sábado, 11 de fevereiro de 2017

Coxinhas, ó pá!

Opinião

Deve ferir fundo na vaidade dos que se entendem como parte da elite brasileira assistirem um egresso da classe operária, ex-metalúrgico, recebendo títulos honoris causa de importantes universidades internacionais, entre elas a Sorbonne (França) e Coimbra (Portugal), sem contar a não menos importante Universidade Federal Fluminense, a minha UFF,  em Niterói (RJ).

Para aqueles que um dia apostaram em um “príncipe” cujo governo vendeu quase todo o Brasil, que não sentiram constrangimentos em apoiar o recente golpe que tomou o poder para si derrubando um governo cujo mandato foi conquistado nas urnas, e que vêem como uma assombração a possibilidade de um Lula 2018, os títulos honoríficos do Lula,  que devem ser mais de 20, estão entalados na garganta. Chega a ser engraçado. Acreditam mais no Lula 2018 que os próprios militantes do PT. Mas, fantasma é assim mesmo. Assusta.

Fazem lembrar os militares que nunca engoliram o Brizola. Isto porque ele foi o político cuja liderança quebrou efetivamente a idolatrada hierarquia militar, liderando a Campanha da Legalidade, em 1961,  quando o palácio do governo gaúcho quase se transformou numa versão antecipada do La Moneda chileno. Morreu Brizola e os militares nunca o engoliram. Seu fantasma ainda assombra as casernas.

O fantasma de Lula assusta os golpistas brasileiros que recorrem a todos os esconjuros que conhecem para afastá-lo. Um dos recentes exorcismos tem sido divulgar uma manifestação como se fossem os “estudantes” de Coimbra reivindicando a cassação do título que recebeu. Não esclarecem que se trata de um grupo da JSD (Juventude Social Democrata), o braço universitário do PSD, partido político, representante da direita portuguesa, que faz um esforço enorme para ser reconhecido como centro-direita, numa tentativa de suavizar seus ímpetos reacionários. Uma espécie de tucanato português e seus coxinhas universitários.

Aproveitando o mote, só para avivar a memória, tucanos foram os responsáveis pela entrega das Telecomunicações brasileiras, num leilão fraudulento,  quando o presidente da republica e o então ministro das Comunicações tiveram gravadas as suas conversas que tratavam da fraude, fato que determinou a renúncia do ministro para resguardar o príncipe presidente.

######

sábado, 28 de janeiro de 2017

Celso Cabrita

Leituras para distrair

Os limites do imaginário humano são auto-impostos. Crescemos e vamos construindo nossas barreiras, nossos muros. As vezes até de forma depressiva, como o personagem da ópera rock “The Wall” baseada no disco de mesmo nome da banda Pink Floyd. Mas, quando ainda crianças somos livres. Sem condicionantes sociais, à nossa imaginação é permitido voar num sonho extraordinário que a condição humana ainda não é capaz de compreender.

Outro dia observei um meu neto em um desses voos. Num breve percurso de táxi, contado em minutos, ele curtiu outra viagem, imaginária. Tendo em mãos um pequeno boneco representando um dos seus super-heróis, ele deslocava a peça de plástico para cima e para baixo, fazendo o boneco passear pelas reentrâncias do banco traseiro do taxi, pelo puxador da porta, pelo guarda-luvas lateral, pelo vidro, onde fosse possível, enquanto narrava em voz alta, ignorando completamente a minha presença, as aventuras que ele e o seu boneco estavam vivenciando. A minha racionalidade interpretou aquele momento sem romantismo, e até com alívio. Que bom que o moleque estava entretido. Logo chegaríamos ao destino, sem aporrinhações.

Um ou dois dias depois, um dos meus filhos completou 41 anos. Uma data que certamente teve significados especiais para ele, mas, aqui, estou privilegiando os significados para mim. Então, lembrei que, quando criança, com dois ou três anos, ainda morando em São Paulo, esse mesmo filho também fazia viagens imaginárias similares às realizadas pelo meu neto no táxi. Os super-heróis eram outros, nem sei quais eram, e os brinquedos infantis também não eram os de hoje. Mas, isso não impedia a sua imaginação. O que me vem à memória é que ele se fantasiava com parafernálias que estivessem disponíveis e que pudessem representar os instrumentos de poder do personagem de suas fantasias. Capas que o fizessem voar, cinturões com armas de potências especiais etc. Ele adaptava as suas super-roupas com o que estivesse disponível. Toalhas, panos coloridos, cordas, cintos, pedaços de qualquer coisa que imitassem uma arma galáctica. E saía em seus voos libertadores do mundo e de destruição dos inimigos imaginários.

Era muito legal vê-lo conquistando o universo. Mas, eu não perdia a oportunidade da fazer piada e, em baixa-voz, e para implicar com a mãe dele – a supermãe – eu dizia que o super-herói parecia um “Celso Cabrita”, fato que a irritava muito porque ela entendia a intenção da piada.

Celso Cabrita foi um personagem da nossa adolescência em São Gonçalo (RJ). Uma figura perturbada, que vagava pelas ruas da cidade, fantasiada como só uma criança o faria. Uma caricatura de ser humano, que deve ter ficado aprisionado em sua infantilidade, vivendo em um mundo imaginário e que, para o bem dele, a cidade da época ainda tolerava. Com cordas envolvendo o seu corpo vestido com uma túnica de cor cáqui (não confundir com a fruta), chapéu de abas ou do tipo “quepe”, charuto, condecorações e outros adornos em sua indumentária, Celso Cabrita foi figura que ajudou a compor o cenário daquela adolescência periférica urbana que vivi, onde, felizmente, os aspectos mais atrozes da vida social, tão banais hoje em dia, ainda estavam bem afastados.

Celso Cabrita era alvo de brincadeiras não só das crianças, mas também dos adultos que partilhavam do mesmo espaço que ele. Ouvia chacotas e reagia com xingamentos e impropérios. A sua agressividade era limitada. Era caricato e, para o bem ou para o mal, o fato é que viveu em uma época e espaço quando e onde havia tolerância – embora excludente - para com os extraviados do comportamento social esperado. De fato, era protegido no ambiente em que circulava, até por algumas das mesmas pessoas de quem era objeto de chacota. Uma  época que se foi. Já não existem espaços para Celsos Cabrita, embora muitos deles existam por aí.

Ainda escrevendo esse texto, fiquei pensando sobre a causa básica dessas reflexões. Nada concluí. O fato é que, hoje, quando vejo uma criança fantasiada e brincando, é muito comum eu me lembrar de Celso Cabrita. Às vezes, até comento em voz alta. Estando acompanhado, o parceiro se assusta, sem nada entender. Mas, não daria para explicar e, de fato, nem existem interessados nessa história. Não importa. A bem da verdade, sou eu quem estou fazendo a minha “viagem”, como o meu neto faz no taxi. O melhor é que não me perturbem!


######

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Bento Carneiro e o eleitor brasileiro

Opinião


Recebi o que seria a cópia de uma mensagem endereçada ao “povo do Rio de Janeiro” onde estavam relacionados cerca de dez hospitais da cidade e arredores, além de citar genericamente as UPAs. Após o nome da cada hospital havia a expressão “FECHADO”.

A mensagem dizia que o “povo” do Rio de Janeiro não devia reclamar porque “vocês”, dizia o texto “lotaram o Maracanã, ... foram assistir aos jogos Olímpicos, ... festejaram o Réveillon em Copacabana e ... irão lotar a Sapucaí”. Concluía ironizando que “tudo estava na mais perfeita ordem” e pedia aos leitores que repassassem a mensagem para as pessoas do Rio de Janeiro.

Esse tipo de mensagem é recorrente e revela um autoritarismo que já seria bastante para desconsiderá-la. Alguém cujo voto foi vencido, não importa a sua opção política, volta-se raivosamente contra os que votaram na candidatura vitoriosa, desqualificando o voto do outro que teria votado “errado”.  Ainda raivosamente, tal e qual o personagem imortal do humorista Chico Anísio, “Bento Carneiro, o Vampiro Brasileiro”, o autor roga uma praga, lança uma “mardição” para os eleitores. Vocês vão ver!

No caso específico eu também gostaria que o resultado eleitoral fosse outro. Mas, não dá para bancar o Calunga, fiel escudeiro de Bento Carneiro. Esse tipo de atitude anda de braços dados com as ações golpistas. As pessoas vão ao Maracanã, ao Museu do Amanhã, ao Réveillon em Copacabana e à Sapucaí porque são festas bonitas, trazem  felicidade para elas e, afinal de contas, foram construídas com o dinheiro delas. Bom seria que outras fontes de felicidade também existissem ou funcionassem, por exemplo, as unidades hospitalares que estão fechadas em decorrência de roubo da coisa pública.

Embora algumas pessoas, que refletiram e fizeram conexões entre as situações, protestem em favor de uma, boicotando os eventos associados à outra, o que é um procedimento correto, uma ação política positiva e que deveria ser frequente, apontar as pessoas que ainda não atingiram esse amadurecimento político como culpadas porque os seus candidatos não cumpriram as suas promessas não faz sentido. É um comportamento medíocre e tacanho.

Ninguém vota nem escolhe o seu candidato pensando “votarei nesse porque ele vai me fuder!”. Também não conheço qualquer candidato que se apresente dizendo “vote em mim porque eu vou botar no seu cú!”.

As pessoas votam pensando que estão fazendo a melhor escolha para si naquele momento. Há uma minoria que distingue com clareza as candidaturas e que vota mesmo sabendo que suas propostas são enganosas e que não contemplarão o desejo da maioria dos eleitores. Porém, todas votam buscando o melhor para si, e a maioria vota acreditando nas mensagens que receberam dos candidatos e nas conclusões que tiraram. Se elas são vítimas de propagandas enganosas de candidaturas canalhas é outro caso.

Pensar que uma população inteira votou sabendo que seria enganada é uma presunção. Uma arrogância babaca de quem acha que todos estão errados e malucos, só ele tem razão e discernimento. Quem faz essa avaliação é o mesmo fulano que diante de um roubo, um furto, reage apontando a vítima como culpada porque deixou a bolsa aberta ou a carteira dando sopa. Posso estar enganado, mas geralmente são covardes que fogem da responsabilidade de acusar diretamente o ladrão.

#####


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

En una Noche de Reyes


Opinião

Na virada do ano 2016 para 2017, em Campinas – SP, um assassino matou covardemente 12 pessoas, incluindo a ex-mulher e o filho de oito anos de idade, suicidando em seguida. Entre as vítimas nove eram mulheres, e o criminoso deixou uma carta que, se não estivesse associada à chacina que praticou, talvez passasse como um dos muitos manifestos machistas que povoam a web divulgados por um pensamento reacionário que tem encontrado espaço político para a manifestação dos seus preconceitos. Salvo trechos específicos em que escreve sobre o gesto que veio a praticar, as opiniões do assassino não diferem muito de juízos discriminatórios que tem sido propagandeados inclusive por autoridades com mandato parlamentar.

Fatos assim demonstram que, embora distante de alguns de nós, muitos são os brasileiros cujos cotidianos são verdadeiros tormentos decorrentes de desigualdades e preconceitos. Para os quais a opressão social não é apenas uma referência a ser combatida em tese, mas um inimigo real e concreto que precisa ser enfrentado a cada dia, desde o momento em que despertam. São fatos apontando-nos que o machismo, com sua prática trágica e absurda de violência contra a mulher, está e  sempre esteve bem mais próximo do que imaginamos.

Foi um antigo companheiro de turma no curso de engenharia, na UFF (Niterói), e com quem tive a oportunidade de trabalhar em nossos primeiros anos de profissão, quem me levou ao registro dessas notas. Trabalhando juntos e frequentando um curso de pós-graduação na USP – São Paulo (que nunca concluí), era uma diversão quando eu cantarolava trechos de uma canção que provocava nossos risos e piadas. Era um tango argentino que, ainda criança, ouvia da minha madrinha/avó e que narrava a seguinte tragédia: um sujeito que construiu família com mulher e  filho,  numa certa “Noite de Reis”, deu um flagra na patroa com um fiel amigo, e matou os dois. A letra era o lamento do assassino relatando a sua dor de corno, a sua reação assassina, e a incompreensão do seu filho que nas Noites de Reis ainda deixava os sapatinhos na janela esperando pela mãe que nunca voltaria porque fora morta por seu pai alegando que ela era falsa e canalha. Claro, era um tradicional tango argentino.

A “Noite de Reis” é a noite do dia 05 para o dia 06 de janeiro, data que marca o fim dos festejos natalinos. Na tradição espanhola as crianças deixam os sapatos nas janelas, com punhados de capim para alimentação dos camelos do Reis Magos e na expectativa de algum presente em troca. Daí a presença dos sapatinhos na letra da música. O tango que minha madrinha cantarolava foi um sucesso gravado pelo famoso Francisco Alves, o Rei da Voz. Era versão da gravação do bem mais famoso “argentino” Carlos Gardel. Talvez porque tivesse ouvido ambas as gravações, ela repetia um portunhol que eu me esforçava por entender e que certamente foi um elemento adicional de fascínio e que impressionou a minha memória. Minha madrinha cantarolava no final dos anos 50 e início dos anos 60 algo que ouviu em sua juventude, um tango cuja gravação original é dos anos 20. As brincadeiras e comentários que eu e meu amigo fazíamos quando eu cantarolava trechos que lembrava ou inventava ocorreram nos anos 74 e 75. O fato maior é que “Noche de Reyes” se tornou um dos símbolos de lembrança da convivência camarada que construímos e que experimentamos e que se transformou na querida amizade de hoje.

Recentemente conversamos sobre esse assunto, e nesta semana ele enviou uma mensagem lembrando que estamos em vésperas da Noche de Reyes de 2017, e solicitando que eu elaborasse algum texto relacionado ao “nosso tango”. Nunca assumi competência para realizar a tarefa, mas coincidentemente ocorreu o crime tenebroso em Campinas e aproveitei o mote para fazer esse registro, até como um exercício de expurgo do mal estar que esse evento despertou em mim, sem reduzir a sua importância é óbvio.

Aprendi a não estranhar as ações humanas de caráter bestiais. Nem que as tragédias decorrentes, incluindo suas causas e consequências, sejam registradas por recursos diversos disponíveis para a memória de uma época. Nem, ainda, que os relatos dos fatos se transformem em produtos de comercialização e consumo. Trata-se de um complexo imbricamento de relações difícil de ser modificado. A dor de corno de Menelau foi catalisadora da tragédia da guerra de Troia 1300 anos A.C. E as principais  narrativas dos supostos fatos e seus mitos vieram a ser elaboradas 500 anos depois das ocorrências e persistem até hoje, mais de 3000 anos após a bela Helena ter decorado com chifres a cabeça do rei espartano.

Desculpem-me pela opinião sem o devido rigor histórico, mas sob alguns aspectos não haverá muita diferença entre a venda como produto de consumo das narrativas da Ilíada e da Odisseia e a venda da dor de corno registrada no tango de Gardel e reproduzido com sucesso no Brasil pelo Chico Alves, há 80 anos. E acho que há chances enormes do mesmo ocorrer, em algum futuro, com os fatos da chacina de Campinas.

Contudo ou apesar de tudo, entendo que a obrigação da nossa geração é intervir para não deixar que esses acontecimentos sejam registrados apenas como fatos banais e folhetinescos, ainda que trágicos. É nossa obrigação deixar marca indelével que eles também são fatos absurdos, inaceitáveis, extraordinários e repudiados, ainda que ocorram como impulsos da nossa condição humana.

Recorrendo à poesia do outro Chico, o Buarque, em sua mensagem aos “Futuros Amantes”, vamos deixar para os escafandristas que, quem sabe, um dia explorarão nossas cidades submersas, os vestígios que queremos que identifiquem a nossa estranha civilização. Vamos deixar registrado em nossos quartos, em nossas coisas, em nossas almas e até em nossos desvãos que essas ações estão em sentido completamente oposto ao futuro que desejamos.

Tal postura passa por uma militância política de condenação e rejeição sem qualquer condescendência, e sem deixar qualquer espaço para argumentação ou justificativa de um pensamento que se avoluma nos dias de hoje e que agrega em bandeiras políticas o machismo, a homofobia, a intolerância religiosa e outros tantos fatores de preconceitos e, consequentemente, de discriminações. E, bem mais do que isso, não basta idealizar as nossas opções. É imperativo materializá-las, praticá-las em nosso dia-a-dia. Usá-las como critérios prioritários em nossas escolhas e condicionantes para quaisquer tipo de relações que pretendamos estabelecer, sejam elas políticas, sociais ou afetivas. E de forma tão expressiva que não sejam necessários sábios para decifrá-las no futuro.

No mais, tentando aliviar o tom da conversa, resgatei três links que trazem, respectivamente, as gravações de Chico Alves e de Carlos Gardel do tango "Noche de Reyes", da autoria de Pedro M. Mafia e Jorge Curi, e também a maravilha de "Futuros Amantes" de Chico Buarque.

(Chico Alves - Acesso em 04/01/2017)
(Carlos Gardel - Acesso em 04/01/2017)
(Chico Buarque - Acesso em 04/01/2017)

######

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O trem não pode atropelar o marinheiro.

Leituras para distrair

Uma das estações do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), a da Praça Quinze, centro do Rio de Janeiro, está sendo instalada bem ao lado do monumento ao João Cândido – o “almirante negro”, meu herói preferido. Outro dia passei pelo canteiro de obras e fui verificar o monumento. Estava desconfiado, incomodado, achando que iriam retirá-lo de lá, e ainda não estou certo se isso não irá acontecer.

O monumento está no local, mas o seu pedestal foi danificado  em diversos pontos e, também, a mão da estátua está danificada  e precisando de reparos (imagens abaixo). Não posso afirmar, mas acho que os danos decorreram das obras de revitalização do local. Certamente poderiam ter sido evitados, mas considerando as precariedades das nossas obras públicas não achei um absurdo, desde que, naturalmente, recuperem o estrago. As obras ainda não terminaram, e se o monumento não for recuperado, mesmo sem grande chance de sucesso, pretendo tentar identificar o órgão responsável e solicitar a recuperação. Manter a estátua do João Cândido conservada e, ali, onde ela está, é importante.

O monumento foi instalado num cantinho sem muito charme, quase espremido entre a antiga estação de aerobarcos e o prédio da Capitania dos Portos. Porém, apesar de escondido, acho que ali é um bom lugar, naquele cantinho da baía ele tem significado especial, pertinho das “pedras pintadas do cais”. Ocorre que as obras recentes transformaram o cantinho em um ponto nobre, e não surpreenderá se algum gaiato implicar com a presença do monumento naquele local. Especialmente nestes tempos de exacerbação de preconceitos, dado que foi o governo Lula quem anistiou o João Cândido em 2008, fato registrado no monumento.

Mais um novembro chegou e, com ele, as homenagens  a Zumbi dos Palmares pela passagem do dia 20, dia consciência negra. Mas, também a semana de 22 a 26 de novembro está associada a um dos mais importantes e significativos eventos da nossa história política, a Revolta da Chibata. Seria bom que a história e luta dos marinheiros, mais do que a mitificação da figura do João Cândido, fosse expressivamente resgatada nas comemorações e celebrações de novembro.

Aos eventuais leitores, como parte dessa celebração, convido para uma leitura (re-) de duas postagens que fiz nesse blog, ambas em 2013:  Um tal João Cândido Felisberto  (novembro 2013)  e  Chico da Matilde  (dezembro 2013). Tomara que gostem. 



Imagem publicada sem autorização – copiada de: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjcc_10UAmmtPrAXcVNfoGD-LbmMQEQFnM_j7W2yZ8FIpKeMoBbrLpEEh20-5XurS9Ynpg1OHeITcPBhQCJ6q1e1zaqdnuYuvmI93QJq6zB0OMWtzXPIRLoThdTxxGyWtwk8DvC3VGw5PrM/s640/jo%25C3%25A3o+candido+1.jpg






Imagem publicada sem autorização – copiada de: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/f3/Chibata.jpg/800px-Chibata.jpg

domingo, 20 de novembro de 2016

Take this Waltz


Leituras para distrair

Desculpem-me a ignorância artística, mas eu nunca soube praticamente nada sobre o Leonard Cohen, mesmo depois que passei a olhar com maior cuidado esses assuntos para poder conversá-los com amigos. O fato é que o cara morreu em 07 de novembro, último, e todos os jornais anunciaram fazendo resenhas etc. Acho que por aqui a morte dele foi mais anunciada do que sua obra.

A minha ignorância só não era total porque em 08 de abril de 1988 eu ganhei uma querida lembrança, um vinil gravado em 1986, celebrando 50 anos da morte de Garcia Lorca. Este sim, um artista de quem procurei saber muito. O vinil tem uma apresentação do Ian Gibson, autor da biografia do Lorca, publicada pela Editora Globo, que também recebi de presente em 1990. 

O título do LP é "Poets in New York" repetindo o título de um dos livros do poeta publicado pós-morte. São 14 artistas internacionais interpretando, em seus idiomas natais, canções que são poemas musicados do Lorca ou com letras baseadas em seus poemas. Para mim é uma joia, mas a minha opinião é suspeita, não é isenta.

Entre os artistas que participaram da gravação estão o Chico Buarque e o Fagner. Eles cantam uma música chamada A Aurora, um poema do Lorca traduzido pelo Ferreira Gullar.

No mesmo disco (justificativa dessas notas) há uma gravação do Leonard Cohen interpretando Take this Waltz uma letra que ele mesmo compôs/traduziu a partir do poema de Lorca. Sempre foi a faixa que mais gostei e fiquei impressionado especialmente com o grave da sua voz.

Nesses tempos de web, assumindo o que dizia querido amigo: “levem-me tudo, menos o youtube”, eu busquei as gravações do Chico/Fagner e do Cohen.

Da capa do vinil eu fiz um quadro que está na minha sala. São poucos os meus pertences dos quais eu goste tanto. Passo por ele todos os dias. Lembro do Lorca, do Chico do Cohen, mas especialmente de quem me presenteou. E lembrando tantos outros amigos queridos eu compartilho.










sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Não confundir ingênuos com traidores

Leituras para distrair

Um grande amigo mandou-me de presente um texto para leitura. Partilhamos as mesmas aspirações sobre as questões sociais, estivemos juntos em várias empreitadas defendendo nossas ideias, desenvolvemos uma forte amizade pessoal e, naturalmente, aprendemos a trocar impressões e reflexões, especialmente quando o horizonte fica com um aspecto de tempo ruim, quando é difícil  identificar o melhor caminho a seguir. 

O texto chegou em boa hora. O autor é um poeta argentino chamado Alejandro Pablo Rubino, pelo menos até onde pesquisei. Digo isso porque este texto também foi divulgado como da autoria de outro poeta argentino, mais conhecido, chamado Paco Urondo. Acho que é uma dessas confusões típicas da internet.
Recebi o texto em português, mas sem o registro do tradutor. Achei uma boa tradução, embora eu mesmo tenha trocado uma ou outra palavra caracterizando a minha versão. Mas, o texto original está em seguida para quem se interessar.
Vale o conteúdo. Gostei muito. O título é “Instruções para enganar o mau tempo” . O autor usou a expressão “capear el mal tiempo”. O termo espanhol “capear” se refere ao movimento que os toureiros fazem com a capa para ludibriar, enganar ou distrair os touros em suas pelejas. Acho que diversos companheiros com quem tenho trocado conversas também gostarão de ler. Então resolvi registrá-lo no blog.

################
Instruções para enganar o mau tempo
Autor: Alejandro Pablo Robino

Em primeiro lugar, não se desespere e em caso de agitação não siga as regras que o furacão quererá lhe impor.
Refugie-se em casa e feche as trancas quando todos os seus estiverem a salvo. 
Compartilhe o mate e a conversa com os companheiros, os beijos furtivos e as noites clandestinas com quem lhe assegure ternura.
Não deixe que a estupidez se imponha. 
Defenda-se. 
Contra a estética, ética. 
Esteja sempre atento.
Não lhes bastará empobrecê-lo, e quererão subjugá-lo com sua própria tristeza.
Ria ostensivamente.
Tire sarro: a direita é mal fudida.
Será imprescindível jantar juntos a cada dia até que a tormenta passe.
São coisas simples, mas nem por isso menos eficazes.
Ao seu lado diga bom dia, por favor e obrigado.
E tomar no cu quando o solicitem de cima.
Atire com o que tiver, mas nunca sozinho.
Eles sabem como emboscá-lo na solidão desprevenida de uma tarde.
Lembre que os artistas serão sempre nossos. E o esquecimento será feroz com o bando de impostores que os acompanha. 
Tudo vai ficar bem se você me ouvir.
Sobreviveremos novamente, estamos maduros. 
Cuidemos das crianças que eles quererão amoldar.
Só é preciso se munir bem e não amesquinhar amabilidades.
Devemos ter à mão os poemas indispensáveis, o vinho tinto e o violão.
Sorrir aos nossos pais como vacina contra a angústia diária.
Ser piedosos com os amigos.
Não confundir os ingênuos com os traidores. E, mesmo com estes, ter o perdão fácil quando voltarem com as ilusões acabadas.
Aqui ninguém sobra.
E, isto sim, ser perseverantes e tenazes, escrever religiosamente todos os dias, todas as tardes, todas as noites.
Ainda sustentados em teimosias se a fé desmoronar.
Nisso, não haverá trégua para ninguém.
A poesia dói nesses filhos da puta.

###############

Instrucciones para capear el mal tiempo
Autor: Alejandro Pablo Robino

En primer lugar, no se desespere y en caso de zafarrancho 
no siga las reglas que el huracán querrá imponerle. Refúgiese en la casa 
y asegure los postigos una vez que todos los suyos estén a salvo.
Comparta el mate y la charla con los compañeros, 
los besos furtivos y las noches clandestinas, con quien le asegure ternura.
No deje que la estupidez se imponga. Defiéndase. A la estética, ética.
Esté siempre atento. No les bastará empobrecerlo 
y lo querrán someter con su propia tristeza. 
Ríase estentóreamente. Mófese: la derecha está mal cogida.
Será imprescindible cenar juntos cada día hasta que la tormenta pase.
Son cosas simples, sencillas, pero no por ello, menos eficaces.
Diga hacia el costado buen día, por favor y gracias. Y la concha de tu madre
cuando lo soliciten desde arriba. Tírele con lo que tenga, pero nunca solo.
Ellos saben cómo emboscarlo en la desprevenida soledad de una tarde.
Recuerde que los artistas serán siempre nuestros. Y el olvido 
será feroz con la comparsa de impostores que los acompaña.
Todo va a estar bien si me hace caso. Sobreviviremos nuevamente, 
estamos curtidos. Cuidemos a los pibes que querrán podarlos.
Solo es menester bien pertrecharse y no escatimarnos amabilidades.
Deberemos dejar a mano los poemas indispensables, el vino tinto y la guitarra.
Sonreírles a nuestros viejos como vacuna contra la angustia diaria.
Ser piadosos con los amigos. No confundir a los ingenuos con los traidores.
Y aún con estos, tener el perdón fácil para cuando vuelvan con las ilusiones forreadas.
Aquí nadie sobra. Y eso sí, ser perseverantes y tenaces, escribir religiosamente 
todos los días, todas las tardes, todas las noches. Aún sostenidos en terquedades
si la fe se desmorona. En eso, no habrá tregua para nadie.
La poesía les duele a estos hijos de puta.

################

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Um golpe gonçalense

Leituras para distrair


A data 13/09/2016 estará associada ao golpe de 2016  e ao papel do Eduardo Cunha naquele processo. O ex-deputado foi o autor de uma chantagem que foi rejeitada e quem, em retaliação, aceitou o requerimento do impeachment mesmo com a consciência que não havia crime que o justificasse. E no dia 12 de setembro de 2016 ele próprio teve o seu mandato cassado sendo dispensado por seus pares. Um deputado comentou, durante a sessão de votação, que fez questão de contar e contabilizou apenas cinco apertos de mãos recebido pelo até então todo poderoso deputado chantagista e golpista.

Mas, não temos o controle sobre a história, ela significará aquilo que efetivamente valorizarmos. No dia 13 de setembro celebro o aniversário de dois amigos e, coincidentemente, também há um golpe para lembrar. Bem mais interessante que o de 2016 e que certamente honra a data, porque o dia 13 de setembro já é celebrado como o Dia Nacional da Cachaça. Data proposta pelo Instituto Brasileiro da Cachaça - IBRAC, desde 2009, e que deverá ser promulgada como lei ( PL 5428/2009) através de projeto assinado  por um deputado, também golpista, do PMDB de Santa Catarina, mas que contabilizará este ato em seu favor.

A data foi escolhida em função da Revolta  da Cachaça ocorrida em 1660 no Rio de Janeiro. A revolta também foi um golpe, quando fazendeiros, fabricantes de cachaça (uma espécie de Fiesp da época), revoltaram-se contra a cobrança de impostos e até a proibição da comercialização da “marvada” determinada pela coroa portuguesa que queria impor o consumo da bagaceira no Brasil. Naquela época não havia um Cunha.

Os golpistas se articularam na minha terra, em São Gonçalo que, então, era a Freguesia de São Gonçalo de Amarante e que incluía os atuais municípios de Niterói e Magé. Em novembro de 1660 os golpistas atravessaram a baía de Guanabara e tomaram o governo na marra, expulsando o governador interino – o o titular havia viajado para São Paulo - e chegando a governar a cidade do Rio de Janeiro por cerca de cinco meses. Mais tarde os golpistas se fuderam (como eu disse, não era a Fiesp), e em 13 de setembro do ano seguinte, 1661, a  ordem foi consolidada com um decreto real restabelecendo e oficializando o comércio da pinga. Uma história bem interessante e importante, mas que poucos conhecem.

Para quem se interessar, a Revolta da Cachaça é tida como um fato histórico importante e o Google apontará bibliografias. Destaco uma intitulada “ENTRE A SOMBRA E O SOL – A REVOLTA DA CACHAÇA, A FREGUESIA DE SÃO GONÇALO DE AMARANTE E A CRISE POLÍTICA FLUMINENSE (RIO DE JANEIRO, 1640 – 1667) – Dissertação de Mestrado aprovada pelo Programa de Pós-graduação em História da UFF – 2003, de Antonio Filipe Pereira Caetano
O meu destaque tem motivação bairrista. Trata-se de um trabalho dedicado a analisar o papel da Freguesia de São Gonçalo na arquitetura e desenvolvimento da revolta da Cachaça em:

No mais, é celebrar. Como diz o pessoal da Confraria do Copo Furado: Unidos beberemos! Sozinhos também!

domingo, 17 de julho de 2016

Um talk-show constrangedor

Opinião

Assisti à exibição em vídeo de um talk-show da TV americana cuja abertura é um monólogo do apresentador produzindo risadas da claque enquanto narra situações caricatas sobre o Brasil e as Olimpíadas 2016.  Os editores fizeram uma coletânea de fatos reais sobre as mazelas do nosso país, incluindo a crise política recente, as idas e vindas do projeto das olimpíadas, a nossa pobreza, a degradação ambiental dos nossos espaços naturais, as declarações conflitantes e controversas das autoridades e personagens públicas, manifestações de policiais em aeroportos, fechamento de postos de saúde, as ameaças do o zika vírus, enfim, tinha de tudo. E o fio condutor foi, explicitamente, ou não, a questão da corrupção em nossa sociedade.

A narrativa do script era ilustrada com imagens ao fundo exibindo manchetes e noticiários de jornais justificando cada assunto tratado. Nada inventado, no máximo alguns fatos fora de contexto. Uma narrativa irônica e caricata interrompida apenas pelas observações e caretas sarcásticas do apresentador e pelas gargalhadas da claque. Uma apresentação para fazer qualquer brasileiro (ou muitos, penso eu) sentir-se embaraçado e constrangido.

 A gravação deve estar circulando por aí, pelo mundo, e nada mudará aqueles fatos. Se houver algo que se possa fazer em contraposição àquelas situações específicas, será trabalhar para transformar aquelas realidades apresentadas sobre o nosso país.

Contudo, ao mesmo tempo em que faço essas observações, aproveito a oportunidade para agregar outras que são contrapontos cabíveis e de âmbito geral, mas que nem sempre são considerados quando nos deparamos com tais situações que acabam nos deixando intimidados perante nossos críticos interlocutores. Vejamos!

Juízos e juízes.
Quando se diz – o Brasil é alegre ou o Brasil é corrupto – faz-se uma substituição de termos para que a mensagem fique mais expressiva. Usa-se a palavra Brasil em vez de se referir aos brasileiros ou à sociedade brasileira. Trata-se de uma metonímia. Um artifício de linguagem que valoriza o sujeito ao identificá-lo por um simbólico “Brasil”, mas que, ao mesmo tempo, também permite que a relação do predicado com o sujeito real sofra uma espécie disfarce que só é revelado conforme o nosso interesse de identificação. Assim, quando o atributo é a alegria e a cordialidade identificamo-nos com a sociedade brasileira. Cada um de nós se sente representado. Formamos um povo alegre, cordial, etc. Mas, quando se trata da corrupção ninguém se sente identificado com o atributo, afinal, ninguém se inclui como corrupto. Corrupto é o tal do “Brasil”.

Contudo, este jogo de esconde-esconde não elimina a intenção original. Sempre que se afirma a característica corrupta do Brasil, tal afirmação refere-se, rigorosamente, à sociedade brasileira, classificando-a como corrupta, particularmente se comparada com as sociedades europeias e a americana. E pelo fato de estar escondida pela metonímia, tal afirmação não é questionada. Ela vai sendo repetida sem críticas nem objeções, aqui e acolá, por muitos brasileiros de idades diversas, alienados em relação ao real significado dessas classificações e possuídos por um discurso que reflete uma dominação política e cultural.

Mas, quem saberia afirmar qual o padrão absoluto de medida do nível de integridade que uma sociedade deveria atender para ser, ou não, enquadrada como corrupta?

É obvio que não há um padrão absoluto, e se tal padrão não existe, então, obrigatoriamente, estas afirmações devem decorrer de experiências e comparações com outras sociedades arbitrariamente afirmadas como íntegras e que o discurso dominante assume como referências de padrão moral e ético sem outros questionamentos.

Então, quais são estas sociedades que não são explicitadas nem apontadas efetivamente como sociedades “não corruptas”?

Naturalmente este tipo de observação não reduz em um milímetro a nossa responsabilidade na construção de uma sociedade íntegra. Não se trata, aqui, de desqualificar o interlocutor. Mas, é preciso estabelecer com clareza em que ambiente esta discussão ocorre, bem como identificar quem são os sujeitos e os seus interesses neste processo. Se não for assim, inadvertidamente, seremos tomados por um sentimento de baixa-estima que, além de nos tornar submissos, inibe as nossas possibilidades de autoafirmação. Um sentimento que desperta em nós um complexo de vira-latas permitindo que as narrativas, como a exibida no talk-show americano se façam com naturalidade e que a partir delas a nossa sociedade seja criticada como se estivéssemos sendo julgados por outra superior, num julgamento onde se trata o óbvio e onde não cabem contestações, o que é uma falácia.

Peço desculpas
Recorrendo a fatos públicos sem me sentir obrigado a povoar este texto com referências e citações - que são obrigatórias nos chatíssimos trabalhos acadêmicos – faço algumas questões que valem ser lembradas neste julgamento moral da sociedade brasileira que alguns se acham no direito de fazer.

Uma sociedade cuja história se fez notoriamente através da exploração de outras terá dote ético suficiente que autorize os seus membros a posarem de magistrados e realizarem juízos sobre a nossa sociedade?

Por exemplo, a França ocupou a Argélia e provocou inúmeros banhos de sangue de sua população. Explorou aquela nação durante mais de 130 anos e só largou o osso em 1962. Mesmo assim, através de uma guerra que deixou uma Argélia em cacos, transformada em fornecedora de mão de obra barata, quase escrava, para o sustento dos habitantes da ex-metrópole. Uma mão de obra que atualmente constitui a maior parte população degradada dos bairros pobres da charmosa capital cultural do mundo.

Estaria a sociedade francesa, ou melhor, os seus membros, em condições de realizar julgamento ético e moral sobre alguma outra sociedade?

Em uma escala histórica, os franceses, ou a França, ou a sociedade francesa (use-se a metonímia como quiser) só largaram o osso da Argélia outro dia. Há menos de sessenta anos. Muitos de nós temos mais idade do que isto.

E os impolutos ingleses que chuparam a Índia até o último pingo do caldinho e que saíram de lá tentando manter o controle da região e deixando a região em um caos geral?

A Inglaterra foi a grande colonizadora da África. Os ingleses incumbiram-se, eles próprios, da tarefa que chegou a ser designada poeticamente de “o fardo do homem branco”, ou seja, livrar as sociedades inferiores do primitivismo. A história está aí para mostrar o resultado.

Alguém precipitadamente argumentará dizendo que é coisa do “passado”. Passado? Mas, este passado foi até ontem, 1947. A minha avó já era avó.

Sem mencionar outras colônias, tratando apenas da Índia, é justo indagar: setenta anos foi tempo suficiente para expurgar essa tenebrosa parte da história do império britânico?

É verdade que quase todos adoramos os Beatles e, adicionalmente, outros como eu adoram os Rolling Stones. Mas, isso não autoriza os súditos de sua majestade a saírem pelo mundo arrotando regras de comportamento e de ética. Torcendo nariz para as “barbáries” das sociedades que não estão sob o manto de dona Elizabeth, cujo reinado resulta de um corta-corta de cabeças que deve transformar o estudo da história do seu país em um verdadeiro conto de terror, especialmente para as crianças nos bancos escolares.

Há muitos exemplos. A colonização portuguesa, a espanhola – esta última durante alguns séculos explorou e exterminou sociedades inteiras nas Américas Central e do Sul. Nem seria necessário garimpá-los. São histórias de impérios e de outras sociedades que foram quase impérios, incluindo sociedades sobre as quais pouco se fala e são apontadas como inquestionáveis.

Na Áustria, uma sociedade que conseguiu pular fora do mea culpa que a sociedade alemã se viu obrigada a fazer, há cerca de dois meses atrás, os seus distintos cidadãos deram 49,3% de votos a um representante político que a mídia internacional insiste em chamar de extrema direita, mas que não passa de um representante do nazismo em sua versão moderna.

O partido da direita perdeu a eleição por uma diferença de menos de 1% dos votos, mas este resultado eleitoral foi tão expressivo que eles conseguiram anular as eleições e a convocação de um novo pleito sob o argumento de fraude,  apavorando a Europa que viveu a recente Brexit.

Cá, entre nós, uma sociedade que vota quase expressivamente em um representante nazista tem crédito ético para fazer juízo sobre a sociedade brasileira? 

E o pessoal do chocolate, vizinhos dos austríacos? Os zeladores do sigilo e da segurança de riquezas acumuladas através de canalhices e explorações sociais praticadas nos diversos confins do planeta. Roube-se  aqui ou acolá! Guarde o produto no sistema bancário legal da Suiça!

Qual o valor ético da sociedade que incorpora essas atividades em sua ordem social?

E, concluindo, qual o valor moral e ético de uma sociedade que se mantém em guerra permanente, guerras de conquistas e de alargamento das fronteiras do seu império, agindo como os romanos faziam há dois mil anos?

Sim, falamos da sociedade americana, a mesma do moço do talk-show ironizando a sociedade brasileira.

Qual o valor moral e ético de uma sociedade onde milhares de seus cidadãos pertencem a organizações armadas, algumas públicas e outras privadas, que se deslocam para países distantes fazendo e promovendo guerras, tornando isso uma prática comercial?

Uma prática tão corriqueira que alguns dos “trabalhadores” desta atividade chegam a adquirir o direito às férias. Voltam às suas casas, passeiam com os seus familiares, fazem churrascos em seus quintais e retornam aos países distantes para bombardear e matar as suas populações, disseminando ódio e violência, sustentando a riqueza americana com a miséria alheia.

Naquela sociedade, a mesma do moço do talk-show, profissionais atiradores de elite, os chamados snipers americanos, são premiados pelo número de mortes que produzem em suas atividades, sejam crianças, mulheres, jovens, velhos, não importa. Vale qualquer o que comando empresarial-militar aponte como alvo. Recebeu a ordem? Atirou? Matou? Ganha pontos!

Qual será a moral e ética de uma sociedade onde um profissional militar, a partir das proximidades de sua residência, pode pilotar drones, objetos lançadores de foguetes que estão a milhares de quilômetros de distância, do outro lado do mundo, sobrevoando, bombardeando e matando famílias inteiras, bairros inteiros, feiras públicas, desde que o comando empresarial-militar tenha determinado a ordem de localizar e atirar?

O tal “piloto”, atividade regular naquela sociedade, cumpre o seu horário de plantão como um profissional qualquer que trabalha em turnos. Findo o expediente ele toma o seu banho, troca o uniforme e retorna para a sua casa. Quem sabe para dar risadas, ao lado da sua família, assistindo um talk-show que ironiza as “barbaridades” da sociedade “subdesenvolvida” do cone sul.

E tudo isto é feito com o conhecimento e a aprovação da sociedade americana. Nada é escondido. Quem envia drones para explodir sociedades civis é o presidente Obama com a anuência e apoio das instâncias políticas e da sociedade americana. Tanto são práticas admitidas que até geram como subproduto uma milionária indústria televisiva e cinematográfica que fatura milhões de dólares e que trata com naturalidade estes fatos, produzindo e vendendo como entretenimento “histórias baseadas em fatos reais”.

Dois exemplos típicos e recentes, romances baseados em situações reais. Veja-se : American sniper – dir. Clint Eastwood (2014) e Good kill – dir. Andrew Niccol (2014). Um dos filmes refere-se a um atirador de elite, um herói americano premiado por matar mais de 250 pessoas. O outro filme trata de um piloto de drones que, a partir de Las Vegas (EUA), dispara mísseis contra alvos, supostos terroristas, no Afeganistão, orientados por um sistema de satélites com tal precisão que quase permite identificar as expressões faciais dos alvos. Detonam casas, grupos de vizinhos que prestam socorro após os bombardeios e também os grupos reunidos para o enterro.

Suas ordens são determinadas por um comando militar que antes identificava os alvos através de informações de espionagem, mas passou a identificá-los por “comportamento típico”, ou seja, se um grupo de pessoas em uma praça ou em uma casa tem um comportamento “tipicamente suspeito”, então, kabum! Bomba neles! Do mesmo modo como a polícia no Rio de Janeiro atua em suas diligências. É preto, pobre, está em grupo? Kabum!

Os filmes tratam de dramas pessoais dos envolvidos, mas as situações são apresentadas como normais, ou seja, são institucionais e sem conflitos com os padrões éticos da sociedade americana. Uma sociedade que acha normal o império estar em guerra permanente. Que acha normal a prática de soldados mercenários, os atiradores de elite e os drones. Uma sociedade que já incluiu em suas práticas sociais cotidianas os solenes enterros militares, as entregas de bandeiras aos familiares de soldados mortos em combate, as idas e vindas de profissionais da guerra que entremeiam suas atividades com períodos de férias etc.

Esta mesma sociedade se atribui o papel de crítica moral de outras. Gargalha diante dos “absurdos” acontecimentos no Brasil.

E sobre a corrupção? Haverá sociedade que mais tenha praticado e se beneficiado da corrupção do que a sociedade americana? Corrupção em escala mundial. Será difícil apontar algum grande caso de corrupção em âmbito internacional que não tenha o envolvimento das empresas americanas suportadas e protegidas por seu governo. Aliás, como recentemente alguém resgatou em programa na TV, os EUA patrocinaram os que foram, talvez, os maiores ladrões da história política, entre eles Chiang Kai-shek (China); Rafael Trujillo (Rep. Dominicana), Fulgêncio Batista (Cuba), Anastásio Somoza (Nicarágua) e segue uma lista que parece não ter fim.

Veja-se, ainda, o caso da indústria de armamentos. Os gastos militares mundiais em 2014 chegaram a quase dois trilhões de dólares. Os EUA detêm 31% do mercado mundial exportador de armas e a transparência nos relatórios sobre a transação mundial de armas militares vêm reduzindo a cada ano (quem quiser mais informações busque em  Stockholm International Peace Research Institute – www. Sipri.org).

Como será que ocorre a negociação de armas pelas empresas americanas (empresas legalmente instituídas pela lei daquele país) com as partes nos diversos conflitos, alguns deles que os próprios americanos promovem?
Haverá concorrências com leilões públicos? Notas fiscais de compra e venda? Nada de subornos? Nada de corrupção? Profissionais idôneos executando transações comerciais isentas e... inquestionáveis? Será a lisura e honestidade nas transações a marca especial deste processo, patrocinado por aquela sociedade?

Enfim, qual o direito deste bando de corruptos cujas ações têm destruído populações inteiras, entre elas, a Palestina, o Líbano, o Iraque a Síria, se arvorar em juiz ou júri da ética e moral da sociedade brasileira?

E ainda existem brasileiros, afogados em sua baixa-estima, que declaram sentir vergonha de serem brasileiros.  Manifestando o seu complexo de vira-latas, olham para essas sociedades como se elas fossem melhores, como se todas não padecessem de uma doença comum que, infelizmente, também envolve a nossa.

Ora! Adianto o meu pedido de desculpas pela exclamação. Mas, vão todos tomar no cú!

Dona Ivone
Estou bem longe de ser um xenófobo, ao contrário, sou ideologicamente internacionalista. Para mim um ser humano não deve ser considerado “diferente” só porque nasceu na outra margem de um rio, do outro lado de um morro ou de uma cerca que determina fronteiras entre países. Não tenho cacoetes chauvinistas e valorizo pouco os patriotismos. Mas, isto não muda o fato que a organização política das pessoas se dá em torno do conceito de nação e a maior parte das sociedades é identificada assim, ainda que grande parte das origens dos nacionalismos seja de natureza econômica, bem mais do que cultural.

É com esta visão que faço esses contrapontos. Eles não são desculpas para mazelas da nossa sociedade. Nada nos redime nem nos liberta da obrigação de nos transformar socialmente em algo melhor. Porém, tendo em vista a história de formação das sociedades, no que se refere a valores éticos e morais, a sociedade brasileira em nada fica a dever às demais, especialmente às ocidentais mais próximas.

Afirmo que qualquer um “não brasileiro” terá muito que aprender com a nossa jovem sociedade. Confusa e ainda em formação, que conta com pouco mais de duzentos anos, muito menos do que seria necessário para a consolidação de uma cultura no sentido antropológico do termo.

Estamos ainda moldando a nossa cara social, mas ela já mostra alguns aspectos interessantes. Ainda carregamos como uma ferida mal tratada, incurada, os vestígios da escravidão. Ressentimentos, preconceitos, valores e discriminações. Nunca soubemos tratá-los, nunca os enfrentamos.

Contudo, cultivamos o mito da integração, e isso é bom. Trata-se de um mito, é verdade,  mas é um mito do bem porque expressa um bom desejo. E se nos empenharmos nesta luta, se fizermos disso um projeto, teremos grandes chances de chegar lá, conseguindo superar o preconceito de origem.

São incontáveis os exemplos de núcleos sociais brasileiros onde participam, sem constrangimentos, elementos de formações culturais e origens distintas, formando uma alternativa de composição tão diversa, variada e indiscriminada quanto as nossas típicas mesas de self-service.

Preconceitos? Temos muitos, mas via de regra não nos identificamos nem nos distinguimos por nossas origens, e como regra geral, entre nós, o outro sempre é bem recebido. De quantas outras sociedades podemos dizer o mesmo? Quantas se organizam com a premissa, mítica ou real, da aceitação do outro?

Somos vizinhos de 10 outros países, numa fronteira de cerca de 15.000 quilômetros sem acumular histórias de agressões e conflitos.  O próprio brasileiro terá dificuldade em avaliar a dimensão e a qualidade deste fato. Muitos nem sequer sabem, mas França e Alemanha que compartilham uma fronteira de cerca de 450 quilômetros, há menos de cento e cinquenta anos estavam engalfinhadas em guerras que produziram dezenas de milhares de mortos.

Nossa sociedade não é melhor nem pior do que as demais porque essa comparação não faz sentido. Ela existe apenas como mecanismo de dominação cultural e política como citei anteriormente. E o nosso papel como seres de uma comunidade internacional é identificar e aproveitar o melhor que cada um de nós conseguiu realizar.

Neste sentido, reafirmo que o cidadão europeu, americano ou de qualquer parte ao pisar no Brasil deveria fazê-lo respeitosamente. “Pisar nesse chão devagarinho” como ensinou a maravilhosa poetisa do samba, D. Yvone Lara.
#####