segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Organização e Mobilização dos Trabalhadores

 Leituras para distrair

Em muitas e significativas áreas, a situação atual da organização da produção traz novas dificuldades e oportunidades para a organização dos trabalhadores. A comunicação com a classe e entre a classe é facilitada, mas ela também é disputada por fontes diversas com diversidades de informações.

As facilidades de comunicação e a pluralidade de informações, características de nossos dias, não levam necessariamente a uma relação grupal. Esse é um fenômeno constatado pelos analistas sociais. Ao contrário, verifica-se hoje um fenômeno de isolamento do indivíduo diante do mundo de contatos e oportunidades potenciais.

Quando os sindicatos, que ainda são os agentes que promovem a organização dos trabalhadores, não se impõem nessa disputa de comunicação, a tendência é o trabalhador perder a consciência da sua posição de classe. Ele nem mesmo sabe o que isso significa.

O trabalhador não fica imobilizado. Ele precisa sobreviver. Então, ele busca  caminhos alternativos e disponíveis para resolver suas dificuldades, ainda que nem sempre escolha a melhor opção.

Esteja ele em sua casa, ou na sua sala, na sua “estação de trabalho”, ou na sua bicicleta, moto ou automóvel prestando o seu serviço, o trabalhador se vê sozinho. E um aspecto fundamental da sua organização como classe – a solidariedade – vai para o caralho!

Não há mais colegas de trabalho. Nem de empresa, nem de sala. Nem de prédio, nem de nada. Sozinho, seja qual for o seu local de trabalho, o sujeito, de qualquer gênero, tem que pensar alternativas para suas necessidades que geralmente não são apenas dele, mas de uma família sob sua responsabilidade.

O trabalhador, ele ou ela, precisa elaborar por si mesmo respostas de classe que estariam no seu repertório de alternativas se ele convivesse com companheiros que experimentam as mesmas necessidades, e se tivesse a oportunidade de saber sobre as respostas que foram dadas por outros trabalhadores que historicamente passaram por experiências similares. É como se o trabalhador tivesse que reinventar a roda.

Infelizmente, alguns acham que estão superando essas limitações. Acham que não só venceram, mas mudaram de classe. Tornaram-se empreendedores. O capital, objetivado na figura do capitalista, do patrão, para quem o estágio atual da organização da produção sorri favoravelmente, estimula essa ilusão do trabalhador, ao mesmo tempo em que retira os seus direitos trabalhistas.

Afinal, diz o patrão, agora corremos juntos! Já não tenho a obrigação com férias, carteira de trabalho, décimo terceiro salário, auxílios de saúde, de alimentação ou fundos de aposentadoria! Somos até concorrentes, vivemos as mesmas dificuldades! E muitos trabalhadores passam recibo de babacas acreditando nessa história.

Mas, o canto de sereia do capital não seduz apenas os trabalhadores. São muitos os dirigentes sindicais que por ignorância do contexto, por incompreensão do seu papel ou até por malícia, por peleguismos puro, acomodam-se na ideia de que não há o que fazer, em vez de avançarem nas tentativas de entendimento da situação e na busca de possibilidades de superar as dificuldades. Esse é o retrato de parte significativa da atual crise sindical.

Nos centros urbanos, nas grandes empresas e fábricas que permanecem como os pontos focais de organização dos trabalhadores,  já não existem as grandes movimentações de entrada e saída de seus expedientes ou nos seus intervalos refeições.

Deixaram de existir os pátios de concentração, e a própria presença no local está rareada com a possibilidade do home office. Mas, isso não quer dizer que os trabalhadores tenham desaparecido ou que deixaram de se constituir como classe. Há, sim, uma mudança na organização da produção que impõe mudanças nos mecanismos de organização dos trabalhadores, mas o mundo ainda é o resultado da força de trabalho.

Para reunir essa força não há receita de bolo, não tem mágica, e nunca teve. O capital mudou a forma de fazer valer sua ideologia, temos a responsabilidade de encontrar a nossa.

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domingo, 8 de dezembro de 2024

Força de Trabalho, Exploração e Lucro

Leituras para distrair

No modo de produção capitalista, o trabalhador não vende o seu trabalho. Ele vende a sua força de trabalho por um salário e por uma jornada acertada entre as partes, e o comprador, o patrão, se apropria da mercadoria que a força de trabalho produzir durante o tempo a que tem direito.

Essa relação salário x força de trabalho  que é legalmente aceita, faz parecer que o salário representa uma troca  de dinheiro por trabalho quando não é isso que ocorre, isso é uma ilusão.

Não se trata de uma compra do “trabalho” em troca de salário, mas a compra do direito de uso da “força de trabalho” por um determinado tempo, uma jornada. Cotidianamente tratamos o salário como se fosse o pagamento do trabalho quando o salário é o preço da venda da força de trabalho. Trabalho e força de trabalho são coisas distintas.

O capitalista, patrão, comprador da força de trabalho, pode também comprar diversas outras mercadorias e armazena-las (materiais, ferramentas, máquinas, instalações etc.). Não faria sentido, mas deixadas por si, elas ficarão alocadas onde estiverem e do jeito que estiverem, pelo tempo que forem deixadas lá, e sujeitas ao desgaste natural dos materiais de sua composição.

Podem até serem valorizadas no mercado de trocas se houver escassez de algumas,  mas a tendência e probabilidade maior é o desgaste e desvalorização. Elas não produzirão nenhum outro valor.

Contudo, se o tal comprador, capitalista, reunir certas mercadorias com a mercadoria força de trabalho que ele também tenha comprado, outras mercadorias poderão ser produzidas, e o capitalista poderá levar essas novas mercadorias ao mercado de trocas para vende-las.

A nova mercadoria, produto do uso da força de trabalho, é trocada ou vendida a por um preço maior – geralmente bem maior - do que aquele que o trabalhador recebeu pela venda do uso de sua força de trabalho (esse é o objetivo).

O capitalista então faz a compensação de todos os seus gastos, incluindo os salários que pagou, e se apropria do excedente chamando-o “lucro” que ele sempre buscará aumentar (a rigor, a busca do capital é sempre maximizar uma relação chamada “taxa de lucro”).

A criação de uma nova mercadoria que pode ser vendida por valor maior que o empenhado pelo capitalista na aquisição de meios de produção e de força de trabalho, só é possível pela característica especial da força de trabalho. Só ela – a força de trabalho - é capaz de fazer um novo valor acontecer.

Contudo,  esse mecanismo não é tão evidente. Geralmente, nem o próprio trabalhador ao se deparar com a mercadoria que produziu reconhece nela o seu trabalho. E essa alienação é tão significativa que, em geral, olhamos em volta para as coisas do mundo sem refletir que cada uma delas, sem exceção, salvo os elementos da natureza, só existe porque há na sua composição o trabalho humano, o produto da força de trabalho de alguém ou de muitos.

Essa distância, essa alienação,  entre o trabalhador e o produto da sua força de trabalho, ou seja, o seu trabalho efetivado, passa a impressão que o mundo material existiria sem o esforço do trabalho humano. E uma impressão que, apesar de falsa, é cada vez mais forte nesses tempos de internet, redes sociais, plataformas de trabalho e inteligência artificial.

O programa computacional mais bem elaborado, a máquina mais sofisticada e inteligente ou a cachaça mais saborosa não existiriam sem a força de trabalho humano.

Essa ilusão ignorante interessa a um dos lados da luta de classes: o capital. A aparência que o lucro surge por si só, do nada, com vida própria, como um parto virginal, sem cópula, é conveniente na medida em que esconde o mecanismo de exploração da força de trabalho.

Sob outro olhar (o “nosso”), na medida em que o trabalhador nada recebe desse excedente que só a sua força de trabalho é capaz de produzir e produziu, aquilo  que o capitalista chama de lucro, trata-se de fato de um mecanismo de exploração. É a parte do produto do seu trabalho que o trabalhador não recebe, embora, vale insistir, ele tenha negociado legalmente a venda da sua força de trabalho ao preço de um salário.

Na história da economia (economia capitalista seria um pleonasmo), até hoje, há mais de 150 anos, apesar das várias tentativas, nenhum teórico conseguiu apresentar outra justificativa para a origem do lucro.

Karl Marx, que dedicou parte significativa de sua vida ao estudo dessas relações, desvelou esse mistério, tão conveniente para os capitalistas, e registrou seus estudos e anotações que se desdobraram em 3 volumes sob o título geral “O Capital - Crítica da Economia Política”.

Não é por outro motivo que os economistas clássicos odeiam o velho Mouro e tentam disfarçar suas formulações e excluir suas análises e conclusões, embora nunca tenham conseguido.

A pergunta “de onde vem o lucro?” deixa economistas e capitalistas apavorados. Por isso, fogem do Mouro como o diabo da cruz. ### 

sábado, 7 de dezembro de 2024

Classe e luta de classes

 Leituras para distrair

O que caracteriza a classe no capitalismo não é o fato de se trabalhar num mesmo prédio, numa mesma empresa, ter um mesmo patrão, realizar a mesma atividade, nem mesmo a grana que se recebe como salário.

O pertencimento de classe é determinado pelo papel do indivíduo no modo de produção vigente. Quem vende a sua força de trabalho como a única mercadoria que possui para levar ao mercado de trocas e poder sustentar suas necessidades pertence a classe chamada trabalhadora que, em outras épocas, foi chamada de proletariado.

Quem compra o direito de uso dessa força de trabalho pagando um preço chamado salário, e se apropria do produto do uso dessa força, é membro de outra classe. Esse comprador é um patrão e pertence a classe capitalista que tem também outros integrantes conforme os seus papeis no mecanismo de circulação do capital.

As classes não são homogêneas. Há diversidade de situações e de interesses entre seus membros. Tanto um gerente de alto escalão em uma grande empresa e que recebe salário altíssimo, quanto aquele empregado de salário mais humilde e que recebe uma merreca na mesma empresa, ambos pertencem à classe trabalhadora.

O dono de uma carrocinha de pipoca que paga salário a um menino como empregado ajudante, está na posição de um capitalista. Um médico que trabalhe para um hospital, mas que também tenha um consultório próprio com empregados para limpeza, atendimento enfermagem etc. estará no papel de membro da classe trabalhadora como empregado do hospital, e no papel de capitalista enquanto dono do consultório.

Um aspecto importante dessa relação de compra e venda: salário x força de trabalho é que se trata de uma relação de troca legal, regulamentada e socialmente aceita por ambas as partes. Não se trata de um roubo ou burla, embora em quase a totalidade das vezes haja um enorme desequilíbrio de poder na relação e no estabelecimento de seus termos.

Outro aspecto, talvez fundamental dessa relação,  é que o trabalhador não vende o seu trabalho. Ele vende a sua força de trabalho sobre a qual o comprador passa a ter o direito uso como qualquer outra mercadoria que tenha comprado, assim como o trabalhador faz o que quiser do salário que receber pela venda.

Na medida em que o comprador (capitalista) também possui materiais, ferramentas, instalações e outros recursos ele põe em ação a força de trabalho que comprou e se apropria da mercadoria que essa força produzir durante o tempo a que tem direito.

A força de trabalho vendida pode ser de qualquer natureza. Manual ou intelectual. O trabalhador pode ter qualificação profissional ou não. E a atividade pode ser exercida em qualquer ambiente – num escritório, numa oficina, na rua ou mesmo na residência do trabalhador - com ou sem o auxílio de ferramentas ou instrumentos que, por sua vez, podem até ser da propriedade e responsabilidade do trabalhador (situação ideal para o capitalista).

Desse modo, quem pertence a classe dos trabalhadores  certamente tem interesses comuns com outros integrantes da sua classe, ainda que não estejam todos reunidos no mesmo local, vestindo uniformes idênticos, trabalhando para um mesmo patrão, na mesma empresa, ou assentados em diferentes situações econômicas.

Não é preciso desenhar para se concluir que esses interesses conflitam com os interesses dos capitalistas. Não porque uns sejam “bons” e outros “maus”. O pertencimento de classe não é uma questão de separação entre boas e más pessoas. Não se trata de uma relação moral nem ética. Os interesses são naturalmente conflitantes porque o modo de produção capitalista funciona assim.

Esse conflito é chamado de luta de classes e não é uma invenção de sindicalistas, socialistas ou comunistas. A luta de classes é uma decorrência lógica das relações da produção capitalista que a classe de maior poder sempre tenta esconder porque assim esconde a sua posição privilegiada na relação.

A evolução tecnológica das ferramentas, máquinas e instrumentos de produção, ou seja, dos meios de produção, modificou completamente a imagem tradicional de classe trabalhadora como grupo de empregados reunidos no galpão de uma fábrica realizando atividades orientadas por uma hierarquia de monitores, supervisores, gerentes ou coisa que o valha.

As modificações são de tal ordem que há mesmo o caso de trabalhadores nem se reconhecerem como integrantes de sua classe. Esse “não reconhecimento” já existia no caso de trabalhadores com diferentes status econômico. Sempre foi o caso dos empregados de altos salários e aqueles que ganham merrecas. Mas,  a evolução tecnológica trouxe novas situações. Há trabalhadores que se imaginam como capitalistas, empreendedores ou “prestadores de serviços” quando, na verdade, estão no limite máximo das aspirações do capital, ou seja, apropriar-se do produto do seu trabalho ao menor custo possível.

O fato é que a realidade tomou outros aspectos, mas as relações de produção permanecem porque elas são inerentes ao capitalismo. A luta de classes existirá enquanto existirem as classes, e essas só deixarão de existir quando o modo de produção capitalista for superado.

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sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Gostaria de aliviar, mas não tem clima pra isso!

 Opinião

 

Ouvimos, vemos e lemos sobre a crise climática, mas para nós, leigos, além dos aspectos concretos da própria crise, enchentes, secas, queimadas, furacões,  não é muito fácil a compreensão e assimilação do tamanho dessa coisa.

Sabemos que um dos principais aspectos da crise é o aquecimento do planeta decorrente da alta concentração de certos gases na atmosfera levando a níveis indesejados aquilo que deveria ser nossa proteção natural, o tal do Efeito Estufa.

São vários os gases que provocam o efeito estufa, mas o principal deles é o  dióxido de carbono (CO2) emitido principalmente pela queima de combustíveis fósseis e pelo desmatamento. E para quantificar em uma medida única a emissão de diferentes gases de efeito estufa (GEE) criou-se o termo dióxido de carbono equivalente (CO2e).

Atualmente, considera-se que o CO2 seja o principal responsável pelas emissões mundiais de gases de efeito estufa (GEE) que bateram novo recorde em 2023 e chegaram a 57,1 bilhões de toneladas anuais de dióxido de carbono equivalente (CO2e), sendo o Brasil  o sexto maior emissor de gases de efeito estufa do mundo. [1].

Na reunião da COP21, em 2015, em Paris, o mundo concordou em limitar o aquecimento global a 1,5°C em comparação com os níveis pré-industriais. Para tanto, a ciência diz que as emissões de GEE devem ser reduzidas em mais de 40% até 2030. 

Segundo um relatório de outubro de 2024 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, ainda é tecnicamente possível atingir a meta de aquecimento global do Acordo de Paris. Se não for assim, o mundo chegará a um aumento catastrófico da temperatura de até 3,1°C. E, ainda, mesmo que os  compromissos atuais para 2030 sejam cumpridos (e não estão) o aumento da temperatura seria de 2,6 a 2,8°C.

As nações devem se comprometer coletivamente a reduzir 42% das emissões anuais de gases de efeito estufa até 2030 e 57% até 2035, ou a meta de 1,5°C do Acordo de Paris desaparecerá dentro de alguns anos, o que traria impactos devastadores para as pessoas, o planeta e as economias. O bicho não está pegando, ele já pegou! [2]

Façamos, então, uma consideração a partir desse quadro super geral:

Imagine o mundo hoje. O tanto que o planeta está fumegando e o tanto que precisaria ainda fumegar para, no mínimo, fazer avançar as demandas das enormes populações carentes e desatendidas pelas distorções onde 15 da população mundial acumula dois terços de toda a riqueza do mundo.

Imagine o que significa provocar uma redução de 57% (mais da metade) das emissões num prazo de 10 anos (até 2035). Faça-se a aproximação que se achar necessária. A ordem de grandeza dessas quantidades não se altera.

Isso seria (ou será?) como a necessidade de dar um cavalo de pau, uma freada com freios mecânicos e de mão acionados, num automóvel se deslocando a 300 km por hora. Uma tentativa de praticamente parar o mundo.

Claro que há viabilidade técnica, mas não é disso que se trata. Trata-se de política. E vemos nos noticiários os representantes governamentais desse planeta capitalista, na maior cara de pau, assinando termos, acordos e promessas como se tudo já estivesse acordado e combinado com sua alteza  “o Capitalismo”.

São quase 60 bilhões de toneladas de CO2e despejados na atmosfera  por ano, praticamente o dobro desde o ano de 1990, e os caras assinam promessas de reduzir esse despejo em mais de 50% num prazo de 10 anos. Me engana que eu gosto!

E alguns de nós é que somos apontados como sonhadores românticos ou ridículos  quando insistimos em nossas convicções sobre o socialismo e sobre a necessidade de enfrentar, lutar e superar o capitalismo.

Até mesmo alguns companheiros engajados acusam-nos de esquerdismo quando cobramos do governo Lula um enfrentamento mais assertivo com o capitalismo, sem perceberem que o tempo de preparação da revolução já passou.

Grande parte da população, incluindo alguns companheiros de luta, assiste passiva e credulamente a TV mostrando os sorridentes representantes do capital prometendo que abrirão mão de seus lucros e que darão o cavalo de pau no mundo para a necessária redução de bilhões de toneladas de GEE.

Afinal, quem são os sonhadores nessa história?  #####

 

[1] https://revistapesquisa.fapesp.br/producao-de-gases-de-efeito-estufa-cresce-13-no-mundo-mas-cai-12-no-brasil/

 

[2] < https://www.unep.org/pt-br/noticias-e-reportagens/comunicado-de-imprensa/nacoes-precisam-fechar-enorme-lacuna-de-emissoes-em>

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

São Gonçalo - 445 anos

 Leituras para distrair

 

Semana passada, 22/09/2024, a cidade de São Gonçalo (RJ) – onde nasci e cresci - comemorou 134 anos desde que foi elevada à Vila e Município desvinculando-se do município de Niterói. Embora oficial, esse é um marco inadequado porque esconde partes importantes e interessantes da história da cidade que já tinha cerca de 240 anos de existência quando foi incorporada à Niterói. A data oficial, só contabiliza a sua existência a partir da chamada emancipação política.

O fato é curioso porque os municípios como o próprio Niterói, Itaboraí e Maricá celebram suas respectivas histórias desde suas fundações como sesmarias. Por esse critério, São Gonçalo é tão quatrocentão quanto os seus vizinhos e nesse ano de 2024 estaria celebrando, então, 445 anos de existência, desde a data da entrega da Sesmaria a Gonçalo Gonçalves – o “Velho”,  em 1579.

As sesmarias estavam na lógica desse câncer histórico que é o latifúndio no Brasil. A coroa portuguesa como forma de ocupar suas colônias concedia o direito de uso, herança, mas não de propriedade, e obrigação de exploração de terras que eram as capitanias hereditárias. Os donatários das capitanias, por sua vez, tinham a prática de dividir suas terras em partes menores, que eram as sesmarias, repetindo a prática de concessão.

A historiadora e pesquisadora Maria Nelma Carvalho Braga, autora do livro  “ O município de São Gonçalo e sua história” – Ed. Apologia Brasil,  fez uma interessante linha do tempo que eu recortei (anexo) da minha edição (terceira edição, ainda independente).

Li a notícia, não posso confirmar, que com os seus trabalhos a pesquisadora conseguiu que a Prefeitura oficializasse a data de 6 de abril, data da entrega da Sesmaria a Gonçalo Gonçalves, em 1579, como marco fundante da cidade.







 

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Bips, Walk Talkies e Meio ambiente

 

Opinião

 

O caso dos bips e intercomunicadores no Líbano e na Síria, de uso do grupo Hesbolah, e que foram explodidos supostamente pelo governo de Israel, são apenas partes visíveis de tantas outras atrocidades bélicas que ocorrem quase cotidianamente e que fogem da nossa imaginação.

As tragédias visíveis, que alcançam as manchetes internacionais, trazem incertezas e inseguranças para as sociedades adjacentes às sociedades alvos, e provocam assombro e curiosidade naquelas mais distantes. Porém, em um e outro caso, o mais comum é que passem a ser banalizados em prazos cada vez menores .

Neste contexto, parece ser uma expectativa inútil e ilusória apostar que uma espécie sequer cuida de si, que se automutila e se autodestrói, na escala em que estamos presenciando, venha a ter algum tipo de cuidado com a preservação da natureza, do meio ambiente e do planeta como um todo

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quinta-feira, 12 de setembro de 2024

História de vinho e fogo

 Leituras para distrair

 

Nesses tempos de insuportáveis securas e queimadas, lembrei uma experiência que já contei algumas vezes, mas não lembro de ter registrado. Uma viagem em Rondônia, anos 80,  seguindo a rota de rádio da Embratel. Fazíamos um percurso de retorno, desde a cidade de Vilhena, sul do estado, passando por Ji-Paraná, até a capital Porto Velho.

Tomando-se como referência o lado brasileiro (Rondônia faz fronteira oeste com a Bolívia),  Vilhena é, ou era, a entrada na região amazônica para quem chega do Sul através do Mato Grosso. Talvez a principal cidade ao sul de Rondônia, na época um estado recém-criado. Para os caminhoneiros, as enormes antenas de tropodifusão da Embratel em Vilhena eram uma referência. Um portal da Amazônia.

A rodovia era ladeada pela floresta em ambas as margens, e seguíamos  desconfortáveis em uma Kombi durante a noite.

Muitas queimadas. O aeroporto de Porto Velho interditado parte do tempo devido a fumaça. A viagem foi assustadora para mim, porque viajamos  atravessando um corredor de fogo durante enorme parte do percurso. O motorista e um acompanhante local viam tudo com naturalidade. Eu me cagava de medo.

As queimadas eram bem afastadas da estrada, mas à noite pareciam próximas e que avançariam sobre nós. O que se via era como dois intermináveis paredões de fogo margeando a estrada, uma visão assustadora que não esquecerei.

Em dado momento, em meio aquele vazio total, deparamos com um posto comercial de parada. Era um restaurante e tinha também outros serviços, mas durante a madrugada estavam fechados, apenas o restaurante aberto. Paramos e eu ansiava por uma bebida que não fosse água nem refrigerante ou suco. O restaurante era grande, de propriedade e administrado por um casal. Foi quando aconteceu o fato inesquecível e razão das lembranças e desse registro.

Eu esperava algo como uma cervejinha mambembe e choca quando a dona abriu uma geladeira – querosene – e sacou uns belos vinhos gaúchos e gelados. Era madrugada, mas a cozinha produziu deliciosos bifes que fizemos desaparecer embalados pelo vinho. Conversa vai e vem, soubemos que o casal era paranaense, uns dos tantos sulistas que ocuparam aquela região da Amazônia. Eram muitos deles.

A parada e o encontro foram agradabilíssimos. Hoje sinto frustração por não ter registro preciso sobre o local ou trecho da viagem. Difícil imaginar que não existia celular e nem  máquina fotográfica disponível naquele momento. Mas, ficou a memória, ainda que com suas imprecisões. Retomamos nossa rota. O fogo já não pareceu tão assustador. Chegando em Porto Velho deveríamos seguir para Rio Branco, no Acre, mas esperamos ainda um ou dois dias até que houvesse condições de voo proibido pela fumaça.

Em tempo: Esses fatos ocorreram na viagem de retorno. Eu escrevi (em 2018) sobre a viagem de ida, num texto que dei o título “ Múmias Incômodas. ” Para quem se interessar, o link é:

https://blogdojorsan.blogspot.com/2018/09/mumias-incomodas.html

sábado, 7 de setembro de 2024

Democracia e Comunicações

 Opinião

Para a galera historicamente engajada no projeto de democratização das comunicações que se estruturou efetivamente no combate contra a privatização das telecomunicações, a atualidade tem demonstrado o enorme prejuízo da desmobilização sindical pós desmonte e venda do sistema Telebrás.

Ao lutar pelo monopólio e pela garantia de um sistema público de telecom , tínhamos uma visão nítida e acertada sobre o valor estratégico das redes, incluindo as tecnologias sem fio e de satélites - que eram o objeto de disputa naquele momento.

Já fazíamos conjecturas sobre as possibilidades futuras dos ainda infantis serviços de comunicações de dados, como eram chamados por nós, embora naquelas décadas de 80 e 90 do século 20 ainda estivéssemos anos-luz distantes e sem a noção do que viriam a ser as redes e serviços criados na camada de aplicações da teleinformática, como a própria internet  e, notadamente, as atuais redes sociais.

Infelizmente, a degradação da organização sindical arrastou consigo os poucos núcleos então formados ou ainda em formação que agregavam às suas opções ideológicas conhecimentos profissionais e capacitação técnica,  certamente úteis na formulação e sugestão de pautas de intervenções, de mobilizações e de lutas por políticas de democratização das comunicações.

Não dá pra voltar a roda do tempo, nem cabe lamentar leite derramado, mas a reflexão nunca será demais e sempre contribuirá para o nosso aprendizado.

O estado da arte das tecnologias, a inclassificável concentração de riquezas, e o surto neoliberal  das privatizações trouxeram-nos ao cenário atual:  as big techs e suas redes, até mesmo um indivíduo, caso notório da rede X, ameaçam e disputam o poder com os Estados nacionais.

Aquilo que antes era tido como papo ininteligível de “ingênuos” tecnicistas, hoje é um poder que se materializou na realidade cotidiana com potencialidade e velocidade de transformações assustadoras.

Tal poder ameaça as estruturas das organizações sociais quando não destrói ou suprime valores e direitos fundamentais para um projeto de independência,  emancipação e libertação da humanidade.

A consigna “a luta continua” – desprestigiada - até parece brincar ironicamente conosco, mas sem outra eu continuo com ela. (Jorge Santos – Rio, 06/09/2024)

domingo, 1 de setembro de 2024

Uma revolta sem heróis

 

Leituras para distrair

 

No século 17 ou no Seiscentos ainda não existiam “brasileiros”. O conceito de identidade nacional é relativamente recente, mesmo no resto do mundo. Naquela época tinha dinastia, rei, império, donatários, metrópoles, colônias etc. A produção de cachaça no Brasil prejudicava os interesses da metrópole portuguesa que emitiu uma Carta Regia proibindo a fabricação e comercialização do produto por aqui, na colônia.

A proibição emputeceu a galera do agro fluminense que se desenvolvia no outro lado da baía de Guanabara em relação à cidade do Rio de Janeiro. Nada pop, senhores de terras e escravos,  mancomunados na atual cidade de São Gonçalo, que então era uma freguesia, organizaram-se a partir da região onde hoje é o bairro Gradim. Atravessaram a poça e promoveram um sapeca iá iá  na cidade do Rio de Janeiro, invadindo a Câmara de Vereadores, depondo o governador interino (o efetivo estava em São Paulo), assumindo o governo da capitania e conseguindo, mais tarde,  revogar as proibições.

A proibição da Coroa portuguesa foi em 13 de setembro de 1649, mas só dez anos depois, em 1659, o governador da ocasião resolveu fazer valer a determinação que seus antecessores ignoraram. O sapeca iá iá aconteceu em 8 de novembro de 1660 e a revogação das proibições foi conquistada em 18 de junho de 1661.

Recentemente, ano de 2021, nosso Congresso aprovou a instituição do dia 13 de setembro como o Dia Nacional da Cachaça, embora, curiosamente, a justificativa do projeto de lei (5428/09) esteja errada em relação às datas dos acontecimentos, mas o projeto vingou.

A Revolta da Cachaça não teve heróis. Foi iniciativa de proprietários de terras, contudo, segundo um importante jornalista e historiador sobre a época (Vivaldo Coaracy) as narrativas reduzem a participação popular que já acumulava descontentamentos com a corrupção do governo (aqui uma novidade: o governador do Rio de Janeiro era corrupto).  Segundo Coaracy:

"... Foi uma verdadeira revolução, em que pela primeira vez no Brasil o povo rebelado depôs um governador ... o simples fato da cidade ter durante seis meses se governado a si própria, exercendo todas as funções administrativas e legais, é suficiente para caracterizar a importância desse movimento.”

A produção e o consumo da cachaça acompanharam o curso do desenvolvimento econômico no Brasil. A produção de açúcar no Nordeste e Sudeste;  a extração do ouro avançando pelos confins mineiros; depois as práticas dos imigrantes açorianos, italianos e alemães que se repetiram no Sul. E a cachaça instituiu-se em todo o país como elemento de uma “cultura brasileira”, parte da nossa identidade, embora pagando o preço dos recalques e discriminações por sua origem popular.

Segundo Câmara Cascudo:

“...a banalização da cachaça foi o segredo-motor de sua sobrevivência. Ficou com o povo, não mais numa quinta fidalga do Minho, e essa força obscura garantiu-lhe a contemporaneidade funcional.”

Gosto dessa interpretação do pesquisador. Com interesses finais e papeis distintos, hoje há um conjunto diverso de atores que trabalham para superar as discriminações e divulgar a cachaça de qualidade como bem cultural, agora brasileiro. A Confraria de Cachaça Copo Furado do Rio de Janeiro está engajada nesse projeto há 30 anos.

 

13 de setembro – 2024 – Dia Nacional da Cachaça

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Copo Furado - 30 anos

 

Leituras para distrair

 

“ Vem cá Brasil, deixa eu ler a sua mão, menino. Que grande destino reservaram pra você. E o Brasil cresceu tanto que virou interjeição. Lá lá lá lá lauê. Fala Martim Cererê

Martin Cererê é um poema ufanista (1928) que o Zé Katimba, em 1972, musicou em um lindo samba enredo para a Imperatriz Leopoldinense,  e que foi tema de muitas controvérsias.

A letra do samba diz que a expressão “ Brasil! ” se tornou uma interjeição de emoção positiva. As chamadas dos programas esportivos da Globo confirmam isso.

Controvérsias à parte, são fenômenos da linguagem. Autores e personagens literários deram origens a adjetivos. Termos como  dantesco, maquiavélico, quixotesco, kafkiano, orwelliano incorporaram-se ao nosso linguajar com maior ou menor popularização. E um desses termos que já foi super popular  é “ balzaquiana ” . Um adjetivo feminino referido originalmente às mulheres com idades em torno dos trinta anos ou passadas deles.

O francês Honoré de Balzac, lá pela metade do século 19, em seu romance “ A mulher de trinta anos “ tornou públicas questões que eram veladas pela moral de sua época. A inutilidade social e frustrações da mulher que atingia os trinta anos, auge de sua maturidade, sem cumprir as formalidades sociais obrigatórias de casamento e constituição de família.

Balzac expôs a opressão que sofriam as mulheres com a interdição de expressarem suas emoções, sonhos e desejos. Infelizmente a caricatura misógina prevaleceu no uso do termo.

Hoje a referência dos trinta anos das mulheres tornou-se quase caricata e foi deslocada na escala etária, contudo são muitos os interditos da época que permanecem e ainda obrigam e mobilizam a organização política feminina.

A Confraria de Cachaça Copo Furado do Rio de Janeiro, em  agosto de 2024, aos seus trinta anos, se faz balzaquiana de maturidade e experiência.

Porém, diferente da personagem Julia d’Aiglemont de Balzac, a Copo Furado celebra, manifesta e proclama seus sonhos e projetos. Ousadia! A Copo Furado chega aos seus trinta anos exuberando vontades e possibilidades, longe da personagem de Balzac.

A Confraria busca ser um centro convergente de pessoas com projetos em torno da divulgação da cachaça de alambique em diversas dimensões, cachaceiros assumidos que expressam suas preferências sem admitir  constrangimentos que não sejam aqueles auto impostos por suas finalidades.

Uma situação inusitada. Poucas áreas de interesse comercial nesse universo capitalista  contarão com uma " confraria " que trabalha para o fortalecimento dessa área sem outras motivações.

Tomara que continuemos assim. Até arrisco dizer que a Copo Furado está criando um novo significado para a expressão Confraria de Cachaça. Gosto disso. Beber unidos é um prazer enorme e sozinhos também! ### (Jorge Santos – Rio, 17/08/2024)