sábado, 31 de março de 2018

Não Acabou! Tem que acabar!


Opinião

“Não acabou! Tem que acabar! Eu quero o fim da Polícia Militar!”

Não é simples gritar essa palavra de ordem tão forte e significativa, e que foi, sem dúvida, um dos bordões mais aclamados nas manifestações decorrentes dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

Gritar pelo fim da polícia que conhecemos é um apelo significativo não apenas para a conjuntura carioca, mas para a situação brasileira em geral. A criminalização generalizada das manifestações políticas com a consequente repressão policial em nosso país já é um fato e virou prática comum. Deixou de ser uma possibilidade, não importa o partido que esteja no comando do governo. Qualquer movimento organizado consequente está obrigado a pensar sobre como enfrentar essa realidade, especialmente aqueles que agregam as comunidades carentes que são as mais oprimidas e reprimidas pelo Estado.

Foi com essa convicção e tentando aumentar a sua divulgação, que resgatei a histórica entrevista do ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Helio Luz, figura cuja biografia é pública e conhecida [1]. Lá se vão mais de vinte anos da entrevista, ocorrida em maio de 1997, e as questões colocadas pelo ex-delegado são atualíssimas.

O objetivo de ampliar a divulgação da entrevista é provocar e estimular o exercício da nossa crítica sobre uma questão que salta de nossas gargantas como palavra de ordem nas manifestações, mas que também nos compromete com a viabilização e com as  consequências da nossa vontade.

A nossa polícia foi criada para fazer a segurança de Estado e da elite.  São palavras de Helio Luz. Seu pessoal é recrutado basicamente na periferia, o Estado tolera a sua violência na proteção ao patrimônio, paga salários irrisórios ao policial e lhe dá ordem para “se virar”.

Nesse modelo a polícia é necessariamente violenta e corrupta. Mas, ela realiza a função para a qual foi criada e, na verdade, desempenha com eficiência o seu papel – diz o ex-delegado.

O clamor por uma polícia não violenta e não corrupta significa cobrar da polícia que ela proteja a sociedade. Porém, essa cobrança está sendo feita a uma polícia que não foi criada para isso. A polícia para proteger a sociedade simplesmente não existe. Precisaria ser construída, e isso é uma reviravolta.

Então, prossegue o ex-delegado, não é necessário consumir tempo debatendo se a polícia é, ou não, violenta e corrupta. Essa questão já está respondida afirmativamente. A polícia é violenta e corrupta. O avanço seria transformar essa polícia, o que não é algo simples, embora seja viável. Porém, para tal mudança é necessário que, preliminarmente, a sociedade responda a si própria se, de fato, há interesse em uma polícia não violenta e não corrupta.

A questão da violência parece não trazer dúvidas sobre a vontade social, mas no caso da corrupção, há contradições. O delegado questiona complementando que a polícia não corrupta será aquela que não deixará o carro parar no local proibido, nem permitirá puxar fumo no Posto 9, nem deixar o pessoal cheirar em Ipanema. E os mandados serão cumpridos com o pé na porta na Delfim Moreira, como se faz em outros países. É assim que funciona a polícia no primeiro mundo, diz ele. A polícia no primeiro mundo também não é perfeita, e não é diferente da nossa em seus mecanismos de discriminações e exclusões. Essa característica não é exclusiva da polícia brasileira, afirma Helio Luz. A diferença é que no primeiro mundo a classe media está dentro da policia, o que não ocorre aqui.

Aqui, os protegidos são apenas o Estado e a elite. E é para garantir isso que a comunidade pobre é reprimida e segregada pela polícia, em vez de receber proteção. Trabalho bem feito, afirma o ex-delegado. Nem são necessários cercas de arames para essa apartação, como ocorre na África do Sul, exemplifica Helio Luz. A entrevista na íntegra pode – e deveria – ser assistida no link abaixo [2]. Vale a pena.
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[1]
Hélio Tavares Luz (03/04/1946) foi chefe de polícia do Rio de Janeiro (1995 -1997) no governo Marcello Alencar (PSDB). Em setembro de 1997, seis meses após a entrevista citada nesse blog, ele foi afastado do cargo por se deixar fotografar ao lado de policiais que questionavam plano de cargos e salários.  Elegeu-se deputado estadual no Rio de Janeiro, pelo Partido dos Trabalhadores (PT), entre 1999-2002, mas deixou o PT em 2002 por discordar de "procedimentos internos do partido". Atualmente está aposentado.

[2]
Link para entrevista com o deputado Helio Luz – Acesso em 31/03/2018.
 
Essa entrevista de Helio Luz foi a base de um documentário intitulado “Notícias de Uma Guerra Particular”, de João Moreira Sales. Recentemente, em fevereiro de 2018, uma matéria da BBC Brasil resgatou a entrevista de 1997 e fez nova entrevista recolhendo as impressões do ex-delegado sobre a intervenção militar no Rio de Janeiro. O texto da entrevista da BBC está em <http://www.bbc.com/portuguese/brasil-43207272> Acesso em 31/03/2018.



terça-feira, 27 de março de 2018

Espaço no adesivo


Opinião

Duas pessoas foram assassinadas no Rio de Janeiro e uma terceira sofreu pequenas lesões de estilhaços, além do trauma emocional. Entre os mortos, uma das vítimas foi o alvo de um homicídio programado e planejado contra uma figura pública. Uma representante popular, uma vereadora cujos posicionamentos políticos colidiam frontalmente com interesses de certos grupos e que diziam respeito exatamente ao cenário de preconceito, discriminação e violência contra grupos sociais representados pela vereadora. A outra vítima foi um trabalhador que estava cumprindo a sua tarefa e circunstancialmente servia de motorista para a vereadora no momento dos assassinatos.

O evento provocou comoção geral com mobilizações e manifestações de repúdio, no país e no exterior, e de cobranças de ações e providências das autoridades responsáveis por identificar e punir os autores da chacina.

Os muitos movimentos e mobilizações têm focado os dois assassinatos, mas notadamente as palavras de ordem de registro e cobranças de providências nos cartazes, faixas, botões, adesivos etc. têm se referido ao fato valorizando o nome da vereadora e colocando em segundo plano o do motorista também assassinado. Essa situação tem gerado polêmicas e cobranças entre a própria militância, sob o argumento que se trata de uma discriminação indevida não citar a cada instante e em toda a oportunidade o nome do motorista ao lado do nome da vereadora, ambos assassinados. A propósito, uma crítica apropriada por alguns que buscam desqualificar as manifestações.

Uma justificativa recorrente é remeter aos sentimentos dos familiares do motorista e de tantos outros vitimados pela violência caótica na cidade do Rio de Janeiro. Na mesma linha argumentam os familiares de policiais também vitimados e cujas desgraças não despertam tantas emoções como foi o caso da vereadora.

Para mim não faz sentido tentar comparar as tragédias humanas que significaram essas duas mortes e as tantas outras. Ao mesmo tempo, entendo que o fato político é distinto da tragédia humana, embora não seja mais nem menos grave ou importante. Mas, é distinto. A enorme repercussão do fato se deu, infelizmente, por conta do simbolismo político da vereadora. Não fosse esse simbolismo ambas as mortes estariam contabilizadas como mais duas entre as tantas tragédias que ocorrem na cidade, e que, inclusive, já ocorreram após o duplo assassinato.

Não deveria estranhar que os apelos se façam em nome da morte da vereadora, mais do que em nome do motorista, pelo fato de se tratar de uma questão de comunicação, de amplificação dos canais de transmissão das informações para um maior alcance das denúncias. E será por esse canal de grande alcance e de maior capacidade que fluirão as denúncias do assassinato da própria vereadora, do motorista assassinado e de tantos outros casos que também decorreram dos embates que levaram aos assassinatos em pauta.

Ambas as vítimas terão os seus nomes clamados nas oportunidades que houver, mas será um estreitamento da visão não compreender que em outras situações as referências serão efetivamente simbólicas porque o símbolo carrega em seu conteúdo um conjunto enorme de informações e conceitos, e o símbolo, circunstancialmente é o nome da infeliz vereadora, não é o nome do também infeliz motorista.



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sexta-feira, 16 de março de 2018

Para Marielle e Anderson


Opinião
Impossível conter a emoção. Duas vidas que se foram. Tristeza e luto para os seus familiares, amigos e companheiros próximos de luta e militância. Mas, os assassinatos da vereadora carioca e do seu motorista também são uma lição para os demais militantes que partilhamos dos mesmos ideais de luta. É assim que o sistema reage quando sente que batemos forte. E não nos iludamos, só avançaremos batendo forte. Já está claro que, nesse processo, a apregoada democracia é o primeiro valor que a reação manda para o espaço e que a tentativa de eliminação política é ato recorrente. Mas, quando conseguimos levar a disputa para as ruas, num campo onde as máscaras já não disfarçam as intenções, então a coisa muda. A reação parte para a eliminação física. Foi isso que aconteceu com a companheira vereadora Marielle e, consequentemente, com o motorista Anderson cujo trabalho era realizar o seu trasnsporte.

A dor amanheceu em nossa porta. A enorme quantidade de pessoas que se concentrou em frente à Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro desde a manhã de hoje, 15/03/2018 e, mais tarde, em frente à Assembleia Legislativa atendeu com garra às palavras de ordem que apelavam os nomes de Marielle e  Anderson, mas também com grande dificuldade. Responder “Presente!” e “Sempre!” não foi simples, na medida em que muitos dos gritos de resposta foram embargados por choros contidos de integrantes de uma multidão visivelmente emocionada, apesar de coesa pelo desejo de transformar a nossa realidade.

Façamos desse fato uma reflexão sobre ocorrências similares pelo Brasil a fora e que, embora gravíssimas, não repercutem como os fatos do Rio de Janeiro, nem nos emociona tão fortemente, porque ocorrem distantes do nosso cotidiano, em ambientes que para nós são quase não lugares.

Outros companheiros tem sido assassinados em rincões do país onde enfrentam jagunços e milícias, quando não se deparam com a própria força policial estatal que realiza sem constrangimentos o papel de cães de guarda de sistemas corruptos. São muitos os casos onde trabalhadores são obrigados a assistir a degradação emocional, a tortura e até a eliminação física de outros que se destacam como líderes em suas reivindicações. Situações que, para nós, aparecem como fatos distantes, geralmente com narrativas filtradas por  editorias de jornais  que banalizam os acontecimentos. Devemos imaginar a dor daqueles companheiros como aquela que sentimos hoje.

O evento do Rio de Janeiro é uma lição. Nós estamos com a razão, embora sejamos vulneráveis, mas não estamos sós. A identificação política que se expressou, hoje, na Cinelândia e na Praça XV vai bem além do Rio de Janeiro, e deu mostras que há um núcleo de identificação política e cultural que pode nos permitir avançar para uma sociedade melhor. Mas, é preciso seguir em frente batendo forte e metendo os dedos nas feridas. Essa será a maior homenagem que poderemos prestar a esses tantos companheiros que sofreram duras penas por não se dobrarem e imporem os seus direitos e as suas reivindicações.

Companheiros militantes da liberdade e da solidariedade! Presentes! e Sempre!


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domingo, 11 de março de 2018

Ganhe o seu dia – leia Chomsky.

Opinião

Esse gigante político que marcou sua presença de forma indelével no século XX continua apaixonando os militantes da esquerda – eu entre eles. Quem quiser conferir veja a entrevista recente publicada no jornal El Pais em 10 de março, último: Noam Chomsky: “As pessoas já não acreditam nos fatos”.

Recentemente recebi uma charge com os dizeres “ Coxinha macho mesmo larga o apartamento e vai morar na favela. Lá tem tudo que ele adora: Estado mínimo e intervenção militar”. A charge soa como piada, mas vejam o pronunciamento do Chomsky:

P. Então o neoliberalismo triunfou?

R. O neoliberalismo existe, mas só para os pobres. O mercado livre é para eles, não para nós. Essa é a história do capitalismo. As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são autênticos marxistas, mas com os valores invertidos. Os princípios do livre mercado são ótimos para ser aplicados aos pobres, mas os muito ricos são protegidos. As grandes indústrias de energia recebem subvenções de centenas de milhões de dólares, a economia de alta tecnologia se beneficia das pesquisas públicas de décadas anteriores, as entidades financeiras obtêm ajuda maciça depois de afundar… Todas elas vivem com um seguro: são consideradas muito grandes para cair e são resgatadas se têm problemas. No fim das contas, os impostos servem para subvencionar essas entidades e com elas, os ricos e poderosos. Mas além disso se diz à população que o Estado é o problema e se reduz seu campo de ação. E o que ocorre? Seu espaço é ocupado pelo poder privado, e a tirania das grandes corporações fica cada vez maior.

E para aqueles que ainda olham estupefados a guinada para a direita ocorrida na ordem política brasileira pós-mandatos populares de Lula e Dilma, veja uma situação na pátria liberal, os EUA,  sob a óptica do Chomsky .

P. Acha possível que se repita o que ocorreu nos anos trinta?

R. A situação se deteriorou. Depois da eleição de Barack Obama se desencadeou uma reação racista de enorme virulência, com campanhas que negavam sua cidadania e identificavam o presidente negro com o anticristo. Houve muitas manifestações de ódio. No entanto, os EUA não são a República de Weimar [democracia alemã anterior ao nazismo]. Precisamos estar preocupados, mas as probabilidades de que se repita algo assim não são altas.

E por aí vai. Quem se interessar leia a entrevista, na íntegra, no link abaixo. Sugiro que o façam: 

<https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/06/cultura/1520352987_936609.html> -  Publicada em 10/03/2018  - Acesso em 11/03/2018.

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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Não à intervenção militar no Rio de Janeiro


Opinião

A intervenção no Rio de Janeiro não é uma medida contra o desgoverno da segurança pública. Bem antes disso, trata-se de uma reação do governo golpista ao ambiente de manifestações que ocorreram durante o Carnaval em toda a cidade e que superaram todas as expectativas.

Superaram até mesmo a máquina de propaganda oficial, a Rede Globo, através das expressivas, inegáveis e irreparáveis mensagens divulgadas pelos blocos e escolas de samba que não só denunciaram para o mundo, mas traduziram de forma poética e pedagógica a farsa política ainda mantida em nosso país.

A população não ignora a realidade da situação da segurança pública da qual ela é a principal vítima, e sabe avaliar os seus próprios limites, as suas possibilidades e as suas necessidades. Mas, não tenhamos dúvida, ela não é boba. Como em um desfile ensaiado ela aguardou, “esperando pra quando o Carnaval chegar”.

Os golpistas sabem disso ao mesmo tempo em que se aproveitam disso. Sabem que os protestos no Rio de Janeiro ressoam em todo o país, ainda que a revolta política não tenha chegado ao patamar de reversão da ordem e destituição desse governo corrupto e golpista.

A criminalidade do Rio de Janeiro, em que pese a sua realidade, é apenas o mote. O objetivo dessa intervenção é uma tutela militar contra as manifestações que avançam, cada vez mais consistentes, com a palavra de ordem Fora Temer e Fora Todos!

A “segurança pública” será o coro da ladainha repetida pela mídia golpista. Tudo se justificará em nome da busca desse cálice sagrado. Mas, a realidade é que a cidade do Rio de Janeiro está classificada pelos golpistas como “território hostil”. Salvo os que bateram panelas em favor do golpe e pelo retorno da ditadura, quem acreditará em alguma capacidade de discernimento de forças armadas agindo com carta branca onde quiserem e contra quem quiserem? A realidade é que a população do Rio de Janeiro está sendo brindada com mais uma milícia, dessa vez armada até com blindados. Afinal, o Haiti é aqui!

Daí ser importante que em cada espaço, em cada momento em que o discurso golpista for repetido, que ele seja contestado. Segurança pública é o escambau! Essa intervenção visa sufocar os gritos de Fora Temer e Fora Todos! Visa não deixar que eles ultrapassem as arquibancadas do sambódromo. Gritos que ainda ecoam como estribilho de sambas enredos, mas que  trazem consigo o potencial de mobilizações e transformações.

Não à intevenção militar no Rio de Janeiro!


Sobre a anunciada intervenção na segurança do Rio

Opinião

Não nos enganemos - a anunciada intervenção na segurança do Rio decorre determinantemente das manifestações contra o governo Temer e o seu grupo no poder realizadas pela população durante o carnaval em praticamente toda a cidade, no Aeroporto Santos Dumont e carimbadas com um "não" definitivo nos desfiles do sambódromo. É esse potencial de manifestação política, que pode se alastrar como um rastilho de pólvora por todo o país, o catalisador das medidas de intervenção. Será um equívoco achar que as medidas federais decorrem, especialmente, de uma reação aos arrastões nas praias e às balas perdidas e de uma preocupação com a segurança pública. Trata-se, isto sim, de uma autoproteção, uma camisinha política do governo Temer tentando prevenir uma intervenção no seu próprio governo.

O Estado do Rio e a cidade do Rio de Janeiro vivem um caos político e administrativo - isso é um fato. Mas, também é o Rio de Janeiro que - a i n d a - funciona como caixa de repercussão de manifestações políticas. Seria presunção apontar uma causa inicial e exclusiva para um movimento que está em redemoinho, mas não há como desconsiderar que a cidade do Rio de Janeiro vive um potencial de rebelião social e que são as manifestações contra a ordem federal que estão determinando algumas ações, pelo menos as anunciadas.

Crivella não abandonou fisicamente a cidade por burrice, convicção religiosa ou incompetência política. Ele tem uma poderosa força política demonstrada com a sua própria eleição e resguarda-se, como também tenta fazer o seu antecessor, Eduardo Paes. O PMDB, por sua vez, tem dificuldades em sua representação política no Rio. Seu quadro carioca de expressão em Brasília  é o gato angorá, Moreira Franco. O governador Pezão é o que é (ou não é) e o vice-governador Francisco Dornelles já não existe na prática. Os demais quadros partidários são políticos locais, municipais, sem expressão na cúpula nacional do partido. Restaria um quadro aliado mais próximo, de outro partido, o Roberto Jefferson, imobilizado para esse tipo de função. Outros companheiros da aventura golpista do PMDB seriam os relacionados ao presidente da Câmara, Rodrigo Maias, mas os eventos recentes sugerem que esses atiçam lenha na fogueira do Fora Temer!

Sem quadros de representação política e ameaçado por um abalo na ordem pública, o grupo golpista faz de tudo para garantir o seu projeto, até porque o PMDB já superou há bastante tempo os constrangimentos de realizar uma intervenção em uma unidade federativa que ele mesmo governa.

Nesse cenário, não é absurdo esperar as ações anunciadas apontem, na prática, contra as manifestações políticas. Quem tiver a expectativa de uma repressão à criminalidade urbana que tire o seu cavalinho da chuva, que guarde as suas carteiras e que torça para não ser premiado com uma bala perdida.

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domingo, 11 de fevereiro de 2018

Cordão do Bola Preta

Leituras para distrair


Parece que eu tava lá! Foi a deliciosa sensação proporcionada pela leitura da crônica do meu amigo Ciro sobre o desfile do bloco Bola Preta (RJ) nesse Carnaval de 2018. Sem mais delongas, compartilho e sugiro a leitura – o texto do Ciro fala por si.


Registro sobre o Cordão da Bola Preta
Ciro Mendonça da Conceição*

Acordei cedo, as usual, dei uma olhada no jornal, comi um pão com queijo e ovo e, antes da mulher (que não gosta de Carnaval) acordar, disse pros meus botões: "vou lá ver o Bola". Saí antes das 9:00 e marchei pra estação do Jardim de Alá.

De cara percebi que estava no contra-fluxo pois centenas de jovens bonitinhos (expressão sarcástica de Darcy Ribeiro) desembarcavam pra brincar nos blocos da Zona Sul. Eu ia em direção ao Centro, rumo à Rua 1° de Março. Desci na Carioca e, antes de chegar, já podia ouvir o ronco dos caminhões de som. Tudo no Bola é grandioso. Seu pelotão de caminhões  é protegido por uma guarda ostensiva. A banda começou com um alegre "Parabéns pra você" em homenagem aos 100 anos do Bola, fundado em 1918. Sua conexão com as massas é permanente porque o repertório é estrategicamente escolhido, a começar pelo hino Quem não chora não mama. As marchinhas são as consagradas Maria Sapatão, Índio quer apito, Cabeleira do Zezé, etc...

As letras e refrões dos sambas enredo são todos de domínio público  =>  Água de cheiro, confete e serpentina, lança perfume no cangote da menina!; Fiquei radiante de alegria, quando cheguei na Bahia, Bahia de Castro Alves e do acarajé; Ô congada, boi Bumbá, ô meu santo, saravá!; Porque meu time, bota pra ferver, e o nome dele são vocês que vão dizer!

Sempre me emociono quando vejo o Bola, talvez porque ele me lembra a geral do velho Maracanã, destruída pelos politicos corruptos. Seus esquálidos centuriões, as capetas sedutoras, seus piratas desdentados do Borel, os carecas barrigudos fantasiados de freirinhas, zorros e políticos de terno com cédulas caindo de seus bolsos, enfim, pura magia, essência da explosiva anarquia criativa que caracteriza essa única civilização multiétnica, a amálgama ibero-afro-índia!! Destaque para os ambulantes que trabalham dançando esparramando contagiante alegria no bloco.

Quando o carro Borduada passou diante da Alerj, a estátua de Tiradentes ficou justaposta, por trás. Por um momento pensei que o Herói da Inconfidência havia subido no caminhão. Tiradentes, o Povo Brasileiro e o Cordão da Bola Preta. Tudo a ver com o Rio de Janeiro!!

Pela 1° vez vi painéis com manifestações críticas do tipo "As igrejas de hoje são uma fraude. Busque Jesus e salve-se do inferno".

A volta pra casa, em torno do meio-dia, foi um sufoco, metrô lotado com a garotada ainda a caminho da Zona Sul.

Missão Cumprida.
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(*)Ciro Mendonça da Conceição
Engenheiro de Telecomunicações pela Universidade Federal Fluminense, Especialização em Engenharia Sanitária e Ambiental pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro e Mestre em Engenharia Civil, área de concentração Meio Ambiente pela COPPE –UFRJ.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Brasil mostre a sua cara!

Opinião

A sociedade brasileira parece que vem se desvelando para si mesma. Mitos que generalizavam a caricatura de uma sociedade fraterna e sem preconceitos vêm se desfazendo em decorrência da nossa dinâmica social, notadamente das nossas experiências sociopolíticas. Vamos revelando a nossa imagem real, e ela não tem a doçura jovial e angelical da face pública de um Dorian Gray, ao contrário, vamos descobrindo outra face, escondida e nada agradável, que retrata as nossas deformidades [1].

Não gosto da imagem que tenho visto e admito preferir que certos preconceitos sejam constrangidos por mitos do que aceitá-los e viver num ambiente de apartação. Contudo, também vejo nessa exposição uma chance de entendermos melhor quem efetivamente somos e com quais atributos e valores sociais cada um de nós se identifica. Vejo uma chance de observarmos nossa imagem real e, conforme o caso, atuarmos sobre os aspectos que nos importam quaisquer que eles sejam.

De fato, estamos vivendo um fenômeno que não é exclusivamente brasileiro, mas inserido em uma dimensão internacional, e a atual exposição de núcleos de fascismo e racismo, além de outros preconceitos discriminatórios, que chegaram a surpreender, foi favorecida pelas mobilizações populares em 2013 e o golpe parlamentar consumado em 2016 que se estabeleceram como marcos. Porém, em nosso caso, muitos desses sentimentos sempre estiveram embotados e disfarçados em convenientes e confortáveis posições criadas pela nossa apartação socioeconômica. As manifestações apenas desmascararam certos atores e ideais políticos que pareciam estar meticulosamente arrumados dentro de uma caixa que foi aberta e da qual foi despejado o seu conteúdo sem ter como arrumá-lo volta. Despejados da caixa, esses ideais e atores políticos perderam seus constrangimentos e passaram a divulgar e induzir comportamentos e práticas, estimulando a propaganda de suas ideias com a consequente formação de grupos de posicionamentos bem mais distintos do que estivemos acostumados em nossa organização política até aqui.

Para o bem ou para o mal, as questões centrais estão aí. O golpe e destituição da presidenta, a unção do seu substituto, as práticas do irrefutável poder e dos aparelhos judiciários, o arrocho da parcela social mais carente através das reformas trabalhista e previdenciária, a entrega do patrimônio público aos grupos privados, a corrupção legislativa praticada e tratada com banalidade, as manifestações racistas, a tentativa de censura política nas escolas, a criminalização dos movimentos sociais, os antagonismos às organizações dos trabalhadores, a propaganda para o armamento da população civil, a impunidade dos torturadores da ditadura e a incorporação de suas práticas pelos aparelhos policiais, as investidas em favor da censura ideológica, entre outros.

A dureza da realidade é que apesar dos desencantos não temos como determinar o fim das monstruosidades apunhalando o quadro como romanceou Oscar Wilde, até porque morreríamos junto com ele. Ao contrário, o que precisamos fazer é revelar e tentar redesenhar esse Dorian Gray social, apesar do nojo e do enjoo que possamos sentir. Assim, não é hora de acanhamentos nem de exasperações, mas de explicitações e de evidências. Como cada um de nós quer estar retratado nesse quadro, nessa imagem? É com essa determinação que precisamos prosseguir.

Quem se aproximar, seja com comentários, opiniões ou propostas – inclusive com candidaturas - precisa mostrar como tem sido representado no quadro e como quer estar. Não basta dizer que a imagem é feia. Isso eu também acho!

Eu quero saber como o fulano se posiciona e tem se posicionado a propósito de cada um dos temas que me afligem. Quero saber quais tem sido e quais serão as suas escolhas, e se elas são coerentes com o que ele propaga. Se o fulano for um candidato, eu quero saber a sua história e se as suas ações efetivamente contribuirão para a melhoria do quadro. Quero saber o seu partido e como esse partido tem votado e se posicionado. Quero saber quais são os seus compromissos explicitamente, incluindo os seus compromissos de alianças políticas.

O fulano reconhece a importância da mobilização social e o papel dos trabalhadores como principais agentes sociais das mudanças necessárias? Está disposto a ir para as ruas apoiando ou participando dessas mobilizações? Se não for assim, não me apareça com discursos vagos e, muito menos, pedindo autorização eleitoral para fazer o que achar melhor porque não terá. Nem me venha com história que deseja melhorar a imagem acrescentando com um lindo nariz, esteticamente bem desenhado e bem afeiçoado, mas alocado no alto da testa do Dorian Gray, além dos outros três que já estão por lá. A criação desse monstro não contará com a minha colaboração. 

[1] O Retrato de Dorian Gray, da autoria de Oscar Wilde, um clássico da literatura internacional, foi publicado nos EUA em 1890.  O personagem Dorian Gray envaidecido com a própria beleza após ser retratado em pintura por um amigo, inconformado com o envelhecimento, vende a sua alma para garantir que o retrato, em vez dele, envelheça. O desejo é concedido e Dorian entrega-se a uma vida  libertina e sem qualquer compromisso moral mantendo a aparência bela e jovial enquanto o seu retrato, mantido escondido, é de um monstro envelhecido e disforme que registra em sua imagem todos os aspectos corrompem a alma de Dorian Gray.
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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Nas arenas do ZAP

Opinião

Não é novidade que o tratamento de opiniões políticas em grupos zap-zap impacta as relações entre os participantes. Quando o grupo não replica relações de amizade a preocupação com tais impactos é secundária. Participar, ficar ou sair do grupo é questão de conveniência. Porém, quando há amizades entre os participantes, a preocupação é relevante e saudável porque demonstra uma valorização das relações interpessoais e o desejo de conservá-las.

Cuidando de preservar relações que valorizo, aproveitei as tradicionais reavaliações de fim de ano pensando mais sobre esse assunto. Desliguei-me temporariamente de alguns grupos permanecendo apenas naqueles cujas propostas iniciais era de fins específicos, e outros de duração limitada. Foi uma boa decisão, mas a regra temporária, embora interessante, é de aplicação bem restrita e não contempla a realidade.

É ingenuidade imaginar que possamos nos representar com duas identidades, ou supor que basta a razão para ficarmos impermeáveis aos debates, como se tivéssemos carcaças isolando o nosso “eu” político dos outros “eus” que nos constituem. Não somos assim. Sinto-me afetado quando uma manifestação de opinião agride valores que me são caros, assim como sinto constrangimentos ao emitir juízo negativo ou criticar aspectos que são valorizados pelo outro cuja relação de amizade eu considero. Por outro lado, tentar fazer de qualquer grupo zap-zap um ambiente incompleto retirando a sua dimensão política é deformá-lo habitando-o com personagens fictícios, avatares de nós mesmos, desprovidos de crítica, de valores e de princípios políticos.

Sempre haverá a opção de saída de um grupo alardeando incompatibilidades, mas isso significaria contar que nos encontros pessoais todos se comportarão também como avatares sem personalidades políticas. Seria assumir imaturidade e abrir mão de tratar, até radicalmente, se necessário for, os conflitos entre as nossas opiniões e valores.

Eu prefiro apostar na maturidade como provedora da razão que sustentará a amizade se essa for realmente franca e consistente. Isto, sim, armará os participantes dos grupos com sensibilidade bastante para tratar os conflitos e para aparar e superar os eventuais excessos.

Não acho absurdo que participantes dos grupos zap-zap não sejam companheiros em algumas lutas e que tenham divergências sobre os assuntos tratados ali. Quem sabe, serão companheiros em outras lutas e terão opiniões convergentes em outros temas. Particularmente nas questões atuais pode ser que existam opiniões e desejos de desdobramentos visceralmente antagônicos, mas se houver efetivamente relações de amizades, haverá a vontade de encontros e de conversas, mesmo para tratar abobrinhas, quem sabe embaladas com músicas e cantorias, com consumo de quitutes gastronômicos, umas boas cachaças, cervejas e outras motivações de prazeres. Se não for assim, a relação de amizade, qualquer que seja a sua idade, ainda será incompleta, inconsistente, uma relação que não resiste à revelação de novas características dos parceiros o que também é uma possibilidade, desagradável de se constatar, mas uma possibilidade real. Aí a relação se esvai.

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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Santa candidatura?

Opinião

A candidatura Lula 2018, cada vez mais, vem se declarando como messiânica e apolítica. É uma pena!  Uma espécie de pregação religiosa que descarta qualquer possibilidade de transformação da realidade pelos seres humanos e que aposta em uma graça suprema para realizá-la. Uma graça onipotente que deveria ser ungida no processo eleitoral porque somente ela sabe ou saberá o que é bom para todos, mesmo que todos não saibam disso.

Aliança, aliança, aliança! Parece ser a única proposta da campanha. Projeto? Não existe! A única proposta é a unção do detentor da graça suprema com votos. A Lula caberá o projeto que lhe der na cabeça, a ele caberá determinar a “agenda possível” não importa qual ela será porque, afinal, ele será um ser consagrado. Cabe indagar se não seria mais adequado consagrar Lula como um monarca.

De minha parte não excluo ou nego a possibilidade e a potencialidade de Lula, através de sua candidatura, atuar como liderança de um projeto político mais identificado com a esquerda tradicional, ainda que reformista e longe, muito longe, de revolucionário. Até mesmo o PT poderá ter um papel relevante nesse processo porque a sua militância não se confunde com a maioria da direção partidária contaminada por personagens com projetos pessoais de poder, muitos sustentados por corrupção, que nada têm com os princípios que criaram o partido. Esse não é o caráter da militância do PT. Contudo, essa possibilidade só será uma realidade se houver um projeto com princípios explícitos que sustentem e que justifiquem um engajamento político. Nunca um ato de fé como se tem apostolado.
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