segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Geografia de uma Revolta

 Leituras para distrair


Não foi por acaso que a Revolta da Cachaça (um conluio de senhores de engenho que se opuseram às determinações da Coroa portuguesa sobre a produção e a comercialização da cachaça no Brasil) teve como núcleo de sua organização o atual município de São Gonçalo de onde os revoltosos atravessaram a poça para tomar de assalto o governo da cidade do Rio de Janeiro.

Na ocasião, segunda metade do século XVII, o Rio de Janeiro era uma vila. Alguns registros apontam entre 10 e 20 mil habitantes, dos quais aproximadamente dois terços eram pessoas escravizadas e indígenas. A cidade era a sede de importante contingente militar, mas sua importância decorria sobretudo do fato de ser o principal porto de navios negreiros na América do Sul, além de um centro de comércio de escravizados.

Sua relevância aumentaria no final do século com a explosão da descoberta do ouro em Minas Gerais. O porto passou também a escoar ouro para a metrópole, e a cidade ganhou o status de Capitania Real, sendo na prática administrada diretamente pela Coroa portuguesa.

Diferentemente do que ocorre hoje, o binômio geográfico Rio–Niterói não existia. No século XVII, a conexão terrestre do Rio era basicamente com a região oeste do atual estado, notadamente com São Paulo. As ligações com as demais regiões fluminenses tinham como última ou primeira etapa a travessia marítima da baía de Guanabara.

A travessia terrestre contornando a baia de Guanabara só se consolidou no fim do século XIX. Até então, essas conexões dependiam de portos localizados na região de São Gonçalo, município vizinho a Niterói, igualmente banhado pela baía.

São Gonçalo e adjacências concentravam diversos engenhos instalados em enormes latifúndios, e foram esses latifundiários que se articularam para contestar a política da Coroa em relação à cachaça.

Conforme os historiadores, as articulações ocorreram na região de São Gonçalo hoje conhecida como bairro Gradim, no fundo da baía, próxima a um importante porto pesqueiro, já extinto, chamado Porto da Ponte, numa região que abrigava cerca de uma dezena de portos responsáveis pelo escoamento da produção de fazendas e engenhos. Assim, não foi por acaso que dali saíram os insurgentes.

Aquela infraestrutura portuária foi posteriormente superada pelo transporte rodoviário e depois abandonada, aliás fato recorrente em nossa história. Contudo, São Gonçalo preserva essa memória na toponímia de muitos dos seus bairros: Porto da Valla, Porto do Rosa, Porto da Pedra, Porto Novo, Porto (do) Velho, Porto da Madama, Guaxindiba (Porto de) e Neves (Porto das).

Com a terceira maior população do país, excluindo-se as principais capitais, curiosa ou infelizmente, São Gonçalo não possui até hoje um serviço direto de transporte marítimo de passageiros para o Rio de Janeiro. No atual bairro Gradim, além do comércio urbano, funciona um relevante polo de reparo e manutenção naval. Também tem alguns botecos que já frequentei, mas nunca beberiquei por ali uma cachaça que valesse a pena ou que fizesse jus ao importante fato histórico. ###




Nota

As citações desse texto podem ser buscadas nas seguintes referências: O Rio de Janeiro no século 17 (Vivaldo Coaracy – José Olympio Editora); São Gonçalo no século 17 (Evadyr Molina e Salvador Mata e Silva – Cia. Brasileira de Artes Gráficas); O município de São Gonçalo e sua história – (Maria Nelma Carvalho Braga – Edição Independente); Memórias da Cidade do Rio de Janeiro (Vivaldo Coaracy – Editora da USP); Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro (RJ) – 1850;

 https://memoria.bn.gov.br/hdb/periodico.aspx - Acesso em 01/08/2026;

 https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9103-estimativas-de-populacao.html - Acesso em 01/08/2026

Publicado originalmente em "Pinga nos III" - 35 -  Agosto 2026, um jornal da Confraria de Cachaça Copo Furado Rio de Janeiro.

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