domingo, 23 de janeiro de 2022

Elza Soares

Leituras para distrair 

Não estou entre os admiradores da Elza Soares cantora. Longe de negar seus atributos artísticos, apenas nunca me encantaram. Minha referência sempre foi a de uma artista popular de sucesso em minha infância, e com características próprias nas suas interpretações. Foi bem tarde, após 1995, e ainda sem me incluir na galeria de seus fãs, que me interessei pela personagem Elza Soares.

Em 1995, o jornalista Ruy Castro publicou o livro "Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha" (Companhia das Letras). Não gosto de futebol, mas sempre me impressionei com o mito Garrincha, e a leitura de sua biografia, numa época em que eu viajava bastante, foi uma distração. Pequeno mergulho num trecho da história desse esporte que afeta culturalmente qualquer brasileiro, mesmo os que cagam e andam para ele, como é o meu caso.

O livro é interessantíssimo, tanto pelo personagem e sua história, como pela narrativa do autor, um dos tantos trabalhos brilhantes do Ruy Castro. Trata-se de uma obra que está bem além de ser exclusiva para os amantes do futebol.

Foi lendo a biografia do Garrincha que soube do papel da Elza Soares na vida desse mito nacional e, consequentemente, do caráter especial dessa personagem. Uma surpresa que talvez tenha me impactado mais do que o personagem biografado. A partir de então, todas as vezes que em conversas surgiu o nome do jogador ou da cantora, resgatei as minhas leituras da biografia do Garrincha e da figura especial da Elza Soares.

A carreira longeva e os seus méritos artísticos – e agora o seu falecimento -  fizeram com que a história de vida da Elza Soares tenha sido resgatada com bastante divulgação. Contudo, ainda assim guardo comigo o destaque de figura humana que foi recuperado pelo Ruy Castro. A admiração pelo mito Garrincha é quase uma unanimidade nacional e seria muito legal se os seus admiradores conhecessem o papel da artista na história do deus de pernas tortas. Quem sabe, não passaria de um alcoólatra decaído e esquecido, se uma Elza Soares não tivesse existido em sua vida.

Minhas preferências artísticas não mudaram, e cada vez gosto menos de futebol, mas a admiração pela Elza Soares ficou. ###

sábado, 15 de janeiro de 2022

Houve uma época em que o mundo parecia simples

Leituras para distrair

 

Achei esse texto legal e copiei para compartilhar. Gosto muito do autor e lembrei-me de um monte de gente que guardou da física a imagem daquela disciplina obrigatória e aporrinhante do ensino médio. 

 

Houve uma época em que o mundo parecia simples

Autor: Carlo Rovelli [1]

 Na época em que Dante escrevia, pensávamos o mundo na Europa como espelho embaçado de uma grande hierarquia celeste: um grande Deus e suas esferas de anjos levam os planetas em sua corrida através do céu e participam com entusiasmo e amor de nossa vida, da vida desta frágil humanidade, que no centro do cosmos oscila entre adoração, rebelião e arrependimento. 

Depois mudamos de ideia. Nos séculos subsequentes, compreendemos aspectos da realidade. Descobrimos gramáticas ocultas, encontramos estratégias para nossos objetivos. O pensamento científico construiu um complexo edifício de saberes. A física foi a força motriz e unificadora, oferecendo uma imagem nítida da realidade: um vasto espaço onde correm partículas, impelidas e atraídas por forças. Faraday e Maxwell acrescentaram o "campo" eletromagnético, entidade difundida no espaço através da qual corpos distantes exercem forças um sobre o outro. Einstein completou o quadro, mostrando que também a gravidade é levada por um "campo": um campo que é a própria geometria do espaço e tempo. A síntese é clara e encantadora. 

A realidade é uma estratificação exuberante: montanhas nevadas e florestas, o olhar dos amigos, o estrondo do metrô nas sujas manhãs de inverno, nossa sede irrequieta, o deslizar dos dedos na tela do celular, o gosto do pão, o sofrimento do mundo, o céu noturno, a imensidão das estrelas. Vênus brilhando solitária no céu azul ultramarino do cerpúsculo... Pensávamos ter encontrado a trama de fundo desse pulular caleidoscópio, a ordem oculta atrás do véu desvendado das aparências. Era o tempo em que o mundo parecia simples. 

Mas, para nós, minúsculas criaturas mortais, as grandes esperanças não passam de breves sonhos. A clareza conceitual da física clássica foi varrida pelos quanta. A realidade não é como descreve a física clássica. 

Foi um despertar brusco do sonho feliz em que nos tinham embalado as ilusões do sucesso de Newton. Mas é um despertar que nos leva ao coração pulsante do pensamento científico, que não é feito de certezas adquiridas: é um pensamento em movimento contínuo, cuja força é precisamente a capacidade de recolocar sempre em discussão todas as coisas e começar de novo, de não ter medo de subverter uma ordem do mundo para buscar uma mais eficaz, e depois voltar a colocar tudo em discussão, subverter tudo de novo. 

Não ter medo de repensar o mundo é a força da ciência: desde que Anaximandro eliminou as colunas na qual a Terra se apoiava, Copérnico a pôs a girar o céu. Einstein dissolveu a rigidez da geometria do espaço e do tempo, e Darwin desmascarou a ilusão da alteridade dos humanos... A realidade se redesenha continuamente em formas cada vez mais eficazes. A coragem de reinventar profundamente o mundo: esse é o fascínio sutil da ciência que capturou as rebeliões da minha adolescência... ###

 

[1]

Copiado, sem autorização, do livro "O abismo vertiginoso – um mergulho nas ideias e nos efeitos da física quântica" – Carlo Rovelli – Ed. Objetiva 

Carlo Rovelli é físico teórico italiano, membro do Instituto Universitário Francês e da Academia Internacional de Filosofia da Ciência, professor do Centro de Física Teórica da Universidade Aix-Marseille. Especialista no estudo da gravidade quântica.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Ensaboa

 Opinião 

O Bozo é uma figura política tão escrota que até mesmo a Globo, com todo o seu histórico de escrotidão jornalística, consegue fazer manifesto apontando as os seus crimes sem a necessidade de manipulação editorial.

O gado não sabe bem como agir. Parte dele, assumido, abaixa a cabeça e espera. Responderá ao comando do ferrão dos seus condutores. Irá para aqui ou acolá conforme for ferreteado. Mas, há também um gado que disfarça a sua condição de simpatizante, sem assumi-la.

Um personagem de novela que fez  sucesso no início dos anos 70, era um bicheiro com o cacoete lavar as mãos a todo o momento. Sofria de um transtorno obsessivo-compulsivo que o obrigava, em intervalos de minutos ou em pausas de conversas,  buscar um lavatório onde ensaboava, lavava e secava as mãos. Era o Jovelino Sabonete interpretado pelo falecido e brilhante ator Felipe Carone na novela Bandeira 2.

O gado simpatizante me faz lembrar o Jovelino Sabonete. São identificados ideologicamente com o Bozo, mas buscam obsessiva e compulsivamente lavar as mãos como forma de disfarce, geralmente ensaboando-se no lavatório do discurso antipetista. Passam todo o seu tempo divulgando propagandas pró-Bozo, mas sempre tentando lavar os rastros fascistas de suas opções com mensagens anticorrupção, de criminalização da política, além de outras.

Apregoam-se como descomprometidos, mas suas práticas os desmentem. Não perdem a oportunidade de encher a bola de personagens caricatos tipo bias kicis ou o papagaio da havan e, volta e meia, uma fakenewsinha como se não soubessem sobre a falsidade da sua origem. Ora é o STF corrupto, ora é o Lula ladrão, ora é a Globo comunista, enquanto garimpam sem sucesso alguma coisa que preste no lodaçal político do governo Bozo.

Os ataques contra os direitos dos trabalhadores; contra os grupos discriminados que buscam representação política; o genocídio decorrente das ações e omissões na governança da área de saúde; a campanha e o boicote à vacinação em massa e, agora, o crime do boicote à vacinação infantil -  nada disso tem sido suficiente para o gado bozista dar conta de si. Nem mesmo os que correm para os lavatórios ensaboando-se em discursos precários e de conteúdos que oscilam entre a ignorância e a burrice. Fascistinhas sabonetes!

######

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Fim do trecho em obras?

 

Leituras para distrair

 Estava entre os que pensam no retorno a uma normalidade pós-pandemia. Uma volta às atividades interrompidas desde a primeira quinzena de março de 2020, como foi o meu caso e de um grande número de pessoas.

Pensava nas restrições e cuidados pandêmicos como um "desvio por motivo de obras". Um desconforto temporário e com retardos implicando em reprogramação dos agendamentos. Para mim, em algum momento encontraríamos outra placa indicando " fim do trecho em obras " e um novo desvio, desta vez para retorno à normalidade do percurso que fora interrompido.

Não penso mais assim. Não por conta exclusiva de reflexões individuais, seria uma pretensão. Mas, pelas oportunidades de conversas entre companheiros, e acesso às reflexões de outros que sequer conheço. Reflexões que circulam nesse mar de informações viabilizado pela tecnologia e agitado pelo quadro trágico de um vírus que, com uma significativa contribuição de agentes governamentais, só em nosso país já tragou cerca de 600 mil vidas.

Não entramos em um desvio para uma rota alternativa e temporária. Entramos em novo caminho com características distintas das que conhecíamos e que vamos identificando na medida em que prosseguimos.

Mais adiante, a pandemia propriamente dita será uma paisagem ultrapassada e a rota a seguir também não será mais aquela de antes. A vida anterior à pandemia terá passado, assim como passará a própria pandemia. Precisamos nos adaptar a essa ideia. Insistir na expectativa de retorno a algo que ficou no passado será um equívoco. Devemos nos empenhar na preparação e atenção para esse novo caminho.

Penso no conselho de um psicólogo (B.F. Skinner) ao tratar sobre a velhice. "A velhice é, em parte, como um outro país. Você poderá viver bem lá, se se preparou com antecedência". Aprender desde já sobre novos hábitos, costumes e necessidades. A mudança virá. Assim, buscar saber como é a vida por lá irá ajudar-nos quando a mudança acontecer.

Também o fim da pandemia virá, mas será como a vida em outro local. Relações profissionais e pessoais, obrigações e relações familiares, estudos, trabalhos, viagens, projetos, enfim, todos esses significados que compõem a nossa vida pessoal e em sociedade serão impactados. Precisamos nos preparar desde já.

Umas das pouquíssimas coisas que não mudarão com a pandemia serão o determinismo da morte e a exploração capitalista. A vida humana ainda é finita, e no capitalismo continuará tratada como mercadoria, no processo interminável da exploração dos trabalhadores pela classe capitalista visando à apropriação por essa última da riqueza produzida pela primeira.

Porém, um fato interessante emergirá como novo, embora não o seja, em relação aos tempos pandêmicos. Precisaremos explicitar certas escolhas porque não poderemos mais usar a pandemia como desculpa. Aonde ir ou o que fazer. Onde estar, quando e com quem.

Escolher e criar subterfúgios e justificativas naturalmente não será uma novidade, afinal, sempre fizemos isso. Mas, a pandemia terá nos deixados "mal" acostumados porque não somos cobrados em nossas afirmativas ou negações quando a usamos como desculpa. Interessante! Um pouco mais a frente as razões precisarão ser outras, mais claras ou explícitas.  Isso será um grande e curioso exercício.  *####*

 

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

O Bacalhau do Andarilho

 Leituras para distrair

Daqui a alguns dias faremos um encontro para conversas na casa de um amigo. O prato principal será bacalhau, e tendo em vista  o hábito  do dono da casa de vaguear durante a pandemia quando deveria sossegar o rabo em casa, para sacaneá-lo, batizamos o evento de Bacalhau do Andarilho.

A aproximação do nosso Bacalhau do Andarilho trouxe algumas lembranças sobre as quais já conversei com alguns, mas que resolvi registrar, apenas como exercício.

Tomo como referência a minha família de infância: um casal e três filhos homens, sustentada por um operário metalúrgico. Assalariado e sem qualificações especiais além da sua experiência. Só após 10 anos de casamento conseguiu alugar uma casa para a família. Até então, morava em uma "casa de fundos" , propriedade de parentes próximos, sem compromisso de aluguel. Essas informações visam apenas formar o contexto sócio econômico.

Para aquela família, e naquela época, o bacalhau era acessível, logo não devia ser tão caro. E não eram imitações. Era comum achar nos armazéns, para usos diversos, as caixas de armazenamento dos peixes importados, todas com aquelas palavras estrangeiras estranhas e incompreensíveis.

O bacalhau, pelo menos em nosso campo de relações, embora frequente nas mesas, não era idolatrado como alimentação especial. O consumo era maior nas festas religiosas da semana santa quando era "proibido" o consumo da carne bovina. Naturalmente estou relatando memórias de uma experiência particular, não tenho como comprovar e generalizar essas afirmações. São memórias com a intenção exclusiva de estimular lembranças de cada um e conversas entre nós.

As carnes bovinas, essas sim, eram a essência da dieta. Carnes de primeira e de segunda. Ainda hoje não sei identificá-las para exemplificar. O que recordo é que o consumo dos chamados bifes era um hábito comum, mas nas famílias maiores não dava pra fazer um bife para cada um. Não haveria carne que bastasse. Muito menos contemplando as preferências do privilegiado: bem passado, mal passado, ao ponto, etc. As soluções em quase todas as famílias eram a carne moída e os ensopadinhos.

A carne picada em pequenos pedaços rendia. Cozida com batatas, chuchus, cenouras e similares, compunha o que os paulistas chamam de "mistura", o complemento proteico do prato. Brilhante solução!

A carne moída, até então, era assada ou cozida e, após, passada na maquina de moer (conheço alguém que tem uma coleção delas). Só no final da minha infância, em Saigon, os açougues se equiparam com máquinas elétricas para vender diretamente a carne moída crua.

Os almoços de domingo eram especiais. Galinha e maionese determinavam a especialidade das refeições. A galinha era um frango criado no quintal ou comprado vivo no aviário.

Nas proximidades da nossa casa o principal aviário era de "seu Abdala", e o atendimento feito por seu filho "Pedrinho" um rapazola mais velho que eu (ainda criança) e adorado pelas senhoras freguesas locais. Lá comprávamos eventualmente os frangos vivos ou, frequentemente, ovos em dúzias inteiras ou meias, cada um deles inspecionados por Pedrinho.

Havia uma caixa com uma lâmpada incandescente interna e um orifício. Pedrinho aproximava o ovo (da galinha)  do orifício, examinava o seu interior contra a luz para ver se estava fertilizado. Estando ok, embalava a quantidade desejada em jornal. Hoje aprendi na internet que o Pedrinho fazia uma "ovoscopia" e quem quiser pode aprender os segredos do processo no youtube.

Os frangos, coitados, tinham um destino triste (não mudou). Passavam alguns dias ainda vivos no quintal, presos por uma das pernas. Eram executados por minha mãe num ato de degola. Uma das nossas tarefas era recolher folhas de alfavaca, que florescia em quantidade nos canteiros do nosso pequeno quintal, e que servia para o tempero das carnes. Após a degola e o colhimento do sangue, o frango era banhado em água fervente, depenado e cortado para o cozimento de suas partes.

Em nossa casa, pés e cabeça eram dispensados – ninguém consumia canja. Quanto aos miúdos, eu não tenho lembrança, nem todos eram consumidos. Sob o meu olhar atual, acho até que era um luxo. Nossa mesa era basicamente de coxas (não havia o termo sobrecoxas), peito, pescoço e asas. O cú do frango, alguns chamam de "sobre", não era valorizado em nossa mesa e hábitos.

O que chamávamos de maionese, e que compunha o prato especial do domingo, era uma salada de verduras, batatas, chuchus e cenouras cujo molho era feito de gemas de ovos cozidos amassados com garfo e inundados com azeite (que assim como o bacalhau não era uma excentricidade culinária). Bem parecido com um salpicão.

Interessante, para mim, é que a sobremesa não fazia parte do nosso ritual alimentar, embora a minha mãe fosse uma doceira de mão cheia.

Foram domingos fartos, felizmente. Em alguns deles o protagonismo principal era o da carne assada (carne de segunda, especial para assar) e, algumas vezes, o bacalhau. Só vim a conhecer e desfrutar do "churrasco" já na vida adulta.

Um tempo bom. Pobreza sem miséria. Claro que a última existia, mas ainda era distante de um bairro de operários assalariados e empregados. É possível uma vida digna e sem luxos.

 

                                                                    ###      

sábado, 20 de novembro de 2021

Zumbi - mais vivo do que nunca

 Opinião

 

Sabemos que a história não é uma coisa sem vida, inerte, de relatos acabados e imutáveis. Ao contrário, ela é viva, tem movimento permanente e as narrativas dos fatos e suas interpretações são disputadas pelas gerações.

No Brasil, infelizmente, a historiografia oficial ainda prevalece como o relato das classes dominantes desde a nossa fundação como nação. Não é de espantar o "esquecimento" de trajetórias negras e de muitas outras.

 Mas, há exceções importantes. E a mais significativa é exatamente a que se comemora hoje, o dia da Consciência Negra, 20 de novembro. Uma celebração que avançou como fruto das lutas empreendidas pelos chamados movimentos negros, e que se impôs ao marco oficial do 13 de Maio da lei Áurea. Deixou de ser uma celebração alternativa, e hoje é uma celebração nacional, impregnada de significados políticos que atrelam a data comemorativa às lutas e memórias populares, completamente aderentes à realidade social.

Infelizmente, isso ainda não ocorreu com outros episódios históricos. A Inconfidência Mineira, a Independência, a Proclamação da República, assim como os seus protagonistas, ainda são celebrações impostas pela história oficial, mas sem qualquer relação com a população em geral que as tem apenas como datas simbólicas aprendidas no ensino escolar.

Fatos históricos importantes, como a Revolta da Chibata e seus protagonistas, João Cândido Felisberto exemplo de verdadeiros heróis, ainda hoje são explicitamente censurados, ao mesmo tempo em que se têm notícias das tentativas de enfiar goela abaixo dos brasileiros, como se fosse data a comemorar, a celebração de eventos vergonhosos como o golpe de 64.

Tomara que o desenvolvimento sociopolítico brasileiro permita o resgate de uma história que trace os caminhos das lutas sociais na formação do nosso país, de seus líderes e de seus simbolismos. Mas, antes de tudo, é necessário que essa situação não seja encarada como uma lástima e, sim, como um estímulo e obstáculo a superar.


#####

 

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

O touro de Wall Street e o gado brasileiro

 Opinião



Copiado da web - em 16/11/2021 - autoria: - https://www.infomoney.com.br/minhas-financas/



Estátua de um touro em frente a sede da Bolsa de Valores em São Paulo. Inaugurada em 16/11/2021, é inspirada no “touro de Wall Street”,  em Nova York, EUA, que representa o mercado de ações americano


Ariano Suassuna ironizava que a estátua da Liberdade instalada num shopping na Barra da Tijuca, RJ, era uma dos maiores monumentos à imbecilidade humana. Hoje ele teria outros exemplos. O complexo de vira-latas e a alma de colonizado são aspectos determinantes na subjetividade de alguns grupos humanos, se é que devem ser chamados assim.

A estupidez, uma vez instalada, gruda feito craca nos cascos das embarcações.. Quem conheceu as antigas barcas Rio – Niterói saberá o que estou falando. A única parte dos cascos livres daqueles mariscos eram as que ficavam na direção dos banheiros, sujeitas ao fluxo contínuo de mijos dos usuários. Haja mijo pra limpar essa craca social.

####

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Nocivos i mortais

Opinião

Até onde sei, a Academia Brasileira de Letras - ABL é uma entidade privada com mecanismos próprios de funcionamento e sustentação econômica. Não me surpreenderá se existirem exemplos onde a entidade tenha usufruído de recursos públicos, mas isso não retirará o seu status de entidade privada. Não sendo uma seita secreta em seus rituais, e com a importância pública que adquiriu ao longo da sua história, é natural que a ABL seja constrangida a responder por suas determinações. Mas, será apenas um constrangimento político porque está resguardada a sua autonomia de vestir quem quiser com os seus fardões.

Tem menor importância o debate sobre as indicações de membros ABL, destaque para as mais recentes: Fernanda Montenegro e Gilberto Gil. Mais valeria o debate e mesmo um feroz alarido e banzé sobre as perniciosas e peçonhentas nomeações de autoridades para as áreas de Educação e Cultura, estas, sim, com obrigações e compromissos públicos. Nomeações que seguem a risca os propósitos mortais do governo Bozo de destruição do país em todas as dimensões. Nesse cenário, as discussões em torno dos imortais da ABL são um debate quase infantil. F(ar)d(e)m-se!

#####


sábado, 28 de agosto de 2021

Na varanda do Tião

 

Leituras para distrair

 

Fizemos um encontro no sítio do meu compadre. Fazíamos sempre, e os presentes geralmente eram os mesmos, eventualmente alguns convidados novatos. Até onde lembro era um feriadão de semana santa, e algum dos presentes montou uma barraca de acampamento em frente à casa do caseiro que era a única infraestrutura do sítio além dos banheiros – a casa do Tião.  A que seria “a casa do sitio” ainda estava em construção.

 A casa do Tião tinha uma varandinha, um pequenino espaço coberto que nos abrigava quando havia chuva e onde, amontoados, em pé, bebíamos nossas cervejas e cachaças jogando conversas fora e nos divertindo. 

Aquele foi um dia de muita chuva. Tempestade. Encolhemo-nos na varandinha, a criançada ocupou a casa do Tião, e a natureza começou a se exibir despejando água, raios e trovões. Indiferentes bebíamos todas. Foda-se a natureza, estávamos abrigados. 

Então aconteceu um estalo próximo, um estrondo que cada um dos presentes narrará de um jeito. Sabíamos que o evento tinha ocorrido por alí. Um porra de raio atingiu e destruiu uma árvore lateral à casa e que serviu de para-raios. A tal árvore e seus pedaços só não caiu sobre a casa porque ficou sustentada pelas adjacentes. 

Como todo raio que se preze, o sacana induziu concentração de cargas elétricas em seu entorno com descargas subsequentes. Por sorte as descargas não tiveram intensidades suficientes para uma tragédia, mas foi um pega pra capar. 

Na saleta onde estavam as crianças foi um desespero. Sem luz natural devido à tempestade e sem luz artificial, o ambiente estava escuro. Faíscas brilhantes das descargas elétricas apareciam junto ao solo como se estivessem varrendo o ambiente e fazendo barulho. Um “trac trac” que surgia do nada e atravessava a pequenina sala, enquanto os adultos mandavam as crianças encolherem as pernas nos locais em que estavam. Choro e histeria total. 

Na varandinha, onde estavam os machões beberrões, saltitávamos descalços ou em sandálias de borracha, uma dança ridícula e improvisada, enquanto as faíscas pipocavam de uma parede a outra. Foi tudo muito rápido e apavorante. Como acalmar as crianças se estávamos todos cagados de medo? 

Passado o sufoco, todos ríamos nervosos e cada um de nós queria contar a sua experiência, como tínhamos vivido aqueles momentos. 

A tempestade reduziu e a deliberação consensual foi recolher tudo debandar de volta para nossas casas. Foi o que fizemos. Empacotamos tudo, coisas e crianças, e às pressas deixamos o sítio. A história parecia terminada, mas não foi assim.

 

No caminho de volta, uma das passagens sobre um curso de água estava completamente inundada e com forte corrente. Paramos em fila, 3 ou 4 carros, e avaliamos que a passagem era inviável. Tentar seria um risco que o juízo não recomendava. A tempestade e o susto da tarde fizeram desaparecer o efeito do álcool. Seria uma travessia noturna, sem qualquer visão, sobre uma ponte que sequer víamos. O que havia era apenas um fluxo caudaloso que tomou conta da passagem. 

O bom senso determinou que voltássemos deixando a “fuga” para o dia seguinte.  Voltamos à casa do sítio ainda em construção e, já acalmada a tempestade, organizamos o descanso das crianças e prosseguimos na bebericagem. Afinal ninguém é de ferro. Ai aconteceu o inusitado.

 

Estávamos bebericando e comentando as aventuras quando um farol iluminou a entrada do sítio anunciando a chegada de um carro. Era a minha comadre que até então não estava conosco, mas a sua chegada estava descartada, não só pela chuva, mas porque ela precisaria vir pelo mesmo caminho que pouco antes achamos impossível ultrapassar. 

A comadre chegou. Sedenta por uma cerveja gelada e sem compreender a nossa surpresa. Perguntamos a ela, insistentemente, sobre a tal passagem que achamos intransponível. Ela não entendia o nosso espanto, disse que teve algumas dificuldades devido à chuva e emburacou o carro sem medo através do tal curso d'água, na ânsia de chegar logo até nós e participar do encontro. 

Insistimos nos questionamentos, mas ela sequer notou a dificuldade, o perigo e o risco que correu ao atravessar a passagem. Foi uma gargalhada geral. Um segundo milagre. 

Nervosos ou dormentes com a cervejada, não importa, prosseguimos através da madrugada. Naturalmente o desejo da fuga desapareceu. O amanhecer foi para reconhecimento dos estragos e as reflexões sobre o que poderia ter sido uma tarde fúnebre, mas que acabou sendo mais um evento de alegria. A história ficou em nossa memória, cada um com suas lembranças e versão.

###

 

Tião figura querida. Sanfoneiro autodidata, tinha uma sanfona de 8 baixos. Fizemos vaquinha e o presenteamos com um acordeão de 64 baixos que ele logo dominou. Cantamos e dançamos ao som da sua sanfona. Uma canção gravada pelo Jackson do Pandeiro tinha letra adaptada pelo próprio Tião:

“Mané Gardino diz que era mentira minha; que a mulher que ele tinha não dançava com ninguém; eu disse a ele, cumpadre não se arrepare, cê vai ver como ela mexe quando tá no xenhenhém”. 

 



Em tempo: Não existia lei seca para os motoristas, e a nossa inexperiência se confundia com irresponsabilidade. Essa narrativa não faria sentido hoje.


terça-feira, 17 de agosto de 2021

Comi, bebi, nada mais a fazer aqui!

 Opinião

As imagens da retirada americana do Afeganistão, nos últimos dias 15 e 16 de agosto de 2021, para os da minha geração, parecem um remake das cenas da retirada de Saigon em 1975. Impactantes,  angustiantes e nada esclarecedoras sobre a realidade dos acontecimentos. Ao contrário, provocam uma enorme quantidade de informações atravessadas que não são falsas, mas são caricatas e escondem personagens e suas responsabilidades no caos reportado.

 O imperialismo capitalista se revela por inteiro. Usou o Afeganistão como mote para fazer presença militar na região e desempenhar a farsa que destruiu o Iraque. As populações locais foram simplesmente desconsideradas. Ficaram ao sabor das milícias que se constituíram ao longo de décadas de luta contra invasores, antes soviéticos e depois americanos. 

No pós-segunda guerra Japão, Alemanha e outros países centrais receberam grana e reconstruíram estados. No Afeganistão foi diferente Foram chupados enquanto serviam e deixados de lado quando o objetivo passou a ser o Iraque. O Taleban é uma merda, mas não é uma merda oportunista. Não nasceu ontem e nem floresceu como um estranho à cultura local. Não é por outra razão que ele se apossou imediatamente do país. A regra do imperialismo capitalista é uma só: Fodam-se os afegãos!   

######