sábado, 2 de maio de 2020

A vida em tempos de coronavírus (44)


Opinião


Em decorrência da morte de Tancredo Neves, presidente eleito pelo colégio eleitoral após a frustrada campanha das “Diretas Já”, assumiu o governo Jose Sarney. E junto com Sarney, o país ganhou de brinde Toninho Malvadeza (Antonio Carlos Magalhães - ACM) como ministro das Comunicações, golpista e afilhado querido dos ditadores militares de 1964.


A ida de ACM para o ministério das Comunicações, como não poderia deixar de ser,  foi um desastre para o setor e especialmente para os seus trabalhadores. Contudo, esse também foi um período especial na organização dos trabalhadores de telecomunicações. Representando os trabalhadores em nossas associações de empregados, sindicatos e federação de sindicatos, costumávamos afirmar para a categoria: é melhor que o ministro mais fdp tenha sido designado para o nosso setor, porque aqui estão os trabalhadores com maior disposição e espírito de luta para enfrentá-lo.

Não foi fácil, o sacana do ACM foi ministro durante todo o governo Sarney, de 1985 a 1990, mas durante todo esse período ele foi enfrentado com vigor pelos trabalhadores do então sistema Telebrás e da empresa de correios a ECT que pagaram alto preço nesses enfrentamentos, com trabalhadores punidos e demitidos.

Essa lembrança vem a título de comparação com uma situação inversa e atual. Há 35 anos, o pior dos ministros de Sarney encontrou a categoria mais competente para enfrentá-lo. Agora, a pandemia coronavírus, um dos grandes desastres da humanidade, assola o nosso país justamente quando ele está submetido ao mais incompetente governo da nossa história e, pelos fatos que temos notícias, possivelmente o mais incompetente entre os governos das demais nações que enfrentam a pandemia. Puta que pariu! É muito azar!

Para piorar a situação, não se trata apenas de um governo incompetente. Trata-se de um governo que contribui para o avanço da pandemia em vez do seu enfrentamento. E, não bastasse isso, um governo que aglutina em torno de si uma multidão de desesperados que já estão até apontados como sérios casos clínicos de distúrbios de comportamento. Distúrbios que, bem ou mal, estavam embotados, reprimidos, mas  cujos gatilhos emocionais foram disparados nessa conjunção corona-bozo, e que não serão revertidos facilmente porque não há um gatilho de reversão. Esse será um sério problema para a geração atual que sobreviver à pandemia e, também, para as gerações de brasileiros que sucederem a atual.

Felizmente, no próprio vazio incompetente do governo Bozo surgem iniciativas aqui e acolá. Conforme já comentei em outras oportunidades, a camada de profissionais que está envolvida diretamente com o assunto dá mostras expressivas que não se confunde com o extrato superior ocupado pelas designações do ex-capitão boquirroto,

Nas cidades do Brasil, como em outras cidades do mundo, os profissionais da área de saúde estão sendo reverenciados por suas ações e dedicações, embora aqui ainda enfrentem as limitações dos recursos para trabalharem e agressões fascistas quando reivindicam esses recursos. Foi o que ocorreu na manhã do dia 1º. de maio em Brasília (ver link abaixo).

Outras iniciativas vêm de governos estaduais que não embarcaram na caravana da morte do governo Bozo. Um grupo de nove estados da região nordeste formou o chamado Comitê Científico de Combate ao Coronavírus (C4NE), um grupo de profissionais que trabalham sob a coordenação do neurocientista Miguel Nicolelis, uma referência mundial em sua área,  e do físico Sergio Rezende, ex-ministro de Ciências e Tecnologia do governo Lula. O comitê tem como função básica assessorar um colegiado de governadores chamado Consórcio Nordeste no tratamento do assunto coronavírus.

Já são vários os produtos do trabalho do grupo. Dia desses, por sua sugestão, os governadores criaram as chamadas Brigada Emergencial de Saúde do Nordeste que fazem parte de uma estratégia de ir até os locais de manifestação do vírus tentando antecipar-se à necessidade de deslocamento de contaminados até os hospitais. O comitê científico criou um site com informações, ferramentas de acompanhamento das contaminações, relatórios de acompanhamento dos seus trabalhos e resultados, além de diversas outras informações. Poderá ser acessado pelo link abaixo.

O comitê científico não fará milagres, mas é o tipo de ação que poderia estar sendo desenvolvida em âmbito nacional e sob uma coordenação integrada como uma política de Estado no combate à pandemia. Certamente demandaria versões específicas, talvez para  as grandes cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo. Mas, poderíamos estar juntos tentando e participando desse combate em vez de estar fazendo esse papel que assusta o mundo e que certamente nos trará muita vergonha em tempos futuros, além das vítimas diretas da pandemia.

Infelizmente, porém, diferentemente de ACM que encontrou uma categoria do tipo osso duro de roer, o coronavírus encontrou no Brasil aqui mais do que um  hospedeiro ideal, encontrou um vírus companheiro. Essa pústula levada ao poder pela ignorância política manipulada por grandes corporações do capital e associadas à corporações religiosas. Mas, nóis enfrenta!

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NOTAS

Profissionais de saúde são atacados por apoiadores do Bozo em 1º de maio 2020, em Brasília – vídeo capturado em 02/05/2020 em <https://www.youtube.com/watch?time_continue=2&v=VEHFy9xCRFo&feature=emb_logo>

'Profissionais no mundo são aplaudidos, e no Brasil a gente apanha', diz enfermeira agredida em ato no DF – vídeo capturado em 02/05/2020 em <https://g1.globo.com/df/video/video-mostra-confusao-com-manifestante-vestido-de-verde-e-amarelo-8524290.ghtml>

Site do Comitê Científico de Combate ao Coronavírus (C4NE) – Acessado em 02/05/2020 em <https://www.comitecientifico-ne.com.br/c4ne>

sexta-feira, 1 de maio de 2020

A vida em tempos de coronavírus (43)

Opinião


Primeiro de Maio (Chico Buarque e Milton Nascimento)

Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas

Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu

Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhas do seu ventre
O homem de amanhã
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Esse é o professor Alysson Leandro Mascaro - Professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco - USP). Doutor e Livre-Docente em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo.




 Hoje é 1º de Maio de 2020

Dia de luta e de bandeiras vermelhas.
Ainda que isolados socialmente pelo coronavírus
os trabalhadores têm uma tarefa a cumprir - superar a sociedade capitalista.
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NOTA
O vídeo é trecho da conferência de encerramento do  Seminário de Formação Sindical de Base no SINTAJ – Sindicato dos Servidores dos Serviços Auxiliares do Poder Judiciário do Estado da Bahia, no dia 05 de novembro de 2016. Capturado em 01/05/2020 de :<https://www.youtube.com/watch?v=woGWGyUr4is&fbclid=IwAR1kb827a-yXh7N14G4YaXfZZmp8eZLo72ooGnQc7h3cwL9M1-Khm45U4Ic>

quinta-feira, 30 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (42)

Opinião


Amanhã será 1º de Maio. Tradicionalmente dia de trabalhadores saírem às ruas em confraternização, grande parte deles sem mesmo saber a gênese de suas celebrações. Uma festa disputada. Memória de lutas contra a opressão, o 1º. de Maio sempre teve um simbolismo fortíssimo, tão forte que o empenho em roubar o seu simbolismo da memória dos trabalhadores é permanente.

No sistema de produção capitalista, onde os trabalhadores se agregam como classe explorada pelo capital, as corporações que representam esse último têm uma preocupação constante em que os trabalhadores não tenham a consciência do papel que representam nesse sistema, ou seja, não tenham consciência de classe. E as corporações trabalham intensamente para isso.

As donas do capital têm plena consciência do que representam e dos seus interesses, dos interesses e vontades de sua classe, mas isso não ocorre entre os trabalhadores. Os trabalhadores sofrem concretamente a opressão, têm força e poder para transformar essa realidade, mas não refletem objetivamente  sobre o mecanismo de exploração que os submete – falta-lhes consciência de classe.

As organizações de trabalhadores que querem superar esses obstáculos apontam as direções das lutas, organizam movimentos reivindicatórios, resgatam memórias de lutas, e é nesse contexto que se enquadra o simbolismo do 1º. de Maio. Antes de tudo, uma data que evoca as lutas e greves dos trabalhadores, além do caráter internacional da sua classe.

Certamente esse tipo de ação bate de frente com os donos do capital que recorrem às suas armas no enfrentamento dessa organização, e sua arma principal é o Estado administrado pelo poder econômico. Conforme a necessidade, essa arma é utilizada desse ou daquele jeito. Ora como instrumento de repressão contra os trabalhadores em suas manifestações e, em outras circunstâncias, como um solvente de suas iniciativas de organização viabilizado através da cooptação de lideranças sindicais e políticas.

Em nossa história já houve momentos em que mobilizações pela jornada de oito horas de trabalho quando vigorava a prática de 10 a 12 horas por dia; pela  abolição do trabalho infantil quando vigorava a prática de contratação pelas fábricas de crianças de seis anos; pela a proteção ao trabalho da mulher, entre outras, eram fortemente representadas em manifestações no 1º. de Maio e, usualmente, reprimidas pelas forças do Estado.

Em outros momentos, a arma Estado foi usada de forma mais eficiente. Foi utilizada para transformar o 1º. de Maio em uma festa alienada das lutas dos trabalhadores. Infelizmente, esse tipo de ação sempre passa, antes de mais nada, pela cooptação de dirigentes sindicais pelegos e traidores de categorias e de classe.

Não cabe resgatar a memória das lutas dos trabalhadores, nem a história dessa data tão importante. Contudo, é triste verificar que nesse ano de coronavírus a cooptação parece ter chegado a um ponto que dificilmente será superado.

A pandemia do coronavírus ficará para sempre na história do nosso país como um marco do ano 2020 e infelizmente,  o 1º. de Maio desse ano também ficará.  Mas, não apenas como um 1º. de Maio de isolamento social, mas também como um 1º. de Maio de lembranças vergonhosas e desonrosas para a história do movimento dos trabalhadores.

As centrais sindicais, com exceção da CSP Conlutas e a INTERSINDICAL celebrarão o 1º. de Maio de 2020 do tipo festa do Estado, fato que não traz muita novidade. A cooptação de dirigentes pelegos, que em vez de estarem à frente das categorias como porta-vozes de suas reivindicações, assumem o papel de mestres de cerimônias de festinhas bancadas pelo governo local tem sido recorrente.

Contudo, esse ano a parada é quente. Até o coronavírus deve estar espantado com tanta sem-vergonhice dos dirigentes sindicais. Esses calhordas estão promovendo um evento com o lema:  

1º. de Maio Solidário – Saúde – Emprego - Renda.
E estão convidando para o evento, entre outros, nada mais nada menos do que:

Fernando Henrique Cardoso (PSDB);  o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ);  a ex-candidata presidencial Marina Silva (Rede); o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP); o presidente do do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli. os governadores do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC) e de São Paulo, João Doria (PSDB)

Sim – no mesmo cenário de Reforma Trabalhista, Desemprego, Reforma da Previdência, Privatizações – as centrais sindicais estão fazendo “isso”.

Quem não acreditar busque saber. Os sites das centrais referem-se aos convidados de uma forma genérica como “políticos”, mas a informação está escancarada em alguns jornais das centrais, incluindo no órgão de mídia que representa a CUT  (RBA – Rede Brasil Atual).

Não vale gastar palavras classificando esses hospedeiros que carregam e espalham o vírus do peleguismo entre os trabalhadores. Pra quem é, bacalhau basta. O espaço aqui restante será ocupado para a convocação de uma manifestação classista – um verdadeiro 1º. de Maio -  Vamos à luta!
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Cartaz de convocação para o 1o. de Maio de 2020 pelas centrais: CSP Conlutas e INTERSINDICAL


quarta-feira, 29 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (41)


Opinião


Os  números oficiais de contaminados e de óbitos no Brasil devido ao coronavírus continuam crescendo, apesar de serem assumidamente subnotificados. Não consta que haja estimativas oficiais sobre os números reais que pudesse aumentar o nível de esclarecimento da população.


Nesta semana passou a circular na web, sempre informalmente,  um estudo realizado na universidade de Singapura que é um exercício de predição da evolução da pandemia em vários países do mundo, incluindo o Brasil.  O estudo utiliza modelos típicos de evolução de pandemias ajustados conforme as informações sobre os casos em cada país.

O estudo é bem claro ao apontar um monte de ressalvas e alertas que as curvas de estimativas estão sendo atualizadas diariamente e que não devem ser tratadas como um processo determinístico.

No caso do Brasil, não sabemos se a distribuição das subnotificações está sendo a mesma dos registros oficiais -  pelas dificuldades de realização dos testes, os dados são acumulados e notificados em pacotes o que dificulta o acompanhamento diário e distorce a interpretação de tendências – esse fato aumenta a incerteza nas predições. Se a distribuição dos casos reais for a mesma dos casos notificados, então as expectativas se aplicam.

Não sei explicar por quais razões, mas as expectativas  que estão sendo divulgadas, inclusive por algumas autoridades, coincidem com as informações dos estudos  de Singapura e apontam para dois pontos importantíssimos:

  • Estaríamos passando pelo pico das contaminações em torno da primeira semana de maio de 2020.
  • Essa época marcaria, então, a reversão da tendência de aumento e entraríamos num período de redução progressiva da quantidade de casos.

Tudo isso, naturalmente com as já citadas observações sobre a incerteza. Dependendo de vários fatores poderemos estar num chamado ponto de inflexão (mudança de direção) e essa merda dessa contaminação desandar levando-nos todos para um buraco sem saída. Tomara que não!

Nossa certeza é que com ou sem o acerto das predições, o nosso sistema de saúde que já se caracteriza por uma grande precariedade, está no limite de leitos em UTI  em várias cidades e os profissionais de saúde já estão vivenciando dramas das escolhas de Sofia. E se não estamos já em uma situação de  caos total,  sem duvida é porque com todas as deficiências e fragilidades boa parte da sociedade tem atendido à orientação do isolamento.

A propósito, vale resgatar que a divulgação da situação internacional tem sido contribuição fundamental para a resposta da sociedade ao isolamento. Também é fundamental o registro dessa experiência como exemplo da importância da liberdade de expressão, da divulgação e do acesso às informações. Acho até uma observação vergonhosa, mas esse registro é importante num momento em que afloram manifestações fascistas clamando por retorno à ditadura militar - o que significa o retorno de suas práticas, entre elas, a censura -  e o governo eleito reverência assassinos e torturadores dessa aclamada ditadura.

Nada podemos afirmar ainda sobre as tais predições. Estamos vendo que a situação é estarrecedora em muitos lugares, e deveríamos estar cabreiros e cuidadosos. Porque não há nada que esperar do grupo incompetente que se aglutina em um governo com atributos de genocida. Milícias, estupro, morte, violência, descaso essas são as palavras chaves desse governo.

Na noite de ontem, dia 28/4, o ex-capitão boquirroto foi interpelado por repórteres sobre o aumento de casos de mortes que na último contagem do dia foi de 474 óbitos. Pergunta em público, ao vivo, na presença de diversos repórteres. O Bozo respondeu com uma piada. Como esperar que dessa figura medíocre algum compromisso social? Não tinha, não tem e não terá.

Os profissionais do sistema de saúde – e de outras áreas – não devem ser confundidos com essa corja. Os testemunhos que vêm de todos os cantos do país é que eles estão dando o melhor de si. As soluções aplicadas, os planos possíveis, as ações táticas e os melhores rendimentos têm saído e sairão das iniciativas desses profissionais que representam o nosso serviço público e que atuam independentemente dessa cúpula putrefata que boia sobre a densa camada de verdadeiros trabalhadores.

Essa cúpula precisa ser curetada, raspada e jogada em local para que se decomponha em composto de esterco, quem sabe, um dia, prestem para alguma coisa. Mas, não nos basta que façam arranjos e trocas. As substituições por membros da mesma laia não alteram as políticas. Eles precisam ser retirados pela sociedade como sinal de repúdio a tudo que representam, num esboço de movimento de transformação. Fora todos!.

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Referências para os estudos de Singapura - Atualizados diariamente 

 When Will COVID-19 End? Data-Driven Prediction - Jianxi Luo
Data-Driven Innovation Lab (http://ddi.sutd.edu.sg)
Singapore University of Technology and Design (http://www.sutd.edu.sg)
Updated at 2 AM, April 29, 2029




Brazil - End 97% around June 6, 100% around September 6



Vídeo com notícia sobre a resposta do Bozo sobre o aumento do número de mortos - Capturado em 29/04/2020 em < 
https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/04/28/e-dai-lamento-quer-que-eu-faca-o-que-diz-bolsonaro-sobre-mortes-por-coronavirus-no-brasil.ghtml>






terça-feira, 28 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (40)


Opinião


Em conversa com amigos em videoconferência  comentou-se sobre um caso qualquer, onde familiares questionaram o agente de saúde por não explicitar a causa de um óbito como coronavírus. As orientações de só atestar como causa Covid-19 os casos de contaminações ou óbitos efetivamente testados estaria gerando conflitos entre familiares responsáveis pelos vitimados e os agentes de saúde.

Na sequência surgiu uma questão interessante – a dos seguros de vida versus as subnotificações de contaminações e óbitos pelo coronavírus. Nos contratos de pessoas cobertas por seguros de saúde e de vida, é praxe a exclusão de obrigações de pagamento de indenizações por eventos  associados a epidemias e pandemias formalmente declaradas por autoridades competentes, assim como algumas outras situações, incluindo catástrofes naturais. Considerando apenas esse aspecto, que interesse haveria na notificação de um óbito ou diagnóstico médico como coronavírus? A subnotificação, nesses casos, seria mais conveniente para não provocar conflitos com a seguradora. Naturalmente essa foi apenas uma passagem de bate-papo de leigos, sem nada a ver com debates jurídicos.

Buscando saber mais sobre o assunto, vi que nos EUA a questão já está rolando e  há um tópico que é específico de lá. O sistema de saúde americano – tipicamente privado – na década passada sofreu algumas alterações decorrentes de iniciativas do ex-presidente Obama  tentando algum nível de publicização do sistema. As modificações foram tímidas e até hoje contestadas, inclusive pelo atual presidente que defende um Trumpcare, mas não é o foco aqui.

O foco na questão americana é o conflito que está tomando vulto agora. Nas reformas do Obamacare o governo teria dado às seguradoras contrapartidas compensatórias para os casos de situações específicas de desbalanços financeiros provocados pelas mudanças no sistema. Mas, aí apareceu o coronavírus.

Sem conhecer nem me interessas pelos detalhes, li que, entre outras tantas, a pandemia coronavírus está fazendo uma grande confusão nessa área, e abrindo polêmicas lá, nos EUA, sobre quem deve o quê, a quem.

Aqui no Brasil, algumas seguradora (Itaú, Santander e Banco do Brasil, não sei se existem outras), estão fazendo propagandas de seus serviços informando que cobrirão os sinistros decorrentes do coronavírus para os casos de  seguros de vida e prestamista (são apólices que garantem o pagamento de financiamentos e dívidas em caso de morte e invalidez). Mas, eu fiquei com a pulga atrás da orelha porque geralmente sou lerdo em tratar desses assuntos. Tenho seguro de vida e ainda não procurei saber como ficaria a situação no caso desse sacana desse coronavírus resolver me pegar e me levar dessa para outras experiências. Não sei bem a importância dessa providência, mas procurarei saber sobre isso e alertarei outros, conforme o caso.

Nas minhas navegações googlelianas sobre o assunto, estava focando  exclusivamente o caso dos batimentos de botas, mas como não poderia deixar de ser, verifico que o buraco é bem mais embaixo. O assunto tem diversas implicações, particularmente no caso do comercio e da indústria. Sei que que os exemplos que vi são infantis, na medida em que estão no âmbito do meu conhecimento do assunto que é praticamente nenhum, mas imagino que no sistema de relações entre as corporações a situação deve estar uma grande complicação, um verdadeiro embrulho de três cocos.

São várias as situações de perdas que podem estar associadas diretamente à pandemia e que sugerem discussões sobre as suas coberturas pelos mecanismos de seguros, adicionalmente aos casos de vida e saúde: inadimplemento de obrigações e danos patrimoniais; lucros cessantes; viagem; educação; riscos operacionais entre outros.

Em uma das leituras que vi aponta-se que esses outros casos envolvem montantes bem mais elevados do que os casos específicos de saúde dos segurados. A título de exemplo, diz-se que o adiamento das Olimpíadas de Tóquio gerará obrigações securitárias da ordem de dois bilhões de dólares.


É interessante que a conversa sobre essas questões parecem soar estranhas, como se elas fossem de um mundo que não é nosso. Como se o mundo da economia e das corporações não tivesse relação com os trabalhadores, o que é um pensamento equivocado,  uma armadilha.


Ali, naqueles milhões e bilhões não há uma merreca que não tenha sido produzida pelo trabalho. Então, é assunto de nosso interesse. Esses milhões e bilhões já foram produzidos e estão acumulados em formas diversas compondo a riqueza de uma minoria cuja quantidade é inexpressiva quando comparada com a massa de trabalhadores. Esses milhões e bilhões podem e devem ser resgatados e divididos. Em nome dos trabalhadores, do seu conforto, da sua tranquilidade, do sustento de suas famílias enquanto cumprem o isolamento social, de suas vidas e saúde. 

Em vez de atender ao chamado de arriscar vidas para aumentar a fortuna dos donos do capital, a palavra de ordem entre os trabalhadores precisa ser: Vamos dividir agora! Essa merreca de 600 reais é muito pouco. Sabemos que ainda tem muita grana guardada nesse baú!

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segunda-feira, 27 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (39)


Opinião


Dia desses li uma matéria bem interessante sobre a experiência de um artista alemão que colocou um monte de celulares ativados em um carrinho de mão e saiu puxando o carrinho pelas ruas de uma cidade. Com isso ele enganou o aplicativo do Google (Google Maps) que interpretou a concentração de celulares como um congestionamento de trânsito. Na medida em que o sujeito puxava o carrinho, o Google indicava uma faixa vermelha de via congestionada e, consequentemente, a rua ficou completamente vazia e sem trânsito porque as pessoas passaram a buscar alternativas para o congestionamento. No final desse texto tem link para a matéria e vídeo com a experiência do artista.

Sem aprofundar as análises, a matéria sobre o cara que enganou o Google Maps aponta alguns aspectos importantes desse mundo novo e virtual. O texto chama atenção para o que ele atribui como novas formas de mercantilização na produção capitalista que,  além de determinarem comportamento e opiniões, viabilizam o exercício do poder e o controle do conhecimento.

Outra novidade, interessantíssima, foi apresentada pela Microsoft e que até viralizou na web: um software que produz um holograma (imagem em 3 dimensões) de um apresentador que pode se apresentar discursando em qualquer idioma, mas com a dicção e a entonação do apresentador original. Algo impressionante, sem dúvidas, mas cabe a pergunta: quem além das grandes corporações privadas lucrará com isso?

Trata-se de um assunto sobre o qual vale refletir, mas geralmente o próprio fascínio pelas novas funcionalidades tecnológicas desvia a nossa atenção de pensar sobre elas. Deixamos de considerar como essas inovações se prestam mais para a criação de novos mecanismos de exploração do que para uma melhoria efetiva no bem estar dos seres humanos. 

Esse tema deveria ser bem explorado, especialmente no momento quando a humanidade – ou parte significativa dela – está acuada em suas casas por conta do coronavírus. O quanto e como essas inovações contribuíram positivamente para a humanidade até o aparecimento do coronavírus? E agora, durante a pandemia e depois, no período pós pandemia?

Não se trata de demonizar ou navegar contra a corrente, o que seria impossível, mas de fazer balanços. Geralmente nas conversas não faltam exemplos de potenciais usos das modernas tecnologias para a satisfação e gozo da humanidade, mas na prática não se vê muito mais do que o aprimoramento de meios visando extração do mais valor na produção capitalista. 

O conhecimento científico, como qualquer outro, é um produto social, assim como as inovações tecnológicas construídas a partir dele. Nada mais justo  do que questionar quem está se apropriando e aproveitando efetivamente dos benefícios desse conhecimento.

NOTAS

[1]
Google Maps Hacks by Simon Weckert – Acessado em 27/04/2020 em < http://www.simonweckert.com/googlemapshacks.html>

[2]
Demo: The magic of AI neural TTS and holograms at Microsoft Inspire 2019 – Acessado em 27/04/2020 em <https://www.youtube.com/watch?v=auJJrHgG9Mc>


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domingo, 26 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (38)



Opinião


Os números oficiais do Ministério da Saúde informam que estamos no limiar dos 60 mil casos de infectados com o coronavírus e já com mais de 4 mil mortes. O próprio ministério não esconde que esses números se referem apenas aos casos em que tanto as causas das infecções como as dos óbitos foram constatadas por testes.

Esses números por si só são apavorantes e mais ainda quando pensamos que eles representam subnotificações. Diversas reportagens, inclusive reportagens em jornais internacionais, tratam da questão das subnotificações no Brasil e quase todos estimam que os números oficiais representam menos de um décimo dos casos. As matérias estimam que os casos reais sejam de 11 a 15 vezes  os números oficiais. Tomara que esses números estejam errados porque, se estiverem corretos, no caso mais otimista, o Brasil já está com mais  de 600 mil casos de contaminações e mais de 40 mil óbitos. Isso já é uma visão do inferno.

Não acho absurdo que os números oficiais registrem apenas os casos testados e nem me surpreende que estejam tão distantes da realidade. Afinal, não é novidade para ninguém que vivemos num país carente de recursos. Esses números exibem a carência de testes e de uma logística que permita acelerar a quantidade de testados com as doses disponíveis. Será um absurdo se as autoridades estiverem se referenciando exclusivamente por esses números.

Existem métodos científicos para avaliações e estimativas dos números reais, mesmo que os testes não tenham sido realizados, e existem profissionais supercapacitados para realizar essas avaliações e estimativas. Porém, não acredito que as figuras da trupe Bozo no Ministério da Saúde, nem o merdetta que saiu nem o punheta que entrou, sejam capazes de dar tais diretrizes ou quaisquer outras. Essa corja  que ocupa o governo já nem consegue se disfarçar. Já tocou um “foda-se” para a nação e ontem deram uma demonstração disso.

 A minha expectativa – e quase certeza - é que os profissionais das diversas áreas estejam trabalhando por suas próprias iniciativas. Por motivos diversos, e para sorte nossa, a sociedade brasileira ainda não assimilou culturalmente e integralmente os valores da  lógica capitalista que determinam a nossa ordem econômica, e isso é bom. Aliás, é a nossa tábua de salvação nesse momento.

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sábado, 25 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (37)


Opinião


Ontem foi dia da  “Mãe das lives”. Talvez preocupado com os efeitos depressivos sobre a população provocados pelo isolamento social, o governo Bozo protagonizou uma encenação burlesca, rigorosamente uma Farsa (gênero dramático cômico que se utiliza de personagens caricatos e excêntricos) que deve ter concorrido e batido qualquer live recente das chamadas duplas sertanejas.

A apresentação se deu em dois atos e “mediocridade acima de tudo e de todos” deve ter sido a orientação dos diretores do espetáculo. No primeiro ato o juiz de primeiro piso, antes ministro, e no segundo ato o ex-capitão boquirroto acompanhado de parte da trupe. Uniram-se todos em atuação especial.

Bozo e o juiz de primeiro piso engalfinharam-se, arrancaram perucas e cabelos um do outro. Rasgaram roupas e desnudaram-se. É verdade que o que se viu não foi novidade. São conhecidos canastrões e suas fantasias não melhoram as suas representações. De qualquer forma, um arrancou do outro todos os disfarces e isto foi importante para quem ainda confunde ator com personagem e tem expectativa de que alguma coisa boa exista sob os seus costumeiros trajes e caretas circenses.

Oportunista, mentiroso, chantagista, criminoso. Crime de responsabilidade, obstrução de Justiça, interferência em investigações. Tentativas de acesso indevido a documentos sigilosos de inteligência, falsidade ideológica – esse foi o script das apresentações. Conversa de bandidos trocando acusações em delegacia de polícia. Só faltaram as algemas.

Até os governos do PT foram trazidos  à cena como referências de trato politicamente correto da coisa pública. Quem diria!

Há mais de trinta anos, uma novela global teve um enredo que se passava em um degradado reino de Avilan, onde os poderes eram ocupados por personagens caricatos e corrompidos. A novela ficou como uma fantasia satírica da situação nacional na época. Acho até que já foi reprisada como uma história distante. Porém  - a vida é uma caixinha de surpresas – esse era o bordão repetido pelo narrador da história do azarado Joseph Climber.  E aqui os azarados somos nós porque o reino de Avilan é aqui e hoje. E quem tiver dúvidas pergunte ao chefe da trupe Bozo. Ele já disse em alto e bom som: A constituição sou eu!



O rei e sua corte próxima já não posam para fotos. Hoje tem-se vídeos. E estavam todos lá. A ministra dos Direitos Humanos bem atrás, sem uma goiabeira na qual pudesse subir e se destacar. O ministro da Saúde tomou conta da festa. Como se estivesse dopado, fazia caras e bocas atrás do ministro da Educação. As chamadas  gifs com suas imagens ocuparam a web. Luizinho Mandetta foi substituído por Nelsinho Masturbação (ou rima que se aplique), essa era a legenda das gifs.

O ministro da Educação foi apontado pelo Bozo como exemplo. Reconhecimento justo. Nada mais coerente do que aquela figura como uma representação exemplar desse governo. O da Economia, de máscara, devia estar sorrindo e pensando em como incluir aquelas imagens num dos tantos pacotes que ele está fazendo para entregar o país e faturar uns trocadinhos a mais.

E os milicos? Altivos - era o que lhes cabia. Orgulhosos do papel que têm desempenhado de símbolos da ameaça permanente de uma ditadura militar e avalistas do ex-capitão boquirroto e de seus atos. Cúmplices da abertura de Alcântara para os EUA e da entrega da Embraer para a Boeing. Endossam sem constrangimentos as continências do ex-capitão à Star-Spangled Banner.

Certamente foi o dia mais divertido da quarentena. Será inesquecível. E quem perdeu poderá ver a síntese reproduzida em um dos quadros do vídeo com a imagem  do tradutor de Libras (que também viralizou na web, possivelmente até para fora do país - imagem abaixo). Comenta-se que outras apresentações desse tipo virão, focalizando outros personagens. Cada um em sua vez de ocupar o lugar na frigideira.

Enquanto isso, vamos por aí, buscando o que haverá de melhor para nós. Outros conseguiram, porque não haveríamos de conseguir. Certamente esqueceram uma semente em algum canto de jardim.

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sexta-feira, 24 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (36)


Opinião


Hoje deve estar complicado lá, para o lado de São Jorge. Para nós, alguns dias santificados são de feriado e lazer, mas para os santos o “day after” deve ser uma complicação total. A moçada não alivia a barra e carrega nos pedidos de proteções e  graças apelando para os poderes que imaginam que os santos possam ter. Assim, lá no barracão ou escritório das santidades, hoje deve ser dia de separar os agradecimentos dos pedidos, de organizar esses últimos cuja quantidade certamente será infinitamente maior que os primeiros, de separar o válidos dos inválidos, enfim, uma trabalheira, sem falar na operacionalização.

Tudo bem que aqui, no Rio de Janeiro, o santo guerreiro poderá pedir uma ajuda a São Sebastião com quem divide o cargo de padroeiro. Porém, tem o caso da Inglaterra, Portugal e outros países onde ele também é padroeiro, tem mais de uma matrícula, e onde estão todos igualmente enfrentando pandemias de coronavírus. Não consta que os fiéis desses lugares sejam mais parcimoniosos que os daqui nesses assuntos de rezar por proteção.

Mas, tem assunto que nem São Jorge nem São Sebastião vão dar jeito. “É coisa dos home”, lembrando Aldir Blanc e João Bosco. “ ... A fome tem que ter raiva pra interromper, a raiva e a fome de interromper, e a  fome e a raiva é coisa dos home”. E parece que ainda não acumulamos fome e raiva bastante para interromper esse processo político maluco que estamos vivendo. Maluco, entenda-se bem,  no sentido figurado, nas suas manifestações caricatas. Porque seus efeitos e propósitos  obedecem a projetos elaborados, organizados e criteriosos para fazer do país uma nação de categoria inferior, com uma sociedade de porão, encolhida em quartinho de fundos e sem janelas para o futuro.

A trupe Bozo está dando o máximo de si para expressar sua mediocridade. Entreter a população, mostrar que há estágios da condição humana que podem ser mais miseráveis do que a contaminação viral, esse parece ser o seu papel nessa crise e, justiça seja feita, está desempenhando com afinco.

Parece que os ministros da trupe revezam-se na tarefa de se mostrarem imbecis. Em plena crise pandêmica um ministro faz piada com a morte da sogra de um médico equatoriano. “Morte suspeita” foi a piadinha do ministro. Mas, pasmem! Não foi conversa privada grampeada, foi em mensagem pública que ele mesmo divulgou.

Outro ministro não deixou por menos. Um filósofo de fama internacional apontou contradições expostas pela pandemia. Todas as ações de recuperação da ordem capitalista estão sendo  realizadas pelo Estado e com recursos públicos seguindo uma lógica que nega completamente os aclamados valores do pensamento neoliberal. Aliás, um fato de constatação obvia e irrefutável. Porém, como se disputasse um concurso de estultice, o ministro do governo Bozo fez artigo em blog intitulado “Chegou o comunavírus” acusando filósofo, professor da universidade de Londres , de usar a pandemia para "instaurar o comunismo, o mundo sem nações nem liberdade, um sistema feito para vigiar e punir".

Tá bão ou quer mais?

Volta e meia um desses idiotas da trupe entra em processo de fritura e conflito com o chefe, como está ocorrendo nesses dias. Mas essas defecções ministeriais, tanto as ocorridas como as anunciadas, não me parecem sinalizar ratos abandonando navio que afunda, Parecem mais baratas alvoroçadas por alguma perturbação em sua tranquilidade. A  barata da vez é juiz de primeiro piso.

Essas baratas que estão saindo buscarão e logo acharão agasalho em outro bueiro de restos e sujeira. É da natureza delas ziguezaguear de um bueiro para outro. Mas, o foco de onde saíram permanece  imundo, e para lá outras baratas  convergirão. É esse foco que precisa de uma limpeza e desinfecção em regra. Dessas que mesmo sendo realizada com o uso de luvas, obriga-nos a lavar, lavar e lavar as mãos ao terminar. Tal limpeza é realizada com muita mobilização política – nossa tarefa. E tem que ter raiva para interromper.

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quinta-feira, 23 de abril de 2020

A vida em tempos de coronavírus (35)


Opinião


Há algum tempo, realizando certa atividade precisei dar o meu nome a uma jovem que me atendia. Ela então comentou “Jorge! O meu avô também se chama Jorge”. Eu retruquei “se a idade dele for perto da minha, deve ser filho de turco ou de macumbeiro” Ela então, meio encabulada, disse “Como o senhor adivinhou?”. Nem foi preciso detalhar, mas ela estava se referindo à segunda alternativa.

No Brasil, muitos dos diversos imigrantes de origem árabe receberam o apelido genérico de “turcos”, embora por aqui, no Rio de Janeiro, não sejam tantas as famílias dessa origem específica.  Daí que devem ser poucos os “Jorge” de minha idade que tiveram os seus nomes inspirados diretamente pela origem turca do santo católico. O mais provável é que tenham sido nominados por influência religiosa sim, mas por uma influência religiosa umbandista ou candomblecista. Uma questão de estatística.

Então, gosto de fazer essa brincadeira porque ela tem bastante validade para os "Jorge" da minha geração e usualmente acerto. Às vezes erro. Tenho um xará que é português e foi batizado como Jorge Amado pela admiração que o seu pai, lá em Portugal, tinha pelo escritor baiano.

No meu caso, o nome saiu direto da macumba para a pia batismal. Sempre gostei do meu nome porque ele evoca essa figura mítica de  santo guerreiro e talvez o mais popular e conhecido sincretismo entre as religiões católicas e aquelas de origens africanas. Essa referência positiva sempre me deixou vaidoso e certamente contribuiu bastante para a minha autoestima.

É uma pena que  esse ano, por conta da pandemia do coronavírus,  as igrejas católicas não abriram para as celebrações de São Jorge e as homenagens ao santo foram adiadas. Suponho que o mesmo ocorrerá nos espaços umbandistas.

Então, celebrando a data de hoje e homenageando esse Ogum carioca e Oxossi baiano eu vou “copiar e colar” sem qualquer constrangimento, e mesmo sem pedir permissão, o recorte de uma publicação do Luis Antonio Simas no seu facebook. Simas, é uma dessas figuras especiais, um tesouro do Rio de Janeiro. Estudioso, pesquisador da cultura popular carioca e brilhante comunicador. 

Mas, hoje também é Dia Nacional do Choro – dia de Pixinguinha. Então inclui (abaixo) um link com a peça musical “São Jorge” da autoria de Hermeto Pascoal e que acho linda. Também, pudera, com esse nome. Segundo Hermeto ela descreve a cavalgada de “Faísca”, o cavalo de São Jorge. Na web tem diversas interpretações, incluindo a do próprio Hermeto, cada uma mais bonita que a outra. Escolhi uma que gosto e, no mais, tenhamos todos um bom dia de São Jorge.

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Trecho da publicação BRINCADEIRA DE RODA E GIRA DE SANTO - Luiz Antonio Simas (ver link para texto completo no final)
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Marcado por estes cruzamentos todos, é por isso que no meu calendário particular o dia 23 de abril é o dia internacional da macumba e dos macumbeiros.

Macumbeiro, no meu dicionário afetuoso, é definição de caráter brincante e político, que subverte sentidos preconceituosos atribuídos de todos os lados ao termo repudiado, e admite as impurezas, contradições e rasuras como fundantes de uma maneira encantada de se encarar e ler o mundo no alargamento das gramáticas, com a predisposição para incorporar forças vitais.

A expressão macumba (que em quimbundo designa um antigo instrumento musical similar ao reco-reco) vem muito provavelmente, em seu sentido religioso, do quicongo "kumba"; feiticeiro (o prefixo "ma", no quicongo, forma o plural). Kumba também designa os encantadores das palavras; poetas. Macumba seria, então, a terra dos poetas do feitiço; os encantadores de corpos e palavras que podem fustigar e atazanar a razão intransigente e propor maneiras plurais de reexistência e descacetamento urgente, pela radicalidade do encanto, em meio às doenças geradas pela retidão castradora do mundo como experiência singular de morte. Aqui, nas Áfricas, e nas terras geladas onde a terra termina.

O macumbeiro reconhece a plenitude da beleza, da sofisticação e da alteridade entre as gentes. Sigurd matou o dragão que Jorge matou de novo, com a espada feita na forja de Ogum, parecida com a forja de Ilmarinem, para que todos acabassem aos pés do altar, batendo tambor, cabeça no gongá, e ouvindo um choro de Pixinguinha numa esquina do Rio, tomando a cerveja que foi do Duque da Baviera e hoje é do santo guerreiro nos terreiros de fé.

Como diria Guimarães Rosa, viver é etecetera.

Saravá para a beleza do mundo!
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NOTAS
Wallace Oliveira | São Jorge (Hermeto Pascoal) | Instrumental Sesc Brasil - Capturado em 25/04/2020 de < https://www.youtube.com/watch?v=4mzENydulho>

BRINCADEIRA DE RODA E GIRA DE SANTO – Luis Antonio Simas – Facebook – Copiado em 25/04/2020 de <https://www.facebook.com/luizantonio.simas/posts/2975144142575067