sábado, 19 de junho de 2021

Como sairei daqui?

 

Opinião

Não há saída fora do socialismo! Busquem onde quiserem. Aliás, é bom que se faça porque isso significa pensar. Sair da imobilidade que se satisfaz com a burrice compartilhada.

 

Mas, não haverá saída sem a superação do capitalismo e, salvo apresentem outra, a saída como superação do capitalismo é o *socialismo*.

 

Não há mapas, nem se chegaremos lá por GPS. Chegaremos construindo trilhas, derrubando e destruindo esse espinheiro agressivo e fedorento que enreda, cerca e constrange a sociedade. Que se fecha sobre si próprio tornando a vida não apenas dolorosa, sofrida e fedida, mas impossível e sem futuro.

 

Esse espinheiro sem saída que constrange trabalhadores e também capitalistas é um monstro que adquiriu vida própria e afastada da condição humana: chama-se capitalismo.

 

Vamos, sim, distribuir riquezas acumuladas pela exploração do trabalho alheio, vamos modificar o processo de acumulação, vamos intervir nos ciclos de rotação do capital, vamos cutucá-lo em todas as suas formas. Mas, isso não bastará.

 

Ainda que avancemos nos mecanismos que determinam uma concentração absurda de poder e riqueza contraposta ao aumento cada vez maior da miséria e exclusão, ainda assim, estaremos sem saída enquanto nos organizarmos como uma sociedade que vive em torno da mercadoria.

 

Tudo é mercadoria. Quem não tem alguma mercadoria, qualquer que ela seja, para imolar no altar do deus mercado está excluído. Não participa da sociedade. É isso que precisamos mudar, sob pena de destruirmos as nossas próprias condições de sobrevivência no planeta.

 

Candidaturas ou candidatos, plataformas ou programas, líderes ou arranjos políticos, mobilizações, greves ou agitações, nada merecerá apoio ou suporte se não tiver como referência: _a construção do socialismo com a consequente destruição do capitalismo, e a realização dessa transformação através de mobilizações sociais diretas visando a derrubada das discriminações decorrentes dos antagonismos de classes_.

 

Sem esses elementos as supostas lutas políticas serão quimeras, fantasias. Promessas de mudanças para que tudo fique como está. Aguinha de batata! 


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quinta-feira, 10 de junho de 2021

Dogs de Berlim e viralatas tupiniquins

Opinião

O advento da Netflix deu uma sacudidela no mercado de entretenimento cinematográfico, e um dos muitos efeitos secundários desse fato tem sido a divulgação de aspectos sobre as relações sociais contemporâneas  na Europa central que são interessantes porque vão além do modelo dominante pasteurizado pela cinematografia tradicional americana. 

As produções nada têm de revolucionárias em termos artísticos, adiante-se. Operam com tradicionais clichês da produção capitalista de bens e serviços: arte é mercadoria. 

Ocorre que as oportunidades de outras fontes e de outros focos de ambientação das produções permite a nós, no Brasil, vermos uma Europa até aqui desconhecida, distinta dos tradicionais postais e, surpreendentemente , bem  parecida com  o nosso dia a dia. Quem diria! 

Observo, e convido outros que o façam, que as ambientações e quotidianos sobre os quais os autores desenvolvem suas novelas ou series de costumes, apesar das características especiais: outro continente, outras culturas, outras situações socioeconômicas,  não diferem, em essência,  praticamente nada do que ocorre hoje, junho de 2021, nas grandes cidades brasileira, notadamente Rio e São Paulo. 

Alguém apressadamente poderá replicar que a escala é outra, mas a tréplica também é imediata: como medir? 

Quem quiser pode buscar na TV. As exibições são temporárias, mas  se repetem. Arte e refinamento não são suas especialidades. Como as novelas nacionais, repetem dramas mixurucas e sem criatividades. Mas, também como aquelas novelas, retratam em panos de fundo a realidade de modos e costumes locais. 

Uma dessas produções, que parece ainda estar em cartaz, tem o título: Cães de Berlim. Revela assustadoramente para os desavisados que em uma das mais modernas cidades do mundo, no século XXI,  há espaços com obstáculos físicos que são verdadeiras fronteiras entre o público e o privado. Territórios proibidos ao trânsito pedestre ou automotivo, incluindo a polícia. Bairros inteiros onde a polícia sabe que não tem jurisdição e nem pode realizar intervenções. Onde a lei e determinada pela gang ou milícia local. Soa familiar? 

Apartação social; a formação de guetos; discriminações xenófobas, de costumes, de religião, de raça e origens; a formação de poderes locais; limitação do poder do estado com territórios e fronteiras limites de poder; a exploração da miséria e necessidades humanas; o tráfico e a escravização de seres humanos; a promiscuidade entre os poderes informais e o político institucional sustentada pela corrupção – tá tudo lá, naquela europinha clean, objeto do encanto, desejo e dos uivos lamentosos dos capturados pelo complexo de viralatas. Alguns que até acreditam que esse é um mal de raiz tupiniquim,  deformação congênita irreversível que só se resolveria se a nossa sociedade fosse apagada da história para outro recomeço. 

Claro que é mais difícil para nós. Além do peso da nossa própria história e experiências políticas, sofremos carências econômicas que não se comparam, sem contar a situação política contemporânea nacional e internacional que subsume nossos destinos a outros contextos. Mas, também não avançaremos enquanto cultivarmos esse complexo babaquinha de incivilizados. Sentindo-nos menores porque por aqui um calhorda corrupto está no parlamento, na presidência ou  designado para uma embaixada no exterior, enquanto embasbacados vemos – na corte - ministros ou ministras, todos com carinhas responsáveis, indo trabalhar de ônibus ou de bicicleta, ou que são encontrados nas filas da padaria ou dos caixas eletrônicos, como “ gente comum ”. 

Ministros rosadinhos, administradores de países e cidades europeias ou nórdicas. Envoltas numa natureza bem cuidada e de beleza indescritível, sob as quais abrigam as imundícies de moderníssimas fábricas de psicotrópicos industriais, as maiores do mundo, que abarrotam o mercado internacional pervertendo crianças, jovens, adultos, idosos.


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terça-feira, 20 de abril de 2021

Fratelli Tutti

Opinião 

Em outubro de 2020, tempos de pandemia, o papa Francisco publicou a encíclica “ Fratelli Tutti (sobre a fraternidade e a amizade social) “. Comprei o meu exemplar na loja da Editora Paulinas, no centro do Rio, ali na Rua 7 de setembro.

Um aspecto curioso é que a oferta de publicações da loja da Paulinas reflete um pouco o clima circunstancial das autoridades católicas no poder (o que não deve ser confundido com a organização estrutural da Igreja - essa é secular). Para quem não busca publicações exclusivamente religiosas, em tempos de um papa com ares progressistas há o que se achar de interessante na loja. Em outras ocasiões será uma busca vã.

Durante certo tempo, eu e um amigo querido tínhamos como imperativo buscar o lançamento dos calendários que destacavam datas com referências históricas às lutas sociais e de trabalhadores do Brasil e da América Latina. Os tais calendários não existem mais.

Bem conservador, fiz questão do meu exemplar em papel e comprei, mas a Carta Encíclica pode ser acessada em pdf (link baixo) e eu recomendo a sua leitura.

O papa Francisco está longe de ser um revolucionário, nem mesmo sei se ele atua como reformador entre seus pares e no âmbito da Igreja. Não conheço o suficiente. Mas, considerando o absurdo cenário sociopolítico em que vivemos, até ele desponta como uma referência importante de reação ao status quo.

Recentemente, em uma missa no Vaticano quando celebrou o “ Domingo da Misericórdia”, o papa comentou sobre a necessidade de partilha de bens, e destacou sobre sua mensagem “Isso não é comunismo, mas puro cristianismo”.  Alguém que conheço divulgou o assunto com a seguinte observação:

 “ Com um papinha igual a esse, a gente dispensa as intervenções de Lúcifer.”

A observação me incomodou, porém achei mais importante refletir sobre as suas inúmeras possibilidades de significações do que supor uma interpretação exclusiva, tentando adivinhar  o que terá passado pela cabeça de quem comentou.

Para mim, os posicionamentos que tenho visto do papa Francisco parecem estimular o resgate de importantes práticas sociais de religiosos católicos nos tempos difíceis da ditadura assassina de 64. Não sei se isso chega a acontecer, mas acho que o tal “papinha” tem apontado numa boa direção.

Quanto à dispensa do Lúcifer, se a atuação do anjo  caído contribuir para a construção de uma sociedade fraterna e de amizade, sem a exploração do homem pelo homem, ou seja, com a abolição do capital e superação do capitalismo, não serei eu quem sairá em passeata contra e nem dispensará os direitos do chifrudo intervir na realidade social.   #####

 

https://portalkairos.org/arquivo-portal/carta-enciclica-do-papa-francisco-fratelli-tutti-para-baixar/  (acessado em 20/04/2021)





Uma foi ruim, duas será demais

Opinião 

Um segundo voto no Bozo, desconsiderando que a situação atual do país é consequência direta do seu voto anterior, não será um erro de opção, mas uma declaração explícita dos seus valores.

As notícias - verdadeiras – estão divulgadas em fontes diversas na web de hoje:

Uma jornalista nacionalmente conhecida através das redes de TV divulga em tweeter um “plano de Lula para matar o Bozo”, e um pastor evangélico divulga também em redes sociais que reza pela morte de um ator nacionalmente conhecido e que está acometido de Covid porque o ator é homosexual.

 

PUBLICADO EM "ISTOÉ GENTE"

Leda Nagle propaga fake news sobre plano de Lula para matar Bolsonaro e se desculpa

A jornalista Leda Nagle usou suas redes sociais para se desculpar após reproduzir uma notícia falsa. Em uma live, a mãe de Duda Nagle e sogra de Sabrina Sato ‘revelou’ um suposto plano do ex-presidente Lula para matar Jair Bolsonaro (sem partido).

 Pastor é processado por orar pela morte de Paulo Gustavo

“ Eu oro para que o dono dele o leve para junto de si”,  disse o pastor nas redes sociais. A publicação foi apagada após pós a repercussão negativa.

 

https://istoe.com.br/leda-nagle-propaga-fake-news-sobre-plano-de-lula-para-matar-bolsonaro-e-se-desculpa/ -  (acesso em 20/04/2021)

https://istoe.com.br/pastor-e-processado-por-orar-pela-morte-de-paulo-gustavo/?testelink - (acesso em 20/04/2021)


sábado, 3 de abril de 2021

Chance perdida

 Opinião

 A entrevista de Lula na TV Bandeirantes, no dia 01/04/2021, para desespero dos seus opositores, transformou-se em um fato político importante no Brasil e com repercussão até no exterior. Além dos noticiários locais, simpatizantes e antipatizantes de Lula ocuparam redes sociais com observações e, como era de se esperar, muitas das análises tratam das diferenças entre Lula e a maior autoridade política do país que é o presidente Bozo.

 As diferenças saltaram aos olhos. A desenvoltura e o tratamento dos temas por um líder político de importância internacional, em contraponto aos estertores de um chefete de milícia levado ao cargo de presidente da república como efeito de um golpe jurídico parlamentar. Um presidente que diante das questões políticas nacionais não faz ideia se elas são de comer, de beber ou para passar no cabelo.

 A comparação é impossível, apesar da gritante diferença. A aritmética não permite a divisão por zero. Quantas vezes algo é maior que a nulidade? A matemática trata como uma indeterminação.

 Os que vêm Lula como uma representação satânica do PT fazem acusações genéricas de crimes que ele teria cometido ou praticam replicações bobinhas de mensagens desprovidas de qualquer consistência política, quando não são fakenews sem qualquer crítica.

 Fariam melhor se, em vez desse esperneio infantil, encaminhassem as evidências das acusações que fazem para autoridades que certamente desejariam desesperadamente tê-las em mãos. Afinal, praticamente todos os instrumentos de Estado têm sido utilizados com o objetivo de incriminar o sapo barbudo, e o máximo que conseguiram foi montar a armação farsesca conduzida por um juiz ladrão e uma trupe de procuradores moleques que  afastou Lula da disputa eleitoral em 2018.

 Há os que tentam colocar Lula e o Bozo em posições extremas de oposição criando um falso dilema, como se fossem alternativas igualmente contraditórias e insatisfatórias. Essa é uma boa tática, tentar colocar Lula e Bozo no mesmo saco. Ela decorre da impossibilidade de qualquer defesa justificável do ex-capitão boquirroto e do efeito nefasto que seu mandato tem representado para o país. Colocar tudo no mesmo saco transforma uma briga em confusão. As responsabilidades não se distinguem, todo mundo é culpado.

 Ocorre que essa tentativa de polarização, abstraída de um debate sério das questões políticas, só se imporá se for suportada por intensa propaganda. Isso porque a realidade e as experiências dos governos são históricas e públicas, e  insistir nessa visão é negar os fatos que, aliás, se evidenciam com a presença de Lula no quadro político.

 A direita faz um papel correto quando, diante do “caos Bozo”, tenta deslocar Lula como alternativa eleitoral em troca de outras. E foi isso que representou o tal Manifesto pela Consciência Democrática assinado por seis potenciais candidatos à presidência em 2022.

 Esta sim, foi uma iniciativa efetivamente política, concorde-se ou não com os seus representantes. Bem distante do comportamento pecuário bozominion. Contudo, com a  perspicácia que lhe é peculiar, Lula rebateu , no ato:

 “Todos eles tiveram a chance em 2018 de deixar a democracia garantida votando no Haddad. Essa gente preferiu votar no Bolsonaro".

 Lembrei-me dos carregadores de fubá em local onde trabalhei, e que em meio a árdua tarefa de carregar uma carreta com toneladas de derivados de milho, conseguiam brincar entre si, sem quaisquer escrúpulos ou restrições morais. Enquanto um sujeito estava ocupado equilibrando na cabeça pacotes de farinha que chegavam a 80 quilos, outro já livre da carga passava a mão na bunda do sujeito ocupado.

 O que estava ocupado, invariavelmente, questionava o “tarado”: Quando você nasceu passou pertinho de um cú, por que não aproveitou e comeu?

 A resposta de Lula caiu como uma luva. Faria inveja ao Brizola.  

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segunda-feira, 29 de março de 2021

Dia de luz, festa de sol

 Leituras para distrair

 Um amigo me sacaneou dizendo que logo eu acordasse iria teorizar sobre a influência das relações no Oriente Médio e encalhe do cargueiro no canal de Suez. Não tenho essa capacitação, mas assumo que seria um bom tema. Ainda assim, em tempo de coronavírus e na iminência de uma primeira dose de vacinação, deixei-me entrar na pilha, curtindo o tempo com o regate de algumas lembranças, longe de atender às expectativas do amigo sacana.

 Aos 16 anos conheci uma figura que estava voltando de Suez (Egito) onde fazia parte das tropas militares  brasileiras sob o comando da ONU, um conchavo internacional para garantir  o controle do canal que tinha sido nacionalizado pelo governo egípicio na década de 50 do século 20.

 As forças militares na região estavam sendo desativadas (anos 60).  Lembro da data porque na ocasião eu troquei de emprego, e o contato com aquela figura que estava voltando de Suez fez parte dos novos relacionamentos no novo ambiente.

 Eu tinha curiosidade em saber sobre o assunto porque a ignorância era total e não existiam possíveis fontes de esclarecimentos. O fulano que retornara era mais ignorante do que eu. Não fazia ideia do que esteve fazendo lá, e sentia-se confortavelmente instalado em sua ignorância. Lamentava apenas  a perda da grana que recebia e que lhe permitia coçar o saco, sem trabalhar durante certo período. Aliás, os carregadores de fubá do depósito onde eu trabalhava puseram-lhe o apelido de “Fulano 99”. Diziam que se ele continuasse assim, preguiçoso e sem fazer porra nenhuma, iria durar 99 anos.

 Na mesma época, havia conhecidos  mais velhos que estavam designados para integrar as forças militares da OEA que ocuparam a República Dominicana. A intervenção dava uma cara de legitimidade à recente invasão americana no país em nome do combate ao comunismo e para evitar o controle do poder por um governo de esquerda.

Também nesse caso a minha ignorância era absurdamente grande. Os caras que eu conhecia e que estavam por lá (São Domingos) eram todos irmãos mais velhos de colegas da minha idade. Nenhum sabia nada sobre o papel que estavam desempenhando.

O nosso interesse era grande porque os colegas recebiam cartas dos irmãos mais velhos contando as maravilhas de estarem em um local onde o sexo era abundante e com menininhas, novinhas,  que chegavam a ser oferecidas por parentes próximos, como irmãos e primos, em troca de poucos dólares. Bugigangas americanas eram compradas a preços baratíssimos, e o acesso à uísque e cigarros estrangeiros era irrestrito.

 Meninos, adolescentes, não fazíamos ideia do que representava aqueles relatos.  Cada grupo que retornava trazia pacotes de cigarros americanos,  bebidas, aparelhos eletrônicos,  dólares  e novos relatos sobre a miséria e desagregação social em um país ocupado, que para nós era o relato de um paraíso. Despertava a inveja de não poder estar lá.

 Em nossos grupos e ambientes, mesmo no colégio, não havia quem nos informasse sobre o significado daqueles fatos. ONU, Suez, São Domingos, OEA era tudo uma merda só, desconhecida. A esses termos somaram-se outros, estes mais conhecidos: Parliament, um cigarro com um filtro completamente diferente do que conhecíamos, e Half and Half,  outro cigarro que exalava um fedor que empestava todo ambiente quando aceso.

 Meu amigo sacana talvez fique frustrado, mas com as notícias do barco encalhado não vou além das lembranças daqueles tempos de ignorância e da alegria de ter superado parte delas, ainda que pequena.

 O atolamento do barco é simbólico. Estamos atolados socialmente. Contudo, se eu fosse capaz,  discorreria sobre o o ridículo e irônico daquelas imagens de uma embarcação de 400 metros, lotada de containeres, a região em volta completamente esmerdalhada pelo  congestionamento de navios, e o paredão lateral do barco pintado com letras enormes: EVERGREEN.

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segunda-feira, 22 de março de 2021

O pecado e a fome. Coisas dos home

 Opinião

O devorador de pecados é um mito. Não sei a origem, detalhes nem coisa que o valha, apenas sei sobre o mito. O devorador é alguém que, em ritual, absorve os pecados de outros e alimenta-se deles. Quem nunca soube, sugiro que busque saber.

 “ Sou um filho da puta! ”  Contudo,  tenho a alternativa de repassar os meus pecados para um devorador de pecados. Em alguma etapa do ritual, o pecador sussurra no ouvido do devorador as merdas que fez e... foda-se o resto. O devorador que cuide das consequências. 

Acho que, afinal,  esse é o fundamento do atributo de mito  concedido ao presidente Bozo. Incapaz de articular qualquer sentença lógica, seu rebanho muge numa tentativa exasperada de expiação de seus pecados que o mito devora. Alimenta-se deles. Ambos se satisfazem. Complementam-se. 

Deve ser constrangedor para o pecador, ainda que seus pecados tenham sido devorados pelo mito, tratar suas relações cotidianas: familiares, afetivas, sociais, profissionais, etc. Nos círculos próximos é inevitável que algum impertinente, infantil ou não,  pergunte: "Afinal, em quem você votou?"

Não sei como os caras respondem, no máximo faço suposições. Imagino alguém respondendo ao filho ou neto em uma mesa de refeições ou encontro de família:  “ Votei no Bozo, mas estou livre porque ele devorou meus pecados”. 

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sábado, 6 de março de 2021

Bacurau

Leituras para distrair

Trocando mensagens com um querido amigo ele usou a expressão “Comigo não, bacurau ! ”. E isso foi o mote para esticarmos conversa sobre a palavra “bacurau”. Segundo esse amigo, “... só quem tem raízes telúricas conhece e já viu o bacurau”, e ficou de recuperar uma crônica de autoria do seu avô paterno intitulada “O bacurau” que ele guarda entre relíquias da família.

 Engraçado que para a web, hoje, é preciso distinguir o termo bacurau entre a  “ave” e o “filme”. O filme é uma produção nacional de 2019 sobre um povoado do sertão brasileiro explorado por um chefe político local que chega a tirar a cidade do mapa e a contratar matadores profissionais para dizimar os moradores em nome dos seus interesses. A trama se desenvolve narrando a reação dos moradores.

 A ave é uma de hábitos noturnos que, por esse fato e sua própria aparência, às vezes é confundida com a coruja, embora não haja parentesco entre os dois tipos de pássaros. Tem um canto curioso que parece falar “amanhã eu vou!”, e há uma lenda associada ao canto do bacurau. Vale procurar saber.

Quando menino caçávamos passarinhos em um sítio/fazenda num bairro de Saigon, chamado Monjolos (para o pessoal local é Munjolos), que na época era uma vila quase isolada dos bairros populosos. Bem cedo aprendi a lidar com espingardas de “cartucho” (vários calibres)   e também de “projétil” (calibre 22). Matávamos passarinhos por motivo torpe, apenas pelo prazer de disparar contra aquele tipo de alvo.

A única regra ética que seguíamos era a proibição de atirar em “sabiá laranjeira”. Só podíamos atirar em “sabiá  poca”. Com isso, naturalmente, aprendi a distinguir um do outro. Nunca tive relação de afeição com animais e a consciência da sacanagem que era atirar nos passarinhos só veio mais tarde. Mas, no contexto de então, a prática não era considerada um absurdo. O caseiro do sítio (chamava-se Zé Magro) alimentava-se exclusivamente de caça, e alguns moradores próximos também consumiam caça, embora não regularmente.

 Um dos moleques era exímio com a “seta” (atiradeira) e batia todos os demais, não importava que armas tivessem. Ele tinha aquela habilidade desde muito criança, e os pais contavam que, certa vez, era início da noite, ele entrou correndo em casa (em Saigon) dizendo ter abatido uma coruja e contando vantagens. Os pais foram verificar e constataram que ele matou um bacurau. E esse foi o apelido que ele ganhou e que já tinha quando o conheci. Poucos sabiam o seu nome  verdadeiro e ele respondia naturalmente por Bacurau.

 Essa história transformou em ponto de honra e indicador de qualificação entre a molecada saber distinguir um bacurau de uma coruja, e não correr o risco de pagar o mico do Bacurau.

Não lembro mais o nome de batismo de Bacurau, que era primo de um falecido compadre. Quando perdi o contato, Bacurau estudava odontologia. Não sei se foi chamado de Dr. Bacurau.     

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quinta-feira, 4 de março de 2021

Flanando

 Opinião

Vou ao centro da cidade quinzenalmente e pratico as cautelas que a situação atual exige. Não sei como estão outros bairros além do meu próprio, mas o cenário do centro da cidade está difícil de qualificar. Refiro-me à região que vai desde a altura da Central e Campo de Santana,  até a Praça XV, e desde a Lapa e Cinelândia, até a Praça Mauá. O cenário é decadente, deprimente, triste. Todos esses adjetivos se aplicam. 

Ressalvo que não tenho dados que justifiquem meus comentários, mas é como a situação aparece para mim. A quantidade de lojas comerciais que, visivelmente, foram fechadas no decorrer da pandemia é enorme. O entorno da Cinelândia e Largo da Carioca, incluindo os espaços que foram criados na Av. Rio Branco,  é um enorme camelódromo. 

Excluo a rua da Carioca que já sofria um esvaziamento desde antes da pandemia. Lá, felizmente, no número 10 da rua, ainda é possível o prazer de beber algumas branquinhas especiais no “_Café do Bom Cachaça da Boa_”. Sugiro a visita. 

Os transeuntes no centro são “_muitos_”, porém poucos para quem conhece o ritmo da cidade. Quase não se vê uma moçada flanando como era habitual. São trabalhadores que precisam circular por conta de seus afazeres, assim como são os ambulantes que enchem as ruas de gritos oferecendo seus produtos e até conversando entre si. 

O sujeito da carroça de salgadinhos relata aos berros para o vendedor de capas de celulares casos e situações (geralmente associadas à violência) do bairro onde ele mora. Essa cena se repete por todo o centro da cidade. A máscara é artefato de uso dos transeuntes, são poucos os ambulantes que a usam. Todos estão correndo atrás do prejuízo, tentando seguir com suas vidas apesar da pandemia, mas os olhares por trás das máscaras ou nos rostos descobertos irradiam decadência e desesperança. 

Sempre achei o Rio de Janeiro (refiro-me ao centro da cidade) uma cidade cotidianamente bagunçada, fato que nunca me agradou.  Mas, sempre vi uma bagunça misturada com manifestações de alegria e descontração. Injustificáveis a meu juízo, mas essa é uma característica da cidade,  a cara do Rio. Hoje não vejo assim, a cidade parece estar se desmantelando. 

Preciso acreditar que em algum momento a situação se reverterá, mas arrisco dizer que nem as cervejas, nem os rastapés de blocos das ofegantes epidemias de muitos carnavais serão suficientes para tal. Será necessário algo mais. 

As notícias informam que a cidade adotará um toque de recolher proibindo as atividades comerciais noturnas e a permanência das pessoas em vias e áreas públicas durante a madrugada. Não li o instrumento legal, apenas as notícias. Não vi como será tratada a multidão que todas as noites se amontoa em áreas públicas, nas calçadas em ambos os lados da Av. Presidente Vargas, além de outras ruas, tentando abrigar-se durante a madrugada até reiniciar suas batalhas no dia seguinte. Tomara que tenham previsto uma solução que considere as necessidades daquela galera.  

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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Bicho feroz ou fera ferida?

Opinião

Ao endossar a prisão do deputado federal que fez ameaças ao STF, os partidos e outras organizações da esquerda política afiaram o cutelo de uma guilhotina que mais adiante poderá ameaçar os seus próprios pescoços e cabeças.

É fato que as práticas e antecedentes do deputado são reconhecidamente canalhas e bastantes para se desejar o seu afastamento da Câmara dos Deputados ou de qualquer convívio social. Mas, a decisão do STF foi um ato autoritário, uma retaliação contra um representante que tem mandato popular com imunidade constitucional para a expressão de opinião, mesmo que tenham sido medíocres, estúpidas e absurdas como foram.

 Tolerar esse autoritarismo e, mais do que isso, endossá-lo é um equívoco. A decisão do STF, mesmo ratificada pela Câmara, está muito distante de alguma coisa parecida com defesa da democracia. Ao contrário, significou a imposição do Estado sobre a sociedade, uma inversão de valores que significa, na prática, uma relação ditatorial. E as vítimas futuras desse equívoco, não tenhamos dúvidas, serão os movimentos, organizações, simpatizantes e militantes da esquerda política.

 Sem fato específico que caracterizasse a verborreia do deputado como uma ameaça concreta de perigo iminente para a sociedade, a decisão do STF só desvelou ainda mais o casuísmo daquela corte. Infelizmente os partidos e parlamentares de esquerda embarcaram na canoa furada como se estivessem defendendo a nossa alegada democracia. Bobinhos! Renderam honras ao mesmo STF golpista de 2016 e colaboracionista da fraude eleitoral de 2018 que cassou a candidatura Lula e levou ao poder o governo Bozo que dispensa qualificações.

 Em 2018, um general golpista mandou recado para o STF – com cópia para quem quisesse ler - dizendo que a corte sofreria intervenção caso fosse concedido habeas corpus ao Lula. O esquema que praticou o golpe de 2016 não permitiria a candidatura de Lula em 2018. O STF nem precisou se considerar intimidado, cumpriu o papel que lhe cabia na armação. Enfiou o rabo entre as pernas, chupou a cana e fez cara de que estava doce. Lula se fudeu.

 Agora, em 2021, o mesmo general golpista em entrevistas registradas em livro ratificou as ameaças que fez. Para que não ficassem dúvidas, esclareceu que não se tratou de iniciativa pessoal, mas da quadrilha de forças armadas cobrando submissão das forças desarmadas. Só faltou desenhar.

 Outra vez o STF, que sabe o seu papel e posição nessa peça teatral, fez cara de paisagem – tudo normal, salvo uma nota tímida de um ministro que imediatamente foi ironizada pelo general. A propósito da pressão, disse o ministro “Anoto ser intolerável e inaceitável”, o general zombeteiramente comentou: “três anos depois?” Fez lembrar uma piada mundana onde alguém, de forma supostamente indignada, reclama de assedio: “Você tem 24 horas para tirar a mão da minha bunda”. O deputado merdinha, por sua vez, ao contrário do STF, não chegou a aprender o seu lugar, não decorou o seu papel. Achou que estava com a bola toda. Perdeu!

Os partidos e organizações de esquerda também parecem não ter aprendido o jogo ou esqueceram ou parece terem aberto mãos dos seus papeis. Em nome da defesa da democracia saíram em “apoio ao STF”, essa “coisa” que se transformou em um Estado dentro do Estado. Elevaram ao status de importante questão institucional a chicana que foi utilizada para colocar o deputado em cana. Amanhã serão as organizações da esquerda que estarão aí, obrigadas a prestar contas de suas opiniões sob ameaça de prisão.

O deputado merdinha e marombadinho continua no xilindró. Dizem que com mordomias, mas está lá. Os registros do seu depoimento em audiência de custódia mostraram que já não é bicho feroz, pareceu mais fera ferida. A valentia acabou. A cidade do Rio de Janeiro conhece bem esse tipo de figura. O falecido sambista “Bezerra da Silva” registrou em gravação inesquecível o samba de “Claudio Inspiração” e “Tonho Magrinho”. Ele cantava assim:

 “Você com revólver na mão é um bicho feroz, feroz”

“Sem ele, anda rebolando e até muda de voz”

 

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