sábado, 23 de novembro de 2019

Consciências aprisionadas


Opinião

Na quarta-feira última, 20 de novembro, o clube Renascença tinha bastante gente, mas estava vazio. Entrada franca. Teve banda do Corpo de Bombeiros, feijoada, apresentações de conjunto de choro, grupo de jongo, casais em dança de gafieira, roda de samba e artistas diversos. Barraquinhas de artesanatos e diversos produtores oferecendo degustação de cachaças da melhor qualidade. Ainda assim, vazio. Sabemos bem o que é um dia de casa cheia no clube para fazer essa afirmação.  

Ao mesmo tempo, as imagens de celular mostravam uma multidão de torcedores acompanhando o ônibus que levava o time de futebol do Flamengo até o aeroporto do Galeão. Uma multidão que tomava totalmente o caminho e não distinguia obstáculos, chegando a pisotear veículos que estavam parados atravancando o seu caminho, que derrubou grades, provocou feridos  e reação violenta da polícia.

A data em pauta foi instituída por lei como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Aqui, no Rio de Janeiro, é um feriado estadual e celebrada com manifestações em diversos locais, entre eles o clube Renascença cuja origem e história transformaram o “Rena” em um símbolo de enfrentamento dos negros contra a discriminação racial. Nesse ano, 2019, na mesma data, a equipe do Flamengo embarcou para a cidade de Lima, no Peru, onde disputará, hoje, 23 de novembro, daqui a pouco, com o time argentino River Plate,  a taça Libertadores da America.

Foram duas manifestações populares. Seria um equívoco desvalorizar qualquer uma delas em prol da outra. Dois públicos felizes, isso é o que importa. Afinal esse é o objetivo final das lutas sociais. Contudo, também não há como ignorar as possíveis motivações que determinaram a opção pela participação em um ou outro evento. Um deles celebrou a consciência. Outro foi uma manifestação explícita de alienação. Não se comparam.

O resultado da partida de hoje, sábado,  qualquer que seja, provocará outro impacto na vida da cidade e das pessoas. Alegrias e tristezas consoantes com as emoções que determinam a relação dos cariocas e dos brasileiros em geral com o futebol.

Eu prefiro ver as pessoas felizes. Então, preciso supor que essa alegria alienada deve ser tão grande que supera a infelicidade de um cenário sem aposentadoria, sem proteção de leis trabalhistas, de desmonte do sistema educacional, de extinção da saúde pública através da sua privatização, de entrega das riquezas nacionais, de subordinação ao capital privado, de desemprego, de preconceito e discriminação social, além da criminalização da pobreza e da miséria. Não fosse assim eu teria que classificar essas pessoas apenas como idiotas, mamulengos de uma ordem política fascista. Não tenho essa presunção nem acho que as decepções esportivas farão aumentar as fileiras dos participantes ativos na vida política do país. Escolhi apostar que o engajamento e consciência virão de outras disputas.

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terça-feira, 5 de novembro de 2019

Cuida de mim!

Leituras para distrair
Enfermeirinha linda! Minha princesa!  Cuida de mim! As moças fingiam ignorar e algumas desconsideravam. Outras respondiam com xingamentos, mas a maioria recebia as exclamações como galanteio. Sorriam, cochichavam entre si e o clima incentivava a repetição do assedio na semana seguinte quando o caminhão de fubá passaria outra vez por ali, na rota Porto Velho.

Porto Velho é um bairro de São Gonçalo que, curiosamente, tem vários bairros identificados como “porto”. Porto Velho, Porto Novo, Porto da Pedra, Porto da Madama, Porto do Rosa, são denominações de um tempo em que a baia de Guanabara era meio principal para o transporte de mercadorias. As embarcações utilizavam os referidos portos que eram integrados ao transporte ferroviário. Essa dinâmica e infraestrutura se perderam e o Estado do Rio paga um preço alto por isso.

No Porto Velho havia uma importante indústria de sardinhas em lata, a Coqueiro, cujas instalações iam desde uma rua de trânsito principal até os limites com a baía de Guanabara. A Coqueiro era uma referência geográfica, tanto pelo seu porte como pelo fato de exalar por suas chaminés uma catinga de peixe que impregnava as redondezas. Tudo ficava perto, antes ou depois da “fábrica” de sardinhas. Seus trabalhadores, talvez a maioria, eram mulheres que usavam uniformes brancos e um avental claro, além de toucas similares às toucas hospitalares utilizadas tradicionalmente pelas enfermeiras. Só para lembrar, na época ainda não se dispunha da variedade de materiais e produtos que constituem os atuais equipamentos de proteção, segurança e higiene. Com suas touquinhas e roupas brancas, no descanso após o almoço, as trabalhadoras ocupavam a frente da fábrica onde havia alguns bancos e árvores, além da rua por onde passava o caminhão de entregas de fubá. Formava-se uma multidão de trabalhadoras e no horário do almoço parecia uma festa.

Com os seus macacões empoeirados após uma manhã de entregas, mas também porque eles eram utilizados ao longo da semana, passar em frente à Coqueiro era um colírio para os olhos dos carregadores. Do caminhão com a velocidade reduzida, encarapitados nos sacos de farinha e fubá, eles mandavam para as trabalhadoras os galanteios que conseguiam elaborar. Não tinham noção que praticavam uma discriminação da qual eles também eram vítimas, e que reforçavam preconceitos e discriminações usuais e decorrentes da divisão social do trabalho em nosso sistema de produção. Para eles e elas, o trabalho de enfermagem era mais importante que o de enlatar sardinhas, então, chamar operárias de enfermeiras era um elogio. Certamente essa paquera das “enfermeiras” da sardinha é intolerável quando vista sob a óptica de quem busca despertar nos trabalhadores uma consciência de classe, mas ali essa regra não valia. Se, por acaso, fosse mal recebida a brincadeira era vista apenas como uma sacanagem, uma ironia sem agressão.

Certa vez chegou ao escritório onde trabalhávamos a reclamação de alguém que se identificou como representante da fábrica. O gerente considerou, mas logo se descobriu que era um namorado, marido ou coisa que valha de uma das “enfermeiras”. Ocorreu também que um dos carregadores passou a ter um relacionamento amoroso sério com uma das meninas. Um fato ou outro, eu não saberia explicar, fez desaparecer a paquera às moças da fábrica de sardinhas. Ainda hoje circulam trabalhadoras uniformizadas na região. Não consigo evitar pensar que de algum caminhão de entregas alguém gritará: Enfermeira linda, cuida de mim!

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terça-feira, 29 de outubro de 2019

O pequeno Zé


Leituras para distrair

O Zé era quase uma aberração, uma excentricidade. Não sei classificar. Ele devia resultar de uma adaptação darwiniana que preservara os processos cerebrais instintivos de sobrevivência e músculos. Porém, nada indicava que fosse dotado de uma característica humana básica: pensar o momento seguinte, de ter um propósito ou finalidade. Era uma “coisa” que vivia o momento presente e pronto. Sobrevivia por acaso e circunstâncias. Alguém sempre tomou conta dele, e entre os demais ajudantes de caminhão empregados no depósito de fubá o Zé era uma espécie de mascote. Pequenino, mas um dos mais fortes. Salvo as funções cerebrais, seu único indício de fragilidade de saúde era a falta da dentição frontal superior. Empregado antigo, os gerentes do depósito onde trabalhávamos sempre o protegeram. Enquanto trabalhamos juntos ele morava nas cabines dos caminhões de entregas que ficavam estacionados em um posto de gasolina durante as noites e os fins de semana. O gerente do depósito cuidava do seu salário e contingenciava uma parte para que ele tivesse o que comer. Uma marmita para o almoço e outra para o jantar. Semanalmente ele recebia vales para ter uns trocados. Seu mundo se limitava às andanças pelo bairro num raio de alguns quilômetros onde bebia suas cachaças. Era um sujeito  amigável, até porque era impossível esticar qualquer conversa com ele, logo não havia discordância.

Num dia de entrega no centro de Niterói, o Zé estava impaciente. Na Rua da Praia  nunca era possível cumprir os horários permitidos para entregas que precisavam ser feitas com caminhão em movimento, quase parando. As calçadas eram entupidas de gente, e para abrir caminho os carregadores batiam com as mãos nos sacos e pacotes de fubá e farinha provocando uma nuvem que afastava as pessoas.

Zé entrou no mercado cujo gerente era conhecido de todos por sua grosseria. Carregando 60 quilos de pacotinhos de farinha ou fubá na cabeça, Zé perguntou ao gerente onde deveria depositar a mercadoria. O sujeito cagou para ele que repetiu a pergunta. A moçada que presenciou disse que foram várias vezes até que o sujeito, sem mesmo olhar para o Zé, respondeu algo do tipo: joga aí, em qualquer lugar!  Zé não titubeou. Arremessou os pacotes no chão e a mercadoria explodiu espalhada por todos os cantos onde farinha ou fubá em pó conseguem atingir quando derrubados. Clientes, prateleiras, corredor tudo envolvido em pó e fumaça de fubá. Uma confusão dos diabos!

Interessante é que os detalhes dessas ocorrências só chegavam ao depósito na semana seguinte, através do vendedor que, puto da vida, reclamava com o gerente exigindo providências em nome dos seus clientes, punições etc.

Zé foi retirado daquela rota por uns tempos, o bastante para o assunto esfriar. A galera o sacaneava, chamando-o pelo apelido (Barrasco) e diziam: “Barrasco ... os homens querem pegar você!”. Referiam-se implicitamente a uma história que rolava, segundo a qual, antes de vir para São Gonçalo, o Zé teria acertado a foice em um capataz que implicou com ele quando ainda era cortador de cana no norte do Estado. Ele não esticava muito essa conversa. Respondia sempre, referindo-e ao tal capataz,  que “aquele” não perturbaria mais ninguém, e que ele (Zé) estava tranquilo porque os homens sabiam onde procurá-lo se quisessem pegá-lo. 

Não sei que fim levou o Zé. Sempre tive curiosidade. Certamente seguiu por aí, vendendo sua força de trabalho que alguém terá comprado e se apropriado do mais valor que produziu. Tomara que tenha encontrado outros protetores em seus caminhos.



terça-feira, 22 de outubro de 2019

Ninguém socorreu a vítima


Leituras para distrair
Eram duas senhoras e uma delas estava muito agitada. Parecia estar chorando, mas também brigando. Reclamava descontrolada com palavras incompreensíveis que pareciam um dialeto. A cena foi na entrada do depósito de fubá, onde trabalhávamos. Na rua algumas pessoas já se agrupavam curiosas. Eram empregados e comerciantes das lojas laterais ao depósito. Por ali o ambiente nunca estava vazio, sempre havia alguém jogando conversa fora ou usando o telefone do depósito que era um recurso raríssimo, às vezes também algum freguês que comprava direto no balcão. Formou-se um barraco! A senhora agitada gesticulava referindo-se a um pacote que ela carregava. Era um embrulho em jornal com alguns destroços. Finalmente conseguimos entender: o caminhão de fubá tinha atropelado o seu liquidificador!

O embrulho continha os restos de um liquidificador que nem era tão novo, mas que estava destroçado, vítima do atropelamento. Esclarecida a reclamação, a risada da galera foi quase uníssona, sem ninguém mostrar qualquer empatia com a situação da senhora. Gozação geral. O único que se controlou, certamente por obrigação funcional, foi o gerente que queria saber detalhes do ocorrido. Nervosa, a reclamante explicou que estava em seu bairro conversando com uma vizinha no caminho de ida ou volta de um técnico de reparos de eletrodomésticos. Para não ficar cansada enquanto trocava palavras com a vizinha, apoiou o embrulho no chão. Ocorre que a região não tinha infraestrutura de ruas pavimentadas, calçadas ou coisa que o valha. Nem mesmo acostamento para pedestres. Os limites das ruas eram as valas a céu aberto que drenavam o esgoto das residências. Entretida com a conversa ela se afastou do embrulho e o caminhão de entregas do fubá passou em “alta velocidade” desconsiderando o fato e esmagando o liquidificador.

Não era necessário especular para perceber o significado da perda do eletrodoméstico para aquela senhora humilde . Também não era preciso muita investigação para comprovar que tinha sido o caminhão de entregas. O atropelamento foi no bairro Galo Branco, em São Gonçalo. Os caminhões tinham pinturas inconfundíveis com o nome da marca pintado em letras garrafais nas laterais da carroceria. Mesmo sem os recursos atuais de comunicação, pelos horários sabíamos com precisão em quais endereços da rota o caminhão deveria estar. Tudo dava credito à história que a senhora contou. Sem querer confusão o gerente se comprometeu a tratar o assunto logo que o caminhão chegasse da entrega do dia.

A moçada vizinha adorou a história e todos esperaram a chegada do caminhão. Foi o acontecimento do dia – sempre havia algum. Quando o caminhão chegou o motorista não fazia a menor ideia do atropelamento. Algum dos carregadores chegou a lembrar de umas senhoras acenando em alguma parte da rota, mas ninguém sabia exatamente o que ocorreu.

O motorista foi repreendido por dirigir em alta velocidade. A reclamação de alta velocidade não era inusitada, era recorrente. Houve caso anterior em que um supervisor da matriz foi até um local de reclamação e consultou testemunhas. Sobre a velocidade alguém comentou que quando o caminhão passava, olhando-se as laterais, só dava para ler o “Fu”. Bastou para convencê-lo. Em nosso caso o gerente negociou e pagou um liquidificador para a reclamante. A história ficou no anedotário da calçada.

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terça-feira, 15 de outubro de 2019

Seu Nelso


Leituras para distrair

Era uma distância de cerca de 400 metros desde a porta do depósito de fubá e farinha onde trabalhávamos, em São Gonçalo, até um dos extremos da rua onde havia uma curva. Era de lá que “seu Nelso” apontava, de bicicleta, vindo de casa para o trabalho. O expediente começava às sete horas da manhã e invariavelmente outros empregados, também ajudantes de caminhão, já haviam chegado e assistiam seu Nelso apontar distante. O foco das atenções era verificar se ele vinha pedalando ou caminhando ao lado da bike. Chegar pedalando indicava um começo de dia normal, sem novidades. Caminhando ao lado da bicicleta sem montá-la era indício que o desjejum não se limitara ao café e tinha sido complementado com algumas doses de bebida mais forte, bem cedinho, cujo efeito já se fazia sentir.

Seu Nelso chegava calado, como se estivesse aporrinhado com a vida, sem dar muita conversa aos demais. Ele era um dos mais velhos do grupo onde todos fingiam não perceber o que estava acontecendo. Um falso respeito porque, sem constrangimentos, trocavam piadas sacanas sobre o estado etílico do companheiro  enquanto ele cumpria o ritual de vestir o macacão de trabalho. Havia um protocolo não explícito, mas aceito por todos, inclusive pelo gerente que tinha pleno conhecimento da situação: naqueles dias seu Nelso ocupava a posição de “batedor” no caminhão.

O batedor é o trabalhador com a função de colocar a mercadoria na cabeça dos carregadores de linha que a transportam. No caso, desde o depósito até o  caminhão durante a carga, e desde o caminhão até os locais indicados pelos clientes durante a entrega.

O batedor do depósito tinha função permanente porque era o responsável pela arrumação, organização das pilhas, costura das sacas, limpeza etc. Nos caminhões os batedores trabalhavam em rodízio por acordo entre os próprios carregadores. A tarefa exigia um esforço maior que os demais: coletar a mercadoria da cabeça dos carregadores e arrumar o carregamento do caminhão no início do dia, e realizar a operação inversa durante as entregas. Não era fácil! Afinal, cada caminhão saía diariamente com cerca de 8 a 10 toneladas de sacos e pacotes de farinha, fubá milho e derivados. Assim, nos dias que chegava meio chamuscado, seu Nelso fazia evaporar o álcool assumindo por sua conta a função de batedor. Eventualmente, ao longo do dia de trabalho, ele fazia as reposições necessárias para garantir o equilíbrio do seu metabolismo.

Apesar de maior esforço, a função dava certo poder a quem era especialmente forte, caso do seu Nelso. Um saco ou pilha  de 60 quilos de pacotes de farinha ou fubá depositados com força ou de forma maliciosamente desajeitada na cabeça do carregador poderia provocar o seu desequilíbrio derrubando a carga que estourava no chão na rua, no depósito ou nas dependências do cliente. Um transtorno cuja responsabilidade era sempre atribuída ao carregador que não tinha qualquer chance de apontar outro culpado. Tinha que se manter calado ouvindo as gozações dos demais que não faziam por menos. Bom cabrito não berra! Era a regra. Seu Nelso sabia disso, assim como todos, e as atividades transcorriam em clima quase cordial e sem incidentes maiores. Realizava sua tarefa e nunca vi nem soube que tivesse deixado algum furo.

Ao fim do dia seu Nelso voltava para casa, às vezes pedalando e outras vezes ao lado da bike. O amanhã seria outro dia. Boas lembranças.  ######


Nota: os fatos dessa crônica são reais, mas os nomes dos personagens foram adaptados, são fictícios.






sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Primeiras doses e parabéns pra você!


Leituras para distrair
Na cozinha, embaixo da pia. A cachaça tinha um lugar certo em minha casa. Lá, ficava a reserva do meu pai, que nunca foi muita. Um ou dois litros, eventualmente um garrafão de três ou cinco litros. Geralmente pingas fabricadas nos municípios de Itaboraí e Rio Bonito. Lembro-me de alguns rótulos: Cabeça Encarnada, Herondina, N. Rodrigues. Os garrafões, sem rótulos, vinham de alguns sítios da mesma região.

A minha mãe era quem limitava o excesso de consumo. A regra básica era o meu pai beber em casa. Algumas vezes o velho chegava meio “chamuscado” do trabalho – uma pinga com os amigos, mas era raro e, até onde percebi, provocava mais brincadeiras e piadas do que conflitos. Fazia parte de um anedotário familiar ao qual mesmo nós, crianças, tínhamos acesso.

Não lembro, mas terá ocorrido nessa época da infância o primeiro gole. Meu pai e um tio querido eram amicíssimos e curtiam fins de semana realizando trabalhos caseiros tipo pinturas, reformas e reparos. Ouviam futebol, molhando as conversas com umas cervejas e pingas. Bem menino, eu ficava próximo e eles toleravam, fingindo contar com a minha ajuda. Eventualmente eu era premiado com uma bicada na cerveja. Um privilégio. Prática incorreta e inadmissível hoje, mas que me deixava vaidoso.

Adolescente, vieram as experiências etílicas, como as de muitos meninos: Cuba Libre, Samba em Berlim, Gim Tônica, Caju Amigo, Fogo Paulista com Fernet, além da cerveja. Era o que rolava no meu mundo gonçalense. Com uma vaidade típica de moleque querendo aparecer, aventurava-me numa pinga pura, uma aventura que outros não ousavam e que abria espaço para a minha exibição.

Amigos levados em casa conheceram meu pai sempre cordial e camarada. Brindava-nos com umas doses do seu acervo, e para alguns era a primeira oportunidade de beber uma cachaça. Já adulto e com filhos foram muitas as oportunidades e felicidade de lamber umas pingas em companhia do meu pai. Aliás, sem pieguices, bebi umas doses em nossa última conversa. Ele não podia devido às suas condições de saúde, no máximo um copinho de cerveja.  A vida me presenteou com essa experiência e lembranças boas. Ô sorte!

Sempre gostei de beber uma cachaça. O tempo, a maturidade, as experiências e também a possibilidade econômica permitiram que o gosto fosse aprimorando, reforçando a preferência e provocando a curiosidade sobre o produto. Assim, descobri outros aspectos que relacionam a cachaça com a história econômica, cultural e política do Brasil. Juntou a sede com a vontade de beber. Adoro bebericar uma pinga, jogar conversa fora ou conversar sobre ela e suas características. Sempre fiz isso com amigos antigos e, mais recentemente, com outros mais novos e participantes da Confraria de Cachaça Copo Furado do Rio de Janeiro e do Clube Carioca da Cachaça.

A propósito, essas lembranças vieram por conta de estar lambendo uma em homenagem e celebração do sexagésimo quinto aniversário do meu querido irmão que é mais novo e, no momento, mora em local distante. Naturalmente ele teve experiências distintas, porém, compartilhamos a preferência prazerosa e desfrutamos juntos esse prazer sempre que possível – beber uma cachaça. Tomara que as oportunidades ainda sejam muitas. Por ora, parabéns para ele.
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terça-feira, 24 de setembro de 2019

Bozo e, após, Trump! Quem terá coragem de usar esse banheiro?


 Opinião

Naturalmente o pronunciamento do Bozo na ONU, hoje, 24/09/2019, foi uma merda. Mas, não foi uma surpresa. A verbalização dos seus pensamentos - propositalmente evito o termo “ideias” - foi como o despejar de uma cloaca. Não faria sentido esperar algo diferente.

Algumas de suas afirmações tiveram dados distorcidos e outras falsas. Mas, valorizo o fato de terem sido uma explicitação do que ele representa e da natureza do seu mandato. Uma representação política de ultradireita conservadora. Um governante servil e submisso ao capital internacional e suas representações políticas. Um mandato sem qualquer projeto de desenvolvimento e autodeterminação para o país. No mais, foram manifestações semi-veladas de sectarismo religioso e outras explícitas de antagonismo às históricas opções de preservação dos ecossistemas que constituem o Brasil e dos seus ocupantes originais identificados como indígenas.

O discurso está ai, para quem quiser ler. Algum eleitor Bozo poderia replicar arriscando outra interpretação. Trump elogiou - “ótimo discurso!” - teria comentado. Porém, os acontecimentos cotidianos seriam tréplicas mais do que as necessárias porque eles confirmam e reafirmam a prática vergonhosa desse ex-capitão de inhaca miliciana. Desmonte e entrega das empresas nacionais; desmonte do sistema educacional e da infraestrutura legal de proteção trabalhista; a destruição do sistema de seguridade social; o incentivo às ações de extermínio da população carente; o preconceito social e religioso, além de medidas que, agora, avançam para a censura às artes e aos costumes. Práticas fascistas para nenhum dos seus eleitores botar defeitos.

Bate um sentimento forte de nojo e embrulho de estômago, mas isso a gente até controla. Hora dessas viraremos esse jogo e expurgaremos essa sensação, entre festejos e abraços, unidos no mutirão de reconstrução do país para melhor. O Bozo e sua gente irão para a “lata de lixo da história” onde outros de sua laia já estão. Ruim mesmo é o sentimento de perda daqueles, alguns próximos, outros nem tanto, que não só apostaram, mas que mantêm o apoio a esse projeto putrefato e corrompido. Revelam assim seus princípios, valores e caráter, mesmo com esse chorume político que representa o voto no Bozo vazando todos os dias, sobre nós. A quadrilha já não consegue se esconder nem disfarçar. Mas, ainda tem adeptos, infelizmente. Não tem jeito, serão todos despejados. Haja desinfetante!


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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Quadrilhas e esquadrilhas


Opinião

Têm sido replicadas com justificado interesse as notícias sobre a apresentação, no último dia 10/09/2019, do primeiro F-39 Gripen brasileiro, jato de caça militar resultante de um convênio da FAB com uma empresa sueca. Sem dúvida um fato importante, mas as notícias em geral valorizam as possibilidades acrobáticas e bélicas das aeronaves sem alguns complementos importantes relativos ao assunto.

A decisão do contrato com a empresa sueca para a aquisição desses caças e a participação da engenharia nacional no desenvolvimento dos projetos foi uma batida de martelo assumida pelo governo Dilma Rousseff sob fortíssimos protestos de muitos da quadrilha que planejou e executou a sua deposição e que fazem parte do governo atual.

O ex-presidente Lula e um dos seus filhos foram acusados de terem levado grana por influenciarem nessa transação. A acusação – outra sem indício ou prova – parece ser uma das tantas dentro do esquema de tirar Lula do cenário político. A acusação permanece, mas ficou sem sustentação após a defesa de Lula conseguir levar aos tribunais, na própria Suécia, o premiê daquele país para depor sobre o assunto.

A Embraer e o Depto, de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da Aeronáutica além de outras empresas são beneficiarias do programa de transferência de tecnologia associado ao contrato. Contudo, o principal pressuposto suporte para esse projeto era uma Embraer nacional que deixou de existir. O governo atual permitiu a sua venda para a Boeing e construiu-se um espantalho chamado “Embraer Defesa e Segurança”, como se os esforços integrados de desenvolvimento de alta tecnologia na aviação (ou qualquer outra área) pudessem ser divididos em  “civil” e “militar” , tal e qual cenouras e batatas.

Vendo os jatos em suas acrobacias e possibilidades e confrontando com o cenário de impossibilidades decorrentes das ações levadas a cabo pela quadrilha Bozo, a moçada da FAB deve estar se sentindo como o menino da anedota. Segurando um punhado de bosta e boquiaberta perguntando sobre o que foi feito do seu cavalo.    


Assista ao vídeo: Caça brasileiro com tecnologia de ponta. Observações  do jornalista Roberto Godoy.

Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=py-RR3ysVss> Acessado em 11/09/2019

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terça-feira, 27 de agosto de 2019

Liberdade – cabe no dicionário?


Leituras para distrair 


... Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
(Thiago de Mello – Estatutos do Homem – Poeta amazonense)

Recebi esse vídeo (abaixo) de um querido companheiro dos tempos de Embratel. Lindo vídeo. Eu já tinha assistido, ainda assim fiquei emocionado. Nem falo dos arrepios que tomam conta da pele – mesmo dos comunistas avermelhados pela ideologia do folclore -  quando estamos por lá, na Amazônia. Ele é simbólico para muitos de nós. Refiro-me à minha “geração” de trabalho na Embratel, naturalmente. Outros vídeos que fossem elaborados, em outras áreas e temáticas, provavelmente teriam efeito similar [1].

Individualmente tivemos a oportunidade de vivenciar nossas carreiras profissionais em um local e período importantes. Um período de construção, do fazer o que nunca foi feito e de poder ver o feito. Temos a consciência de que fizemos o nosso melhor, e que esse melhor foi dado em troca de algo bom e para ser compartilhado por muitos. Nesse mesmo tempo, crescemos e aprendemos. Sentimos orgulho e autoestima. De formas variadas deixamos nossas marcas. Somos felizardos. Não são todas as pessoas que têm essa oportunidade. Algumas chegam a ter, mas por razões diversas não conseguem aproveitá-las, não conseguem usufruir delas. Isso valoriza o nosso sentimento.

Em grupo a oportunidade foi quase única. Empregamos nosso trabalho em uma empreitada para construir um país melhor. Em uma empresa que representava a sociedade e que trabalhava para ela. Sabíamos disso. Sempre sentimos orgulho em nos apresentar como trabalhadores daquela que era um querido símbolo nacional. A simples menção do seu nome, onde estivéssemos, era bastante para sermos distinguidos com respeito e cortesia.

Naturalmente esse processo ocorreu com distorções e equívocos, além de conflitos (muitos) entre empregados e as direções da empresa. Mas, nunca fomos alienados em relação a esses aspectos e situações. Éramos trabalhadores empregados de uma empresa pública, sob a égide de relações de trabalho capitalistas, e enfrentamos essas contradições. Ao final, foram mais lições que aprendemos.

O corporativismo entre os trabalhadores da nossa empresa sempre foi uma marca forte. Chegou a ser uma dificuldade na integração com outros trabalhadores da área de telecomunicações. Mas, felizmente, superamos e, primeiro, veio a compreensão de fazermos parte de uma categoria e, depois, uma consciência classista. Éramos, genericamente, trabalhadores. Um grande avanço. Fomos exemplos e fizemos história. Mas, no aspecto profissional praticamos um corporativismo sadio que nos fazia cobrar, uns dos outros, o melhor que se pudesse dar. O produto do nosso trabalho não podia deixar a desejar. Trabalhador cagão não se criava nas equipes!

A fibra óptica atravessando parte da Amazônia foi certamente o último projeto oriundo desse espírito de brasilidade. Uma marca que impregnou a empresa tão intensamente, a ponto de viabilizar o projeto, mesmo num período onde a ela já era de propriedade privada, e seus caminhos ditados pelos interesses particulares de acionistas proprietários.

Esse é o sentimento que muitos de nós ainda trazem consigo. Uma sensação de bem-estar. Um orgulho e vaidade despretensiosos, sem soberba nem presunção. Uma sensação boa de poder ter sido um bom profissional e cidadão.

Hoje vivemos, infelizmente, outros tempos. No caso da Amazônia, outros interesses e outros sujeitos buscam destruir ou se apropriar do que foi realizado com esforço e sacrifício de tantos, de muitos além de nós. Desde as gigantescas antenas “billboards” da tropodifusão, até o ousado e moderno “cabinho” de fibras” que, parecendo um cipó que busca o seu caminho natural, em vários trechos caminha em zigue-zag, num truque para mitigar a agressão à floresta.

Circunstancialmente, essa mesma Amazônia, cujos projetos elaborados por servidores públicos de telecomunicações trataram com tanto respeito e dedicação para integrá-la, está sendo objeto de interesses privados e literalmente queimada e destruída por esses interesses.

Não tem jeito. A alternativa é enfrentar. Se alguma transformação positiva tiver que ocorrer, não tenhamos dúvidas, surgirá na nossa capacidade e decisão de lutar.

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Vídeo sobre a implantação do cabo óptico na rota Porto Velho – Manaus. Uma obra da Embratel. Modernização das telecomunicações na Amazonia. Produzido por empregados da Embratel. Disponível em <https://www.facebook.com/100007691825558/posts/3139925442692056/?substory_index=5&sfnsn=mo&s=100000682924569&vh=i> - Acesso em 27/08/2019

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terça-feira, 20 de agosto de 2019

Sem rezas e com pragas de muitos


Leituras para distrair

História triste do sequestrador da Ponte Rio - Niterói. Talvez venhamos a saber mais sobre ele, quem sabe, sobre a provável motivação de sua ação. Por ora, será tido como um borra botas. Um coitado, embora perigoso, que morreu atrapalhando o tráfego.


Nem deveria assistir TV. Teria imaginado que seria alvejado logo que se expusesse. Por um atirador de elite – cena corriqueira de filminho brega americano,  ou por um cagão fardado e sem experiência como no caso do ônibus 174.

Talvez um suicida. Burro! Idiota! Mas, a idiotice da sua ação não ficou muito atrás do gesto idiota do atirador que “comemorou” a sua derrubada.

A única coisa que fez sentido nessa história, porque é recorrente, foi o aparecimento do vendedor de coxinha ou bolinho, seja lá o que for, divulgado pelas fotos do local. Esse fenômeno do aparecimento instantâneo dos vendedores de guarda-chuvas, capas, água mineral e salgadinhos precisaria ser pesquisado por teses universitárias. Eles aparecem e desaparecem subitamente. Então, deve haver um momento zero, uma espécie de big-bang que dá origem ao fenômeno.  Os congestionamentos e a precipitação de chuvas funcionam como chaves que abrem portais de comunicação com outra dimensão onde vivem. Portais que atravessam e aparecem nessas situações.

Algumas das fotos mostram o equipamento do vendedor muito bonitinho, sem fitas adesivas remendando e envolvendo os isopores, etc. Distante da imagem comum de ambulantes. Mais para um catering de sequestro. Ao mesmo tempo, as sandálias de dedos dão uma identidade popular ao cara que está servindo as coxinhas e que parece estar sem identificação. A freguesia parece ser a moçada que estava por ali. Figurantes.  Desfaz a ideia de catering para artistas principais.

O final foi trágico. Não há o que comemorar. Sem pressa foi cada um pro seu lado. Até porque o congestionamento foi monumental. Nossas janelas de zap, instagram e facebook não há como fechá-las. Continuarão abertas, de frente para tantos crimes.

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