sábado, 11 de janeiro de 2014

Desforra de medíocres: demitir Carlos Augusto


Opinião
A Embratel despertou o fantasma da perseguição e censura à manifestação do pensamento e do cerceamento à liberdade de organização e expressão dos seus empregados. Em 10/01/2014 demitiu Carlos Augusto Moreira, engenheiro, liderança na organização dos trabalhadores da Embratel no Rio de Janeiro, um dos fundadores da extinta associação de empregados, AEBT RJ, ex-diretor sindical, no SINTTEL RJ, e atual representante dos empregados eleito para o Conselho Deliberativo da fundação de seguridade Telos. Um empregado com 38 anos de trabalho na área de engenharia onde se destacou, se fez respeitar, conhecer e admirar como um dedicado e competente profissional, atributos reconhecidos por suas chefias imediatas, pelos colegas próximos e das demais áreas com as quais interagiu, assim como por profissionais das muitas empresas da área de telecom com as quais a Embratel se relaciona e junto às quais foi representada, sem reparos, pelo então empregado Carlos Augusto. Ele foi demitido porque, mesmo sem a proteção de uma estabilidade sindical,  não se omitiu de expressar suas opiniões ao longo da campanha salarial no final de 2013, nem de divulgar aos empregados que a diretoria da Embratel, no início de 2014, e por sua exclusiva conveniência, enfiou pela goela dos trabalhadores uma alteração no plano de benefícios da Telos.

A Embratel aprovou em âmbito nacional a sua proposta na campanha salarial 2013, mas ainda assim, como em anos anteriores, contabilizou os votos de rejeição da sua proposta pelos trabalhadores dos simbólicos prédios Mackenzie e Camerino, onde Carlos Augusto trabalha (va) e sempre foi uma referência imediata para os demais trabalhadores. A Telos, por sua vez, extinguiu o atual plano de benefícios e valorizou a decisão divulgando-a como uma “aprovação do Conselho Deliberativo”. Mas os empregados foram informados pelo seu representante, o companheiro Carlos Augusto, que a mudança foi imposta pela Embratel sem qualquer discussão ou debate. Foi mais uma “chave de galão” imposta em num conselho de representação distorcida, onde o representante dos trabalhadores é figura solitária.

São os gestores de recursos humanos que representam a Embratel, tanto nas negociações sindicais, como naquelas junto à Telos, e eles falharam em dissimular as políticas efetivas do grupo empresarial que controla a atual empresa. Não que tais políticas sejam uma novidade, mas esses gestores são reconhecidamente medíocres e incompetentes, e se prostraram parvos diante da atuação eficaz e comprometida do nosso colega.  Assim, melindrados  em sua estupidez, e antes que eles próprios fossem dispensados como néscios inúteis, promoveram uma desforra com a demissão do Carlos Augusto alegando uma suposta reorganização empresarial.

Entretanto, tão grave quanto a demissão, é que tais fatos ocorrem nas barbas de um governo cuja presidenta guerrilhou contra a ditadura e sucede dois mandatos de um ex-líder sindical em movimentos que transformaram relações de trabalho no Brasil. O atual ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, e a sua esposa, ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffman, certamente estão envolvidos com a provável candidatura da ministra ao governo do Paraná, mas também é certo que vários integrantes do atual governo, nos planos executivo e legislativo, estadual e federal, são egressos da categoria dos trabalhadores de telecom e obtiverem seus mandatos e cargos a partir do endosso político da categoria. Assim, é imperativo que tais personagens façam ecoar este acontecimento nas esferas de governo e chamem à atenção do casal de ministros para que dividam as suas preocupações com o que está ocorrendo na atual Embratel: perseguição e demissão de representantes dos trabalhadores. Combater esses avanços autoritários é tarefa de todos nós.
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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Chico da Matilde


Leituras para distrair

Há muito tempo nas águas da Guanabara, o dragão do mar reapareceu, na figura de um bravo feiticeiro a quem a história não esqueceu. Conhecido como navegante negro...

Estes são os versos iniciais do samba Mestre Sala dos Mares, uma homenagem que os compositores João Bosco e Aldir Blanc fizeram ao marinheiro João Cândido, um dos líderes da revolta da Chibata, ocorrida em 22 de novembro de 1910. Na voz da intérprete Elis Regina a canção tornou-se um clássico da nossa música popular, e será difícil encontrar alguém que não saiba cantarolar os seus primeiros versos, mesmo buscando na atual geração, quase 40 anos após a primeira gravação do samba.

Um fato que muitos não se dão conta e que passa quase despercebido é que, além de João Cândido, o navegante negro, a canção também homenageia outro importante personagem da nossa história, o jangadeiro cearense Francisco Jose do Nascimento. Ele é o “dragão do mar” que reaparece na figura de João Cândido, conforme a letra da música.

Dragão do Mar foi um novo apelido que Francisco Jose do Nascimento, que até então era “Chico da Matilde”, recebeu de seus companheiros porque, nos idos de 1881 até 1884, liderou os jangadeiros cearenses que durante aqueles anos impediram o embarque e desembarque de escravos nos portos do Ceará.

A proibição de embarque e desembarque dos escravos foi uma decisão dos grupos abolicionistas locais adotada no ano de 1881, e foram os jangadeiros que garantiram o seu cumprimento. A ação dos jangadeiros, que fortaleceu o movimento e os grupos abolicionistas, culminou com a decisão da assembleia legislativa do Ceará, em 25 de março de 1884, de determinar o fim a escravidão naquela província do império, quatro anos antes da Lei Áurea que só foi assinada em 13 de maio de 1888.

O movimento abolicionista no Ceará e o papel fundamental de Francisco Jose do Nascimento estão entre os importantes fatos que infelizmente ainda não são destacados em nossa historiografia oficial e, consequentemente, não fazem parte da nossa memória coletiva. O viés popular do movimento destaca-o como relevante numa história que ainda é marcada por heróis oficiais e institucionais. O movimento abolicionista naquela região contou com uma significativa participação popular, e o movimento dos jangadeiros é um exemplo. Trabalhadores indispensáveis para o embarque e desembarque de qualquer material nos portos da região que deliberaram não mais transportar escravos enfrentando o desagrado das autoridades e influentes negociantes locais e traficantes que lucravam com o comercio negreiro.

Trata-se de uma passagem emocionante que repercutiu em todo o país, inclusive na corte, no Rio de Janeiro, que chegou a receber com festas o jangadeiro Francisco Jose do Nascimento. Felizmente a história foi resgatada e documentada pelo também especial jornalista Edmar Morel (1912 – 1989) em seu livro “Vendaval da Liberdade” (Global Editora – Rio de Janeiro, 1967). Aliás, foi também Morel quem escreveu sobre a rebelião dos marinheiros em 1910 que ficou conhecida como Revolta da Chibata após a publicação do seu livro com este título.

Naturalmente a formação da historiografia oficial tem os seus mecanismos e procedimentos, e existem diversos profissionais e estudiosos que realizam com dedicação os seus estudos e pesquisas resgatando essa histórias “escondidas”. Porém, independentemente disto, é muito importante que se façam mais canções, festas, filmes, novelas, peças teatrais e enredos contando, cantando e resgatando a história popular, seus heróis, lendas e mitos. Daí reaparecerão, quem sabe, outros dragões do mar e navegantes negros. 

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Um tal João Cândido Felisberto

Opinião
Hoje foi dia de mais um amanhecer calmo e bonito na baía de Guanabara, visto da minha janela. Além do tráfego, a agitação maior ficou por conta dos preparativos para uma festa de lançamento da camisa da seleção brasileira que ocorrerá no aterro do Flamengo. Mas, esta manhã teve um significado especial porque assinalou 103 anos da revolta da Chibata, assim batizada pelo jornalista Edmar Morel. Um movimento deflagrado por marinheiros brasileiros, em 22 de novembro de 1910, que determinou o fim dos castigos físicos, incluindo o açoite por chibatas, até então praticados pela Marinha do Brasil a título de punição disciplinar.
Os marujos, liderados, entre outros, pelo marinheiro João Cândido, assumiram em motim o comando da esquadra brasileira que na época era terceira maior do mundo. Combateram os oficiais que resistiram ao levante, ocuparam os comandos das embarcações, situaram-nas em pontos estratégicos da baía da Guanabara, e puseram a cidade do Rio de Janeiro, centro político do país, sob a mira de canhões e encaminharam um ultimato ao governo do presidente da república Hermes da Fonseca exigindo que as suas reivindicações fossem acatadas. Enquanto isto, aquela “corja”, como eram considerados pelos oficiais e pela hierarquia naval, manejava com uma surpreendente maestria e destreza as moderníssimas embarcações, recém-adquiridas pelo Brasil, diante dos olhos espantados de um poder encurralado e de uma população apavorada e curiosa que assistia o desenrolar dos acontecimentos.
Os marujos foram vitoriosos e fizeram o governo ceder. Não eram revolucionários, não tinham projetos de poder, assim, logo que foram formalizadas as ordens para o cumprimento de suas reivindicações, num gesto de obediência ao poder instituído, devolveram o comando das embarcações. Pagaram com suas vidas por isto porque a vingança covarde do Estado não demorou a se manifestar. Os marinheiros, especialmente os líderes do movimento, foram expulsos, torturados, fuzilados e até traficados como escravos. Condenados ao esquecimento e à rejeição por uma Marinha que celebra o vergonhoso golpe 1964, mas que sempre relutou em reconhecer aqueles que deveriam ser enaltecidos como heróis nacionais.
Alguns brasileiros terão ouvido falar ou, a rigor, ouvido cantar, as referências à revolta da Chibata na letra e música do samba “O mestre-sala dos Mares”, de João Bosco e Aldir Blanc, e uma boa parte dos ouvintes provavelmente nem sabe o que o evento representou.  Ainda são poucas as reverências ao fato, e a sua dimensão política é subavaliada quando reduzida à questão dos castigos físicos. Mas, parece que será assim que a sociedade brasileira recuperará e recomporá a sua história, através de seus cantos, suas crônicas, seus cordéis, seus enredos festivos, em narrativas tão populares quanto os seus verdadeiros heróis. Talvez seja um bom caminho para evitar imaginá-los como super-heróis, acima do bem e do mal.
Há uma estátua do João Candido instalada num canto da Praça XV, no Rio de Janeiro, desde 2008, quando o presidente Lula sancionou a lei concedendo a anistia post-mortem dos marinheiros de 1910. Talvez um prefeito desses, dos quais existem tantos por aí, venha a deslocá-la, ou relaxe a sua manutenção, mas ela está em um bom lugar - nas pedras do cais, como alguém já ressaltou. Sempre que passo pela Praça XV caminho próximo à estátua, e aconselho outros para que façam o mesmo. Nada de preces, promessas, pedidos, esconjuros ou mandingas, mas pensando na barra pesada que aqueles companheiros enfrentaram. Nas situações e nas atuações dos diversos personagens. Nos contextos em que os fatos se desenrolaram, tomando isto como motivação para as nossas vidas nos cenários atuais. Como um estímulo para assumirmos o comando e determinarmos as manobras dessa embarcação que compartilhamos, mesmo que seja necessário um motim.

sábado, 16 de novembro de 2013

Pra não deixar de falar das flores


Tenho bronca do Ives Gandra, aprendi a não gostar dele quando estava envolvido com as questões político-jurídicas de Telecom. Tive a oportunidade de trabalhar e conviver com pessoas especiais no seu empenho para a  construção de uma sociedade sem exclusões e com outras que, além do mais, eram profissionais da área jurídica com capacitação excepcional demonstrada e submetida à prova em diversos embates que realizamos. Estes profissionais sempre foram para mim uma referência e contrapunham-se em intenções e gestos aos do Ives Gandra que sempre fez um papel que chamávamos de "pena de aluguel".

Mas, também aprendi que ele é competente e faz o seu papel com excelência. Assim, considerando os diversos aspectos do caso mensalão, não deixo de imaginar se ele está cumprindo uma missão, alugando a pena, ou defendendo uma tese por uma efetiva convicção. Isto é possível porque, afinal de contas, a tese defendida por ele é a que garante a manutenção do seu espaço de atuação.

Qualquer que seja a hipótese, eu concordo que ele apresenta questões procedentes e que questionam em termos técnicos, até que eu aprenda outras noções, o processo cagado que foi conduzido pelo STF sob a liderança do Barbosa com a participação dos demais juízes. Não chamo de conivência porque sei que conivência traduz uma omissão de quem não teria a obrigação legal de atuar e, no caso, acho que impedir a cagada era uma obrigação dos demais juízes.

É interessante observar que no caso do mensalão STF atuou como um tribunal de exceção, procedimento que sempre foi divulgado nos discursos de propaganda dos grupos mais conservadores como uma prática esperada da esquerda política caso assumisse o poder.

O fato é que a situação criada pelo STF é de instabilidade  e indesejável para os grupos conservadores, mesmo aqueles que caíram de porrada no PT. Deve ser neste contexto que se enquadram as manifestações do Ives Gandra. 

Agora, quem pariu o Mateus que o embale. Qual será a regra? Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos! 

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O sequestro, digo, roubo do Metro


Opinião



É esclarecedor observar o tratamento dado pelos grandes meios de comunicações ao caso Siemens – PSDB - Metro SP versus a forma como atuam quando a notícia são denúncias sobre a lisura dos processos tratados pelos governos do PT.  O escândalo do Metro de São Paulo - sem reduzir em nada a obrigação do PT prestar esclarecimentos aos questionamentos que recebe - deveria estar explodindo nas manchetes. Porém, neste caso a regra é outra. No PT seria uma quadrilha, mas no PSDB é um suposto cartel.

Qualquer que seja o juízo sobre as ações petistas, só não vê quem não quer. Entre tantas outras dificuldades, a sociedade brasileira vem sendo vítima dos grandes grupos empresariais da comunicação social que atuam como se fossem partidos políticos, mesmo sem qualquer mandato para tal, e sem os compromissos e as obrigações das entidades partidárias.

É com toda razão que grande parte das publicações alternativas de informação que, felizmente, povoam a mídia eletrônica refere-se a estes grupos empresariais como PIG - partido da imprensa golpista - a propósito, uma feliz associação com o significado em inglês da palavra formada pelas iniciais. Não surpreende que eles atuem assim porque estão e sempre estiveram aí com esses objetivos – tomar para si a riqueza produzida pela nação. Não se poderia, por esta prática, acusá-los de incoerentes.

Entretanto, não vejo com os mesmos olhos o comportamento de alguns oposicionistas ideológicos do PT que andavam encolhidos em decorrência de resultados positivos dos governos petistas quando comparados à incapacidade desses grupos proporem alternativas. Despertaram apoiando-se nos desdobramentos do caso mensalão e se assanharam com as recentes manifestações de junho 2013, assumindo que elas foram um endosso às suas posições. Até ai, também, nada demais. As interpretações da multifacetada conjuntura política não são privilégio deste ou daquele grupo, nem deste ou daquele cidadão. Porém, destes há que se cobrar coerência. Arvoraram-se como combatentes intolerantes de uma presumida corrupção governamental e com uma fúria obsessiva têm dedicado seu tempo em divulgar propaganda antigovernamental, sem um mínimo de crítica. Apoiam-se  exclusivamente na réplica de matérias inchadas pelos mecanismos, recursos e interesses da PIG, incapazes de disfarçar seus preconceitos e incompetências políticas.

Ainda não recebi destes remetentes, sobre a maracutaia metroviária tucano paulista, os filminhos, as charges, as animações, as manchetes, as montagens, as piadas, enfim a enxurrada de questionamentos cívicos dos quais se fazem porta-vozes. Nem os vejo estimulando a realização de manifestações no exterior. Afinal, são gigantes multinacionais de origens, entre outros países, na França, Inglaterra, Canadá, Japão e Alemanha – país sede da Siemens, participante da quadrilha, digo cartel, que se apresentou como um dos corruptos. Seria uma boa oportunidade para os brasileiros que se manifestaram indignados, lá fora, como se a corrupção fosse um atributo exclusivamente tupiniquim, organizarem novas manifestações naqueles países, especialmente considerando que muitas das empresas, quartel ou quadrilha, sejam lá o que for, tem participação estatal na formação de seus capitais.

Gostaria de receber estas informações. Sem elas passarei a achar que os esperados remetentes não estão tão preocupados assim em um processo de melhoria da nossa sociedade, mesmo em desacordo com as minhas visões e opções políticas. Entenderei que seus objetivos são outros, não tão distantes das ações e posturas da PIG, como se da PIG fizessem parte e como se ela os representasse. Mas, se for assim, esse grupo será defunto para o qual não vale gastar muita vela, embora já tenham sido identificados e até contemplados com análise sociológica. Coxinhas! 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Destaque sobre a espionagem eletrônica americana.

Opinião

Gaspar Vianna[i]
Com relação à espionagem eletrônica dos Estados Unidos, um ponto relevante que mereceria destaque é que, com a internacionalização e venda da EMBRATEL, o Brasil perdeu o seu  sistema de telecomunicações militares.  A EMBRATEL, idealizada pelos militares em 1962 e pelos militares incluída no Código Nacional de Telecomunicações (antes do golpe militar, portanto), só veio a ser criada em plena ditadura, para ser dirigida pelos militares.  
O Sistema Nacional de Telecomunicações foi constituído para interligar o País pelas telecomunicações, mas não podemos esquecer que dentro dele havia uma rede militar, um sistema que garantia comunicações militares, para utilização em tempos de paz, mas para ser acionado em casos de invasão estrangeira e outras necessidades ligadas ao que se chamava de Segurança Nacional.  Com o surgimento do primeiro satélite do sistema Embratel, alguns transponders foram reservados para utilização de nossas telecomunicações militares.  Se a maioria dos países do mundo desenvolvido tem um sistema de telecomunicações militares, o Brasil criou um sistema singular, engenhoso, hábil, no qual ao invés de gastar dinheiro exclusivamente para fins militares,  colocou este sistema dentro de uma empresa estatal, que servia a toda a população brasileira e que, em caso de necessidade, poderia ser utilizado em defesa do País. 
Por ocasião da luta contra a chamada privatização, e em defesa do sistema público de telecomunicações, procurei chamar atenção deste fato, especialmente com  os militares com quem pude conversar.  Eu costumava dizer que se poderia vender a TELEBRÁS, privatizar a telefonia celular e todas as empresas, mas não se poderia vender nunca a EMBRATEL porque ela era essencial no modelo criado para a existência de um sistema de telecomunicações militares, que sem a EMBRATEL na mão do Governo Brasileiro ficaríamos sem um sistema de interligação entre os quartéis e demais instalações militares, que iríamos entregar todo o nosso sistema de defesa nas mãos de empresas estrangeiras.  Qual a serventia de canhões, tanques, submarinos e quaisquer artefatos militares se não tivermos interligação entre eles? 
Não fomos felizes, perdemos.   Hoje  todos nós estamos com a distância histórica para perceber que a avalanche de notícias fabricadas pela mídia causou uma cegueira nacional na qual o bom senso foi inteiramente abandonado.  Não conhecemos a imprensa de Hitler, mas deve ter sido algo muito parecido. Então, a espionagem norte-americana, visto dentro deste contexto, passa a ser um alerta que certamente será esquecido daqui a alguns dias.




[i]Advogado, autor dos livros: Privatização das Telecomunicações  - Ed. Notrya – 1993 e Direito de Telecomunicações  - Ed. Rio – Sociedade Cultural Ltda. 1976

As espiadelas do Obama

Opinião

A espionagem americana tornada manchete internacional, menos pela revelação de um fato que nem era secreto, e mais pelas circunstâncias que cercaram a sua divulgação – as delações do ex-técnico da CIA, Edward Snowden, trouxe para o centro das manchetes, mas não para o centro dos debates,  a questão da regulamentação da internet e assuntos afins.

Os noticiários abordam a questão conforme os interesses de suas redações e os pontos de vista de seus articulistas valorizando e personalizando as reações diplomáticas e oficiais, via de regra com observações medíocres. Assim, o tratamento da questão fica subordinado às manchetes que escondem aspectos relevantes e que precisariam ser debatidos nesta oportunidade, entre eles a importância estratégica do setor ou dos sistemas de Telecomunicações do país.

Não há “mundo virtual” nem “redes” de informação sem infraestrutura física de Telecom. É um fato que o estado da arte da tecnologia viabiliza cada vez mais a gerência centralizada dessa infraestrutura, assim como a redução da demanda de recursos humanos para a garantia da sua continuidade. Porém, não tenhamos dúvidas, os impérios informacionais que se impuseram no espaço de tempo menor que um século existem e existirão na medida em que controlarem os sistemas de Telecom que lhes servem de meio e suporte.

Com esta visão, é muito ruim que o poder Executivo, bem como os parlamentares, mesmo alguns que adquiriram poder de representação política nas lutas contra a privatização do setor e suas empresas, tratem a questão das Telecom como apenas um ramo de negócios, sem considerar o setor como estratégico para qualquer política pública que se queira desenvolver.

Recentemente, o jornalista Elio Gaspari escreveu um artigo na Folha de São Paulo sobre a espionagem americana. Embora eu não concorde com os termos em que o jornalista tratou o assunto, em seu artigo há um trecho que ressalto “... Pode-se negociar o compartilhamento de informações ou mesmo criar barreiras sempre vulneráveis, mas o governo brasileiro não fez o bê-á-bá, pois nem satélite próprio tem...”[i].

Talvez o próprio jornalista não tenha valorizado o trecho que ressaltei, na medida em se concentrou em tentar ridicularizar a Dilma e as suas ações, mas neste aspecto ele tem razão. O Estado brasileiro não tem satélite próprio para fazer nada. Também não tem um sistema de Telecom porque o governo FHC vendeu tudo, e os governos Lula e Dilma nada fizeram para mudar o quadro e nem incluíram este assunto como pauta prioritária em seus governos.

Obviamente seria ingenuidade pensar que o país teria recursos tecnológicos suficientes para se confrontar com o império americano e suas garras, mas a questão é que neste aspecto o país ficou de calça nas mãos e com a bunda na janela, sem fazer nada, nem mesmo sair da janela e tentar se vestir em cuecas, calcinhas, fraldas  ou cueiros protegendo aquilo que a sílaba inicial da palavra cueiro sugere.

O governo não dispõe, nem mesmo de uma rede de comunicações fechada, de interesse estatal, sem acesso público.

A Rede Nacional de Pesquisas – RNP (cuja direção no governo FHC e nos primórdios da internet no Brasil embalou-se num falso conflito com a Embratel e o monopólio ainda estatal), está aí consumindo uma grana de respeito para alugar canais de Telecom de operadoras privadas e sem conseguir sequer  interligar as universidades do país com uma internet que preste[ii].

É possível que o assunto seja esquecido em alguns dias. Tomara que não. Seria bom que ele permanecesse em pauta, mesmo que motivado pelas preocupações daquelas corporações econômicas multinacionais que sentiram alguma insegurança com as espiadelas indiscretas do Obama, como parece estar acontecendo.

Tomara que o assunto fique em pauta o tempo suficiente para que se crie alguma agitação interna forçando a discussão e deliberação, quem sabe, de algumas ações positivas.



[i] A patriotada do grampo – Folha de São Paulo – Acessado em 10/07/2013



segunda-feira, 15 de julho de 2013

Nem sempre espicha o rabo de quem cochicha


Crônicas de militante


O dia foi de nervosismo e ansiedade. Esperávamos a votação da “nossa” emenda de anistia, mas ela não aconteceu. Votou-se a anistia para os militares, centenas deles punidos por atos administrativos do golpe de 64 e que não foram contemplados pela Lei da Anistia de 1979. Um desastre. Todas as emendas rejeitadas. Felizmente a sessão Constituinte foi encerrada e a votação da “nossa” emenda, a da anistia para os servidores públicos e de empresas estatais ficou para o dia seguinte, 15 de junho de 1988.

Aguardamos ansiosos e articulando. Nossa indefinição maior passava por ter alguém que defendesse a emenda junto aos parlamentares e partidos da direita, um constituinte conservador. Nosso alvo era o senador Jarbas Passarinho. Ex-governador biônico do Pará, ex-ministro do Trabalho e da Educação nos governos militares, signatário do AI 5 – mais à direita era impossível. Constava que ele tinha uma simpatia pela emenda decorrente de uma  história sobre um irmão, servidor público, que teria sido injustiçado em outros tempos. Ele apregoava ser um democrata, defensor do direito de greve. Em nossas visitas de convencimento não identificamos hostilidades explicitas. Investimos bastante para que ele defendesse a “nossa” proposta de emenda, realizamos várias abordagens, mas sem um compromisso final
.
No dia seguinte as galerias estavam cheias e havia trabalhadores de diversos estados do Brasil, muitos deles uniformizados. Ainda ocorreram votações sobre a anistia dos militares e todas foram derrotadas. Nós fazíamos pressão máxima junto aos parlamentares, quase invadíamos o plenário. O patrono da “nossa” emenda, João Paulo do PT – MG, estava no limite de suas possibilidades de articulação e, a esta altura, o deputado Lula já estava envolvido, afinal a anistia era a “bola da vez”.  E foi Lula quem assumiu, no ambiente do plenário, onde não podíamos entrar, a intermediação das conversas com o senador Passarinho.

Lula ia lá e vinha cá. Sabia o que a emenda representava para uma parcela aguerrida da militância, não só do seu partido, mas de todos os partidos de esquerda. Nos momentos finais uma condição: reivindicávamos a “reintegração”, Passarinho faria a defesa se fosse “readmissão”, isto é, não teríamos direito aos salários do tempo que ficamos fora. A decisão precisava ser tomada. Um pequeno comitê e concordamos. Voltar para a empresa era a prioridade. Um aceno de concordância para o Lula, um cochicho entre o Lula e o Passarinho, outros cochichos com o presidente da mesa, Ulisses Guimarães, e este encaminhou para a votação a proposta de fusão das emendas dos deputados:Hélio Duque (PMDB/PR),  João Paulo (PT/MG) e  Carlos Cardinal (PDT – RS), a “nossa” emenda.

O deputado Michel Temer defendeu a aprovação pelo PMDB e o senador Jarbas Passarinho discursou defendendo a aprovação pelo seu partido, o PDS. A turma da direita o acompanhou. Fizemos tanta agitação que o próprio Ulysses alertou para não comprometermos um resultado favorável. O plenário da Constituinte estava cheio de balões de aniversário impressos com a palavra “anistia” que mandamos fazer e que arremessamos das galerias. Os constituintes  brincavam com os balões que flutuavam entre eles. Ulisses Guimarães proclamou a aprovação da proposta: Sim: 406; Não: 8; Abstenção: 9; Total: 423.


Nas galerias éramos só orgulho e emoção. Vibramos e choramos. Gritamos nossas palavras de ordem. Queríamos comemorar ali e, ao mesmo tempo, regressar e abraçar os colegas na empresa.  Em Brasília foi uma noite de festa. Víamos uns nos outros a responsabilidade por aquela vitória. Na sede da Embratel, no dia seguinte, a comemoração ocupou uma pista Av. Pres. Vargas. Marcamos a nossa luta na Constituição de 88. O monopólio estatal das Telecom e a Anistia dos grevistas. Almas lavadas. Almas de todos. Não eram pequenas.

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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Um verão carioca

Crônicas de militante

Quinhentos soldados PM, viaturas Patamo, dois blindados tipo Brucutu (avô do Caveirão), um blindado Urutu, além de dois batalhões do Nucoe (embrião do atual Bope). Conforme o Jornal do Brasil de 04/12/1987, este foi o aparato mobilizado no dia anterior para impedir que a passeata de abertura da nossa campanha salarial ocupasse a Av. Rio Branco onde estavam proibidas manifestações. Mesmo assim, seguimos pela Uruguaiana e lotamos a Cinelândia. E na semana seguinte, no dia nove de dezembro, embaixo de chuva, lotamos novamente aquela praça e fizemos uma assembleia que deliberou pela greve que teve fortíssima adesão. E foi no segundo dia da greve, em 11/12/1987 que a Embratel executou as nossas demissões.

O fato é que o  caso Vicom estava, desde outubro, entalado na garganta do ministro ACM  que queria cabeças. Já havia destituído a direção da Embratel porque não repeliu o movimento naquela empresa, e uma greve da categoria em campanha salarial, dois meses após, além de um desafio intolerável, foi uma oportunidade de revanche. Assim,  ele mandou demitir. “O ministro não volta atrás nem com Ave-Maria declarou a sua assessoria aos jornais.

Na noite do dia 10 de dezembro, logo após a assembleia de avaliação do primeiro dia da greve, soubemos que alguns de nós seríamos demitidos no dia seguinte. Fomos informados por gerentes que também participaram da greve Vicom e que deveriam, então, definir e executar as demissões. As contradições brotaram com todo vigor e a madrugada do dia dez para o dia onze foi difícil. Alguns gerentes buscaram justificativas para não demitir. Em alguns casos chegaram a telefonar para os faltosos convocando-os a se apresentarem na empresa, de qualquer jeito, mesmo durante a noite ou madrugada, apenas para assinalar a presença. Outros gerentes apenas obedeceram. Alguns colegas convocados queriam conversar sobre o que fazer. A orientação foi sensata: prejuízo mínimo, sem valentias ou heroísmos – assegurar o emprego era prioridade. E ainda na madrugada, também através de gerentes, ficamos sabendo sobre alguns dos empregados atingidos. A lista seria divulgada pela manhã.

A manhã do dia onze foi agitada. Após idas e vindas, consolidou-se o anúncio de oito demissões, uma das quais foi revertida em curto prazo porque se tratava de uma representante sindical. Havia demissões também na Telerj, na Cetel e nos Correios. Durante o dia realizamos manifestações na porta da empresa que logo foi ocupada com tropa de choque da PM. À noite haveria uma nova assembleia em frente à sede da Telerj localizada mais adiante, no número 2560 da Pres. Vargas. Mesmo assim a empresa acionou a polícia federal para “proteger” o prédio 1012 da Embratel de possíveis vandalismos dos seus empregados, os mesmos que paralisaram as atividades dois meses atrás em defesa da empresa, no caso Vicom. Os que estavam por perto se assustaram ao ver policiais federais armados de metralhadoras entrarem no saguão do prédio sede da Embratel, no Rio de Janeiro.

Mesmo sendo um domingo, dia 13/12, realizamos outra assembleia cheia, e na segunda-feira, 14/12/87, às 10 horas da manhã, a quantidade de trabalhadores na calçada da Telerj era tal que impedia o tráfego na Pres. Vargas. Cercados de cães e soldados, ambos raivosos, liberamos e lotamos arquibancadas do Sambódromo com bem mais de 3000 trabalhadores. A greve foi suspensa às 24 horas do dia 15/12/87 sob a promessa de abertura de negociações que só foram concluídas em janeiro de 88, mas sem reversão das demissões. Com o processo Constituinte em curso, incluímos a anistia dos demitidos na pauta de lutas junto ao Congresso, uma vitória conquistada em Outubro de 1988 e só efetivada em Julho de 1989.

Foi um dezembro quente. Noites de verão com muitos sonhos, mas nada parecido com a comédia de Shakespeare. Mobilização, lutas, perdas e vitórias. Crença nos sonhos e muito trabalho para a realização escrupulosa da fantasia, como apontou o camarada Lênin, em 1902.

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segunda-feira, 1 de julho de 2013

Pavane pour une Infante Défunte

Crônicas de militante

O féretro saiu às 12 horas da porta da Embratel Mackenzie, seguiu pela rua Camerino e avenidas Passos e Presidente Vargas. Os acompanhantes vestiam preto e empunhavam velas acesas. Acompanhavam o caixão de um enterro simbólico que culminou com uma manifestação na porta do edifício sede. Uma nota anunciava a previsão de “morte” dos trabalhadores contratados  da Embratel que já estavam há seis meses sem o direito à assistência médica. Uma manifestação de impacto. Interrompeu o trânsito na travessia da Mal. Floriano e ao dobrar a esquina da Presidente Vargas.

Era 18 de junho de 1991 e aquela foi uma das inúmeras manifestações para a efetivação do pessoal que prestava serviços permanentes à Embratel, mas não eram empregados. Recebiam alcunhas diversas: PESVE, MOC ou MOT que traduziam a mesma situação: trabalhadores em todos os níveis de qualificação e ocupação, mas sem direitos iguais aos dos efetivos, embora com as mesmas obrigações e responsabilidades. A contratação temporária, um mecanismo para suprir eventuais ausências prolongadas, tornou-se uma prática permanente nas empresas estatais proibidas de realizarem admissão de pessoal. Uma prática reforçada pela subserviência criminosa das sucessivas diretorias e que viabilizou um verdadeiro “mercado” para proxenetas de mão de obra.

Porém, as diferenças nas relações de trabalho, que chegavam a contagiar as relações entre  alguns trabalhadores, não se refletiam na militância. Militantes efetivos e contratados enfrentavam ameaças e até punições para organizar os demais efetivos e contratados na luta pela efetivação. E um dos principais núcleos daquele enfrentamento ocorreu no setor que abrigava a maior concentração de contratados e que exercia uma atividade de produção: a Telefonia Internacional. Com uma militância ativa, o setor promovia paradas relâmpagos, compareciam em grupo às manifestações e realizaram, em 1992, a bem sucedida Operação Abelha , mistura de “cêra” com “operação padrão”: Esperar 10 segundos para o atendimento; aplicar rigorosamente o script; atender  apenas em inglês e português, idiomas exigidos pelo posto e recorrer ao auxílio linguístico em vez do usual quebra-galho com os conhecimentos que tinham de outras línguas. ”Efetivação é direito. Não é favor! -  era a palavra de ordem.

Pressionada pelas manifestações, a diretoria da empresa, ainda no governo Collor, chegou a emitir, em maio de 1992, uma resolução determinando início da efetivação, mas em seguida interrompeu o processo sem efetivar ninguém. Uma nova direção, nomeada por Itamar Franco, já foi recebida com mobilizações e reivindicações que incluíam a efetivação. Felizmente, a nova diretoria, presidida pelo falecido ex-ministro Renato Archer, diferente da anterior, endossou o pleito da efetivação e realizou uma consulta à Advocacia Geral da União que foi subsidiada pelas informações e as experiências acumuladas pelos próprios empregados em sua luta. Tais ações finalmente resultaram na efetivação dos contratados, no ano de 1993.


Foi grande o mérito do ex-presidente Archer que atendeu várias das demandas que lhe foram apresentadas, mas equivocadamente, ainda hoje, há trabalhadores que associam a efetivação a um ato de “vontade” do ex-presidente desvinculado dos embates e mobilizações realizados ao longo de cerca de três anos. Isto demonstra alienação. Entre as tantas manifestações resgatei aquele cortejo fúnebre que seguiu o carro do sindicato ao som de Pavane pour une Infante Défunte, uma melodia de Ravel que parece um réquiem, embora não seja, sob os olhares espantadíssimos dos transeuntes e comerciantes locais, denunciando o absurdo da situação dos contratados e, obviamente, questionando e expondo as mazelas da direção da empresa. A fita cassete que utilizamos no enterro está guardada, uma lembrança de outra militante, então jornalista da Associação, que teve a feliz ideia de levar a fita para o ato. 

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