quarta-feira, 24 de abril de 2019

Salve Jorge ou salve-se quem quiser


Opinião

O prefeito do Rio terá razões suficientes para sorrisos de ironia. Permanentemente criticado por sua administração referenciada por concepções religiosas, ele assistiu, assim como nós, a assembleia legislativa aprovar, em 18/04/2019, um projeto de lei proclamando os santos católicos São Jorge e São Sebastião “padroeiros” do Estado do Rio de Janeiro. Como a proclamação refere-se ao estado, então ela está sendo encaminhada para a aprovação do governador.


Mesmo que o projeto pudesse ser criticado em nome da laicidade, ainda assim, caberia um projeto de lei determinando as obrigações do estado na promoção institucional de festejos e celebrações em homenagens aos referidos santos católicos. Afinal, eles contam com a devoção religiosa de parte significativa da população. Seria um ato do poder público reconhecendo essa realidade. Contudo, o projeto de lei vai além. Ele assume uma autoridade eclesial e proclama os santos católicos como “padroeiros”, ou seja, o ato legislativo atribui a São Jorge e São Sebastião a responsabilidade de intervir e proteger os interesses da população fluminense junto às autoridades e cortes celestiais. Notícias da própria Alerj informam que o projeto original estabelecia apenas São Jorge como padroeiro, mas recebeu emenda agregando o nome de São Sebastião. Mais do que isso, os deputados esperam que os santos exerçam suas influências onde puderem nas áreas do divino e do sagrado. Pelo menos é o que se deduz das justificativas do projeto porque, conforme elas, além dos atributos de mártires católicos que os levaram à categoria de santos, os referidos também são reconhecidos no Candomblé e na Umbanda por suas associações com os orixás Ode, Ogum e Oxossi. É mole?

Prédios desabando por desleixos de fiscalizações e matando seus ocupantes. Militares metralhando pretos e pobres considerados imprestáveis e descartáveis. Representantes legislativos e sindicais exterminados por combaterem violações de direitos sociais. Bacias hidrográficas quase irremediavelmente perdidas em rompimento de barragens descuidadas por seus proprietários. Mortes banalizadas. Cidades abandonadas por seus administradores são inundadas, indefesas que estão frente às intempéries. Um governo federal submisso em suas representações internacionais envergonha a nação. Ao mesmo tempo, tenta  extinguir a previdência social solidária. Viabilizar os negócios do sistema financeiro é sua meta. Tentativas de revisão buscam recuperar do lixo histórico golpistas torturadores e assassinos. A política educacional transformada em piada. Milhões de pessoas retornando para abaixo da linha da pobreza. As pérolas ministeriais se multiplicam, uma superando a outra. Desde a instituição do azul e rosa para meninos e meninas até o inqualificável diagnóstico da ministra da agricultura: o brasileiro não passa fome porque nunca tivemos guerra e porque tem muitas mangas em nossas cidades. Nesse cenário desabrochou o brilhantismo político dos deputados fluminenses. Apelar para os santos: “Proclamamos-vos, São Jorge e São Sebastião, padroeiros do Estado do Rio de Janeiro. É com vocês!”

Definitivamente, não somos uma nação para principiantes. A proposta – pasmem – foi encaminhada em conjunto por um deputado do PT e outro do PSL. E, pasmem mais um pouco. A tal emenda que enfiou São Sebastião de contrabando no projeto foi da autoria de um deputado do PSDB. Eu não tenho os detalhes, mas considerando o resultado, será interessante verificar quem aprovou essa coisa. Só pensar nisso causa arrepios. E pensam que acabou? Já disse que aqui não é para principiantes. Essa coisa foi proposta, aprovada e enviada para a assinatura do governador em regime de URGÊNCIA.

Tento imaginar o que as divindades estarão pensando. Mais trabalho sem poderes adicionais. Suponho que São Sebastião não se sentirá satisfeito. Os deputados aumentaram a sua jurisdição, que antes era só a cidade do Rio de Janeiro, sem acrescentarem recursos. Deverá virar-se com os que já possui. Quanto a São Jorge, pelo menos agora terá uma credencial, ele que tem protegido os cariocas na informalidade. Mas, dificilmente isso lhe renderá homenagens maiores do que as que lhe prestam hoje.  De qualquer forma, a julgar pelas justificativas dos deputados, agora um e outro serão cobrados, não apenas por suas intermediações nas esferas celestiais, mas também por seus prestígios e poderes nas bandas de Aruanda.

Outros santos certamente terão suas avaliações. Padroeiros de outros municípios do Estado do Rio gostarão de dividir tarefas com São Jorge e São Sebastião. Poderão concentrar suas energias naquelas que forem de caráter local. Sei que é uma opinião otimista. O Brasil também tem dois padroeiros e isso parece que não tem ajudado tanto. Eu achava que a padroeira do país era N. Sra. Aparecida e pronto. Mas, aprendi que há um São Pedro de Alcântara com o mesmo cargo e responsabilidades da santa. Sua proclamação decorreu da devoção da família real portuguesa. Lá pelos idos de 1800 a monarquia pediu e o papa decretou. Como se vê, coisas da política. Apesar disso, parece que quem tem segurado a barra é a santinha preta. Branca em sua origem, mas enegrecida simbolicamente por uma força cultural que muitos tentam negar.

Não faço proselitismo ateu nem agnóstico. Muito menos negarei a existência das bruxas. As divindades, se puderem, farão muito bem protegendo as populações, seja nos limites do burgo carioca, no âmbito do estado ou quanto consigam. Alguns mais atarefados. São Jorge, por exemplo,  sei que tem lá seus compromissos com a proteção dos britânicos. Mas, é nojento ver aqui, na Alerj, o PT, PSL e PSDB reunidos nesse conluio metafísico, escroto, populista e alienante, ao mesmo tempo em o governo federal tenta a destruição de direitos previdenciários conquistados com tanta luta pela sociedade brasileira, particularmente pelos trabalhadores. Ontem, dia de São Jorge, o dragão estava solto na Comissão de Constituição e Justiça, no Congresso, em Brasília.

Mas, nojo não significa desesperança nem decepção. Que sejam cantados louvores gospels, celebradas  missas e procissões. Incineradas velas. Ofertadas flores, ebós ou despachos. De minha parte espero que as respostas dos padroeiros venham sob a forma de força, união e energia para transformar essa realidade na marra e nas ruas. Em manifestações públicas. Em agitações e paralisações. Numa forte e consistente greve geral que sirva de estímulo e motivação para tantas outras.

No mais, desejo como Teresa Cristina e Argemiro da Portela: ... que nunca me faltem flores para agradecer amores que Oxum vive a me dar.
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segunda-feira, 15 de abril de 2019

Nossa senhora


Opinião


Quando li o romance Notre Dame, de Vitor Hugo (Clube do Livro), fiquei surpreso. Ignorante, até então eu queria saber era da história do corcunda. Aí descobri que o romance tratava da  catedral. O lance do corcunda Quasímodo e que levou a obra para o mundo foi extraído do romance por algum brilhante novelista.

Conheci a catedral, mas sem a atenção devida – passeio turista. Hoje (15/04/2019)  a porra da igreja pegou fogo. Senti tristeza. Apesar de tanta merda acontecendo por aqui, o incêndio real da igreja funcionou como uma representação metafórica de tudo importante que está queimando em volta da gente.

Famílias estão sendo fuziladas porque se enquadram no perfil de pobres e pretos. Professores truculentamente retirados de sala de aula e aprisionados porque são identificados como agitadores comunistas. Direitos adquiridos com tanta luta estão sendo extintos em nome de um modelo econômico que nada significa para a maioria da população. Tá foda!

Mas, não tomemos como novidade. O grande professor Florestan Fernandes apontava: não será fácil a revolução proletária. Precisaremos dar cabo à revolução burguesa que, para preservar suas conquistas e, ao mesmo tempo, bloquear a revolução proletária, abriu mão de conquistar todo o seu espaço histórico. Só o fez nos países centrais.  Além do mais, a pressão que enfrentaremos do aparato capitalista será incomparavelmente maior que aquela enfrentada pela burguesia em sua revolução para superar o sistema feudal [1]

Enfim, com ou sem Notre Dame, não tenho receitas. Apenas a certeza que não há caminho para uma sociedade solidária sem a superação total do capitalismo. Isso será uma revolução. Uma revolução socialista e comunista. ###

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Fernandes, Florestan - O que é revolução - Ed. Expressão Popular - SPaulo - 2018

sábado, 9 de março de 2019

Te cuida machista! A America Latina vai ser toda feminista!


Opinião

Estou certo que o dia 8 de março de 2019 ficará como um marco nas transformações políticas da nossa sociedade. O Dia Internacional das Mulheres finalmente brotou como uma manifestação de luta por direitos sociais das mulheres brasileiras. Sempre mascarada, apropriada e glamourizada pelas forças dominantes (que fazem o seu papel) essa data tem sido registrada como o “Dia da Mulher” e tratada de formas completamente desvinculadas de suas origens. As celebrações do seu simbolismo nas lutas das mulheres trabalhadoras sempre ficaram restritas a círculos de militantes em algumas organizações e sem muita expressão nos demais ambientes sociais. Esse cenário mudou em 2019.

Essa mudança de patamar se faz bem tarde e, infelizmente, a um custo altíssimo. Transbordam as notícias sobre os espancamentos e assassinatos onde a descrição dos perfis das vítimas virou um clichê: pobres, jovens, negros, mulheres. A família Bozo com um histórico de ações e de comportamentos que endossam a manutenção e agravamento desse clichê foi levada ao poder nas últimas eleições. Uma direita fascista e historicamente acanhada encontrou espaço para se abrir e vazou purulenta, como um furúnculo estimulado por uma pomada de basilicão. A jovem vereadora carioca, Marielle Franco, figura de referência nas lutas pelos direitos sociais, foi metralhada em 14 de março de 2018, assim como o seu motorista Anderson Gomes. Violência que prossegue pela indolência com que vem sendo tratada a apuração do covarde e múltiplo assassinato. Sem dúvidas, pagamos um preço alto. E  ainda há muito que fazer e conquistar.

As mulheres brasileiras, indistintamente, se alinham pelas marcas de preconceitos e discriminações históricas da nossa sociedade, isso é um fato. Mas, também é verdade que se distinguem por suas situações socioeconômicas, pelo grau de conscientização dos seus papeis e, também, pelos seus valores e opções políticas. As mulheres que optaram por eleger a família Bozo não estavam nas ruas. Também aquelas que atendem como cordeiros  e sem qualquer crítica às determinações de certos pastores religiosos lá não estavam. Assim como faltaram outras por estarem realizando tarefas e compromissos que as apartam da possibilidade de mobilização. Uma apartação que, muitas vezes, até as impede de tomar conhecimento que tais mobilizações estão sendo promovidas.

Contudo, ainda assim, o 8 de março de 2019 desabrochou – em todo o país - de um jeito que não será mais possível esconder. Irreversível. Não haverá outros 8 de março sem a moçada nas ruas. Quem esteve aqui, no Rio de Janeiro, em passeata desde a Candelária até a Cinelândia constatou essa afirmação. Outros saberão pelas notícias e imagens. Arrisco dizer que nem mesmo as celebrações do 1º de Maio romperam barreiras de alienação no grau que ocorreu ontem com a marcha promovida pelas organizações de mulheres. #####


Imagens de Junia Versiani















Companheiros Carlos, Frederico, Vladimir, Rosa, Leão? Presentes!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Paquidermes e filhos drogados


Opinião
A essa altura do campeonato o crime da Vale já virou assunto antigo. Em nosso país onde as desgraças se atropelam e que, conforme uma amiga observou, parece ter chutado um despacho de encruzilhada, apenas as caricaturas sobrevivem como memória.

Cumpre-se, então, o desejo e as aspirações daqueles que elegeram o capitão Bozo e sua trupe. Suponho que estejam satisfeitos e contemplados com o resultado dos seus votos. A tropa de elite do capitão que elegeram, os seus ministros, está apresentando um espetáculo de gala na execução das suas promessas de campanha.

Confesso uma frustração. Não tenho qualquer surpresa com o desenrolar do governo Bozo, mas não imaginava  que esse era o tipo de país e de governo desejado por pessoas próximas e queridas. Pessoas lúcidas e capacitadas para fazerem comparações e escolhas. Não podem alegar que foram iludidas. Contudo, escolheram isso que está aí. Para mim essa foi a surpresa frustrante.

Voltando ao quase esquecido crime da Vale, chamo atenção para matéria publicada no Jornal do Brasil  de hoje, 12/02/2019 (cópia em seguida). Enquanto um ministro da trupe Bozo declara a vontade de privatização de todas as estatais comparando-as com “filhos drogados”, a matéria aponta um fato interessante e revelador.

Tanto as barragens de Mariana e Brumadinho, que romperam com danos materiais e centenas de mortos, além de outra, após Brumadinho, em Barão de Cocais, também em Minas, cuja segurança está sob suspeitas, foram todas barragens construídas por empresas privadas. Nenhuma construída pela Vale do Rio Doce. E todas foram adquiridas pela Vale após a sua privatização.

Também ofuscada pelos dramas mais recentes, passa quase batida uma matéria sobre a cidade de Saint-Prex, no cantão de Vaud, na Suíça (cantão é uma espécie de “estado” suíço). A sede da mineradora Vale no exterior é em Saint-Prex. Lá, a Vale recebeu totais isenções fiscais regionais, além de descontos em impostos federais por  um período de dez anos.  

A matéria desvela algo que não chega a ser novidade, mas que deve ser observado com atenção e crítica. Esses são movimentos societários feitos exclusivamente para economizar impostos e encher bolsos de  acionistas. Sem nenhuma preocupação com os empregados, meio ambiente ou condições de trabalho. Isso é a Vale.

Nunca é demais lembrar que “Vale” é a designação que foi dada a então rentável e eficiente  estatal Companhia Vale do Rio Doce – CVRD, após a sua privatização pelo então governo tucano.

Para os tucanos as estatais eram paquidermes que deveriam ser desmontados “osso por osso”. Para a trupe Bozo são “filhos drogados”. Aliás, um discurso alinhado com outros ministros. Desde aqueles que divulgam que pais holandeses são instruídos para masturbar bebês até os que dizem que brasileiros viajando são canibais. Esse é o espetáculo do circo Bozo.

Hoje tem marmelada? Tem sim, senhor!

E pensar que tem gente que votou nisso!
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É A LAMA, É A LAMA - Brumadinho provoca tenso debate político na Suíça
Por ​​​​​​​Jamil Chad - 07/02/2019 - Disponível em: 
SWI - swissinfo.ch – serviço internacional da Sociedade Suíça de Radiodifusão e Televisão  (SRG SSR).
Acessado em 12/02/2019 
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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Um machado de duas lâminas



Leituras para distrair


Coisas lindas. O samba do Salgueiro 2019 e um texto sobre a letra do samba, elaborado pelo professor Luis Antonio Simas. Quanta beleza compõe a nossa cultura.

Não se trata de opção religiosa ou de fé. Cada um que tenha, ou não, aquela que lhe aprouver. Trata-se de identificar o sublime que existe em nossa formação miscigenada, em nossas origens, cuja história e relatos alguns aprendizes de fascistas tentam abafar.

Mas, não tem jeito! É uma beleza que escorre por entre as frestas de censuras desses filhos das putas. Beleza que explode nas manifestações populares e se esparrama permitindo tomarmos consciência de quem somos. O verdadeiro processo de aprendizado, segundo Paulo Freire. Uma beleza que, cantando,  responde um melodioso “não!” aos racismos e às discriminações preconceituosas que impregnam a nossa sociedade.

O texto do Simas (que copiei sem autorização e sem qualquer constrangimento) pode ser lido abaixo. Uma aula, como sempre. Também incluí um link para acesso ao samba do Salgueiro. Entre os comentários do youtube há um que gostei muito “Foram fazer um samba enredo e fizeram um hino”.

Mas, eu também aproveitei a deixa  para divulgar um vídeo interessantíssimo e digno de elogios e admiração. Trata-se de uma co-produção da Globo e de um canal de televisão Francês, ainda nos anos 70 do século 20, cujo  título é “O Poder do Machado de Xangô”.  

Elaborado sob a orientação do antropólogo Pierre Verger, o vídeo do Globo Reporter – Pesquisa é um exemplo de reportagem completamente distante das atuais produções globais. Pelos creditos não consegui identificar o autor do texto, mas é impecável e merece ser divulgado. Especialmente as  narrativas de introdução e a narrativa final. Fica a sugestão para quem desejar.

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O texto do Simas - (Copiado sem autorização do Facebook do Luis Antonio Simas – link abaixo)


Luiz Antonio Simas - 2 de fevereiro às 18:03 · 

Atendendo a um pedido e sendo simples, escrevi sobre o sambão do Salgueiro para quem não tem iniciação nos ritos dos candomblés e umbandas e quer sacar melhor a letra macumbada
Simbora:

"Vai trovejar!
Abram caminhos pro grande Obá"
- O samba começa com a evocação a um elemento da natureza ligado a Xangô e Iansã: o trovão. Obá é o rei ou governante entre os iorubás. Não confundir com a orixá Obá, que aparecerá no samba.

"É força, é poder, o Aláfin de Oyó Oba Ko so! Ao Rei Maior!"
- Alafin é um título dos obás, governantes do reino iorubá de Oyó. A tradição diz que o Xangô histórico foi o quarto alafin de Oyó, filho de Oranian e Torosi.
Oba Ko so - significa em português algo como "o rei não se enforcou" ou "o chefe não morreu" e se refere ao mito em que Xangô teria se enforcado por conta de uma vergonha que passou em Oyó. Resumo rapidamente: ao ganhar o poder de lançar fogo pela boca (o nascimento dos raios), Xangô não teve cuidados e, deslumbrado com o poder obtido, incendiou sem querer o próprio palácio. Envergonhado, foi para a floresta e se enforcou. Os partidários de Xangô, todavia, começaram a dizer que ele não tinha se enforcado, mas virado um poderoso orixá, encantado no fogo, deixando na terra um grande buraco. Obá ko so é uma expressão presente em um canto muito popular na cerimônia da "Fogueira de Xangô", uma das mais fortes do candomblé. O rei está vivo! O Rei não se enforcou!, diz o Salgueiro.

"É pedra quando a justiça pesa
O Alujá carrega a fúria do tambor""
- Referência a Xangô como um orixá da justiça, característica muito marcante do orixá no Brasil, e que tem a pedra (sobretudo a pedra de raio) como um de seus elementos.- o alujá é o toque clássico de Xangô nos candomblés. Em português, "alujá" significa algo como orifício ou perfuração. Provavelmente, como Verger chegou a anotar, o nome tem relação com o mito de que Xangô, ao virar um orixá, deixou um buraco na terra ao se encantar no fogo. O alujá é um toque rápido e triunfal, evocando os poderes do orixá que dança com a força e a beleza das grandes labaredas.

"No vento, a sedução (Oyá) O verdadeiro amor (Oraiêiêô) E no sacrifício de Obà (Obà Xi Obà) Lá vem Salgueiro!"
Referência ao mito das três mulheres de Xangô. Iansã - a senhora dos ventos - era a paixão manifesta no desejo da carne. Oxum (aqui citada pela sua saudação: oraieiêô) é a esposa sensual, devotada e ciumenta (os ciumes de Xangô também são terríveis). E Obá foi aquela que, se sentindo a menos amada, perguntou a Oxum o que ela tinha feito para ter o amor do rei. Oxum mentiu para Obá. Cobriu a orelha com um lenço e disse que Xangô a amava porque ela tinha oferecido a ele sua própria orelha, dentro de uma gamela - Xangô só come em gamelas de madeira, nunca em louças - com amalá-ilá (a comida predileta de Xangô, feita com quiabo). Obá cortou a orelha, acreditando em Oxum, e ofereceu a Xangô. Horrorizado, Xangô expulsou Obá de seu reino. Aqui eu fiz a seguinte leitura: o samba diz que "no sacrifício de Obá / lá vem Salgueiro". Será uma possível referência ao sacrifício amoroso de colocar um carnaval na rua?

"Mora na pedreira, é a lei na Terra Vem de Aruanda pra vencer a guerra Eis o justiceiro da Nação Nagô Samba corre gira, gira pra Xangô"
Aqui já temos uma transição. É Xangô saindo da África e chegando ao Brasil. A pedreira é, especialmente na diáspora, considerada um elemento do orixá, detalhe presente com muita força na umbanda. O trecho também fala da Aruanda, uma espécie de lugar espiritual de onde vinham e para onde retornariam os espíritos ancestrais. Há quem diga que a Aruanda faria referência ao porto de Luanda, em Angola. De toda forma, a Aruanda é um lugar encantado de origem e retorno muito mais presente nos mitos da umbanda do que nos do candomblé. A gira é a sessão das umbandas e encantarias. Defendo que a palavra seja uma corruptela de canjira. A canjira e o nome dado ao conjunto de danças rituais, realizadas em um grande círculo, nos terreiros muxicongos, angolo-congoleses, e nas casas de umbanda e quimbanda, unindo o conjunto de toques, transes e mandingas

"Rito sagrado, ariaxé
Na igreja ou no candomblé
A benção, meu Orixá!
É água pra benzer, fogueira pra queimar
Com seu oxê, chama pra purificar"
- O ariaxé é o local do terreiro onde estão enterrados os diversos fundamentos secretos da casa. Há quem se refira também a ariaxé para designar o local onde são preparados os banhos com as folhas sagradas dos orixás ou mesmo o quarto de recolhimento de noviças que estão fazendo a iniciação.
- "Na igreja" pode ser referência ao sincretismo ou a um antigo rito de alguns velhos terreiros de candomblé, hoje praticamente extinto: as iaôs, no processo final de iniciação, costumavam percorrer até sete igrejas.

- O oxé é a grande ferramenta de Xangô; um machado de dois gumes
"Bahia, meus olhos ainda estão brilhando
Hoje marejados de saudade
Incorporados de felicidade
Fogo no gongá, salve o meu protetor
Canta pra saudar, Obanixé kaô!
Machado desce e o terreiro treme
Ojuobá! Quem não deve não teme!"
- A evocação ao estado da Bahia é certamente referência ao enredo de 1969 do Salgueiro: Bahia de todos os deuses. Naquele carnaval, pela primeira vez, o falecido professor Júlio Machado desfilou como destaque com a fantasia de Xangô do Salgueiro.
- O gongá é uma espécie de altar nas umbandas, onde ficam as imagens das entidades. Nas umbandas, aliás, Xangô costuma ser sincretizado principalmente com São Pedro, São João ou São Jerônimo.
- Obanixé Kawó kabiyèsílé é a grande saudação de Xangô. Algo no sentido de "saúdem o rei que está na terra/na casa".
- Ojuobá é um título de alta dignidade no candomblé, dado a pessoas notáveis e de grande sabedoria na casa de Xangô. Literalmente: os olhos do rei.

"Olori xango eieô
Olori xango eieô
Kabesilé, meu padroeiro
Traz a vitória pro meu Salgueiro."
O refrão! Aqui o bicho pega e o babado é forte. Orunmilá, o orixá da sabedoria oracular e sabedor dos destinos, diz que existem três espiritualidades importantíssimas relacionadas com Olori, que adquirimos antes mesmo do nosso nascimento: Aiama é a espiritualidade que escolhemos no Orum, aos pés de Olofin antes da grande e misteriosa descida para a vida terrena. Orunmilá testemunhou essa escolha.
Ainda no Orum, escolhemos também Akulela; um conjunto de atributos, virtudes, qualidades, defeitos, que carregaremos pela vida. Potencializar os irês (coisas boas) e afastar nossas tendências negativas ao longo da vida é processo que inclui autoconhecimento, boa conduta, consulta ao oráculo e ebó.
E a terceira? Me parece que aí entra o sentido do samba do Salgueiro. É Akuleba, a manifestação em nós das características de um orixá; aquelas que adquirimos na grande viagem que fazemos do Orum (o invisível) ao Ayê (essa vida na terra) nos ventres das poderosas mães.
Conclusão: Olori Xangô é uma fortíssima evocação da espiritualidade de Xangô presente em cada um de seus filhos. No caso do refrão, o grande filho me parece ser o próprio Salgueiro.
Esse samba, do Marcelo Motta, Fred Camacho e parceiros, é quente!




Acessado em08/02/2019

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O samba do Salgueiro


 Acessado em08/02/2019

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O poder do Machado de Xangô - Globo Reporter. Completo


Acessado em08/02/2019
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Copiei de um quadrinho que tenho em casa

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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Plea Bargain !!!


Opinião

Por razões circunstanciais eu assisti a um documentário da Netflix que muito me impressionou. Também assisti a uma entrevista da diretora do documentário concedida à entrevistadora Oprah Winfrey. Uma ótima resenha do documentário.  O documentário da Netflix se intitula “A 13ª. Emenda” (1h 40min) e a entrevista se intitula “A 13ª. Emenda: Oprah Winfrey entrevista Ava DuVernay” (36 min).

O documentário trata da questão racial nos EUA e sobre as sucessivas  adaptações na legislação americana que tem viabilizado a prisão em massa de pretos e pobres. Sobre a formação da maior população carcerária do mundo e sobre o sistema milionário (grandes empresas, inclusive Telecom) que explora e se sustenta com esse cenário.  

O resultado é que 97% da população carcerária americana não foi a julgamento. Os procuradores propõem acordos e intimidam os aprisionados que, sem condições de enfrentarem o sistema,  aceitam 3 ou 4 anos de pena sob a ameaça de serem condenados a 30 ou 40 anos se forem a julgamento. Em muitos casos por crimes que nem cometeram. Nos EUA esse procedimento se chama Plea Bargain, que, em português, significa "pechincha" (acordo para pechincha/regatear).

Trata-se de um cenário que nada tem a ver com justiça. Tanto que muitos são os casos em que o sujeito está atrás das grades porque não tem grana para pagar fiança, enquanto praticantes de delitos idênticos estão libertos só por disporem de recursos.

A referência à 13ª Emenda é porque é ela que estabelece o direito do cidadão ser livre e não poder ser submetido ao trabalho forçado – desde que não seja considerado um criminoso. O que ocorre nos EUA – segundo os pesquisadores – é que essa ressalva propiciou um processo de encarceramento em massa que substituiu a escravidão. Os encarcerados trabalham  forçados em todos os setores da economia americana, incluindo indústria de produtos de alta tecnologia e segurança.

Agora, no Brasil, o juiz de primeiro piso que foi nomeado Ministro da Justiça está encaminhando  proposta que copia praticamente todos os elementos da legislação americana, incluindo o Plea Bargain. Se eu não estivesse, por coincidência, "meio ligado" nesse assunto eu tomaria esses questionamentos apenas como marcação de posição oposicionista. Infelizmente não é assim. Mas, os dados estão aí. Vale analisá-los e formar sua opinião.


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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Nem mosca, nem moda, nem mistério


Opinião

Vivemos em uma ordem política que foi construída apoiando-se basicamente em um determinado modo de produção e de distribuição da riqueza. Uma ordem que é praticamente indiferente às nossas relações culturais, salvo alguma influência da religião que, apesar de sua importância, é apenas parte dos vários elementos que caracteriza a nossa cultura ou qualquer outra.

Eu não concordo com essa ordem política porque ela conflita com os meus valores de relações humanas. Acho uma ordem política covarde e desigual. Ela privilegia uma minoria que se sustenta na exploração e na exclusão da quase totalidade da população. Além disso, é uma ordem política sem qualquer projeto de melhoria desse quadro, ao contrário, aponta para um agravamento do mesmo num processo de crescente exclusão.

Tento me incluir entre os que buscam mudar essa ordem política em todos os seus aspectos, mas acho que, prioritariamente, precisamos alterar as regras de produção e de distribuição da riqueza. Somos uma nação detentora de uma riqueza enorme que nos coloca entre as grandes economias do mundo, contudo apesar dessa riqueza ser produzida por todos os trabalhadores, ela está concentrada em um grupelho. Numa população de 210 milhões de habitantes, as seis pessoas mais ricas concentram, juntas, a mesma riqueza que os 100 milhões mais pobres [1].

Para mudar esse quadro precisamos chacoalhar as nossas relações sociais. Não tem outro jeito! Mas, existem pessoas que não sentem ou que suportam a pressão dessa injustiça social , e temem que a chacoalhada necessária afete as posições em que estão. Elas não discordam de mudanças, desde que tudo continue como está.

Parte dessas pessoas age assim porque pensa no esforço que fizeram para chegar onde estão. Outras acham que estão no limiar de conquistar uma vaguinha na sombra, e há aqueles que acreditam que há vaguinhas nessa sombra para todos. Outras pessoas, apesar de completamente sem esperanças, imaginam que nada é tão ruim que não possa piorar. Finalmente, há o grupelho que está se dando bem, consciente da situação e sabedor, com clareza, que a chacoalhada necessária não será um bom negócio para ele.  O fato é que, ao final das contas, os desejos de todas essas pessoas convergem para a conservação do status quo, isto é, são conservadores.

Mas, a situação não encerra aí. Essas pessoas estendem o seu conservadorismo para todos os demais aspectos da sua vida além do socioeconômico. Esse conservadorismo é tão abrangente que qualquer proposta de mudança, aqui ou acolá, mesmo aquelas que decorrem do desenvolvimento do aprendizado humano e social são rejeitadas. Educação, comportamento, usos, costumes, expressões artísticas, religiosidade, quaisquer que sejam as áreas, as mudanças são tidas como perturbações indesejáveis. Sofrem reações sem sequer serem consideradas. Se essas pessoas vislumbrarem a possibilidade de alguma contrariedade aos interesses que lutam por preservar, até mesmo a democracia é vítima da reação sofrendo golpes parlamentares, atropelamentos jurídicos ou preterida em favor de ideias de conteúdos fascistas. Então, trata-se de um conservadorismo reacionário.

O conservadorismo reacionário criou regras que o justificam. Os seus adeptos usam essas regras ou ideias como se elas fossem verdades absolutas  dissociadas das suas escolhas e descoladas da realidade, ou seja, fazem disso uma ideologia. Nessa ideologia, qualquer coisa que signifique alterar a ordem política é simplificada como  “coisa de comunista”. Os que tentam mudar são comunistas. O comunismo deve ser combatido, não importa qualquer informação sobre que o que vem a ser esse tal de “comunismo”. Faz lembrar o sucesso da Rita Lee nos anos 70 “... ele quer modificar o mundo. Esse tal de Roque Enrow” [2].

O grupelho faz  essa simplificação por malícia, mas a maioria o faz por uma  ignorância decorrente dos cabrestos e antolhos em que eles próprios se deixaram prender, o que não isenta ninguém da responsabilidade de suas escolhas, naturalmente.

Assim, considerando as questões e disputas políticas que nos envolvem e aquelas pessoas das quais tenho discordado, não acho sinceramente que todos sejam adeptos do capitalismo ou que antagonizem de fato as minhas opções comunistas. Não acredito que rejeitem a possibilidade de um mundo melhor ou que queiram piorá-lo. Acho, sim, que são espontaneamente conservadores reacionários. Perigosos como suas escolhas têm demonstrado. Precisam ser combatidos.

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[1]
Seis brasileiros concentram a mesma riqueza que a metade da população mais pobre – Jornal El País – 25/09/2017 – Matéria sobre a concentração de riqueza no Brasil baseada em estudo realizado pela Oxfam – Disponível em <https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/22/politica/1506096531_079176.html> Acessado em 04/11/2018.
Oxfam (Oxford Committee for Famine Relief ) International  - Confederação de organizações reconhecida internacionalmente - atua em mais de 90 países.https://www.oxfam.org.br/
Perfil da Desigualdade e da Injustiça Tributária - com Base nos Declarantes do Imposto de Renda no Brasil  2007—2013. Realizado pela Oxfam e Instituto de Estudos Socioeconômicos – INESC – Brasília – 2016 – Disponível emhttps://www.oxfam.org.br/sites/default/files/arquivos/livreto_injustica_tributaria_pt_v2_web_-final.pdf . Acessado em 30/01/2019.

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Esse tal de Roque Enrow – Compositores Rita Lee e Paulo Coelho - Álbum "Fruto Proibido" - 1975. Disponível em  https://www.letras.mus.br/rita-lee/48508/ – Acessado em 30/01/2019

domingo, 20 de janeiro de 2019

Quem soltou pum?

Opinião


Quem soltou pum vai nascer cabelo na palma da mão ou ela ficará amarela!

Quem não conhece essa brincadeira no Brasil? Ela é praticada com as crianças, e quando isso feito, numa  reação imediata, a criança que emitiu o pum sempre olha a palma da mão num gesto involuntário, confessando a culpa e autoria da flatulência diante da potencial ameaça.

Para quem até agora não entendeu, foi isso que aconteceu com o filho do capitão Bozo. Era o  tal do Queiroz, seu motorista, quem estava na berlinda. O sujeito tinha uma movimentação financeira estranha que foi identificada pelo órgão do ministério da fazenda (Coaf) e comunicada ao ministério público que passou a investigar. Seria um processo de rotina não fossem os personagens envolvidos e as relações entre eles. Mas, o filho do capitão levou um susto e correu para o STF pedindo que fosse suspensa a investigação que certamente o envolveria. Assim, o que era, até então, uma suspeição, um indício, uma possibilidade, se transformou em uma declaração explícita de culpa.

A investigação do ministério público funcionou como uma advertência: quem peidou  ficará com a palma das mãos amarelas ou nela nascerão cabelos! Como uma criança que sabe que é culpada e que não resiste olhar para as mãos, o peidorreiro de fato e recém-eleito senador assustou-se e olhou suas mãos. Correu para o STF alegando suas duvidosas prerrogativas para interromper as investigações, ou seja, assumiu que peidou.

O resto está nos jornais. As prerrogativas sequer existem, as provas, as evidências estão todas já divulgadas e o sistema judiciário brasileiro é o que se sabe. Ninguém mais tem dúvidas. O fato é indiscutível. Todo mundo  sabe nome, sobrenome e cargo do peidorreiro. Parte interessante dessa história é que uma porção de eleitores do capitão Bozo também está olhando as mãos com medo de estarem amarelas ou nascendo cabelos.   ##

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Uma noite de graça

Leituras para distrair


Nas décadas de 50 e 60, minha infância, vivíamos em torno do rádio. Nas décadas seguintes as famílias se aglutinaram em torno da televisão até se isolarem, penduradas nas atuais redes sociais da internet. A programação diária marcava as etapas do dia. A manhã, o horário do almoço, as tardes e as noites tinham como marcos os programas de rádio. As emissoras eram as grandes da época, aqui no Rio. A Nacional, a Tupy e a Mayrink Veiga, essa última fechada pela ditadura de 64. As tardes e noites diárias eram marcadas pela sequência: a oração da Ave Maria que nunca gostei, sempre me pareceu mórbida, o Cavaleiro da Noite, herói de capa e espada com dupla identidade, o violão de Dilermando Reis, o detetive Anjo e Jerônimo o herói do sertão. Depois, o repórter, as novelas e os programas humorísticos, quando não era noite de futebol. Nos finais de semana, lá em casa, Cesar de Alencar e Paulo Gracindo tomavam conta do áudio.

Entre os artistas preferidos, Jamelão era um ídolo. Os programas tinham janelas de horários para os diversos ídolos do rádio. Dalva de Oliveira, Emilinha, Marlene, Ângela Maria, Jorge Veiga, entre outros. Não pretendo resgatar a história, meu objetivo é lembrar Jamelão. Para nós sempre presente porque quando sua voz não estava no rádio as suas melodias estavam no cantarolar do meu pai ou da minha mãe. Mas, especialmente no cantarolar do meu pai – assim incorporei uma admiração pelo artista.

Eu quarentão tive a oportunidade de assisti-lo em uma apresentação de bar. O mestre cantor já estava com idade avançada. Lembrei-me dos desfiles de escolas de samba quando os repórteres de TV, preto e branco,  ainda caminhavam pela avenida procurando ídolos populares entres os desfilantes. Jamelão, sempre com um aparente mau humor, ficou famoso por se recusar a ser chamado de “puxador” de samba – ele era um cantor, intérprete – e fazia questão de distinguir entre “sambistas” e “sambeiros” desqualificando esses últimos que eram aqueles integrantes de última hora, que não viviam o cotidiano das agremiações. Falecido em 2008, ele viveu o bastante para ver que as escolas se transformaram em escolas de sambeiros.

Essa digressão vale por conta do show que assisti no teatro Rival, no Rio, em 17/01/2018, “Um tributo a Jamelão” com as artistas Áurea Martins e Ana Costa - revivendo as gravações do mestre. Simples, sem frescuras, não foi um show biográfico. Um show onde duas maravilhosas artistas exibiram seus talentos e bom gosto interpretando pérolas antes gravadas pelo rabugento e eterno ídolo da Mangueira. Uma preciosidade. Arranjos irrepreensíveis (não me cabe resgatar a ficha técnica do  show) de uma sensibilidade e beleza difíceis de traduzir. Viajei na emoção e nas lembranças.

Em certa época adquiri uma coletânea de CDs de Jamelão para presentear minha mãe. Não foi possível porque a natureza, implacável, determinou sua invalidez e  fim de vida sem o recebimento do presente. Guardo os CDs comigo e ouço, raramente. Ouvindo as interpretações da Áurea e da Ana naveguei no tempo, até a infância. O bom gosto de quem determinou o repertório deve  ser exaltado. O cantar de ambas, em sambas canções que todos acompanhavam, não ficou a dever a nenhum dos grandes intérpretes internacionais do blues americano – não ficaram devendo nada a qualquer das divas mundialmente reconhecidas. Além do mais, tinha a Ana Costa. Uma das vozes mais belas que conheço.

Luis Carlos da Vila, um dos grandes poetas do samba, compôs uma oração em forma de samba. “ “Por um dia de graça”. O samba diz assim: “Chegou o áureo tempo de justiça. Ao esplendor do preservar a Natureza. Respeito a todos os artistas. A porta aberta ao irmão, de qualquer chão, de qualquer raça. O povo todo em louvação por este dia de graça”. Assistir à Ana Costa foi algo assim. Uma noite de graça.

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sábado, 15 de dezembro de 2018

Le combat continue!



Opinião



Chico Alencar terminou seu mandato de deputado federal. Esse foi o segundo ano consecutivo, na avaliação de jornalistas que cobrem o Congresso Nacional, que ele liderou a preferência como o parlamentar que mais bem representa a população na Câmara. Recebeu o Prêmio Congresso em Foco 2018. Um militante que merece reverências ainda  que não tenhamos identidade completa com suas ideias.

Foi candidato ao senado pelo Rio de Janeiro, mas não conseguiu se eleger. A maioria dos eleitores optou por um integrante da família Bozo, alguém que tem estado nos noticiários como participante de esquema que movimentou R$ 1,2 milhão em um ano. Segundo investigações da própria imprensa, o esquema envolve motorista da família e 9 de seus assessores. Todo dia de pagamento os assessores depositavam certa quantia na conta do motorista que, por sua vez, sacava os valores em caixas eletrônicos. Um destes assessores teria passado 245 dias em Portugal, recebendo salário de mais de R$ 5 mil por mês.

Uma troca ruim para o Rio de Janeiro. Valeu a lógica dos eleitores dos Bozos.  A mesma que trocou Haddad  pelo ex-capitão. Conheço alguém que justificou o seu voto para a presidência dizendo “Ele (o ex-capitão) simplesmente é o cara que está no lugar certo, na hora certa”. Certamente uma justificativa medíocre, mas a realidade dos fatos tem dispensado o meu juízo.

Nossa alternativa é seguir lutando. Não apenas no Brasil. Na França, os  chamados “coletes amarelo (gilets jaunes)”, estão nas ruas. Numa mobilização que extrapola a organização sindical e colocando o governo Macron contra a parede. A sequência de manifestações caminha para cinco semanas consecutivas.

Le combat continue!  Parece romantismo, mas é a realidade social. Mesmo lá, no centro europeu a luta ainda continua. Às vezes a nossa autocrítica é de baixa estima. Parece que não levamos jeito pra coisa. E não é sem razão, afinal, votar num governo que viu Jesus na goiabeira supera a imaginação do humorista mais caricato. Mas, esse é o nosso jeito de ser. Muita gente não se dá conta, mas essa é a quinta república francesa, e todas elas foram construídas com muita porrada nas ruas. Temos muito que caminhar.