sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Os cúmplices (autoria da jornalista Eliane Brum)


Opinião

Texto de autoria da jornalista Eliane Brum. Publicado no jornal El País em 01/01/2020. Ver link no final. Reproduzido sem autorização. Sua leitura dispensa justificativas.


Em 2020, cada um saberá quem é diante de uma realidade que exige coragem para enfrentar e coragem para perder


Nenhum autoritarismo se instala ou se mantém sem a cumplicidade da maioria. É o que a história nos ensina. Não haveria nazismo sem a conivência da maioria dos alemães, os ditos “cidadãos comuns”, nem a ditadura militar no Brasil teria durado tanto sem a conivência da maioria dos brasileiros, os ditos “cidadãos de bem”. O mesmo vale para cada grande tragédia em diferentes realidades. Os déspotas não são alimentados apenas pelo silêncio estrondoso de muitos, mas também pela pequena colaboração dos tantos que encontram maneiras de tirar vantagem da situação. Em tempos de autoritarismo, nenhum silêncio é inocente —e toda omissão é ação. Esta é a escolha posta para os brasileiros em 2020. Diante do avanço autoritário liderado pelo antidemocrata de ultradireita Jair Bolsonaro, que está corroendo a justiça, destruindo a Amazônia, estimulando o assassinato de ativistas e roubando o futuro das novas gerações, cada um terá que se haver consigo mesmo e escolher seu caminho. 2020 é o ano em que saberemos quem somos —e quem é cada um.

Há várias ações em curso. E várias mistificações. Quem viveu a ditadura militar (1964-1985) conhece bem, guardadas as diferenças, como o roteiro vai se desenhando. No final de 2019, parte da imprensa, da academia e do que se chama de mercado começou a exaltar os sinais de “melhora econômica”. A alta da bolsa, a “queda gradual” do desemprego, a indicação de aumento do PIB em 2020 são elencados entre os sinais. Ainda que se esperasse mais, afirmam, “os inegáveis avanços do ponto de vista econômico”, entre eles a reforma da Previdência, “a inflação comportada” e os juros fechando 2019 “em patamar inimaginável” permitem —e aí vem uma das expressões favoritas deste seleto grupo de players— um “otimismo moderado”. Até a pesquisa de uma associação de lojistas divulgou uma incrível alta de 9,5% nas vendas de Natal, imediatamente contestada por outra associação de lojistas. É como se a “economia” fosse uma entidade separada da carne do país, é como se houvesse uma parte que pudesse ser isolada e sobre a qual se pudesse discorrer usando palavras enfiadas em luvas de cirurgião. É como se bastasse enluvar jargões técnicos para salvar os donos das mãos de todo o sangue.

Enquanto esse diálogo empolado e bem-educado do pessoal da sala de jantar, dos que sempre estão na sala de jantar, independentemente do governo, é estabelecido, bombas explodiram no prédio da produtora do programa de humor Porta dos Fundos, policiais matam como nunca nas periferias de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, ampliando o genocídio da juventude negra, o antipresidente legaliza o roubo de terras públicas na Amazônia, ambientalistas são acusados de crimes que não cometeram, ONGs são invadidas sem nenhuma justificativa remotamente legítima, adolescentes pobres morrem pisoteados porque decidiram se divertir num baile funk numa noite de sábado, indígenas guardiões da floresta e agricultores familiares são executados, as polícias vão se convertendo em milícias como se isso fosse parte da normalidade, e são também os policiais e “agentes de segurança” condenados por crimes os únicos que são libertados no indulto de Natal. Os sinais estão por toda parte, mas membros respeitados de instituições da República que deveriam ser os primeiros a percebê-los —e combatê-los— seguem inflando a boca para assegurar que “a democracia no Brasil não está ameaçada”.

A qual Brasil se referem estes senhores bem-educados? De qual país estes luminares do presente falam? Certamente não do meu nem do de muitos, não o das favelas onde as pessoas se trancam sabendo que não há porta capaz de barrar a violência da polícia, não este em que os policiais já exterminam os pretos sem responderem por isso há muito, mas esperam mais já que o extermínio vai sendo legalizado pelas beiradas. Não este em que os templos de religiões afro-brasileiras são invadidos e destruídos apesar de o Estado ser formalmente laico. Não este em que as lideranças da floresta enxergam o Natal e o Ano-Novo como os piores momentos do ano porque é o tempo de deixar a família e fugir, pelo menos até que as capengas instituições voltem do recesso.

Neste país, pessoas da sala de jantar, há muita gente escondida neste exato momento para poder virar o ano vivo. Não esperam brindar, desejam apenas não ter o corpo atravessado por uma bala —ou por quatro na cabeça, como ocorreu com Marielle Franco, num crime não decifrado quase dois anos depois. Democracia onde? Os escondidos, os ameaçados, os parentes dos mortos querem saber. Todos nós queremos muito viver neste país em que vocês enxergaram “inegáveis avanços na economia em 2019” e “instituições que funcionam”. Não fiquem com o endereço só para vocês.

As pessoas da sala de jantar, porém, só podem seguir na sala de jantar ditando o que é a realidade porque a maioria assim permite, omitindo-se ou aproveitando-se das sobras. São as pessoas, no dizer da historiadora franco-alemã Géraldine Schwarz, “que seguem a corrente”. A questão é se você, que lê este texto, vai engrossar o rebanho dos que seguem a corrente.

Não o rebanho de ovelhas. Esta imagem evoca passividade, engano, uma obediência absolvida pela inocência. Não. Este rebanho, o dos que agem se omitindo, ou o dos que agem tirando pequenos proveitos, “porque afinal é assim mesmo e quem sou eu para mudar a realidade”, é um rebanho de lobos. Porque o ativismo de sua omissão é cúmplice do sangue das vítimas, estas que tombam, estas que vivem uma vida de terror. É cúmplice também das ruínas de um país. No caso da Amazônia, é cúmplice das ruínas da vida da nossa e de muitas espécies no único planeta disponível.

Géraldine Schwarz escreveu um premiado livro chamado Os amnésicos (Flammarion), infelizmente sem tradução no Brasil. A historiadora, cuja família foi uma dessas que obteve vantagens no nazismo, mas se considerava inocente do Holocausto, deu uma excelente entrevista ao jornalista Fernando Eichenberg, em O Globo. Ela aponta como a adesão aos déspotas do século 21 mantém a estrutura da adesão aos totalitarismos do século 20:

“No imaginário coletivo, temos tendência a dividir a sociedade em três categorias históricas no século 20: heróis, vítimas e carrascos. Na verdade, a maioria da população não se reconhece em nenhuma delas. É a via mais fácil não se incluir em nenhuma das três categorias, mas apenas seguir a corrente. Há o magnífico filme baseado no romance de Alberto Moravia [O conformista, de Bernardo Bertolucci], que mostra muito bem como o conformista acaba aceitando o que antes era inaceitável. 

No ensino da história, muitas vezes por meio da ficção ou de comemorações, temos uma visão um pouco distorcida do passado. Se tem a impressão de que a população não teve nenhum papel nessa história. E teve, muitas vezes, um papel de pilar e consolidador de ditaduras. É nisso que a democracia tem um papel importante, pois o povo tem os meios de impedir um golpe e a instalação de um regime criminoso. Eleger Bolsonaro, por exemplo, para mim, é brincar com o fogo, pois parece alguém capaz de tudo.”

A historiadora defende a memória como um dos principais instrumentos de defesa da democracia. “O importante é tomar consciência de nossa falibilidade e reconhecer que podemos nos transformar também em um bárbaro”, afirma. "A história não se repete, mas os métodos de manipulação, sim, porque a psicologia humana não muda. Em um contexto de crise, em meio a um grupo, o homem terá reações similares. Um dos métodos é difundir o medo, muitas vezes exagerado em relação à realidade. [...] Trata-se de confundir a fronteira entre o verdadeiro e o falso, desorientando totalmente as pessoas. Perde-se as referências, não se sabe mais no que acreditar. E, como dizia [a filósofa alemã] Hannah Arendt, quem não acredita em mais nada é manipulável à vontade. Ao ponto de inverter seus valores: o que era bom ontem já não o é mais hoje. É o que se observa em várias sociedades do mundo. As pessoas que, hoje, apoiam Jair Bolsonaro, há dez anos provavelmente defendiam os direitos humanos. Por isso que o ensino do Terceiro Reich é capital. Na história há muito poucos exemplos de uma sociedade tão civilizada, moderna, intelectual, que derivou rapidamente para a barbárie. É um ensinamento universal, que serve de alarme a todo mundo.”

O problema é que países como o Brasil não produziram a memória da ditadura justamente para absolver os assassinos, sequestradores e torturadores de Estado. A condição da retomada da democracia foi o perdão ao imperdoável. Essa política de amnésia resultou, em 2018, na eleição de um presidente que tem como herói um torturador e assassino de civis. Diante de uma população desmemoriada, ao final do primeiro ano do governo do déspota eleito vimos um roteiro semelhante se repetir, com as necessárias adaptações a uma época impactada pela Internet. Ainda que a memória no Brasil seja frágil, porém, ela existe. Não há desculpa para omissão. Nem há qualquer inocência no suposto conformismo.

O problema, no Brasil e em outros países que vivem processos políticos semelhantes, é também de memória recente. Esta que está sendo construída agora, não só nas mentiras disseminadas nas redes sociais por Bolsonaro e sua familícia, mas também nas narrativas que isolam a economia da carne que sangra. Como se a evocação do AI-5 por Paulo Guedes não tivesse nada a ver com suas escolhas econômicas, como se o Posto Ipiranga fosse radicalmente diferente do dono do posto. Está em produção uma memória falsa, o que é pior do que desmemória. Pior do que não lembrar é lembrar de um acontecido que nunca aconteceu.

Entre as tantas perversões da ditadura, uma se mostrava particularmente enlouquecedora para aqueles que escolheram lutar contra o regime de opressão. Enquanto homens e mulheres eram vigiados e perseguidos dia e noite, afastados de seus postos, demitidos de seus empregos, transformados em párias e criminalizados, enquanto livros, jornais, filmes e peças de teatro eram censurados, enquanto brasileiros precisavam deixar o país para salvar a vida ameaçada pelo Estado, enquanto os que ficavam eram sequestrados, torturados e mortos por agentes do Estado, uma maioria fingia que nada estava acontecendo. Fingia tanto que acabava acreditando que não eram gritos de dor e de terror o que ouvia. Era o cidadão de bem que apenas seguia a corrente, protegendo os próprios interesses e avaliando o que poderia ganhar com o estado das coisas.

Começamos a testemunhar hoje o mesmo mecanismo perverso. Com todas as desculpas possíveis, auxiliadas pela polarização que desloca o perigo para uma falsa oposição. Com todos os erros e os crimes do PT no poder, o antipetismo não é justificativa aceitável para alguém seguir a corrente. Não tem mais clima para se fingir de iludido. Basta ter vergonha na cara para perceber que não se trata mais do PT. Se trata da corrosão do que ainda resta de democracia no Brasil. Se trata da autorização para roubar enormes pedaços de floresta, desmatá-los e botá-los no nome dos autores do crime. Se trata da conversão das forças de segurança em milícias com autorização para matar. Se trata da criminalização de quem defende os mais frágeis, usando para isso o aparato do Estado. Se trata de genocídio de negros —e também de indígenas.

Há muita gente se fingindo de ovelha para lavar as mãos diante do que vive o Brasil. Mas há também gente angustiada perguntando o que fazer diante do que já não consegue deixar de ver. A estes, respondo que ninguém vai dar a resposta. Esta resposta terá que ser criada, coletivamente, por iniciativa dos que fazem a pergunta. Em cada profissão há o que fazer. Este é um momento em que precisamos fazer melhor o que sabemos fazer, mas também precisamos fazer bem o que não sabemos. Apenas o que sabemos já não é suficiente. O que somos já não é suficiente. Temos que ser melhores do que somos para enfrentar este tempo em que já não há tempo. E temos que ser juntos, fazendo laços e tecendo redes entre nós.

Este é o desafio de 2020. O ano novo não está dado. 2020 só será novo se nossa resistência resgatar o presente das mãos dos déspotas. Esta é a única resolução possível diante do que vivemos e do que testemunhamos. Cada um de nós precisa se responsabilizar pelo horror do nosso tempo.


Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Brasil, construtor de ruínas, Coluna Prestes - O avesso da lenda, A vida que ninguém vê, O olho da rua, A menina quebrada e Meus desacontecimentos, e do romance Uma duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum/ Instagram: brumelianebrum




segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Vamu nessa!


Opinião


Os chilenos voltaram às ruas no dia 13 de dezembro, o dia em que foi divulgado o  relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre violência e violações aos direitos humanos por parte da polícia durante as manifestações recente. Emocionante! Vejam o link abaixo.

Aqui, muitos de nós indagamos sobre a tolerância da nossa população e quando daremos um basta, saindo para o enfrentamento contra esse sistema escroto que nos submete.

Porém, tanto essa visão de tolerância como essa dúvida são INCORRETAS. A questão que precisamos tratar é: QUANDO OUTROS DE NÓS ESTAREMOS AO LADO E REFORÇANDO OS QUADROS DAQUELES QUE JÁ ESTÃO REALIZANDO ESSE ENFRENTAMENTO.

A luta já está nas ruas. Ela tem sido o cotidiano de índios, negros, pobres, marginalizados e discriminados sociais de toda ordem, inclusive por opções de atitudes de vida e até por opções religiosas.

Esses grupos já estão enfrentando tentativas de dizimá-los, de abatê-los. Estão sendo assassinados pelos braços armados do estado que antes eram tipicamente institucionais e agora reforçados por mercenários. Milicianos nos centros urbanos, jagunços nas regiões rurais.

A luta já está nas ruas. O que precisamos é aderir.

Evento Praça da Dignidade - Chile - em 13/12/2019 - Acesso em 16/12/2019 




domingo, 1 de dezembro de 2019

Tá com medo tabaréu?

Leituras para distrair


Talvez por conta da idade, as memórias recentes  perdem prioridade, como se não encontrassem um alojamento. As vagas estão tomadas por outras de tempos distantes. Indício de Alzheimer? Não importa, esquecerei também! O fato é que as lembranças mais antigas povoam o meu cérebro de uma forma até implicante.

Vi um menino empinando uma pipa na praia. O moleque corria pra lá e pra cá num movimento repetido por milhões de crianças em todo o mundo. Lembrei que, a rigor, nunca “empinei pipa”. Tive familiares que moravam em subúrbio da cidade do Rio de Janeiro e que empinavam pipas. Mas, lá em São Gonçalo, outro lado da poça, a molecada  “soltava cafifa”.

Empinar pipa e soltar cafifa eram exatamente a mesma brincadeira, mas as designações e  tipos de cafifas ou de pipas eram distintos. Cafifa e pipa eram designações genéricas, em São Gonçalo e no Rio. Porém, cafifas não usavam as “rabiolas” um complemento fundamental nas pipas cariocas. Arraias, piões, morcegos e marias-largas eram tipos específicos de cafifas.  Distinguiam-se pelos formatos das armações de bambu. Nenhuma delas com rabiolas. Entre as pipas cariocas havia os morceguinhos, piões e outros tipos que eu nunca soube, não era minha praia. Invariavelmente, todas com rabiolas enormes.

As cafifas e as pipas que falo nada tinham a ver com as peças que hoje frequentam os campeonatos de pipas. Por mais lindas que sejam, e apesar de carregarem consigo a experiência e a prática popular, não eram essas pipas de campeonato que povoavam os céus em nossa infância. Sem desfazer da qualidade técnica de suas construções , nem da beleza e encantamento que lhes são peculiares, as atuais pipas de campeonato não representam a memória das nossas brincadeiras infantis, aqui, no estado do Rio de Janeiro. As atuais pipas de campeonato parecem representar uma história recente de cópia e assimilação de práticas estrangeiras.  

No alto, as cafifas eram presas e controladas por linhas de algodão esticadas e embebidas em uma mistura de cola de madeira e vidro moído que chamávamos de “cerol”. Com as pipas também era assim,  mas a mesma mistura era chamada de “cortante”. Através de manobras que faziam as linhas deslizarem uma sobre a outra, era possível cortar uma delas conforme a eficiência do cerol ou cortante. Entre as cafifas essa disputa era chamada de “torar”. Entre as pipas o termo mais comum era “cruzar”.

Interessante é que, em linha reta,  as populações de moleques não se distanciavam mais que 50 quilômetros. Porém, os vocabulários eram distintos, embora atualmente se confundam. Eles identificavam territórios, as nossas origens. Possivelmente alguém nessa web que é a enciclopédia do mundo terá registrado as correspondências. Eu só guardei algumas.

Quando uma linha esticada no alto precisava ser alcançada, amarrávamos duas pedras em cada ponta de um pedaço de outra linha, imitando uma boleadeira gaúcha, e jogávamos para fazer a linha esticada descer. A nossa boleadeira tinha o nome de “landrola” e a mesma peça era chamada pelos moleques cariocas de “marimba”.

Após passar o cerol (essa expressão hoje tem um significado macabro) na linha esticada, para tirar os excessos acumulados tensionávamos a linha brevemente, como se faz ao tocar uma corda de violão. Essa ação era chamada de “estancar”. A linha esticada se prendia à cafifa através de um pedaço também de linha chamado “cabresto”, e quando numa tora entre duas cafifas o corte se dava bem longe do cabresto causando a perda de uma grande quantidade linha, que ia junto a cafifa torada, a garotada dizia que a cafifa foi torada “na mão”.

Sem rabiolas era muito difícil capturar uma cafifa torada ainda solta no ar. Mas, havia os virtuoses que conseguiam realizar essa façanha que se chamava “aparar”. Cortei e aparei! Gabava-se o triunfante do embate.

Esse tal alemão que apavora as velhices poderá até me deixar bastante confuso, mas não vai me tirar essas lembranças, jamais. Fecho os olhos e “dou linha” no carretel do tempo.
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sábado, 23 de novembro de 2019

Consciências aprisionadas


Opinião

Na quarta-feira última, 20 de novembro, o clube Renascença tinha bastante gente, mas estava vazio. Entrada franca. Teve banda do Corpo de Bombeiros, feijoada, apresentações de conjunto de choro, grupo de jongo, casais em dança de gafieira, roda de samba e artistas diversos. Barraquinhas de artesanatos e diversos produtores oferecendo degustação de cachaças da melhor qualidade. Ainda assim, vazio. Sabemos bem o que é um dia de casa cheia no clube para fazer essa afirmação.  

Ao mesmo tempo, as imagens de celular mostravam uma multidão de torcedores acompanhando o ônibus que levava o time de futebol do Flamengo até o aeroporto do Galeão. Uma multidão que tomava totalmente o caminho e não distinguia obstáculos, chegando a pisotear veículos que estavam parados atravancando o seu caminho, que derrubou grades, provocou feridos  e reação violenta da polícia.

A data em pauta foi instituída por lei como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Aqui, no Rio de Janeiro, é um feriado estadual e celebrada com manifestações em diversos locais, entre eles o clube Renascença cuja origem e história transformaram o “Rena” em um símbolo de enfrentamento dos negros contra a discriminação racial. Nesse ano, 2019, na mesma data, a equipe do Flamengo embarcou para a cidade de Lima, no Peru, onde disputará, hoje, 23 de novembro, daqui a pouco, com o time argentino River Plate,  a taça Libertadores da America.

Foram duas manifestações populares. Seria um equívoco desvalorizar qualquer uma delas em prol da outra. Dois públicos felizes, isso é o que importa. Afinal esse é o objetivo final das lutas sociais. Contudo, também não há como ignorar as possíveis motivações que determinaram a opção pela participação em um ou outro evento. Um deles celebrou a consciência. Outro foi uma manifestação explícita de alienação. Não se comparam.

O resultado da partida de hoje, sábado,  qualquer que seja, provocará outro impacto na vida da cidade e das pessoas. Alegrias e tristezas consoantes com as emoções que determinam a relação dos cariocas e dos brasileiros em geral com o futebol.

Eu prefiro ver as pessoas felizes. Então, preciso supor que essa alegria alienada deve ser tão grande que supera a infelicidade de um cenário sem aposentadoria, sem proteção de leis trabalhistas, de desmonte do sistema educacional, de extinção da saúde pública através da sua privatização, de entrega das riquezas nacionais, de subordinação ao capital privado, de desemprego, de preconceito e discriminação social, além da criminalização da pobreza e da miséria. Não fosse assim eu teria que classificar essas pessoas apenas como idiotas, mamulengos de uma ordem política fascista. Não tenho essa presunção nem acho que as decepções esportivas farão aumentar as fileiras dos participantes ativos na vida política do país. Escolhi apostar que o engajamento e consciência virão de outras disputas.

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terça-feira, 5 de novembro de 2019

Cuida de mim!

Leituras para distrair
Enfermeirinha linda! Minha princesa!  Cuida de mim! As moças fingiam ignorar e algumas desconsideravam. Outras respondiam com xingamentos, mas a maioria recebia as exclamações como galanteio. Sorriam, cochichavam entre si e o clima incentivava a repetição do assedio na semana seguinte quando o caminhão de fubá passaria outra vez por ali, na rota Porto Velho.

Porto Velho é um bairro de São Gonçalo que, curiosamente, tem vários bairros identificados como “porto”. Porto Velho, Porto Novo, Porto da Pedra, Porto da Madama, Porto do Rosa, são denominações de um tempo em que a baia de Guanabara era meio principal para o transporte de mercadorias. As embarcações utilizavam os referidos portos que eram integrados ao transporte ferroviário. Essa dinâmica e infraestrutura se perderam e o Estado do Rio paga um preço alto por isso.

No Porto Velho havia uma importante indústria de sardinhas em lata, a Coqueiro, cujas instalações iam desde uma rua de trânsito principal até os limites com a baía de Guanabara. A Coqueiro era uma referência geográfica, tanto pelo seu porte como pelo fato de exalar por suas chaminés uma catinga de peixe que impregnava as redondezas. Tudo ficava perto, antes ou depois da “fábrica” de sardinhas. Seus trabalhadores, talvez a maioria, eram mulheres que usavam uniformes brancos e um avental claro, além de toucas similares às toucas hospitalares utilizadas tradicionalmente pelas enfermeiras. Só para lembrar, na época ainda não se dispunha da variedade de materiais e produtos que constituem os atuais equipamentos de proteção, segurança e higiene. Com suas touquinhas e roupas brancas, no descanso após o almoço, as trabalhadoras ocupavam a frente da fábrica onde havia alguns bancos e árvores, além da rua por onde passava o caminhão de entregas de fubá. Formava-se uma multidão de trabalhadoras e no horário do almoço parecia uma festa.

Com os seus macacões empoeirados após uma manhã de entregas, mas também porque eles eram utilizados ao longo da semana, passar em frente à Coqueiro era um colírio para os olhos dos carregadores. Do caminhão com a velocidade reduzida, encarapitados nos sacos de farinha e fubá, eles mandavam para as trabalhadoras os galanteios que conseguiam elaborar. Não tinham noção que praticavam uma discriminação da qual eles também eram vítimas, e que reforçavam preconceitos e discriminações usuais e decorrentes da divisão social do trabalho em nosso sistema de produção. Para eles e elas, o trabalho de enfermagem era mais importante que o de enlatar sardinhas, então, chamar operárias de enfermeiras era um elogio. Certamente essa paquera das “enfermeiras” da sardinha é intolerável quando vista sob a óptica de quem busca despertar nos trabalhadores uma consciência de classe, mas ali essa regra não valia. Se, por acaso, fosse mal recebida a brincadeira era vista apenas como uma sacanagem, uma ironia sem agressão.

Certa vez chegou ao escritório onde trabalhávamos a reclamação de alguém que se identificou como representante da fábrica. O gerente considerou, mas logo se descobriu que era um namorado, marido ou coisa que valha de uma das “enfermeiras”. Ocorreu também que um dos carregadores passou a ter um relacionamento amoroso sério com uma das meninas. Um fato ou outro, eu não saberia explicar, fez desaparecer a paquera às moças da fábrica de sardinhas. Ainda hoje circulam trabalhadoras uniformizadas na região. Não consigo evitar pensar que de algum caminhão de entregas alguém gritará: Enfermeira linda, cuida de mim!

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terça-feira, 29 de outubro de 2019

O pequeno Zé


Leituras para distrair

O Zé era quase uma aberração, uma excentricidade. Não sei classificar. Ele devia resultar de uma adaptação darwiniana que preservara os processos cerebrais instintivos de sobrevivência e músculos. Porém, nada indicava que fosse dotado de uma característica humana básica: pensar o momento seguinte, de ter um propósito ou finalidade. Era uma “coisa” que vivia o momento presente e pronto. Sobrevivia por acaso e circunstâncias. Alguém sempre tomou conta dele, e entre os demais ajudantes de caminhão empregados no depósito de fubá o Zé era uma espécie de mascote. Pequenino, mas um dos mais fortes. Salvo as funções cerebrais, seu único indício de fragilidade de saúde era a falta da dentição frontal superior. Empregado antigo, os gerentes do depósito onde trabalhávamos sempre o protegeram. Enquanto trabalhamos juntos ele morava nas cabines dos caminhões de entregas que ficavam estacionados em um posto de gasolina durante as noites e os fins de semana. O gerente do depósito cuidava do seu salário e contingenciava uma parte para que ele tivesse o que comer. Uma marmita para o almoço e outra para o jantar. Semanalmente ele recebia vales para ter uns trocados. Seu mundo se limitava às andanças pelo bairro num raio de alguns quilômetros onde bebia suas cachaças. Era um sujeito  amigável, até porque era impossível esticar qualquer conversa com ele, logo não havia discordância.

Num dia de entrega no centro de Niterói, o Zé estava impaciente. Na Rua da Praia  nunca era possível cumprir os horários permitidos para entregas que precisavam ser feitas com caminhão em movimento, quase parando. As calçadas eram entupidas de gente, e para abrir caminho os carregadores batiam com as mãos nos sacos e pacotes de fubá e farinha provocando uma nuvem que afastava as pessoas.

Zé entrou no mercado cujo gerente era conhecido de todos por sua grosseria. Carregando 60 quilos de pacotinhos de farinha ou fubá na cabeça, Zé perguntou ao gerente onde deveria depositar a mercadoria. O sujeito cagou para ele que repetiu a pergunta. A moçada que presenciou disse que foram várias vezes até que o sujeito, sem mesmo olhar para o Zé, respondeu algo do tipo: joga aí, em qualquer lugar!  Zé não titubeou. Arremessou os pacotes no chão e a mercadoria explodiu espalhada por todos os cantos onde farinha ou fubá em pó conseguem atingir quando derrubados. Clientes, prateleiras, corredor tudo envolvido em pó e fumaça de fubá. Uma confusão dos diabos!

Interessante é que os detalhes dessas ocorrências só chegavam ao depósito na semana seguinte, através do vendedor que, puto da vida, reclamava com o gerente exigindo providências em nome dos seus clientes, punições etc.

Zé foi retirado daquela rota por uns tempos, o bastante para o assunto esfriar. A galera o sacaneava, chamando-o pelo apelido (Barrasco) e diziam: “Barrasco ... os homens querem pegar você!”. Referiam-se implicitamente a uma história que rolava, segundo a qual, antes de vir para São Gonçalo, o Zé teria acertado a foice em um capataz que implicou com ele quando ainda era cortador de cana no norte do Estado. Ele não esticava muito essa conversa. Respondia sempre, referindo-e ao tal capataz,  que “aquele” não perturbaria mais ninguém, e que ele (Zé) estava tranquilo porque os homens sabiam onde procurá-lo se quisessem pegá-lo. 

Não sei que fim levou o Zé. Sempre tive curiosidade. Certamente seguiu por aí, vendendo sua força de trabalho que alguém terá comprado e se apropriado do mais valor que produziu. Tomara que tenha encontrado outros protetores em seus caminhos.



terça-feira, 22 de outubro de 2019

Ninguém socorreu a vítima


Leituras para distrair
Eram duas senhoras e uma delas estava muito agitada. Parecia estar chorando, mas também brigando. Reclamava descontrolada com palavras incompreensíveis que pareciam um dialeto. A cena foi na entrada do depósito de fubá, onde trabalhávamos. Na rua algumas pessoas já se agrupavam curiosas. Eram empregados e comerciantes das lojas laterais ao depósito. Por ali o ambiente nunca estava vazio, sempre havia alguém jogando conversa fora ou usando o telefone do depósito que era um recurso raríssimo, às vezes também algum freguês que comprava direto no balcão. Formou-se um barraco! A senhora agitada gesticulava referindo-se a um pacote que ela carregava. Era um embrulho em jornal com alguns destroços. Finalmente conseguimos entender: o caminhão de fubá tinha atropelado o seu liquidificador!

O embrulho continha os restos de um liquidificador que nem era tão novo, mas que estava destroçado, vítima do atropelamento. Esclarecida a reclamação, a risada da galera foi quase uníssona, sem ninguém mostrar qualquer empatia com a situação da senhora. Gozação geral. O único que se controlou, certamente por obrigação funcional, foi o gerente que queria saber detalhes do ocorrido. Nervosa, a reclamante explicou que estava em seu bairro conversando com uma vizinha no caminho de ida ou volta de um técnico de reparos de eletrodomésticos. Para não ficar cansada enquanto trocava palavras com a vizinha, apoiou o embrulho no chão. Ocorre que a região não tinha infraestrutura de ruas pavimentadas, calçadas ou coisa que o valha. Nem mesmo acostamento para pedestres. Os limites das ruas eram as valas a céu aberto que drenavam o esgoto das residências. Entretida com a conversa ela se afastou do embrulho e o caminhão de entregas do fubá passou em “alta velocidade” desconsiderando o fato e esmagando o liquidificador.

Não era necessário especular para perceber o significado da perda do eletrodoméstico para aquela senhora humilde . Também não era preciso muita investigação para comprovar que tinha sido o caminhão de entregas. O atropelamento foi no bairro Galo Branco, em São Gonçalo. Os caminhões tinham pinturas inconfundíveis com o nome da marca pintado em letras garrafais nas laterais da carroceria. Mesmo sem os recursos atuais de comunicação, pelos horários sabíamos com precisão em quais endereços da rota o caminhão deveria estar. Tudo dava credito à história que a senhora contou. Sem querer confusão o gerente se comprometeu a tratar o assunto logo que o caminhão chegasse da entrega do dia.

A moçada vizinha adorou a história e todos esperaram a chegada do caminhão. Foi o acontecimento do dia – sempre havia algum. Quando o caminhão chegou o motorista não fazia a menor ideia do atropelamento. Algum dos carregadores chegou a lembrar de umas senhoras acenando em alguma parte da rota, mas ninguém sabia exatamente o que ocorreu.

O motorista foi repreendido por dirigir em alta velocidade. A reclamação de alta velocidade não era inusitada, era recorrente. Houve caso anterior em que um supervisor da matriz foi até um local de reclamação e consultou testemunhas. Sobre a velocidade alguém comentou que quando o caminhão passava, olhando-se as laterais, só dava para ler o “Fu”. Bastou para convencê-lo. Em nosso caso o gerente negociou e pagou um liquidificador para a reclamante. A história ficou no anedotário da calçada.

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terça-feira, 15 de outubro de 2019

Seu Nelso


Leituras para distrair

Era uma distância de cerca de 400 metros desde a porta do depósito de fubá e farinha onde trabalhávamos, em São Gonçalo, até um dos extremos da rua onde havia uma curva. Era de lá que “seu Nelso” apontava, de bicicleta, vindo de casa para o trabalho. O expediente começava às sete horas da manhã e invariavelmente outros empregados, também ajudantes de caminhão, já haviam chegado e assistiam seu Nelso apontar distante. O foco das atenções era verificar se ele vinha pedalando ou caminhando ao lado da bike. Chegar pedalando indicava um começo de dia normal, sem novidades. Caminhando ao lado da bicicleta sem montá-la era indício que o desjejum não se limitara ao café e tinha sido complementado com algumas doses de bebida mais forte, bem cedinho, cujo efeito já se fazia sentir.

Seu Nelso chegava calado, como se estivesse aporrinhado com a vida, sem dar muita conversa aos demais. Ele era um dos mais velhos do grupo onde todos fingiam não perceber o que estava acontecendo. Um falso respeito porque, sem constrangimentos, trocavam piadas sacanas sobre o estado etílico do companheiro  enquanto ele cumpria o ritual de vestir o macacão de trabalho. Havia um protocolo não explícito, mas aceito por todos, inclusive pelo gerente que tinha pleno conhecimento da situação: naqueles dias seu Nelso ocupava a posição de “batedor” no caminhão.

O batedor é o trabalhador com a função de colocar a mercadoria na cabeça dos carregadores de linha que a transportam. No caso, desde o depósito até o  caminhão durante a carga, e desde o caminhão até os locais indicados pelos clientes durante a entrega.

O batedor do depósito tinha função permanente porque era o responsável pela arrumação, organização das pilhas, costura das sacas, limpeza etc. Nos caminhões os batedores trabalhavam em rodízio por acordo entre os próprios carregadores. A tarefa exigia um esforço maior que os demais: coletar a mercadoria da cabeça dos carregadores e arrumar o carregamento do caminhão no início do dia, e realizar a operação inversa durante as entregas. Não era fácil! Afinal, cada caminhão saía diariamente com cerca de 8 a 10 toneladas de sacos e pacotes de farinha, fubá milho e derivados. Assim, nos dias que chegava meio chamuscado, seu Nelso fazia evaporar o álcool assumindo por sua conta a função de batedor. Eventualmente, ao longo do dia de trabalho, ele fazia as reposições necessárias para garantir o equilíbrio do seu metabolismo.

Apesar de maior esforço, a função dava certo poder a quem era especialmente forte, caso do seu Nelso. Um saco ou pilha  de 60 quilos de pacotes de farinha ou fubá depositados com força ou de forma maliciosamente desajeitada na cabeça do carregador poderia provocar o seu desequilíbrio derrubando a carga que estourava no chão na rua, no depósito ou nas dependências do cliente. Um transtorno cuja responsabilidade era sempre atribuída ao carregador que não tinha qualquer chance de apontar outro culpado. Tinha que se manter calado ouvindo as gozações dos demais que não faziam por menos. Bom cabrito não berra! Era a regra. Seu Nelso sabia disso, assim como todos, e as atividades transcorriam em clima quase cordial e sem incidentes maiores. Realizava sua tarefa e nunca vi nem soube que tivesse deixado algum furo.

Ao fim do dia seu Nelso voltava para casa, às vezes pedalando e outras vezes ao lado da bike. O amanhã seria outro dia. Boas lembranças.  ######


Nota: os fatos dessa crônica são reais, mas os nomes dos personagens foram adaptados, são fictícios.






sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Primeiras doses e parabéns pra você!


Leituras para distrair
Na cozinha, embaixo da pia. A cachaça tinha um lugar certo em minha casa. Lá, ficava a reserva do meu pai, que nunca foi muita. Um ou dois litros, eventualmente um garrafão de três ou cinco litros. Geralmente pingas fabricadas nos municípios de Itaboraí e Rio Bonito. Lembro-me de alguns rótulos: Cabeça Encarnada, Herondina, N. Rodrigues. Os garrafões, sem rótulos, vinham de alguns sítios da mesma região.

A minha mãe era quem limitava o excesso de consumo. A regra básica era o meu pai beber em casa. Algumas vezes o velho chegava meio “chamuscado” do trabalho – uma pinga com os amigos, mas era raro e, até onde percebi, provocava mais brincadeiras e piadas do que conflitos. Fazia parte de um anedotário familiar ao qual mesmo nós, crianças, tínhamos acesso.

Não lembro, mas terá ocorrido nessa época da infância o primeiro gole. Meu pai e um tio querido eram amicíssimos e curtiam fins de semana realizando trabalhos caseiros tipo pinturas, reformas e reparos. Ouviam futebol, molhando as conversas com umas cervejas e pingas. Bem menino, eu ficava próximo e eles toleravam, fingindo contar com a minha ajuda. Eventualmente eu era premiado com uma bicada na cerveja. Um privilégio. Prática incorreta e inadmissível hoje, mas que me deixava vaidoso.

Adolescente, vieram as experiências etílicas, como as de muitos meninos: Cuba Libre, Samba em Berlim, Gim Tônica, Caju Amigo, Fogo Paulista com Fernet, além da cerveja. Era o que rolava no meu mundo gonçalense. Com uma vaidade típica de moleque querendo aparecer, aventurava-me numa pinga pura, uma aventura que outros não ousavam e que abria espaço para a minha exibição.

Amigos levados em casa conheceram meu pai sempre cordial e camarada. Brindava-nos com umas doses do seu acervo, e para alguns era a primeira oportunidade de beber uma cachaça. Já adulto e com filhos foram muitas as oportunidades e felicidade de lamber umas pingas em companhia do meu pai. Aliás, sem pieguices, bebi umas doses em nossa última conversa. Ele não podia devido às suas condições de saúde, no máximo um copinho de cerveja.  A vida me presenteou com essa experiência e lembranças boas. Ô sorte!

Sempre gostei de beber uma cachaça. O tempo, a maturidade, as experiências e também a possibilidade econômica permitiram que o gosto fosse aprimorando, reforçando a preferência e provocando a curiosidade sobre o produto. Assim, descobri outros aspectos que relacionam a cachaça com a história econômica, cultural e política do Brasil. Juntou a sede com a vontade de beber. Adoro bebericar uma pinga, jogar conversa fora ou conversar sobre ela e suas características. Sempre fiz isso com amigos antigos e, mais recentemente, com outros mais novos e participantes da Confraria de Cachaça Copo Furado do Rio de Janeiro e do Clube Carioca da Cachaça.

A propósito, essas lembranças vieram por conta de estar lambendo uma em homenagem e celebração do sexagésimo quinto aniversário do meu querido irmão que é mais novo e, no momento, mora em local distante. Naturalmente ele teve experiências distintas, porém, compartilhamos a preferência prazerosa e desfrutamos juntos esse prazer sempre que possível – beber uma cachaça. Tomara que as oportunidades ainda sejam muitas. Por ora, parabéns para ele.
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terça-feira, 24 de setembro de 2019

Bozo e, após, Trump! Quem terá coragem de usar esse banheiro?


 Opinião

Naturalmente o pronunciamento do Bozo na ONU, hoje, 24/09/2019, foi uma merda. Mas, não foi uma surpresa. A verbalização dos seus pensamentos - propositalmente evito o termo “ideias” - foi como o despejar de uma cloaca. Não faria sentido esperar algo diferente.

Algumas de suas afirmações tiveram dados distorcidos e outras falsas. Mas, valorizo o fato de terem sido uma explicitação do que ele representa e da natureza do seu mandato. Uma representação política de ultradireita conservadora. Um governante servil e submisso ao capital internacional e suas representações políticas. Um mandato sem qualquer projeto de desenvolvimento e autodeterminação para o país. No mais, foram manifestações semi-veladas de sectarismo religioso e outras explícitas de antagonismo às históricas opções de preservação dos ecossistemas que constituem o Brasil e dos seus ocupantes originais identificados como indígenas.

O discurso está ai, para quem quiser ler. Algum eleitor Bozo poderia replicar arriscando outra interpretação. Trump elogiou - “ótimo discurso!” - teria comentado. Porém, os acontecimentos cotidianos seriam tréplicas mais do que as necessárias porque eles confirmam e reafirmam a prática vergonhosa desse ex-capitão de inhaca miliciana. Desmonte e entrega das empresas nacionais; desmonte do sistema educacional e da infraestrutura legal de proteção trabalhista; a destruição do sistema de seguridade social; o incentivo às ações de extermínio da população carente; o preconceito social e religioso, além de medidas que, agora, avançam para a censura às artes e aos costumes. Práticas fascistas para nenhum dos seus eleitores botar defeitos.

Bate um sentimento forte de nojo e embrulho de estômago, mas isso a gente até controla. Hora dessas viraremos esse jogo e expurgaremos essa sensação, entre festejos e abraços, unidos no mutirão de reconstrução do país para melhor. O Bozo e sua gente irão para a “lata de lixo da história” onde outros de sua laia já estão. Ruim mesmo é o sentimento de perda daqueles, alguns próximos, outros nem tanto, que não só apostaram, mas que mantêm o apoio a esse projeto putrefato e corrompido. Revelam assim seus princípios, valores e caráter, mesmo com esse chorume político que representa o voto no Bozo vazando todos os dias, sobre nós. A quadrilha já não consegue se esconder nem disfarçar. Mas, ainda tem adeptos, infelizmente. Não tem jeito, serão todos despejados. Haja desinfetante!


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