quarta-feira, 6 de maio de 2020

A vida em tempos de coronavírus (48)


Opinião


ATO I (ÚNICO)

OS PERSONAGENS ESTÃO SENTADOS EM TORNO DE UMA MESA GRANDE, BEM AFASTADOS ENTRE SI E USAM MÁSCARAS. A DECORAÇÃO SUGERE UMA SALA DE CAFÉ OU DESCANSO DE ALGUM AMBIENTE DE TRABALHO. A ILUMINAÇÃO DETERMINA O UNIVERSO QUE SE LIMITA A TRÊS PERSONAGENS.  NO INÍCIO, A ILUMINAÇÃO PROJETA O FOCO NO PERSONAGEM 1.  NA SEQUÊNCIA A ILUMINAÇÃO É MODIFICADA COM O FOCO REALÇANDO A INTERVENÇÃO DE CADA INTERLOCUTOR. 


PERSONA 1 - A TV tá foda! Aliás, os jornais também. As cenas são indecentes, indecorosas. Até um  insulto, difícil de acreditar. Daquelas de tirar as crianças da sala. Uma verdadeira agressão à família.

PERSONA 2 - Concordo! Na TV é erotismo puro, nem é erotismo, é pornografia. Nos anos 60 isso só acontecia no Carnaval. Agora é direto. A garotada masculina adolescente também curtia o erotismo, mas era furtivamente. Quem tinha televisão até tinha a possibilidade – bem pequena – de assistir alguma cena dos bailes carnavalescos transmitidos durante a madrugada. Um beijo tipo chupão, uma fantasia feminina mais ousada, uma carícia íntima que não ia além das vizinhanças da intimidade propriamente dita. Mas, não era assim, na cara!

PERSONA 3 - O período pós-carnaval até era mais generoso de imagens, mas eram estáticas e, geralmente, em preto e branco sobre papel. As fotos produzidas em cores só apareciam nas revistas Manchete e O Cruzeiro e as imagens especiais eram aquelas  as que retratavam o nu feminino nos bailes.


ILUMINAÇÃO BREVE SOBRE O PERSONAGEM 1


PERSONA 1 – Mas ... (É ATROPELADO PELO PERSONAGEM 2 E GESTICULA COMO SE TIVESSE A INTENÇÃO DE CONTINUAR)

PERSONA 2 -  As imagens especiais mesmo ficavam por conta de uma espécie de imprensa marrom que publicava fotos de bailes. Só fotos de sacanagem. As fotos ainda eram em preto e branco e muitas das imagens apresentadas como originais pareciam poses especiais para as fotos. Mas, era legal. Naturais, ou não, as revistas com as imagens circulavam entre os meninos. Era época de punhetas!

PERSONA 3 -  Tem razão ... mas hoje vem tudo no zap. Quase em tempo real. Tem casal trepando na rua, em pleno desfile do bloco. Vi uma publicação de um cara beijando uma xereca no gramado de um jardim, ao lado de diversas pessoas, inclusive crianças carregadas ao colo.

PERSONA 2 - E nas escolas de samba? Cara, tem passista mostrando em selfie o detalhe do pino que a penetra e que sustenta o tapa xoxota. As imagens mais bizarras possíveis. Uso a palavra “bizarras” porque outras como eróticas, sensuais, pornográficas nem se aplicam.

PERSONA 1 – Pessoal, mas eu queria ... 


OS DEMAIS CAGAM E ANDAM PARA ELE – A CONVERSA ENGATOU. 


PERSONA 3 - Eu não sou moralista. Não tenho qualquer restrição de natureza moral ou pudica, nem sobre os atos nem sobre a circulação das imagens. Também não estranho as transformações, evoluções ou involuções, como queiram. Agora ... vamos concordar. Mudamos irreversivelmente de patamar.


PERSONAGEM 1 BATE NA MESA E AUMENTA O VOLUME DA VOZ -  DEMONSTRANDO IRRITAÇÃO

PERSONA 1 –  Caralho  pessoal! Eu to falando da porra do coronavírus, da situação do país e principalmente da situação do Amazonas, de Manaus, onde o caos é total e já entraram em colapso o sistema de saúde e o sistema funerário! A quantidade de mortos explodiu, a taxa de mortalidade é a maior do Brasil, As mortes são tantas que os corpos estão sendo enterrados em valas coletivas com até três camadas de defuntos em caixões empilhados, uns sobre os outros. Tem mais de 1000 agentes de saúde fudidos. Tá faltando  tudo. Essa situação é indecente!

PERSONA 2 – Pô! Você falou em coisa indecente e indecorosa, eu pensei logo em putaria. Nem tava ligado nesse negocio de Amazonas e essas coisas.

PERSONA 1 – Você quer putaria e sacanagem maior do que essa? O Amazonas , historicamente dominado por próceres da ditadura, tem sido um antro de domínio da trupe Bozo, tanto no poder civil como no poder militar da região. O comandante militar da zona franca defende fim do isolamento  e fez coro com o Bozo mandando a moçada ir para a rua.  Esses caras são genocidas. Os repórteres da Folha de São Paulo noticiam que tem cidade do Amazonas que parece ter mais tráfego que Nova Yoork ou São Paulo.

PERSONA 2 – Aí já tamo misturando o assunto de vírus com política.

PERSONA 1 –  Misturando?  Política é o caralho! Em casa, ouçam o podcast  da Folha de São Paulo sobre a situação do Amazonas. Ninguém vai dizer aqui que a Folha é suspeita de comunismo e essas babaquices. No Amazonas a trupe Bozo sempre contou com uma um apresentador de TV  (Siqueira Junior) que é um desses amigos da família Bozo. O cara fez propaganda para a eleição do Bozo e foi um arauto de convocação da moçada para as ruas.. Felizmente ele pegou o coronavírus e agora está dando uma de arrependido e fazendo um “mea culpa” fajuto. Prefeito de Manaus e governador do Estado foram suportes do Bozo. Agora estão brigando e a população é quem está se fudendo!

E para piorar o quadro, Manaus é uma das principais entradas para a região indígena que está completamente desprotegida, sem recursos materiais e nem mesmo os os anticorpos naturais da população branca – ou seja – nós. No estado do Amazonas só tem UTI em Manaus. Deslocar alguém do interior para um hospital com UTI é como levar um doente de Porto alegra para Belo Horizonte. 

PERSONA 3 – Então também dei mole. Quando  você falou indecência, falta de decoro e essas coisas eu pensei logo em sacanagem. Nem tava ligado  nesse negocio de índio e de floresta. Pô! Dá um tempo. Vou trabalhar

PERSONA 2 - É melhor mesmo. O pessoal já  ta avisando pra gente não aglomerar nem conversar muito, nem essas coisas.Vamos parar por aqui.

PERSONAGENS 2 E 3 SE RETIRAM – ILUMINAÇÃO SOBRE PERSONAGEM 1 QUE FAZ EXPRESSÃO DE CANSAÇO. E DE QUEM ESTÁ PUTO DA VIDA. VOLTA PARA SUA MESA E POR MÍMICA DÁ A ENTENDER QUE AINDA NÃO NÃO DESISTIU. FIM DESSE ATO.

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terça-feira, 5 de maio de 2020

A vida em tempos de coronavírus (47)


Opinião


O uso da metáfora do “Ovo da Serpente”, tem sido  recorrente nas análises políticas sobre os dias que vivemos. Embora seja de origem mais remota, as referências atuais copiam o uso feito em um clássico do cinema do século XX, de mesmo nome, uma produção sueca de 1977, sob a direção e roteiro de Ingmar Bergman.

Nos minutos finais do filme, um dos personagens usa a metáfora referindo-se à  simbologia maléfica da serpente abrigada ainda em seu ovo que teria (nunca vi) a característica biológica de ser envolto em fina membrana que permite transparecer o seu conteúdo. O roteirista buscou representar as circunstâncias políticas da Alemanha nos anos 20 e 30 do século passado, referindo-se não apenas ao monstro que sairia do ovo, mas também à possibilidade – ignorada – das pessoas anteverem o produto daquela gestação. Boa coisa não sairia dali. Saiu o nazismo.

No Brasil, muitos analistas têm, justificadamente, feito uso da metáfora ao tratar do governo Bozo, mas é impressionante a recusa da sociedade em aceitá-la. Pior, ainda, muitas lideranças políticas também se recusam. Estamos vendo o que está sendo gestado – transparente, como um ovo da serpente  – mas recusamo-nos a aceitar.

Com ovo ou sem ovo, essa gestação iniciou já nas mobilizações de 2013 com o despertar da direita fascista associada ao capital privado e à lideranças evangélicas resultando nas candidaturas e eleições da trupe Bozo.

O que estamos vivenciando é apenas parte da serpente que ainda está em formação e se fortalecendo dentro do ovo. Mas, podemos vê-la. A truculência das intervenções do ex-capitão boquirroto; o desrespeito no tratamento de grupos marginalizados socialmente; as mensagens gestuais de violência e de recurso às armas; as ameaças diretas de ação violenta contra adversários políticos; o elogio à tortura e aos torturadores da ditadura militar; as mensagens de estímulo à violência repassada aos seus apoiadores em atos públicos; as referências diretas aos seus poderes praticamente desqualificando os demais poderes da república; a prática genocida de levar a população a desrespeitar o isolamento social de proteção contra o coronavírus; os discursos em frente a sedes militares endossando  manifestações de apologia ao golpe; as iniciativas de transformação da policia federal em uma policia política; o envolvimento familiar com milicianos e outros criminosos – enfim, uma lista longa e quase interminável de ações e atitudes permitem identificar as características de um ser maléfico e deformado que está sendo gestado, mas ainda por brotar.

Seus prosélitos sequer escondem propósitos. Fazem carreatas pedindo a implantação de um regime militar, além de publicações sem quaisquer constrangimentos tentando intimidar a sociedade. Afirmam que contam ao seu lado com as forças de segurança pública, as policias militares e as policias civis. Ameaçam a hierarquia militar dizendo que as bases estão com o capitão boquirroto e que o resto não importa - o monstro virá. Mais transparente do que isso, impossível. Essa gestação precisa ser interrompida, abortada. 

Na atual conjuntura, só poucos grupos sociais tem organização mínima para provocar esse aborto. Talvez apenas os trabalhadores urbanos organizados em sindicatos e os trabalhadores rurais organizados em seus movimentos de ocupação de terras. Quem sabe, também os estudantes. O restante da sociedade ainda desorganizada será convocada e poderá  aderir ao processo.

Porém, esse embate não se realizará enquanto as lideranças dos partidos que se relacionam com esses movimentos e as próprias lideranças dos movimentos não explicitarem o que está ocorrendo e as suas respectivas posições. A gestação prosseguirá enquanto ignorarem o ovo da serpente, como estão fazendo, e ficarem nessa política aguinha de batata e de conciliação,  como ocorreu no último 1º. de maio. Uma vergonha. Apostam em futuras eleições  e num processo de troca de poder sem rupturas, quando o ex-capitão boquirroto não cansa de repetir que apesar da sua vitória o processo eleitoral foi uma fraude em favor dos seus adversários.

O país está sendo corroído, assolado por uma pandemia biológica e uma pandemia econômica e política. Um monstro já está atuando, mas outro pior, a verdadeira serpente, ainda está para sair do ovo.


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segunda-feira, 4 de maio de 2020

A vida em tempos de coronavírus (46)


Opinião


Hoje o coronavírus levou um dos maiores compositores da minha geração. Um amigo mandou mensagem pra mim “ É, esta manhã caiu como um viaduto!”.

Ao lado de Paulo Cesar Pinheiro e Chico Buarque de Holanda, Aldir Blanc, falecido hoje, completava um trio de gigantes da poesia musical. Sua obra será eternizada. As gerações mais novas que não sabem quem foi o Aldir também o admirarão logo que ouvirem suas canções e souberem que ele é o autor.

Para alguns de nós ficará a lembrança feliz de ter compartilhado com ele o mesmo tempo, a mesma época.

Resposta ao Tempo (Aldir Blanc e Cristovão Bastos)

Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho
Pra ter argumento

Mas fico sem jeito
Calado, ele ri
Ele zomba
Do quanto eu chorei
Porque sabe passar
E eu não sei

Num dia azul de verão
Sinto o vento
Há folhas no meu coração
É o tempo

Recordo um amor que perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei

E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos

Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto

E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer

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NOTA
Essa poesia/canção é da autoria do Aldir com o Cristovão Bastos e já teve várias interpretações lindas. A que mais gosto é a da Nana Caymmi. Mas, ela pode ser ouvida numa interpretação emocionante do próprio Aldir, no link que acessei em 04/05/2020 <https://youtu.be/fgHfzDgOwtY>

domingo, 3 de maio de 2020

A vida em tempos de coronavírus (45)


Opinião


Tenho acompanhado as avaliações de progressão das contaminações do coronavírus feitas pelos estudos na universidade de Singapura já citados em outras publicações nesse blog. As predições para o Brasil foram atualizadas e pioraram em relação às anteriores (ver figura abaixo). Piorar significa um aumento na estimativa da quantidade máxima de contaminações (pico) e um deslocamento para mais tarde da estimativa de data para inversão da tendência de crescimento da quantidade de casos, mas sem um correspondente achatamento da curva de contaminações.

Vale resgatar, em que pese seja óbvio, que as curvas e estudos de predições de evolução das pandemias baseiam-se nos fatos  ocorridos, mesmo que sejam subnotificações. As curvas são formas de representar tendências, mas não são as curvas que determinam as ocorrências dos eventos e o desenrolar do processo. O que determina o processo são fatos e as providências que são adotadas em relação a eles. Se providências adequadas não forem adotadas, pode-se ficar num processo eterno de ajustes de curvas sem nunca chegar ao pico e à consequente inversão da tendência que é o primeiro objetivo desejado.

Os dados diários, independentemente dos estudos de Singapura, mostram uma redução da aceleração da velocidade de contaminação no Brasil e isso é bom, mas redução da aceleração não quer dizer redução da velocidade.  A aceleração, ou seja, a taxa de crescimento diário de contaminações pode aumentar se, em vez de um controle efetivo, a sociedade resolver chutar o pau da barraca e abandonar os esforços que vêm sendo realizados até aqui.

Há um vídeo muito interessante e didático que mostra a desaceleração das contaminações no Brasil como resultado do isolamento social (ver link abaixo). O vídeo é bem cuidadoso e sem presunções, feito por um analista, Mauricio Feo, o mesmo que fez outra apresentação sobre a evolução viral usando um exemplo com o crescimento das plantas chamadas "vitória-régia" e que foi amplamente divulgado pela web e até na TV.

Posso estar enganado, mas acho que estamos em uma fase em que o cumprimento das restrições deveria ser rigoroso numa tentativa de garantirmos uma inversão na tendência de crescimento das contaminações. Porém, é importante registrar, ainda que as estimativas de reversão e controle da pandemia estejam corretas – o que é uma visão otimista -  ainda assim, teremos um preço altíssimo a pagar em quantidade de contaminações e óbitos.

Infelizmente, na linha da política genocida do ex-capitão boquirroto, vemos um afoitamento de diversas autoridades públicas fazendo de tudo para escancarar as porteiras das restrições e do isolamento social. Pior do que isso, apontando irresponsavelmente para a sociedade um cenário de retorno à uma normalidade que não mais existirá. O descompromisso é total.

Sem dúvidas, o assunto da redução do isolamento social precisa ser tratado, mas tratado como um planejamento sobre como fazer o relaxamento das restrições quando chegar a hora. Porém, os caras alinhados com a trupe Bozo estão simplesmente querendo deixar a boiada passar e foda-se o que acontecer. Corremos o risco de sermos apontados não como vítimas da pandemia, mas como irradiadores de contaminações.

No contraponto das iniciativas do governo fascista, o combate à pandemia conta com a subversão de algumas outras autoridades, incluindo governos estaduais. Não embarcaram na canoa da trupe Bozo, mas não nos iludamos, não estamos diante de nenhuma  revolução, essas contraposições têm um limite e se desenvolvem num cenário de crise política de consequências difíceis de avaliar nesse momento.

Precisamos botar essa canalhada para fora. Para a saúde da sociedade brasileira, erradicar a contaminação viral da trupe Bozo é tão importante quanto o combate ao coronavírus.

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NOTAS

Referências para os estudos de Singapura - Atualizados diariamente 
Data-Driven Innovation Lab (http://ddi.sutd.edu.sg)



“A quarentena pode estar salvando o Brasil. Entenda o porquê” – Vídeo do Mauricio Feo citado no texto. Acessado em 03/05/2020 em <https://www.youtube.com/watch?time_continue=13&v=cyEGb1Osu0k>

sábado, 2 de maio de 2020

A vida em tempos de coronavírus (44)


Opinião


Em decorrência da morte de Tancredo Neves, presidente eleito pelo colégio eleitoral após a frustrada campanha das “Diretas Já”, assumiu o governo Jose Sarney. E junto com Sarney, o país ganhou de brinde Toninho Malvadeza (Antonio Carlos Magalhães - ACM) como ministro das Comunicações, golpista e afilhado querido dos ditadores militares de 1964.


A ida de ACM para o ministério das Comunicações, como não poderia deixar de ser,  foi um desastre para o setor e especialmente para os seus trabalhadores. Contudo, esse também foi um período especial na organização dos trabalhadores de telecomunicações. Representando os trabalhadores em nossas associações de empregados, sindicatos e federação de sindicatos, costumávamos afirmar para a categoria: é melhor que o ministro mais fdp tenha sido designado para o nosso setor, porque aqui estão os trabalhadores com maior disposição e espírito de luta para enfrentá-lo.

Não foi fácil, o sacana do ACM foi ministro durante todo o governo Sarney, de 1985 a 1990, mas durante todo esse período ele foi enfrentado com vigor pelos trabalhadores do então sistema Telebrás e da empresa de correios a ECT que pagaram alto preço nesses enfrentamentos, com trabalhadores punidos e demitidos.

Essa lembrança vem a título de comparação com uma situação inversa e atual. Há 35 anos, o pior dos ministros de Sarney encontrou a categoria mais competente para enfrentá-lo. Agora, a pandemia coronavírus, um dos grandes desastres da humanidade, assola o nosso país justamente quando ele está submetido ao mais incompetente governo da nossa história e, pelos fatos que temos notícias, possivelmente o mais incompetente entre os governos das demais nações que enfrentam a pandemia. Puta que pariu! É muito azar!

Para piorar a situação, não se trata apenas de um governo incompetente. Trata-se de um governo que contribui para o avanço da pandemia em vez do seu enfrentamento. E, não bastasse isso, um governo que aglutina em torno de si uma multidão de desesperados que já estão até apontados como sérios casos clínicos de distúrbios de comportamento. Distúrbios que, bem ou mal, estavam embotados, reprimidos, mas  cujos gatilhos emocionais foram disparados nessa conjunção corona-bozo, e que não serão revertidos facilmente porque não há um gatilho de reversão. Esse será um sério problema para a geração atual que sobreviver à pandemia e, também, para as gerações de brasileiros que sucederem a atual.

Felizmente, no próprio vazio incompetente do governo Bozo surgem iniciativas aqui e acolá. Conforme já comentei em outras oportunidades, a camada de profissionais que está envolvida diretamente com o assunto dá mostras expressivas que não se confunde com o extrato superior ocupado pelas designações do ex-capitão boquirroto,

Nas cidades do Brasil, como em outras cidades do mundo, os profissionais da área de saúde estão sendo reverenciados por suas ações e dedicações, embora aqui ainda enfrentem as limitações dos recursos para trabalharem e agressões fascistas quando reivindicam esses recursos. Foi o que ocorreu na manhã do dia 1º. de maio em Brasília (ver link abaixo).

Outras iniciativas vêm de governos estaduais que não embarcaram na caravana da morte do governo Bozo. Um grupo de nove estados da região nordeste formou o chamado Comitê Científico de Combate ao Coronavírus (C4NE), um grupo de profissionais que trabalham sob a coordenação do neurocientista Miguel Nicolelis, uma referência mundial em sua área,  e do físico Sergio Rezende, ex-ministro de Ciências e Tecnologia do governo Lula. O comitê tem como função básica assessorar um colegiado de governadores chamado Consórcio Nordeste no tratamento do assunto coronavírus.

Já são vários os produtos do trabalho do grupo. Dia desses, por sua sugestão, os governadores criaram as chamadas Brigada Emergencial de Saúde do Nordeste que fazem parte de uma estratégia de ir até os locais de manifestação do vírus tentando antecipar-se à necessidade de deslocamento de contaminados até os hospitais. O comitê científico criou um site com informações, ferramentas de acompanhamento das contaminações, relatórios de acompanhamento dos seus trabalhos e resultados, além de diversas outras informações. Poderá ser acessado pelo link abaixo.

O comitê científico não fará milagres, mas é o tipo de ação que poderia estar sendo desenvolvida em âmbito nacional e sob uma coordenação integrada como uma política de Estado no combate à pandemia. Certamente demandaria versões específicas, talvez para  as grandes cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo. Mas, poderíamos estar juntos tentando e participando desse combate em vez de estar fazendo esse papel que assusta o mundo e que certamente nos trará muita vergonha em tempos futuros, além das vítimas diretas da pandemia.

Infelizmente, porém, diferentemente de ACM que encontrou uma categoria do tipo osso duro de roer, o coronavírus encontrou no Brasil aqui mais do que um  hospedeiro ideal, encontrou um vírus companheiro. Essa pústula levada ao poder pela ignorância política manipulada por grandes corporações do capital e associadas à corporações religiosas. Mas, nóis enfrenta!

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NOTAS

Profissionais de saúde são atacados por apoiadores do Bozo em 1º de maio 2020, em Brasília – vídeo capturado em 02/05/2020 em <https://www.youtube.com/watch?time_continue=2&v=VEHFy9xCRFo&feature=emb_logo>

'Profissionais no mundo são aplaudidos, e no Brasil a gente apanha', diz enfermeira agredida em ato no DF – vídeo capturado em 02/05/2020 em <https://g1.globo.com/df/video/video-mostra-confusao-com-manifestante-vestido-de-verde-e-amarelo-8524290.ghtml>

Site do Comitê Científico de Combate ao Coronavírus (C4NE) – Acessado em 02/05/2020 em <https://www.comitecientifico-ne.com.br/c4ne>

sexta-feira, 1 de maio de 2020

A vida em tempos de coronavírus (43)

Opinião


Primeiro de Maio (Chico Buarque e Milton Nascimento)

Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas

Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu

Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhas do seu ventre
O homem de amanhã
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Esse é o professor Alysson Leandro Mascaro - Professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco - USP). Doutor e Livre-Docente em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo.




 Hoje é 1º de Maio de 2020

Dia de luta e de bandeiras vermelhas.
Ainda que isolados socialmente pelo coronavírus
os trabalhadores têm uma tarefa a cumprir - superar a sociedade capitalista.
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NOTA
O vídeo é trecho da conferência de encerramento do  Seminário de Formação Sindical de Base no SINTAJ – Sindicato dos Servidores dos Serviços Auxiliares do Poder Judiciário do Estado da Bahia, no dia 05 de novembro de 2016. Capturado em 01/05/2020 de :<https://www.youtube.com/watch?v=woGWGyUr4is&fbclid=IwAR1kb827a-yXh7N14G4YaXfZZmp8eZLo72ooGnQc7h3cwL9M1-Khm45U4Ic>

quinta-feira, 30 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (42)

Opinião


Amanhã será 1º de Maio. Tradicionalmente dia de trabalhadores saírem às ruas em confraternização, grande parte deles sem mesmo saber a gênese de suas celebrações. Uma festa disputada. Memória de lutas contra a opressão, o 1º. de Maio sempre teve um simbolismo fortíssimo, tão forte que o empenho em roubar o seu simbolismo da memória dos trabalhadores é permanente.

No sistema de produção capitalista, onde os trabalhadores se agregam como classe explorada pelo capital, as corporações que representam esse último têm uma preocupação constante em que os trabalhadores não tenham a consciência do papel que representam nesse sistema, ou seja, não tenham consciência de classe. E as corporações trabalham intensamente para isso.

As donas do capital têm plena consciência do que representam e dos seus interesses, dos interesses e vontades de sua classe, mas isso não ocorre entre os trabalhadores. Os trabalhadores sofrem concretamente a opressão, têm força e poder para transformar essa realidade, mas não refletem objetivamente  sobre o mecanismo de exploração que os submete – falta-lhes consciência de classe.

As organizações de trabalhadores que querem superar esses obstáculos apontam as direções das lutas, organizam movimentos reivindicatórios, resgatam memórias de lutas, e é nesse contexto que se enquadra o simbolismo do 1º. de Maio. Antes de tudo, uma data que evoca as lutas e greves dos trabalhadores, além do caráter internacional da sua classe.

Certamente esse tipo de ação bate de frente com os donos do capital que recorrem às suas armas no enfrentamento dessa organização, e sua arma principal é o Estado administrado pelo poder econômico. Conforme a necessidade, essa arma é utilizada desse ou daquele jeito. Ora como instrumento de repressão contra os trabalhadores em suas manifestações e, em outras circunstâncias, como um solvente de suas iniciativas de organização viabilizado através da cooptação de lideranças sindicais e políticas.

Em nossa história já houve momentos em que mobilizações pela jornada de oito horas de trabalho quando vigorava a prática de 10 a 12 horas por dia; pela  abolição do trabalho infantil quando vigorava a prática de contratação pelas fábricas de crianças de seis anos; pela a proteção ao trabalho da mulher, entre outras, eram fortemente representadas em manifestações no 1º. de Maio e, usualmente, reprimidas pelas forças do Estado.

Em outros momentos, a arma Estado foi usada de forma mais eficiente. Foi utilizada para transformar o 1º. de Maio em uma festa alienada das lutas dos trabalhadores. Infelizmente, esse tipo de ação sempre passa, antes de mais nada, pela cooptação de dirigentes sindicais pelegos e traidores de categorias e de classe.

Não cabe resgatar a memória das lutas dos trabalhadores, nem a história dessa data tão importante. Contudo, é triste verificar que nesse ano de coronavírus a cooptação parece ter chegado a um ponto que dificilmente será superado.

A pandemia do coronavírus ficará para sempre na história do nosso país como um marco do ano 2020 e infelizmente,  o 1º. de Maio desse ano também ficará.  Mas, não apenas como um 1º. de Maio de isolamento social, mas também como um 1º. de Maio de lembranças vergonhosas e desonrosas para a história do movimento dos trabalhadores.

As centrais sindicais, com exceção da CSP Conlutas e a INTERSINDICAL celebrarão o 1º. de Maio de 2020 do tipo festa do Estado, fato que não traz muita novidade. A cooptação de dirigentes pelegos, que em vez de estarem à frente das categorias como porta-vozes de suas reivindicações, assumem o papel de mestres de cerimônias de festinhas bancadas pelo governo local tem sido recorrente.

Contudo, esse ano a parada é quente. Até o coronavírus deve estar espantado com tanta sem-vergonhice dos dirigentes sindicais. Esses calhordas estão promovendo um evento com o lema:  

1º. de Maio Solidário – Saúde – Emprego - Renda.
E estão convidando para o evento, entre outros, nada mais nada menos do que:

Fernando Henrique Cardoso (PSDB);  o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ);  a ex-candidata presidencial Marina Silva (Rede); o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP); o presidente do do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli. os governadores do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC) e de São Paulo, João Doria (PSDB)

Sim – no mesmo cenário de Reforma Trabalhista, Desemprego, Reforma da Previdência, Privatizações – as centrais sindicais estão fazendo “isso”.

Quem não acreditar busque saber. Os sites das centrais referem-se aos convidados de uma forma genérica como “políticos”, mas a informação está escancarada em alguns jornais das centrais, incluindo no órgão de mídia que representa a CUT  (RBA – Rede Brasil Atual).

Não vale gastar palavras classificando esses hospedeiros que carregam e espalham o vírus do peleguismo entre os trabalhadores. Pra quem é, bacalhau basta. O espaço aqui restante será ocupado para a convocação de uma manifestação classista – um verdadeiro 1º. de Maio -  Vamos à luta!
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Cartaz de convocação para o 1o. de Maio de 2020 pelas centrais: CSP Conlutas e INTERSINDICAL


quarta-feira, 29 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (41)


Opinião


Os  números oficiais de contaminados e de óbitos no Brasil devido ao coronavírus continuam crescendo, apesar de serem assumidamente subnotificados. Não consta que haja estimativas oficiais sobre os números reais que pudesse aumentar o nível de esclarecimento da população.


Nesta semana passou a circular na web, sempre informalmente,  um estudo realizado na universidade de Singapura que é um exercício de predição da evolução da pandemia em vários países do mundo, incluindo o Brasil.  O estudo utiliza modelos típicos de evolução de pandemias ajustados conforme as informações sobre os casos em cada país.

O estudo é bem claro ao apontar um monte de ressalvas e alertas que as curvas de estimativas estão sendo atualizadas diariamente e que não devem ser tratadas como um processo determinístico.

No caso do Brasil, não sabemos se a distribuição das subnotificações está sendo a mesma dos registros oficiais -  pelas dificuldades de realização dos testes, os dados são acumulados e notificados em pacotes o que dificulta o acompanhamento diário e distorce a interpretação de tendências – esse fato aumenta a incerteza nas predições. Se a distribuição dos casos reais for a mesma dos casos notificados, então as expectativas se aplicam.

Não sei explicar por quais razões, mas as expectativas  que estão sendo divulgadas, inclusive por algumas autoridades, coincidem com as informações dos estudos  de Singapura e apontam para dois pontos importantíssimos:

  • Estaríamos passando pelo pico das contaminações em torno da primeira semana de maio de 2020.
  • Essa época marcaria, então, a reversão da tendência de aumento e entraríamos num período de redução progressiva da quantidade de casos.

Tudo isso, naturalmente com as já citadas observações sobre a incerteza. Dependendo de vários fatores poderemos estar num chamado ponto de inflexão (mudança de direção) e essa merda dessa contaminação desandar levando-nos todos para um buraco sem saída. Tomara que não!

Nossa certeza é que com ou sem o acerto das predições, o nosso sistema de saúde que já se caracteriza por uma grande precariedade, está no limite de leitos em UTI  em várias cidades e os profissionais de saúde já estão vivenciando dramas das escolhas de Sofia. E se não estamos já em uma situação de  caos total,  sem duvida é porque com todas as deficiências e fragilidades boa parte da sociedade tem atendido à orientação do isolamento.

A propósito, vale resgatar que a divulgação da situação internacional tem sido contribuição fundamental para a resposta da sociedade ao isolamento. Também é fundamental o registro dessa experiência como exemplo da importância da liberdade de expressão, da divulgação e do acesso às informações. Acho até uma observação vergonhosa, mas esse registro é importante num momento em que afloram manifestações fascistas clamando por retorno à ditadura militar - o que significa o retorno de suas práticas, entre elas, a censura -  e o governo eleito reverência assassinos e torturadores dessa aclamada ditadura.

Nada podemos afirmar ainda sobre as tais predições. Estamos vendo que a situação é estarrecedora em muitos lugares, e deveríamos estar cabreiros e cuidadosos. Porque não há nada que esperar do grupo incompetente que se aglutina em um governo com atributos de genocida. Milícias, estupro, morte, violência, descaso essas são as palavras chaves desse governo.

Na noite de ontem, dia 28/4, o ex-capitão boquirroto foi interpelado por repórteres sobre o aumento de casos de mortes que na último contagem do dia foi de 474 óbitos. Pergunta em público, ao vivo, na presença de diversos repórteres. O Bozo respondeu com uma piada. Como esperar que dessa figura medíocre algum compromisso social? Não tinha, não tem e não terá.

Os profissionais do sistema de saúde – e de outras áreas – não devem ser confundidos com essa corja. Os testemunhos que vêm de todos os cantos do país é que eles estão dando o melhor de si. As soluções aplicadas, os planos possíveis, as ações táticas e os melhores rendimentos têm saído e sairão das iniciativas desses profissionais que representam o nosso serviço público e que atuam independentemente dessa cúpula putrefata que boia sobre a densa camada de verdadeiros trabalhadores.

Essa cúpula precisa ser curetada, raspada e jogada em local para que se decomponha em composto de esterco, quem sabe, um dia, prestem para alguma coisa. Mas, não nos basta que façam arranjos e trocas. As substituições por membros da mesma laia não alteram as políticas. Eles precisam ser retirados pela sociedade como sinal de repúdio a tudo que representam, num esboço de movimento de transformação. Fora todos!.

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Referências para os estudos de Singapura - Atualizados diariamente 

 When Will COVID-19 End? Data-Driven Prediction - Jianxi Luo
Data-Driven Innovation Lab (http://ddi.sutd.edu.sg)
Singapore University of Technology and Design (http://www.sutd.edu.sg)
Updated at 2 AM, April 29, 2029




Brazil - End 97% around June 6, 100% around September 6



Vídeo com notícia sobre a resposta do Bozo sobre o aumento do número de mortos - Capturado em 29/04/2020 em < 
https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/04/28/e-dai-lamento-quer-que-eu-faca-o-que-diz-bolsonaro-sobre-mortes-por-coronavirus-no-brasil.ghtml>






terça-feira, 28 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (40)


Opinião


Em conversa com amigos em videoconferência  comentou-se sobre um caso qualquer, onde familiares questionaram o agente de saúde por não explicitar a causa de um óbito como coronavírus. As orientações de só atestar como causa Covid-19 os casos de contaminações ou óbitos efetivamente testados estaria gerando conflitos entre familiares responsáveis pelos vitimados e os agentes de saúde.

Na sequência surgiu uma questão interessante – a dos seguros de vida versus as subnotificações de contaminações e óbitos pelo coronavírus. Nos contratos de pessoas cobertas por seguros de saúde e de vida, é praxe a exclusão de obrigações de pagamento de indenizações por eventos  associados a epidemias e pandemias formalmente declaradas por autoridades competentes, assim como algumas outras situações, incluindo catástrofes naturais. Considerando apenas esse aspecto, que interesse haveria na notificação de um óbito ou diagnóstico médico como coronavírus? A subnotificação, nesses casos, seria mais conveniente para não provocar conflitos com a seguradora. Naturalmente essa foi apenas uma passagem de bate-papo de leigos, sem nada a ver com debates jurídicos.

Buscando saber mais sobre o assunto, vi que nos EUA a questão já está rolando e  há um tópico que é específico de lá. O sistema de saúde americano – tipicamente privado – na década passada sofreu algumas alterações decorrentes de iniciativas do ex-presidente Obama  tentando algum nível de publicização do sistema. As modificações foram tímidas e até hoje contestadas, inclusive pelo atual presidente que defende um Trumpcare, mas não é o foco aqui.

O foco na questão americana é o conflito que está tomando vulto agora. Nas reformas do Obamacare o governo teria dado às seguradoras contrapartidas compensatórias para os casos de situações específicas de desbalanços financeiros provocados pelas mudanças no sistema. Mas, aí apareceu o coronavírus.

Sem conhecer nem me interessas pelos detalhes, li que, entre outras tantas, a pandemia coronavírus está fazendo uma grande confusão nessa área, e abrindo polêmicas lá, nos EUA, sobre quem deve o quê, a quem.

Aqui no Brasil, algumas seguradora (Itaú, Santander e Banco do Brasil, não sei se existem outras), estão fazendo propagandas de seus serviços informando que cobrirão os sinistros decorrentes do coronavírus para os casos de  seguros de vida e prestamista (são apólices que garantem o pagamento de financiamentos e dívidas em caso de morte e invalidez). Mas, eu fiquei com a pulga atrás da orelha porque geralmente sou lerdo em tratar desses assuntos. Tenho seguro de vida e ainda não procurei saber como ficaria a situação no caso desse sacana desse coronavírus resolver me pegar e me levar dessa para outras experiências. Não sei bem a importância dessa providência, mas procurarei saber sobre isso e alertarei outros, conforme o caso.

Nas minhas navegações googlelianas sobre o assunto, estava focando  exclusivamente o caso dos batimentos de botas, mas como não poderia deixar de ser, verifico que o buraco é bem mais embaixo. O assunto tem diversas implicações, particularmente no caso do comercio e da indústria. Sei que que os exemplos que vi são infantis, na medida em que estão no âmbito do meu conhecimento do assunto que é praticamente nenhum, mas imagino que no sistema de relações entre as corporações a situação deve estar uma grande complicação, um verdadeiro embrulho de três cocos.

São várias as situações de perdas que podem estar associadas diretamente à pandemia e que sugerem discussões sobre as suas coberturas pelos mecanismos de seguros, adicionalmente aos casos de vida e saúde: inadimplemento de obrigações e danos patrimoniais; lucros cessantes; viagem; educação; riscos operacionais entre outros.

Em uma das leituras que vi aponta-se que esses outros casos envolvem montantes bem mais elevados do que os casos específicos de saúde dos segurados. A título de exemplo, diz-se que o adiamento das Olimpíadas de Tóquio gerará obrigações securitárias da ordem de dois bilhões de dólares.


É interessante que a conversa sobre essas questões parecem soar estranhas, como se elas fossem de um mundo que não é nosso. Como se o mundo da economia e das corporações não tivesse relação com os trabalhadores, o que é um pensamento equivocado,  uma armadilha.


Ali, naqueles milhões e bilhões não há uma merreca que não tenha sido produzida pelo trabalho. Então, é assunto de nosso interesse. Esses milhões e bilhões já foram produzidos e estão acumulados em formas diversas compondo a riqueza de uma minoria cuja quantidade é inexpressiva quando comparada com a massa de trabalhadores. Esses milhões e bilhões podem e devem ser resgatados e divididos. Em nome dos trabalhadores, do seu conforto, da sua tranquilidade, do sustento de suas famílias enquanto cumprem o isolamento social, de suas vidas e saúde. 

Em vez de atender ao chamado de arriscar vidas para aumentar a fortuna dos donos do capital, a palavra de ordem entre os trabalhadores precisa ser: Vamos dividir agora! Essa merreca de 600 reais é muito pouco. Sabemos que ainda tem muita grana guardada nesse baú!

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