sexta-feira, 12 de outubro de 2018

A única justificativa do voto fascista é a opção pelo fascismo



Opinião


Eu não nego genericamente as análises que tentam mostrar as razões das escolhas pelo candidato Bozo. Tenho discordâncias aqui e acolá, algumas de conteúdo, outras de forma. Algumas de porte e outras nem tanto.  Contudo, nenhuma dessas análises justifica o fato de alguém entregar o voto a uma candidatura de cunho explicitamente fascista.

Se brancos, negros, gays, heterossexuais, mulheres, homens, cisgêneros, transgêneros ou coisa que o valha votaram ou votarão no Bozo, isso não deveria ser um destaque de argumentação. Os votos não poderiam ser gatos, cachorros nem marcianos. Afinal, a sociedade é assim. Múltipla, diversa. Quem acha que não pode ser assim é exatamente o pensamento fascista.

Mas, não estou falando em tese, nem por hipóteses. Estou falando na candidatura fascista que venceu no primeiro turno e está colocada para o segundo turno. Essa candidatura se revela e se expressa através de teses tais como:

“eu defendo a ditadura”, “eu vou fechar o congresso”, “(negros) não servem nem para procriar”, “não te estupro porque você não merece”, “agente vai varrer esses vagabundo daqui”, “o erro foi torturar e não matar”, “viadinho tem que apanhar”.

São desnecessários outros exemplos, mas vale resgatar o brado retumbante do candidato diante de uma plateia de milhões de pessoas

“ pela memória do coronel Carlos Brilhante Ustra!”.

Ustra foi um torturador que levou crianças, filhos e familiares de torturados, para presenciar sessões de torturas ( e não me venham com réplicas dizendo que são factoides ou fake news).

É comum entre os da minha geração termos amigos que foram aprisionados por essa ditadura que o candidato faz apologia. Então, como é possível ir a uma urna e deliberadamente depositar o voto dando representação a um candidato desse naipe?

Amigos, o nome disso é fascismo. E as pessoas que estão entregando o seu voto a candidatura do Bozo, por ignorância ou opção consciente, é porque afirmam ou reafirmam que o fascismo os representa.

Fascismo eu não discuto. Combato!

A minha moral é trotskysta. Acho que só os fins justificam os meios, o que não significa aceitar qualquer meio nem qualquer fim. E não se pode aceitar meios que contrariam os fins desejados.

Assim, não faz sentido justificar a finalidade de uma sociedade melhor, usando como meio a eleição de um  candidato que apregoa sem constrangimentos elogios a torturadores. Um candidato  que diz que a homossexualidade é doença  e falta de porrada, além de outras verborragias de cunho fascista.

O resultado da escolha pelo Bozo  já está acontecendo nas ruas. Já é notícia nos jornais. Não é invenção nem discurso petistas, de comunistas ou coisa que o valha.

Isso me entristece porque quem apoiou com o voto esse tipo de alternativa, se não o fez por engano, é porque também traz o fascismo dentro de si.

Nem considero aqui o que a candidatura do Bozo representa em termos socioeconômicos para a nossa sociedade, particularmente para os trabalhadores brasileiros.

Os interesses das grandes corporações capitalistas não foram alterados. Para eles o importante é imobilizar o país e chupar nossas riquezas. O Bozo é um instrumento. Se funcionar, tudo bem. Se não funcionar, vai para o lixo, como foi o Collor de Mello. Enquanto o Bozo lhes serve, eles  garantem recursos para que realize o seu papel de capataz e as fantasias eróticas dos seus leões de chácaras. A propósito, aqueles meninos saradões que se afirmam dando porrada em mulheres e gays – cá para nós, não precisa ser especialista para ver que ali tem homossexualidade enrustida e castrada.

Rigorosamente não há muito segredo.  Sem opções que atendam com satisfação os nossos projetos precisamos fazer escolhas. Ocorre que uns escolhem uma alternativa mesmo que a considerem frágil e insuficiente. Outros não se constrangem em levar um fascista ao poder. Os primeiros admitem e assumem a sua escolha. Os últimos tentam por todos os meios disfarçar ou descaracterizar a sua, elaborando teses que a justifiquem. Afinal, votar em um fascista não é uma opção política, mas uma declaração de princípios de vida.

Não nos enganemos, a única justificativa para um voto fascista é a opção pelo fascismo. Tomara que essa não tenha sido a sua opção. Se foi, ainda dá tempo. Pule fora dessa!  
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terça-feira, 2 de outubro de 2018

Direita brasileira – uma opção pelo fascismo


Opinião

Tenho participado de conversas sobre o fenômeno eleitoral do capitão candidato. Como ele se justifica, quais aspectos caracterizam o fenômeno, etc. Concluí que essas não são as questões mais importantes para mim, nesse momento.


Com justificativas de anticorrupção, antipetismo, antiestatismo, anti-isso e antiaquilo, vejo que alguns estão fazendo uma enxertia de seus projetos políticos, tipicamente de direita tradicional, usando o capitão candidato como o “porta - enxertos” ou, como se chama em jardinagem, o cavalo. Porém, o ponto relevante é que fazem essa opção sem qualquer constrangimento diante do fato de estarem cultivando uma alternativa que deveria ser intolerável. Endossam explicitamente o preconceito e discriminação dos miseráveis, a misoginia, a homofobia,  o racismo, a tortura, a ditadura de 64, além de outras aberrações escrotas e desprezíveis. Enfim, optam pelo fascismo.

Para mim, essa escolha é  um fato mais importante do que as análises sobre o fenômeno sociológico do capitão candidato porque eu não quero me relacionar com as pessoas  que estão fazendo tal opção.

Caminhando para os 70 anos, acumulei relações queridas com pessoas de pensamentos e crenças diversas, e constato que algumas pessoas dessas relações estão manifestando a intenção do voto fascista. Reflito se, a essa altura da vida, essas  divergências deveriam ter um peso tão alto. Concluo que sim porque são valores que a meu juízo sustentam e justificam a própria existência. Então, não pretendo conviver com pessoas que fizerem a opção pelo voto fascista.

Não renegarei as histórias dessas relações de amizade, familiares, de companheirismo ou coleguismo. Não acho que tenham sido um engano ou decepção. Tampouco farei juízo sobre o caráter de quem fizer essas opções, nem realizarei cerimônias de celebração do fim do pacto. Ao contrário, guardarei a memória de convivências boas e felizes, e vivenciarei os afastamentos que porventura ocorrerem como grandes perdas. Mas, não tenho como ocultar o que sinto. Sinto nojo! Repulsa! Não pretendo discutir nem entender as razões do voto fascista. Foda-se o fenômeno Bolsonaro! Apenas não quero conversa com quem fizer tal opção.
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quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Cocô de rato


Leituras para distrair


Cocô de rato é um doce. Não faço a menor ideia da sua composição, mas sempre tinha dele nos saquinhos de doces distribuídos nos dias 27 de setembro, dia de Cosme e Damião.  Sei que em alguns lugares e comercialmente  o nome é disfarçado como “pipocas de arroz”. Mas, nos bairros cariocas e nas cidades adjacentes, São Gonçalo entre elas, o nome sempre foi “cocô de rato”. E dia de Cosme e Damião era dia de ir atrás dos saquinhos de doce. Ali tá dando, cocô de rato vai levando! Assim as crianças brincavam quando eu era uma delas. Eu mesmo, que nunca gostei muito de doces, tive dias felizes participando das correrias e das expectativas de ver o que havia dentro dos saquinhos.

Para mim, as lembranças infantis de Cosme e Damião vão além das correrias atrás dos saquinhos de doces. Isso porque, até os 9 anos, eu morava na casa da minha madrinha que, além de distribuir doces, também promovia uma festa, talvez a mais importante do bairro. A festa atendia a uma promessa da minha madrinha, mas outras pessoas se agregavam contribuindo de formas diversas. O resultado era uma noite com uma rua cheia de gente que ganhava os tradicionais saquinhos, sempre com produtos de alta qualidade, e também outros doces e bolos servidos em pratos decorados, além de refrescos e guloseimas diversas, como se fosse um grande aniversário.

Mas, o ponto alto da festa era um sorteio de brinquedos. Um tio, queridíssimo, e minha tia, não menos querida, contribuíam para a festa com uma doação generosíssima de brinquedos. Não eram brinquedos de 1,99. Eram brinquedos de qualidade e belíssimos. Jogos variados, bolas de futebol, bonecas, um verdadeiro sonho, sem mesquinharias. Além da qualidade, havia quantidade. No mínimo 90 unidades que eram distribuídas entre os presentes felizardos que tivessem recebido cartões numerados. Os brinquedos eram sorteados conforme a saída das pedras contidas em um saco de jogo de víspora.

Para nós, eu, meus irmãos e as primas, filhas dos meus tios, o privilégio era a garantia de um cartão para participar da brincadeira. Mas a regra vigente obrigava-nos a participar das expectativas do sorteio e também das frustrações de não sermos contemplados com os brinquedos desejados. Nunca soubemos de fraude para nos privilegiar nos sorteios, nem seria necessário.

Os brinquedos ficavam guardados em um quarto, e dias antes da festa namorávamos aqueles que gostaríamos de ganhar. Na hora do sorteio eles eram retirados do quarto ao acaso e exibidos para excitar a molecada animando a festa. Uma pedra numerada era retirada do saco e o brinquedo entregue a quem tivesse o cartão correspondente. Uma felicidade total! Acho que viver aqueles momentos era a grande recompensa desejada pelo do meu tio falecido prematuramente.

Aquela festa seria impossível nos dias de hoje. Difícil até de imaginar, mas nunca houve confusão além da normal e decorrente da grande quantidade de pessoas. Na verdade era um tempo de menos miséria nos arredores. Havia a possibilidade de curtir alegria e felicidade entre vizinhos e até entre estranhos, além do restrito grupo familiar.  Foi um tempo bom, sem dúvida.

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terça-feira, 25 de setembro de 2018

Essa alma bissexta, essa cara de cão


Opinião
Antes mesmo dos resultados das urnas, a eleição de 2018 já tem pelo menos um ganhador. Pode ser até que ele não se eleja presidente, mas conseguiu projeção nacional e internacional do seu nome, além de ter contribuído generosamente para fazer aflorar um lado lodoso e podre da nossa sociedade. Uma face obscurantista, preconceituosa e discriminatória que até se tornou uma alternativa para voto. Queiramos, ou não, trata-se de um ganho expressivo.


No rastro das manifestações de 2013, que foram manipuladas eficientemente pelos golpistas de 2016, cresceu uma figura nefasta. Um subproduto daqueles eventos que formaram um ambiente adequado para germinar o sentimento fascista que parte da população brasileira está assumindo. Claro que a semente já existia. Ela existe em qualquer sociedade. É humana. A novidade é o seu florescimento. Cresceu como tiririca, erva daninha que para ser eliminada não basta aparar. É preciso revirar a terra e arrancar as suas raízes. Além disso, conviver com os restos da carpina que deverão ficar expostos, durante algum tempo, no mesmo local onde floresceram, secando e impedindo o surgimento de novos brotos.

Enfim, essa será mais uma missão. Não bastassem as nossas lutas contra as desigualdades socioeconômicas, teremos ainda que combater e promover o esquecimento dessa figurinha escrota, nazistinha de meia tijela, mas que acumulou potencial para levar nosso país a um abismo sociopolítico. É quase inacreditável que, em vésperas da Constituição 88 completar 30 anos, uma passeata de campanha presidencial tenha desfilado na cidade de Recife, no último domingo, 23/09/2018, com o seguinte refrão “... pras feministas ração na tigela, as minas de direita são as top mais belas, enquanto as de esquerda tem mais pelo que cadela”. Uma passeata com muitas participantes mulheres. Mais impressionante, ainda, é que a adesão feminina ao candidato tem aumentado ao mesmo tempo em que aumenta a sua rejeição.

Avalio que a sociedade brasileira, apesar de criança em sua formação cultural, já tenha os anticorpos políticos para reagir e dar conta dessa contaminação por valores que se sustentam, antes de tudo, por ignorância. As mobilizações de reação têm sido fortes e numerosas nos ambientes onde os recursos de comunicação são de fácil acesso, tipicamente ambientes de classe média. Mas, parece que tem sido justamente nesses ambientes que a praga se espalha com mais facilidade. De qualquer forma, iremos à luta. Tiririca é assim mesmo, não é fácil extirpar depois que floresce.

[*] Trecho do rock “Pessoa Nefasta” – Gilberto Gil  ( ... Tu, pessoa nefasta/Vê se afasta teu mal/Teu astral que se arrasta tão baixo no chão/Tu, pessoa nefasta/Tens a aura da besta/Essa alma bissexta, essa cara de cão...) 


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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Múmias incômodas


Leituras para distrair

Há mais de 30 anos, viajando de Porto Velho para Vilhena, no estado de Rondônia, almoçávamos em um galpão que era o principal restaurante de uma das cidades do percurso. O som ambiente era o serviço de alto falantes da cidade que noticiava uma polêmica local. A prefeitura insistia em remover um antigo cemitério para construir uma estrada necessária para a cidade, mas encontrava objeções de parte da polução que considerava importante preservar o local de sepultamento dos primeiros colonizadores da região.

Não sei qual foi o resultado da polêmica, mas ela marcou minha memória. Logo que ouvi a notícia fiquei a pensar se naquele mundão de selva amazônica não haveria uma alternativa de percurso para a tal estrada que preservasse o cemitério. Também fiquei imaginando que a população, migrantes de todas as regiões do país, já enfrentava batalhas duríssimas tentando ganhar suas vidas desbravando aquele ambiente inóspito de selva e de malária. Por que deveriam se preocupar se algumas caveiras estariam enterradas aqui ou acolá?

Repetidas vezes conversei sobre essa história entre amigos, como exemplo, em pequena escala, de escolhas que determinam o caráter de uma sociedade em formação. Conversamos sobre a importância da objeção às intenções do prefeito, que até poderia ser uma boa solução de engenharia. Afinal, uma sociedade que não valorizasse a sua história e nem preservasse os símbolos que a representavam, dificilmente teria algum compromisso com o seu próprio futuro. Como poderiam pensar em algo como preservação ambiental e cuidados no trato com a  floresta sem algum valor cultural que sustentasse esses compromissos?

Lembrei essa história em meio à profusão de pensamentos e emoções que modularam o sentimento de enorme raiva que brotou em muitos de nós com a tragédia do museu da Quinta da Boa Vista. Indignação, tristeza, impotência, vergonha, dor, constrangimento, revolta, uma lista longa que me faz pensar novamente sobre o compromisso de uma sociedade com o seu próprio futuro, na medida em que ela sequer valoriza a sua história.

Uma morte anunciada – como estão anunciadas outras! Exclamamos, quase resignados. Nem deveria surpreender, afinal, o Hospital do Fundão, assim como o Museu da Quinta, também vinculado à UFRJ, guardadas as peculiaridades dos vínculos administrativos, também têm sido abandonado à sua sorte, tal e qual a própria universidade. Não cuidaram do hospital que guarda seres vivos, por que cargas cuidariam de um depósito de múmias e fósseis?

O fato é que a nossa sociedade ainda vive a tentativa de se formar em uma massa cultural com liga consistente e suficiente para enfrentarmos esse tipo de situação. A história não nos fez coalhar, como leite, formando blocos culturais distintos. Talvez isso até acelerasse processos de consolidação, mas também seria uma divisão em sociedades distintas, o que não parece ser a nossa vocação. Queiramos, ou não, ainda somos uma farofa de hábitos, práticas e costumes, mas, ainda , sem liga cultural, por mais que em nosso imaginário exista a figura de um ser “brasileiro”. Imaginar isso é bom, mas ainda é um desejo, e precisaremos de mais gerações para vê-lo concretizado. Nessas circunstâncias, a questão que sobressai é se teremos tempo de chegar até lá ou se nos destruiremos antes disso, fazendo nossas cagadas.

Vilhena, a principal cidade ao sul de Rondônia, é uma espécie de portal da Amazônia para quem chega do sul do país, através do Mato Grosso. Identificar isso num mapa é interessante. Eu e outros colegas aprendemos em conversas com caminhoneiros que eles sabiam que estavam entrando na Amazônia quando avistavam as antenas da Embratel de Vilhena. As antenas em questão, eram antenas especiais para a cobertura de distâncias enormes, centenas de quilômetros, usando uma técnica chamada de tropodifusão. Poucas pessoas tiveram a oportunidade de ver de perto antenas daquele tipo, porque elas foram utilizadas especialmente para as transmissões na região, então impenetrável, da floresta amazônica. Elas eram lindas e gigantescas. E, conforme os caminhoneiros, funcionavam como faróis cuja visão anunciava a chegada à região da floresta. O advento das comunicações por satélite permitiu a substituição da tropodifusão, que tinha restrições na qualidade das transmissões e, consequentemente, a desativação das antenas.

Alguns de nós achávamos que as antenas poderiam ter sido preservadas nos locais, mesmo sem uso. Haveria um gasto adicional para a sua manutenção mecânica, mas que se justificava pelo valor simbólico que tinham, afinal, elas e a própria Embratel, ainda estatal, também eram pioneiras na Amazônia. 

As nossas tentativas foram em vão e nossas propostas classificadas como românticas e infantis. Até onde eu soube, elas foram desmontadas e vendidas como ferro-velho. As estações e terrenos, que sempre foram bem cuidados, foram abandonadas e favelizadas. Poderiam ter sido resguardadas como um museu. Mas, quem sabe, talvez também fossem perdidas em algum incêndio.
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sábado, 11 de agosto de 2018

Deuses que dançam


Leituras para distrair


Tio Paulino era um dos irmãos mais velhos do meu pai, segundo ou terceiro filho na família de seis irmãos. Operário naval como os outros irmãos, exceto o meu pai que era metalúrgico. De cor parda, alto e forte, tinha a pele curtida e enrijecida, possivelmente em decorrência de seu trabalho ao ar livre. Não sei sobre sua profissão específica, mas os operários navais sem instrução técnica formal, em maioria, eram trabalhadores manuais e de formação prática.  Eram montadores, soldadores, chapeadores, pintores, eletricistas, maçariqueiros, esmerilhadores, encanadores, entre outros, que trabalhavam na recuperação de navios em manutenção ou na construção de novas embarcações. Distinguiam-se conforme suas qualificações e funções nos estaleiros, nas décadas de 50/60 do século XX, um tempo em que a indústria naval no estado do Rio de Janeiro ainda podia ser classificada como um sólido parque industrial.

Tio Paulino tinha uma mão enorme, bastante calejada, parecia uma palmatória de madeira quando aberta e quase um martelo se fechada.  Era com aquela mãozona que ele batia no peitoril de uma janela, fazendo-a de um atabaque para o acompanhamento e marcação dos pontos de macumba entoados no cômodo onde rolavam as sessões de umbanda em nossa casa.

Com os meus pais, morávamos em casa de meia-água, nos fundos de uma casa maior, casa da minha madrinha, onde um dos quartos era utilizado para as sessões religiosas. Antes das obras que mais tarde construíram um ambiente específico para o centro de umbanda, as sessões ocorriam no tal quarto que tinha janela para uma varanda. Em pé, na varanda, do lado de fora, e apoiado na janela, tio Paulino acompanhava as sessões. Sua esposa, tia Helena, além de outros formavam o grupo de médiuns, mas ele não participava diretamente das manifestações. Pequenino, eu assistia ao seu lado. Os pontos eram entoados celebrando as passagens das entidades que representavam os diversos orixás, e tio Paulino se fazia de percussionista.

Essa foi uma das lembranças que guardei dele. Era um excelente ritmista, embora não participasse de qualquer outra atividade musical. A mãozona batia forte sobre a madeira do peitoril provocando um som que sobressaia às vozes e que animava e estimulava o clima dos cânticos e as danças dos médiuns, incorporados ou não. Nada ensaiado. Espontaneidade e possivelmente transe. Sorridente, comigo ele era até carinhoso ao seu jeito - a rispidez ele guardava para orientar suas duas filhas e três filhos, primas e primos, todos mais velhos do que eu. Ele me incentivava a acompanhá-lo, como se fosse possível a um moleque de oito anos arrancar algum som daquela madeira dura que sob as suas pancadas vibravam quase como uma “pele” de tambor.

A chegada da adolescência e, mais tarde, as alternativas e a ignorância arrogante da juventude me afastaram. Por circunstâncias diversas os contatos rarearam e avalio que perdi oportunidades de aprendizados interessantes com ele. Mas, ficou uma lembrança boa.

Dia desses, junto com amigos queridos, assisti uma apresentação do Lucio Sanfilippo, um artista brilhante, ainda desconhecido do grande público e de quem gosto muito. Ele associa sua arte aos seus trabalhos de pesquisador e à sua fé religiosa, assim consegue identificar e agrupar esses pedaços africanos espalhados em nossa arte e religião.

Jongo, coco, samba, maracatu, cânticos de candomblé e da umbanda, uma mescla de temas e ritmos que resulta em um canto de beleza e sensibilidade.  Inevitavelmente comecei tamborilar sobre a mesa. Lembrei-me de tio Paulino no peitoril da janela, e também de outros familiares e de relações queridas que se foram com o tempo. Gostaria de acreditar que eles estão por aí, em alguma outra dimensão, quem sabe até ao meu lado, cantando e dançando.

“Eu só poderia acreditar num Deus que soubesse dançar” – assim falou Nietzsche através do seu Zaratustra.  Eu não tenho qualquer capacitação para discorrer sobre o filósofo, mas acho que ele anteviu alguma apresentação do Lucio ou do tio Paulino na janela.

Quem se interessar poderá assistir um pedacinho do Lucio Sanfilippo:


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sexta-feira, 27 de julho de 2018

Coxinhas de merda!



Opinião

Os apoiadores do golpe contra a presidenta Dilma têm divulgado propaganda das ações eleitorais do Partido dos Trabalhadores – PT, partido da ex-presidenta, visando o processo eleitoral de 2018. Os golpistas alardeiam as contradições das alianças eleitorais do PT, alianças com partidos que não só apoiaram como promoveram o golpe. A mensagem implícita é que as ações do PT, por serem conflitantes com a denúncia do golpe, legitimariam esse último e ratificariam o ato golpista. O golpe teria sido apenas um lance, uma jogada, dentro das regras da disputa de poder. Afinal, somos todos iguais, é o que tenta afirmar a mensagem coxinha.


Coxinha é coxinha, não há porque contestar a sua natureza, embora ele próprio sempre tente disfarçá-la. Talvez por conta de algum mecanismo psicológico, não me cabe diagnosticar. O fato é que nem o próprio coxinha assume ou suporta o seu jeito de ser. Quanto ao PT, cabe a ele a responsabilidade por suas escolhas e pelo tratamento das suas contradições. Se o PT faz alianças eleitorais justamente com aqueles que atuaram como exterminadores das esperanças de milhões de brasileiros que apostaram na reeleição de Dilma como símbolo de um governo dos trabalhadores, caberá a ele justificar.

É obvio que também faço juízo das ações do PT, mas em momento nenhum essas reflexões atenuam ou desculpam a ação golpista e coxinha que determinou a derrubada da ex-presidenta e que, de roldão – POR EFEITO DE UM OPORTUNISMO JUDICIAL – levou o ex-presidente Lula à condição de prisioneiro político.

O fato concreto é que o golpe foi dado e vem sendo consumado. E não é um golpezinho de republiqueta sul americana, é bem mais do que isso. Trata-se de uma ação articulada para suprimir qualquer alternativa de organização social menos excludente (longe, ainda muito longe de uma alternativa socialista). O golpe, em andamento, visa excluir qualquer embrião de uma organização política pautada pela solidariedade social justamente no país e no ambiente onde há uma possibilidade real disso ocorrer.  A entrega do patrimônio público nacional, a supressão das conquistas das relações de trabalho, as tentativas de retrocessos nas regras das relações sociais, a desarticulação total das estruturas para a formação de uma riqueza social nacional não são fatos isolados nem oportunistas. Atendem a um projeto que, em síntese, é o projeto de imperialismo do capital. 

Então, não me venham com essa conversa que as ações do PT justificam o golpe. Coxinhas! Vendilhões! Cagam-se de medo de apostar na distribuição da riqueza e sequer suportam a sua própria maneira de ser. Covardes! Alianças petistas é o escambau! São desculpas para disfarçar suas escolhas de merda.



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domingo, 1 de julho de 2018

Plunct Plact Zum – onde vai dar essa coisa?


Opinião

Assisti a uma palestra muito legal, cujo tema abordava as riquezas e possibilidades das “línguas portuguesas” do Brasil, a língua como patrimônio, instrumento de expressão literária e individual, as questões das chamadas normas cultas versus a língua viva, além de outros aspectos [1].

Alguém da plateia comentou sobre um fato da atualidade, quando simplificações são largamente utilizadas nas trocas de mensagens via internet, e levantou a questão sobre qual seria da influência dessas práticas em nossa na língua e particularmente na literatura. A pergunta estimulou e desencadeou outras interessantes observações. Pensando sobre o assunto e como prática para organizar o pensamento, registrei algumas das minhas reflexões sobre a questão.

O impacto da internet e dos dispositivos eletrônicos na comunicação escrita é enorme, e uma questão recorrente é tentar avaliar qual será o efeito desse impacto sobre uma sociedade que já é carente em sua formação educacional até em termos de alfabetização. Sem exageros, um contingente grande de pessoas que teria dificuldade em escrever a palavra “você” com os instrumentos tradicionais de grafia já troca mensagens através de seus celulares representando a palavra por “vc” sem maiores considerações.

Para alguns essa questão é irrelevante porque não seria uma novidade. Argumentam que as transformações nas grafias de “você” para “vc”, típicas das postagens eletrônicas, são equivalentes às mudanças que ao longo do tempo ocorreram na expressão “vossa mercê”, que se transformou sucessivamente em vossemecê, vosmecê,  até o atual ”você”.  Assim, a transformação de “você” para “vc” não deveria gerar preocupações.

Para mim a equivalência vale como exemplo, mas exige um pequeno aditamento sob pena de estarmos simplificando o fenômeno. A transformação de “vossa mercê” em “você” foi uma mudança de linguagem, da fala, enquanto escrever “vc” no lugar de “você” é uma mudança da grafia, da representação simbólica da palavra, logo uma mudança de natureza diferente. Feito esse reparo, também concordo que a importância maior é se a comunicação desejada ocorreu sem erros de interpretações decorrentes da grafia utilizada.

Estamos em um período de intensas modificações nas formas de nossa comunicação. Transformações na linguagem, ou seja, na estrutura do discurso; transformações na representação simbólica, ou seja, na forma da escrita, além de uma transformação nos canais de comunicação, ou seja, nos recursos e instrumentos utilizados para a comunicação.

Estas transformações interagem. A disponibilidade de um canal de transmissão e recepção que permite a comunicação quase instantânea dispensa parte dos esforços na construção formal das mensagens. Isso porque a formalidade é um recurso que busca garantir a compreensão da escrita substituindo a redundância que é típica da fala. Na medida em que, atualmente, a velocidade de transmissão é muito alta, quase instantânea, se houver dúvidas podemos simplesmente repetir as mensagens fazendo as correções necessárias e, consequentemente, podemos usar códigos de linguagem que sejam mais simples.

Uma característica da fala é a redundância, a repetição da mensagem até o entendimento. É assim que conversamos em nosso dia a dia. Daí parecer estranho quando lemos a transcrição de uma conversa. As legendas das gravações telefônicas, que hoje são tão comuns serem exibidas na TV, são um bom exemplo. Os diálogos que lemos transcritos na tela da TV – monossílabos, grunhidos, repetições, gírias, são bem diferentes daqueles que encontramos na literatura principalmente, mas também no cinema ou no teatro.

Às vezes, tanto na literatura, como no cinema ou teatro, o autor intencionalmente busca reproduzir um diálogo real, porém na maioria das situações, diferentemente das conversas cotidianas, os diálogos são sentenças estruturadas que visam garantir a compreensão da mensagem do autor pelo leitor ou espectador.

Também quando trocamos mensagens escritas, sem o recurso da redundância que usamos na conversa direta, tradicionalmente o fazemos construindo mensagens estruturadas, valorizando a sintaxe e a semântica, sempre buscando garantir o registro correto da informação que será enviada, em princípio, sem outra oportunidade de correção.

Os dispositivos móveis e a internet impactaram esse processo. O meu interlocutor está “ali”, à distância de um clique, e não só receberá a mensagem quase imediatamente como terá a possibilidade de me questionar sobre o entendimento. E eu poderei repetir, poderei ser redundante, se necessário, com uma velocidade tal que será como se estivéssemos conversando diretamente. Então, eu simplifico a forma do discurso (sintaxe) e a descrição do conteúdo (semântica). Simplifico até a representação simbólica (grafia). “Blz. espero vc aki kasa. abç”.

Se não bastasse isso, esse mundo novo de recursos também mistura a mensagem escrita com a iconográfica através da inserção dos “emoticons” que são modernos ideogramas e que traduzem mensagens inteiras. Carinhas, coraçõezinhos, mãozinhas, além de outras imagens misturam-se com as letras do alfabeto representando agrado, desagrado, tristeza, raiva, aplausos etc.

Se formos rigorosos, concluiremos que é um engano dizer que na internet passamos a escrever como falamos, porque ninguém fala por ideogramas representando as carinhas dos “emoticons”, embora a mímica faça parte da nossa comunicação pessoal. Estamos, na realidade, criando uma nova forma ou um novo conjunto de recursos de comunicação.

Essas transformações não aparecem à toa. Entre outros fenômenos, ocorre que a mesma funcionalidade de velocidade que está colocada à nossa disposição exige, em contrapartida, que simplifiquemos as mensagens sob o risco até de perdermos a oportunidade de transmissão. Muitas vezes chegamos a receber respostas antes mesmo de terminarmos a transmissão completa da mensagem.

E a literatura, como fica?

Eu não seria capaz de formular uma definição sobre o significado da expressão “literatura”. Suponho que os dicionários de filosofia, assim como os textos dos pesquisadores e estudiosos do assunto devem estar repletos de conceitos e definições. Fico com a minha compreensão, nos limites da sua estreiteza, que a literatura é uma forma de arte através da qual o homem registra, reproduz ou idealiza histórias, fatos e emoções em um espaço e tempo que podem ser conjunturais, históricos, reais ou imaginados.

A arte da literatura se expressa tradicionalmente pela representação escrita das palavras e pelos mecanismos e recursos colocados à disposição para essa forma de comunicação. Esse recurso já foi a grafia manual, já foi a grafia mecânica, e hoje conta com modernos dispositivos eletrônicos com “touch screen” e outros que chegam até a identificar e completar a palavra que se deseja escrever.


Só para registro, desde 2010, quase a totalidade dos estados americanos aboliu a obrigação de ensino da escrita a mão, com a recomendação para as escolas do foco em outras habilidades, como a digitação de textos em teclados. Aboliu a obrigação, não aboliu o ensino. Hoje, no Brasil, já são várias as escolas que priorizam o ensino da escrita a mão e da leitura em letra de forma, colocando em segunda prioridade o aprendizado da letra cursiva (escrita manuscrita em que as letras são arredondadas e ligadas umas às outras pelas pontas).

Sem fazer juízo dessas escolhas, o fato é que elas se impõem, e a literatura permanecerá, inclusive fazendo uso dessas transformações em forma e conteúdo, porque possivelmente o homem continuará a recorrer a ela como instrumento para identificar a si e às suas relações com o mundo que nunca parou de ser um mundo novo.

A questão mais importante, a meu ver, é se utilizaremos essas transformações como agentes de integração ou como reforço da exclusão já existente, na medida em que as possibilidades se apresentam para ambas as direções. Essa igualdade de possibilidades talvez seja a grande novidade e que não deveríamos deixar escapar porque não foi sempre assim.

Historicamente os elementos de transformação sempre estiveram mais à disposição de um projeto de exclusão do que de integração. Certamente a exclusão resultou de escolhas, mas escolhas que foram facilitadas por uma situação real de natureza econômica. Hoje já não é tanto assim porque, mesmo considerando as carências econômicas da nossa sociedade, há possibilidades reais dos  recursos estarem disponíveis em par de igualdades para ambas as saídas. A necessidade de escolher permanece.        #####

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Tem que ser selado, registrado, carimbado
Avaliado, rotulado se quiser voar!
Se quiser voar
Pra Lua: a taxa é alta,
Pro Sol: identidade
Mas já pro seu foguete viajar pelo universo
É preciso meu carimbo dando o sim,
Sim, sim, sim.
O seu Plunct Plact Zum
Não vai a lugar nenhum!
               
                     (Carimbador maluco – Raul Seixas)




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A palestra foi um evento da 51ª JORNADA REPUBLICANA, realizada no Museu da República, RJ, em 28/06/2018, organizado por Maria Helena Versiani e Alejandra Saladino.
O tema “Falar direito ou direito à fala?” foi desenvolvido com a participação dos palestrantes: Écio Salles (doutor em Comunicação pela ECO-UFRJ, escritor, pesquisador e um dos criadores e organizadores da FLUP – a Festa Literária das Periferias), Francisco César Manhães Monteiro  (doutorando na UFRJ, tradutor e professor, além de escritor e poeta) e Suzana Vargas (mestre em teoria literária pela UFRJ e pesquisadora da Fundação Biblioteca Nacional, especialista em leitura e autora de literatura infantil e juvenil).

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Não estava escrito no parachoque

Opinião

A paralisação recente dos caminhoneiros trouxe consigo uma reafirmação importante, tão velha quanto o próprio modo de produção capitalista:

A GREVE É A ARMA DO TRABALHADOR.

Nas relações de produção capitalista e, especialmente, nas condições de superexploração às quais os trabalhadores brasileiros estão submetidos, negar a forca de trabalho e interromper a produção  de bens e serviços é o único recurso eficaz de avançar em conquistas no enfrentamento com a classe patronal e, consequentemente, alterar para melhor as condições de vida da sociedade brasileira. O patrão sabe muito bem disso e, ele mesmo, lança mão desse recurso provocando o locaute como pressão sobre o governo para alcançar seus objetivos. Infelizmente, porém, entre os trabalhadores muitos ainda hesitam.

O locaute dos caminhoneiros, em maio de 2018, deveria ser visto como didático. Sua principal lição foi mostrar que é possível, sim, alterar situações que, a primeira vista, parecem imutáveis. No caso em pauta, os ganhos  até foram além das reivindicações que o motivaram.

Em segundo lugar, saltou aos olhos a diferença no tratamento recebido pelo movimento dos caminhoneiros se comparado com as dificuldades de outras categorias. A complacência governamental e a propaganda favorável dos meios de comunicação para com o locaute contrastaram com o tratamento de outras mobilizações que mal Iniciadas já são criminalizadas e reprimidas na base da porrada.

Para não ir muito longe, enquanto o governo esperou concluir a negociações para vir a público declarar que agiria contra a parcela de caminhoneiros insatisfeita com os termos negociados, no caso dos petroleiros as repressões contra os grevistas ocorreram com utilização de bombas de gás nos primeiros minutos das manifestações, com a AGU e o TST declarando antecipadamente a ilegalidade da greve e ameaçando os trabalhadores com multas milionárias. Mais exemplos são desnecessários, qualquer leitor que refletir será capaz de resgatá-los em sua memória.

Outra lição, que não é nova, foi o papel  da imprensa que estimulou uma simpatia da sociedade para com o movimento, ainda que ela (a sociedade) estivesse refém e sofrendo diretamente os efeitos do locaute disfarçado de greve. A sociedade e os trabalhadores em geral demonstraram uma empatia para com o movimento dos caminhoneiros embora esse último, em momento nenhum, tenha dado qualquer amostra de solidariedade de classe.

Em momento nenhum as empresas ou os donos de caminhões que terceirizam a condução dos mesmos foram cobrados para melhoria nos valores de fretes que são pagos aos caminhoneiros empregados. Nem mesmo foram cobradas melhorias embora nas imagens das TVs o movimento fizesse questão de mostrar as difíceis condições de trabalho, usando-as para angariar simpatias da população.

O movimento dos caminhoneiros sequer questionou a política governamental que submete o nosso país a subalternidade. As criticas ficaram por conta de outros personagens de fora do movimento. Os caminhoneiros reivindicaram e conseguiram a redução dos preços a qualquer custo. Foda-se o resto!  

Segundo os jornais, entre outras fontes de financiamento, o  governo retirou grana contingenciada do  Fundo de Universalização das Telecomunicações (Fust)  e do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações no valor de mais de 700 milhões  para subsidiar o acordo com os “caminhoneiros”.

O que se constata é que as oportunidades que surgiram foram todas aproveitadas em prol de ganhos que beneficiaram basicamente as empresas de transportes.

Essas observações não visam desqualificar o movimento dos caminhoneiros, ao contrário, visam qualificá-lo com mais precisão do que uma genérica “categoria em luta” e, principalmente, extrair aprendizados. As relações sociais são dinâmicas e os trabalhadores em suas várias categorias continuam com a necessidade de enfrentamentos com a classe patronal e o governo, independentemente do locaute que as empresas de transportes de cargas rodoviárias promoveram.

Nós, trabalhadores brasileiros,  precisamos efetivamente de uma greve, uma greve geral, forte, bem mais forte que a de abril de 2017 que, embora forte, foi insuficiente em seus propósitos.

A luta de classes não é uma invenção sindicalista, socialista ou comunista. Ela decorre naturalmente de um modo de produção onde uma classe minoritária patronal explora o trabalho da classe trabalhadora que é a maioria, onde os chamados lucros patronais se fazem exclusivamente a custa dessa exploração, logo são classes com interesses conflitantes, antagônicos, em luta.

Nessa diferença de classes forma-se uma elite econômica que acumula e detém uma concentração absurda da riqueza produzida pelos trabalhadores. Com esse poder econômico a classe patronal se apropria e domina completamente os poderes estatais que deveriam ser públicos - legislativos, executivos e  judiciários e, com tal domínio, objetivando naturalmente conservar sua posição, ela utiliza tais poderes contra a mobilização dos trabalhadores, inclusive com instrumentos de repressão violenta, com a polícia e, se necessário, as demais forcas armadas.

Reverter esse  quadro não e fácil, mas não é impossível. Parece uma contradição, mas o  locaute dos donos dos transportes de carga, um movimento dentro da própria estrutura de poder, nos mostrou isso. Deu-nos lição e exemplos.

Precisamos de uma greve, mas de uma greve de trabalhadores. E os pontos nevrálgicos também estão identificados. A paralisação do transporte de cargas rodoviário é um deles, outro que já conhecemos e que são de fortalezas difíceis de serem tomadas, é o transporte público de passageiros, especialmente os serviços de ônibus, trens metro e similares.

A paralisação dos transportes públicos precisa ser o piquete especial da greve geral, e devemos tratar isso com clareza. O piquete é uma proteção do trabalhador contra os constrangimentos aos quais ele é submetido para ir trabalhar a qualquer custo.

Durante o locaute dos caminhoneiros alguns transportes públicos foram prejudicados e os trabalhadores foram constrangidos a buscarem soluções para chegar ao trabalho, mas o cenário de fundo foi uma compreensão das dificuldades nos deslocamentos provocadas pela paralisação dos caminhoneiros que funcionou como piquete protegendo o empregado faltante. Essa foi mais uma lição. Nos principais centros urbanos não existirá greve se os ônibus circularem. A paralisação desse setor é fundamental. No mais, é Greve Geral neles!

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segunda-feira, 4 de junho de 2018

O Samba do Castelinho

Leituras para distrair


A roda de samba


No início da Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, na esquina com a Rua Dois de Dezembro, há uma construção simpática que, por sua arquitetura, é conhecida como o Castelinho do Flamengo e funciona como o Centro Cultural Municipal Oduvaldo Vianna Filho.

O Castelinho não tem uma “cara de samba”. Não lembra uma quadra de escola ou bloco carnavalesco, nem o salão de um boteco ou um trecho de rua interditado. Não lembra uma calçada cheia de gente, não se parece com um quiosque de praia, nem qualquer desses estereótipos ambientais populares e geralmente associados a essa expressão musical. Tampouco é uma sala de teatro ou de shows. Enfim, quem passar por ali constatará a afirmação. O Castelinho pode ter cara de tudo, menos de “samba”.

Mas, é interessante que a própria sabedoria popular dá conta dessas contradições que, a rigor, não passam de generalizações preconceituosas ou reduções simplistas. “Quem vê cara não vê coração” – diz o aforismo que, nesse caso, acerta em cheio. Quem vê a cara do Castelinho não imagina que o seu coração palpita em ritmo marcado por uma excelente roda de samba que tem sido uma verdadeira celebração semanal a um dos aspectos mais expressivos da identificação cultural do Rio de Janeiro.
Foto copiada do Facebook do Samba do Castelinho


A roda é executada pelo Anderson Balbueno, o Leo Pereira, a Ana Costa, a Bianca Calcagni, o Marquinho China, o Paulão Sete Cordas e o Jorge Andre (ver foto – da esquerda para a direita). Percursionistas, cavaquinistas e violonistas, esses excelentes músicos são referências em todos os ambientes cariocas onde o samba é praticado com qualidade. São eles que, desde 27/11/2017, transformam as noites das segundas-feiras em momentos especiais com a roda do Samba do Castelinho do Flamengo.

A qualidade do samba é a que existe de melhor. Acústico, com os presentes cantando juntos, o único condicionante é não realizar conversas paralelas. Quem não sabe o samba ouve em silêncio para aprender e cantar na próxima vez. A latinha de ceva ou água mineral pode ser adquirida no local, sem tumultos. No mais, é navegar numa viagem de alegria  e prazer pelas letras e melodias dos sambas conduzidos por esses artistas.

Se você desejar, poderá visualizar ou baixar arquivo em pdf com as pérolas que foram executadas nas audições dos dias 26/02/2018 e 07/05/2018, na ordem em que foram cantadas. As audições foram registradas ao acaso. As letras e links foram copiados da web. As autorias e parcerias foram copiadas do DicionárioCravo Albin da Música Popular Brasileira e do Instituto Memória Musical Brasileira (IMMuB) , todos acessados em 03/06/2018.

Sambas executados em 26/02/2018 (pdf)


Sambas executados em 07/05/2018 (pdf)




A Carta de Cachaças da roda do Samba do Castelinho

Entre tantos símbolos e hábitos integrantes da nossa cultura, a cachaça se destaca não apenas pelo seu consumo, mas também por seu caráter essencialmente popular e sua imbricação com outros aspectos culturais, especialmente o “Samba” com todo o significado cultural desse termo. Assim, num processo natural, em todos os sentidos, a roda do Samba do Castelinho incluiu em sua mesa a garrafa de pinga, e ao longo de 21 audições consecutivas foram degustadas por alguns componentes e público presentes, uma sequência de 20 diferentes tipos de pingas que, sem outras pretensões, foram registradas nessa Carta de Cachaças.


A rigor, as cachaças registradas não foram as únicas porque respondendo ao estímulo dos componentes da Roda o público participou trazendo outras marvadas para compor a mesa e servir aos demais presentes. O resultado tem sido uma prática alegre e descontraída, em sintonia com o clima de camaradagem que marca o Samba do Castelinho.

Sem quaisquer compromissos comerciais, apenas como memória de momentos super agradáveis vivenciados nas audições, a carta – que pode ser baixada em pdf - forma uma interessante relação de vinte pingas que podem ser revisitadas ou utilizadas como referências na busca de tipos distintos dos constantes das cartas.