sexta-feira, 4 de março de 2022

O cogumelo e a rosa

 Leituras para distrair

Sei bem pouco de outros da minha geração sobre as lembranças dos tempos da Guerra Fria. Os acontecimentos correntes fizeram-me ver que nunca conversei muito sobre isso, e também que algumas lembranças ficaram. 

As lembranças mais nítidas são dos testes atômicos que eram realizados pelos Estados Unidos (EUA) e pela União Soviética (URSS) em regiões relativamente isoladas do mundo. 

Não tínhamos acesso à TV e as notícias chegavam por jornais e rádio. Sabíamos mais dos testes nucleares americanos, e os jornais publicavam imagens do pavoroso "cogumelo atômico", sempre com ameaças da possibilidade de uma merda daquelas explodir sobre nossas cabeças a qualquer momento. A figura lírica da "Rosa de Hiroshima" foi criada pelo Vinícius em 1946, logo após as bombas em Hiroshima e Nagasaki, mas só viria a ser popularizada nos anos 70 com o Ney Matogrosso. Naquela época, o terror era o tal cogumelo. 

Outra lembrança marcante, essa de um fato mais específico, foi a da "crise dos mísseis em Cuba", quando os EUA impuseram um bloqueio naval para impedir a chegada de uma frota soviética que estava a caminho da ilha com materiais para a construção de uma base de mísseis. 

Após a invasão frustrada dos EUA à ilha de Cuba (Baia dos Porcos), o governo da ilha tratou com a URSS a instalação de uma base de mísseis balísticos, praticamente no quintal dos EUA. Para os americanos a autodeterminação do povo cubano era uma ameaça ao seu território, e bloquearam o acesso à ilha enquanto para lá se dirigiam navios soviéticos, e o impasse chegou ao limiar de um conflito nuclear (qualquer coisa parecida com a crise atual envolvendo Ucrânia, OTAN (leia-se EUA) e Rússia não será coincidência). 

Foram dias de grande pavor, acho que para o mundo. Ainda crianças não compreendíamos o que estava ocorrendo. Ouvíamos sobre o risco de uma tal guerra atômica e destruição total do mundo. No meu caso, decorávamos os afluentes do rio Amazonas, mas sem qualquer visão sobre geografia política. Mal sabia sobre o Peru onde nascia o rio Amazonas, e muito menos sobre os Estados Unidos, União Soviética ou Cuba. 

A minha iniciante escolarização de ginasial já estava além da precária escolarização primária dos meus pais, desse modo não havia muita informação em casa. Lembro-me de um professor que, sem muito sucesso, esforçou-se em traduzir para a nossa turma de escola sobre o que estava ocorrendo. 

Hoje percebo que em minha imaginação infantil não tinha sequer noção sobre escala de tempo. Na crise dos mísseis, as bombas de Hiroshima e Nagasaki tinham explodido sobre os japoneses a menos de 20 anos, precisamente 17 anos se contabilizarmos o período de 1945 até 1962. Para os adultos da minha infância tinha sido "ontem".  

Para uma melhor comparação: o 11 de setembro 2001, derrubada das torres gêmeas do WTC, já está mais distante para nós do que a distância em tempo entre a bomba sobre Hiroshima e a crise dos mísseis de Cuba para os nossos pais. Fico tentando imaginar como deve ter sido angustiante para a galera daquela geração (nossos pais) a ameaça de um conflito atômico no qual todos iriam se fuder, e sem qualquer chance de reagir. O conflito OTAN – Rússia - Ucrânia parece estar trazendo de volta esse tipo de pesadelo. 

É claro que a guerra não é uma novidade na história da humanidade. Ela é o limite da política que, por sua vez, reflete uma luta entre as classes sociais. Mas, é foda quando sabemos a classe dominante, visando manter o seu status, está sacrificando até a continuidade da espécie, destruindo o seu suporte ecológico. Nessas condições, uma autodestruição imediata, atômica, já não parece tão absurda. 

A idade afasta de mim o que seria um natural medo da morte – cago pra ela. Mas, entristece-me a ideia que os meus netos, já obrigados a viver com as restrições de condições ambientais do planeta, tenham também que crescer e conviver com essa porra dessa ameaça. Penso bastante nisso. Tomara que tudo não passe de apreensões infundadas de um vovô velhinho e superprotetor.  

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quarta-feira, 2 de março de 2022

Para ocupar a oficina do diabo

 

Opinião

 

Cabeça vazia, oficina do diabo. Claro e objetivo, como costumam ser os aforismos populares. Segue, então, sugestão para irmos ocupando essa oficina.

 

Muito interessante e de agradável leitura o artigo "Poder e desenvolvimento – os ponteiros do mundo" dos professores Jose Luis Fiori e William Nozak. Um ótimo antídoto de bolso para quem se vê obrigado a tratar com o blá, blá, blá das aporrinhantes figuras que fazem coro com o discurso jeguista ou guedista do "vender tudo". São os que enchem a boca arrogando-se como liberais e defensores da presença zero do Estado no desenvolvimento do país. Acho que esse bate-boca, recorrente, retomará fôlego nos espaços da iminente disputa eleitoral.

Os professores apontam aspectos fundamentais da história do desenvolvimento econômico moderno e também da economia clássica que ficam sempre escondidos na narrativa liberal. A partir daí, comentam sobre o momento atual, quando o Brasil entra em um processo de autodestruição, segundo eles análogo ao da Rússia dos anos 1990.

As políticas liberais que alguns tentam fazer dominantes no Brasil contrapõem-se àquelas dos próprios Estados Unidos, a potência líder do mundo liberal, que voltou a adotar – de forma explícita e declarada – o nacionalismo econômico da Alemanha do século XIX, da Rússia do século XX e da China do século XXI.

Os EUA, exemplificam os professores, apostam em medidas de intervenção estatal que chegam até a superar aquelas adotadas para a recuperação da crise de 1929 (o antigo New Deal). Mas, também a China, com projetos estatais que buscam consolidar o protagonismo da sua estrutura produtiva na quarta revolução industrial (indústria 4.0); França e Alemanha formam alianças visando acelerar o desenvolvimento industrial em parte da Europa, além da Rússia com aposta estatal na expansão da infraestrutura de gás e logística.

Nas palavras dos professores, tudo isso para escândalo dos economistas liberais, da elite financeira e dos generais brasileiros, que, atrasados, insistem em manter o Brasil na contramão dos ponteiros do mundo. Sugiro a leitura.

 

Publicado no site A Terra é redonda, em 05/02/2022 – Acesso em 25/02/2022

https://aterraeredonda.com.br/poder-e-desenvolvimento-os-ponteiros-do-mundo/

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Tempo de fezes

 Opinião

O Bozo é um dos tantos tropeços infelizes da história política brasileira. É óbvio que ele não surgiu do nada, mas, no frigir dos ovos, foi uma escolha ruim do eleitorado cujos efeitos maléficos sofremos. Alguns de longa duração e outros irreversíveis. 

Apesar disso, eu não preciso, felizmente, compartilhar relações pessoais com o Bozo. Não topo com ele nas calçadas onde caminho, nem nos buracos que frequento. Já com os bozominions não funciona assim. Não tenho como apagá-los das minhas relações, ainda que eu queira, porque compartilhamos ambientes em nossos cotidianos. 

Estou consciente que preciso de alguma dose de tolerância. Afinal, nem todos os bozominions são ideológicos. Há iludidos, alienados, e não plenamente convictos. Além do mais, o Bozo é apenas um entre outros instrumentos de um sistema que eu combato para superar. Esse sistema se credencia sugestionando certos valores e práticas de relações sociais que precisam ser questionados e desfeitos. E isso só será possível com discussões e com o convencimento de valores e propostas alternativas. Trata-se de uma disputa que não têm origem no Bozo, e o contato com os bozominions iludidos é imperativo, não tem outro jeito. 

Mas, no caso do bozominion ideológico, para mim a aproximação é impossível. Quando sinto o fedor agressivo de um ambiente qualquer, uma rua ou calçada esmerdalhada, instintivamente busco algo que sirva de máscara, tentando filtrar o fator nauseante, na expectativa que o desconforto será temporário. Ocorre que o fedor que o bozominion ideológico irradia é algo de outra natureza, é infiltrável. Parece que o sujeito recebeu uma overdose de mercaptano, aquele produto com cheiro de merda que misturam com o gás de cozinha para que se perceba um eventual vazamento. É insuportável. 

"Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça.O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera." (Carlos Drumond de Andrade – A Flor e a Náusea) 

Tempo de fezes! Drumond deve ter pressentido a proximidade de algum bozominion ideológico. Eles já estavam por aqui. No meu caso, sequer consigo apontar quais emoções ou sentidos sinto mais agredidos. Em minhas limitações, aferro-me à esperança do poeta. Quem sabe nascerá uma flor furando "o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio".

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sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Paladino – passando e contando o tempo.

 

Leituras para distrair

Aniversários de nascimento são eventos de simbolismo muito forte em nossa cultura. São várias as formas de celebrações, assim como as reações emocionais dos aniversariantes, mas nunca somos indiferentes às datas que marcam a passagem das nossas vidas intrauterinas para a realidade social.

Tenho pensado no simbolismo dessas datas para os pais dos aniversariantes. O nascimento de um filho é um marco indelével na vida dos pais, não importa a situação da relação amorosa que deu origem ao nascimento. Também para os pais é dia de pensar e refletir: sobre o fato, as circunstâncias, sobre como era o olhar para o mundo na ocasião, as expectativas, os planos e a realidade atual, entre outros. São reflexões que acompanham os pais por todas as suas vidas e são distintas das reações e sentimentos dos filhos aniversariantes.

Acho que, via de regra, essas distinções não são percebidas, e país e filhos reagem como se a data tivesse o mesmo simbolismo para ambos. O nascimento de um ser – e os seus aniversários - tem significados diferentes para o nascido e para os seus pais, ainda que compartilhem relações sociais e afetivas ao longo de suas vidas.

Os aniversários dos meus filhos são também celebrações minhas, mas sem compromissos com as reações de cada um deles possa ter em suas datas natalícias. Tomara que sejam felizes, parabéns para eles e blá, blá, blá, mas as minhas celebrações são outras.  Faço minhas revisões, autocríticas, considero  os sucessos e insucessos dos planos, as novas perspectivas e, obviamente, sempre que possível, beberico uma cachaça, ritual do qual não abro mão.

A atenção sobre esses detalhes é recente para mim. Não me lembro de alguma vez ter celebrado com amigos, sob essa óptica, as datas do aniversários de nossos filhos, embora possivelmente tenhamos comemorado juntos os mijos dos bebês e conversado sobre o marco daqueles eventos em nossas vidas. Nem mesmo nas posteriores festinhas de crianças (geralmente chatas pra cacete) tratamos esse assunto.

Claro que essas divagações de pensamentos são de importância descartável em meio a tantas questões de maior valor para tratar. Mas, a velhice é assim! As divagações se desculpam por sua própria natureza. Caduquices!

 Celebrava sozinho o aniversário de um filho no Paladino, boteco tradicional no centro do Rio de Janeiro, e me dei conta que a celebração era efetivamente minha. Pensava sobre esse complicado ano terceiro da pandemia, lembrando que muitas vezes ainda me refiro como "meninos" aos filhos que já contam mais de 40 anos e que até já me deram netinhos. Aproveitei e registrei essas notas enquanto saboreava uma fritada de sardinha nacional, uma cachaça Magnífica e um chope. Pensei comigo: parabéns aos meus amigos por seus filhos!




domingo, 23 de janeiro de 2022

Elza Soares

Leituras para distrair 

Não estou entre os admiradores da Elza Soares cantora. Longe de negar seus atributos artísticos, apenas nunca me encantaram. Minha referência sempre foi a de uma artista popular de sucesso em minha infância, e com características próprias nas suas interpretações. Foi bem tarde, após 1995, e ainda sem me incluir na galeria de seus fãs, que me interessei pela personagem Elza Soares.

Em 1995, o jornalista Ruy Castro publicou o livro "Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha" (Companhia das Letras). Não gosto de futebol, mas sempre me impressionei com o mito Garrincha, e a leitura de sua biografia, numa época em que eu viajava bastante, foi uma distração. Pequeno mergulho num trecho da história desse esporte que afeta culturalmente qualquer brasileiro, mesmo os que cagam e andam para ele, como é o meu caso.

O livro é interessantíssimo, tanto pelo personagem e sua história, como pela narrativa do autor, um dos tantos trabalhos brilhantes do Ruy Castro. Trata-se de uma obra que está bem além de ser exclusiva para os amantes do futebol.

Foi lendo a biografia do Garrincha que soube do papel da Elza Soares na vida desse mito nacional e, consequentemente, do caráter especial dessa personagem. Uma surpresa que talvez tenha me impactado mais do que o personagem biografado. A partir de então, todas as vezes que em conversas surgiu o nome do jogador ou da cantora, resgatei as minhas leituras da biografia do Garrincha e da figura especial da Elza Soares.

A carreira longeva e os seus méritos artísticos – e agora o seu falecimento -  fizeram com que a história de vida da Elza Soares tenha sido resgatada com bastante divulgação. Contudo, ainda assim guardo comigo o destaque de figura humana que foi recuperado pelo Ruy Castro. A admiração pelo mito Garrincha é quase uma unanimidade nacional e seria muito legal se os seus admiradores conhecessem o papel da artista na história do deus de pernas tortas. Quem sabe, não passaria de um alcoólatra decaído e esquecido, se uma Elza Soares não tivesse existido em sua vida.

Minhas preferências artísticas não mudaram, e cada vez gosto menos de futebol, mas a admiração pela Elza Soares ficou. ###

sábado, 15 de janeiro de 2022

Houve uma época em que o mundo parecia simples

Leituras para distrair

 

Achei esse texto legal e copiei para compartilhar. Gosto muito do autor e lembrei-me de um monte de gente que guardou da física a imagem daquela disciplina obrigatória e aporrinhante do ensino médio. 

 

Houve uma época em que o mundo parecia simples

Autor: Carlo Rovelli [1]

 Na época em que Dante escrevia, pensávamos o mundo na Europa como espelho embaçado de uma grande hierarquia celeste: um grande Deus e suas esferas de anjos levam os planetas em sua corrida através do céu e participam com entusiasmo e amor de nossa vida, da vida desta frágil humanidade, que no centro do cosmos oscila entre adoração, rebelião e arrependimento. 

Depois mudamos de ideia. Nos séculos subsequentes, compreendemos aspectos da realidade. Descobrimos gramáticas ocultas, encontramos estratégias para nossos objetivos. O pensamento científico construiu um complexo edifício de saberes. A física foi a força motriz e unificadora, oferecendo uma imagem nítida da realidade: um vasto espaço onde correm partículas, impelidas e atraídas por forças. Faraday e Maxwell acrescentaram o "campo" eletromagnético, entidade difundida no espaço através da qual corpos distantes exercem forças um sobre o outro. Einstein completou o quadro, mostrando que também a gravidade é levada por um "campo": um campo que é a própria geometria do espaço e tempo. A síntese é clara e encantadora. 

A realidade é uma estratificação exuberante: montanhas nevadas e florestas, o olhar dos amigos, o estrondo do metrô nas sujas manhãs de inverno, nossa sede irrequieta, o deslizar dos dedos na tela do celular, o gosto do pão, o sofrimento do mundo, o céu noturno, a imensidão das estrelas. Vênus brilhando solitária no céu azul ultramarino do cerpúsculo... Pensávamos ter encontrado a trama de fundo desse pulular caleidoscópio, a ordem oculta atrás do véu desvendado das aparências. Era o tempo em que o mundo parecia simples. 

Mas, para nós, minúsculas criaturas mortais, as grandes esperanças não passam de breves sonhos. A clareza conceitual da física clássica foi varrida pelos quanta. A realidade não é como descreve a física clássica. 

Foi um despertar brusco do sonho feliz em que nos tinham embalado as ilusões do sucesso de Newton. Mas é um despertar que nos leva ao coração pulsante do pensamento científico, que não é feito de certezas adquiridas: é um pensamento em movimento contínuo, cuja força é precisamente a capacidade de recolocar sempre em discussão todas as coisas e começar de novo, de não ter medo de subverter uma ordem do mundo para buscar uma mais eficaz, e depois voltar a colocar tudo em discussão, subverter tudo de novo. 

Não ter medo de repensar o mundo é a força da ciência: desde que Anaximandro eliminou as colunas na qual a Terra se apoiava, Copérnico a pôs a girar o céu. Einstein dissolveu a rigidez da geometria do espaço e do tempo, e Darwin desmascarou a ilusão da alteridade dos humanos... A realidade se redesenha continuamente em formas cada vez mais eficazes. A coragem de reinventar profundamente o mundo: esse é o fascínio sutil da ciência que capturou as rebeliões da minha adolescência... ###

 

[1]

Copiado, sem autorização, do livro "O abismo vertiginoso – um mergulho nas ideias e nos efeitos da física quântica" – Carlo Rovelli – Ed. Objetiva 

Carlo Rovelli é físico teórico italiano, membro do Instituto Universitário Francês e da Academia Internacional de Filosofia da Ciência, professor do Centro de Física Teórica da Universidade Aix-Marseille. Especialista no estudo da gravidade quântica.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Ensaboa

 Opinião 

O Bozo é uma figura política tão escrota que até mesmo a Globo, com todo o seu histórico de escrotidão jornalística, consegue fazer manifesto apontando as os seus crimes sem a necessidade de manipulação editorial.

O gado não sabe bem como agir. Parte dele, assumido, abaixa a cabeça e espera. Responderá ao comando do ferrão dos seus condutores. Irá para aqui ou acolá conforme for ferreteado. Mas, há também um gado que disfarça a sua condição de simpatizante, sem assumi-la.

Um personagem de novela que fez  sucesso no início dos anos 70, era um bicheiro com o cacoete lavar as mãos a todo o momento. Sofria de um transtorno obsessivo-compulsivo que o obrigava, em intervalos de minutos ou em pausas de conversas,  buscar um lavatório onde ensaboava, lavava e secava as mãos. Era o Jovelino Sabonete interpretado pelo falecido e brilhante ator Felipe Carone na novela Bandeira 2.

O gado simpatizante me faz lembrar o Jovelino Sabonete. São identificados ideologicamente com o Bozo, mas buscam obsessiva e compulsivamente lavar as mãos como forma de disfarce, geralmente ensaboando-se no lavatório do discurso antipetista. Passam todo o seu tempo divulgando propagandas pró-Bozo, mas sempre tentando lavar os rastros fascistas de suas opções com mensagens anticorrupção, de criminalização da política, além de outras.

Apregoam-se como descomprometidos, mas suas práticas os desmentem. Não perdem a oportunidade de encher a bola de personagens caricatos tipo bias kicis ou o papagaio da havan e, volta e meia, uma fakenewsinha como se não soubessem sobre a falsidade da sua origem. Ora é o STF corrupto, ora é o Lula ladrão, ora é a Globo comunista, enquanto garimpam sem sucesso alguma coisa que preste no lodaçal político do governo Bozo.

Os ataques contra os direitos dos trabalhadores; contra os grupos discriminados que buscam representação política; o genocídio decorrente das ações e omissões na governança da área de saúde; a campanha e o boicote à vacinação em massa e, agora, o crime do boicote à vacinação infantil -  nada disso tem sido suficiente para o gado bozista dar conta de si. Nem mesmo os que correm para os lavatórios ensaboando-se em discursos precários e de conteúdos que oscilam entre a ignorância e a burrice. Fascistinhas sabonetes!

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terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Fim do trecho em obras?

 

Leituras para distrair

 Estava entre os que pensam no retorno a uma normalidade pós-pandemia. Uma volta às atividades interrompidas desde a primeira quinzena de março de 2020, como foi o meu caso e de um grande número de pessoas.

Pensava nas restrições e cuidados pandêmicos como um "desvio por motivo de obras". Um desconforto temporário e com retardos implicando em reprogramação dos agendamentos. Para mim, em algum momento encontraríamos outra placa indicando " fim do trecho em obras " e um novo desvio, desta vez para retorno à normalidade do percurso que fora interrompido.

Não penso mais assim. Não por conta exclusiva de reflexões individuais, seria uma pretensão. Mas, pelas oportunidades de conversas entre companheiros, e acesso às reflexões de outros que sequer conheço. Reflexões que circulam nesse mar de informações viabilizado pela tecnologia e agitado pelo quadro trágico de um vírus que, com uma significativa contribuição de agentes governamentais, só em nosso país já tragou cerca de 600 mil vidas.

Não entramos em um desvio para uma rota alternativa e temporária. Entramos em novo caminho com características distintas das que conhecíamos e que vamos identificando na medida em que prosseguimos.

Mais adiante, a pandemia propriamente dita será uma paisagem ultrapassada e a rota a seguir também não será mais aquela de antes. A vida anterior à pandemia terá passado, assim como passará a própria pandemia. Precisamos nos adaptar a essa ideia. Insistir na expectativa de retorno a algo que ficou no passado será um equívoco. Devemos nos empenhar na preparação e atenção para esse novo caminho.

Penso no conselho de um psicólogo (B.F. Skinner) ao tratar sobre a velhice. "A velhice é, em parte, como um outro país. Você poderá viver bem lá, se se preparou com antecedência". Aprender desde já sobre novos hábitos, costumes e necessidades. A mudança virá. Assim, buscar saber como é a vida por lá irá ajudar-nos quando a mudança acontecer.

Também o fim da pandemia virá, mas será como a vida em outro local. Relações profissionais e pessoais, obrigações e relações familiares, estudos, trabalhos, viagens, projetos, enfim, todos esses significados que compõem a nossa vida pessoal e em sociedade serão impactados. Precisamos nos preparar desde já.

Umas das pouquíssimas coisas que não mudarão com a pandemia serão o determinismo da morte e a exploração capitalista. A vida humana ainda é finita, e no capitalismo continuará tratada como mercadoria, no processo interminável da exploração dos trabalhadores pela classe capitalista visando à apropriação por essa última da riqueza produzida pela primeira.

Porém, um fato interessante emergirá como novo, embora não o seja, em relação aos tempos pandêmicos. Precisaremos explicitar certas escolhas porque não poderemos mais usar a pandemia como desculpa. Aonde ir ou o que fazer. Onde estar, quando e com quem.

Escolher e criar subterfúgios e justificativas naturalmente não será uma novidade, afinal, sempre fizemos isso. Mas, a pandemia terá nos deixados "mal" acostumados porque não somos cobrados em nossas afirmativas ou negações quando a usamos como desculpa. Interessante! Um pouco mais a frente as razões precisarão ser outras, mais claras ou explícitas.  Isso será um grande e curioso exercício.  *####*

 

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

O Bacalhau do Andarilho

 Leituras para distrair

Daqui a alguns dias faremos um encontro para conversas na casa de um amigo. O prato principal será bacalhau, e tendo em vista  o hábito  do dono da casa de vaguear durante a pandemia quando deveria sossegar o rabo em casa, para sacaneá-lo, batizamos o evento de Bacalhau do Andarilho.

A aproximação do nosso Bacalhau do Andarilho trouxe algumas lembranças sobre as quais já conversei com alguns, mas que resolvi registrar, apenas como exercício.

Tomo como referência a minha família de infância: um casal e três filhos homens, sustentada por um operário metalúrgico. Assalariado e sem qualificações especiais além da sua experiência. Só após 10 anos de casamento conseguiu alugar uma casa para a família. Até então, morava em uma "casa de fundos" , propriedade de parentes próximos, sem compromisso de aluguel. Essas informações visam apenas formar o contexto sócio econômico.

Para aquela família, e naquela época, o bacalhau era acessível, logo não devia ser tão caro. E não eram imitações. Era comum achar nos armazéns, para usos diversos, as caixas de armazenamento dos peixes importados, todas com aquelas palavras estrangeiras estranhas e incompreensíveis.

O bacalhau, pelo menos em nosso campo de relações, embora frequente nas mesas, não era idolatrado como alimentação especial. O consumo era maior nas festas religiosas da semana santa quando era "proibido" o consumo da carne bovina. Naturalmente estou relatando memórias de uma experiência particular, não tenho como comprovar e generalizar essas afirmações. São memórias com a intenção exclusiva de estimular lembranças de cada um e conversas entre nós.

As carnes bovinas, essas sim, eram a essência da dieta. Carnes de primeira e de segunda. Ainda hoje não sei identificá-las para exemplificar. O que recordo é que o consumo dos chamados bifes era um hábito comum, mas nas famílias maiores não dava pra fazer um bife para cada um. Não haveria carne que bastasse. Muito menos contemplando as preferências do privilegiado: bem passado, mal passado, ao ponto, etc. As soluções em quase todas as famílias eram a carne moída e os ensopadinhos.

A carne picada em pequenos pedaços rendia. Cozida com batatas, chuchus, cenouras e similares, compunha o que os paulistas chamam de "mistura", o complemento proteico do prato. Brilhante solução!

A carne moída, até então, era assada ou cozida e, após, passada na maquina de moer (conheço alguém que tem uma coleção delas). Só no final da minha infância, em Saigon, os açougues se equiparam com máquinas elétricas para vender diretamente a carne moída crua.

Os almoços de domingo eram especiais. Galinha e maionese determinavam a especialidade das refeições. A galinha era um frango criado no quintal ou comprado vivo no aviário.

Nas proximidades da nossa casa o principal aviário era de "seu Abdala", e o atendimento feito por seu filho "Pedrinho" um rapazola mais velho que eu (ainda criança) e adorado pelas senhoras freguesas locais. Lá comprávamos eventualmente os frangos vivos ou, frequentemente, ovos em dúzias inteiras ou meias, cada um deles inspecionados por Pedrinho.

Havia uma caixa com uma lâmpada incandescente interna e um orifício. Pedrinho aproximava o ovo (da galinha)  do orifício, examinava o seu interior contra a luz para ver se estava fertilizado. Estando ok, embalava a quantidade desejada em jornal. Hoje aprendi na internet que o Pedrinho fazia uma "ovoscopia" e quem quiser pode aprender os segredos do processo no youtube.

Os frangos, coitados, tinham um destino triste (não mudou). Passavam alguns dias ainda vivos no quintal, presos por uma das pernas. Eram executados por minha mãe num ato de degola. Uma das nossas tarefas era recolher folhas de alfavaca, que florescia em quantidade nos canteiros do nosso pequeno quintal, e que servia para o tempero das carnes. Após a degola e o colhimento do sangue, o frango era banhado em água fervente, depenado e cortado para o cozimento de suas partes.

Em nossa casa, pés e cabeça eram dispensados – ninguém consumia canja. Quanto aos miúdos, eu não tenho lembrança, nem todos eram consumidos. Sob o meu olhar atual, acho até que era um luxo. Nossa mesa era basicamente de coxas (não havia o termo sobrecoxas), peito, pescoço e asas. O cú do frango, alguns chamam de "sobre", não era valorizado em nossa mesa e hábitos.

O que chamávamos de maionese, e que compunha o prato especial do domingo, era uma salada de verduras, batatas, chuchus e cenouras cujo molho era feito de gemas de ovos cozidos amassados com garfo e inundados com azeite (que assim como o bacalhau não era uma excentricidade culinária). Bem parecido com um salpicão.

Interessante, para mim, é que a sobremesa não fazia parte do nosso ritual alimentar, embora a minha mãe fosse uma doceira de mão cheia.

Foram domingos fartos, felizmente. Em alguns deles o protagonismo principal era o da carne assada (carne de segunda, especial para assar) e, algumas vezes, o bacalhau. Só vim a conhecer e desfrutar do "churrasco" já na vida adulta.

Um tempo bom. Pobreza sem miséria. Claro que a última existia, mas ainda era distante de um bairro de operários assalariados e empregados. É possível uma vida digna e sem luxos.

 

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sábado, 20 de novembro de 2021

Zumbi - mais vivo do que nunca

 Opinião

 

Sabemos que a história não é uma coisa sem vida, inerte, de relatos acabados e imutáveis. Ao contrário, ela é viva, tem movimento permanente e as narrativas dos fatos e suas interpretações são disputadas pelas gerações.

No Brasil, infelizmente, a historiografia oficial ainda prevalece como o relato das classes dominantes desde a nossa fundação como nação. Não é de espantar o "esquecimento" de trajetórias negras e de muitas outras.

 Mas, há exceções importantes. E a mais significativa é exatamente a que se comemora hoje, o dia da Consciência Negra, 20 de novembro. Uma celebração que avançou como fruto das lutas empreendidas pelos chamados movimentos negros, e que se impôs ao marco oficial do 13 de Maio da lei Áurea. Deixou de ser uma celebração alternativa, e hoje é uma celebração nacional, impregnada de significados políticos que atrelam a data comemorativa às lutas e memórias populares, completamente aderentes à realidade social.

Infelizmente, isso ainda não ocorreu com outros episódios históricos. A Inconfidência Mineira, a Independência, a Proclamação da República, assim como os seus protagonistas, ainda são celebrações impostas pela história oficial, mas sem qualquer relação com a população em geral que as tem apenas como datas simbólicas aprendidas no ensino escolar.

Fatos históricos importantes, como a Revolta da Chibata e seus protagonistas, João Cândido Felisberto exemplo de verdadeiros heróis, ainda hoje são explicitamente censurados, ao mesmo tempo em que se têm notícias das tentativas de enfiar goela abaixo dos brasileiros, como se fosse data a comemorar, a celebração de eventos vergonhosos como o golpe de 64.

Tomara que o desenvolvimento sociopolítico brasileiro permita o resgate de uma história que trace os caminhos das lutas sociais na formação do nosso país, de seus líderes e de seus simbolismos. Mas, antes de tudo, é necessário que essa situação não seja encarada como uma lástima e, sim, como um estímulo e obstáculo a superar.


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