domingo, 1 de julho de 2018

Plunct Plact Zum – onde vai dar essa coisa?


Opinião

Assisti a uma palestra muito legal, cujo tema abordava as riquezas e possibilidades das “línguas portuguesas” do Brasil, a língua como patrimônio, instrumento de expressão literária e individual, as questões das chamadas normas cultas versus a língua viva, além de outros aspectos [1].

Alguém da plateia comentou sobre um fato da atualidade, quando simplificações são largamente utilizadas nas trocas de mensagens via internet, e levantou a questão sobre qual seria da influência dessas práticas em nossa na língua e particularmente na literatura. A pergunta estimulou e desencadeou outras interessantes observações. Pensando sobre o assunto e como prática para organizar o pensamento, registrei algumas das minhas reflexões sobre a questão.

O impacto da internet e dos dispositivos eletrônicos na comunicação escrita é enorme, e uma questão recorrente é tentar avaliar qual será o efeito desse impacto sobre uma sociedade que já é carente em sua formação educacional até em termos de alfabetização. Sem exageros, um contingente grande de pessoas que teria dificuldade em escrever a palavra “você” com os instrumentos tradicionais de grafia já troca mensagens através de seus celulares representando a palavra por “vc” sem maiores considerações.

Para alguns essa questão é irrelevante porque não seria uma novidade. Argumentam que as transformações nas grafias de “você” para “vc”, típicas das postagens eletrônicas, são equivalentes às mudanças que ao longo do tempo ocorreram na expressão “vossa mercê”, que se transformou sucessivamente em vossemecê, vosmecê,  até o atual ”você”.  Assim, a transformação de “você” para “vc” não deveria gerar preocupações.

Para mim a equivalência vale como exemplo, mas exige um pequeno aditamento sob pena de estarmos simplificando o fenômeno. A transformação de “vossa mercê” em “você” foi uma mudança de linguagem, da fala, enquanto escrever “vc” no lugar de “você” é uma mudança da grafia, da representação simbólica da palavra, logo uma mudança de natureza diferente. Feito esse reparo, também concordo que a importância maior é se a comunicação desejada ocorreu sem erros de interpretações decorrentes da grafia utilizada.

Estamos em um período de intensas modificações nas formas de nossa comunicação. Transformações na linguagem, ou seja, na estrutura do discurso; transformações na representação simbólica, ou seja, na forma da escrita, além de uma transformação nos canais de comunicação, ou seja, nos recursos e instrumentos utilizados para a comunicação.

Estas transformações interagem. A disponibilidade de um canal de transmissão e recepção que permite a comunicação quase instantânea dispensa parte dos esforços na construção formal das mensagens. Isso porque a formalidade é um recurso que busca garantir a compreensão da escrita substituindo a redundância que é típica da fala. Na medida em que, atualmente, a velocidade de transmissão é muito alta, quase instantânea, se houver dúvidas podemos simplesmente repetir as mensagens fazendo as correções necessárias e, consequentemente, podemos usar códigos de linguagem que sejam mais simples.

Uma característica da fala é a redundância, a repetição da mensagem até o entendimento. É assim que conversamos em nosso dia a dia. Daí parecer estranho quando lemos a transcrição de uma conversa. As legendas das gravações telefônicas, que hoje são tão comuns serem exibidas na TV, são um bom exemplo. Os diálogos que lemos transcritos na tela da TV – monossílabos, grunhidos, repetições, gírias, são bem diferentes daqueles que encontramos na literatura principalmente, mas também no cinema ou no teatro.

Às vezes, tanto na literatura, como no cinema ou teatro, o autor intencionalmente busca reproduzir um diálogo real, porém na maioria das situações, diferentemente das conversas cotidianas, os diálogos são sentenças estruturadas que visam garantir a compreensão da mensagem do autor pelo leitor ou espectador.

Também quando trocamos mensagens escritas, sem o recurso da redundância que usamos na conversa direta, tradicionalmente o fazemos construindo mensagens estruturadas, valorizando a sintaxe e a semântica, sempre buscando garantir o registro correto da informação que será enviada, em princípio, sem outra oportunidade de correção.

Os dispositivos móveis e a internet impactaram esse processo. O meu interlocutor está “ali”, à distância de um clique, e não só receberá a mensagem quase imediatamente como terá a possibilidade de me questionar sobre o entendimento. E eu poderei repetir, poderei ser redundante, se necessário, com uma velocidade tal que será como se estivéssemos conversando diretamente. Então, eu simplifico a forma do discurso (sintaxe) e a descrição do conteúdo (semântica). Simplifico até a representação simbólica (grafia). “Blz. espero vc aki kasa. abç”.

Se não bastasse isso, esse mundo novo de recursos também mistura a mensagem escrita com a iconográfica através da inserção dos “emoticons” que são modernos ideogramas e que traduzem mensagens inteiras. Carinhas, coraçõezinhos, mãozinhas, além de outras imagens misturam-se com as letras do alfabeto representando agrado, desagrado, tristeza, raiva, aplausos etc.

Se formos rigorosos, concluiremos que é um engano dizer que na internet passamos a escrever como falamos, porque ninguém fala por ideogramas representando as carinhas dos “emoticons”, embora a mímica faça parte da nossa comunicação pessoal. Estamos, na realidade, criando uma nova forma ou um novo conjunto de recursos de comunicação.

Essas transformações não aparecem à toa. Entre outros fenômenos, ocorre que a mesma funcionalidade de velocidade que está colocada à nossa disposição exige, em contrapartida, que simplifiquemos as mensagens sob o risco até de perdermos a oportunidade de transmissão. Muitas vezes chegamos a receber respostas antes mesmo de terminarmos a transmissão completa da mensagem.

E a literatura, como fica?

Eu não seria capaz de formular uma definição sobre o significado da expressão “literatura”. Suponho que os dicionários de filosofia, assim como os textos dos pesquisadores e estudiosos do assunto devem estar repletos de conceitos e definições. Fico com a minha compreensão, nos limites da sua estreiteza, que a literatura é uma forma de arte através da qual o homem registra, reproduz ou idealiza histórias, fatos e emoções em um espaço e tempo que podem ser conjunturais, históricos, reais ou imaginados.

A arte da literatura se expressa tradicionalmente pela representação escrita das palavras e pelos mecanismos e recursos colocados à disposição para essa forma de comunicação. Esse recurso já foi a grafia manual, já foi a grafia mecânica, e hoje conta com modernos dispositivos eletrônicos com “touch screen” e outros que chegam até a identificar e completar a palavra que se deseja escrever.


Só para registro, desde 2010, quase a totalidade dos estados americanos aboliu a obrigação de ensino da escrita a mão, com a recomendação para as escolas do foco em outras habilidades, como a digitação de textos em teclados. Aboliu a obrigação, não aboliu o ensino. Hoje, no Brasil, já são várias as escolas que priorizam o ensino da escrita a mão e da leitura em letra de forma, colocando em segunda prioridade o aprendizado da letra cursiva (escrita manuscrita em que as letras são arredondadas e ligadas umas às outras pelas pontas).

Sem fazer juízo dessas escolhas, o fato é que elas se impõem, e a literatura permanecerá, inclusive fazendo uso dessas transformações em forma e conteúdo, porque possivelmente o homem continuará a recorrer a ela como instrumento para identificar a si e às suas relações com o mundo que nunca parou de ser um mundo novo.

A questão mais importante, a meu ver, é se utilizaremos essas transformações como agentes de integração ou como reforço da exclusão já existente, na medida em que as possibilidades se apresentam para ambas as direções. Essa igualdade de possibilidades talvez seja a grande novidade e que não deveríamos deixar escapar porque não foi sempre assim.

Historicamente os elementos de transformação sempre estiveram mais à disposição de um projeto de exclusão do que de integração. Certamente a exclusão resultou de escolhas, mas escolhas que foram facilitadas por uma situação real de natureza econômica. Hoje já não é tanto assim porque, mesmo considerando as carências econômicas da nossa sociedade, há possibilidades reais dos  recursos estarem disponíveis em par de igualdades para ambas as saídas. A necessidade de escolher permanece.        #####

...
Tem que ser selado, registrado, carimbado
Avaliado, rotulado se quiser voar!
Se quiser voar
Pra Lua: a taxa é alta,
Pro Sol: identidade
Mas já pro seu foguete viajar pelo universo
É preciso meu carimbo dando o sim,
Sim, sim, sim.
O seu Plunct Plact Zum
Não vai a lugar nenhum!
               
                     (Carimbador maluco – Raul Seixas)




 [1]
A palestra foi um evento da 51ª JORNADA REPUBLICANA, realizada no Museu da República, RJ, em 28/06/2018, organizado por Maria Helena Versiani e Alejandra Saladino.
O tema “Falar direito ou direito à fala?” foi desenvolvido com a participação dos palestrantes: Écio Salles (doutor em Comunicação pela ECO-UFRJ, escritor, pesquisador e um dos criadores e organizadores da FLUP – a Festa Literária das Periferias), Francisco César Manhães Monteiro  (doutorando na UFRJ, tradutor e professor, além de escritor e poeta) e Suzana Vargas (mestre em teoria literária pela UFRJ e pesquisadora da Fundação Biblioteca Nacional, especialista em leitura e autora de literatura infantil e juvenil).

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Não estava escrito no parachoque

Opinião

A paralisação recente dos caminhoneiros trouxe consigo uma reafirmação importante, tão velha quanto o próprio modo de produção capitalista:

A GREVE É A ARMA DO TRABALHADOR.

Nas relações de produção capitalista e, especialmente, nas condições de superexploração às quais os trabalhadores brasileiros estão submetidos, negar a forca de trabalho e interromper a produção  de bens e serviços é o único recurso eficaz de avançar em conquistas no enfrentamento com a classe patronal e, consequentemente, alterar para melhor as condições de vida da sociedade brasileira. O patrão sabe muito bem disso e, ele mesmo, lança mão desse recurso provocando o locaute como pressão sobre o governo para alcançar seus objetivos. Infelizmente, porém, entre os trabalhadores muitos ainda hesitam.

O locaute dos caminhoneiros, em maio de 2018, deveria ser visto como didático. Sua principal lição foi mostrar que é possível, sim, alterar situações que, a primeira vista, parecem imutáveis. No caso em pauta, os ganhos  até foram além das reivindicações que o motivaram.

Em segundo lugar, saltou aos olhos a diferença no tratamento recebido pelo movimento dos caminhoneiros se comparado com as dificuldades de outras categorias. A complacência governamental e a propaganda favorável dos meios de comunicação para com o locaute contrastaram com o tratamento de outras mobilizações que mal Iniciadas já são criminalizadas e reprimidas na base da porrada.

Para não ir muito longe, enquanto o governo esperou concluir a negociações para vir a público declarar que agiria contra a parcela de caminhoneiros insatisfeita com os termos negociados, no caso dos petroleiros as repressões contra os grevistas ocorreram com utilização de bombas de gás nos primeiros minutos das manifestações, com a AGU e o TST declarando antecipadamente a ilegalidade da greve e ameaçando os trabalhadores com multas milionárias. Mais exemplos são desnecessários, qualquer leitor que refletir será capaz de resgatá-los em sua memória.

Outra lição, que não é nova, foi o papel  da imprensa que estimulou uma simpatia da sociedade para com o movimento, ainda que ela (a sociedade) estivesse refém e sofrendo diretamente os efeitos do locaute disfarçado de greve. A sociedade e os trabalhadores em geral demonstraram uma empatia para com o movimento dos caminhoneiros embora esse último, em momento nenhum, tenha dado qualquer amostra de solidariedade de classe.

Em momento nenhum as empresas ou os donos de caminhões que terceirizam a condução dos mesmos foram cobrados para melhoria nos valores de fretes que são pagos aos caminhoneiros empregados. Nem mesmo foram cobradas melhorias embora nas imagens das TVs o movimento fizesse questão de mostrar as difíceis condições de trabalho, usando-as para angariar simpatias da população.

O movimento dos caminhoneiros sequer questionou a política governamental que submete o nosso país a subalternidade. As criticas ficaram por conta de outros personagens de fora do movimento. Os caminhoneiros reivindicaram e conseguiram a redução dos preços a qualquer custo. Foda-se o resto!  

Segundo os jornais, entre outras fontes de financiamento, o  governo retirou grana contingenciada do  Fundo de Universalização das Telecomunicações (Fust)  e do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações no valor de mais de 700 milhões  para subsidiar o acordo com os “caminhoneiros”.

O que se constata é que as oportunidades que surgiram foram todas aproveitadas em prol de ganhos que beneficiaram basicamente as empresas de transportes.

Essas observações não visam desqualificar o movimento dos caminhoneiros, ao contrário, visam qualificá-lo com mais precisão do que uma genérica “categoria em luta” e, principalmente, extrair aprendizados. As relações sociais são dinâmicas e os trabalhadores em suas várias categorias continuam com a necessidade de enfrentamentos com a classe patronal e o governo, independentemente do locaute que as empresas de transportes de cargas rodoviárias promoveram.

Nós, trabalhadores brasileiros,  precisamos efetivamente de uma greve, uma greve geral, forte, bem mais forte que a de abril de 2017 que, embora forte, foi insuficiente em seus propósitos.

A luta de classes não é uma invenção sindicalista, socialista ou comunista. Ela decorre naturalmente de um modo de produção onde uma classe minoritária patronal explora o trabalho da classe trabalhadora que é a maioria, onde os chamados lucros patronais se fazem exclusivamente a custa dessa exploração, logo são classes com interesses conflitantes, antagônicos, em luta.

Nessa diferença de classes forma-se uma elite econômica que acumula e detém uma concentração absurda da riqueza produzida pelos trabalhadores. Com esse poder econômico a classe patronal se apropria e domina completamente os poderes estatais que deveriam ser públicos - legislativos, executivos e  judiciários e, com tal domínio, objetivando naturalmente conservar sua posição, ela utiliza tais poderes contra a mobilização dos trabalhadores, inclusive com instrumentos de repressão violenta, com a polícia e, se necessário, as demais forcas armadas.

Reverter esse  quadro não e fácil, mas não é impossível. Parece uma contradição, mas o  locaute dos donos dos transportes de carga, um movimento dentro da própria estrutura de poder, nos mostrou isso. Deu-nos lição e exemplos.

Precisamos de uma greve, mas de uma greve de trabalhadores. E os pontos nevrálgicos também estão identificados. A paralisação do transporte de cargas rodoviário é um deles, outro que já conhecemos e que são de fortalezas difíceis de serem tomadas, é o transporte público de passageiros, especialmente os serviços de ônibus, trens metro e similares.

A paralisação dos transportes públicos precisa ser o piquete especial da greve geral, e devemos tratar isso com clareza. O piquete é uma proteção do trabalhador contra os constrangimentos aos quais ele é submetido para ir trabalhar a qualquer custo.

Durante o locaute dos caminhoneiros alguns transportes públicos foram prejudicados e os trabalhadores foram constrangidos a buscarem soluções para chegar ao trabalho, mas o cenário de fundo foi uma compreensão das dificuldades nos deslocamentos provocadas pela paralisação dos caminhoneiros que funcionou como piquete protegendo o empregado faltante. Essa foi mais uma lição. Nos principais centros urbanos não existirá greve se os ônibus circularem. A paralisação desse setor é fundamental. No mais, é Greve Geral neles!

#####

segunda-feira, 4 de junho de 2018

O Samba do Castelinho

Leituras para distrair


A roda de samba


No início da Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, na esquina com a Rua Dois de Dezembro, há uma construção simpática que, por sua arquitetura, é conhecida como o Castelinho do Flamengo e funciona como o Centro Cultural Municipal Oduvaldo Vianna Filho.

O Castelinho não tem uma “cara de samba”. Não lembra uma quadra de escola ou bloco carnavalesco, nem o salão de um boteco ou um trecho de rua interditado. Não lembra uma calçada cheia de gente, não se parece com um quiosque de praia, nem qualquer desses estereótipos ambientais populares e geralmente associados a essa expressão musical. Tampouco é uma sala de teatro ou de shows. Enfim, quem passar por ali constatará a afirmação. O Castelinho pode ter cara de tudo, menos de “samba”.

Mas, é interessante que a própria sabedoria popular dá conta dessas contradições que, a rigor, não passam de generalizações preconceituosas ou reduções simplistas. “Quem vê cara não vê coração” – diz o aforismo que, nesse caso, acerta em cheio. Quem vê a cara do Castelinho não imagina que o seu coração palpita em ritmo marcado por uma excelente roda de samba que tem sido uma verdadeira celebração semanal a um dos aspectos mais expressivos da identificação cultural do Rio de Janeiro.
Foto copiada do Facebook do Samba do Castelinho


A roda é executada pelo Anderson Balbueno, o Leo Pereira, a Ana Costa, a Bianca Calcagni, o Marquinho China, o Paulão Sete Cordas e o Jorge Andre (ver foto – da esquerda para a direita). Percursionistas, cavaquinistas e violonistas, esses excelentes músicos são referências em todos os ambientes cariocas onde o samba é praticado com qualidade. São eles que, desde 27/11/2017, transformam as noites das segundas-feiras em momentos especiais com a roda do Samba do Castelinho do Flamengo.

A qualidade do samba é a que existe de melhor. Acústico, com os presentes cantando juntos, o único condicionante é não realizar conversas paralelas. Quem não sabe o samba ouve em silêncio para aprender e cantar na próxima vez. A latinha de ceva ou água mineral pode ser adquirida no local, sem tumultos. No mais, é navegar numa viagem de alegria  e prazer pelas letras e melodias dos sambas conduzidos por esses artistas.

Se você desejar, poderá visualizar ou baixar arquivo em pdf com as pérolas que foram executadas nas audições dos dias 26/02/2018 e 07/05/2018, na ordem em que foram cantadas. As audições foram registradas ao acaso. As letras e links foram copiados da web. As autorias e parcerias foram copiadas do DicionárioCravo Albin da Música Popular Brasileira e do Instituto Memória Musical Brasileira (IMMuB) , todos acessados em 03/06/2018.

Sambas executados em 26/02/2018 (pdf)


Sambas executados em 07/05/2018 (pdf)




A Carta de Cachaças da roda do Samba do Castelinho

Entre tantos símbolos e hábitos integrantes da nossa cultura, a cachaça se destaca não apenas pelo seu consumo, mas também por seu caráter essencialmente popular e sua imbricação com outros aspectos culturais, especialmente o “Samba” com todo o significado cultural desse termo. Assim, num processo natural, em todos os sentidos, a roda do Samba do Castelinho incluiu em sua mesa a garrafa de pinga, e ao longo de 21 audições consecutivas foram degustadas por alguns componentes e público presentes, uma sequência de 20 diferentes tipos de pingas que, sem outras pretensões, foram registradas nessa Carta de Cachaças.


A rigor, as cachaças registradas não foram as únicas porque respondendo ao estímulo dos componentes da Roda o público participou trazendo outras marvadas para compor a mesa e servir aos demais presentes. O resultado tem sido uma prática alegre e descontraída, em sintonia com o clima de camaradagem que marca o Samba do Castelinho.

Sem quaisquer compromissos comerciais, apenas como memória de momentos super agradáveis vivenciados nas audições, a carta – que pode ser baixada em pdf - forma uma interessante relação de vinte pingas que podem ser revisitadas ou utilizadas como referências na busca de tipos distintos dos constantes das cartas.



sábado, 26 de maio de 2018

Vivendo e aprendendo


Opinião

A situação dos preços dos combustíveis decorre diretamente das escolhas do governo. Antes tínhamos a Petrobras, além de todas as suas funções e potencialidades, como um instrumento de realização de políticas de salvaguarda e proteção de áreas estratégicas como a do transporte rodoviário de cargas. O governo Temer, com seu objetivo de acabar com a Petrobras ou entregá-la ao capital privado, desprotegeu completamente o setor, até o ponto de provocar a crise dos caminhoneiros.

Para uma ideia do porte e proporções do setor em crise. Conforme o anuário CNT do Transporte 2017 a frota empresarial de transporte de cargas rodoviário é de cerca de 1.088.358 veículos de propriedade de 111.743 empresas; 22.865 veículos de propriedade de 2764 cooperativas e 553.643 veículos de propriedade de 374.029 autônomos. [1]

São procedentes as reivindicações dos caminhoneiros, mas o movimento é uma autodefesa dos patrões, donos das grandes empresas de transportes. Um locaute que arrasta consigo os caminhoneiros autônomos fazendo parecer uma greve classista de trabalhadores. Um locaute que está se mostrando poderoso porque nem mesmo a vitoriosa greve geral de abril de 2017 foi capaz de provocar a instabilidade política e a inquietação pública que a paralisação dos caminhoneiros está provocando.

A minha interpretação leva à questão sobre o apoio ou a contestação do movimento. Faço uma leitura discordante daquela que fazem o meu partido PSTU e também o PSOL. No caso do PSTU, tanto partido como a central sindical CSP Conlutas estão proclamando “todo o apoio à greve dos caminhoneiros” e chamando as demais centrais para se agregarem ao movimento de uma greve geral. Para o PSTU, chamar o movimento dos caminhoneiros de locaute seria “fazer o jogo da direita”.

Discordo das concepções do PSTU e do PSOL sobre a greve, mas concordo integralmente com o chamado de uma greve geral e acho que esse ponto é o mais importante.  Apenas um forte abalo social nos dará alguma chance de transformar o quadro político, ou seja, a correlação de poderes. Não tenho esperança em eleições sem a chacoalhada política que precisamos.

Assim, vejo com reservas e não endosso, às cegas, o movimento dos caminhoneiros. Esse setor, tanto o patronal como a parcela de trabalhadores autônomos, foram aliados poderosos do projeto conspirador que derrubou Dilma e instituiu o governo Temer, inclusive foram abonadores do que mais tarde foram as reformas trabalhistas [2] e nada indica que mudaram as suas posições.

Eu gostaria de estar enganado, mas quem quiser me convencer que tente se aproximar do movimento com algum símbolo que indique solidariedade entre trabalhadores ou com outras pautas de luta – inclusive com o chamado à greve geral em apoio aos caminhoneiros. Tenho certeza que será rechaçado e as manifestações de fascismo brotarão ali, feito tiririca após a chuva, em terreno baldio.  

Apesar das situações contraditórias, não tenho dúvidas nem indecisão na opção. A paralisação dos caminhoneiros é uma crise no campo dos apoiadores do golpe e não endosso “todo apoio à greve dos caminhoneiros”.

Concordo que a crise criada por essa paralisação pode ser a oportunidade para uma saudável, transformadora, revitalizante e  benéfica Greve Geral. Nesse aspecto o PSTU acerta em cheio. Infelizmente também seria a oportunidade para um recrudescimento da repressão contra a sociedade, quem sabe trazendo para o cenário um ator político que tem estado sem papel e que anda saliente para se mostrar no palco – as forças armadas de repressão. Mas, o que fazer! É a dialética quem determina a organização social, não é a lógica formal. Greve Geral neles!
############# 
[1]
Anuário CNT do Transporte 2017 – Estatísticas consolidadas

[2]
Declaração pública oficial da Confederação Nacional do Transporte, em 13/04/2016, apoiando o impeachment da presidenta Dilma Rousseff – entre as razões:
a sua incapacidade de solucionar “a grave crise econômica que assola o país, com reflexos danosos ao setor transportador brasileiro e empregos” e de sua falta de “autoridade para liderar o processo de reformas necessárias ao desenvolvimento do país”.

Foto copiada da web

Fotos copiadas da web


quinta-feira, 5 de abril de 2018

É dois!

Leituras para distrair



Por favor, salada de atum! Fiz o pedido em um Bob’s no centro do Rio. Recebi um ticket com uma senha e esperei por um tempo que não terminava, embora fossem poucos os que aguardavam antes de mim. A demora me irritou. Expliquei para a atendente o que eu desejava - memória da juventude – pão de forma superficialmente torrado e apenas a pasta de atum. A explicação foi necessária porque, na versão atual, eu receberia algo impregnado de alfaces, tomates e outros estranhos e coloridos adereços que descaracterizaram completamente o tradicional e simples sanduiche que tentei reviver. O meu pedido precisou ser especificado “só na pasta” explicou-me a moça, com o desdém de quem estivesse tratando com um imbecil.

Em outros tempos o atendente gritaria o pedido para a cozinha, e a reação dos sanduicheiros poderia ser monitorada o que permitiria avaliar a demora no atendimento. Agora o cliente recebe uma senha, monitora um painel eletrônico e a ignorância é total – o sistema está rodando – a alternativa é aguardar distraindo-se com alguma atividade ou pensamentos.  

Assim, enquanto aguardava lembrei histórias que determinaram esse registro. Quando rapaz, morando e trabalhando em São Gonçalo (RJ), tinha o privilegio de almoçar em casa. Porém, outros colegas trabalhavam no Rio e, quando não consumiam marmitas, faziam as refeições em restaurantes que eram típicos do centro da cidade. Bancos giratórios organizados em torno de um balcão que formava uma ilha na qual ficavam os atendentes que anotavam pedidos e comandavam a cozinha. O serviço era padrão: podia-se pedir um prato principal e mais dois ou três acompanhamentos, a escolher.

Dois amigos queridos e sacanas eram empregados em uma mesma distribuidora de petróleo, e companheiros diários de almoço. Estudávamos juntos, os três, e à noite, quando nos encontrávamos, sempre havia histórias para narrar. Um dos amigos era desatento ao extremo e, invariavelmente, ficava em dúvida na hora de escolher a composição do seu prato. Quem já precisou fazer refeições diárias na rua sabe bem o que é isso. Tem horas que as comidas ficam todas iguais. Nosso amigo desatento elaborava o seu pedido enquanto pedia: purê, batata frita e ... ele sempre hesitava. A atendente experiente e sarcástica, melhor dizendo, uma boa filha da puta, interrompia complementando o pedido em voz alta: já sei, salada de batatas! Os demais clientes riam sacaneando o indeciso e suposto devorador de batatas colocado na berlinda pela atendente, até que um conjunto de impropérios encerrava a cena.

Outras vezes havia oportunidade de uma forra. Os dois sacanas escolhiam o mesmo prato, mas não pediam juntos. Um deles pedia e o outro aguardava alguns segundos para repetir o pedido. Eficiente, a atendente logo gritava para a cozinha comandando o primeiro pedido, então ouvia o segundo pedido feito com retardo e berrava complementando o pedido anterior: É dois! O erro crasso na concordância de número ecoava pelo restaurante provocando risadas e funcionava como uma vingança, politicamente incorreta em todos os sentidos, mas prazerosa.

Pensei nessa bobagem e sorri internamente enquanto a minha salada de atum não aparecia. Reclamei em voz alta. A eletrônica retirou o charme e a eficácia do atendimento no Bob’s. Conseguiram estragar o serviço do Bob’s assim como fizeram com o serviço do Correios! O desapontamento foi maior quando provei o “só na pasta”, uma coisa branca com sabor de atum, mas bem distante do meu desejo. Valeu porque o resgate dessa lembrança boa me fez bem.
 ####



sábado, 31 de março de 2018

Não Acabou! Tem que acabar!


Opinião

“Não acabou! Tem que acabar! Eu quero o fim da Polícia Militar!”

Não é simples gritar essa palavra de ordem tão forte e significativa, e que foi, sem dúvida, um dos bordões mais aclamados nas manifestações decorrentes dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

Gritar pelo fim da polícia que conhecemos é um apelo significativo não apenas para a conjuntura carioca, mas para a situação brasileira em geral. A criminalização generalizada das manifestações políticas com a consequente repressão policial em nosso país já é um fato e virou prática comum. Deixou de ser uma possibilidade, não importa o partido que esteja no comando do governo. Qualquer movimento organizado consequente está obrigado a pensar sobre como enfrentar essa realidade, especialmente aqueles que agregam as comunidades carentes que são as mais oprimidas e reprimidas pelo Estado.

Foi com essa convicção e tentando aumentar a sua divulgação, que resgatei a histórica entrevista do ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Helio Luz, figura cuja biografia é pública e conhecida [1]. Lá se vão mais de vinte anos da entrevista, ocorrida em maio de 1997, e as questões colocadas pelo ex-delegado são atualíssimas.

O objetivo de ampliar a divulgação da entrevista é provocar e estimular o exercício da nossa crítica sobre uma questão que salta de nossas gargantas como palavra de ordem nas manifestações, mas que também nos compromete com a viabilização e com as  consequências da nossa vontade.

A nossa polícia foi criada para fazer a segurança de Estado e da elite.  São palavras de Helio Luz. Seu pessoal é recrutado basicamente na periferia, o Estado tolera a sua violência na proteção ao patrimônio, paga salários irrisórios ao policial e lhe dá ordem para “se virar”.

Nesse modelo a polícia é necessariamente violenta e corrupta. Mas, ela realiza a função para a qual foi criada e, na verdade, desempenha com eficiência o seu papel – diz o ex-delegado.

O clamor por uma polícia não violenta e não corrupta significa cobrar da polícia que ela proteja a sociedade. Porém, essa cobrança está sendo feita a uma polícia que não foi criada para isso. A polícia para proteger a sociedade simplesmente não existe. Precisaria ser construída, e isso é uma reviravolta.

Então, prossegue o ex-delegado, não é necessário consumir tempo debatendo se a polícia é, ou não, violenta e corrupta. Essa questão já está respondida afirmativamente. A polícia é violenta e corrupta. O avanço seria transformar essa polícia, o que não é algo simples, embora seja viável. Porém, para tal mudança é necessário que, preliminarmente, a sociedade responda a si própria se, de fato, há interesse em uma polícia não violenta e não corrupta.

A questão da violência parece não trazer dúvidas sobre a vontade social, mas no caso da corrupção, há contradições. O delegado questiona complementando que a polícia não corrupta será aquela que não deixará o carro parar no local proibido, nem permitirá puxar fumo no Posto 9, nem deixar o pessoal cheirar em Ipanema. E os mandados serão cumpridos com o pé na porta na Delfim Moreira, como se faz em outros países. É assim que funciona a polícia no primeiro mundo, diz ele. A polícia no primeiro mundo também não é perfeita, e não é diferente da nossa em seus mecanismos de discriminações e exclusões. Essa característica não é exclusiva da polícia brasileira, afirma Helio Luz. A diferença é que no primeiro mundo a classe media está dentro da policia, o que não ocorre aqui.

Aqui, os protegidos são apenas o Estado e a elite. E é para garantir isso que a comunidade pobre é reprimida e segregada pela polícia, em vez de receber proteção. Trabalho bem feito, afirma o ex-delegado. Nem são necessários cercas de arames para essa apartação, como ocorre na África do Sul, exemplifica Helio Luz. A entrevista na íntegra pode – e deveria – ser assistida no link abaixo [2]. Vale a pena.
#####
[1]
Hélio Tavares Luz (03/04/1946) foi chefe de polícia do Rio de Janeiro (1995 -1997) no governo Marcello Alencar (PSDB). Em setembro de 1997, seis meses após a entrevista citada nesse blog, ele foi afastado do cargo por se deixar fotografar ao lado de policiais que questionavam plano de cargos e salários.  Elegeu-se deputado estadual no Rio de Janeiro, pelo Partido dos Trabalhadores (PT), entre 1999-2002, mas deixou o PT em 2002 por discordar de "procedimentos internos do partido". Atualmente está aposentado.

[2]
Link para entrevista com o deputado Helio Luz – Acesso em 31/03/2018.
 
Essa entrevista de Helio Luz foi a base de um documentário intitulado “Notícias de Uma Guerra Particular”, de João Moreira Sales. Recentemente, em fevereiro de 2018, uma matéria da BBC Brasil resgatou a entrevista de 1997 e fez nova entrevista recolhendo as impressões do ex-delegado sobre a intervenção militar no Rio de Janeiro. O texto da entrevista da BBC está em <http://www.bbc.com/portuguese/brasil-43207272> Acesso em 31/03/2018.



terça-feira, 27 de março de 2018

Espaço no adesivo


Opinião

Duas pessoas foram assassinadas no Rio de Janeiro e uma terceira sofreu pequenas lesões de estilhaços, além do trauma emocional. Entre os mortos, uma das vítimas foi o alvo de um homicídio programado e planejado contra uma figura pública. Uma representante popular, uma vereadora cujos posicionamentos políticos colidiam frontalmente com interesses de certos grupos e que diziam respeito exatamente ao cenário de preconceito, discriminação e violência contra grupos sociais representados pela vereadora. A outra vítima foi um trabalhador que estava cumprindo a sua tarefa e circunstancialmente servia de motorista para a vereadora no momento dos assassinatos.

O evento provocou comoção geral com mobilizações e manifestações de repúdio, no país e no exterior, e de cobranças de ações e providências das autoridades responsáveis por identificar e punir os autores da chacina.

Os muitos movimentos e mobilizações têm focado os dois assassinatos, mas notadamente as palavras de ordem de registro e cobranças de providências nos cartazes, faixas, botões, adesivos etc. têm se referido ao fato valorizando o nome da vereadora e colocando em segundo plano o do motorista também assassinado. Essa situação tem gerado polêmicas e cobranças entre a própria militância, sob o argumento que se trata de uma discriminação indevida não citar a cada instante e em toda a oportunidade o nome do motorista ao lado do nome da vereadora, ambos assassinados. A propósito, uma crítica apropriada por alguns que buscam desqualificar as manifestações.

Uma justificativa recorrente é remeter aos sentimentos dos familiares do motorista e de tantos outros vitimados pela violência caótica na cidade do Rio de Janeiro. Na mesma linha argumentam os familiares de policiais também vitimados e cujas desgraças não despertam tantas emoções como foi o caso da vereadora.

Para mim não faz sentido tentar comparar as tragédias humanas que significaram essas duas mortes e as tantas outras. Ao mesmo tempo, entendo que o fato político é distinto da tragédia humana, embora não seja mais nem menos grave ou importante. Mas, é distinto. A enorme repercussão do fato se deu, infelizmente, por conta do simbolismo político da vereadora. Não fosse esse simbolismo ambas as mortes estariam contabilizadas como mais duas entre as tantas tragédias que ocorrem na cidade, e que, inclusive, já ocorreram após o duplo assassinato.

Não deveria estranhar que os apelos se façam em nome da morte da vereadora, mais do que em nome do motorista, pelo fato de se tratar de uma questão de comunicação, de amplificação dos canais de transmissão das informações para um maior alcance das denúncias. E será por esse canal de grande alcance e de maior capacidade que fluirão as denúncias do assassinato da própria vereadora, do motorista assassinado e de tantos outros casos que também decorreram dos embates que levaram aos assassinatos em pauta.

Ambas as vítimas terão os seus nomes clamados nas oportunidades que houver, mas será um estreitamento da visão não compreender que em outras situações as referências serão efetivamente simbólicas porque o símbolo carrega em seu conteúdo um conjunto enorme de informações e conceitos, e o símbolo, circunstancialmente é o nome da infeliz vereadora, não é o nome do também infeliz motorista.



#######


sexta-feira, 16 de março de 2018

Para Marielle e Anderson


Opinião
Impossível conter a emoção. Duas vidas que se foram. Tristeza e luto para os seus familiares, amigos e companheiros próximos de luta e militância. Mas, os assassinatos da vereadora carioca e do seu motorista também são uma lição para os demais militantes que partilhamos dos mesmos ideais de luta. É assim que o sistema reage quando sente que batemos forte. E não nos iludamos, só avançaremos batendo forte. Já está claro que, nesse processo, a apregoada democracia é o primeiro valor que a reação manda para o espaço e que a tentativa de eliminação política é ato recorrente. Mas, quando conseguimos levar a disputa para as ruas, num campo onde as máscaras já não disfarçam as intenções, então a coisa muda. A reação parte para a eliminação física. Foi isso que aconteceu com a companheira vereadora Marielle e, consequentemente, com o motorista Anderson cujo trabalho era realizar o seu trasnsporte.

A dor amanheceu em nossa porta. A enorme quantidade de pessoas que se concentrou em frente à Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro desde a manhã de hoje, 15/03/2018 e, mais tarde, em frente à Assembleia Legislativa atendeu com garra às palavras de ordem que apelavam os nomes de Marielle e  Anderson, mas também com grande dificuldade. Responder “Presente!” e “Sempre!” não foi simples, na medida em que muitos dos gritos de resposta foram embargados por choros contidos de integrantes de uma multidão visivelmente emocionada, apesar de coesa pelo desejo de transformar a nossa realidade.

Façamos desse fato uma reflexão sobre ocorrências similares pelo Brasil a fora e que, embora gravíssimas, não repercutem como os fatos do Rio de Janeiro, nem nos emociona tão fortemente, porque ocorrem distantes do nosso cotidiano, em ambientes que para nós são quase não lugares.

Outros companheiros tem sido assassinados em rincões do país onde enfrentam jagunços e milícias, quando não se deparam com a própria força policial estatal que realiza sem constrangimentos o papel de cães de guarda de sistemas corruptos. São muitos os casos onde trabalhadores são obrigados a assistir a degradação emocional, a tortura e até a eliminação física de outros que se destacam como líderes em suas reivindicações. Situações que, para nós, aparecem como fatos distantes, geralmente com narrativas filtradas por  editorias de jornais  que banalizam os acontecimentos. Devemos imaginar a dor daqueles companheiros como aquela que sentimos hoje.

O evento do Rio de Janeiro é uma lição. Nós estamos com a razão, embora sejamos vulneráveis, mas não estamos sós. A identificação política que se expressou, hoje, na Cinelândia e na Praça XV vai bem além do Rio de Janeiro, e deu mostras que há um núcleo de identificação política e cultural que pode nos permitir avançar para uma sociedade melhor. Mas, é preciso seguir em frente batendo forte e metendo os dedos nas feridas. Essa será a maior homenagem que poderemos prestar a esses tantos companheiros que sofreram duras penas por não se dobrarem e imporem os seus direitos e as suas reivindicações.

Companheiros militantes da liberdade e da solidariedade! Presentes! e Sempre!


#####

domingo, 11 de março de 2018

Ganhe o seu dia – leia Chomsky.

Opinião

Esse gigante político que marcou sua presença de forma indelével no século XX continua apaixonando os militantes da esquerda – eu entre eles. Quem quiser conferir veja a entrevista recente publicada no jornal El Pais em 10 de março, último: Noam Chomsky: “As pessoas já não acreditam nos fatos”.

Recentemente recebi uma charge com os dizeres “ Coxinha macho mesmo larga o apartamento e vai morar na favela. Lá tem tudo que ele adora: Estado mínimo e intervenção militar”. A charge soa como piada, mas vejam o pronunciamento do Chomsky:

P. Então o neoliberalismo triunfou?

R. O neoliberalismo existe, mas só para os pobres. O mercado livre é para eles, não para nós. Essa é a história do capitalismo. As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são autênticos marxistas, mas com os valores invertidos. Os princípios do livre mercado são ótimos para ser aplicados aos pobres, mas os muito ricos são protegidos. As grandes indústrias de energia recebem subvenções de centenas de milhões de dólares, a economia de alta tecnologia se beneficia das pesquisas públicas de décadas anteriores, as entidades financeiras obtêm ajuda maciça depois de afundar… Todas elas vivem com um seguro: são consideradas muito grandes para cair e são resgatadas se têm problemas. No fim das contas, os impostos servem para subvencionar essas entidades e com elas, os ricos e poderosos. Mas além disso se diz à população que o Estado é o problema e se reduz seu campo de ação. E o que ocorre? Seu espaço é ocupado pelo poder privado, e a tirania das grandes corporações fica cada vez maior.

E para aqueles que ainda olham estupefados a guinada para a direita ocorrida na ordem política brasileira pós-mandatos populares de Lula e Dilma, veja uma situação na pátria liberal, os EUA,  sob a óptica do Chomsky .

P. Acha possível que se repita o que ocorreu nos anos trinta?

R. A situação se deteriorou. Depois da eleição de Barack Obama se desencadeou uma reação racista de enorme virulência, com campanhas que negavam sua cidadania e identificavam o presidente negro com o anticristo. Houve muitas manifestações de ódio. No entanto, os EUA não são a República de Weimar [democracia alemã anterior ao nazismo]. Precisamos estar preocupados, mas as probabilidades de que se repita algo assim não são altas.

E por aí vai. Quem se interessar leia a entrevista, na íntegra, no link abaixo. Sugiro que o façam: 

<https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/06/cultura/1520352987_936609.html> -  Publicada em 10/03/2018  - Acesso em 11/03/2018.

#####