domingo, 17 de julho de 2016

Um talk-show constrangedor

Opinião

Assisti à exibição em vídeo de um talk-show da TV americana cuja abertura é um monólogo do apresentador produzindo risadas da claque enquanto narra situações caricatas sobre o Brasil e as Olimpíadas 2016.  Os editores fizeram uma coletânea de fatos reais sobre as mazelas do nosso país, incluindo a crise política recente, as idas e vindas do projeto das olimpíadas, a nossa pobreza, a degradação ambiental dos nossos espaços naturais, as declarações conflitantes e controversas das autoridades e personagens públicas, manifestações de policiais em aeroportos, fechamento de postos de saúde, as ameaças do o zika vírus, enfim, tinha de tudo. E o fio condutor foi, explicitamente, ou não, a questão da corrupção em nossa sociedade.

A narrativa do script era ilustrada com imagens ao fundo exibindo manchetes e noticiários de jornais justificando cada assunto tratado. Nada inventado, no máximo alguns fatos fora de contexto. Uma narrativa irônica e caricata interrompida apenas pelas observações e caretas sarcásticas do apresentador e pelas gargalhadas da claque. Uma apresentação para fazer qualquer brasileiro (ou muitos, penso eu) sentir-se embaraçado e constrangido.

 A gravação deve estar circulando por aí, pelo mundo, e nada mudará aqueles fatos. Se houver algo que se possa fazer em contraposição àquelas situações específicas, será trabalhar para transformar aquelas realidades apresentadas sobre o nosso país.

Contudo, ao mesmo tempo em que faço essas observações, aproveito a oportunidade para agregar outras que são contrapontos cabíveis e de âmbito geral, mas que nem sempre são considerados quando nos deparamos com tais situações que acabam nos deixando intimidados perante nossos críticos interlocutores. Vejamos!

Juízos e juízes.
Quando se diz – o Brasil é alegre ou o Brasil é corrupto – faz-se uma substituição de termos para que a mensagem fique mais expressiva. Usa-se a palavra Brasil em vez de se referir aos brasileiros ou à sociedade brasileira. Trata-se de uma metonímia. Um artifício de linguagem que valoriza o sujeito ao identificá-lo por um simbólico “Brasil”, mas que, ao mesmo tempo, também permite que a relação do predicado com o sujeito real sofra uma espécie disfarce que só é revelado conforme o nosso interesse de identificação. Assim, quando o atributo é a alegria e a cordialidade identificamo-nos com a sociedade brasileira. Cada um de nós se sente representado. Formamos um povo alegre, cordial, etc. Mas, quando se trata da corrupção ninguém se sente identificado com o atributo, afinal, ninguém se inclui como corrupto. Corrupto é o tal do “Brasil”.

Contudo, este jogo de esconde-esconde não elimina a intenção original. Sempre que se afirma a característica corrupta do Brasil, tal afirmação refere-se, rigorosamente, à sociedade brasileira, classificando-a como corrupta, particularmente se comparada com as sociedades europeias e a americana. E pelo fato de estar escondida pela metonímia, tal afirmação não é questionada. Ela vai sendo repetida sem críticas nem objeções, aqui e acolá, por muitos brasileiros de idades diversas, alienados em relação ao real significado dessas classificações e possuídos por um discurso que reflete uma dominação política e cultural.

Mas, quem saberia afirmar qual o padrão absoluto de medida do nível de integridade que uma sociedade deveria atender para ser, ou não, enquadrada como corrupta?

É obvio que não há um padrão absoluto, e se tal padrão não existe, então, obrigatoriamente, estas afirmações devem decorrer de experiências e comparações com outras sociedades arbitrariamente afirmadas como íntegras e que o discurso dominante assume como referências de padrão moral e ético sem outros questionamentos.

Então, quais são estas sociedades que não são explicitadas nem apontadas efetivamente como sociedades “não corruptas”?

Naturalmente este tipo de observação não reduz em um milímetro a nossa responsabilidade na construção de uma sociedade íntegra. Não se trata, aqui, de desqualificar o interlocutor. Mas, é preciso estabelecer com clareza em que ambiente esta discussão ocorre, bem como identificar quem são os sujeitos e os seus interesses neste processo. Se não for assim, inadvertidamente, seremos tomados por um sentimento de baixa-estima que, além de nos tornar submissos, inibe as nossas possibilidades de autoafirmação. Um sentimento que desperta em nós um complexo de vira-latas permitindo que as narrativas, como a exibida no talk-show americano se façam com naturalidade e que a partir delas a nossa sociedade seja criticada como se estivéssemos sendo julgados por outra superior, num julgamento onde se trata o óbvio e onde não cabem contestações, o que é uma falácia.

Peço desculpas
Recorrendo a fatos públicos sem me sentir obrigado a povoar este texto com referências e citações - que são obrigatórias nos chatíssimos trabalhos acadêmicos – faço algumas questões que valem ser lembradas neste julgamento moral da sociedade brasileira que alguns se acham no direito de fazer.

Uma sociedade cuja história se fez notoriamente através da exploração de outras terá dote ético suficiente que autorize os seus membros a posarem de magistrados e realizarem juízos sobre a nossa sociedade?

Por exemplo, a França ocupou a Argélia e provocou inúmeros banhos de sangue de sua população. Explorou aquela nação durante mais de 130 anos e só largou o osso em 1962. Mesmo assim, através de uma guerra que deixou uma Argélia em cacos, transformada em fornecedora de mão de obra barata, quase escrava, para o sustento dos habitantes da ex-metrópole. Uma mão de obra que atualmente constitui a maior parte população degradada dos bairros pobres da charmosa capital cultural do mundo.

Estaria a sociedade francesa, ou melhor, os seus membros, em condições de realizar julgamento ético e moral sobre alguma outra sociedade?

Em uma escala histórica, os franceses, ou a França, ou a sociedade francesa (use-se a metonímia como quiser) só largaram o osso da Argélia outro dia. Há menos de sessenta anos. Muitos de nós temos mais idade do que isto.

E os impolutos ingleses que chuparam a Índia até o último pingo do caldinho e que saíram de lá tentando manter o controle da região e deixando a região em um caos geral?

A Inglaterra foi a grande colonizadora da África. Os ingleses incumbiram-se, eles próprios, da tarefa que chegou a ser designada poeticamente de “o fardo do homem branco”, ou seja, livrar as sociedades inferiores do primitivismo. A história está aí para mostrar o resultado.

Alguém precipitadamente argumentará dizendo que é coisa do “passado”. Passado? Mas, este passado foi até ontem, 1947. A minha avó já era avó.

Sem mencionar outras colônias, tratando apenas da Índia, é justo indagar: setenta anos foi tempo suficiente para expurgar essa tenebrosa parte da história do império britânico?

É verdade que quase todos adoramos os Beatles e, adicionalmente, outros como eu adoram os Rolling Stones. Mas, isso não autoriza os súditos de sua majestade a saírem pelo mundo arrotando regras de comportamento e de ética. Torcendo nariz para as “barbáries” das sociedades que não estão sob o manto de dona Elizabeth, cujo reinado resulta de um corta-corta de cabeças que deve transformar o estudo da história do seu país em um verdadeiro conto de terror, especialmente para as crianças nos bancos escolares.

Há muitos exemplos. A colonização portuguesa, a espanhola – esta última durante alguns séculos explorou e exterminou sociedades inteiras nas Américas Central e do Sul. Nem seria necessário garimpá-los. São histórias de impérios e de outras sociedades que foram quase impérios, incluindo sociedades sobre as quais pouco se fala e são apontadas como inquestionáveis.

Na Áustria, uma sociedade que conseguiu pular fora do mea culpa que a sociedade alemã se viu obrigada a fazer, há cerca de dois meses atrás, os seus distintos cidadãos deram 49,3% de votos a um representante político que a mídia internacional insiste em chamar de extrema direita, mas que não passa de um representante do nazismo em sua versão moderna.

O partido da direita perdeu a eleição por uma diferença de menos de 1% dos votos, mas este resultado eleitoral foi tão expressivo que eles conseguiram anular as eleições e a convocação de um novo pleito sob o argumento de fraude,  apavorando a Europa que viveu a recente Brexit.

Cá, entre nós, uma sociedade que vota quase expressivamente em um representante nazista tem crédito ético para fazer juízo sobre a sociedade brasileira? 

E o pessoal do chocolate, vizinhos dos austríacos? Os zeladores do sigilo e da segurança de riquezas acumuladas através de canalhices e explorações sociais praticadas nos diversos confins do planeta. Roube-se  aqui ou acolá! Guarde o produto no sistema bancário legal da Suiça!

Qual o valor ético da sociedade que incorpora essas atividades em sua ordem social?

E, concluindo, qual o valor moral e ético de uma sociedade que se mantém em guerra permanente, guerras de conquistas e de alargamento das fronteiras do seu império, agindo como os romanos faziam há dois mil anos?

Sim, falamos da sociedade americana, a mesma do moço do talk-show ironizando a sociedade brasileira.

Qual o valor moral e ético de uma sociedade onde milhares de seus cidadãos pertencem a organizações armadas, algumas públicas e outras privadas, que se deslocam para países distantes fazendo e promovendo guerras, tornando isso uma prática comercial?

Uma prática tão corriqueira que alguns dos “trabalhadores” desta atividade chegam a adquirir o direito às férias. Voltam às suas casas, passeiam com os seus familiares, fazem churrascos em seus quintais e retornam aos países distantes para bombardear e matar as suas populações, disseminando ódio e violência, sustentando a riqueza americana com a miséria alheia.

Naquela sociedade, a mesma do moço do talk-show, profissionais atiradores de elite, os chamados snipers americanos, são premiados pelo número de mortes que produzem em suas atividades, sejam crianças, mulheres, jovens, velhos, não importa. Vale qualquer o que comando empresarial-militar aponte como alvo. Recebeu a ordem? Atirou? Matou? Ganha pontos!

Qual será a moral e ética de uma sociedade onde um profissional militar, a partir das proximidades de sua residência, pode pilotar drones, objetos lançadores de foguetes que estão a milhares de quilômetros de distância, do outro lado do mundo, sobrevoando, bombardeando e matando famílias inteiras, bairros inteiros, feiras públicas, desde que o comando empresarial-militar tenha determinado a ordem de localizar e atirar?

O tal “piloto”, atividade regular naquela sociedade, cumpre o seu horário de plantão como um profissional qualquer que trabalha em turnos. Findo o expediente ele toma o seu banho, troca o uniforme e retorna para a sua casa. Quem sabe para dar risadas, ao lado da sua família, assistindo um talk-show que ironiza as “barbaridades” da sociedade “subdesenvolvida” do cone sul.

E tudo isto é feito com o conhecimento e a aprovação da sociedade americana. Nada é escondido. Quem envia drones para explodir sociedades civis é o presidente Obama com a anuência e apoio das instâncias políticas e da sociedade americana. Tanto são práticas admitidas que até geram como subproduto uma milionária indústria televisiva e cinematográfica que fatura milhões de dólares e que trata com naturalidade estes fatos, produzindo e vendendo como entretenimento “histórias baseadas em fatos reais”.

Dois exemplos típicos e recentes, romances baseados em situações reais. Veja-se : American sniper – dir. Clint Eastwood (2014) e Good kill – dir. Andrew Niccol (2014). Um dos filmes refere-se a um atirador de elite, um herói americano premiado por matar mais de 250 pessoas. O outro filme trata de um piloto de drones que, a partir de Las Vegas (EUA), dispara mísseis contra alvos, supostos terroristas, no Afeganistão, orientados por um sistema de satélites com tal precisão que quase permite identificar as expressões faciais dos alvos. Detonam casas, grupos de vizinhos que prestam socorro após os bombardeios e também os grupos reunidos para o enterro.

Suas ordens são determinadas por um comando militar que antes identificava os alvos através de informações de espionagem, mas passou a identificá-los por “comportamento típico”, ou seja, se um grupo de pessoas em uma praça ou em uma casa tem um comportamento “tipicamente suspeito”, então, kabum! Bomba neles! Do mesmo modo como a polícia no Rio de Janeiro atua em suas diligências. É preto, pobre, está em grupo? Kabum!

Os filmes tratam de dramas pessoais dos envolvidos, mas as situações são apresentadas como normais, ou seja, são institucionais e sem conflitos com os padrões éticos da sociedade americana. Uma sociedade que acha normal o império estar em guerra permanente. Que acha normal a prática de soldados mercenários, os atiradores de elite e os drones. Uma sociedade que já incluiu em suas práticas sociais cotidianas os solenes enterros militares, as entregas de bandeiras aos familiares de soldados mortos em combate, as idas e vindas de profissionais da guerra que entremeiam suas atividades com períodos de férias etc.

Esta mesma sociedade se atribui o papel de crítica moral de outras. Gargalha diante dos “absurdos” acontecimentos no Brasil.

E sobre a corrupção? Haverá sociedade que mais tenha praticado e se beneficiado da corrupção do que a sociedade americana? Corrupção em escala mundial. Será difícil apontar algum grande caso de corrupção em âmbito internacional que não tenha o envolvimento das empresas americanas suportadas e protegidas por seu governo. Aliás, como recentemente alguém resgatou em programa na TV, os EUA patrocinaram os que foram, talvez, os maiores ladrões da história política, entre eles Chiang Kai-shek (China); Rafael Trujillo (Rep. Dominicana), Fulgêncio Batista (Cuba), Anastásio Somoza (Nicarágua) e segue uma lista que parece não ter fim.

Veja-se, ainda, o caso da indústria de armamentos. Os gastos militares mundiais em 2014 chegaram a quase dois trilhões de dólares. Os EUA detêm 31% do mercado mundial exportador de armas e a transparência nos relatórios sobre a transação mundial de armas militares vêm reduzindo a cada ano (quem quiser mais informações busque em  Stockholm International Peace Research Institute – www. Sipri.org).

Como será que ocorre a negociação de armas pelas empresas americanas (empresas legalmente instituídas pela lei daquele país) com as partes nos diversos conflitos, alguns deles que os próprios americanos promovem?
Haverá concorrências com leilões públicos? Notas fiscais de compra e venda? Nada de subornos? Nada de corrupção? Profissionais idôneos executando transações comerciais isentas e... inquestionáveis? Será a lisura e honestidade nas transações a marca especial deste processo, patrocinado por aquela sociedade?

Enfim, qual o direito deste bando de corruptos cujas ações têm destruído populações inteiras, entre elas, a Palestina, o Líbano, o Iraque a Síria, se arvorar em juiz ou júri da ética e moral da sociedade brasileira?

E ainda existem brasileiros, afogados em sua baixa-estima, que declaram sentir vergonha de serem brasileiros.  Manifestando o seu complexo de vira-latas, olham para essas sociedades como se elas fossem melhores, como se todas não padecessem de uma doença comum que, infelizmente, também envolve a nossa.

Ora! Adianto o meu pedido de desculpas pela exclamação. Mas, vão todos tomar no cú!

Dona Ivone
Estou bem longe de ser um xenófobo, ao contrário, sou ideologicamente internacionalista. Para mim um ser humano não deve ser considerado “diferente” só porque nasceu na outra margem de um rio, do outro lado de um morro ou de uma cerca que determina fronteiras entre países. Não tenho cacoetes chauvinistas e valorizo pouco os patriotismos. Mas, isto não muda o fato que a organização política das pessoas se dá em torno do conceito de nação e a maior parte das sociedades é identificada assim, ainda que grande parte das origens dos nacionalismos seja de natureza econômica, bem mais do que cultural.

É com esta visão que faço esses contrapontos. Eles não são desculpas para mazelas da nossa sociedade. Nada nos redime nem nos liberta da obrigação de nos transformar socialmente em algo melhor. Porém, tendo em vista a história de formação das sociedades, no que se refere a valores éticos e morais, a sociedade brasileira em nada fica a dever às demais, especialmente às ocidentais mais próximas.

Afirmo que qualquer um “não brasileiro” terá muito que aprender com a nossa jovem sociedade. Confusa e ainda em formação, que conta com pouco mais de duzentos anos, muito menos do que seria necessário para a consolidação de uma cultura no sentido antropológico do termo.

Estamos ainda moldando a nossa cara social, mas ela já mostra alguns aspectos interessantes. Ainda carregamos como uma ferida mal tratada, incurada, os vestígios da escravidão. Ressentimentos, preconceitos, valores e discriminações. Nunca soubemos tratá-los, nunca os enfrentamos.

Contudo, cultivamos o mito da integração, e isso é bom. Trata-se de um mito, é verdade,  mas é um mito do bem porque expressa um bom desejo. E se nos empenharmos nesta luta, se fizermos disso um projeto, teremos grandes chances de chegar lá, conseguindo superar o preconceito de origem.

São incontáveis os exemplos de núcleos sociais brasileiros onde participam, sem constrangimentos, elementos de formações culturais e origens distintas, formando uma alternativa de composição tão diversa, variada e indiscriminada quanto as nossas típicas mesas de self-service.

Preconceitos? Temos muitos, mas via de regra não nos identificamos nem nos distinguimos por nossas origens, e como regra geral, entre nós, o outro sempre é bem recebido. De quantas outras sociedades podemos dizer o mesmo? Quantas se organizam com a premissa, mítica ou real, da aceitação do outro?

Somos vizinhos de 10 outros países, numa fronteira de cerca de 15.000 quilômetros sem acumular histórias de agressões e conflitos.  O próprio brasileiro terá dificuldade em avaliar a dimensão e a qualidade deste fato. Muitos nem sequer sabem, mas França e Alemanha que compartilham uma fronteira de cerca de 450 quilômetros, há menos de cento e cinquenta anos estavam engalfinhadas em guerras que produziram dezenas de milhares de mortos.

Nossa sociedade não é melhor nem pior do que as demais porque essa comparação não faz sentido. Ela existe apenas como mecanismo de dominação cultural e política como citei anteriormente. E o nosso papel como seres de uma comunidade internacional é identificar e aproveitar o melhor que cada um de nós conseguiu realizar.

Neste sentido, reafirmo que o cidadão europeu, americano ou de qualquer parte ao pisar no Brasil deveria fazê-lo respeitosamente. “Pisar nesse chão devagarinho” como ensinou a maravilhosa poetisa do samba, D. Yvone Lara.
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domingo, 19 de junho de 2016

Cobras e lagartos sobre jacarés e ariranhas

Leituras para distrair

Conversando sobre o caso do jacaré que mastigou um garotinho em Orlando – USA, no dia 13 de junho, último, um dos meus filhos comentou que estranhava o anúncio de baixa quantidade de ocorrências deste tipo lá, em Orlando.

Segundo ele, aquela região tem jacaré pra cacete, a ponto de existirem trabalhadores com a missão específica de raspar do chão restos de jacarés que são esmagados pelos automóveis nas estradas. E no intervalo de tempo em que ele morou por lá, o condomínio em que morava recebia visitas regulares de funcionários da prefeitura com instrumentos para realizar vistorias e recolher jacarés que estivessem em locais inadequados tais como quintais, pequenos lagos caseiros ou piscinas.

Mas, conversa vai e vem, e o fato da tragédia ter acontecido em um parque de diversões (Disney), lembrei e contei para eles (os "meninos" com os quais eu conversava) sobre um caso das ariranhas em São Paulo, nos anos setenta, quando eu morava lá. 

Foi no Zoológico (acho), em setembro de 1977, quando uma criança entrou ou caiu no poço das ariranhas sendo atacada por elas. Para quem não faz ideia, ariranha é um bicho feroz e conhecido como “onça-dágua”.

Outro visitante que estava com mulher e filhos, e nada tinha a ver com a criança que caiu no fosso, mergulhou para salvá-la. A criança foi salva, mas o infeliz morreu deixando a família que assistiu à tragédia. O herói era sargento do exercito brasileiro.

O então colunista da Folha de São Paulo, Lourenço Diaferia (1933 – 2008), fez uma crônica emocionada relacionando a atitude do sargento. Em seu artigo (link abaixo) ele citava o sargento como verdadeiro herói popular, comparando-o aos mitos estáticos como o representado pela estátua do Duque de Caxias, um monumento muito conhecido na cidade e que era (ou ainda é) uma referência próxima à antiga rodoviária. ”Prefiro este sargento ao Duque de Caxias”, escreveu Diaferia.

O artigo emputeceu a ditadura. Os chefões de então, Geisel, Hugo Abreu e Silvio Frota tomaram o artigo como uma ofensa a um símbolo nacional. O Diaferia entrou em cana, não sei se ganhou umas porradas, mas segundo a própria Folha de São Paulo, que havia apoiado o golpe militar há mais de 10 anos, o jornal foi ameaçado de ser fechado por ameaça direta ao seu proprietário.


Resgatei a crônica do Diaferia para mostrar para aos meninos. Mas, reli, naturalmente, e constato que ela continua emocionante e atual, assim como há quarenta anos. Compartilho registros que coletei e guardei.


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Sumário do caso e reprodução do texto do Lourenço Diaferia

Matéria da Folha relata a censura ao texto e a ameaça de fechamento do jornal




Personagens - A ariranha está sem farda. Outros são: Geisel, Hugo Abreu e Sylvio Frota


quinta-feira, 16 de junho de 2016

Dor de um punhal

Leituras para distrair


Essas anotações são réplica de mensagem que enviei a uma pessoa amiga. Em uma conversa usamos, sem perceber, a palavra punhal. Uma palavra antiga e até dramática que provocou o nosso riso e o registro a seguir.

Certamente existem outros, mas posso assegurar que esse, na foto abaixo, é um autêntico "punhal" cujo dono original  foi um trabalhador. Não era marginal, ganhava a vida como operário naval, mas cultivava fama de valente e assim era conhecido nos ambientes que frequentava quando ainda havia espaço para figuras do seu tipo. O seu nome era Reynaldo - o tio Nadinho - irmão mais velho do meu pai.

Ele era presença frequente em nossa casa porque morávamos nos fundos da residência da minha tia e madrinha, também irmã do meu pai e que operava como uma matriarca da família. Ela era  a mãe de santo do terreiro de umbanda que lá funcionava e que era um núcleo agregador da sua irmandade, em sentido literal, composta de cinco homens e duas mulheres.

Tio Nadinho, o mais velho, apesar de trabalhador, levava uma vida desregrada se comparada aos demais irmãos. Sustentava família, mas claramente não tinha o mesmo compromisso que os demais. Morava num “morro”, no bairro Engenhoca, divisa de São Gonçalo e Niterói. Mas, naquela época o morro não era favela nem local de miséria, embora carregasse o estigma de um território marginal.

Vestia-se com calças largas, camisas de flanela e mangas compridas. Nunca o vi em camisa de mangas curtas. Usava um chapéu de lona, com abas, quase cowboy, que era um dos identificadores da sua tribo na região. Em linguagem moderna a sua vestimenta formaria um “hashtag valentão”.

Na cintura ele portava um punhal. Sempre escondido quando estava próximo de nós, mas nos seus ambientes era importante que soubessem da existência da arma. Além do mais, ele tinha um andar balançando o corpo, com as mãos raspando nas pernas ao andar, gestos que acentuavam a caricatura do “malandro”. Com o tempo aprendi que não era uma coreografia ensaiada, mas apenas um jeito característico de família que até o meu pai e outros irmãos também possuíam.

Tio Nadinho sempre foi recebido, lá em casa, com alguma reserva por parte do meu padrinho e da minha mãe que eram seus cunhados. O meu padrinho, “dono” da casa principal, não escondia a opinião que o seu cunhado não era flor que se cheirasse, e minha mãe, que ele tratava por comadre, eriçava os pelos tentando proteger o meu pai e buscando mantê-lo longe das aventuras do seu irmão mais velho.

A relativa animosidade na recepção se justificava por duas razões principais. Uma delas era porque, geralmente, o visitante irradiava o aroma de umas boas e indisfarçáveis cachaças. Algumas vezes, a situação era tal que ele nem ultrapassava o portão do quintal, um limite que ele mesmo se impunha, respeitosamente. Mesmo assim, ele passava por lá, assiduamente, para prestar contas à irmã que não abria mão da sua visita. E era nossa obrigação (as crianças) ir até ele e cumprir o ritual da benção - “Bença, tio Nadinho!” - que ele respondia com as palavras que estivesse em condições de pronunciar.

Outra razão que justificava a recepção era porque, também muitas vezes, a sua visita era precedida de notícia ou boato sobre alguma arruaça que ele havia promovido no Largo da Morte, atualmente Largo de São Jorge, um espaço de comercio próximo à descida do morro onde ele morava, e onde era tido como um dos valentes locais.

Tio Nadinho morreu com idade avançada para o seu tipo de vida, e de morte natural. Alguma doença que não recordo. Nos tempos atuais sequer teria chegado à idade adulta. Teria sido despachado para o além, bem cedo, junto com a sua valentia. Nas minhas lembranças ele era simpático e cordial, embora não fosse um tipo carinhoso, também comparado aos seus irmãos. Meus primos e primas, seus descendentes, foram modestos e honrados trabalhadores, não sei de nenhum que tenha saído pelas marginais.

Em uma das aventuras de tio Nadinho, o meu pai, ainda solteiro, e que, apesar mais novo, gozava de alguma autoridade sobre o irmão, foi chamado para intervir e desarmá-lo. Dele o meu pai tomou e guardou esse punhal, o da foto, que passou a pertencer à nossa casa, que acompanhou a minha infância e a do meu irmão Sergio. Punhal que ainda guardo comigo e que conjugado com a conversa sobre essa palavra antiga e fora de uso serviu de mote para resgatar essa história, também antiga e de uso nenhum. 

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Sobre a Engenhoca e o Largo da Morte



O punhal



sábado, 14 de maio de 2016

Impedimento foi do mandato, a luta continua!

Opinião

Finda a votação preliminar no Senado e afastada a presidenta por decisão de maioria expressiva, parece que são poucas as chances de uma alteração nos resultados quando o mérito do impeachment for votado. Sem dúvida um golpe para quase todos nós.
Tomara, sinceramente, que eu esteja enganado, mas coerente com as motivações que nos fizeram engajar na campanha contra o golpe, suponho que viveremos um tsunami de ações conservadoras ou retrógradas em relação aos avanços socioeconômicos das populações mais necessitadas e avanços sociopolíticos da população em geral. Tudo isso associado a uma tentativa de demolição dos simbolismos remanescentes de um governo popular. Nessa linha possivelmente aparecerão denúncias mais expressivas sobre as mazelas dos governos petistas, agora vistas “por dentro”, além de um avanço sobre o seu representante maior, Lula. Quem sabe, a sua prisão ou cassação de direitos que permitissem o seu retorno nas eleições de 2018.
Mas, essas são apenas especulações de militante, resultado de conversas aqui e acolá. É difícil fazer projeções especialmente na dinâmica com que as coisas acontecem por aqui. E não nos esqueçamos do fator natureza. Não quero “matar” ninguém, ou melhor, não alguns, mas às vezes tratamos os personagens como supernaturais e, no caso, Lula e Dilma, não nos esqueçamos, são ambos acometidos de doenças graves, embora controladas, doenças com patologias extremamente sensíveis às perturbações emocionais (que não faltaram nos últimos meses). Qualquer um de nós sabe disso por experiência de vida.
Precisamos, então, conversar sobre as próximas batalhas. Mas, não é o caso de baixar a cabeça e investir cega e furiosamente sem nem saber exatamente contra o quê ou quem. Este tipo de comportamento não adiantará muito.
Os golpistas levaram o poder real, mas não ganharam o discurso político, ainda que os meios de comunicação tentem fazê-lo a todo custo. O movimento em torno da bandeira “não vai ter golpe” teve um resultado importante e positivo.
Na medida em que o alvo direto dos golpistas foi roubar o voto do cidadão apontando para a demissão da Dilma, e tendo ela a história política que tem, foi possível uma aglutinação de forças que não tiveram constrangimentos em abraçar a palavra de ordem “não vai ter golpe”, independentemente das cagadas e contradições do governo petista. E, sem ter como evitar o trocadilho, os golpistas acusaram o golpe. Não foi por outro motivo que os discursos oposicionistas mais serenos no Senado tentaram argumentar para destruir a tese do golpe. Um fato singular foi o tumulto provocado no Senado Federal brasileiro pelo pronunciamento do argentino, Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, ao mencionar a palavra “golpe”.
O espetáculo circense dos deputados na votação do dia 17 de abril de 2016, as ações de Eduardo Cunha e de Michel Temer, o surto enraivecido do juiz Moro, o apoio contra o golpe recebido de uma expressiva parcela de personagens reconhecidos com integrantes de uma intelligentzia cultural nacional, além das mobilizações de alguns setores organizados, superaram faltas importantes, por exemplo, o movimento sindical, e permitiram um clima de enfrentamento com cabeça erguida até mesmo diante das derrotas nas votações.
Um clima que gerou as imagens simbolicamente importantes da saída da presidenta do palácio do Planalto, sem constrangimentos e resguardada pelos seus apoiadores na população. Imagens que certamente circularam o mundo e que são importantes para a continuidade dos enfrentamentos ainda que não se tenha conseguido barrar o golpe.
Manter a aglutinação dos grupos e movimentos em torno de bandeiras que foram levantadas como ameaçadas de extinção no caso do impeachment parece ser uma possibilidade na qual deveríamos investir.
Existem discordâncias, naturalmente, se estas bandeiras faziam efetivamente parte dos projetos do governo Dilma e do PT. Para o PSTU, por exemplo, as medidas que possivelmente serão praticadas por Temer foram, a rigor, gestadas no próprio governo Dilma. De minha parte não acho que esta seja uma questão fundamental, nem me disponho a debatê-las em ambientes que não seja no próprio PSTU que tem, ao meu juízo, uma leitura errada sobre o caráter do golpe.
Identificando-me como alguém externo ao partido dos Trabalhadores, também não valorizo cobrar autocríticas por suas mazelas partidárias, não importa o peso que tenham tido para a situação chegar ao ponto em que chegou. Em minha opinião os petistas deveriam fazê-lo, mas este é um problema do PT.
O tempo providenciará as discussões necessárias, e os enfrentamentos recentes tem sido um exemplo claro de que nada melhor do que a luta para realizar as filtragens que unem as ideias convergentes e que permitem separar joio e trigo.
Bem mais importante para mim é o entendimento que, independentemente destas interpretações, está  mais que comprovado que há  bandeiras aglutinadoras e que há grupos dispostos a levá-las em frente. É nesta direção que deveríamos e que me disponho a caminhar, e com esta visão, acho importante considerar, neste momento, pelo menos dois aspectos que usarei como referência em minhas ações.
Primeiramente, seria importante que o PT e os seus militantes não cometessem o equívoco de avaliar esta conjunção de militância como um endosso de suas ações e de seus governos. Muito menos se identificarem como patronos  dessa ainda insipiente, mas valiosa união.
Há, sim, um espaço de luta comum, mas não se interprete este fato como um retorno de ovelhas desgarradas ao rebanho militante petista. A aglutinação tem sido, e será, contra o golpe e em favor de avanços nas conquistas sociais. Não é uma defesa ou endosso do governo e práticas petistas
A comunhão mostrou com clareza quais são os pontos comuns e que é possível lutar por eles, mesmo enfrentando a contradição de lutar ao lado de partidários de governos e governantes cujas práticas tem estado supostamente distantes das bandeiras defendidas. Constatamos, mais uma vez,  que a luta nos ensina a superar tais contradições na medida em que na militância ainda nos identificamos companheiros com um ideal político comum. Será um engano prejudicial se o PT não interpretar assim.
Outro aspecto que destaco é uma expectativa (minha, pelo menos) que a experiência tenha sido o suficiente para que as instâncias e lideranças partidárias petistas se voltem efetivamente para o lado onde está a sua militância e outros companheiros unidos na luta contra o golpe, ou seja, nas ruas, nas manifestações, em torno de palavras de ordem que contestam o status quo político e que avançam nas conquistas sociais.
Tomara que os líderes e instancias formais partidárias não se voltem para o outro lado,  exclusivamente para o covil parlamentar com a expectativa que lá é o campo em que a batalha deve ser realizada.
Obviamente há uma ação a realizar no Senado, mas, lá não é a nossa arena de combate. Tomara que as direções, parlamentares e instâncias partidárias não se voltem para as confabulações, para os “acertos”, para os conchavos e para a promessa de troca de favores em  busca de votos para evitar que se consolide a maioria de 2/3 nas votações de mérito no Senado. Será uma boa oportunidade para o PT fazer valer a sua Resolução Política de 19/04/2016:
“... Fazendo autocrítica na prática, o Partido dos Trabalhadores tem reaprendido, nesta jornada, antiga lição que remete à fundação de nosso partido: o principal instrumento político da esquerda é a mobilização social, pela qual a classe trabalhadora toma em suas mãos a direção da sociedade e do Estado”.
Tomara que estejam saturados de traições e de engodos. Saturados de se emporcalharem no ambiente fétido das barganhas parlamentares. Isto, naturalmente, partindo do princípio que este ambiente lhes é hostil e que não estejam irremediavelmente, eles próprios, insensíveis ao cheiro de povo.
Mas, se a opção for seguirem esse caminho, se já chegaram naquela situação da novela de Orwell e se sintam bem numa fazenda de bichos onde já não se distingue gente e porco, então não haverá o que fazermos juntos. Prosseguiremos nós.


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terça-feira, 19 de abril de 2016

Golpe de sujos

Opinião 


O cenário caricato em que ocorreram as votações no último domingo, dia 17/04, na Câmara dos Deputados, visando o impedimento da presidenta eleita foi constrangedor, embora não tenha sido surpreendente. Mais importante do que as grotescas manifestações de votos foi a oportunidade dos deputados se revelarem para a sociedade. Cada um dos 511 deputados apresentou a sua cara e o seu rótulo. Confiantes em uma maioria de votos avaliada a priori e protegidos pelo sorriso cúmplice e irônico do presidente da Câmara dos Deputados, que atuou como para-raios da corja atraindo para si quase todos os xingamentos, que variaram de canalha, gangster, ladrão, chefe de quadrilha, imoral, entre outros, os golpistas sentiram-se relaxados e à vontade para expressar sem constrangimentos o seu ódio de classe, suas manifestações fascistas e os seus efetivos compromissos. Queiramos, ou não, ali estava a representação política da nossa sociedade. Não viu e não vê quem não quis ou não quer.

Embora esperado, o resultado não deixou de provocar uma sensação ruim de perda e de decepção.  Perda porque, concretizando-se o impedimento, certamente retrocederemos nos mínimos, mas tão significativos avanços alcançados nos últimos governos. Não valorizo os exemplos aqui porque, afinal, a discussão sobre eles tem sido feita desde as eleições presidenciais e, em última análise, foram eles que determinaram a vitória eleitoral da presidenta, resultado inaceitável pelos derrotados que promovem o golpe.

Mas, a perda maior vem junto com a decepção de constatar, entre as relações próximas, a existência de pessoas que apoiam o golpe sem qualquer constrangimento em se identificar com aqueles que, votando em seus nomes, protagonizaram a farsa do dia 17/04/2016.

Os votos golpistas homenagearam os militares de 64, o governo foi acusado de estimular as crianças a mudarem de sexo, alguns bradaram gritos de caça aos comunistas, outros apontaram os programas sociais do governo como uma ofensa à dignidade dos nordestinos. Houve até homenagem explícita ao ex-militar condenado como torturador, o cel. Brilhante Ustra, citado na declaração de voto como “o terror da Dilma” (O deputado que prestou a homenagem recebeu uma cusparada quando merecia ganhar uma porrada bem dada e no meio dos cornos). E tudo isto aconteceu sob o aplauso e outras manifestações de júbilo não apenas no plenário, mas também na assistência, entre os coxinhas do "sim".

Apoiadores do golpe argumentam que combatem a corrupção, que nunca houve corrupção igual, que o governo está tomado por uma quadrilha etc., mas não se sentem incomodados em comungar suas ações e pensamentos lado a lado com fascistas, torturadores, criminosos, reacionários e corruptos efetivamente comprovados. Alguns dizem que até votaram na presidenta e que foram traídos em seus votos. De uma forma geral, quase todos se ofendem por serem identificados como fascistas e coisa e tal. Mas, estavam todos lá, juntos. Comemorando o golpe. Tenho até me esforçado para distingui-los e tentado não generalizar minhas avaliações, mas sem muito sucesso. Curiosamente, o registro que melhor traduz o meu sentimento sobre esta questão é justamente o parágrafo final de um clássico da propaganda anticomunista dos anos 50:

“... Doze vozes gritavam, cheias de ódio, e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco” (Orwell, George. A revolução dos bichos. Ed. O Globo: RJ; Folha de São Paulo: SP).

De minha parte, estou seguro em minhas afirmações e escolhas, e muito à vontade entre os que têm estado ao meu lado, até mesmo considerando alguns que votaram em meu nome, contra o impeachment, e com os quais não tenho qualquer sintonia política. Se havia alguma dúvida inconsciente, ela foi expurgada com aquele desfile hipócrita que pareceu uma versão de TFP ecumênica reunindo autodenominados católicos e evangélicos em nome de deus e em defesa da tradição, família e propriedade. Talvez aquele desfile tenha sido tal “legião” que seria enviada por “deus”, conforme o anúncio da moça, autora do requerimento de impedimento, durante uma sessão de endemoninhamento na faculdade de direito da USP, sob o aplauso de ilustres doutores.


Enfim, o resultado até aqui indica que ainda há muito que fazer para avançar, mas acho que estou no caminho certo. Cada vez mais vermelho, comunista e ateu. E sinto um orgulho enorme disto!

sábado, 19 de março de 2016

Os amigos e os cajus

Leituras para distrair
Recebi a foto de um kit, que o remetente ironicamente identificou como “kit Jorge”, contendo uma lata de pinga Pitú e alguns cajus. Gostei da brincadeira e fiz alguns comentários.

Eu não pratico tanto, mas gosto de um caju amigo. Uma peça carnuda de caju cortada em filés sobre uma tábua de madeira, uma boa pinga, e o momento máximo: mastigar um filé de caju e, em seguida, degustar a pinga. Uma delícia! Ainda que possa ser um atentado contra a saúde.

Conheço pessoas que invertem o ritual. Primeiro a pinga e, depois, o caju como um tira-gosto. Não é o meu caso, mas é besteira discutir este detalhe. Vale o prazer. 

Não é um ritual para se praticar sozinho. Eu e um antigo companheiro, cujo contato perdi, praticávamos o caju amigo em uma pequena propriedade que tive e que chamávamos de “sitio”.

O caju amigo me traz duas lembranças especiais. Uma delas, como não deixaria de ser, é gonçalense. Ainda estávamos no colegial, lá em São Gonçalo, quando íamos ao bar do Adelino, na Vila (Zé Garoto), e bebíamos um caju amigo, eu e o meu querido e falecido compadre. Lá o caju não era servido em filés, era espremido em um copo do mesmo tipo onde era servida a pinga. Copo simples, de fundo alto, antes era chamado copo de cachaceiro, hoje é chamado de shot. Ali, em pé, no balcão, bebíamos em dois goles. Meu compadre bebia primeiro a cachaça, eu bebia primeiro o caju, a pinga ia em seguida. Hoje o Adelino seria preso por vender bebida alcoólica a menores. As conversas, as piadas, as expressões e comentários eram sempre os mesmos. Tudo fazia parte do ritual. Um dos tantos rituais que consagraram uma amizade que só me trouxe felicidade.

Outra lembrança é de uma tarde em um local distante, uma quase esquecida estação da Embratel, em Boa Vista, Roraima, ou Macapá, Amapá. A memória é falha, e nunca mais voltei lá. Era uma estação dos antigos sistemas de tropodifusão com suas antenas lindas, erguidas como enormes muralhas de metal no espaço e que pareciam peças de ficção científica. Poucos profissionais de telecomunicações tiveram a oportunidade de conhecer aqueles equipamentos que eram a alternativa de comunicações na amazônia antes do advento do satélite.

O terreno lateral ao da estação continha vários cajueiros e uma mangueira enorme com uma sombra magnífica. Grande o suficiente para abrigar uma birosca e alguns bancos de madeira. Nada em volta, só mato e a casa do caseiro da estação. Não sei de onde saía a clientela da birosca. Terminamos o trabalho e fui levado para conhecer a birosca e o caju amigo. Uma pinga deliciosa e os tamanhos dos cajus eram impressionantes, pelo menos para mim.  Tudo se ajustava naquela tarde, parecia um momento ensaiado. Estávamos eu, um companheiro da engenharia de Belém, outro colega do Rio e o pessoal da estação local. O resto não preciso relatar, nem conseguiria. Basta fechar os olhos e deixar a imaginação fluir deliciosa como flui um caju amigo.

Sobre o kit para caju amigo, eu já o vi no supermercado próximo ao Largo do Machado, aqui, no Rio. Achei interessante, embora eu não goste muito do sabor da Pitú, uma pinga pernambucana reconhecida internacionalmente. Não sei se existe alguma Pitú especial. A comercial eu não gosto. Porém, gosto não se discute, mais vale um gosto do que dez vinténs, como dizia a minha avó Olga.
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Nota: este registro foi elaborado em novembro de 2015 



quarta-feira, 16 de março de 2016

Uma Klan tropicalizada


Opinião

Recebi de um amigo as imagens abaixo. Elas resgatam a similaridade das manifestações que se desdobraram na ditadura de 1964 com as manifestações do último dia 13 de março de 2016. Fiz alguns comentários que compartilhei entre amigos e familiares e reproduzi aqui para registrar a minha opinião. 

Parece que a história se repete como farsa. Farsa no sentido de burlesco, de caricatura sem compromisso, como disse o velho Karl no “18 de Brumário”1. E ainda recorrendo ao "velho": os homens fazem a sua própria história, mas não fazem segundo a sua livre vontade porque eles não determinam as circunstâncias. Elas lhe são dadas, transmitidas. 

Eu não saberia reproduzir com exatidão sem recorrer à estante de livros e copiar o texto, mas este não é o caso. A ideia está correta.

E as circunstâncias estão aí, impondo-nos escolhas que possivelmente teremos que fazer ainda que não queiramos. No caso, acho que cada um de nós precisará escolher um lado. 

Isto não seria um problema porque, afinal, política é isto: escolha. Contudo, tomara que eu esteja errado, as coisas caminham de uma forma em que não haverá vários os lados, mas talvez apenas dois. Nem mesmo a abstenção será uma alternativa em si própria.

Minha escolha já fiz. Não farei parte dessa massa que incorpora e que caminha lado a lado de uma elite minoritária brancosa e fascista cujo projeto estratégico (e escroto) é a consolidação de uma sociedade excludente e desigual disfarçado de um discurso de combate à corrupção.

Sei que os manifestantes não são todos fascistas, que alguns querem efetivamente um país melhor etc. Mas, o fato é que estão juntos e fortalecendo os fascistas, exploradores, vendilhões das riquezas nacionais, além de outros atributos.

Então, Fodam-se! Se a distinção é necessária, eles que a façam. Até lá, considero que todos formam um bando de Filhos das Putas.

De meu lado, arco com o ônus de ser identificado com grupos e práticas políticas que abomino e com os quais já me incompatibilizei há muito tempo. Não será simples, mas é a parte que me caberá neste latifúndio. Sempre fiz isto e continuarei fazendo.

Como já disse, tomara que eu esteja errado e não precise realizar escolhas em conjunto tão restrito de alternativas. Especialmente porque a consequência imediata possivelmente será a perda ou afastamento de relações afetivas queridas.

Mas, se for necessário, assim será. Não sinto vergonha, não disfarço os meus projetos, nem me mobilizo pelas chamadas à luta convocadas pelos jornais da Globo.

Em hipótese nenhuma me confundirei com esta burguesia coxinha e babaca que sente vergonha de ser brasileira, que abomina a miscigenação característica da nossa sociedade, que odeia o pobre em vez de odiar a pobreza. Esta versão verde-amarela de Ku Klux Klan. Aliás, como o meu amigo bem observou, nada tão simbólico como estarem quase todos vestindo camisa da insuspeita CBF.
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1.
O 18 de Brumário de Luis Bonaparte é considerado um dos textos mais importantes de Karl Marx onde ele relata e analisa um golpe de Estado ocorrido na França em dezembro de 1851 comandado por Luís Bonaparte que havia sido eleito presidente três anos antes e impôs uma ditadura declarando-se imperador Napoleão II. Luís Bonaparte era sobrinho do Napoleão Bonaparte que todos conhecem (aquele da mão enfiada no casaco), também ditador, e que havia se coroado como imperador da França em 1804.
Em 1789, na Revolução Francesa, os revolucionários mudaram o calendário alterando a quantidade de dias da semana, a quantidade de semanas dos meses, os nomes dos meses etc. Essa mudança durou até o ano de 1805. Quando Napoleão Bonaparte (o da mão no casaco)  foi coroado era o dia 18 do mês de Brumário pelo calendário revolucionário. O livro de Marx tem um título que ironiza a situação. O golpe de Luís Bonaparte foi dado no aniversário da coroação do seu tio, assim teria sido o 18 de Brumário do sobrinho, 47 anos após o golpe do tio.
A primeira publicação do 18 de Brumário de Luís Bonaparte, escrito por Marx, foi em 1852. Atribui-se a sua relevância ao fato de ser um exemplo concreto de um método de análise que hoje se denomina análise marxista.

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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Irradiando magia


Leituras para distrair

Em 8 de dezembro de 1980 oficializei o meu retorno de São Paulo assinando o contrato com a Embratel. Dia de N.Sra. da Conceição. Vim ao Rio e retornei a São Paulo no mesmo dia. Logo que cheguei fiquei sabendo do assassinato do John Lennon. Dia estranho. Alegria e tristeza.

Mas, 8 de dezembro também é especial por outras lembranças queridas. Minha madrinha, avó, tia e dona de outros títulos familiares e afetivos, dinha Mansinha, promovia em seu centro de umbanda, na casa onde morávamos, uma celebração para Oxum, a patrona do centro. Era uma festa dominada pelo sincretismo. Primeiro havia uma ladainha celebrando N.Sra. da Conceição, a puxadora das rezas chamava-se D. Irene. Finda a ladainha havia uma sessão espírita com rezas, incorporações etc.

Mas, antes de tudo, havia uma sessão de “descarrego” quando a casa e os presentes eram defumados para afastar os maus espíritos. Dinha Mancinha  (com "c" mesmo) percorria a casa com o defumador, uma grande taça de barro onde havia pedaços de carvão em brasa produzindo fumaça. Não lembro se havia alguma erva. De qualquer forma, não fedia. Ela cantava uma prece que dizia “Defume esta casa bem defumada/com a cruz divina ela vai ser rezada/ ela é rezadeira, ela é filha de umbanda/com a cruz divina todo mal debanda”. Cantando ela percorria as entradas e saídas da casa espalhando a fumaça e cada um dos presentes se apresentava para a defumação. Ela aproximava o defumador e a fumaça nos envolvia, frente, costas, embaixo dos braços e pernas, exatamente como os agentes federais fazem com o detector de metais nos aeroportos. 

E a casa ia enchendo de vizinhos, amigos e familiares que se serviam dos muitos doces em compotas ou em forminhas de papel, bolos e manjares diversos preparados em nossa casa ou levados pelos participantes. A rigor não havia convidados. A casa era aberta e a segurança era os homens da casa e, possivelmente, os deuses homenageados. 

Quase não rolava bebida alcoólica. Havia algum vinho doce, tipo moscatel (horrível) que uns poucos bebiam. Também havia licores. Nada de cerveja. Meu pai, o cambono do centro (uma espécie de primeiro secretário do pai-de-santo), tinha a sua pinga embaixo da pia e da qual ele se servia moderado por suas responsabilidades e por minha mãe, é claro. Mas o ambiente geral não era de beberagem. Era uma alegria e um alto astral que iniciava já no aniversário da minha madrinha, em 3 de dezembro. Lá, eu e meus irmãos aprendemos rezas, cantos (pontos de macumba), adornos, rituais, oferendas e, principalmente, incorporamos valores de caráter. Nunca vi um lance sequer apontando para o prejuízo de alguém.

Gosto muito de saber sobre os mitos religiosos. Desconheço algum que aponte o ato de ferrar a vida do outro como mecanismo de sublimação do ser humano. Mas, tenho admiração especial pelos mitos de origens africanas. Eles são lindos e interessantíssimos. E vão bem além daqueles que as religiões fizeram chegar até nós. É uma pena que a discriminação e preconceito racial e religioso da nossa história tenha nos negado o estudo das mitologias africanas e indígenas. Aprenderíamos muito com eles. Mas, vejo as condições atuais de circulação de informação como uma nova oportunidade. Bem que eu gostaria de ver no cinema Ogum, além de  Thor. Oxum, além de Odin. Exus e Sacis além de Rumpelstichen.

Hoje é dia d’Oxum, um tema que os compositores Gerônimo e Vevé Calazans e a cantora Gal Costa transformaram em uma das músicas que mais me emociona. Composta para uma serie de TV, deveria ser (se não é) o hino de Salvador. Poderia ser, também, um hino do Rio de Janeiro. Tive o prazer de ouvi-la recentemente cantada pelo Lucio Sanfilipo, no Trapiche Gamboa, numa noite povoada por orixás. Bebi uma ceva gelada e uma cachaça. Comemorei com os meus amigos presentes e saravei os ausentes, como faço agora. Saravá!

Para quem se interessar em ouvir: É D'oxum 

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