutas e revoluções. Em sua defesa muitos sacrifícios foram realizados. Essa é a história da humanidade.

Mas, no século XIX, na linha de encontrar caminhos para uma sociedade melhor, na linha de transformar a realidade em que estavam inseridos, dois militantes especiais buscaram desvendar os obstáculos que efetivamente barravam as possibilidades de avanços na conquista desse sonho. E foi numa  parceria fenomenal que Friedrich Engels  e Karl Marx participaram ativamente dos movimentos políticos e se debruçaram para estudar os mecanismos de organização social de sua própria época,

Nesse esforço, Karl Marx, o gigante entre os gigantes, desvelou os meandros do emergente modo de produção na sociedade inglesa de então - o capitalismo – registrando-os em uma obra até hoje incontestável, Marx dissecou em detalhes o capitalismo, sua natureza e sua incompatibilidade com a ideia de uma sociedade solidária. Apontou suas potenciais direções de desenvolvimento  e deixou as pistas para que outros prosseguissem com sua obra.

No rastro das elaborações de Marx, e inconformado com as condições de miséria e de exploração da população  na sociedade em que vivia, o companheiro Lenin liderou movimentos sociais que levaram à revolução russa em 1917  e a formação da  União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em 1922.

A revolução liderada por Lenin estabeleceu outra perspectiva de visão do mundo. Foi feita com um apelo aos trabalhadores para que se unissem e a replicassem em todas as partes do mundo. Não foi por outro motivo que o mundo capitalista de então se virou contra aquele movimento.  

Além de duríssimas sanções econômicas impostas ao governo revolucionário, no intervalo de 1918 até 1920 os países capitalistas lançaram-se numa campanha de agressão às fronteiras soviéticas que reuniu: França, Inglaterra, Japão, EUA, Polônia, Grécia, Canadá numa mobilização militar cujas estimativas chegam a cerca de 180.000 homens.

A agressão terminou na medida em que a URSS abriu mão da proposta de internacionalização da revolução e também do cagaço das potências agressoras que os seus soldados fossem cooptados pelo ideal revolucionário que levou os trabalhadores a tomarem o poder no antigo império russo.

Mas, aqui não é e nem seria o local adequado para se saber sobre a história da revolução socialista de 1917. Hoje há uma quantidade enorme de fontes de informações disponíveis a qualquer um que tiver interesse e se dedicar ao assunto. Aqui o enfoque é celebrar a lembrança do companheiro Lenin. Não como um super homem, um super humano ou, um deus, mas como um militante ativo e excepcional que dedicou a sua vida a um projeto para o benefício coletivo. Infelizmente o companheiro Lenin morreu ainda nos primeiros anos da revolução que liderou (1924), e a sua morte foi determinante no rumo dos acontecimentos. O seu exemplo ficou.

Refletir sobre as suas lutas é importante num momento em que a pandemia do coronavírus está provocando expectativas de que a realidade se transformará por si própria ou como efeito colateral da contaminação. Uma expectativa de que sairemos “melhores” dessa pandemia. Ledo engano.

O sistema capitalista está ai, tão vivo quanto nunca. Querendo jogar os trabalhadores na fogueira viral e queimá-los como combustível. Basta ver os jornais. Aqui no Brasil e em todo o mundo capitalista as medidas que estão sendo tomadas visam tão somente recuperar o movimento do sistema que foi abalado. Mudar isso não será simples. Mas, é possível. O companheiro Lenin apontou a direção. Chegar lá é tarefa nossa.


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terça-feira, 21 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (33)



Opinião


Hoje é feriado nacional, celebração do vulto histórico Tiradentes e também do nascimento da agora sessentona Brasília. Em outras circunstâncias seria um daqueles feriados  bons de curtir. No Rio faz um dia bonito e agradável. Descanso do trabalho, reuniões com amigos, com a família, cair na gandaia pra quem tem o hábito, bebericar umas cachaças ou apenas ficar “coçando”, aproveitando um merecido dia de lazer. Mas, o coronavírus virou tudo de cabeça pra baixo, ou de ponta cabeça como dizem os paulistas. Isolados ou não, nada está normal. Esse feriado está mais com cara de enforcamento do que de aniversário.

Sem a alternativa de desfrutar  as alegrias da folga, é possível viajar mentalmente pela representatividade da data. Mas, cá pra nós, não é passeio de grande prazer. O principal homenageado é um herói que  a historiografia oficial nos empurrou goela abaixo desde os textos didáticos infantis. Um mito fabricado nas coxas, parido da necessidade de um símbolo para o golpe militar que criou nossa controversa república .

Nosso herói ganhou o apelido de “mártir da independência”, mas foi o bucha de um grupo que não queria pagar impostos à coroa portuguesa, e para os quais a ideia de uma autonomia para a região onde viviam pareceu boa alternativa. Faz-me lembrar alguns empresários que em nome de seus interesses já fizeram várias tentativas de emancipar a região do bairro de Alcântara em São Gonçalo (RJ) criando um novo município, aliás prática recorrente em todo o país. A ideia de independência do Brasil que cultivamos nem passava pela cabeça dos chamados inconfidentes e o próprio conceito de “Brasil”, se existia, era embrionário.

Fosse hoje, quem sabe, os tais inconfidentes teriam montado um “impostômetro” igual aquele patrocinado pelos coxinhas da Associação Comercial de São Paulo, além de organizar uma caixinha para a eleição de parlamentares que garantiriam jogar para as costas dos trabalhadores as obrigações devidas pelos seus lucros.

De qualquer forma, não tenho competência para fazer tratados nem defesa de teses históricas, apenas comento sobre fatos que são de conhecimento geral. Mesmo assim, resguardo o respeito pelo símbolo que é legalmente o Patrono Cívico da Nação Brasileira, além de patrono oficial de algumas instituições do Estado.

Prefiro associar o nome de Tiradentes à agradável cidade mineira e à sua vizinha  Coronel Xavier Chaves que já fez parte da primeira, embora eu não saiba se foi criada numa daquelas iniciativas que citei antes. Mas, o tal “coronel” foi um descendente do Joaquim José da Silva Xavier o alferes que dançou na frustrada conspiração. É lá que se produz a cachaça Século XVIII que também é vendida com o rótulo de Santo Grau - Cel. Xavier Chaves. Uma pinga deliciosa destilada naquele que é tido como o mais antigo alambique do Brasil ainda em funcionamento. Não fosse o coronavírus, viajar para bebericar uma Século VIII “in loco” seria uma boa alternativa para um feriado de terça-feira com a segunda-feira “enforcada”.

Já o aniversário de Brasília, como não poderia deixar de ser, reflete a representação que a cidade tem para o país. Brasília é  história viva e a sua criação resulta de uma escolha política que, para o bem ou para o mal, ainda hoje suscita discussões.. Quis o acaso que a capital completasse os seus sessenta anos justamente na época em que os cidadãos dessa faixa etária estão numa berlinda discriminatória  e classificados como grupo de risco na pandemia.

Tudo bem que sessenta anos é infância na escala de tempo da vida das cidades, mas na escala de tempo da vida humana Brasília assume agora a sua condição de idosa. Mais um atributo para a cidade que já tem uma imagem caricata por abrigar a representação dos poderes políticos com todas as suas deformações.

O fato é que a cidade está aí (ou lá), com suas virtudes e imperfeições. Abriga uma geração já amadurecida de descendentes dos candangos, e merece cumprimentos e agradecimentos solidários da sociedade brasileira. Afinal, sessentona, hospeda involuntariamente o SARS – CoV-2 responsável pela COVID-19, mas também involuntariamente hospeda um vírus boquirroto e infeccioso que contamina e abate o corpo social desse já combalido país.

Não deixarei de olhar a natureza e admirar a beleza desse dia de feriado, mas minhas celebrações ficarão por conta do aniversário de uma amiguinha querida, “meio isolada” a algumas quadras daqui, e para quem eu envio beijos e parabéns!

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segunda-feira, 20 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (32)


Opinião


Recebi cópia de uma foto tirada durante carreata que ocorreu, ontem, domingo, no Rio de Janeiro. O autor da foto, um fotógrafo da Reuters, destaca o fato de um policial estar apontando uma arma em direção a casas da favela do Vidigal que jogavam ovos e objetos em carros que participavam de carreata pró-Bozo e a favor da reabertura do comércio durante a pandemia do Covid-19.

O fotógrafo também destaca que ampliando-se a  foto é possível ver que o policial não está com o dedo no gatilho e que nenhum tiro foi disparado enquanto ele esteve lá.

A imagem está reproduzida abaixo e naturalmente cabem todas as observações e ressalvas. Uma imagem estática, sem registro detalhado de contexto , a própria imagem bem poderia ser o resultado de uma edição etc..

Porém, quem não é quadrado nem redondo não se surpreenderá em ver uma imagem capturada durante uma carreata de bozominions no Vidigal (bairro do Rio de Janeiro) com um policial fardado e de arma em punho que claramente não está em função de proteção dos manifestantes ou de ordenamento do tráfego. Até porque cenas similares repetiram-se em outros pontos do país e registram o avanço das manifestações fascistas.

Conversando sobre o assunto em videoconferência, ontem,  um amigo lembrou da poesia “No Caminho com Maiakovski”. Um poema do niteroiense, Eduardo Alves da Costa, que viralizou como se fosse da autoria do poeta russo. O poeta niteroiense teve a sensibilidade de expressar em seus versos:

“... Na primeira noite eles se aproximam e  roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. ... Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.”

Classifiquem como quiserem. Alarmismo, romantismo babaca, esquerdismo, imaginação pueril ou uma combinação qualquer dessas expressões que desqualifique minha avaliação, mas o fato é que essas mobilizações fascistas fazem a imaginação viajar para o que terá sido a realidade de Maiakovski e resgatada pelo poeta niteroiense.

Vivemos uma situação social tensa. As condições socioeconômicas agravadas pela pandemia coronavírus estão uma merda total e a expectativa é de que fiquem piores, embora possam estar distantes da realidade de muitos de nós que, felizmente, ainda desfrutamos de situações privilegiadas. O caos social, isso é, uma agitação popular sem direção política é tudo que interessa a esse bando fascista, e eles sabem disso.

Em criança, minha mãe, como outras, aporrinhava-nos para comer isso ou aquilo,  enfrentando nossas objeções infantis e arrogantes que cobravam a alimentação de nossa preferência.  A velha tentava resolver a situação da melhor forma. Suas imposições até  decorriam da preocupação com o necessário equilíbrio nutricional, mas na prática eram determinadas principalmente pela realidade  e pela disponibilidade das opções. Meu pai, mais calmo, e sem lançar mão de seus atributos  físicos, aconselhava com tranquilidade: “Ninguém passa fome tendo a comida perto. Pode deixar a comida aí”. Nunca esqueci essas observações.

Lembrei dessa passagem porque, dia desses, um líder comunitário, entrevistado sobre a conjuntura e as perspectivas das comunidades mais pobres, observou  com a tranquilidade que foi, ao meu juízo, também uma advertência: “ninguém vai morrer de sede ao lado de um poço, só porque o poço tem dono” .

Esse recado, claríssimo, dá a medida das circunstâncias que vivemos e dos conflitos e contradições que precisamos tratar. Por um lado, uma rebeldia mais do que justificada, embora sem direção política determinada e, de outro, uma corja fascista oportunista que conta com o caos que pode resultar dessa rebeldia. Receita explosiva.

Um grande problema é que essa questão crucial divide a esquerda, e sem resolve-la não saberemos para onde caminhar hora do “sapeca-iaiá” recorrendo agora à expressão poética do Bezerra da Silva.

Há os que insistem em consertar o sistema como se ele estivesse com algum defeito, e há os que entendem que o sistema não está com defeito – ele é assim, precisa ser trocado, substituído.  Incluo-me entre esses últimos.

A onda fascista avança. As manifestações do ex-capitão boquirroto , ontem, em Brasília, estão na primeira página de todos os jornais. Os caras mandaram até a democracia liberal pra casa do cacete e gritaram por ditadura.

Enquanto isso,  o maior partido de oposição, numa deliberação equivocada, recusa-se a assumir a palavra de ordem “fora Bozo”. Em vídeo, o pronunciamento da sua liderança mais parece com os de uma autoridade da área da saúde do que o de uma líder política. Aposta claramente no caminho de uma disputa eleitoral, na  possibilidade de uma posição segura e privilegiada no status quo. 

É hora de apontar direções políticas claras e alternativas às propostas fascistas que já ocupam ruas sem quaisquer constrangimentos, provocando e contando com o caos social. As carreatas avançam. É uma pena.


Imagem de fotógrafo da Reuters - capturada em 19/04/2020 de <https://www.instagram.com/p/B_Kvh38pn4Q/?utm_source=ig_web_copy_link>



Pronunciamento da liderança do PT - resgatado em 20/04/2020 de <https://youtu.be/_RHj1XfO_iM>

domingo, 19 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (31)


Opinião


Acho que  entrei na fase de receber notícias de “amigos de amigos” vitimados pelo coronavírus. Era uma fase prevista. Em minha expectativa essa fase antecede aquela em que as notícias desagradáveis se referirão diretamente às pessoas mais próximas. Faço figa para estar enganado e que esse tipo de avaliação não passe de uma reflexão medíocre e de buteco,  mas as coisas estão seguindo por esse caminho que parece inexorável.

De tudo que tenho buscado saber, nada alterou as avaliações iniciais sobre a melhor estratégia de combate à pandemia: tentar retardar a velocidade da evolução da contaminação,  empurrando para frente o pico e achatando a curva  da quantidade de casos. Com isso, ganharemos tempo para as chamadas  medidas profiláticas e para uma melhor adequação dos recursos disponíveis que são precários frente à demanda de contaminados. E como tática mais adequada para alcançar esse propósito: praticar, intensificar e garantir o afastamento social. Tática difícil de ser praticada porque conflita com as características e necessidades da maior parte da população.

Com esse tipo de avaliação, não é possível encarar com indiferença uma carreata de bozominions desfilando no Aterro, no sábado, fazendo a apologia desses pulhas defensores de torturadores e milicianos e convocando as pessoas a irem para as ruas. É difícil de aceitar e até podemos buscar termos mais elaborados para sintetizar e qualificar esses comportamentos: desinformação, descontentamento generalizado, revolta, indignação com partidos e políticos, enfim não excluo essas avaliações. Contudo, o fato real é que, seduzida por mecanismos diversos, há uma massa de pessoas que assumiu valores populistas e fascistas e que parece ter entrado em um estágio de possessão. Uma autotranscendência descendente (termo de Aldoux Huxley) que é impermeável a qualquer abordagem para conversar sobre alternativas políticas para o país.

A pandemia coronavírus talvez seja o resultado de uma ocorrência fortuita. Não sabemos. Mas, o cenário triste da nossa situação política não decorre do acaso. Ao contrário, resulta de ações conscientes praticadas por grupos parasitas que sobrevivem da exploração dos trabalhadores. Esse processo se alimenta da própria riqueza que os trabalhadores produzem, é garantido por armas e poderio bélico adquiridos com essa riqueza e se protege institucionalmente fazendo uso desses zumbis possessos que hoje estão nas ruas em carreatas.

Será desses grupos que partirão os primeiros gestos de violência e barbárie nos limiares dos estágios de extrema tensão social para os quais estamos caminhando. A direita política é quem tomará a iniciativa desses gestos porque é da sua natureza e esses possuídos, que hoje desfilam em carreatas, que fazem tocar marchas militares durante os panelaços, que se fantasiam com camisas da CBF, que gritam pelo ex-capitão boquirroto chamando-o de mito, é que  serão utilizados como  buchas de canhão e massa de manobras . Estão aí para esse uso e cumprirão essa finalidade. Devemos tentar estar preparados para isso.

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sábado, 18 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (30)


Opinião


A Toponímia é uma área da ciência (Linguística) que  estuda os nomes dos lugares. O nome dado a uma rua, um acidente geográfico, um bairro, uma cidade ou local qualquer é genericamente um topônimo.

Usualmente os topônimos carregam consigo registros da cultura ou da história de uma sociedade, e podem ser uma fonte de informação e pesquisa, até por prazer ou simples curiosidade. Eu, por exemplo, tenho um livreto “Estudo dos Topônimos Gonçalenses de Origem Tupi” que é uma publicação da Academia Gonçalense de Letras, Artes e Ciências e cuja leitura acho bem interessante para quem conhece e guarda uma relação de carinho com a cidade, como é o meu caso.

Contudo, eu tenho implicância com os topônimos que homenageiam “vultos” históricos de qualquer natureza: políticos, artistas, atletas e por aí vai. Acho que o valor histórico do homenageado sempre estará sujeito a avaliações controversas e que podem variar até com a própria história. Por outro lado, não implico com os topônimos de fatos históricos. As avaliações sobre eles também podem variar, mas são fatos e pronto.

Por exemplo, o nome de um viaduto na cidade do Rio de Janeiro homenageia  o golpe de 64: “Viaduto 31 de Março”. Alguns pensarão no golpe com reverência e eu como uma indecência, mas o fato existiu e até acho que não deveria ser esquecido. Mas, não gosto das homenagens a golpistas escrotos como “Rodovia Castelo Branco” (SP) ou “Ponte Pres. Costa e Silva” (RJ). 

Também não endosso as iniciativas de nomeação de logradouros com nomes importantes da esquerda política. Um exemplo dos mais significativos é o nome “Marielle Franco” entre outros. Até tenho em casa uma réplica da placa que identifica a rua com o nome da Marielle, mas não curto a iniciativa.

Por mim não existiriam topônimos com nomes de pessoas físicas vivas ou mortas. Não contribui para nada e sugere a barganha de favores. É uma prática ruim, especialmente numa época e situação em que os locais que carecem de nomeação são, em geral, logradouros ou obras públicas, já que não existem muitos rios, mares ou montanhas, cidades a serem criados ou descobertos e nomeados.

Eu suponho que não faltarão puxa-sacos para nomear logradouros homenageando  membros dessa galera fascista está governando a nação. Mas, por coincidência, feliz ou infeliz, esse período será mais lembrado pelo coronavírus do que por essa corja que será logo esquecida. Os topônimos que porventura levarem os seus nomes não significarão absolutamente nada, e foi pensando nisso que me lembrei de uma situação aqui, no Rio de Janeiro.

No Rio de Janeiro, em algumas placas de identificação das ruas, embaixo do nome da rua costuma vir uma informação que auxilia a identificar a origem do topônimo, por exemplo: Rua Dois de Dezembro -  embaixo do nome da rua está escrito “ data de nascimento do imperador D. Pedro II”. Acompanhar essas leituras às vezes é bem interessante e outras vezes cômico.  

No bairro Flamengo, em duas ruas adjacentes, uma das placas identifica “Rua Barão de Icaraí” e embaixo vem a informação “1821 – 1896 – Constantino Pereira de Barros foi capitalista e proprietário de terras” , ou seja, não tem porra nenhuma que justifique a homenagem ao sujeito além do fato dele ser rico. Porém, mais interessante ainda, é a placa da rua seguinte: “Rua Honório de Barros” e, embaixo: “filho do Barão de Icaraí”. Contado é até difícil de acreditar, então eu fiz fotos.

Essas situações me fizeram pensar na trupe Bozo e na identificação sequencial dos pulhas: 01, 02 e 03 – como seriam as placas?

Deixo essa questão para quem tiver o saco de ler esse texto. Para mim, uma placa com o nome “coronavírus” seria bem mais simbólica e importante do que qualquer tipo de menção a passagem desses merdas pela história do país.

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