sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O muralha e a canalha

Opinião

Não gosto de futebol, embora carregue o meu quinhão da herança cultural de ter nascido no país que foi reconhecido internacionalmente pelo talento dos atletas e pelos resultados das seleções de clubes e das seleções nacionais nas competições desse esporte. Não torço por clube, não tenho saco para assistir jogos, nem mesmo da seleção brasileira, só participo de conversas para sacanear aficionados torcedores e nunca sei qual a competição do momento.

Aponto esse distanciamento para valorizar a minha indignação ao ver uma matéria estampada na primeira página do jornal carioca Extra, na edição de hoje, 01/09/2017. Em parte superior, com o título de “Comunicado” e a foto de um jogador, em duas colunas de sete linhas, o jornal informa aos seus leitores que, a partir de hoje, não mais publicará a palavra Muralha associada ao nome do goleiro do Flamengo, esse é o apelido do jogador, considerando as suas falhas recentes na atividade de goleiro. Verifiquei que o jogador, Alex Roberto Santana Rafael, o Muralha, tem sido o pivô de acirradas discussões em torno de sua contratação pelo Flamengo.

Não tenho qualquer simpatia pelo Flamengo, muito menos pelo Muralha cuja existência só tomei conhecimento hoje. Contudo, acho um absurdo a mobilização do jornal atacando a figura de um profissional que exerce a sua função, não importa o juízo que se faça dela. Se o jogador é bom ou mau goleiro, se o Flamengo fez ou não um bom negócio, se ele atende ou não às expectativas da torcida do clube, nada disso justifica uma empresa – o grupo Globo de jornalismo – expor e atacar individualmente o jogador como o fez com a matéria de hoje. É uma ação escrota, canalha, covarde e medíocre.

As relações no futebol são estabelecidas por interesses de empresas e de empresários. Não sei se é o caso, mas pode ser que os interesses de empresas e empresários associados ao clube de futebol e ao jornal estejam em conflito, contudo nada disso justifica o linchamento que o jornal está promovendo. Outro jornal, não sei o nome, publica a foto de um frango depenado com a cabeça do jogador, associando a imagem ao gol que ele tomou na última partida. É uma caricatura feia e ridícula, mas está publicada como matéria em jornal que trata cotidianamente dessa forma os assuntos do futebol. Não é novidade. É ofensiva, mas não é uma campanha direcionada. Trata-se de um deboche que instiga as torcidas e promove a venda do jornal. A matéria do jornal Extra, ao contrário, é especial, publicada como se fosse anúncio de matéria paga ou obrigatória. Por interesse ou falta de colhões dos editores do jornal, ela não ataca o clube nem outros empresários, o profissional que engoliu o frango é quem está pagando o pato. Uma covardia.

Com todas as distorções que se conhece no futebol, talvez uma das atividades mais honestas seja aquela realizada pelo jogador em campo nos minutos de duração da partida, fazendo ou tomando dribles, fazendo ou tomando gols. Não há como ignorar a matéria do Extra – até no relato do desempenho de um jogador de futebol essa “grande” mídia brasileira consegue se revelar como um lixo.

######




terça-feira, 11 de julho de 2017

Um jacá de virtudes

Opinião

Os termos direita e esquerda políticas são quase universais e as suas origens bastante conhecidas. Também não é novidade que não são definições técnicas, ao contrário são expressões que ao longo do tempo suscitaram variações de abordagens. Talvez frequentem mais os dicionários histórico-políticos do que os filosóficos.  Assim, ao ler recentemente a coluna de um jornalista, filósofo, afirmando que as definições de esquerda e direita têm sido “castigadas pela história” [1] considerei uma mensagem que não contém, a rigor, muita informação, servindo mais como desvalorização dos termos em favor das convicções do colunista.

Na coluna citada, o jornalista aborda a busca de alternativas para os termos esquerda e direita, fato que também não é novo, e expressa a sua preferência pelas formulações de um terceiro autor que teria sugerido a concepção de seis dimensões ideológicas formando um chamado “mapa ético” no qual a “esquerda” seria uma representação enfática (grifo meu) de duas dimensões -  a proteção e a justiça - enquanto a “direita” seria uma mistura homogênea (grifo meu) das seis dimensões propostas -  proteção, justiça, liberdade, lealdade, autoridade e santidade. Até onde entendi, o tal mapa ético seria uma espécie de cesta de valores, mas não consegui inferir se esta distribuição de produtos nas duas cestas reflete a opinião do colunista ou do autor citado por ele. Também não consumi tempo pesquisando.

Minha primeira reação após a leitura foi desdém. Achei pueril imaginar que proteção, justiça, liberdade, lealdade, autoridade e santidade, no contexto da conjuntura política, possam ser mais assertivos que direita ou esquerda. Recebi o texto como sugestão de leitura e cheguei a pensar com os meus botões “Porra! Valorizar isso?” Mas, foi apenas um espirro emocional. O amigo que me enviou o texto filtrou e achou um mote interessante para conversas, aliás, foi assim que ele o apresentou. E fazendo releituras verifiquei que a minha primeira impressão foi injusta com o colunista porque ele mesmo concorda que a abordagem binária facilita a identificação de aliados e inimigos, embora declare que acha a abordagem precária e que passa a impressão de carregar um conteúdo profundo quando, em sua opinião, é cada vez menor.

Quando fiz comentário desvalorizando o tema, o meu amigo replicou indagando, então, sobre qual seria o meu mapa ético, numa provocação que não aceitei. Quem quiser consumir tempo elaborando o que prefiro chamar de um jacá de virtudes em vez de mapa ético, que se dê ao trabalho de fazê-lo. Preferi não desviar minha atenção porque, na situação atual, acho quase um exercício de besteirol, uma brincadeira de almanaque. Porém, não apenas isso. Verifico que proposições como a do colunista aparecem sempre quando estão em discussão questões explicitamente conflitantes e claramente consoantes com as “desgastadas” bandeiras da esquerda e da direita política.  E mais, sempre surgem de alas de pensamentos identificados com os da direita política que se constrange em explicitar suas posições e, não querendo fazê-lo, buscam dispersar e desviar a discussão para a sexualidade dos anjos. Em termos mais simples: quem tem dúvida sobre esquerda e direita políticas, via de regra, é o cara de direita. Esse comportamento não é muito diferente daqueles que inconformados com a implantação das cotas raciais no sistema de ensino nacional apregoavam a tese que as pessoas sequer saberiam responder com convicção se eram negras  ou brancas.

Em momento nenhum eu desconsidero as indagações filosóficas sobre qualquer assunto, até mesmo sobre o sexo dos anjos. Não tenho capacitação para tal, e seria uma pretensão arrogante se tentasse fazê-lo. Mas, priorizo abordar a realidade da conjuntura que vivemos e busco fazer tal abordagem sob uma óptica de classe. Hoje, as questões políticas que considero mais importantes não só para o nosso cotidiano, mas também para o nosso futuro e das nossas gerações imediatas, estão materializadas sob a forma projetos políticos de uma classe minoritária dominante que, vivendo uma crise do modo de produção, busca sustento e recuperação aumentando a exploração de uma classe majoritária de trabalhadores. Esse processo se faz pelo encaminhamento de projetos de reformas na legislação, usando os seus representantes nos três poderes da república, e se traduzem especificamente pela tentativa de desqualificar a organização dos trabalhadores, além destruir conquistas acumuladas com muita luta pelos mesmos.

Nesse momento, enquanto rabisco esse texto, no senado federal estão tentando aprovar projeto que acaba com a carteira assinada, décimo terceiro salário, férias, FGTS, licença maternidade, jornada de trabalho, representação sindical. Estão tentando aprovar o trabalho intermitente, o trabalho temporário e o fim do trabalhador celetista em favor do autônomo com terceirização indiscriminada. Sem contar as tentativas que estão sendo realizadas para destruir a previdência social.

Eu não concordo com essas propostas. Por minha vontade, e pela qual me empenho no limite das minhas possibilidades, estabeleceríamos uma nova ordem política; implantaríamos um maior controle público do estado através de conselhos populares e da prática de consultas públicas; realizaríamos uma apropriação dos ganhos de produtividade com redução das jornadas de trabalho e aumento de salários; a tributação das grandes fortunas, dos lucros, dos ganhos de capitais e das altas rendas; daríamos prioridade para os projetos de evidentes benefícios públicos; suspenderíamos os pagamentos até uma auditagem das dívidas ora assumidas como dívidas públicas nacionais e internacionais, entre outras medidas.


Essas são as questões reais e concretas que estão em disputa e, a meu juízo é entre elas que devemos e precisamos escolher, tanto como objetivo a alcançar, como meta imediata de lutas, demonstrando, então, o que somos e o que queremos. É assim que eu vou enchendo o meu jacá! Não de virtudes, mas de escolhas. E poderemos, a qualquer momento, a título de troca de conhecimentos, uns sobre os outros, esparramar no chão os conteúdos dos nossos jacás, avaliando se as escolhas que fizemos são de direita ou de esquerda. Duvido que haja dúvidas na classificação, assim como ninguém tem dúvida em responder se é negro ou branco numa discussão sobre cotas raciais para o sistema de ensino.

[1]
O que é ser de esquerda? HÉLIO SCHWARTSMAN - Folha de São Paulo 05/07/2017 – Disponível em http://m.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2017/07/1898551-o-que-e-ser-de-esquerda.shtml - Acesso em 11/07/2017

#######

terça-feira, 4 de julho de 2017

Viver da fé, mas fé em que?

Opinião

A nossa greve de 30 de junho de 2017, que deveria ser geral, teve uma boa mobilização e manifestações importantes em todo o país, mas foi bem aquém da que precisamos e que podemos realizar. E as dificuldades nem foram inesperadas, por um lado o boicote dos meios de comunicação e a violência da repressão e, por outro, a causa principal, a falta de entrosamento entre as principais centrais sindicais e o imobilismo de algumas direções, notadamente da Força Sindical e da UGT, mas também da CUT.[1] Ainda bem que essas posturas não refletem o ânimo da militância que quis e quer a Greve Geral. Mas, o caminho está apontado com uma clareza talvez nunca vista, precisamos de uma revolução, embora essa meta ainda careça de apoio. Assim, até chegar lá, devemos combater a classe dominante contestando as suas regras e lutando por uma ordem política que valorize a participação direta da população no poder, bem como por mecanismos diversos de distribuição da riqueza.

Vivemos um cenário contraditório. Salvo raras exceções, as atuais instituições políticas estão corrompidas, e seus principais representantes já não tem qualquer constrangimento em demonstrar os seus comprometimentos. Ainda assim, o grosso da nossa população, apesar de atônita e sem perspectivas, segue atendendo aos ditames de uma degradada ordem institucional e cumprindo as suas obrigações sociais. Praticamos em escala nacional o mesmo comportamento sintetizado nos versos do grupo musical Paralamas do Sucesso, a propósito das favelas de Salvador, Jamaica e Rio de Janeiro. Praticamos uma arte de viver da fé, mas sem saber fé em que.[2]

Há um extrato da população que alcançou o patamar de classe media e que também não está satisfeito. Porém, parte expressiva desse extrato temendo a perda de seus parcos privilégios ela não arrisca passo. Extravasa as suas insatisfações discursando que “todos são ladrões”, mas não vai além disso, ao contrário, censura quem se atreve. Imagina-se como um grupo especial que teve o azar de nascer nesse país “zinho de merda”, e suas propostas de transformações são, invariavelmente, de cunho fascista e retrógrado. Resgataram até os embolorados discursos anticomunistas, e o seu pavor é tanto que estão no limiar de reavivarem os antigos comandos de caça (CCC). Ela não gosta de ser vista assim, mas seu real papel defender o status quo fazendo-se de cão de guarda das verdadeiras elites.

Nesse  cenário cresce a barbárie. Tanto a barbárie institucional promovida pela elite rentista e empresarial, organizada através dos seus representantes parlamentares, na tentativa de aprovar as reformas trabalhista e da previdência, como a barbárie marginal não organizada que marca os seus domínios e estabelece as suas regras através da violência armada contra a população em geral, incluindo a assombrada classe média.

As citações dos poetas do Paralamas sobre os moradores de Alagados, Trenchtown e Favela da Maré hoje valem para todos, mas principalmente para nós que, felizmente, ainda não compartilhamos a mesma agonia das palafitas, trapiches, farrapos. Tomá-las como referência é quase uma obrigação porque será uma furada esperar que alguma solução virá do mar ou das antenas de TV, muito menos de uma eleição presidencial. Porra nenhuma! Ela virá da nossa mobilização. É ai que está o nó da questão, e para aí que devemos apontar nossa fé. Não temos alternativa se não for constranger e desconstruir a ordem vigente. Por isso precisamos, ainda, de muitas greves gerais.


 [1]
Para uma confirmação dessa avaliação basta acessar as páginas das centrais sindicais e suas respectivas publicações pré e pós greve. Disponível em CUT <http://www.cut.org.br/>; Força Sindical < http://www.fsindical.org.br/ &gt;; UGT <http://www.ugt.org.br/>; CSP Conlutas <http://cspconlutas.org.br/> - Acesso em 03/06/2017.

[2]
Em 1986, o grupo musical Paralamas do Sucesso fez sucesso com a música “Alagados”, de autoria dos então componentes  Bi Ribeiro, João Barone e Herbert Vianna, A letra é uma critica sobre as condições de vidas nas favelas do mundo e cita como mote a situação das comunidades de Alagados (Salvador – Bahia), Favela da Maré (cidade do Rio de Janeiro) e Trenchtown (Cidade das Trincheiras) uma comunidade pobre de Kingston (Jamaica) onde teria nascido Bob Marley. A música é empolgante – Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=r6esToXGQJM> - Acesso em 03/06/2017

#######

domingo, 18 de junho de 2017

Isso foi lá, com Santo Antonio

Leituras para distrair

Santo Antonio era o padroeiro de um dos dois centros de umbanda que funcionavam em nossa casa, lá em São Gonçalo, RJ, e dia de Santo Antonio era de festa e comemorado de um jeito muito especial. Foguetes e balões!

As festas religiosas na casa da minha madrinha (eu morava em casa de fundos) tinham um modelo básico com algumas variações, conforme a data. O ritual começava à tarde, com rezas cantadas, defumação dos ambientes com fumaça aromática de ervas queimadas em carvão, e com benzedura dos presentes. Mais tarde era rezada uma ladainha, nos moldes das ladainhas católicas, e após a ladainha havia uma sessão de umbanda com possessão dos médiuns pelas várias entidades. Mas, não se utilizava o termo possessão, usava-se o termo incorporação. Os cantos dos pontos de macumba determinavam as idas e vindas das entidades. Finalmente, após a sessão de umbanda, havia uma confraternização entre os presentes, com doces e sucos, e as crianças podiam fazer as algazarras que eram contidas durante as cerimônias. Porém, nos dias de Santo Antonio não tinha sessão de macumba que era realizada em outra data. Mas tinha foguetes e balões.

Para nós, as crianças, bom mesmo eram as preliminares e a parte final da festa. Nos dias que antecediam Santo Antonio a casa era movimentada devido à confecção dos doces e outros arranjos sempre com a participação de vizinhos, parentes e amigos. E tinha os balões que eram confeccionados pelo meu pai também com a ajuda de outros. O expediente do velho na metalúrgica em que trabalhava começava na madrugada, assim, a tarde ele já estava em casa com a missão de confeccionar os balões. Para nós eram enormes, construídos com papel manilha, um papel reciclado que, na época, só existia nas cores verde e rosa e que era utilizado para embrulho. As folhas eram dobradas, cortadas e coladas num arranjo e técnica que o meu pai dominava. Eram sempre dois balões.

O formato dos balões era tradicional e o os tamanhos eram contabilizados pela quantidade de folhas utilizadas. Cento e vinte, cento e oitenta ou duzentos e quarenta folhas era a ordem de grandeza. A confecção ocupava toda a varanda lateral da casa, e a nossa participação, sob o olhar crítico do velho pra ninguém fazer cagada, era na colagem dos gomos do balão utilizando cola de farinha de trigo. À noite desenvolvia-se o trabalho de confecção das lanterninhas que iluminariam os balões. Muito legal!

O ponto alto da festa era a hora de soltar os balões. Alguém em cima do muro com uma enorme vara de bambu com corda e roldana para suspender o balão, a multidão em volta segurando e abrindo os gomos, uma enorme tocha acesa para inflar o balão, outro grupo acendendo e colocando as carreiras de lanternas. A bucha parecia rocamboles montados uns sobre os outros, construídos com sacos de estopa recheados de sebo, vela e parafina, um projeto que só estava registrado na cabeça do baloeiro, mas nas proporções certas para não pesar demais e cumprir a função de fazer subir o balão. A sua instalação era uma arte. Uma boca postiça construída em vergalhão e afixada na boca original do balão moldada em bambu. Uma sequencia de tarefas realizadas com precisão e cuidados para que não ocorresse o pior, o balão pegar fogo. Ninguém pensava em outro tipo de acidente.

Os mais velhos, posicionados também sobre os muros, portavam, entre os dedos, charutos com os quais acenderiam os foguetes que acompanhariam a subida do balão. Balão cheio, bucha instalada firme e acessa, o bicho pedia pra subir, e subia! Lindo! Palmas, abraços, admiração, cumprimentos e manifestações de alívio do pessoal envolvido. Um espetáculo que me emociona ao tentar relatar. Todo iluminado pelas lanternas e os foguetes subindo e pipocando. Quem nunca viu a subida de um balão caseiro perdeu a oportunidade de uma deliciosa da sensação, especialmente quando amplificada pelo nosso ilimitado imaginário infantil.

Em Santo Antonio tudo era especial. Não era uma festa junina, dessas com barraquinhas, quadrilhas e fantasias caipiras. Era uma festa do santo e da casa. E eram dois balões para serem soltos em locais distintos. A nossa casa, dos meus pais e padrinhos, ficava no bairro Zé Garoto, e o meu padrinho tinha um comercio cerca de três quilômetros dali, no bairro Estrela do Norte. O comercio era um boteco que levava o nome de Santo Antonio, mas todos só se referiam a ele como o “Cuspidor”, e era lá que era solto o segundo balão.

Havia um compadre, a quem dávamos o tratamento de tio, que era proprietário de dois ou três caminhões com os quais transportava laranjas. Então, após a subida do primeiro balão, todos os que estavam na festa amontoavam-se nas carrocerias dos caminhões do meu “tio Avelino“ que já estavam aguardando. E aquele povo se deslocava até o Cuspidor onde se repetia a cena de lançamento, agora do segundo balão. Só então a galera dispersava com a festa dada por encerrada. Felizes voltávamos caindo de cansaço, tomados pelo de sono e, certamente, chatos e irritadiços como são as crianças nessas situações. Muitas vezes carregados em colo por seu Alcino que não sei de onde retirava tanta energia e carinho.

Houve um ano em que um dos balões incendiou e foi o mote para suspender a festa. O pessoal teve o discernimento de parar de soltar os balões, felizmente sem que tivesse acontecido qualquer acidente grave, nem mesmo algum evento de importância. Mais tarde, adolescente, também fiz balões, mas nunca comparados aos que o meu velho fazia.

De Santo Antonio ficaram essas lembranças arrumadas em minha memória do meu jeito, certamente com bastante fantasia. Elas foram resgatadas porque o meu irmão Sergio, nessa semana, fez uma festa lá na Bahia, num cuspidor que ele administra. E enfeitou a festa com uma imagem de Santo Antonio, a mesma que sempre esteve em nossa casa, em nosso quarto, e que velou noites e dias muito felizes da nossa infância. Viva Santo Antonio!


O Santo Antonio da nossa infância - Agora na Bahia

Lembrança - Trecho do Estatuto do centro de umbanda "Recinto de Santo Antonio"
#######

sábado, 20 de maio de 2017

Diga não à farra do boi. Quem irá para as ruas seremos nós!

Opinião

O filósofo Vladimir Safatle, em palestra promovida pela editora Boitempo, em 2016, após a saída da presidenta Dilma[1], manifestou posição que o golpe de 2016 era um golpe sem comando e que abriria um campo para degladiação onde os grupos que o promoveram iriam “... lutar por uma forma bisonha de hegemonia”. A análise do filósofo parece estar correta, pelo menos no que se refere à disputa. Em minha versão, o que está ocorrendo no caso do empreendedor corrupto Joesley versus a dupla corrupta Aécio - Temer parece ser um golpe dentro do golpe, fato que não é novidade na história das relações políticas. Não sei exatamente quais são as afinidades ou conflitos entre os grupos golpistas, muito menos sei distingui-los. Sei apenas que um fudeu o outro.

Para mim, não importa quem eles sejam. Importa é que eles continuam com o objetivo comum de seguirem fudendo os trabalhadores e a sociedade em geral com as suas reformas previdenciária e trabalhista, entre outras. Travar o combate contra essas reformas deve ser a nossa meta imediata, e isso passa por não dar qualquer espaço para que elas aconteçam. As especulações sobre o golpe dentro do golpe ficam para os meus amigos golpistas (sim, tenho alguns) que se perdem nessas análises.

As teorias das conspirações são muitas. Eu mesmo posso criar algumas. Por exemplo, seria uma tentativa do Ministério Público (MP) e da Polícia Federal (PF) de recuperação das suas imagens que foram notadamente embaçadas pelo depoimento de Lula ao juiz Sergio Moro. O ex-operário, analfabeto e incapaz, como alguns de seus opositores costumam qualificá-lo, ridicularizou o MP e a PF naquela audiência que viralizou nas redes sociais da web.

Outra teoria seria supor que alguém está trocando duas cabeças por uma. A caçada ao Lula, independentemente de terem sido comprovadas as acusações sobre ele, é indisfarçável, . As delações contra Aécio e Temer disfarçariam o papel medíocre que os seus acusadores fazem perante a opinião pública, demonstrariam uma justiça supostamente igual para todos e criaria um clima de conforto para que o abate da caça seja consumado e Lula levado em cana.

Mas, são teorias, deixo que os meus amigos golpistas façam a análise. Devem entender dessas coisas. Se tivessem consumido um décimo do tempo que estão consumindo para saber quem está comendo o rabo de quem entre o povo do pato amarelo, talvez não apoiassem o golpeachment de 2016. Não precisariam esperar o flagrante da corrupção do empreendedor Joesley como prova que as votações do golpeachment foram compradas. Quem sabe, meus amigos golpistas seriam, hoje, um número menor.

Voltando às reformas, é óbvio que qualquer sistema previdenciário exige reavaliações e ajustes, assim como o desenvolvimento dos meios de produção exigem reavaliações nas relações de trabalho. Contudo, quando necessárias, as atualizações devem ser realizadas sob a óptica do aumento do bem estar dos trabalhadores e da sociedade que são, efetivamente, os produtores da riqueza. Devemos caminhar no sentido de promover a distribuição da riqueza que produzimos e isto significa aprimorar as regras e aperfeiçoá-las em vez de precarizá-las.

As reformas do pato amarelo que os golpistas tentam aprovar, com ou sem Temer, sustentam-se em referências completamente diferentes. Elas ignoram tudo que já foi estudado, afirmado e confirmado sobre o nosso sistema previdenciário, um exemplo mundial, diga-se de passagem. Mas, não o fazem por ignorância, apenas são realizadas sob outra óptica, a dos parasitas acionistas do grande capital. Assim, usam os seus poderosos recursos de comunicação para divulgar uma referência falsa de insustentabilidade sistema previdenciário para viabilizar um estado sem compromisso social e, consequentemente, de uma sociedade sem solidariedade entre os seus membros.

No mesmo balaio estão as reformas trabalhistas. Segundo o juiz Jorge Souto Maior, do TRT de São Paulo, em depoimento no Senado Federal, não se trata de algumas reformas, querem aprovar açodadamente todo um novo código trabalhista com pelo menos 201 dispositivos prejudiciais para o trabalhador[2]. Um código que, segundo o senador Paulo Paim afirmou na mesma oportunidade, dizendo que tem documentos para comprovar, teve a sua revisão final (já aprovada na Câmara os Deputados) elaborada nos escritórios da Confederação Nacional da Indústria (CNI), num sábado à tarde.

E não para por aí. Na Câmara dos Deputados já existe projeto da bancada ruralista[3] propondo fazer do trabalhador rural uma espécie de autônomo que pode trabalhar em troca de salário ou remuneração de qualquer espécie, ou seja, na prática, em troca de casa e comida, como um escravo[4].

Conheço gente que avalia as tais reformas como “... reformas estruturantes indispensáveis para viabilizar o País, que não foram ainda feitas pela omissão covarde de governos populares que ficaram 13 anos no poder”. Como alguém, por pouco conhecimento que tenha do nosso país, avalia positivamente a possibilidade de o empregado ser levado a uma “negociação” direta com o seu patrão e onde o “negociado” passa a valer sobre o “legislado”? 

E quem se iludir achando que há garantias na proposta de reformas, busque mais detalhes assistindo a intervenção do juiz do trabalho (citado antes), já na fase dos debates na comissão do Senado.

Recebi um zap que sintetiza a situação das negociações na forma que querem aprovar. O zap dizia “Se até o presidente da república dançou ao negociar com o tal empreendedor Joesley, imagine eu com o meu patrão!”.

Por isso, é fundamental lançar mão da arma que dispomos, e ela se chama Greve Geral. Será um equívoco acreditar na tal da normalidade das instituições, assim como será um equívoco apostar esperanças em uma liderança messiânica que nos salvará em uma eleição presidencial.  Ainda que houvesse, nem haveria tempo porque não podemos deixar espaço. Não basta trocar o presidente, é preciso botar pra fora todos. Os nossos representantes que lá estão e que sustentam os enfrentamentos não se sentirão agredidos.









[1] Intervenção do filósofo Vladimir Safatle - Mesa de abertura do II Salão do Livro Político, intitulada "Que democracia?" – Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=7T953DTcpBw&t=204s> - Acesso em 19/05/2017.

[2] Comissão de Assuntos Sociais (CAS) e Assuntos Economicos do Senado CES) - 3ª. Audiência (conjunta) Pública do Ciclo  de Debates sobre a proposta de Reforma Trabalhista, em 17/05/2017 – Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=nwVDlQVnf2o > - Acesso em 19/05/2017

[3] Projeto de lei 6442/2016 – Disponível em <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2116421> Acesso em 20/05/2017

[4] Projeto de lei para trabalhadores rurais legaliza a servidão – Análise disponível em http://justificando.cartacapital.com.br/2017/05/04/projeto-de-lei-para-trabalhadores-rurais-legaliza-servidao/ - Acesso em 20/05/2017. 


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Knockin' on Heaven's Door (Bob Dylan)


Leituras para distrair


Prótons, elétrons e nêutrons não chegam a ser palavras estranhas para quem teve a oportunidade de cursar os primeiros anos colegiais, mesmo que não saibamos dissertar sobre o significado delas. Exigindo um pouquinho da memória lembraremos que assim estudamos a constituição do átomo: um núcleo formado por partículas denominadas prótons e nêutrons e circundado por partículas chamadas elétrons. Eram as partículas elementares, as menores porções conhecidas da matéria e supostas indivisíveis.

Hoje, a visão que se tem sobre o a constituição da matéria é mais complexa. Prótons e nêutrons são formados por quarks. É a combinação de tipos quarks que determina se o grupo formado será chamado de próton ou de nêutron. Os prótons e os nêutrons compartilham propriedades com outras partículas menos famosas e todas são chamadas de hádrons. Os elétrons, por sua vez, pertencem a outro grupo de partículas que são chamadas de léptons. Glúons, mésons, píons, bósons e outros, abre-se aí um mundo estranhíssimo de nomes e de partículas que estão distantes da nossa realidade. Um mundo muito, mas muito pequenino, onde as distâncias obedecem a outras escalas. Um centímetro - 0,01 metros - é a distância de um beijo e dá título ao sucesso sertanejo universitário da dupla Jorge & Matheus. Pois bem, no mundo subatômico as distâncias têm valores que, medidos em metros, exigem 18 zeros entre a vírgula e o um (0, ...1), tomando-se como referência a expressão poética da dupla citada.

Os pesquisadores desenvolveram métodos para estudar esse mundo de tamanho infinitesimal. Um deles é fazer com que feixes de partículas sejam deslocados aceleradamente, até velocidades altíssimas, próximas à velocidade da luz, e colidirem com outros feixes idênticos que se deslocam em sentido oposto. O choque desvia parte das partículas, destrói outras, forma novas partículas, libera energia, e a observação e análise desses rastros do choque permitem tanto ampliar o conhecimento como formular novas hipóteses sobre a constituição da matéria.

O LHC (Large Hadron Collider) é uma máquina/laboratório construído para provocar essas colisões e fornecer elementos para estudos. Foi construído pelo CERN (Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire) um laboratório e centro de estudos, resultado da associação de mais de 20 países, onde se desenvolvem diversos projetos de pesquisas, muitas conduzidas por consórcios internacionais. A máquina é um túnel circular de 27 km de perímetro construído a 175 metros de profundidade, na fronteira França – Suíça, próximo à cidade de Genebra.  As experiências, em si, são os choques. Os conhecimentos vêm da análise posterior sobre os dados dos rastros. Diversos brasileiros, especialmente de laboratórios universitários, participam de projetos de pesquisas que utilizam o LHC.

Existe muito material na web sobre o CERN. A própria web nasceu da troca de informações entre os pesquisadores do CERN. Uma dica que conheço de leitura consistente e não dirigida para especialistas é o livro“ BATENDO À PORTA DO CÉU – O bóson de Higgs e como a física moderna ilumina o universo” – RANDALL, Lisa – Cia. das Letras. A autora é uma física teórica com veia jornalística, esse atributo valioso que permite a quem o tem construir atalhos de informações sobre o mundo dos especialistas para o nosso cotidiano social.  Mas, a intenção aqui é divulgar um link abaixo que pertence ao material de um programa específico para professores de física, uma das atividades desenvolvidas pelo CERN. Muito legal, vale assistir. O vídeo tem legendas em português, mas esta facilidade precisa ser ativada no celular ou no micro.

Por obrigação de crédito também tem o link da dupla musical citada que trata de um drama existencial (balada ou parque). De repente, alguém gosta.




###########


domingo, 19 de março de 2017

Como nos livrar dessa quadrilha que tomou de assalto o país?

Opinião

Essa tem sido uma dúvida entre os que lutaram contra o golpe de 2016 que assaltou o poder. Que tentam enfrentar um projeto que avança para reverter conquistas sociais importantes através das suas reformas previdenciária e trabalhista, que pretende liberar sem restrições propriedade de terras para empresas internacionais, cassar o direito de greve dos servidores públicos, além privatizar o que ainda resta de patrimônio público nacional.

Para mim, neste momento, a resposta mais adequada está apontada pelo PSTU, entre outros. A promoção e realização de uma forte Greve Geral, já! O caminho para barrar essa quadrilha é provocar uma sensível instabilidade em seu poder com movimentações nas ruas e paralisação da produção. A situação atual não se caracteriza apenas por um poder executivo tomado pelo golpe. Mas, também por um legislativo que foi seu agente direto e que revelou a sua natureza no próprio processo do impeachment. Por um poder judiciário que já deu mostras cabais de parcialidade em suas decisões, e tudo isso sustentado pela  propaganda controlada por um poderosíssimo sistema de comunicações. A saída é uma mobilização popular.

 Mas, a mobilização popular que precisamos não deve ocorrer em torno da palavra de ordem “Lula 2018” porque esse tipo de mobilização não afetará a estrutura de poder que precisamos combater.​ Ao contrário, levará o jogo para o campo do adversário e com regras feitas por eles.  Muito menos deve se confundir  com os movimentos conservadores que preconceituosamente  criminalizam a política e os ideais de distribuição da riqueza.  A palavra de ordem precisa ser “Greve Geral já!”. “Fora todos junto com as reformas!”. Por um governo sustentado em Conselhos Populares!”. Assim teremos alguma chance de balançar o poder.

Discordo da avaliação do PSTU sobre o caráter dos acontecimentos de 2016. Se foi golpe, ou não. Mas, no campo da esquerda política, essa questão perde importância diante da discussão sobre alternativas para superar a situação atual. E é corretíssimo cobrar dos partidos e de seus militantes que joguem  todas as suas fichas na construção de uma greve geral em vez de priorizarem candidaturas e de amarrarem as centrais sindicais em cabresto. Só a CSP Conlutas não conseguirá realizar uma greve geral de sucesso, embora vá brigar muito por ela.

A palavra de ordem Lula 2018 realmente apavora os golpistas, contudo por mais sedutora e simbólica que seja a figura de Lula, cuja liderança é incontestável, priorizar tal palavra de ordem significa repetir o modelo de coalizão com a mesma corja que tirou Dilma do poder. Infelizmente, é nessa direção que o PT tem apontado seus esforços, na contramão da vontade de seus militantes,  conforme se constata  por suas ações subsequentes ao golpe, suas coalizões parlamentares e a sua opção, cada vez mais transparente, de abandonar a denúncia do golpe e priorizar uma candidatura Lula, puxando o freio do movimento, quando deveria cair dentro na construção de uma greve geral.

Lula e o PT não estão excluídos de um protagonismo especial na liderança dos trabalhadores. Mas, Lula e o seu partido precisariam fazer uma nova Carta aos Brasileiros. Não como aquela que buscou ganhar a confiança dos banqueiros, empresários e da burguesia, e que deu no que deu. Mas, uma carta aos brasileiros trabalhadores colocando-se como liderança num movimento por um projeto socialista, sem vender a alma pela possibilidade de vitória eleitoral. E uma carta dessa natureza precisa ser validada nas ruas. Não pode terminar com conclamações do tipo “confie no meu carisma e vote em mim”. Precisa terminar com um grito de luta, uma conclamação para a Greve Geral já! Porque parece que esquecemos que a greve é a arma do trabalhador! 

##########

segunda-feira, 13 de março de 2017

A suposta probidade da ditadura

Opinião

Se o crédito for dado a certos relatos, parecerá que o Temer chegou ao poder pelo seu brilhantismo político ou apoio popular. A impressão que se tem é que esse Matheus não foi parido. Ninguém quer embalá-lo.

Sei que ninguém pode decidir pelo outro. Mas, eu acho que o país merece um pedido de desculpas em vez dos esperneios golpistas que se recusam a assumir a responsabilidade pelo que fizeram e chegam a louvar uma suposta probidade dos governos da ditadura.

Para quem gosta de resgatar histórias, sugiro pesquisar sobre “José Carlos de Assis”. Economista, doutor em Engenharia de Produção pela UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre economia política e ganhador duas vezes do Prêmio Esso de Jornalismo.

Foi autor de três importantes livros que desvendaram os podres da corrupção de alto escalão no Brasil da década de 1970, durante a ditadura militar.  Os três livros foram editados pela Paz e Terra. Seus títulos: A Chave do Tesouro: Anatomia dos escândalos financeiros: Brasil, 1974-1983; Os Mandarins da República: Anatomia dos escândalos na administração pública, 1968-1984 e A Dupla Face da Corrupção. São registros de uma enorme relação de escândalos no período da ditadura.

Casos relatados nos capítulos de A Chave do Tesouro: Caso Halles, Caso BUC (Banco União Comercial), Caso Econômico, Caso Eletrobrás, Caso UEB/Rio-Sul, Caso Lume, Caso Ipiranga, Caso Aurea, Caso Lutfalla (família de Paulo Maluf, marido de Sylvia Lutfalla Maluf), Caso Abdalla, Caso Atalla, Caso Delfin (Ronald Levinsohn), Caso TAA. 


Ôps!  No meio de tanto esquecimento sobre a história do Brasil, eu mesmo esqueci de resgatar algo importante.  “Governos militares” que às vezes são identificados como “milicos”, “milicada”, “gorilas” e outros apelidos que buscam simpaticamente mediar e amenizar as suas imagens junto à sociedade brasileira, foram aqueles probos senhores e senhoras que tomaram o poder político através das armas e mancomunados com potência estrangeira que chegou a mobilizar frota bélica para o sucesso do seu golpe (golpe de 64, não confundir com o golpe de 2016). Foram os facínoras que prenderam, espancaram, torturaram e assassinaram brasileiros exclusivamente conforme as suas conveniências e interesses.  Ah! Estes, também, até hoje não pediram desculpas à nação.

Aliás, esse assunto me trouxe à lembrança o ex-ministro da ditadura Shigeaki Ueki.

####

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Coxinhas, ó pá!

Opinião

Deve ferir fundo na vaidade dos que se entendem como parte da elite brasileira assistirem um egresso da classe operária, ex-metalúrgico, recebendo títulos honoris causa de importantes universidades internacionais, entre elas a Sorbonne (França) e Coimbra (Portugal), sem contar a não menos importante Universidade Federal Fluminense, a minha UFF,  em Niterói (RJ).

Para aqueles que um dia apostaram em um “príncipe” cujo governo vendeu quase todo o Brasil, que não sentiram constrangimentos em apoiar o recente golpe que tomou o poder para si derrubando um governo cujo mandato foi conquistado nas urnas, e que vêem como uma assombração a possibilidade de um Lula 2018, os títulos honoríficos do Lula,  que devem ser mais de 20, estão entalados na garganta. Chega a ser engraçado. Acreditam mais no Lula 2018 que os próprios militantes do PT. Mas, fantasma é assim mesmo. Assusta.

Fazem lembrar os militares que nunca engoliram o Brizola. Isto porque ele foi o político cuja liderança quebrou efetivamente a idolatrada hierarquia militar, liderando a Campanha da Legalidade, em 1961,  quando o palácio do governo gaúcho quase se transformou numa versão antecipada do La Moneda chileno. Morreu Brizola e os militares nunca o engoliram. Seu fantasma ainda assombra as casernas.

O fantasma de Lula assusta os golpistas brasileiros que recorrem a todos os esconjuros que conhecem para afastá-lo. Um dos recentes exorcismos tem sido divulgar uma manifestação como se fossem os “estudantes” de Coimbra reivindicando a cassação do título que recebeu. Não esclarecem que se trata de um grupo da JSD (Juventude Social Democrata), o braço universitário do PSD, partido político, representante da direita portuguesa, que faz um esforço enorme para ser reconhecido como centro-direita, numa tentativa de suavizar seus ímpetos reacionários. Uma espécie de tucanato português e seus coxinhas universitários.

Aproveitando o mote, só para avivar a memória, tucanos foram os responsáveis pela entrega das Telecomunicações brasileiras, num leilão fraudulento,  quando o presidente da republica e o então ministro das Comunicações tiveram gravadas as suas conversas que tratavam da fraude, fato que determinou a renúncia do ministro para resguardar o príncipe presidente.

######

sábado, 28 de janeiro de 2017

Celso Cabrita

Leituras para distrair

Os limites do imaginário humano são auto-impostos. Crescemos e vamos construindo nossas barreiras, nossos muros. As vezes até de forma depressiva, como o personagem da ópera rock “The Wall” baseada no disco de mesmo nome da banda Pink Floyd. Mas, quando ainda crianças somos livres. Sem condicionantes sociais, à nossa imaginação é permitido voar num sonho extraordinário que a condição humana ainda não é capaz de compreender.

Outro dia observei um meu neto em um desses voos. Num breve percurso de táxi, contado em minutos, ele curtiu outra viagem, imaginária. Tendo em mãos um pequeno boneco representando um dos seus super-heróis, ele deslocava a peça de plástico para cima e para baixo, fazendo o boneco passear pelas reentrâncias do banco traseiro do taxi, pelo puxador da porta, pelo guarda-luvas lateral, pelo vidro, onde fosse possível, enquanto narrava em voz alta, ignorando completamente a minha presença, as aventuras que ele e o seu boneco estavam vivenciando. A minha racionalidade interpretou aquele momento sem romantismo, e até com alívio. Que bom que o moleque estava entretido. Logo chegaríamos ao destino, sem aporrinhações.

Um ou dois dias depois, um dos meus filhos completou 41 anos. Uma data que certamente teve significados especiais para ele, mas, aqui, estou privilegiando os significados para mim. Então, lembrei que, quando criança, com dois ou três anos, ainda morando em São Paulo, esse mesmo filho também fazia viagens imaginárias similares às realizadas pelo meu neto no táxi. Os super-heróis eram outros, nem sei quais eram, e os brinquedos infantis também não eram os de hoje. Mas, isso não impedia a sua imaginação. O que me vem à memória é que ele se fantasiava com parafernálias que estivessem disponíveis e que pudessem representar os instrumentos de poder do personagem de suas fantasias. Capas que o fizessem voar, cinturões com armas de potências especiais etc. Ele adaptava as suas super-roupas com o que estivesse disponível. Toalhas, panos coloridos, cordas, cintos, pedaços de qualquer coisa que imitassem uma arma galáctica. E saía em seus voos libertadores do mundo e de destruição dos inimigos imaginários.

Era muito legal vê-lo conquistando o universo. Mas, eu não perdia a oportunidade da fazer piada e, em baixa-voz, e para implicar com a mãe dele – a supermãe – eu dizia que o super-herói parecia um “Celso Cabrita”, fato que a irritava muito porque ela entendia a intenção da piada.

Celso Cabrita foi um personagem da nossa adolescência em São Gonçalo (RJ). Uma figura perturbada, que vagava pelas ruas da cidade, fantasiada como só uma criança o faria. Uma caricatura de ser humano, que deve ter ficado aprisionado em sua infantilidade, vivendo em um mundo imaginário e que, para o bem dele, a cidade da época ainda tolerava. Com cordas envolvendo o seu corpo vestido com uma túnica de cor cáqui (não confundir com a fruta), chapéu de abas ou do tipo “quepe”, charuto, condecorações e outros adornos em sua indumentária, Celso Cabrita foi figura que ajudou a compor o cenário daquela adolescência periférica urbana que vivi, onde, felizmente, os aspectos mais atrozes da vida social, tão banais hoje em dia, ainda estavam bem afastados.

Celso Cabrita era alvo de brincadeiras não só das crianças, mas também dos adultos que partilhavam do mesmo espaço que ele. Ouvia chacotas e reagia com xingamentos e impropérios. A sua agressividade era limitada. Era caricato e, para o bem ou para o mal, o fato é que viveu em uma época e espaço quando e onde havia tolerância – embora excludente - para com os extraviados do comportamento social esperado. De fato, era protegido no ambiente em que circulava, até por algumas das mesmas pessoas de quem era objeto de chacota. Uma  época que se foi. Já não existem espaços para Celsos Cabrita, embora muitos deles existam por aí.

Ainda escrevendo esse texto, fiquei pensando sobre a causa básica dessas reflexões. Nada concluí. O fato é que, hoje, quando vejo uma criança fantasiada e brincando, é muito comum eu me lembrar de Celso Cabrita. Às vezes, até comento em voz alta. Estando acompanhado, o parceiro se assusta, sem nada entender. Mas, não daria para explicar e, de fato, nem existem interessados nessa história. Não importa. A bem da verdade, sou eu quem estou fazendo a minha “viagem”, como o meu neto faz no taxi. O melhor é que não me perturbem!


######