quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Nossa cara na foto

 Opinião

O modo capitalista de produção impõe uma estrutura de classes que estão em luta permanente, embora a nossa consciência coletiva ainda não tenha se dado conta da natureza dessa estrutura e dessa luta.  E por não compreender isso, não conseguimos ver que nossas necessidades mais importantes são necessidades comuns porque são necessidades da classe a qual pertencemos.

Sem essa compreensão, participamos da luta de classes empunhando bandeiras diversas e com objetivos que geralmente são setoriais e específicos. São bandeiras reais, importantes e de necessidades imediatas, mas que não têm a abrangência necessária para nos identificar como um corpo único no campo de lutas. Sem essa compreensão, pode até acontecer de muitos estarem combatendo entre si próprios.

Infelizmente, é assim que já estamos na batalha da disputa eleitoral nesse ano quando, além do poder político institucional, que é o objetivo básico das eleições nas democracias liberais, também estará em disputa uma definição institucional do perfil ideológico majoritário em nossa sociedade. A polarização é tão expressiva e está tão consolidada que, além da candidatura político-partidária, o voto de 2022 traduzirá também a nossa opção sobre valores políticos fundamentais da sociedade brasileira.

Certamente eu não ignoro os partidos políticos que se apresentam como alternativas para o dilema da escolha Lula versus Bozo, entretanto seria um equívoco sobrestimar o peso dessas alternativas na atual conjuntura.

As questões de gênero, sexo, raça, posição socioeconômica, religião, educação, censuras, violência policial, expressões artísticas, além de outras, que têm marcado debates recentes estarão, por força de circunstâncias, implicitamente em avaliação no próximo pleito eleitoral, como uma espécie de plesbicito subliminar,

As eleições não mudarão o Brasil real, elas não têm esse poder. A nossa sociedade continuará dinâmica, diversa, contraditória, carente e miserável. Mas, após as eleições a sociedade brasileira sairá com uma cara social institucional menos difusa e melhor retratada pelo voto. Isso mudará a foto da nossa cara na carteirinha do clube das sociedades mundiais. E nesse aspecto o país não será mais o mesmo.

A luta de classes prosseguirá porque nenhuma das escolhas que fizermos levará à destruição do modo capitalista de produção que prosseguirá no seu processo fundamental e autofágico: transformar tudo, incluindo a vida, em mercadoria. E aqueles cuja única mercadoria para a troca e garantia de subsistência é a sua força de trabalho continuarão explorados e constituídos em classe trabalhadora, mesmo que não tenham uma clara consciência do que isso significa.

A luta será mais difícil ainda se os eleitores endossarem o governo de caráter fascista que já está no poder, e a possibilidade de reversão parecerá uma barreira intransponível. Mas, o enfrentamento continuará porque o conflito de interesses de classes não é uma invenção da esquerda, ele é parte intrínseca do capitalismo. As organizações da esquerda, tomara, deverão continuar em seu papel de organizar e liderar os trabalhadores nessa luta que é de classes. #####

sábado, 11 de junho de 2022

Se aqui tá assim, imagine lá, na frente!

 

Opinião

Dia desses uma amiga disse: tudo está insuportável. De fato, compartilho, assim como outros companheiros, esse sentimento de “insuportabilidade”. Um cansaço e decepção grandes, um desânimo doentio que parece aumentar a cada fato da conjuntura sociopolítica que vivemos. 

No meu caso, tento buscar algo que dê conta dessas sensações na medida em que não consigo reverter as suas causas. Faço isso enquanto posso. 

Sei que parece presunção, mas ainda acredito que a minha resistência, nos termos minúsculos que consigo exerce-la, tem alguma importância na luta geral pelos valores que defendo, além, naturalmente, de ser fundamental para algum conforto, se não for para a minha saúde mental. 

Assim, tento manter-me conversando entre companheiros e também com outros que não o são. Questionando e contribuindo para a formulação de críticas e de questões dos interesses que valorizo; divulgando ideias; participando aqui e acolá nas oportunidades que aparecem, mesmo que apenas fazendo número com a presença; servindo como referência para outros que olham ao redor contando com a minha companhia; praticando ações de solidariedade  dentro das minhas possibilidades; dando concretude a uma massa de população que justifica o empenho de incontáveis companheiros em enfrentamentos diretos, e até com perdas de vidas, em nome dos valores sociais que defendemos. 

Quando penso em outros que sequer conheço e que estão nas verdadeiras frentes de luta, sinto-me na obrigação de manter o meu posto, ainda que ele seja de uma insignificante e confortável retaguarda. 

Se aqui está assim, imagine lá, na frente! Lá estão lutadores cuja maioria sequer teve a oportunidade de escolher estar ali. Foram tragados pela violência de um sistema que se apoia na discriminação e exploração social, além do extermínio dos inconvenientes. Lá as barbáries se multiplicam e quase se banalizam. 

Nos centros urbanos as comunidades pobres estão se formando como guetos, longe de qualquer amparo social e submetidas a todo tipo de mazelas e submissões. A lei é local dos grupos mais fortes. 

Acumulam-se miseráveis e famintos. Uns poucos sobrevivem. Ergue-se um país de entregadores. Massa de explorados e desprotegidos de legislações trabalhistas. Populações são violentadas diariamente. Alguns morrem em chacinas, algumas delas praticadas por agentes do Estado, “em nome da lei”. 

No campo, as grandes corporações intoxicam e envenenam indiscriminadamente ambientes e populações. Tudo em nome do agronegócio. As comunidades, cuja rebeldia nem chega a passar da denúncia, sofrem retaliações que incluem ameaças diretas, agressões, destruição de propriedades comuns, até escolas, e assassinatos de seus representantes. 

As riquezas construídas com o produto do trabalho da população são entregues às corporações privadas. São privatizadas. E as riquezas naturais são destruídas em nome dos interesses dessas mesmas corporações. 

Florestas e rios são apagados dos mapas e, com estes, os seus habitantes: fauna, flora e seres humanos. Os processos são diversificados. Os indígenas foram transformados em inimigos internos do país. Caçados, expurgados dos seus habitats e exterminados. 

Militantes e lideranças que fazem o enfrentamento direto denunciando e tentando organizar alguma resistência a esse caos civilizatório desaparecem. As situações são tratadas com naturalidade pelas autoridades. 

Esse é o cenário da frente de batalha. Lá estão os combatentes diretos. Acordam sem saber se terão o que se alimentar ou se retornarão às suas casas após um dia de lutas. É desanimador e dói muito. Quase intolerável. Mas, por doloroso e insuportável que seja esse estado de coisas, essa é justamente a razão pela qual não dá para desistir. Não dá para deixar a galera abandonada lá, na frente, onde o bicho está realmente pegando. ###

 

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Em cima daquele morro só não passa quem?

 Opinião

Não é o caso de se discutir a importância da disputa eleitoral para a presidência. Mas, a prioridade da batalha eleitoral Bozo x Lula não deveria ofuscar e, muito menos, esconder outras concomitantes e que não foram interrompidas. A privatização da Eletrobras é uma dessas disputas. Aliás, já saiu do pente e até da agulha o projétil seguinte. Já foi disparada a privatização da Petrobras. 

Se a pandemia deixou de ser o foco das atenções, as eleições presidenciais são a atração que a sucedeu desviando a atenção dos debates, enquanto as mesmas forças que leiloaram o Brasil nos governos tucanos dos anos 90 do século passado tentam passar a boiada da privatização da Eletrobras. 

O absurdo da privatização da Eletrobras extrapola todas as situações anteriores. Não se trata "apenas" da entrega de um patrimônio público de valor quase inestimável em troca de uma merreca. O processo segue seu rumo sustentado por legislação superpovoada de jabutis que visam beneficiar poderes políticos e empresariais sem quaisquer disfarces de seus objetivos. Não é o caso de detalhá-los aqui, mas são de assustar qualquer um que não seja parvo ou mal intencionado. Isso pode ser confirmado na leitura da própria legislação que regulamenta o processo e, até mesmo, e por incrível que pareça nas matérias publicadas na mídia tradicional. As análises mais consistentes fazem cair o queixo. 

Não bastasse isso, não existe uma linha sequer de projeção sobre qual e como será a política pública energética que orientará o setor sem a propriedade da Eletrobras pelo Estado. 

É isso mesmo! Não há nada – absolutamente nada – consistente sobre quais são os planos de governo ou políticas de Estado a vigorar no dia seguinte à privatização da Eletrobras. Como será o país após entregar para corporações privadas uma empresa que é, a rigor, o sistema que faz a integração dos sistemas elétricos em todo o território nacional e responsável por 30% da capacidade de geração e de 40% da rede de transmissão de energia elétrica do país. 

Voltamos aqui ao ponto inicial. Sem desconsiderar o embate eleitoral no qual já estamos imersos, vale perguntar: o conjunto de forças que representam a candidatura Lula, incluindo o próprio candidato, está dando a prioridade correta à questão da privatização da Eletrobras? 

Não faço juízo de valor das intenções porque não tenho, por ora, informações suficientes para tal. Contudo, não sou quadrado nem redondo, e vejo o que está ocorrendo como qualquer um interessado pode fazê-lo. A boiada da privatização da Eletrobras está passando diante dos nossos olhos, e a galera que dispõe dos berrantes, cordas, montarias e outros dispositivos que poderiam desviar e impedir esse estouro está deixando passar. A prioridade exclusiva parece ser a eleição para a presidência de um país ... sem a Eletrobras, quiçá sem a Petrobras.  

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terça-feira, 19 de abril de 2022

Anotações político-eleitorais de abril

Opinião 

Se nada extraordinário ocorrer no processo eleitoral 2022 até lá, o Brasil elegerá um congresso majoritariamente fisiológico, com alto grau de corrupção, conservador e até reacionário em costumes.

Com grande representação dos grupos patronais e financeiros e sem qualquer compromisso com as camadas carentes da população, nem com algum projeto de desenvolvimento nacional, qualquer que ele seja, branco, banco, bala, boi e bíblia continuarão sendo as representações parlamentares principais do simulacro de democracia brasileira.

A sequência de fatos que desembocou na destituição da Dilma, a subsequente prisão de Lula, a farsa da Lava-Jato, o inchaço de militares em boquinhas na administração pública federal, as tragédias provocadas pela ocupação de importantes cargos da administração federal por militares sem a competência para tal, além das recentes e constrangedoras denúncias sobre o uso de verbas militares – tudo isso desnudou por completo os corpos políticos das forças armadas e o do poder judiciário. Exibiu a verdadeira natureza dos chamados suportes dos governos democráticos. E isso não mudará em decorrência do processo eleitoral. 

Será com essas instituições que o presidente eleito governará, seja ele Bozo ou Lula.  A essa altura do campeonato, a disputa dificilmente incluirá outra terceira via com potencial eleitoral, além das que já estão apresentadas, seja ela de centro, direita ou até de esquerda.

Há, ainda, outro elemento, o principal: a população. Esse é um sujeito poderoso e dotado potencialmente de força política quase insuperável, mas infelizmente ainda inconsciente dela e ainda muito pouco organizado. O pouco avanço de iniciativas de organização fora das tradicionais organizações sindicais e partidárias, excluindo o MST, está entre aquelas que se aglutinam em torno das chamadas pautas identitárias.

Essas organizações expressam demandas que são aderentes àquelas das populações mais necessitadas, é verdade, mas isso se dá mais por uma decorrência natural e subjetiva do que por uma iniciativa política. A nossa precariedade socioeconômica é de tal ordem que a menor movimentação em prol de melhoria nas relações sociais identifica-se obrigatoriamente com uma necessidade básica da população carente.

As organizações e movimentos identitários, em grande parte das vezes, desconsideram a natureza classista da organização social, e essa prática esconde conflitos reais advindos das diferenças de classes e que existem até mesmo dentro das próprias organizações (assunto a ser desdobrado, embora não aqui).

As pesquisas até agora apontam chances razoáveis de uma vitória do Lula, mas esse quadro deverá ser alterado significativamente, contra o Lula, com o início da campanha oficial.  Aliás, é impressionante, mas já há sinais de recuperação do Bozo, por incrível que pareça, até nas avaliações sobre a sua gestão na pandemia. A vitória do Bozo é uma possibilidade real.

Se aprovado politicamente por uma vitória eleitoral, o ex-capitão boquirroto terá o caminho livre para prosseguir em suas práticas e tentativas de destruição do país. Sua vitória escancarará o país para a barbárie e para a derrubada das poucas barreiras de proteção e obstáculos que a organização social ainda conseguiu manter mesmo durante o seu primeiro mandato.

Os seus financiadores terão a oportunidade de aparar arestas e reorganizar condições de apropriação das riquezas públicas e entrega ao capital monopolista nacional e internacional, um projeto que foi frustrado por conta da própria incompetência da figura que elegeram para representá-los.

É claro que o país não acabará por conta disso. O Brasil é uma nação rica e com muitos recursos naturais, em que pese o pauperismo da sua população. Além do mais, a própria dinâmica da política cria oportunidades inusitadas de transformações que estão além das prospectivas dos mais competentes analistas.

A oposição ao governo e regime não será tarefa fácil, até porque as principais forças políticas atuais assumidas como oposição, ao implodirem as manifestações de rua sob a palavra de ordem "Fora Bozo!" e optarem por valorizar as articulações eleitorais, abriram mão de denunciar o caráter criminoso do governo em seu primeiro mandato.  Não terão autoridade política para contestar um governo eleito num processo que elas foram as primeiras a validar.

Ainda assim, apesar da imensa frustração, muitos prosseguiremos organizando ou praticando a oposição. Mesmo os que se sentirem abatidos e caírem em desânimo participarão de alguma forma porque atualmente não há como isolar-se politicamente. A vida urbana e até a vida rural mais afastada sempre estarão em permanente contato com o cotidiano da política.

Há, também, a possibilidade do Lula ganhar e não levar. Seria uma vitória eleitoral precedida de golpe. Essa possibilidade me intriga e, embora seja uma possibilidade de grandes chances, não consigo especular com alguma clareza sobre as possíveis decorrências desse fato.

Finalmente, havendo uma vitória do Lula, qualquer que seja o mérito que se der a ela, será entendida como uma vitória de oposição que governará em condições muito adversas: sem apoio parlamentar suficiente; contrariedade das mesmas corporações econômico-financeiras que derrubaram o governo Dilma em 2016; antagonismo dos militares; o país numa enorme crise econômica, incluindo o desemprego, inflação e ascensão de movimentos grevistas; uma máquina estatal corroída e quase destruída pelo governo Bozo; uma crise internacional imprevisível que inclui até uma guerra de proporções mundiais entre suas possibilidades. Barra pesada!

Estou entre os críticos da alternativa Lula. Tomara que esteja enganado, mas acho que o PT será uma decepção para os seus próprios militantes, especialmente se o nível de confronto com a direita exigir do partido uma resposta classista. Mas, essa é uma questão para os petistas,  não me cabe desenvolve-la,  cito apenas para marcar posição. Votarei na candidata Vera Lucia do PSTU, meu partido, uma candidatura declaradamente socialista e colocada como opção de voto para os trabalhadores.

Avalio  que a vontade e empenho dos militantes petistas, além da representação simbólica do partido estão mais à esquerda do que as opções e projetos políticos dos seus dirigentes atuais, e não é por outra razão que se dá a intolerância e o ódio antipetista. O PT é a principal  força de oposição eleitoral à situação política atual e, se houver segundo turno, salvo alguma situação que esteja em contradição com os meus princípios políticos, votarei na candidatura de oposição que provavelmente será o Lula.

Assim vejo o momento atual. Mais do que nunca, estou convencido da necessidade de estarmos de olho pregado na realidade. Será ela que apontará caminhos, e o que importará serão as escolhas que fizermos. 

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sexta-feira, 18 de março de 2022

Para ocupar a oficina do diabo (3)

 Opinião

 

Cabeça vazia, oficina do diabo. Claro e objetivo, como costumam ser os aforismos populares. Segue, então, sugestão para irmos ocupando essa oficina.

 

Para aqueles que gostam do tema Políticas de Telecom e Informática (TI), sugiro a leitura de uma matéria da revista Piauí - Edição 186, Março 2022, do jornalista Fernando Eichenberg, com o título " O guru do Datagrama - Como a França jogou no lixo a chance de inventar a internet" (link abaixo). 

A matéria é um tributo ao nonagenário engenheiro Louis Pouzin (1931) cujo nome, apesar do pioneirismo dos seus trabalhos na área de TI, não é considerado entre aqueles que hoje são chamados " pais da internet". Isso em decorrência das políticas adotadas pelos governos franceses em período histórico recente. 

Pouzin é reconhecido por suas iniciativas na criação de redes e na busca de uma redes de redes usando " datagramas puros". Os " datagramas" ou " pacote de dados" são formas de organizar as informações trocadas entre os terminais de uma rede de computadores. Uma rede de datagramas puros dispensa o uso de computadores intermediários para organizar essas informações, tarefa que é realizada nos próprios terminais da rede. 

Foi a partir do uso dos " datagramas puros" que se criou o mecanismo de  interconexões entre computadores diferentes: os chamados protocolos TCP/IP, suportes da atual internet. Os criadores desses protocolos, os engenheiros americanos Robert Kahn e Vinton Cerf, são identificados como os " pais da internet", mas o francês Louis Pouzin não recebeu esse crédito, embora tenha obtido outros importantes reconhecimentos por seus méritos. 

O interessante da matéria reproduzida na Piauí não são os aspectos tecnológicos, nem esse é o foco da matéria. Mas, um esboço do tipo linha do tempo de certas questões, disputas e decisões dos governos franceses que desconsideraram trabalhos, conduzidos por Pouzin, que já estavam em fases adiantadas e que até contribuíram para os estudos dos criadores do TCP/IP, como eles próprios explicitam em seus artigos científicos. Teria sido Vinton Cerf quem apelidou Pouzin de " guru dos datagramas". 

É surpreendente verificar os desacertos e contradições nas disputas de interesses e nas decisões dos governos de um país com um histórico  de valorização de políticas de longo prazo para o setor. O mesmo presidente Giscard D'Estaing que detonou os trabalhos que vinham sendo realizados por Pouzin, foi quem criou, em 1976, um grupo específico para " fazer progredir as reflexões sobre os meios de conduzir a informatização da sociedade", uma decisão importante que resultou no então famoso  Relatório Nora-Minc que foi referência de debates em diversos países (a matéria da Piauí não aborda o assunto do relatório Nora). 

Valorizo a matéria da Piauí porque ela estimula pensar sobre as situações e experiências aqui, no Brasil, especialmente nesses momentos em que andamos no vale das sombras da morte política. Não haverá vara ou cajado que nos console e nos faça avançar, se não for um comprometimento político que, nesse caso, significa buscar entender as questões de fundo sem se deixar inebriar pelas seduções dos avanços tecnológicos. 

Também não é o caso de se agasalhar na nostalgia do déjà vu. Ao contrário, os desafios renovam-se a cada dia, e essas reflexões devem ser um esforço para não deixarmos romper o frágil fio de possibilidades para o nosso país tão desgastado por sabotagens e boicotes de importantes iniciativas que nada ficariam a dever as de outros países, tanto em conteúdo como em capacitação e empenho dos seus formuladores. Os exemplos deixo-os para outras conversas, e para não desviar a atenção da matéria cuja leitura estou sugerindo.

 

Segue link para a matéria da Piauí: 

< https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-guru-do-datagrama/> - Acessado em 18/03/2022.

sábado, 5 de março de 2022

Para ocupar a oficina do diabo (2)

 Opinião

 

Cabeça vazia, oficina do diabo. Claro e objetivo, como costumam ser os aforismos populares. Segue, então, sugestão para irmos ocupando essa oficina. 


Quem seria doidão o suficiente para abonar informações advindas de cada um dos lados de opositores em uma guerra? Avançar por esse caminho no caso do conflito da invasão da Ucrânia pela Rússia certamente não é uma boa opção. De qualquer forma, as agências ocidentais de notícias já apontam centenas de casos de óbitos. O tempo afirmará a verdade. Uma vítima que fosse já justificaria todo e qualquer esforço para reverter o quadro. Mas, infelizmente, a realidade política das sociedades humanas não contempla essa avaliação. 

Estamos afogados em imagens, observações, opiniões e avaliações sobre a "guerra da Ucrânia". Para nós, uma guerra pela TV. Para mim, um revival das invasões ao Iraque lideradas pelo EUA em 1991 e 2003. Na primeira vez liderando uma coalizão internacional abonada pela ONU, e em 2003 quando os xerifes anglo-saxões (EUA e Inglaterra) simplesmente mandaram a ONU para a puta que a pariu, e destruíram o Iraque com o pretexto mentiroso que o país produzia e escondia armamento de destruição em massa. Foram 150 mil iraquianos mortos contra 50 ou 100 americanos. 

Essas guerras foram ou são justas? Quem inventou historia que existe guerra justa? Existe uma ética da guerra?

 Foi pensando nisso que achei oportuno resgatar e divulgar que tais questões foram o tema da aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em Bioética da Escola Nacional de Saúde da Fiocruz em setembro de 2017 proferida pelo cientista político e professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, José Luis Fiori. 

Já divulguei essa aula (link) em outras ocasiões para alguns colegas, mas repito o gesto pela oportunidade dos acontecimentos. A aula propriamente dita inicia no minuto 44:20. A parte preliminar até pode ser pulada, mas adianto que é ótima, onde o professor comenta alguns aspectos conjunturais e aqueles que o levaram a se interessar e aprofundar-se no estudo do tema. 

Para o professor Priori, a invasão do Iraque de 2003 determinou o fim de um universalismo ético que, bem ou mal, determinava uma ordem política internacional que mudou, assim como ratificou a intervenção da Rússia na Síria em 2015/2016, mas essas observações estão nas preliminares da aula. 

A aula faz um resgate histórico interessantíssimo mostrando a "guerra" como um fato recorrente e característico da formação social do homo sapiens; aborda qual teria sido a gênese do conceito de uma ética da guerra – guerra justa; e como as sociedades se organizaram adotando aqueles conceitos até o cenário atual, século XXI de organização geo-politica do mundo. 

Trata-se de um excelente resgate histórico feito por um pesquisador competente e consistente, super-reconhecido entre os seus pares. Não caberia aqui uma resenha, a aula fala por si. Arrisco dizer que afetará diretamente o seu olhar sobre os conflitos em que estamos imersos.

 

"José Luis Fiori abre Programa de Bioética da ENSP" – Aula inaugural em 01/09/2017 – Acesso em 28/02/2022 <https://www.youtube.com/watch?v=8b4yOwi4JFg&t=2707s>

sexta-feira, 4 de março de 2022

O cogumelo e a rosa

 Leituras para distrair

Sei bem pouco de outros da minha geração sobre as lembranças dos tempos da Guerra Fria. Os acontecimentos correntes fizeram-me ver que nunca conversei muito sobre isso, e também que algumas lembranças ficaram. 

As lembranças mais nítidas são dos testes atômicos que eram realizados pelos Estados Unidos (EUA) e pela União Soviética (URSS) em regiões relativamente isoladas do mundo. 

Não tínhamos acesso à TV e as notícias chegavam por jornais e rádio. Sabíamos mais dos testes nucleares americanos, e os jornais publicavam imagens do pavoroso "cogumelo atômico", sempre com ameaças da possibilidade de uma merda daquelas explodir sobre nossas cabeças a qualquer momento. A figura lírica da "Rosa de Hiroshima" foi criada pelo Vinícius em 1946, logo após as bombas em Hiroshima e Nagasaki, mas só viria a ser popularizada nos anos 70 com o Ney Matogrosso. Naquela época, o terror era o tal cogumelo. 

Outra lembrança marcante, essa de um fato mais específico, foi a da "crise dos mísseis em Cuba", quando os EUA impuseram um bloqueio naval para impedir a chegada de uma frota soviética que estava a caminho da ilha com materiais para a construção de uma base de mísseis. 

Após a invasão frustrada dos EUA à ilha de Cuba (Baia dos Porcos), o governo da ilha tratou com a URSS a instalação de uma base de mísseis balísticos, praticamente no quintal dos EUA. Para os americanos a autodeterminação do povo cubano era uma ameaça ao seu território, e bloquearam o acesso à ilha enquanto para lá se dirigiam navios soviéticos, e o impasse chegou ao limiar de um conflito nuclear (qualquer coisa parecida com a crise atual envolvendo Ucrânia, OTAN (leia-se EUA) e Rússia não será coincidência). 

Foram dias de grande pavor, acho que para o mundo. Ainda crianças não compreendíamos o que estava ocorrendo. Ouvíamos sobre o risco de uma tal guerra atômica e destruição total do mundo. No meu caso, decorávamos os afluentes do rio Amazonas, mas sem qualquer visão sobre geografia política. Mal sabia sobre o Peru onde nascia o rio Amazonas, e muito menos sobre os Estados Unidos, União Soviética ou Cuba. 

A minha iniciante escolarização de ginasial já estava além da precária escolarização primária dos meus pais, desse modo não havia muita informação em casa. Lembro-me de um professor que, sem muito sucesso, esforçou-se em traduzir para a nossa turma de escola sobre o que estava ocorrendo. 

Hoje percebo que em minha imaginação infantil não tinha sequer noção sobre escala de tempo. Na crise dos mísseis, as bombas de Hiroshima e Nagasaki tinham explodido sobre os japoneses a menos de 20 anos, precisamente 17 anos se contabilizarmos o período de 1945 até 1962. Para os adultos da minha infância tinha sido "ontem".  

Para uma melhor comparação: o 11 de setembro 2001, derrubada das torres gêmeas do WTC, já está mais distante para nós do que a distância em tempo entre a bomba sobre Hiroshima e a crise dos mísseis de Cuba para os nossos pais. Fico tentando imaginar como deve ter sido angustiante para a galera daquela geração (nossos pais) a ameaça de um conflito atômico no qual todos iriam se fuder, e sem qualquer chance de reagir. O conflito OTAN – Rússia - Ucrânia parece estar trazendo de volta esse tipo de pesadelo. 

É claro que a guerra não é uma novidade na história da humanidade. Ela é o limite da política que, por sua vez, reflete uma luta entre as classes sociais. Mas, é foda quando sabemos a classe dominante, visando manter o seu status, está sacrificando até a continuidade da espécie, destruindo o seu suporte ecológico. Nessas condições, uma autodestruição imediata, atômica, já não parece tão absurda. 

A idade afasta de mim o que seria um natural medo da morte – cago pra ela. Mas, entristece-me a ideia que os meus netos, já obrigados a viver com as restrições de condições ambientais do planeta, tenham também que crescer e conviver com essa porra dessa ameaça. Penso bastante nisso. Tomara que tudo não passe de apreensões infundadas de um vovô velhinho e superprotetor.  

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quarta-feira, 2 de março de 2022

Para ocupar a oficina do diabo

 

Opinião

 

Cabeça vazia, oficina do diabo. Claro e objetivo, como costumam ser os aforismos populares. Segue, então, sugestão para irmos ocupando essa oficina.

 

Muito interessante e de agradável leitura o artigo "Poder e desenvolvimento – os ponteiros do mundo" dos professores Jose Luis Fiori e William Nozak. Um ótimo antídoto de bolso para quem se vê obrigado a tratar com o blá, blá, blá das aporrinhantes figuras que fazem coro com o discurso jeguista ou guedista do "vender tudo". São os que enchem a boca arrogando-se como liberais e defensores da presença zero do Estado no desenvolvimento do país. Acho que esse bate-boca, recorrente, retomará fôlego nos espaços da iminente disputa eleitoral.

Os professores apontam aspectos fundamentais da história do desenvolvimento econômico moderno e também da economia clássica que ficam sempre escondidos na narrativa liberal. A partir daí, comentam sobre o momento atual, quando o Brasil entra em um processo de autodestruição, segundo eles análogo ao da Rússia dos anos 1990.

As políticas liberais que alguns tentam fazer dominantes no Brasil contrapõem-se àquelas dos próprios Estados Unidos, a potência líder do mundo liberal, que voltou a adotar – de forma explícita e declarada – o nacionalismo econômico da Alemanha do século XIX, da Rússia do século XX e da China do século XXI.

Os EUA, exemplificam os professores, apostam em medidas de intervenção estatal que chegam até a superar aquelas adotadas para a recuperação da crise de 1929 (o antigo New Deal). Mas, também a China, com projetos estatais que buscam consolidar o protagonismo da sua estrutura produtiva na quarta revolução industrial (indústria 4.0); França e Alemanha formam alianças visando acelerar o desenvolvimento industrial em parte da Europa, além da Rússia com aposta estatal na expansão da infraestrutura de gás e logística.

Nas palavras dos professores, tudo isso para escândalo dos economistas liberais, da elite financeira e dos generais brasileiros, que, atrasados, insistem em manter o Brasil na contramão dos ponteiros do mundo. Sugiro a leitura.

 

Publicado no site A Terra é redonda, em 05/02/2022 – Acesso em 25/02/2022

https://aterraeredonda.com.br/poder-e-desenvolvimento-os-ponteiros-do-mundo/

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Tempo de fezes

 Opinião

O Bozo é um dos tantos tropeços infelizes da história política brasileira. É óbvio que ele não surgiu do nada, mas, no frigir dos ovos, foi uma escolha ruim do eleitorado cujos efeitos maléficos sofremos. Alguns de longa duração e outros irreversíveis. 

Apesar disso, eu não preciso, felizmente, compartilhar relações pessoais com o Bozo. Não topo com ele nas calçadas onde caminho, nem nos buracos que frequento. Já com os bozominions não funciona assim. Não tenho como apagá-los das minhas relações, ainda que eu queira, porque compartilhamos ambientes em nossos cotidianos. 

Estou consciente que preciso de alguma dose de tolerância. Afinal, nem todos os bozominions são ideológicos. Há iludidos, alienados, e não plenamente convictos. Além do mais, o Bozo é apenas um entre outros instrumentos de um sistema que eu combato para superar. Esse sistema se credencia sugestionando certos valores e práticas de relações sociais que precisam ser questionados e desfeitos. E isso só será possível com discussões e com o convencimento de valores e propostas alternativas. Trata-se de uma disputa que não têm origem no Bozo, e o contato com os bozominions iludidos é imperativo, não tem outro jeito. 

Mas, no caso do bozominion ideológico, para mim a aproximação é impossível. Quando sinto o fedor agressivo de um ambiente qualquer, uma rua ou calçada esmerdalhada, instintivamente busco algo que sirva de máscara, tentando filtrar o fator nauseante, na expectativa que o desconforto será temporário. Ocorre que o fedor que o bozominion ideológico irradia é algo de outra natureza, é infiltrável. Parece que o sujeito recebeu uma overdose de mercaptano, aquele produto com cheiro de merda que misturam com o gás de cozinha para que se perceba um eventual vazamento. É insuportável. 

"Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça.O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera." (Carlos Drumond de Andrade – A Flor e a Náusea) 

Tempo de fezes! Drumond deve ter pressentido a proximidade de algum bozominion ideológico. Eles já estavam por aqui. No meu caso, sequer consigo apontar quais emoções ou sentidos sinto mais agredidos. Em minhas limitações, aferro-me à esperança do poeta. Quem sabe nascerá uma flor furando "o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio".

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sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Paladino – passando e contando o tempo.

 

Leituras para distrair

Aniversários de nascimento são eventos de simbolismo muito forte em nossa cultura. São várias as formas de celebrações, assim como as reações emocionais dos aniversariantes, mas nunca somos indiferentes às datas que marcam a passagem das nossas vidas intrauterinas para a realidade social.

Tenho pensado no simbolismo dessas datas para os pais dos aniversariantes. O nascimento de um filho é um marco indelével na vida dos pais, não importa a situação da relação amorosa que deu origem ao nascimento. Também para os pais é dia de pensar e refletir: sobre o fato, as circunstâncias, sobre como era o olhar para o mundo na ocasião, as expectativas, os planos e a realidade atual, entre outros. São reflexões que acompanham os pais por todas as suas vidas e são distintas das reações e sentimentos dos filhos aniversariantes.

Acho que, via de regra, essas distinções não são percebidas, e país e filhos reagem como se a data tivesse o mesmo simbolismo para ambos. O nascimento de um ser – e os seus aniversários - tem significados diferentes para o nascido e para os seus pais, ainda que compartilhem relações sociais e afetivas ao longo de suas vidas.

Os aniversários dos meus filhos são também celebrações minhas, mas sem compromissos com as reações de cada um deles possa ter em suas datas natalícias. Tomara que sejam felizes, parabéns para eles e blá, blá, blá, mas as minhas celebrações são outras.  Faço minhas revisões, autocríticas, considero  os sucessos e insucessos dos planos, as novas perspectivas e, obviamente, sempre que possível, beberico uma cachaça, ritual do qual não abro mão.

A atenção sobre esses detalhes é recente para mim. Não me lembro de alguma vez ter celebrado com amigos, sob essa óptica, as datas do aniversários de nossos filhos, embora possivelmente tenhamos comemorado juntos os mijos dos bebês e conversado sobre o marco daqueles eventos em nossas vidas. Nem mesmo nas posteriores festinhas de crianças (geralmente chatas pra cacete) tratamos esse assunto.

Claro que essas divagações de pensamentos são de importância descartável em meio a tantas questões de maior valor para tratar. Mas, a velhice é assim! As divagações se desculpam por sua própria natureza. Caduquices!

 Celebrava sozinho o aniversário de um filho no Paladino, boteco tradicional no centro do Rio de Janeiro, e me dei conta que a celebração era efetivamente minha. Pensava sobre esse complicado ano terceiro da pandemia, lembrando que muitas vezes ainda me refiro como "meninos" aos filhos que já contam mais de 40 anos e que até já me deram netinhos. Aproveitei e registrei essas notas enquanto saboreava uma fritada de sardinha nacional, uma cachaça Magnífica e um chope. Pensei comigo: parabéns aos meus amigos por seus filhos!