sexta-feira, 18 de março de 2022

Para ocupar a oficina do diabo (3)

 Opinião

 

Cabeça vazia, oficina do diabo. Claro e objetivo, como costumam ser os aforismos populares. Segue, então, sugestão para irmos ocupando essa oficina.

 

Para aqueles que gostam do tema Políticas de Telecom e Informática (TI), sugiro a leitura de uma matéria da revista Piauí - Edição 186, Março 2022, do jornalista Fernando Eichenberg, com o título " O guru do Datagrama - Como a França jogou no lixo a chance de inventar a internet" (link abaixo). 

A matéria é um tributo ao nonagenário engenheiro Louis Pouzin (1931) cujo nome, apesar do pioneirismo dos seus trabalhos na área de TI, não é considerado entre aqueles que hoje são chamados " pais da internet". Isso em decorrência das políticas adotadas pelos governos franceses em período histórico recente. 

Pouzin é reconhecido por suas iniciativas na criação de redes e na busca de uma redes de redes usando " datagramas puros". Os " datagramas" ou " pacote de dados" são formas de organizar as informações trocadas entre os terminais de uma rede de computadores. Uma rede de datagramas puros dispensa o uso de computadores intermediários para organizar essas informações, tarefa que é realizada nos próprios terminais da rede. 

Foi a partir do uso dos " datagramas puros" que se criou o mecanismo de  interconexões entre computadores diferentes: os chamados protocolos TCP/IP, suportes da atual internet. Os criadores desses protocolos, os engenheiros americanos Robert Kahn e Vinton Cerf, são identificados como os " pais da internet", mas o francês Louis Pouzin não recebeu esse crédito, embora tenha obtido outros importantes reconhecimentos por seus méritos. 

O interessante da matéria reproduzida na Piauí não são os aspectos tecnológicos, nem esse é o foco da matéria. Mas, um esboço do tipo linha do tempo de certas questões, disputas e decisões dos governos franceses que desconsideraram trabalhos, conduzidos por Pouzin, que já estavam em fases adiantadas e que até contribuíram para os estudos dos criadores do TCP/IP, como eles próprios explicitam em seus artigos científicos. Teria sido Vinton Cerf quem apelidou Pouzin de " guru dos datagramas". 

É surpreendente verificar os desacertos e contradições nas disputas de interesses e nas decisões dos governos de um país com um histórico  de valorização de políticas de longo prazo para o setor. O mesmo presidente Giscard D'Estaing que detonou os trabalhos que vinham sendo realizados por Pouzin, foi quem criou, em 1976, um grupo específico para " fazer progredir as reflexões sobre os meios de conduzir a informatização da sociedade", uma decisão importante que resultou no então famoso  Relatório Nora-Minc que foi referência de debates em diversos países (a matéria da Piauí não aborda o assunto do relatório Nora). 

Valorizo a matéria da Piauí porque ela estimula pensar sobre as situações e experiências aqui, no Brasil, especialmente nesses momentos em que andamos no vale das sombras da morte política. Não haverá vara ou cajado que nos console e nos faça avançar, se não for um comprometimento político que, nesse caso, significa buscar entender as questões de fundo sem se deixar inebriar pelas seduções dos avanços tecnológicos. 

Também não é o caso de se agasalhar na nostalgia do déjà vu. Ao contrário, os desafios renovam-se a cada dia, e essas reflexões devem ser um esforço para não deixarmos romper o frágil fio de possibilidades para o nosso país tão desgastado por sabotagens e boicotes de importantes iniciativas que nada ficariam a dever as de outros países, tanto em conteúdo como em capacitação e empenho dos seus formuladores. Os exemplos deixo-os para outras conversas, e para não desviar a atenção da matéria cuja leitura estou sugerindo.

 

Segue link para a matéria da Piauí: 

< https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-guru-do-datagrama/> - Acessado em 18/03/2022.

sábado, 5 de março de 2022

Para ocupar a oficina do diabo (2)

 Opinião

 

Cabeça vazia, oficina do diabo. Claro e objetivo, como costumam ser os aforismos populares. Segue, então, sugestão para irmos ocupando essa oficina. 


Quem seria doidão o suficiente para abonar informações advindas de cada um dos lados de opositores em uma guerra? Avançar por esse caminho no caso do conflito da invasão da Ucrânia pela Rússia certamente não é uma boa opção. De qualquer forma, as agências ocidentais de notícias já apontam centenas de casos de óbitos. O tempo afirmará a verdade. Uma vítima que fosse já justificaria todo e qualquer esforço para reverter o quadro. Mas, infelizmente, a realidade política das sociedades humanas não contempla essa avaliação. 

Estamos afogados em imagens, observações, opiniões e avaliações sobre a "guerra da Ucrânia". Para nós, uma guerra pela TV. Para mim, um revival das invasões ao Iraque lideradas pelo EUA em 1991 e 2003. Na primeira vez liderando uma coalizão internacional abonada pela ONU, e em 2003 quando os xerifes anglo-saxões (EUA e Inglaterra) simplesmente mandaram a ONU para a puta que a pariu, e destruíram o Iraque com o pretexto mentiroso que o país produzia e escondia armamento de destruição em massa. Foram 150 mil iraquianos mortos contra 50 ou 100 americanos. 

Essas guerras foram ou são justas? Quem inventou historia que existe guerra justa? Existe uma ética da guerra?

 Foi pensando nisso que achei oportuno resgatar e divulgar que tais questões foram o tema da aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em Bioética da Escola Nacional de Saúde da Fiocruz em setembro de 2017 proferida pelo cientista político e professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, José Luis Fiori. 

Já divulguei essa aula (link) em outras ocasiões para alguns colegas, mas repito o gesto pela oportunidade dos acontecimentos. A aula propriamente dita inicia no minuto 44:20. A parte preliminar até pode ser pulada, mas adianto que é ótima, onde o professor comenta alguns aspectos conjunturais e aqueles que o levaram a se interessar e aprofundar-se no estudo do tema. 

Para o professor Priori, a invasão do Iraque de 2003 determinou o fim de um universalismo ético que, bem ou mal, determinava uma ordem política internacional que mudou, assim como ratificou a intervenção da Rússia na Síria em 2015/2016, mas essas observações estão nas preliminares da aula. 

A aula faz um resgate histórico interessantíssimo mostrando a "guerra" como um fato recorrente e característico da formação social do homo sapiens; aborda qual teria sido a gênese do conceito de uma ética da guerra – guerra justa; e como as sociedades se organizaram adotando aqueles conceitos até o cenário atual, século XXI de organização geo-politica do mundo. 

Trata-se de um excelente resgate histórico feito por um pesquisador competente e consistente, super-reconhecido entre os seus pares. Não caberia aqui uma resenha, a aula fala por si. Arrisco dizer que afetará diretamente o seu olhar sobre os conflitos em que estamos imersos.

 

"José Luis Fiori abre Programa de Bioética da ENSP" – Aula inaugural em 01/09/2017 – Acesso em 28/02/2022 <https://www.youtube.com/watch?v=8b4yOwi4JFg&t=2707s>

sexta-feira, 4 de março de 2022

O cogumelo e a rosa

 Leituras para distrair

Sei bem pouco de outros da minha geração sobre as lembranças dos tempos da Guerra Fria. Os acontecimentos correntes fizeram-me ver que nunca conversei muito sobre isso, e também que algumas lembranças ficaram. 

As lembranças mais nítidas são dos testes atômicos que eram realizados pelos Estados Unidos (EUA) e pela União Soviética (URSS) em regiões relativamente isoladas do mundo. 

Não tínhamos acesso à TV e as notícias chegavam por jornais e rádio. Sabíamos mais dos testes nucleares americanos, e os jornais publicavam imagens do pavoroso "cogumelo atômico", sempre com ameaças da possibilidade de uma merda daquelas explodir sobre nossas cabeças a qualquer momento. A figura lírica da "Rosa de Hiroshima" foi criada pelo Vinícius em 1946, logo após as bombas em Hiroshima e Nagasaki, mas só viria a ser popularizada nos anos 70 com o Ney Matogrosso. Naquela época, o terror era o tal cogumelo. 

Outra lembrança marcante, essa de um fato mais específico, foi a da "crise dos mísseis em Cuba", quando os EUA impuseram um bloqueio naval para impedir a chegada de uma frota soviética que estava a caminho da ilha com materiais para a construção de uma base de mísseis. 

Após a invasão frustrada dos EUA à ilha de Cuba (Baia dos Porcos), o governo da ilha tratou com a URSS a instalação de uma base de mísseis balísticos, praticamente no quintal dos EUA. Para os americanos a autodeterminação do povo cubano era uma ameaça ao seu território, e bloquearam o acesso à ilha enquanto para lá se dirigiam navios soviéticos, e o impasse chegou ao limiar de um conflito nuclear (qualquer coisa parecida com a crise atual envolvendo Ucrânia, OTAN (leia-se EUA) e Rússia não será coincidência). 

Foram dias de grande pavor, acho que para o mundo. Ainda crianças não compreendíamos o que estava ocorrendo. Ouvíamos sobre o risco de uma tal guerra atômica e destruição total do mundo. No meu caso, decorávamos os afluentes do rio Amazonas, mas sem qualquer visão sobre geografia política. Mal sabia sobre o Peru onde nascia o rio Amazonas, e muito menos sobre os Estados Unidos, União Soviética ou Cuba. 

A minha iniciante escolarização de ginasial já estava além da precária escolarização primária dos meus pais, desse modo não havia muita informação em casa. Lembro-me de um professor que, sem muito sucesso, esforçou-se em traduzir para a nossa turma de escola sobre o que estava ocorrendo. 

Hoje percebo que em minha imaginação infantil não tinha sequer noção sobre escala de tempo. Na crise dos mísseis, as bombas de Hiroshima e Nagasaki tinham explodido sobre os japoneses a menos de 20 anos, precisamente 17 anos se contabilizarmos o período de 1945 até 1962. Para os adultos da minha infância tinha sido "ontem".  

Para uma melhor comparação: o 11 de setembro 2001, derrubada das torres gêmeas do WTC, já está mais distante para nós do que a distância em tempo entre a bomba sobre Hiroshima e a crise dos mísseis de Cuba para os nossos pais. Fico tentando imaginar como deve ter sido angustiante para a galera daquela geração (nossos pais) a ameaça de um conflito atômico no qual todos iriam se fuder, e sem qualquer chance de reagir. O conflito OTAN – Rússia - Ucrânia parece estar trazendo de volta esse tipo de pesadelo. 

É claro que a guerra não é uma novidade na história da humanidade. Ela é o limite da política que, por sua vez, reflete uma luta entre as classes sociais. Mas, é foda quando sabemos a classe dominante, visando manter o seu status, está sacrificando até a continuidade da espécie, destruindo o seu suporte ecológico. Nessas condições, uma autodestruição imediata, atômica, já não parece tão absurda. 

A idade afasta de mim o que seria um natural medo da morte – cago pra ela. Mas, entristece-me a ideia que os meus netos, já obrigados a viver com as restrições de condições ambientais do planeta, tenham também que crescer e conviver com essa porra dessa ameaça. Penso bastante nisso. Tomara que tudo não passe de apreensões infundadas de um vovô velhinho e superprotetor.  

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quarta-feira, 2 de março de 2022

Para ocupar a oficina do diabo

 

Opinião

 

Cabeça vazia, oficina do diabo. Claro e objetivo, como costumam ser os aforismos populares. Segue, então, sugestão para irmos ocupando essa oficina.

 

Muito interessante e de agradável leitura o artigo "Poder e desenvolvimento – os ponteiros do mundo" dos professores Jose Luis Fiori e William Nozak. Um ótimo antídoto de bolso para quem se vê obrigado a tratar com o blá, blá, blá das aporrinhantes figuras que fazem coro com o discurso jeguista ou guedista do "vender tudo". São os que enchem a boca arrogando-se como liberais e defensores da presença zero do Estado no desenvolvimento do país. Acho que esse bate-boca, recorrente, retomará fôlego nos espaços da iminente disputa eleitoral.

Os professores apontam aspectos fundamentais da história do desenvolvimento econômico moderno e também da economia clássica que ficam sempre escondidos na narrativa liberal. A partir daí, comentam sobre o momento atual, quando o Brasil entra em um processo de autodestruição, segundo eles análogo ao da Rússia dos anos 1990.

As políticas liberais que alguns tentam fazer dominantes no Brasil contrapõem-se àquelas dos próprios Estados Unidos, a potência líder do mundo liberal, que voltou a adotar – de forma explícita e declarada – o nacionalismo econômico da Alemanha do século XIX, da Rússia do século XX e da China do século XXI.

Os EUA, exemplificam os professores, apostam em medidas de intervenção estatal que chegam até a superar aquelas adotadas para a recuperação da crise de 1929 (o antigo New Deal). Mas, também a China, com projetos estatais que buscam consolidar o protagonismo da sua estrutura produtiva na quarta revolução industrial (indústria 4.0); França e Alemanha formam alianças visando acelerar o desenvolvimento industrial em parte da Europa, além da Rússia com aposta estatal na expansão da infraestrutura de gás e logística.

Nas palavras dos professores, tudo isso para escândalo dos economistas liberais, da elite financeira e dos generais brasileiros, que, atrasados, insistem em manter o Brasil na contramão dos ponteiros do mundo. Sugiro a leitura.

 

Publicado no site A Terra é redonda, em 05/02/2022 – Acesso em 25/02/2022

https://aterraeredonda.com.br/poder-e-desenvolvimento-os-ponteiros-do-mundo/

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Tempo de fezes

 Opinião

O Bozo é um dos tantos tropeços infelizes da história política brasileira. É óbvio que ele não surgiu do nada, mas, no frigir dos ovos, foi uma escolha ruim do eleitorado cujos efeitos maléficos sofremos. Alguns de longa duração e outros irreversíveis. 

Apesar disso, eu não preciso, felizmente, compartilhar relações pessoais com o Bozo. Não topo com ele nas calçadas onde caminho, nem nos buracos que frequento. Já com os bozominions não funciona assim. Não tenho como apagá-los das minhas relações, ainda que eu queira, porque compartilhamos ambientes em nossos cotidianos. 

Estou consciente que preciso de alguma dose de tolerância. Afinal, nem todos os bozominions são ideológicos. Há iludidos, alienados, e não plenamente convictos. Além do mais, o Bozo é apenas um entre outros instrumentos de um sistema que eu combato para superar. Esse sistema se credencia sugestionando certos valores e práticas de relações sociais que precisam ser questionados e desfeitos. E isso só será possível com discussões e com o convencimento de valores e propostas alternativas. Trata-se de uma disputa que não têm origem no Bozo, e o contato com os bozominions iludidos é imperativo, não tem outro jeito. 

Mas, no caso do bozominion ideológico, para mim a aproximação é impossível. Quando sinto o fedor agressivo de um ambiente qualquer, uma rua ou calçada esmerdalhada, instintivamente busco algo que sirva de máscara, tentando filtrar o fator nauseante, na expectativa que o desconforto será temporário. Ocorre que o fedor que o bozominion ideológico irradia é algo de outra natureza, é infiltrável. Parece que o sujeito recebeu uma overdose de mercaptano, aquele produto com cheiro de merda que misturam com o gás de cozinha para que se perceba um eventual vazamento. É insuportável. 

"Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça.O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera." (Carlos Drumond de Andrade – A Flor e a Náusea) 

Tempo de fezes! Drumond deve ter pressentido a proximidade de algum bozominion ideológico. Eles já estavam por aqui. No meu caso, sequer consigo apontar quais emoções ou sentidos sinto mais agredidos. Em minhas limitações, aferro-me à esperança do poeta. Quem sabe nascerá uma flor furando "o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio".

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sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Paladino – passando e contando o tempo.

 

Leituras para distrair

Aniversários de nascimento são eventos de simbolismo muito forte em nossa cultura. São várias as formas de celebrações, assim como as reações emocionais dos aniversariantes, mas nunca somos indiferentes às datas que marcam a passagem das nossas vidas intrauterinas para a realidade social.

Tenho pensado no simbolismo dessas datas para os pais dos aniversariantes. O nascimento de um filho é um marco indelével na vida dos pais, não importa a situação da relação amorosa que deu origem ao nascimento. Também para os pais é dia de pensar e refletir: sobre o fato, as circunstâncias, sobre como era o olhar para o mundo na ocasião, as expectativas, os planos e a realidade atual, entre outros. São reflexões que acompanham os pais por todas as suas vidas e são distintas das reações e sentimentos dos filhos aniversariantes.

Acho que, via de regra, essas distinções não são percebidas, e país e filhos reagem como se a data tivesse o mesmo simbolismo para ambos. O nascimento de um ser – e os seus aniversários - tem significados diferentes para o nascido e para os seus pais, ainda que compartilhem relações sociais e afetivas ao longo de suas vidas.

Os aniversários dos meus filhos são também celebrações minhas, mas sem compromissos com as reações de cada um deles possa ter em suas datas natalícias. Tomara que sejam felizes, parabéns para eles e blá, blá, blá, mas as minhas celebrações são outras.  Faço minhas revisões, autocríticas, considero  os sucessos e insucessos dos planos, as novas perspectivas e, obviamente, sempre que possível, beberico uma cachaça, ritual do qual não abro mão.

A atenção sobre esses detalhes é recente para mim. Não me lembro de alguma vez ter celebrado com amigos, sob essa óptica, as datas do aniversários de nossos filhos, embora possivelmente tenhamos comemorado juntos os mijos dos bebês e conversado sobre o marco daqueles eventos em nossas vidas. Nem mesmo nas posteriores festinhas de crianças (geralmente chatas pra cacete) tratamos esse assunto.

Claro que essas divagações de pensamentos são de importância descartável em meio a tantas questões de maior valor para tratar. Mas, a velhice é assim! As divagações se desculpam por sua própria natureza. Caduquices!

 Celebrava sozinho o aniversário de um filho no Paladino, boteco tradicional no centro do Rio de Janeiro, e me dei conta que a celebração era efetivamente minha. Pensava sobre esse complicado ano terceiro da pandemia, lembrando que muitas vezes ainda me refiro como "meninos" aos filhos que já contam mais de 40 anos e que até já me deram netinhos. Aproveitei e registrei essas notas enquanto saboreava uma fritada de sardinha nacional, uma cachaça Magnífica e um chope. Pensei comigo: parabéns aos meus amigos por seus filhos!




domingo, 23 de janeiro de 2022

Elza Soares

Leituras para distrair 

Não estou entre os admiradores da Elza Soares cantora. Longe de negar seus atributos artísticos, apenas nunca me encantaram. Minha referência sempre foi a de uma artista popular de sucesso em minha infância, e com características próprias nas suas interpretações. Foi bem tarde, após 1995, e ainda sem me incluir na galeria de seus fãs, que me interessei pela personagem Elza Soares.

Em 1995, o jornalista Ruy Castro publicou o livro "Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha" (Companhia das Letras). Não gosto de futebol, mas sempre me impressionei com o mito Garrincha, e a leitura de sua biografia, numa época em que eu viajava bastante, foi uma distração. Pequeno mergulho num trecho da história desse esporte que afeta culturalmente qualquer brasileiro, mesmo os que cagam e andam para ele, como é o meu caso.

O livro é interessantíssimo, tanto pelo personagem e sua história, como pela narrativa do autor, um dos tantos trabalhos brilhantes do Ruy Castro. Trata-se de uma obra que está bem além de ser exclusiva para os amantes do futebol.

Foi lendo a biografia do Garrincha que soube do papel da Elza Soares na vida desse mito nacional e, consequentemente, do caráter especial dessa personagem. Uma surpresa que talvez tenha me impactado mais do que o personagem biografado. A partir de então, todas as vezes que em conversas surgiu o nome do jogador ou da cantora, resgatei as minhas leituras da biografia do Garrincha e da figura especial da Elza Soares.

A carreira longeva e os seus méritos artísticos – e agora o seu falecimento -  fizeram com que a história de vida da Elza Soares tenha sido resgatada com bastante divulgação. Contudo, ainda assim guardo comigo o destaque de figura humana que foi recuperado pelo Ruy Castro. A admiração pelo mito Garrincha é quase uma unanimidade nacional e seria muito legal se os seus admiradores conhecessem o papel da artista na história do deus de pernas tortas. Quem sabe, não passaria de um alcoólatra decaído e esquecido, se uma Elza Soares não tivesse existido em sua vida.

Minhas preferências artísticas não mudaram, e cada vez gosto menos de futebol, mas a admiração pela Elza Soares ficou. ###

sábado, 15 de janeiro de 2022

Houve uma época em que o mundo parecia simples

Leituras para distrair

 

Achei esse texto legal e copiei para compartilhar. Gosto muito do autor e lembrei-me de um monte de gente que guardou da física a imagem daquela disciplina obrigatória e aporrinhante do ensino médio. 

 

Houve uma época em que o mundo parecia simples

Autor: Carlo Rovelli [1]

 Na época em que Dante escrevia, pensávamos o mundo na Europa como espelho embaçado de uma grande hierarquia celeste: um grande Deus e suas esferas de anjos levam os planetas em sua corrida através do céu e participam com entusiasmo e amor de nossa vida, da vida desta frágil humanidade, que no centro do cosmos oscila entre adoração, rebelião e arrependimento. 

Depois mudamos de ideia. Nos séculos subsequentes, compreendemos aspectos da realidade. Descobrimos gramáticas ocultas, encontramos estratégias para nossos objetivos. O pensamento científico construiu um complexo edifício de saberes. A física foi a força motriz e unificadora, oferecendo uma imagem nítida da realidade: um vasto espaço onde correm partículas, impelidas e atraídas por forças. Faraday e Maxwell acrescentaram o "campo" eletromagnético, entidade difundida no espaço através da qual corpos distantes exercem forças um sobre o outro. Einstein completou o quadro, mostrando que também a gravidade é levada por um "campo": um campo que é a própria geometria do espaço e tempo. A síntese é clara e encantadora. 

A realidade é uma estratificação exuberante: montanhas nevadas e florestas, o olhar dos amigos, o estrondo do metrô nas sujas manhãs de inverno, nossa sede irrequieta, o deslizar dos dedos na tela do celular, o gosto do pão, o sofrimento do mundo, o céu noturno, a imensidão das estrelas. Vênus brilhando solitária no céu azul ultramarino do cerpúsculo... Pensávamos ter encontrado a trama de fundo desse pulular caleidoscópio, a ordem oculta atrás do véu desvendado das aparências. Era o tempo em que o mundo parecia simples. 

Mas, para nós, minúsculas criaturas mortais, as grandes esperanças não passam de breves sonhos. A clareza conceitual da física clássica foi varrida pelos quanta. A realidade não é como descreve a física clássica. 

Foi um despertar brusco do sonho feliz em que nos tinham embalado as ilusões do sucesso de Newton. Mas é um despertar que nos leva ao coração pulsante do pensamento científico, que não é feito de certezas adquiridas: é um pensamento em movimento contínuo, cuja força é precisamente a capacidade de recolocar sempre em discussão todas as coisas e começar de novo, de não ter medo de subverter uma ordem do mundo para buscar uma mais eficaz, e depois voltar a colocar tudo em discussão, subverter tudo de novo. 

Não ter medo de repensar o mundo é a força da ciência: desde que Anaximandro eliminou as colunas na qual a Terra se apoiava, Copérnico a pôs a girar o céu. Einstein dissolveu a rigidez da geometria do espaço e do tempo, e Darwin desmascarou a ilusão da alteridade dos humanos... A realidade se redesenha continuamente em formas cada vez mais eficazes. A coragem de reinventar profundamente o mundo: esse é o fascínio sutil da ciência que capturou as rebeliões da minha adolescência... ###

 

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Copiado, sem autorização, do livro "O abismo vertiginoso – um mergulho nas ideias e nos efeitos da física quântica" – Carlo Rovelli – Ed. Objetiva 

Carlo Rovelli é físico teórico italiano, membro do Instituto Universitário Francês e da Academia Internacional de Filosofia da Ciência, professor do Centro de Física Teórica da Universidade Aix-Marseille. Especialista no estudo da gravidade quântica.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Ensaboa

 Opinião 

O Bozo é uma figura política tão escrota que até mesmo a Globo, com todo o seu histórico de escrotidão jornalística, consegue fazer manifesto apontando as os seus crimes sem a necessidade de manipulação editorial.

O gado não sabe bem como agir. Parte dele, assumido, abaixa a cabeça e espera. Responderá ao comando do ferrão dos seus condutores. Irá para aqui ou acolá conforme for ferreteado. Mas, há também um gado que disfarça a sua condição de simpatizante, sem assumi-la.

Um personagem de novela que fez  sucesso no início dos anos 70, era um bicheiro com o cacoete lavar as mãos a todo o momento. Sofria de um transtorno obsessivo-compulsivo que o obrigava, em intervalos de minutos ou em pausas de conversas,  buscar um lavatório onde ensaboava, lavava e secava as mãos. Era o Jovelino Sabonete interpretado pelo falecido e brilhante ator Felipe Carone na novela Bandeira 2.

O gado simpatizante me faz lembrar o Jovelino Sabonete. São identificados ideologicamente com o Bozo, mas buscam obsessiva e compulsivamente lavar as mãos como forma de disfarce, geralmente ensaboando-se no lavatório do discurso antipetista. Passam todo o seu tempo divulgando propagandas pró-Bozo, mas sempre tentando lavar os rastros fascistas de suas opções com mensagens anticorrupção, de criminalização da política, além de outras.

Apregoam-se como descomprometidos, mas suas práticas os desmentem. Não perdem a oportunidade de encher a bola de personagens caricatos tipo bias kicis ou o papagaio da havan e, volta e meia, uma fakenewsinha como se não soubessem sobre a falsidade da sua origem. Ora é o STF corrupto, ora é o Lula ladrão, ora é a Globo comunista, enquanto garimpam sem sucesso alguma coisa que preste no lodaçal político do governo Bozo.

Os ataques contra os direitos dos trabalhadores; contra os grupos discriminados que buscam representação política; o genocídio decorrente das ações e omissões na governança da área de saúde; a campanha e o boicote à vacinação em massa e, agora, o crime do boicote à vacinação infantil -  nada disso tem sido suficiente para o gado bozista dar conta de si. Nem mesmo os que correm para os lavatórios ensaboando-se em discursos precários e de conteúdos que oscilam entre a ignorância e a burrice. Fascistinhas sabonetes!

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terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Fim do trecho em obras?

 

Leituras para distrair

 Estava entre os que pensam no retorno a uma normalidade pós-pandemia. Uma volta às atividades interrompidas desde a primeira quinzena de março de 2020, como foi o meu caso e de um grande número de pessoas.

Pensava nas restrições e cuidados pandêmicos como um "desvio por motivo de obras". Um desconforto temporário e com retardos implicando em reprogramação dos agendamentos. Para mim, em algum momento encontraríamos outra placa indicando " fim do trecho em obras " e um novo desvio, desta vez para retorno à normalidade do percurso que fora interrompido.

Não penso mais assim. Não por conta exclusiva de reflexões individuais, seria uma pretensão. Mas, pelas oportunidades de conversas entre companheiros, e acesso às reflexões de outros que sequer conheço. Reflexões que circulam nesse mar de informações viabilizado pela tecnologia e agitado pelo quadro trágico de um vírus que, com uma significativa contribuição de agentes governamentais, só em nosso país já tragou cerca de 600 mil vidas.

Não entramos em um desvio para uma rota alternativa e temporária. Entramos em novo caminho com características distintas das que conhecíamos e que vamos identificando na medida em que prosseguimos.

Mais adiante, a pandemia propriamente dita será uma paisagem ultrapassada e a rota a seguir também não será mais aquela de antes. A vida anterior à pandemia terá passado, assim como passará a própria pandemia. Precisamos nos adaptar a essa ideia. Insistir na expectativa de retorno a algo que ficou no passado será um equívoco. Devemos nos empenhar na preparação e atenção para esse novo caminho.

Penso no conselho de um psicólogo (B.F. Skinner) ao tratar sobre a velhice. "A velhice é, em parte, como um outro país. Você poderá viver bem lá, se se preparou com antecedência". Aprender desde já sobre novos hábitos, costumes e necessidades. A mudança virá. Assim, buscar saber como é a vida por lá irá ajudar-nos quando a mudança acontecer.

Também o fim da pandemia virá, mas será como a vida em outro local. Relações profissionais e pessoais, obrigações e relações familiares, estudos, trabalhos, viagens, projetos, enfim, todos esses significados que compõem a nossa vida pessoal e em sociedade serão impactados. Precisamos nos preparar desde já.

Umas das pouquíssimas coisas que não mudarão com a pandemia serão o determinismo da morte e a exploração capitalista. A vida humana ainda é finita, e no capitalismo continuará tratada como mercadoria, no processo interminável da exploração dos trabalhadores pela classe capitalista visando à apropriação por essa última da riqueza produzida pela primeira.

Porém, um fato interessante emergirá como novo, embora não o seja, em relação aos tempos pandêmicos. Precisaremos explicitar certas escolhas porque não poderemos mais usar a pandemia como desculpa. Aonde ir ou o que fazer. Onde estar, quando e com quem.

Escolher e criar subterfúgios e justificativas naturalmente não será uma novidade, afinal, sempre fizemos isso. Mas, a pandemia terá nos deixados "mal" acostumados porque não somos cobrados em nossas afirmativas ou negações quando a usamos como desculpa. Interessante! Um pouco mais a frente as razões precisarão ser outras, mais claras ou explícitas.  Isso será um grande e curioso exercício.  *####*