domingo, 19 de junho de 2016

Cobras e lagartos sobre jacarés e ariranhas

Leituras para distrair

Conversando sobre o caso do jacaré que mastigou um garotinho em Orlando – USA, no dia 13 de junho, último, um dos meus filhos comentou que estranhava o anúncio de baixa quantidade de ocorrências deste tipo lá, em Orlando.

Segundo ele, aquela região tem jacaré pra cacete, a ponto de existirem trabalhadores com a missão específica de raspar do chão restos de jacarés que são esmagados pelos automóveis nas estradas. E no intervalo de tempo em que ele morou por lá, o condomínio em que morava recebia visitas regulares de funcionários da prefeitura com instrumentos para realizar vistorias e recolher jacarés que estivessem em locais inadequados tais como quintais, pequenos lagos caseiros ou piscinas.

Mas, conversa vai e vem, e o fato da tragédia ter acontecido em um parque de diversões (Disney), lembrei e contei para eles (os "meninos" com os quais eu conversava) sobre um caso das ariranhas em São Paulo, nos anos setenta, quando eu morava lá. 

Foi no Zoológico (acho), em setembro de 1977, quando uma criança entrou ou caiu no poço das ariranhas sendo atacada por elas. Para quem não faz ideia, ariranha é um bicho feroz e conhecido como “onça-dágua”.

Outro visitante que estava com mulher e filhos, e nada tinha a ver com a criança que caiu no fosso, mergulhou para salvá-la. A criança foi salva, mas o infeliz morreu deixando a família que assistiu à tragédia. O herói era sargento do exercito brasileiro.

O então colunista da Folha de São Paulo, Lourenço Diaferia (1933 – 2008), fez uma crônica emocionada relacionando a atitude do sargento. Em seu artigo (link abaixo) ele citava o sargento como verdadeiro herói popular, comparando-o aos mitos estáticos como o representado pela estátua do Duque de Caxias, um monumento muito conhecido na cidade e que era (ou ainda é) uma referência próxima à antiga rodoviária. ”Prefiro este sargento ao Duque de Caxias”, escreveu Diaferia.

O artigo emputeceu a ditadura. Os chefões de então, Geisel, Hugo Abreu e Silvio Frota tomaram o artigo como uma ofensa a um símbolo nacional. O Diaferia entrou em cana, não sei se ganhou umas porradas, mas segundo a própria Folha de São Paulo, que havia apoiado o golpe militar há mais de 10 anos, o jornal foi ameaçado de ser fechado por ameaça direta ao seu proprietário.


Resgatei a crônica do Diaferia para mostrar para aos meninos. Mas, reli, naturalmente, e constato que ela continua emocionante e atual, assim como há quarenta anos. Compartilho registros que coletei e guardei.


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Sumário do caso e reprodução do texto do Lourenço Diaferia

Matéria da Folha relata a censura ao texto e a ameaça de fechamento do jornal




Personagens - A ariranha está sem farda. Outros são: Geisel, Hugo Abreu e Sylvio Frota


quinta-feira, 16 de junho de 2016

Dor de um punhal

Leituras para distrair


Essas anotações são réplica de mensagem que enviei a uma pessoa amiga. Em uma conversa usamos, sem perceber, a palavra punhal. Uma palavra antiga e até dramática que provocou o nosso riso e o registro a seguir.

Certamente existem outros, mas posso assegurar que esse, na foto abaixo, é um autêntico "punhal" cujo dono original  foi um trabalhador. Não era marginal, ganhava a vida como operário naval, mas cultivava fama de valente e assim era conhecido nos ambientes que frequentava quando ainda havia espaço para figuras do seu tipo. O seu nome era Reynaldo - o tio Nadinho - irmão mais velho do meu pai.

Ele era presença frequente em nossa casa porque morávamos nos fundos da residência da minha tia e madrinha, também irmã do meu pai e que operava como uma matriarca da família. Ela era  a mãe de santo do terreiro de umbanda que lá funcionava e que era um núcleo agregador da sua irmandade, em sentido literal, composta de cinco homens e duas mulheres.

Tio Nadinho, o mais velho, apesar de trabalhador, levava uma vida desregrada se comparada aos demais irmãos. Sustentava família, mas claramente não tinha o mesmo compromisso que os demais. Morava num “morro”, no bairro Engenhoca, divisa de São Gonçalo e Niterói. Mas, naquela época o morro não era favela nem local de miséria, embora carregasse o estigma de um território marginal.

Vestia-se com calças largas, camisas de flanela e mangas compridas. Nunca o vi em camisa de mangas curtas. Usava um chapéu de lona, com abas, quase cowboy, que era um dos identificadores da sua tribo na região. Em linguagem moderna a sua vestimenta formaria um “hashtag valentão”.

Na cintura ele portava um punhal. Sempre escondido quando estava próximo de nós, mas nos seus ambientes era importante que soubessem da existência da arma. Além do mais, ele tinha um andar balançando o corpo, com as mãos raspando nas pernas ao andar, gestos que acentuavam a caricatura do “malandro”. Com o tempo aprendi que não era uma coreografia ensaiada, mas apenas um jeito característico de família que até o meu pai e outros irmãos também possuíam.

Tio Nadinho sempre foi recebido, lá em casa, com alguma reserva por parte do meu padrinho e da minha mãe que eram seus cunhados. O meu padrinho, “dono” da casa principal, não escondia a opinião que o seu cunhado não era flor que se cheirasse, e minha mãe, que ele tratava por comadre, eriçava os pelos tentando proteger o meu pai e buscando mantê-lo longe das aventuras do seu irmão mais velho.

A relativa animosidade na recepção se justificava por duas razões principais. Uma delas era porque, geralmente, o visitante irradiava o aroma de umas boas e indisfarçáveis cachaças. Algumas vezes, a situação era tal que ele nem ultrapassava o portão do quintal, um limite que ele mesmo se impunha, respeitosamente. Mesmo assim, ele passava por lá, assiduamente, para prestar contas à irmã que não abria mão da sua visita. E era nossa obrigação (as crianças) ir até ele e cumprir o ritual da benção - “Bença, tio Nadinho!” - que ele respondia com as palavras que estivesse em condições de pronunciar.

Outra razão que justificava a recepção era porque, também muitas vezes, a sua visita era precedida de notícia ou boato sobre alguma arruaça que ele havia promovido no Largo da Morte, atualmente Largo de São Jorge, um espaço de comercio próximo à descida do morro onde ele morava, e onde era tido como um dos valentes locais.

Tio Nadinho morreu com idade avançada para o seu tipo de vida, e de morte natural. Alguma doença que não recordo. Nos tempos atuais sequer teria chegado à idade adulta. Teria sido despachado para o além, bem cedo, junto com a sua valentia. Nas minhas lembranças ele era simpático e cordial, embora não fosse um tipo carinhoso, também comparado aos seus irmãos. Meus primos e primas, seus descendentes, foram modestos e honrados trabalhadores, não sei de nenhum que tenha saído pelas marginais.

Em uma das aventuras de tio Nadinho, o meu pai, ainda solteiro, e que, apesar mais novo, gozava de alguma autoridade sobre o irmão, foi chamado para intervir e desarmá-lo. Dele o meu pai tomou e guardou esse punhal, o da foto, que passou a pertencer à nossa casa, que acompanhou a minha infância e a do meu irmão Sergio. Punhal que ainda guardo comigo e que conjugado com a conversa sobre essa palavra antiga e fora de uso serviu de mote para resgatar essa história, também antiga e de uso nenhum. 

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Sobre a Engenhoca e o Largo da Morte



O punhal



sábado, 14 de maio de 2016

Impedimento foi do mandato, a luta continua!

Opinião

Finda a votação preliminar no Senado e afastada a presidenta por decisão de maioria expressiva, parece que são poucas as chances de uma alteração nos resultados quando o mérito do impeachment for votado. Sem dúvida um golpe para quase todos nós.
Tomara, sinceramente, que eu esteja enganado, mas coerente com as motivações que nos fizeram engajar na campanha contra o golpe, suponho que viveremos um tsunami de ações conservadoras ou retrógradas em relação aos avanços socioeconômicos das populações mais necessitadas e avanços sociopolíticos da população em geral. Tudo isso associado a uma tentativa de demolição dos simbolismos remanescentes de um governo popular. Nessa linha possivelmente aparecerão denúncias mais expressivas sobre as mazelas dos governos petistas, agora vistas “por dentro”, além de um avanço sobre o seu representante maior, Lula. Quem sabe, a sua prisão ou cassação de direitos que permitissem o seu retorno nas eleições de 2018.
Mas, essas são apenas especulações de militante, resultado de conversas aqui e acolá. É difícil fazer projeções especialmente na dinâmica com que as coisas acontecem por aqui. E não nos esqueçamos do fator natureza. Não quero “matar” ninguém, ou melhor, não alguns, mas às vezes tratamos os personagens como supernaturais e, no caso, Lula e Dilma, não nos esqueçamos, são ambos acometidos de doenças graves, embora controladas, doenças com patologias extremamente sensíveis às perturbações emocionais (que não faltaram nos últimos meses). Qualquer um de nós sabe disso por experiência de vida.
Precisamos, então, conversar sobre as próximas batalhas. Mas, não é o caso de baixar a cabeça e investir cega e furiosamente sem nem saber exatamente contra o quê ou quem. Este tipo de comportamento não adiantará muito.
Os golpistas levaram o poder real, mas não ganharam o discurso político, ainda que os meios de comunicação tentem fazê-lo a todo custo. O movimento em torno da bandeira “não vai ter golpe” teve um resultado importante e positivo.
Na medida em que o alvo direto dos golpistas foi roubar o voto do cidadão apontando para a demissão da Dilma, e tendo ela a história política que tem, foi possível uma aglutinação de forças que não tiveram constrangimentos em abraçar a palavra de ordem “não vai ter golpe”, independentemente das cagadas e contradições do governo petista. E, sem ter como evitar o trocadilho, os golpistas acusaram o golpe. Não foi por outro motivo que os discursos oposicionistas mais serenos no Senado tentaram argumentar para destruir a tese do golpe. Um fato singular foi o tumulto provocado no Senado Federal brasileiro pelo pronunciamento do argentino, Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, ao mencionar a palavra “golpe”.
O espetáculo circense dos deputados na votação do dia 17 de abril de 2016, as ações de Eduardo Cunha e de Michel Temer, o surto enraivecido do juiz Moro, o apoio contra o golpe recebido de uma expressiva parcela de personagens reconhecidos com integrantes de uma intelligentzia cultural nacional, além das mobilizações de alguns setores organizados, superaram faltas importantes, por exemplo, o movimento sindical, e permitiram um clima de enfrentamento com cabeça erguida até mesmo diante das derrotas nas votações.
Um clima que gerou as imagens simbolicamente importantes da saída da presidenta do palácio do Planalto, sem constrangimentos e resguardada pelos seus apoiadores na população. Imagens que certamente circularam o mundo e que são importantes para a continuidade dos enfrentamentos ainda que não se tenha conseguido barrar o golpe.
Manter a aglutinação dos grupos e movimentos em torno de bandeiras que foram levantadas como ameaçadas de extinção no caso do impeachment parece ser uma possibilidade na qual deveríamos investir.
Existem discordâncias, naturalmente, se estas bandeiras faziam efetivamente parte dos projetos do governo Dilma e do PT. Para o PSTU, por exemplo, as medidas que possivelmente serão praticadas por Temer foram, a rigor, gestadas no próprio governo Dilma. De minha parte não acho que esta seja uma questão fundamental, nem me disponho a debatê-las em ambientes que não seja no próprio PSTU que tem, ao meu juízo, uma leitura errada sobre o caráter do golpe.
Identificando-me como alguém externo ao partido dos Trabalhadores, também não valorizo cobrar autocríticas por suas mazelas partidárias, não importa o peso que tenham tido para a situação chegar ao ponto em que chegou. Em minha opinião os petistas deveriam fazê-lo, mas este é um problema do PT.
O tempo providenciará as discussões necessárias, e os enfrentamentos recentes tem sido um exemplo claro de que nada melhor do que a luta para realizar as filtragens que unem as ideias convergentes e que permitem separar joio e trigo.
Bem mais importante para mim é o entendimento que, independentemente destas interpretações, está  mais que comprovado que há  bandeiras aglutinadoras e que há grupos dispostos a levá-las em frente. É nesta direção que deveríamos e que me disponho a caminhar, e com esta visão, acho importante considerar, neste momento, pelo menos dois aspectos que usarei como referência em minhas ações.
Primeiramente, seria importante que o PT e os seus militantes não cometessem o equívoco de avaliar esta conjunção de militância como um endosso de suas ações e de seus governos. Muito menos se identificarem como patronos  dessa ainda insipiente, mas valiosa união.
Há, sim, um espaço de luta comum, mas não se interprete este fato como um retorno de ovelhas desgarradas ao rebanho militante petista. A aglutinação tem sido, e será, contra o golpe e em favor de avanços nas conquistas sociais. Não é uma defesa ou endosso do governo e práticas petistas
A comunhão mostrou com clareza quais são os pontos comuns e que é possível lutar por eles, mesmo enfrentando a contradição de lutar ao lado de partidários de governos e governantes cujas práticas tem estado supostamente distantes das bandeiras defendidas. Constatamos, mais uma vez,  que a luta nos ensina a superar tais contradições na medida em que na militância ainda nos identificamos companheiros com um ideal político comum. Será um engano prejudicial se o PT não interpretar assim.
Outro aspecto que destaco é uma expectativa (minha, pelo menos) que a experiência tenha sido o suficiente para que as instâncias e lideranças partidárias petistas se voltem efetivamente para o lado onde está a sua militância e outros companheiros unidos na luta contra o golpe, ou seja, nas ruas, nas manifestações, em torno de palavras de ordem que contestam o status quo político e que avançam nas conquistas sociais.
Tomara que os líderes e instancias formais partidárias não se voltem para o outro lado,  exclusivamente para o covil parlamentar com a expectativa que lá é o campo em que a batalha deve ser realizada.
Obviamente há uma ação a realizar no Senado, mas, lá não é a nossa arena de combate. Tomara que as direções, parlamentares e instâncias partidárias não se voltem para as confabulações, para os “acertos”, para os conchavos e para a promessa de troca de favores em  busca de votos para evitar que se consolide a maioria de 2/3 nas votações de mérito no Senado. Será uma boa oportunidade para o PT fazer valer a sua Resolução Política de 19/04/2016:
“... Fazendo autocrítica na prática, o Partido dos Trabalhadores tem reaprendido, nesta jornada, antiga lição que remete à fundação de nosso partido: o principal instrumento político da esquerda é a mobilização social, pela qual a classe trabalhadora toma em suas mãos a direção da sociedade e do Estado”.
Tomara que estejam saturados de traições e de engodos. Saturados de se emporcalharem no ambiente fétido das barganhas parlamentares. Isto, naturalmente, partindo do princípio que este ambiente lhes é hostil e que não estejam irremediavelmente, eles próprios, insensíveis ao cheiro de povo.
Mas, se a opção for seguirem esse caminho, se já chegaram naquela situação da novela de Orwell e se sintam bem numa fazenda de bichos onde já não se distingue gente e porco, então não haverá o que fazermos juntos. Prosseguiremos nós.


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terça-feira, 19 de abril de 2016

Golpe de sujos

Opinião 


O cenário caricato em que ocorreram as votações no último domingo, dia 17/04, na Câmara dos Deputados, visando o impedimento da presidenta eleita foi constrangedor, embora não tenha sido surpreendente. Mais importante do que as grotescas manifestações de votos foi a oportunidade dos deputados se revelarem para a sociedade. Cada um dos 511 deputados apresentou a sua cara e o seu rótulo. Confiantes em uma maioria de votos avaliada a priori e protegidos pelo sorriso cúmplice e irônico do presidente da Câmara dos Deputados, que atuou como para-raios da corja atraindo para si quase todos os xingamentos, que variaram de canalha, gangster, ladrão, chefe de quadrilha, imoral, entre outros, os golpistas sentiram-se relaxados e à vontade para expressar sem constrangimentos o seu ódio de classe, suas manifestações fascistas e os seus efetivos compromissos. Queiramos, ou não, ali estava a representação política da nossa sociedade. Não viu e não vê quem não quis ou não quer.

Embora esperado, o resultado não deixou de provocar uma sensação ruim de perda e de decepção.  Perda porque, concretizando-se o impedimento, certamente retrocederemos nos mínimos, mas tão significativos avanços alcançados nos últimos governos. Não valorizo os exemplos aqui porque, afinal, a discussão sobre eles tem sido feita desde as eleições presidenciais e, em última análise, foram eles que determinaram a vitória eleitoral da presidenta, resultado inaceitável pelos derrotados que promovem o golpe.

Mas, a perda maior vem junto com a decepção de constatar, entre as relações próximas, a existência de pessoas que apoiam o golpe sem qualquer constrangimento em se identificar com aqueles que, votando em seus nomes, protagonizaram a farsa do dia 17/04/2016.

Os votos golpistas homenagearam os militares de 64, o governo foi acusado de estimular as crianças a mudarem de sexo, alguns bradaram gritos de caça aos comunistas, outros apontaram os programas sociais do governo como uma ofensa à dignidade dos nordestinos. Houve até homenagem explícita ao ex-militar condenado como torturador, o cel. Brilhante Ustra, citado na declaração de voto como “o terror da Dilma” (O deputado que prestou a homenagem recebeu uma cusparada quando merecia ganhar uma porrada bem dada e no meio dos cornos). E tudo isto aconteceu sob o aplauso e outras manifestações de júbilo não apenas no plenário, mas também na assistência, entre os coxinhas do "sim".

Apoiadores do golpe argumentam que combatem a corrupção, que nunca houve corrupção igual, que o governo está tomado por uma quadrilha etc., mas não se sentem incomodados em comungar suas ações e pensamentos lado a lado com fascistas, torturadores, criminosos, reacionários e corruptos efetivamente comprovados. Alguns dizem que até votaram na presidenta e que foram traídos em seus votos. De uma forma geral, quase todos se ofendem por serem identificados como fascistas e coisa e tal. Mas, estavam todos lá, juntos. Comemorando o golpe. Tenho até me esforçado para distingui-los e tentado não generalizar minhas avaliações, mas sem muito sucesso. Curiosamente, o registro que melhor traduz o meu sentimento sobre esta questão é justamente o parágrafo final de um clássico da propaganda anticomunista dos anos 50:

“... Doze vozes gritavam, cheias de ódio, e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco” (Orwell, George. A revolução dos bichos. Ed. O Globo: RJ; Folha de São Paulo: SP).

De minha parte, estou seguro em minhas afirmações e escolhas, e muito à vontade entre os que têm estado ao meu lado, até mesmo considerando alguns que votaram em meu nome, contra o impeachment, e com os quais não tenho qualquer sintonia política. Se havia alguma dúvida inconsciente, ela foi expurgada com aquele desfile hipócrita que pareceu uma versão de TFP ecumênica reunindo autodenominados católicos e evangélicos em nome de deus e em defesa da tradição, família e propriedade. Talvez aquele desfile tenha sido tal “legião” que seria enviada por “deus”, conforme o anúncio da moça, autora do requerimento de impedimento, durante uma sessão de endemoninhamento na faculdade de direito da USP, sob o aplauso de ilustres doutores.


Enfim, o resultado até aqui indica que ainda há muito que fazer para avançar, mas acho que estou no caminho certo. Cada vez mais vermelho, comunista e ateu. E sinto um orgulho enorme disto!

sábado, 19 de março de 2016

Os amigos e os cajus

Leituras para distrair
Recebi a foto de um kit, que o remetente ironicamente identificou como “kit Jorge”, contendo uma lata de pinga Pitú e alguns cajus. Gostei da brincadeira e fiz alguns comentários.

Eu não pratico tanto, mas gosto de um caju amigo. Uma peça carnuda de caju cortada em filés sobre uma tábua de madeira, uma boa pinga, e o momento máximo: mastigar um filé de caju e, em seguida, degustar a pinga. Uma delícia! Ainda que possa ser um atentado contra a saúde.

Conheço pessoas que invertem o ritual. Primeiro a pinga e, depois, o caju como um tira-gosto. Não é o meu caso, mas é besteira discutir este detalhe. Vale o prazer. 

Não é um ritual para se praticar sozinho. Eu e um antigo companheiro, cujo contato perdi, praticávamos o caju amigo em uma pequena propriedade que tive e que chamávamos de “sitio”.

O caju amigo me traz duas lembranças especiais. Uma delas, como não deixaria de ser, é gonçalense. Ainda estávamos no colegial, lá em São Gonçalo, quando íamos ao bar do Adelino, na Vila (Zé Garoto), e bebíamos um caju amigo, eu e o meu querido e falecido compadre. Lá o caju não era servido em filés, era espremido em um copo do mesmo tipo onde era servida a pinga. Copo simples, de fundo alto, antes era chamado copo de cachaceiro, hoje é chamado de shot. Ali, em pé, no balcão, bebíamos em dois goles. Meu compadre bebia primeiro a cachaça, eu bebia primeiro o caju, a pinga ia em seguida. Hoje o Adelino seria preso por vender bebida alcoólica a menores. As conversas, as piadas, as expressões e comentários eram sempre os mesmos. Tudo fazia parte do ritual. Um dos tantos rituais que consagraram uma amizade que só me trouxe felicidade.

Outra lembrança é de uma tarde em um local distante, uma quase esquecida estação da Embratel, em Boa Vista, Roraima, ou Macapá, Amapá. A memória é falha, e nunca mais voltei lá. Era uma estação dos antigos sistemas de tropodifusão com suas antenas lindas, erguidas como enormes muralhas de metal no espaço e que pareciam peças de ficção científica. Poucos profissionais de telecomunicações tiveram a oportunidade de conhecer aqueles equipamentos que eram a alternativa de comunicações na amazônia antes do advento do satélite.

O terreno lateral ao da estação continha vários cajueiros e uma mangueira enorme com uma sombra magnífica. Grande o suficiente para abrigar uma birosca e alguns bancos de madeira. Nada em volta, só mato e a casa do caseiro da estação. Não sei de onde saía a clientela da birosca. Terminamos o trabalho e fui levado para conhecer a birosca e o caju amigo. Uma pinga deliciosa e os tamanhos dos cajus eram impressionantes, pelo menos para mim.  Tudo se ajustava naquela tarde, parecia um momento ensaiado. Estávamos eu, um companheiro da engenharia de Belém, outro colega do Rio e o pessoal da estação local. O resto não preciso relatar, nem conseguiria. Basta fechar os olhos e deixar a imaginação fluir deliciosa como flui um caju amigo.

Sobre o kit para caju amigo, eu já o vi no supermercado próximo ao Largo do Machado, aqui, no Rio. Achei interessante, embora eu não goste muito do sabor da Pitú, uma pinga pernambucana reconhecida internacionalmente. Não sei se existe alguma Pitú especial. A comercial eu não gosto. Porém, gosto não se discute, mais vale um gosto do que dez vinténs, como dizia a minha avó Olga.
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Nota: este registro foi elaborado em novembro de 2015 



quarta-feira, 16 de março de 2016

Uma Klan tropicalizada


Opinião

Recebi de um amigo as imagens abaixo. Elas resgatam a similaridade das manifestações que se desdobraram na ditadura de 1964 com as manifestações do último dia 13 de março de 2016. Fiz alguns comentários que compartilhei entre amigos e familiares e reproduzi aqui para registrar a minha opinião. 

Parece que a história se repete como farsa. Farsa no sentido de burlesco, de caricatura sem compromisso, como disse o velho Karl no “18 de Brumário”1. E ainda recorrendo ao "velho": os homens fazem a sua própria história, mas não fazem segundo a sua livre vontade porque eles não determinam as circunstâncias. Elas lhe são dadas, transmitidas. 

Eu não saberia reproduzir com exatidão sem recorrer à estante de livros e copiar o texto, mas este não é o caso. A ideia está correta.

E as circunstâncias estão aí, impondo-nos escolhas que possivelmente teremos que fazer ainda que não queiramos. No caso, acho que cada um de nós precisará escolher um lado. 

Isto não seria um problema porque, afinal, política é isto: escolha. Contudo, tomara que eu esteja errado, as coisas caminham de uma forma em que não haverá vários os lados, mas talvez apenas dois. Nem mesmo a abstenção será uma alternativa em si própria.

Minha escolha já fiz. Não farei parte dessa massa que incorpora e que caminha lado a lado de uma elite minoritária brancosa e fascista cujo projeto estratégico (e escroto) é a consolidação de uma sociedade excludente e desigual disfarçado de um discurso de combate à corrupção.

Sei que os manifestantes não são todos fascistas, que alguns querem efetivamente um país melhor etc. Mas, o fato é que estão juntos e fortalecendo os fascistas, exploradores, vendilhões das riquezas nacionais, além de outros atributos.

Então, Fodam-se! Se a distinção é necessária, eles que a façam. Até lá, considero que todos formam um bando de Filhos das Putas.

De meu lado, arco com o ônus de ser identificado com grupos e práticas políticas que abomino e com os quais já me incompatibilizei há muito tempo. Não será simples, mas é a parte que me caberá neste latifúndio. Sempre fiz isto e continuarei fazendo.

Como já disse, tomara que eu esteja errado e não precise realizar escolhas em conjunto tão restrito de alternativas. Especialmente porque a consequência imediata possivelmente será a perda ou afastamento de relações afetivas queridas.

Mas, se for necessário, assim será. Não sinto vergonha, não disfarço os meus projetos, nem me mobilizo pelas chamadas à luta convocadas pelos jornais da Globo.

Em hipótese nenhuma me confundirei com esta burguesia coxinha e babaca que sente vergonha de ser brasileira, que abomina a miscigenação característica da nossa sociedade, que odeia o pobre em vez de odiar a pobreza. Esta versão verde-amarela de Ku Klux Klan. Aliás, como o meu amigo bem observou, nada tão simbólico como estarem quase todos vestindo camisa da insuspeita CBF.
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1.
O 18 de Brumário de Luis Bonaparte é considerado um dos textos mais importantes de Karl Marx onde ele relata e analisa um golpe de Estado ocorrido na França em dezembro de 1851 comandado por Luís Bonaparte que havia sido eleito presidente três anos antes e impôs uma ditadura declarando-se imperador Napoleão II. Luís Bonaparte era sobrinho do Napoleão Bonaparte que todos conhecem (aquele da mão enfiada no casaco), também ditador, e que havia se coroado como imperador da França em 1804.
Em 1789, na Revolução Francesa, os revolucionários mudaram o calendário alterando a quantidade de dias da semana, a quantidade de semanas dos meses, os nomes dos meses etc. Essa mudança durou até o ano de 1805. Quando Napoleão Bonaparte (o da mão no casaco)  foi coroado era o dia 18 do mês de Brumário pelo calendário revolucionário. O livro de Marx tem um título que ironiza a situação. O golpe de Luís Bonaparte foi dado no aniversário da coroação do seu tio, assim teria sido o 18 de Brumário do sobrinho, 47 anos após o golpe do tio.
A primeira publicação do 18 de Brumário de Luís Bonaparte, escrito por Marx, foi em 1852. Atribui-se a sua relevância ao fato de ser um exemplo concreto de um método de análise que hoje se denomina análise marxista.

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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Irradiando magia


Leituras para distrair

Em 8 de dezembro de 1980 oficializei o meu retorno de São Paulo assinando o contrato com a Embratel. Dia de N.Sra. da Conceição. Vim ao Rio e retornei a São Paulo no mesmo dia. Logo que cheguei fiquei sabendo do assassinato do John Lennon. Dia estranho. Alegria e tristeza.

Mas, 8 de dezembro também é especial por outras lembranças queridas. Minha madrinha, avó, tia e dona de outros títulos familiares e afetivos, dinha Mansinha, promovia em seu centro de umbanda, na casa onde morávamos, uma celebração para Oxum, a patrona do centro. Era uma festa dominada pelo sincretismo. Primeiro havia uma ladainha celebrando N.Sra. da Conceição, a puxadora das rezas chamava-se D. Irene. Finda a ladainha havia uma sessão espírita com rezas, incorporações etc.

Mas, antes de tudo, havia uma sessão de “descarrego” quando a casa e os presentes eram defumados para afastar os maus espíritos. Dinha Mancinha  (com "c" mesmo) percorria a casa com o defumador, uma grande taça de barro onde havia pedaços de carvão em brasa produzindo fumaça. Não lembro se havia alguma erva. De qualquer forma, não fedia. Ela cantava uma prece que dizia “Defume esta casa bem defumada/com a cruz divina ela vai ser rezada/ ela é rezadeira, ela é filha de umbanda/com a cruz divina todo mal debanda”. Cantando ela percorria as entradas e saídas da casa espalhando a fumaça e cada um dos presentes se apresentava para a defumação. Ela aproximava o defumador e a fumaça nos envolvia, frente, costas, embaixo dos braços e pernas, exatamente como os agentes federais fazem com o detector de metais nos aeroportos. 

E a casa ia enchendo de vizinhos, amigos e familiares que se serviam dos muitos doces em compotas ou em forminhas de papel, bolos e manjares diversos preparados em nossa casa ou levados pelos participantes. A rigor não havia convidados. A casa era aberta e a segurança era os homens da casa e, possivelmente, os deuses homenageados. 

Quase não rolava bebida alcoólica. Havia algum vinho doce, tipo moscatel (horrível) que uns poucos bebiam. Também havia licores. Nada de cerveja. Meu pai, o cambono do centro (uma espécie de primeiro secretário do pai-de-santo), tinha a sua pinga embaixo da pia e da qual ele se servia moderado por suas responsabilidades e por minha mãe, é claro. Mas o ambiente geral não era de beberagem. Era uma alegria e um alto astral que iniciava já no aniversário da minha madrinha, em 3 de dezembro. Lá, eu e meus irmãos aprendemos rezas, cantos (pontos de macumba), adornos, rituais, oferendas e, principalmente, incorporamos valores de caráter. Nunca vi um lance sequer apontando para o prejuízo de alguém.

Gosto muito de saber sobre os mitos religiosos. Desconheço algum que aponte o ato de ferrar a vida do outro como mecanismo de sublimação do ser humano. Mas, tenho admiração especial pelos mitos de origens africanas. Eles são lindos e interessantíssimos. E vão bem além daqueles que as religiões fizeram chegar até nós. É uma pena que a discriminação e preconceito racial e religioso da nossa história tenha nos negado o estudo das mitologias africanas e indígenas. Aprenderíamos muito com eles. Mas, vejo as condições atuais de circulação de informação como uma nova oportunidade. Bem que eu gostaria de ver no cinema Ogum, além de  Thor. Oxum, além de Odin. Exus e Sacis além de Rumpelstichen.

Hoje é dia d’Oxum, um tema que os compositores Gerônimo e Vevé Calazans e a cantora Gal Costa transformaram em uma das músicas que mais me emociona. Composta para uma serie de TV, deveria ser (se não é) o hino de Salvador. Poderia ser, também, um hino do Rio de Janeiro. Tive o prazer de ouvi-la recentemente cantada pelo Lucio Sanfilipo, no Trapiche Gamboa, numa noite povoada por orixás. Bebi uma ceva gelada e uma cachaça. Comemorei com os meus amigos presentes e saravei os ausentes, como faço agora. Saravá!

Para quem se interessar em ouvir: É D'oxum 

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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Não será por falta de vovó, nem de uva

Opinião

Acho perfeitamente possível melhorar a situação do analfabetismo em nosso país. A rigor os índices estão melhorando, mas o fato é que precisamos de prazos menores e, mais do que isto, que as melhorias ocorram em prazos planejados.

Como todas as questões que envolvem as escolhas de rumos e prioridades para um país, aquelas relacionadas à educação, entre elas o analfabetismo, são de natureza política. Entretanto, vista sob uma óptica operacional, a erradicação do analfabetismo no Brasil tem pouco ou quase nada a ver com aspectos pedagógicos sendo uma questão de natureza quase exclusivamente de gerência, administração e alocação de processos e de recursos.

Vale ressaltar que o termo analfabetismo é citado aqui nos termos em que o IBGE considera, ou seja, analfabeta é a pessoa que não sabe ler e escrever um bilhete simples no idioma que conhece[i]. Não estamos falando, por exemplo, do chamado analfabeto funcional ou outra categoria classificada pela pedagogia. E para superar este chamado “analfabetismo absoluto” não são necessários estudos e métodos pedagógicos especiais. Não que outros conceitos e ensinamentos mais elaborados devam ser colocados em segundo plano ou interrompidos, mas, no momento, para sair deste antro estreito, vale até mesmo o tradicional  “vovó viu a uva”.

Esta alfabetização básica e necessária, que se resume a uma aprendizagem dos mecanismos de leitura e escrita além de umas regras simples de linguagem,  já é realizada pelo país afora, entre familiares, vizinhos, grupos comunitários voluntários etc. Arrisco dizer que o processo para esta alfabetização ou, se quiser,  para o nível de alfabetização desejado e necessário, neste momento, não apresenta grandes segredos. O xis do problema é a quantidade de gente que precisa ser alfabetizada.

Os dados do IBGE que são extraídos das pesquisas realizadas sobre o censo de 2010 e pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) realizada no período 2007/2013 e colocados à disposição dos pesquisadores apontam uma “Taxa de analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais de idade”  de 8,5%[ii]. Para a população atual, nesta faixa etária, esta taxa corresponde a cerca de 13,6 milhões de pessoas. Esta é a quantidade de gente que precisa ser alfabetizada . São números melhores que os de 2001 quando a taxa era 12,4% correspondendo a 15,1 milhões de analfabetos[iii], mas ainda é muita gente, mais do que a população de Portugal, ou da Suécia, ou da Bolívia. Podemos dizer que melhoramos, mas ainda estamos bem distantes do necessário e entre os maiores tributários para a quantidade de analfabetos no mundo.

O Brasil também deu um passo importante ao aprovar  em 2014 um PNE - Plano Nacional de Educação que inclui entre as suas metas a de número 9: Elevar a taxa de alfabetização da população com 15 anos ou mais para 93,5% até 2015 e, até o final da vigência deste PNE (2024), erradicar o analfabetismo absoluto e reduzir em 50% a taxa de analfabetismo funcional. Foi uma gestação difícil, aprovada sob críticas, mas temos uma meta institucional que independe dos governos. O passo seguinte, a tarefa que se coloca, é tocar esse bonde, fazê-lo andar. 

Erradicar o analfabetismo é, portanto, uma tarefa exclusivamente operacional que depende, naturalmente, da decisão política de incluí-la entre as prioridades.  Se tomada esta decisão, a tarefa é consolidar as informações (que já existem porque o censo já as colheu) sobre onde estão estes 13,6 milhões de brasileiros. Daí, então, apontar o foco para eles alocando recursos: professores, infraestrutura e material didático além da adoção de medidas que permitam, no mínimo, contornar as dificuldades que dão origem a este quadro e que certamente passam pela distribuição de renda.

Será uma inocência política esperar que por esta via se promova alguma alteração no quadro de distribuição de renda do nosso país, porém mesmo medidas paliativas que superem deficiências de renda exclusivamente com o objetivo de viabilizar uma mobilização nacional para a alfabetização são perfeitamente viáveis. Por exemplo, remunerar razoavelmente os professores participantes de um mutirão.

Concluindo, ressalvo que esta avaliação sobre a possibilidade de erradicação do analfabetismo não deve ser confundida com crença nem com esperança. As carências educacionais nacionais não se reduzem à questão do analfabetismo, e nem o PNE é a tábua de salvação da educação brasileira. Mas, o PNE deve ser visto e tratado como um instrumento que precisa ser valorizado e utilizado, ainda que as suas metas para a erradicação do analfabetismo absoluto sofram críticas consistentes e importantes que as classificam como minimalistas entre outras depreciações. [iv]  A transformação desta possibilidade em realidade se fará com a atuação política,  e a conjuntura está aí mostrando a todos nós que não é simples. Mas, não será por falta de vovó, nem de uva.

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[i] Site IBGE- Indicadores sociais mínimos – Conceitos - http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/conceitos.shtm - acessado em 13/10/2015

[ii]  Brasil em síntese – Educação - Portal do IBGE - http://brasilemsintese.ibge.gov.br/educacao/taxa-de-analfabetismo-das-pessoas-de-15-anos-ou-mais -  Acessado em 13/10/2015

[iv] Plano Nacional de Educação 2011 – 2020- Notas Críticas - Coletivo de Estudos Marxistas em
Educação (COLEMARX) da Faculdade de Educação da UFRJ – Site SEPERJ - http://seperj.org.br/admin/fotos/boletim/boletim558.pdf - Acessado em 13/10/2015


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Onde essa criança aprendeu isso?


Leituras para distrair
“Aberto laboratório de computador quântico em Shanghai”. Eu li esta notícia recentemente, na internet e, embora ciente que sempre haverá uma distância razoável entre a realidade e as manchetes jornalísticas, fico impressionado. Há seis anos comentei sobre um livro que trata da computação quântica (Resenha Q - Bits), um assunto que na ocasião ainda parecia estar mais próximo da ficção. Contudo, as notícias sobre o estado da arte nesta área sugerem que os avanços tem sido rápidos e que há uma possibilidade real da construção, em breve, da tal máquina.

O assunto ainda parece tema para nerds ou cientistas, mas até bem pouco tempo quase ninguém fazia ideia, também, do que eram bits, bytes ou pixels, produtos que hoje são vendidos no comercio ambulante mesmo que poucos saibam exatamente o significado técnico dos mesmos, banalizados pelo seu valor de uso, como a Aspirina. Dispositivos eletrônicos de memória de massa, os minúsculos pen drives, foram apelidados de “chupa-cabra” e são comercializados entre as bancas de livros usados na saída do metro Carioca, no Rio Janeiro com os seus preços na faixa de dez a trinta reais conforme a quantidade de “megas” ou “gigas” que são capazes de armazenar.

A anunciada computação quântica promete ser uma revolução, bem mais do que apenas um avanço tecnológico ou uma atualização de versão de funcionalidades do celular. As velocidades de bilhões de operações por segundo realizadas atualmente com os “bits” serão superadas em muito pelos “quantum bits”, ou Q Bits. Esta “coisas” além de assumirem os valores “um” e “zero”, como fazem os bits tradicionais, podem assumir também um terceiro estado, indeterminado, que é, ao mesmo tempo, “um” ou “zero”, e tudo se passa como uma mágica que permitirá um aumento estupendo nas atuais velocidades das operações. Não importa como, acredite, este atributo permitirá um aumento tão grande na capacidade de processamento de informações que a sua chegada já ameaça os mais modernos sistemas de criptografia (codificação e senhas) eletrônica.

As possibilidades advindas destes avanços tecnológicos geralmente nos estimulam a buscar as interpretações dos renomados cientistas e técnicos numa vã tentativa de antever o mundo futuro.  Mas, com este objetivo, talvez a melhor direção seja dirigir os nossos olhares para as crianças e os artistas. Veja a reação de uma criança de colo, que nem mesmo sabe falar, ao pegar um celular. Faz gestos de pressionar pontos ou deslocar imagens em uma tela de sensibilidade ao toque, quase tão instintivos como o de levar a mamadeira à boca. Buscam respostas da tela com gestos que ninguém ensinou. E vejamos também com atenção os artistas, pintores, escritores, músicos, poetas. Mas, não com uma visão restrita de quem busca adivinhar o futuro em bola de cristal. Faça as filtragens que quiser, mas tente abrir a mente à compreensão. Eu não sei a receita, muito menos saberia ensinar, mas aprendi que nenhum cientista do passado conseguiu conjecturar sobre a realidade atual com tanto acerto e significado como fizeram os artistas com suas metáforas, suas ficções, dúvidas e assombramentos (Link para a matéria: Aberto laboratório de computador quântico em Shanghai).



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