segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Sobre o que se deve aprender na escola

Opinião

Recentemente tive a oportunidade de trabalhar durante dois anos como estagiário de professor em turmas de ensino médio do projeto Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Não tenho estatísticas, mas a maioria dos alunos pareceu ser do sexo feminino, de cor parda ou preta. Senhoras com família para cuidar, empregadas em atividades diversas, algumas com filhos ainda em fase infantil. Quase todos (homens e mulheres) trabalhavam em locais distantes, dependendo de um sistema de transporte precário, e muitos com atividades que afetavam a assiduidade.

A maioria deles nem tinha a visão que este tipo de projeto (EJA) que inclui escola, professores, material didático, alimentação e transporte é um projeto público e que resulta de uma disputa com outros projetos onde ele (aluno) não é o beneficiário. Uma disputa de recursos e de verbas públicas que poderiam ser alocadas em projetos para atender a interesses de outros grupos menores e específicos. Grupos que disputam a apropriação dessas verbas.

Muitos alunos, especialmente os mais jovens, não tinham a mínima noção de civilidade. Um comportamento comum era o entrar e sair de sala sem os usuais cumprimentos de cortesia, arrastar ruidosamente mesas e cadeiras, estabelecer conversas em tons altos e paralelas às aulas e ignorar a presença do professor.

Consultei um pouco sobre projeto EJA, sua história e outros aspectos, e encontrei diversos trabalhos de professores que se dedicam com empenho ao assunto. Também fiz minhas próprias observações e considerações que estão bem longe da qualidade das elaborações que tive a oportunidade ouvir, de ler e de estudar, mas não considero impróprias nem anacrônicas. Aprendi bastante, até porque essa era a finalidade do meu estágio, e aprendi que as tarefas dos professores, de maneira geral, eram e são bem mais complexas do que instruir os alunos sobre os aspectos específicos de suas disciplinas.

Por exemplo, aprendi que, entre outras, há a necessidade de  ensinar e cobrar do aluno, permanentemente, uma postura de civilidade e cortesia entre os seus no ambiente de sala de aula. Ensinar que a expectativa é que eles procedam assim não apenas em sala de aula, mas em todo o ambiente escolar e também nos demais ambientes da sua vida social. Entenda-se por civilidade: a prática de regras, maneiras e comportamentos formais que expressam respeito entre as pessoas.

Porém, aprendi que será um equívoco cobrar as práticas de civilidade como se os alunos estivessem cometendo uma subversão pré-elaborada. É verdade que eles sabem possivelmente a maioria das regras, mas não sabem utilizá-las simplesmente porque não praticam entre si em nenhum lugar nenhum, incluindo os seus lares. Convivem em ambientes onde as regras são outras e determinadas por outros valores, em alguns onde a civilidade , por incrível que possa parecer,  pode ser até uma prática constrangedora e que precisa ser escondida. Os seus comportamentos de “má educação” refletem apenas “falta de um tipo de educação” que é preciso ensiná-los.

Pedir licença ao entrar ou sair da sala de aula, falar com moderação, deslocar uma cadeira sem arrastá-la, tratarem-se respeitosamente e uns poucos outros protocolos devem ser ensinados como elementos fundamentais da disciplina escolar e cobrados pelo professor, inclusive com interrupção da aula para este tipo de orientação. Sempre que for possível, a orientação deve ser generalizada, sem exageros e sem firulas que apenas constrangem o aluno sem seduzi-lo para o uso da prática ensinada.

Os alunos precisam ser ensinados que as práticas disciplinares não são uma demonstração de obediência e reconhecimento de autoridades. São elementos que favorecem e constituem os suportes básicos do mecanismo do ensino-aprendizagem e da afirmação dos mesmos como indivíduos sociais credores e devedores de respeito, uns aos outros. Mas, ressalvo que o professor também precisa acreditar nisso.

Também aprendi que é muito importante insistir com os alunos sobre o papel deles em nosso contexto social. Mostrar que eles estão diante de uma oportunidade de utilização de recursos que são seus e que precisam ser conservados. Recursos que poderiam e que até deveriam ser aumentados, mas que para tal precisam ser valorizados e defendidos tanto com as suas posturas (dos alunos) na participação do projeto, como através dos seus desempenhos nas disciplinas curriculares e também com as suas mobilizações como sujeitos políticos, sob pena desses recursos serem desviados para outros fins que participam da disputa.

Frequentar aulas já é um passo significativo para aqueles alunos. Não fossem as dificuldades concretas que precisam superar, existem ainda aquelas de natureza subjetiva: constrangimentos, baixa-estima, não visão de perspectivas, acomodação com o status quo etc. Para eles, obstáculos que seriam apenas degraus na evolução do aprendizado podem representar paredões, barreiras quase intransponíveis e desestimulantes das suas tentativas de evolução. O passo seguinte neste cenário é a desistência.

E sobre as disciplinas específicas, estou convencido que o professor deve fazer um esforço especial para construir rampas de avanço no aprendizado, mesmo que sejam rampas suaves se consideradas à luz do ensino formal. O professor que insistir em estabelecer um filtro exemplar, uma barreira inflexível de controle da capacitação, um paredão intransponível de conhecimentos conseguirá, no máximo, elaborar um elogiável instrumento de avaliação, mas perderá os alunos por desistência dos mesmos quando um dos principais objetivos no cenário do nosso sistema educacional precisa ser também a atração e retenção dos alunos no sistema escolar.

Com outros professores aprendi - não tive a experiência -  que nas séries do ensino regular, dos níveis básico e médio, onde a presença  preponderante é de pré-adolescentes e de adolescentes os enfrentamentos são bem mais difíceis e complexos se comparados com os da educação de jovens e adultos.

Não são tarefas fáceis, tanto que eu mesmo não me habilito a realizá-las. E com essa visão, discordo completamente dessas mensagens reducionistas que circulam atualmente na web com uma lista fechada sobre o que se deve aprender “na escola” e o que se deve aprender “em casa” – e com adendos de censura ao ensino escolar conclamando para uma luta  “a favor da família e de um mundo melhor”.

Não discordo porque entender que a casa e a escola se confundem, mas porque a rigor essas listas apenas refletem a mediocridade dos seus elaboradores e apoiadores e, no fundo, não passam de um disfarce, um esconderijo de discriminações preconceituosas que estariam melhor acobertadas se fossem enfiadas no olho do cú dos seus autores.

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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Um plágio assumido

Leituras para distrair

Em 2016 conheci essa história narrada no blog HISTÓRIAS BRASILEIRINHAS  do Luiz Antonio Simas.  Eu adorei e divulguei.
Por razões que não importam, resgatei e resolvi divulgá-la novamente a pretexto de Dia das Crianças – 12 de outubro 2017. Por favor, não interpretem como proselitismo religioso, seria uma redução.
Além de divulgar o link do Simas onde está registrada a história, eu também resolvi publicá-la diretamente aqui. Não tenho e nem mesmo solicitei autorização para fazer isso, mas inferi que não haveria objeção do autor. A intenção é apenas divulgar uma história tão bonita. Para quem já conhecia, desculpem-me pela repetição, mas acho que vale, pelo Simas e pela história.
O link de origem está no final.

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O PRIMEIRO TAMBOR SALVOU O MUNDO

Os antigos habitantes do Congo e de Angola contam que Zambiapungo, o grande deus criador, acordou um dia cansado da solidão do poder e das tarefas da criação. Pensava até mesmo em interromper o curso do mundo. Faltava algo naquela grandeza toda. Zâmbi, é assim que ele é mais conhecido no Brasil, achava que tinha criado todas as coisas necessárias para a vida. Apesar disso, estava triste e recorreu aos inquices; deuses que são seus filhos queridos.
Zâmbi pediu que Zaratempo fizesse algo para despertar seu interesse e o impedir de desistir do mundo. Tempo balançou uma bandeira branca e criou as estações do ano, com todas as suas mudanças. Zâmbi gostou, mas não sorriu.
Zâmbi chamou Katendê e pediu a mesma coisa. Katendê, o senhor das jinsabas [folhas] , falou ao pai sobre o poder mágico das plantas que curam, acalmam e conversam com as pessoas. O deus supremo se interessou um pouco, mas ainda assim não sorriu.
Matamba foi a próxima a tentar. A senhora das ventanias mostrou a força dos furacões e o baile fabuloso dos relâmpagos que clareiam a escuridão. Zâmbi olhou, até bateu palmas, mas continuou triste.
E assim vieram todos os deuses do Congo. Vunji trouxe as crianças mais brincalhonas, que lambuzaram Zâmbi de doces; Angorô inventou o arco-íris; Gongobira deu a Zâmbi um rio de peixinhos coloridos; Dandalunda chamou as luas que mudam marés; Mutalambô fez um banquete com as caças trazidas das florestas; Nkosi forjou ferramentas e adagas no ferro em brasa; Lembá Dilê conduziu um cortejo branco de pombas, cabras e caramujos.
Zâmbi gostou e agradeceu, mas continuou triste.
Até que Zâmbi perguntou se Nzazi, o dono do fogo, sabia de alguma coisa que pudesse afastar aquele banzo, que é como o povo chama a tristeza. Nzazi, que entre os iorubás é conhecido como Xangô, consultou um grande adivinho e fez o que ele mandou. Começou cozinhando e repartindo as carnes de um grande bode branco entre as divindades do Congo.
Em seguida, Nzazi aqueceu a pele do bode na fogueira. Ainda com o fogo, tornou oco o pedaço de um tronco seco da floresta. Sobre uma das extremidades do tronco oco, esticou a pele do animal e assim inventou Ingoma, o primeiro tambor.
Nzazi começou a bater no couro do tambor com toda a força e destreza. Aluvaiá, aquele que os iorubás conheciam como Exu e os fons como Legbá, gingou ao som do tambor. Logo depois, todos os deuses do Congo , ao batuque do Ingoma, dançaram também e fizeram a primeira festa na manhã do mundo.
Zâmbi gostou do fuzuê do tambor de Nzazi e descansou feliz. Era isso que faltava. Ainda deu a Ingoma o poder de acabar com a tristeza das mulheres e dos homens pela festa dos corpos que ele, Ingoma, convida para dançar.
Desde este dia, Ingoma é uma divindade; aquela capaz de transformar e renovar o mundo pela festa. Sem o tambor, nós até poderemos ter tudo aquilo que é materialmente necessário, mas seremos tristes.
Ingoma, o primeiro tambor, um dia se casou com Muzenza, a moça bonita que dança. Eles tiveram uma filha. O nome da menina, a linda filha de Ingoma e Muzenza, é Ngala, a Alegria.
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Esse texto foi copiado – sem autorização – do blog HISTÓRIAS BRASILEIRINHAS – de Luiz Antonio Simas http://hisbrasileirinhas.blogspot.com.br/2016/04/ingoma-salvou-o-mundo.html - acesso em 12/10/2017

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Em nome de quem?

Opinião

Agora, virou moda no zap. O vídeo de um militar qualquer ameaçando a democracia e com legendas da direita coxinha divulgando e repetindo o seu discurso frouxo, vazio e povoado de verborreias. Meninos criados por dindinha Bililica ameaçando: “se não for como eu quero, o meu general vai atirar em vocês!”.

Nos vídeos, já que não podem mostrar os seus coldres e arsenais, os gorilas exibem medalhinhas e broches e, presunçosamente, alegam falar em nome de uma “tropa” que, a rigor, lhes obedece por obrigação funcional. Desconsideram que não são mais do que servidores públicos armados por concessão da sociedade e que, especialmente por isso, deveriam estar com as suas violas enfiadas em sacos. Nenhum deles recebeu ou tem qualquer autoridade de representação pública, nem por um voto sequer. Mesmo o mais adornado com medalhas não tem a representação que possui o menos votado vereador no mais remoto rincão do Brasil. Não têm sequer a autoridade de representação que tem um membro eleito de CIPA na mais modesta fábrica do país.

Ao ameaçar a sociedade revelam-se em seus instintos. Césares de meias-tigelas!  Imaginam as lentes das câmeras de celulares como se fossem os seus rubicões e através delas exibem as suas pantomimas. No fundo não se distinguem de outros que agridem e espancam a população indefesa aproveitando-se da vantagem de um poder armado. Passam a impressão que, se pudessem, estariam aboletados no alto de um prédio e de lá exerceriam a sua força armada disparando contra uma imprestável multidão civil. Felizmente são poucos. 

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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Um preto velho em Jerusalém

Leituras para distrair

Recebi um pedido para identificar um vídeo com o trecho de uma peça musical onde um personagem questiona a autoridade religiosa de outro, um “preto velho”, para falar de Jesus. A defesa do intimado é uma mensagem de sincretismo religioso e filosófico linda na apresentação e no conteúdo.  A busca se transformou em um presente, tipo um saquinho de doces de Cosme e Damião que as crianças revolvem descobrindo guloseimas. Achei coisas bonitas que tentei organizar para compartilhar com quem quiser. Adianto que não se trata de proselitismo religioso, mas um convite para um passeio pelo belo.

O vídeo é trecho da ópera Alabê de Jerusalém do compositor musical Altay Veloso, e o trecho que recebi para identificar chama-se “A defesa de Alabê(https://www.youtube.com/watch?v=RvlQV2Qjpjs ).

A ópera foi composta a partir de um livro do mesmo autor intitulado “Ogundana: o Alabê de Jerusalém “ (Ed. Avatar – 2007). Trata-se de uma narrativa da vida de Jesus Cristo  do ponto de vista de um negro africano contemporâneo de Jesus. A ópera foi encenada em 2007 no Teatro Municipal, no Rio, e há um DVD sobre sua gravação que conta com a participação de feras do mundo artístico nacional: Bibi Ferreira, Lucinha Lins, Elba Ramalho, Alcione, Lenine, Jorge Vercillo, Fafá de Belém, Ivan Lins, Leny Andrade, Emilio Santiago entre outros. Tão belo, ou mais, que o video em pauta, é um extrato da ópera cantado pelo seu autor em uma apresentação no programa Sr. Brasil, do Rolando Boldrim, e que inclui um diálogo entre a mãe de Jesus e a mãe de Judas. Não posso afirmar sobre a ópera, mas garanto que a apresentação do Altay no programa Sr. Brasil é de mexer com a emoção das pessoas, não importa a religiosidade  (https://www.youtube.com/watch?v=fk8O3ufSHgE).

A história do roteiro e da elaboração da ópera está narrada pelo próprio Altay Veloso em uma entrevista ao Jô Soares – a entrevista é grande, mas vale a pena aturar a chatice do Jô e assistir a narrativa  do Altay que inclui curiosidades e flashes interessantes (https://globoplay.globo.com/v/1979063/).

Em 2016 a escola de samba Viradouro, de Niterói, desfilou no grupo de acesso com o enredoO Alabê de Jerusalém: A Saga de Ogundana”. Não tenho saco para assistir desfiles de escolas de samba, mas a Viradouro fez um vídeo que não é sobre o desfile em si, mas sobre o enredo. Um vídeo que permite apreciar a beleza do samba, música e letra, com o qual a escola  desfilou e arrancou um terceiro lugar (https://www.youtube.com/watch?v=QTRy_-nMrk4). Os autores acertaram em cheio  ao fazerem um samba com a mensagem de valor político contemporâneo e que endosso completamente. 

Oh! Meu Brasil / Cuidado com a intolerância / Tu és a pátria da esperança / À luz do Cruzeiro do Sul / Um país que tem coroa assim tão forte / Não pode abusar da sorte / Que lhe dedicou Olorum.

Guardarei o Alabê, acho super legal quando a arte consegue resgatar a essência e simbolismos dos mitos religiosos despindo-os de características impróprias que geralmente são agregadas e impostas por autoridades eclesiásticas visando domínio e poder sobre os crentes. O romancista Jose Saramago fez isso em seu “O Evangelho segundo Jesus Cristo” (Ed. Companhia das Letras – 1991). Uma narrativa de beleza incomparável que lhe custou a censura da igreja católica e saída de Portugal para viver nas ilhas Canárias.  Guardo-o com cuidados em minha estante, assim como guardo, também carinhosamente, o  LP em vinil da maravilhosa ópera Jesus Cristo Superstar que trata com uma humanidade delicada as supostas angústias de Judas. A cópia vinil que ganhei e guardo é do álbum original, onde o personagem Jesus é cantado por Ian Gillan vocalista da banda Deep Purple com a memorável interpretação de Gethsemane – I Only Want To Say (https://www.youtube.com/watch?v=gq09Q1UGUl0). Nesses tempos de Rock in Rio, é rock de pura qualidade.

Terminando, manifesto o meu bairrismo. Altay Veloso também é nascido e criado em São Gonçalo, RJ, cidade que completou 127 anos de emancipação política em 22/09/2017.          

Nota: os links foram acessados em 25/09/2017         

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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O muralha e a canalha

Opinião

Não gosto de futebol, embora carregue o meu quinhão da herança cultural de ter nascido no país que foi reconhecido internacionalmente pelo talento dos atletas e pelos resultados das seleções de clubes e das seleções nacionais nas competições desse esporte. Não torço por clube, não tenho saco para assistir jogos, nem mesmo da seleção brasileira, só participo de conversas para sacanear aficionados torcedores e nunca sei qual a competição do momento.

Aponto esse distanciamento para valorizar a minha indignação ao ver uma matéria estampada na primeira página do jornal carioca Extra, na edição de hoje, 01/09/2017. Em parte superior, com o título de “Comunicado” e a foto de um jogador, em duas colunas de sete linhas, o jornal informa aos seus leitores que, a partir de hoje, não mais publicará a palavra Muralha associada ao nome do goleiro do Flamengo, esse é o apelido do jogador, considerando as suas falhas recentes na atividade de goleiro. Verifiquei que o jogador, Alex Roberto Santana Rafael, o Muralha, tem sido o pivô de acirradas discussões em torno de sua contratação pelo Flamengo.

Não tenho qualquer simpatia pelo Flamengo, muito menos pelo Muralha cuja existência só tomei conhecimento hoje. Contudo, acho um absurdo a mobilização do jornal atacando a figura de um profissional que exerce a sua função, não importa o juízo que se faça dela. Se o jogador é bom ou mau goleiro, se o Flamengo fez ou não um bom negócio, se ele atende ou não às expectativas da torcida do clube, nada disso justifica uma empresa – o grupo Globo de jornalismo – expor e atacar individualmente o jogador como o fez com a matéria de hoje. É uma ação escrota, canalha, covarde e medíocre.

As relações no futebol são estabelecidas por interesses de empresas e de empresários. Não sei se é o caso, mas pode ser que os interesses de empresas e empresários associados ao clube de futebol e ao jornal estejam em conflito, contudo nada disso justifica o linchamento que o jornal está promovendo. Outro jornal, não sei o nome, publica a foto de um frango depenado com a cabeça do jogador, associando a imagem ao gol que ele tomou na última partida. É uma caricatura feia e ridícula, mas está publicada como matéria em jornal que trata cotidianamente dessa forma os assuntos do futebol. Não é novidade. É ofensiva, mas não é uma campanha direcionada. Trata-se de um deboche que instiga as torcidas e promove a venda do jornal. A matéria do jornal Extra, ao contrário, é especial, publicada como se fosse anúncio de matéria paga ou obrigatória. Por interesse ou falta de colhões dos editores do jornal, ela não ataca o clube nem outros empresários, o profissional que engoliu o frango é quem está pagando o pato. Uma covardia.

Com todas as distorções que se conhece no futebol, talvez uma das atividades mais honestas seja aquela realizada pelo jogador em campo nos minutos de duração da partida, fazendo ou tomando dribles, fazendo ou tomando gols. Não há como ignorar a matéria do Extra – até no relato do desempenho de um jogador de futebol essa “grande” mídia brasileira consegue se revelar como um lixo.

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terça-feira, 11 de julho de 2017

Um jacá de virtudes

Opinião

Os termos direita e esquerda políticas são quase universais e as suas origens bastante conhecidas. Também não é novidade que não são definições técnicas, ao contrário são expressões que ao longo do tempo suscitaram variações de abordagens. Talvez frequentem mais os dicionários histórico-políticos do que os filosóficos.  Assim, ao ler recentemente a coluna de um jornalista, filósofo, afirmando que as definições de esquerda e direita têm sido “castigadas pela história[1] considerei uma mensagem que não contém, a rigor, muita informação, servindo mais como desvalorização dos termos em favor das convicções do colunista.

Na coluna citada, o jornalista aborda a busca de alternativas para os termos esquerda e direita, fato que também não é novo, e expressa a sua preferência pelas formulações de um terceiro autor que teria sugerido a concepção de seis dimensões ideológicas formando um chamado “mapa ético” no qual a “esquerda” seria uma representação enfática (grifo meu) de duas dimensões -  a proteção e a justiça - enquanto a “direita” seria uma mistura homogênea (grifo meu) das seis dimensões propostas -  proteção, justiça, liberdade, lealdade, autoridade e santidade. Até onde entendi, o tal mapa ético seria uma espécie de cesta de valores, mas não consegui inferir se esta distribuição de produtos nas duas cestas reflete a opinião do colunista ou do autor citado por ele. Também não consumi tempo pesquisando.

Minha primeira reação após a leitura foi desdém. Achei pueril imaginar que proteção, justiça, liberdade, lealdade, autoridade e santidade, no contexto da conjuntura política, possam ser mais assertivos que direita ou esquerda. Recebi o texto como sugestão de leitura e cheguei a pensar com os meus botões “Porra! Valorizar isso?” Mas, foi apenas um espirro emocional. O amigo que me enviou o texto filtrou e achou um mote interessante para conversas, aliás, foi assim que ele o apresentou. E fazendo releituras verifiquei que a minha primeira impressão foi injusta com o colunista porque ele mesmo concorda que a abordagem binária facilita a identificação de aliados e inimigos, embora declare que acha a abordagem precária e que passa a impressão de carregar um conteúdo profundo quando, em sua opinião, é cada vez menor.

Quando fiz comentário desvalorizando o tema, o meu amigo replicou indagando, então, sobre qual seria o meu mapa ético, numa provocação que não aceitei. Quem quiser consumir tempo elaborando o que prefiro chamar de um jacá de virtudes em vez de mapa ético, que se dê ao trabalho de fazê-lo. Preferi não desviar minha atenção porque, na situação atual, acho quase um exercício de besteirol, uma brincadeira de almanaque. Porém, não apenas isso. Verifico que proposições como a do colunista aparecem sempre quando estão em discussão questões explicitamente conflitantes e claramente consoantes com as “desgastadas” bandeiras da esquerda e da direita política.  E mais, sempre surgem de alas de pensamentos identificados com os da direita política que se constrange em explicitar suas posições e, não querendo fazê-lo, buscam dispersar e desviar a discussão para a sexualidade dos anjos. Em termos mais simples: quem tem dúvida sobre esquerda e direita políticas, via de regra, é o cara de direita. Esse comportamento não é muito diferente daqueles que inconformados com a implantação das cotas raciais no sistema de ensino nacional apregoavam a tese que as pessoas sequer saberiam responder com convicção se eram negras  ou brancas.

Em momento nenhum eu desconsidero as indagações filosóficas sobre qualquer assunto, até mesmo sobre o sexo dos anjos. Não tenho capacitação para tal, e seria uma pretensão arrogante se tentasse fazê-lo. Mas, priorizo abordar a realidade da conjuntura que vivemos e busco fazer tal abordagem sob uma óptica de classe. Hoje, as questões políticas que considero mais importantes não só para o nosso cotidiano, mas também para o nosso futuro e das nossas gerações imediatas, estão materializadas sob a forma projetos políticos de uma classe minoritária dominante que, vivendo uma crise do modo de produção, busca sustento e recuperação aumentando a exploração de uma classe majoritária de trabalhadores. Esse processo se faz pelo encaminhamento de projetos de reformas na legislação, usando os seus representantes nos três poderes da república, e se traduzem especificamente pela tentativa de desqualificar a organização dos trabalhadores, além destruir conquistas acumuladas com muita luta pelos mesmos.

Nesse momento, enquanto rabisco esse texto, no senado federal estão tentando aprovar projeto que acaba com a carteira assinada, décimo terceiro salário, férias, FGTS, licença maternidade, jornada de trabalho, representação sindical. Estão tentando aprovar o trabalho intermitente, o trabalho temporário e o fim do trabalhador celetista em favor do autônomo com terceirização indiscriminada. Sem contar as tentativas que estão sendo realizadas para destruir a previdência social.

Eu não concordo com essas propostas. Por minha vontade, e pela qual me empenho no limite das minhas possibilidades, estabeleceríamos uma nova ordem política; implantaríamos um maior controle público do estado através de conselhos populares e da prática de consultas públicas; realizaríamos uma apropriação dos ganhos de produtividade com redução das jornadas de trabalho e aumento de salários; a tributação das grandes fortunas, dos lucros, dos ganhos de capitais e das altas rendas; daríamos prioridade para os projetos de evidentes benefícios públicos; suspenderíamos os pagamentos até uma auditagem das dívidas ora assumidas como dívidas públicas nacionais e internacionais, entre outras medidas.


Essas são as questões reais e concretas que estão em disputa e, a meu juízo é entre elas que devemos e precisamos escolher, tanto como objetivo a alcançar, como meta imediata de lutas, demonstrando, então, o que somos e o que queremos. É assim que eu vou enchendo o meu jacá! Não de virtudes, mas de escolhas. E poderemos, a qualquer momento, a título de troca de conhecimentos, uns sobre os outros, esparramar no chão os conteúdos dos nossos jacás, avaliando se as escolhas que fizemos são de direita ou de esquerda. Duvido que haja dúvidas na classificação, assim como ninguém tem dúvida em responder se é negro ou branco numa discussão sobre cotas raciais para o sistema de ensino.

[1]
O que é ser de esquerda? HÉLIO SCHWARTSMAN - Folha de São Paulo 05/07/2017 – Disponível em http://m.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2017/07/1898551-o-que-e-ser-de-esquerda.shtml - Acesso em 11/07/2017

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terça-feira, 4 de julho de 2017

Viver da fé, mas fé em que?

Opinião

A nossa greve de 30 de junho de 2017, que deveria ser geral, teve uma boa mobilização e manifestações importantes em todo o país, mas foi bem aquém da que precisamos e que podemos realizar. E as dificuldades nem foram inesperadas, por um lado o boicote dos meios de comunicação e a violência da repressão e, por outro, a causa principal, a falta de entrosamento entre as principais centrais sindicais e o imobilismo de algumas direções, notadamente da Força Sindical e da UGT, mas também da CUT.[1] Ainda bem que essas posturas não refletem o ânimo da militância que quis e quer a Greve Geral. Mas, o caminho está apontado com uma clareza talvez nunca vista, precisamos de uma revolução, embora essa meta ainda careça de apoio. Assim, até chegar lá, devemos combater a classe dominante contestando as suas regras e lutando por uma ordem política que valorize a participação direta da população no poder, bem como por mecanismos diversos de distribuição da riqueza.

Vivemos um cenário contraditório. Salvo raras exceções, as atuais instituições políticas estão corrompidas, e seus principais representantes já não tem qualquer constrangimento em demonstrar os seus comprometimentos. Ainda assim, o grosso da nossa população, apesar de atônita e sem perspectivas, segue atendendo aos ditames de uma degradada ordem institucional e cumprindo as suas obrigações sociais. Praticamos em escala nacional o mesmo comportamento sintetizado nos versos do grupo musical Paralamas do Sucesso, a propósito das favelas de Salvador, Jamaica e Rio de Janeiro. Praticamos uma arte de viver da fé, mas sem saber fé em que.[2]

Há um extrato da população que alcançou o patamar de classe media e que também não está satisfeito. Porém, parte expressiva desse extrato temendo a perda de seus parcos privilégios ela não arrisca passo. Extravasa as suas insatisfações discursando que “todos são ladrões”, mas não vai além disso, ao contrário, censura quem se atreve. Imagina-se como um grupo especial que teve o azar de nascer nesse país “zinho de merda”, e suas propostas de transformações são, invariavelmente, de cunho fascista e retrógrado. Resgataram até os embolorados discursos anticomunistas, e o seu pavor é tanto que estão no limiar de reavivarem os antigos comandos de caça (CCC). Ela não gosta de ser vista assim, mas seu real papel defender o status quo fazendo-se de cão de guarda das verdadeiras elites.

Nesse  cenário cresce a barbárie. Tanto a barbárie institucional promovida pela elite rentista e empresarial, organizada através dos seus representantes parlamentares, na tentativa de aprovar as reformas trabalhista e da previdência, como a barbárie marginal não organizada que marca os seus domínios e estabelece as suas regras através da violência armada contra a população em geral, incluindo a assombrada classe média.

As citações dos poetas do Paralamas sobre os moradores de Alagados, Trenchtown e Favela da Maré hoje valem para todos, mas principalmente para nós que, felizmente, ainda não compartilhamos a mesma agonia das palafitas, trapiches, farrapos. Tomá-las como referência é quase uma obrigação porque será uma furada esperar que alguma solução virá do mar ou das antenas de TV, muito menos de uma eleição presidencial. Porra nenhuma! Ela virá da nossa mobilização. É ai que está o nó da questão, e para aí que devemos apontar nossa fé. Não temos alternativa se não for constranger e desconstruir a ordem vigente. Por isso precisamos, ainda, de muitas greves gerais.


 [1]
Para uma confirmação dessa avaliação basta acessar as páginas das centrais sindicais e suas respectivas publicações pré e pós greve. Disponível em CUT <http://www.cut.org.br/>; Força Sindical < http://www.fsindical.org.br/ &gt;; UGT <http://www.ugt.org.br/>; CSP Conlutas <http://cspconlutas.org.br/> - Acesso em 03/06/2017.

[2]
Em 1986, o grupo musical Paralamas do Sucesso fez sucesso com a música “Alagados”, de autoria dos então componentes  Bi Ribeiro, João Barone e Herbert Vianna, A letra é uma critica sobre as condições de vidas nas favelas do mundo e cita como mote a situação das comunidades de Alagados (Salvador – Bahia), Favela da Maré (cidade do Rio de Janeiro) e Trenchtown (Cidade das Trincheiras) uma comunidade pobre de Kingston (Jamaica) onde teria nascido Bob Marley. A música é empolgante – Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=r6esToXGQJM> - Acesso em 03/06/2017

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domingo, 18 de junho de 2017

Isso foi lá, com Santo Antonio

Leituras para distrair

Santo Antonio era o padroeiro de um dos dois centros de umbanda que funcionavam em nossa casa, lá em São Gonçalo, RJ, e dia de Santo Antonio era de festa e comemorado de um jeito muito especial. Foguetes e balões!

As festas religiosas na casa da minha madrinha (eu morava em casa de fundos) tinham um modelo básico com algumas variações, conforme a data. O ritual começava à tarde, com rezas cantadas, defumação dos ambientes com fumaça aromática de ervas queimadas em carvão, e com benzedura dos presentes. Mais tarde era rezada uma ladainha, nos moldes das ladainhas católicas, e após a ladainha havia uma sessão de umbanda com possessão dos médiuns pelas várias entidades. Mas, não se utilizava o termo possessão, usava-se o termo incorporação. Os cantos dos pontos de macumba determinavam as idas e vindas das entidades. Finalmente, após a sessão de umbanda, havia uma confraternização entre os presentes, com doces e sucos, e as crianças podiam fazer as algazarras que eram contidas durante as cerimônias. Porém, nos dias de Santo Antonio não tinha sessão de macumba que era realizada em outra data. Mas tinha foguetes e balões.

Para nós, as crianças, bom mesmo eram as preliminares e a parte final da festa. Nos dias que antecediam Santo Antonio a casa era movimentada devido à confecção dos doces e outros arranjos sempre com a participação de vizinhos, parentes e amigos. E tinha os balões que eram confeccionados pelo meu pai também com a ajuda de outros. O expediente do velho na metalúrgica em que trabalhava começava na madrugada, assim, a tarde ele já estava em casa com a missão de confeccionar os balões. Para nós eram enormes, construídos com papel manilha, um papel reciclado que, na época, só existia nas cores verde e rosa e que era utilizado para embrulho. As folhas eram dobradas, cortadas e coladas num arranjo e técnica que o meu pai dominava. Eram sempre dois balões.

O formato dos balões era tradicional e o os tamanhos eram contabilizados pela quantidade de folhas utilizadas. Cento e vinte, cento e oitenta ou duzentos e quarenta folhas era a ordem de grandeza. A confecção ocupava toda a varanda lateral da casa, e a nossa participação, sob o olhar crítico do velho pra ninguém fazer cagada, era na colagem dos gomos do balão utilizando cola de farinha de trigo. À noite desenvolvia-se o trabalho de confecção das lanterninhas que iluminariam os balões. Muito legal!

O ponto alto da festa era a hora de soltar os balões. Alguém em cima do muro com uma enorme vara de bambu com corda e roldana para suspender o balão, a multidão em volta segurando e abrindo os gomos, uma enorme tocha acesa para inflar o balão, outro grupo acendendo e colocando as carreiras de lanternas. A bucha parecia rocamboles montados uns sobre os outros, construídos com sacos de estopa recheados de sebo, vela e parafina, um projeto que só estava registrado na cabeça do baloeiro, mas nas proporções certas para não pesar demais e cumprir a função de fazer subir o balão. A sua instalação era uma arte. Uma boca postiça construída em vergalhão e afixada na boca original do balão moldada em bambu. Uma sequencia de tarefas realizadas com precisão e cuidados para que não ocorresse o pior, o balão pegar fogo. Ninguém pensava em outro tipo de acidente.

Os mais velhos, posicionados também sobre os muros, portavam, entre os dedos, charutos com os quais acenderiam os foguetes que acompanhariam a subida do balão. Balão cheio, bucha instalada firme e acessa, o bicho pedia pra subir, e subia! Lindo! Palmas, abraços, admiração, cumprimentos e manifestações de alívio do pessoal envolvido. Um espetáculo que me emociona ao tentar relatar. Todo iluminado pelas lanternas e os foguetes subindo e pipocando. Quem nunca viu a subida de um balão caseiro perdeu a oportunidade de uma deliciosa da sensação, especialmente quando amplificada pelo nosso ilimitado imaginário infantil.

Em Santo Antonio tudo era especial. Não era uma festa junina, dessas com barraquinhas, quadrilhas e fantasias caipiras. Era uma festa do santo e da casa. E eram dois balões para serem soltos em locais distintos. A nossa casa, dos meus pais e padrinhos, ficava no bairro Zé Garoto, e o meu padrinho tinha um comercio cerca de três quilômetros dali, no bairro Estrela do Norte. O comercio era um boteco que levava o nome de Santo Antonio, mas todos só se referiam a ele como o “Cuspidor”, e era lá que era solto o segundo balão.

Havia um compadre, a quem dávamos o tratamento de tio, que era proprietário de dois ou três caminhões com os quais transportava laranjas. Então, após a subida do primeiro balão, todos os que estavam na festa amontoavam-se nas carrocerias dos caminhões do meu “tio Avelino“ que já estavam aguardando. E aquele povo se deslocava até o Cuspidor onde se repetia a cena de lançamento, agora do segundo balão. Só então a galera dispersava com a festa dada por encerrada. Felizes voltávamos caindo de cansaço, tomados pelo de sono e, certamente, chatos e irritadiços como são as crianças nessas situações. Muitas vezes carregados em colo por seu Alcino que não sei de onde retirava tanta energia e carinho.

Houve um ano em que um dos balões incendiou e foi o mote para suspender a festa. O pessoal teve o discernimento de parar de soltar os balões, felizmente sem que tivesse acontecido qualquer acidente grave, nem mesmo algum evento de importância. Mais tarde, adolescente, também fiz balões, mas nunca comparados aos que o meu velho fazia.

De Santo Antonio ficaram essas lembranças arrumadas em minha memória do meu jeito, certamente com bastante fantasia. Elas foram resgatadas porque o meu irmão Sergio, nessa semana, fez uma festa lá na Bahia, num cuspidor que ele administra. E enfeitou a festa com uma imagem de Santo Antonio, a mesma que sempre esteve em nossa casa, em nosso quarto, e que velou noites e dias muito felizes da nossa infância. Viva Santo Antonio!


O Santo Antonio da nossa infância - Agora na Bahia

Lembrança - Trecho do Estatuto do centro de umbanda "Recinto de Santo Antonio"
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sábado, 20 de maio de 2017

Diga não à farra do boi. Quem irá para as ruas seremos nós!

Opinião

O filósofo Vladimir Safatle, em palestra promovida pela editora Boitempo, em 2016, após a saída da presidenta Dilma[1], manifestou posição que o golpe de 2016 era um golpe sem comando e que abriria um campo para degladiação onde os grupos que o promoveram iriam “... lutar por uma forma bisonha de hegemonia”. A análise do filósofo parece estar correta, pelo menos no que se refere à disputa. Em minha versão, o que está ocorrendo no caso do empreendedor corrupto Joesley versus a dupla corrupta Aécio - Temer parece ser um golpe dentro do golpe, fato que não é novidade na história das relações políticas. Não sei exatamente quais são as afinidades ou conflitos entre os grupos golpistas, muito menos sei distingui-los. Sei apenas que um fudeu o outro.

Para mim, não importa quem eles sejam. Importa é que eles continuam com o objetivo comum de seguirem fudendo os trabalhadores e a sociedade em geral com as suas reformas previdenciária e trabalhista, entre outras. Travar o combate contra essas reformas deve ser a nossa meta imediata, e isso passa por não dar qualquer espaço para que elas aconteçam. As especulações sobre o golpe dentro do golpe ficam para os meus amigos golpistas (sim, tenho alguns) que se perdem nessas análises.

As teorias das conspirações são muitas. Eu mesmo posso criar algumas. Por exemplo, seria uma tentativa do Ministério Público (MP) e da Polícia Federal (PF) de recuperação das suas imagens que foram notadamente embaçadas pelo depoimento de Lula ao juiz Sergio Moro. O ex-operário, analfabeto e incapaz, como alguns de seus opositores costumam qualificá-lo, ridicularizou o MP e a PF naquela audiência que viralizou nas redes sociais da web.

Outra teoria seria supor que alguém está trocando duas cabeças por uma. A caçada ao Lula, independentemente de terem sido comprovadas as acusações sobre ele, é indisfarçável, . As delações contra Aécio e Temer disfarçariam o papel medíocre que os seus acusadores fazem perante a opinião pública, demonstrariam uma justiça supostamente igual para todos e criaria um clima de conforto para que o abate da caça seja consumado e Lula levado em cana.

Mas, são teorias, deixo que os meus amigos golpistas façam a análise. Devem entender dessas coisas. Se tivessem consumido um décimo do tempo que estão consumindo para saber quem está comendo o rabo de quem entre o povo do pato amarelo, talvez não apoiassem o golpeachment de 2016. Não precisariam esperar o flagrante da corrupção do empreendedor Joesley como prova que as votações do golpeachment foram compradas. Quem sabe, meus amigos golpistas seriam, hoje, um número menor.

Voltando às reformas, é óbvio que qualquer sistema previdenciário exige reavaliações e ajustes, assim como o desenvolvimento dos meios de produção exigem reavaliações nas relações de trabalho. Contudo, quando necessárias, as atualizações devem ser realizadas sob a óptica do aumento do bem estar dos trabalhadores e da sociedade que são, efetivamente, os produtores da riqueza. Devemos caminhar no sentido de promover a distribuição da riqueza que produzimos e isto significa aprimorar as regras e aperfeiçoá-las em vez de precarizá-las.

As reformas do pato amarelo que os golpistas tentam aprovar, com ou sem Temer, sustentam-se em referências completamente diferentes. Elas ignoram tudo que já foi estudado, afirmado e confirmado sobre o nosso sistema previdenciário, um exemplo mundial, diga-se de passagem. Mas, não o fazem por ignorância, apenas são realizadas sob outra óptica, a dos parasitas acionistas do grande capital. Assim, usam os seus poderosos recursos de comunicação para divulgar uma referência falsa de insustentabilidade sistema previdenciário para viabilizar um estado sem compromisso social e, consequentemente, de uma sociedade sem solidariedade entre os seus membros.

No mesmo balaio estão as reformas trabalhistas. Segundo o juiz Jorge Souto Maior, do TRT de São Paulo, em depoimento no Senado Federal, não se trata de algumas reformas, querem aprovar açodadamente todo um novo código trabalhista com pelo menos 201 dispositivos prejudiciais para o trabalhador[2]. Um código que, segundo o senador Paulo Paim afirmou na mesma oportunidade, dizendo que tem documentos para comprovar, teve a sua revisão final (já aprovada na Câmara os Deputados) elaborada nos escritórios da Confederação Nacional da Indústria (CNI), num sábado à tarde.

E não para por aí. Na Câmara dos Deputados já existe projeto da bancada ruralista[3] propondo fazer do trabalhador rural uma espécie de autônomo que pode trabalhar em troca de salário ou remuneração de qualquer espécie, ou seja, na prática, em troca de casa e comida, como um escravo[4].

Conheço gente que avalia as tais reformas como “... reformas estruturantes indispensáveis para viabilizar o País, que não foram ainda feitas pela omissão covarde de governos populares que ficaram 13 anos no poder”. Como alguém, por pouco conhecimento que tenha do nosso país, avalia positivamente a possibilidade de o empregado ser levado a uma “negociação” direta com o seu patrão e onde o “negociado” passa a valer sobre o “legislado”? 

E quem se iludir achando que há garantias na proposta de reformas, busque mais detalhes assistindo a intervenção do juiz do trabalho (citado antes), já na fase dos debates na comissão do Senado.

Recebi um zap que sintetiza a situação das negociações na forma que querem aprovar. O zap dizia “Se até o presidente da república dançou ao negociar com o tal empreendedor Joesley, imagine eu com o meu patrão!”.

Por isso, é fundamental lançar mão da arma que dispomos, e ela se chama Greve Geral. Será um equívoco acreditar na tal da normalidade das instituições, assim como será um equívoco apostar esperanças em uma liderança messiânica que nos salvará em uma eleição presidencial.  Ainda que houvesse, nem haveria tempo porque não podemos deixar espaço. Não basta trocar o presidente, é preciso botar pra fora todos. Os nossos representantes que lá estão e que sustentam os enfrentamentos não se sentirão agredidos.









[1] Intervenção do filósofo Vladimir Safatle - Mesa de abertura do II Salão do Livro Político, intitulada "Que democracia?" – Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=7T953DTcpBw&t=204s> - Acesso em 19/05/2017.

[2] Comissão de Assuntos Sociais (CAS) e Assuntos Economicos do Senado CES) - 3ª. Audiência (conjunta) Pública do Ciclo  de Debates sobre a proposta de Reforma Trabalhista, em 17/05/2017 – Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=nwVDlQVnf2o > - Acesso em 19/05/2017

[3] Projeto de lei 6442/2016 – Disponível em <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2116421> Acesso em 20/05/2017

[4] Projeto de lei para trabalhadores rurais legaliza a servidão – Análise disponível em http://justificando.cartacapital.com.br/2017/05/04/projeto-de-lei-para-trabalhadores-rurais-legaliza-servidao/ - Acesso em 20/05/2017. 


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Knockin' on Heaven's Door (Bob Dylan)


Leituras para distrair


Prótons, elétrons e nêutrons não chegam a ser palavras estranhas para quem teve a oportunidade de cursar os primeiros anos colegiais, mesmo que não saibamos dissertar sobre o significado delas. Exigindo um pouquinho da memória lembraremos que assim estudamos a constituição do átomo: um núcleo formado por partículas denominadas prótons e nêutrons e circundado por partículas chamadas elétrons. Eram as partículas elementares, as menores porções conhecidas da matéria e supostas indivisíveis.

Hoje, a visão que se tem sobre o a constituição da matéria é mais complexa. Prótons e nêutrons são formados por quarks. É a combinação de tipos quarks que determina se o grupo formado será chamado de próton ou de nêutron. Os prótons e os nêutrons compartilham propriedades com outras partículas menos famosas e todas são chamadas de hádrons. Os elétrons, por sua vez, pertencem a outro grupo de partículas que são chamadas de léptons. Glúons, mésons, píons, bósons e outros, abre-se aí um mundo estranhíssimo de nomes e de partículas que estão distantes da nossa realidade. Um mundo muito, mas muito pequenino, onde as distâncias obedecem a outras escalas. Um centímetro - 0,01 metros - é a distância de um beijo e dá título ao sucesso sertanejo universitário da dupla Jorge & Matheus. Pois bem, no mundo subatômico as distâncias têm valores que, medidos em metros, exigem 18 zeros entre a vírgula e o um (0, ...1), tomando-se como referência a expressão poética da dupla citada.

Os pesquisadores desenvolveram métodos para estudar esse mundo de tamanho infinitesimal. Um deles é fazer com que feixes de partículas sejam deslocados aceleradamente, até velocidades altíssimas, próximas à velocidade da luz, e colidirem com outros feixes idênticos que se deslocam em sentido oposto. O choque desvia parte das partículas, destrói outras, forma novas partículas, libera energia, e a observação e análise desses rastros do choque permitem tanto ampliar o conhecimento como formular novas hipóteses sobre a constituição da matéria.

O LHC (Large Hadron Collider) é uma máquina/laboratório construído para provocar essas colisões e fornecer elementos para estudos. Foi construído pelo CERN (Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire) um laboratório e centro de estudos, resultado da associação de mais de 20 países, onde se desenvolvem diversos projetos de pesquisas, muitas conduzidas por consórcios internacionais. A máquina é um túnel circular de 27 km de perímetro construído a 175 metros de profundidade, na fronteira França – Suíça, próximo à cidade de Genebra.  As experiências, em si, são os choques. Os conhecimentos vêm da análise posterior sobre os dados dos rastros. Diversos brasileiros, especialmente de laboratórios universitários, participam de projetos de pesquisas que utilizam o LHC.

Existe muito material na web sobre o CERN. A própria web nasceu da troca de informações entre os pesquisadores do CERN. Uma dica que conheço de leitura consistente e não dirigida para especialistas é o livro“ BATENDO À PORTA DO CÉU – O bóson de Higgs e como a física moderna ilumina o universo” – RANDALL, Lisa – Cia. das Letras. A autora é uma física teórica com veia jornalística, esse atributo valioso que permite a quem o tem construir atalhos de informações sobre o mundo dos especialistas para o nosso cotidiano social.  Mas, a intenção aqui é divulgar um link abaixo que pertence ao material de um programa específico para professores de física, uma das atividades desenvolvidas pelo CERN. Muito legal, vale assistir. O vídeo tem legendas em português, mas esta facilidade precisa ser ativada no celular ou no micro.

Por obrigação de crédito também tem o link da dupla musical citada que trata de um drama existencial (balada ou parque). De repente, alguém gosta.




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