domingo, 5 de julho de 2015

Museu

Vizinhos

Trata-se de um vizinho importante, politicamente importante. Afinal, ele foi o Palácio do Catete, sede do governo de 16 presidentes da República, desde 1897 até 1960 quando perdeu o seu status porque a capital do país mudou para Brasília. Em 1970 passou a ser o Museu da República, mas para muitos é o “Palácio do Getúlio”, uma referência ao presidente que cometeu o suicídio em suas dependências. Conforme uma pesquisadora do Museu: "Naquela época, você não dizia 'a sede da Presidência', você dizia 'o Palácio do Catete'. E depois de Getúlio virou o 'Palácio de Getúlio', até hoje. Se você pega um táxi e pede para ir ao Museu da República é possível que ele não saiba, mas se você disser 'o Palácio do Getúlio' ele sabe. Quer dizer, é uma palavra-chave não porque é qualquer palácio, é porque esse palácio está colado no imaginário da população e dos governantes também".

Este vizinho anda sempre ocupado. Exposições permanentes e temporárias, seminários, serestas, feira de livros, cinema, colônia de férias, biblioteca, lançamento de livros, saraus e eventos artísticos diversos, além da disponibilidade do acervo do museu para consultas e pesquisas. Em caráter permanente ficam expostas as dependências do palácio que são memórias da história do Brasil, porém há uma exposição de longa duração que recomendo como imperdível: “A Res publica brasileira”. Organizada conforme etapas políticas da nossa república, a exposição tem um caráter especial para aqueles que tiveram a oportunidade de vivenciar a movimentação política no Brasil desde o golpe de 64 até a Constituinte de 88.

Para a vizinhança a sua importância não se resume aos títulos históricos. Ele é uma bela construção num terreno que ocupa quase a metade da nossa quadra e que interliga as ruas do Catete e Praia do Flamengo. A sua área externa, aberta permanentemente ao público, encanta pelos seus jardins arborizados e pelos elementos de decoração que são um oásis no ambiente urbano, especialmente nos dias de verão escaldante. Os visitantes, trabalhadores e moradores da região vão e vem dos seus destinos ou apenas passeiam por ali, descansando, namorando ou absorvidos em conversas ou leituras. É divertido observar que alguns fazem caretas ou falam sozinhos enquanto meditam. Neste “palácio”, em 1914, Nair de Tefé, a esposa de um dos presidentes, promoveu uma recepção e escandalizou a sociedade ao executar, ela própria, ao violão, a composição que ficou conhecida como “Corta-jaca”, obra de outra mulher voluntariosa, brasileira, mas marginalizada socialmente, a compositora, pianista e regente Chiquinha Gonzaga. Um acinte que provocou a reação indignada do falastrão senador Ruy Barbosa: “... a mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba”. Essas besteiras foram proferidas no mesmo ano do famoso discurso: “... de tanto ver triunfar as nulidades... prosperar a desonra... blá, blá, blá...”.


Dizem que a sede do governo que antes era no palácio do Itamaraty, lá próximo a Central do Brasil, mudou-se de lá para sair das proximidades dos quartéis do exercito. História verdadeira, ou não,  estou entre os que tentam imaginar como seria a historia do país se a sede do governo ainda fosse aqui, nas barbas e ao alcance da população. E só recentemente me dei conta que o tecido de forração do meu sofá tem o mesmo padrão que o do pijama do Getúlio exposto no quarto em que suicidou. Não sei se faço caretas ou falo sozinho enquanto penso essas coisas!
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Museu da República - Fachada para a Rua do Catete

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Museu da República - Jardim
Meio da quadra, entre Rua do Catete e Aterro do Flamengo
Clique aqui e visite o Jardim

Museu da República - Jardim
Ao fundo o Aterro do Flamengo - Lado oposto à fachada da rua do Catete

Nair e Chiquinha
Nair (esquerda): 1886 - 1981    -   Chiquinha (direita): 1847 - 1935

O pijama do Getúlio
Meu sofá e o pijama do Getúlio

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Seabra

Vizinhos

- Eu é que não tinha coragem de entrar aí, de noite, nesse castelo assombrado!
Essa exclamação recebeu como resposta uma risada nervosa e um comentário que não consegui ouvir. Eram duas senhoras de aparências humildes que passavam em frente ao meu vizinho, um prédio imponente de 12 andares na esquina da ruas Ferreira Viana e Praia do Flamengo, quadra onde moro,  uma construção que é uma referência na cidade do Rio de Janeiro.
O edifício Flamengo nasceu como edifício Seabra, e é uma das belas construções da Praia do Flamengo. Ele também tem um apelido: Dakota. A origem do apelido se deve a sua aparência externa que tem um jeitão parecido com o do famoso prédio Dakota, de Nova York, onde morou o ex-Beatle John Lennon assassinado na portaria do prédio. O Dakota carioca é descrito como tendo uma luxuosa construção interna, mas destaca-se entre os demais pela beleza de sua arquitetura externa. É uma estrutura em blocos de pedra escuros, e as suas portarias não são transparentes como a maioria dos demais prédios. Elas são portões de ferro decorados com grades e vidros que, além da proteção física, dificultam a devassa do interior pelos olhares dos transeuntes. Quem passa próximo aos seus portões, durante a noite ou dia, pode apenas vislumbrar em penumbra os seus amplos corredores decorados (de gosto até duvidoso)  e com uma iluminação colorida e de baixa potência. O conjunto compõe uma visão que faz o prédio parecer com as caricaturas de castelos assombrados, justificando o medo das senhoras que passaram em frente ao mesmo.
Para o meu gosto a construção é bonita e impactante, mas  ela é também um símbolo de concentração da riqueza. Construído em 1931, data anterior à construção do Aterro do Flamengo, o seu proprietário original foi um milionário português, um comendador,  de sobrenome Seabra (nome do prédio) que reservou para sua moradia os três últimos andares, um triplex com cerca de 2400 metros quadrados com portarias e elevadores privativos. Uma concentração de riqueza que ainda se exibe porque, apesar de tombado,  o prédio é uma propriedade privada e o triplex do "comendador"  foi negociado recentemente,  há cerca de dois anos,  estando ainda em reformas.
O Seabra não é o maior símbolo de concentração de riqueza no Rio de Janeiro e nem deve ser o mais representativo da Praia do Flamengo. E neste aspecto deve estar bem longe do Dakota americano. Mas, aqui ou em Nova York, a realidade é que nenhum homem ou grupo de proprietários trabalhou o suficiente em seu tempo de vida para produzir e acumular tanta grana. Trata-se da expropriação do trabalho de outros, de muita gente, como é  a prática do sistema de produção em que vivemos. O Dakota americano ganhou fama de maldito e  assombrado antes da morte do Lennon, desde quando foi local de gravação do filme "Bebê de Rosemary" , um ícone do cinema de suspense e terror. Quem sabe no caso do Seabra algum fenômeno sobrenatural seja a explicação para tanto dinheiro nas mãos de tão pouca gente. Mas, será uma explicação diabólica.
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Edifício Flamengo (Seabra) - O Dakota carioca


Interior do Seabra
Dakota original - americano

sábado, 27 de junho de 2015

Comunidade

Vizinhos

Um dos meus vizinhos é uma comunidade, mas não estou usando eufemismo para o termo favela. O meu vizinho é a Comunidade Evangélica Internacional da Zona Sul - CEIZS, uma igreja evangélica cuja sede mundial é localizada na área térrea do meu prédio e que tem unidades no Rio de Janeiro, Curitiba, Foz de Iguaçu e São Paulo, além de unidades nos EUA, Suiça, Itália, Inglaterra e Portugal. A igreja funciona em um espaço que já foi o cine Bruni Flamengo e onde, em dezembro de 1964, durante uma sessão noturna, explodiu uma bomba que deixou feridos graves e cuja responsabilidade foi atribuída, pelo governo militar, a “terroristas” que contestavam o regime (A bomba do Riocentro ocorreria 17 anos depois, em 1981).

O Bruni foi desativado em 1975 e substituído por duas salas, também de cinema, os Lido I e II destruídas por um incêndio em 1990. Seguindo uma lógica  recorrente na cidade e no resto do país, o local foi adquirido e restaurado pela Comunidade que o transformou em templo, sede da igreja.

As relações entre Comunidade e o nosso condomínio são cordiais, embora com alguns conflitos. Afinal, qual vizinho que promovesse festas semanais com a presença de centenas de convidados não perturbaria os demais? Trata-se de um problema cuja solução passa pela colaboração e tolerância de ambas as partes. Porém, até onde eu sei, as coisas tem caminhado sem crises graves e com altos e baixos no relacionamento,

Este vizinho tem algumas curiosidades que o destaca das igrejas tradicionais. Por exemplo, na celebração de Réveillon, em meio às festividades em Copacabana, ele também ocupa a areia da praia promovendo tendas de oração no meio daquela zona total. E nos dias de Carnaval a Comunidade desfila com um enorme bloco cuja bateria é formada por ritmistas da própria igreja, com carro de som, enredo e alas fantasiadas que vão de um extremo ao outro deste lado da quadra, e que desfila animado pelo bairro empolgando e emocionando muita gente como já testemunhei. A Comunidade é igreja, rádio, produtora musical e tem um grupo musical que adota o seu nome. A sua sede recebe pop stars nacionais e internacionais do mundo musical evangélico e o seu auditório está equipado com moderníssimo sistema de som projetado com qualidade para divulgação dos cultos/espetáculos em rede para os templos em outras partes do mundo.

Mas, algo que realmente me impressionou foi uma entrevista concedida a um blog de notícias, em 2012, pelo responsável da então recém-inaugurada filial na Florida, EUA. A propósito, também em um antigo cinema.  Segundo o pastor da unidade americana, ele realizou o seu primeiro culto para a esposa e dois filhos quando a igreja começou a funcionar em uma pequena sala na localidade de Deerfield Beach em 14 de abril de 2007.  E nas palavras do próprio pastor “Quatro anos e nove meses depois, a CEIZS Florida inaugurou uma sede suntuosa também em Deerfield Beach ... E isto tudo foi feito com uma verba de um milhão de dólares (grifo meu) arrecadada aqui. E está totalmente paga!".

Acho que não seria descabida a ideia de negociar com este vizinho para que ele assumisse a administração do nosso condomínio. Quem sabe receberíamos quotas mensais em vez de pagá-las.

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Portaria de entrada da Comunidade - o salão/auditório é nos fundos do terreno




Até 1990 funcionavam ali os Cines Lido I e II


O bloco de Carnaval da CEIZS - esquentando os tamborins

Bloco da CEIZS - Desfile - Carro do Som e Bateria

terça-feira, 23 de junho de 2015

Aterro

Vizinhos


Em frente à minha janela está o meu vizinho mais importante. Embora o seu nome oficial seja Parque Brigadeiro Eduardo Gomes, o que vale é o seu apelido:  Aterro do Flamengo, e para os íntimos apenas “Aterro”, apelido que ganhou por ser um parque construído em uma área de 1.200.000 m2 da  baía de Guanabara aterrada com o entulho retirado do desmanche de um morro próximo (Santo Antonio) e com areia retirada do fundo da própria baía.

Nesta cidade qualificada de maravilhosa porque a natureza não lhe poupou beleza, o meu vizinho constitui possivelmente a mais expressiva beleza não natural do Rio de Janeiro. É uma construção humana que se estende desde o aeroporto Santos Dumont até a enseada de Botafogo, e inclui jardins, parques, quadras e pistas de esportes, campos de futebol, quiosques, o Museu de Arte Moderna, a Marina da Gloria, o Monumento aos Pracinhas, o Monumento ao fundador da cidade, Estácio de Sá, o Museu Carmem Miranda, milhares de árvores, centenas de espécies de plantas nativas e exóticas, cerca de 100 postes para iluminação com 45 metros de altura cada. O Aterro resulta de um projeto urbanístico com uma interessante história, e se transformou  num tesouro  para os  habitantes da cidade e seus visitantes. Ele é bem servido por transporte público: ônibus. O acesso ao parque é livre, sem grades,  e a sua área para lazer é ampliada aos domingos e feriados com o fechamento das duas faixas de rolagem que integram o conjunto. Desconheço outro espaço da cidade que possa ser acessado,  ocupado, usado, admirado e vivenciado com uma deliciosa sensação de apropriação sem  exclusividade, com a sensação de se fazer parte sem ser “dono”. Usufruir sem excluir o outro. As praias do Rio de Janeiro geram sensações  similares, mas elas se incluem entre as maravilhas naturais da cidade.

É um prazer ver famílias das mais variadas origens socioeconômicas ocuparem os seus espaços nos dias de folga e descanso, sem frescuras nem protocolos babacas que caracterizam as apartações sociais. Acho até que os visitantes são poucos se comparados com a capacidade de abrigo do Aterro. São raros os domingos sem as corridas ou caminhadas nas pistas que margeiam os seus jardins. O  “futebol dos garçons” que diariamente ocupa as suas quadras nas madrugadas até o raiar do dia já virou tradição.  

Meu vizinho sofre ameaças à sua integridade. Não bastassem as insuficiências dos serviços para a sua manutenção, volta e meia noticiam iniciativas visando a sua exploração comercial com atividades que descaracterizariam o seu propósito de espaço público. Já se falou em construção de shopping e até em circuito para corrida de automóveis. Essas iniciativas foram inibidas, mas as recentes concessões para o uso da marina da Gloria e os consequentes eventos programados e realizados naquele espaço afirmam uma opção pela privatização do espaço público em vez da universalização da sua ocupação. Seria um exagero de minha parte se as ameaças não estivessem aí, latentes e nem sempre veladas. Afinal, foi no início deste 2015 que uma jornalista carioca, nacionalmente conhecida e considerada, propôs descaradamente como medidas para solução de casos de violência nas praias, “... diminuir drasticamente a circulação das linhas de ônibus e de Metro no fluxo Zona  Norte – Zona Sul ...” e “... cobrar entradas nas praias de Leme, Copacabana, Ipanema, Leblon ...”.


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Panorâmica do Aterro




sexta-feira, 19 de junho de 2015

Oceano Atlântico

Vizinhos

Ele complementa a magnífica visão de outro vizinho, o Aterro do Flamengo, e eu deveria tratá-lo por “baía de Guanabara”, mas um fato cômico determinou a minha escolha. Logo que vim para a moradia atual solicitei a transferência da minha linha telefônica fixa. A atendente da operadora, que devia estar num Call Center em qualquer lugar do Brasil diferente do Rio de Janeiro, insistia para que eu complementasse o meu endereço (praia do Flamengo) com alguma outra referência, apesar de eu já ter informado número do prédio, apto, bairro, CEP etc. Aporrinhado e de saco cheio, sugeri que ela anotasse Oceano Atlântico, afinal a praia do Flamengo pertence ao mesmo. A sugestão provocou um silêncio no outro lado da linha que eu deduzi decorrer da irritação da atendente enquanto contava até dez para não mandar às favas eu e a minha ironia. Passado o silêncio, ela completou o registro da solicitação sem mais delongas. Porém, a minha surpresa foi enorme quando recebi a conta telefônica e verifiquei que, como referência para o meu endereço, estava impresso “Oceano Atlântico”. E tem sido assim, todos os meses, há anos, acreditem, ou não. A minha conta telefônica deve ter pequena possibilidade de ser extraviada para qualquer um dos outros três oceanos do planeta porque nela consta como referência para o endereço praia do Flamengo, no Rio de Janeiro: Oceano Atlântico, e foi daí que eu resolvi dar este tratamento ao meu vizinho, em vez de tratá-lo como “baía de Guanabara”.


Oceano Atlântico ou baía de Guanabara, o fato é que desfruto o privilegio dessa vizinhança. Da janela contemplo aqui, em margem próxima, desde o aeroporto Santos Dumont, a marina da Gloria, a praia do Flamengo, até os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar. Acolá, o litoral da distante Niterói, desde a Ponte, passando por suas praias urbanas até a histórica fortaleza de Santa Cruz marca da consolidação do poder imperial português. Entre as margens daqui e de lá o curiosíssimo forte Tamandaré, na ilha da Laje, que parece uma enorme tartaruga encravada no meio da baía de Guanabara e vigiando a sua entrada. O sobe e desce dos aviões passa a impressão de suaves voos panorâmicos, e a incessante movimentação das embarcações de grande porte parece um desfile ensaiado onde os veleiros e outras pequenas embarcações realizam uma espécie de dança de vai e vem. Arrisco dizer que é uma das mais belas paisagens do Rio de Janeiro. Não importa o horário ou as condições climáticas, as visões são sempre espetaculares e surpreendentes.

Gosto de imaginar os primeiros navegadores tentando identificar o que parecia ser a desembocadura de um grande rio. Penso nas disputas entre portugueses e seus desafetos lutando pela posse destes territórios, cagando e andando para os nativos obrigados a incluir entre as suas próprias disputas aqueles novos e estranhos seres. Mas, gosto também de pensar que um dia João Cândido e seus companheiros ocuparam essa paisagem comandando as embarcações capturadas em sua revolta e subjugando com os seus canhões o poder republicano e obrigando-o a abolir as punições com na marinha com o uso da chibata. Caramba! Esse vizinho tem muita historia pra contar.


Oceano Atlântico e Aterro - Visão da janela
Clique aqui para uma melhor visão da imagem




Minha conta telefônica com endereço e... referência



domingo, 14 de junho de 2015

Carequinha

Leitura para distrair

Recebi a notícia através de um amigo. O Carequinha será enredo de uma escola de samba de São Gonçalo, a Unidos do Porto da Pedra (bairro onde nasci).  Nada mais justo. Tomara que não façam uma merda. Nem precisa ganhar nada, basta que seja uma homenagem bonita, à altura do símbolo representado pela figura do palhaço.

Já repeti essa história mil vezes e resolvi registrá-la. Quando criança morávamos nos fundos da casa dos meus padrinhos que ficava na principal rua da cidade, a rua Francisco Portela, em São Gonçalo. Na mesma calçada, mais adiante, morava o Carequinha. Na casa do Carequinha não tinha garagem, mas ele tinha um carro, parecia um Citroen, preto, porém não faço ideia qual era a marca. Na traseira do automóvel, em letras metálicas, estava escrito "CAREQUINHA". 

Carequinha usava a garagem de outro vizinho, em frente à nossa casa, no lado oposto da rua. Era usual ele chegar, à noite, para guardar o carro. Depois atravessava a rua, parava para um “alô” e seguia para casa. Era comum as pessoas se reunirem nos portões para conversar, e eram todos vizinhos antigos e amigos, primeiros moradores da área. Televisão praticamente não existia, era um privilégio de poucos.

As crianças, quando permitiam, ficavam em volta, e quando Carequinha chegava sempre tínhamos curiosidade. A figura dele nada tinha a ver com a do palhaço, nem mesmo era careca, ao contrário, tinha uma vasta cabeleira preta. Porém, a voz era inconfundível. Era o Carequinha! Eventualmente ganhávamos de brinde fotos e até uns cadernos pautados, de propaganda, com a imagem do Carequinha na capa. O nome do Carequinha era George, e custei a entender porque não era Jorge. Na verdade, nem sei se algum dia entendi.

Há duas semanas, na primeira semana de junho de 2015, passei em frente à casa do Carequinha. A casa dele e a dos meus padrinhos foram as últimas daquele trecho que se mantiveram como residências. A dos meus padrinhos já não é mais, e não sei sobre a casa do Carequinha, passei por lá, mas não deu para saber.

Já adulto, no período que voltei a morar em São Gonçalo, através de um vizinho, octogenário como o Carequinha, amigo dele e também um dos primeiros moradores, fui apresentado ao palhaço como uma das crianças da década de 50, filho de fulano, neto de sicrano etc. Cheguei a trocar palavras com ele umas poucas vezes e todo o tempo que tive consumi elogiando-o.

Até onde eu sei o Carequinha teve residência por lá até a sua morte. A casa dele nunca teve garagem.


terça-feira, 17 de março de 2015

15 de março 2015. Ovo da serpente ou rabo de jacaré?

Opinião

Dificilmente se poderá dizer que as manifestações do último dia 15 de março de 2015 não foram manifestações da direita política brasileira, por mais que alguns manifestantes e apoiadores reajam a esta classificação disfarçando-se em movimentos que tentam qualificar como “apartidários”.  Trata-se de uma parcela da sociedade descontente com a existência de um governo que traz consigo, congênitos,  cacoetes e compromissos públicos defesa dos pobres e trabalhadores, ainda que não os cumpra como deveria. Para a direita, a possibilidade desta transformação (que implica necessariamente em distribuição da riqueza) está no governo e pode ser vista crescendo. É como se o governo Dilma fosse, para a direita reacionária, a sua versão de ovo da serpente. A direita dá mais crédito a uma possível metamorfose das políticas de governo do que os próprios partidos de esquerda que também fazem oposição, mas justamente cobrando esta transformação. Com esta visão, a direita quer extirpar o governo, não importa se ele resulta da vontade da maioria.

Demonstração cabal deste fato foi o contraste entre as reações de repulsa e ódio contra os provocadores que, indevidamente, insistiram em exibir a cor vermelha nas manifestações e a tolerância para com as evocações de volta à ditadura e ao intervencionismo militar com a deposição da presidenta eleita. As apologias da violência contra comunistas e petistas, as incitações de violência contra o MST, as divulgações de mensagens e símbolos nazistas, entre outros, estavam lá, confortavelmente exibidas ao lado dos democráticos e “apartidários” manifestantes. As TVs até tentaram minimizar a ocorrência dessas manifestações, mas não conseguiram justamente porque foram muitas, e a realidade irrefutável é que elas foram acolhidas pelo “movimento”.

A nossa sociedade não vivenciou guerras, não enfrentamos catástrofes ambientais e nos formamos com uma enorme diversidade de costumes, mas sempre em torno de uma integração cultural desde o norte até o sul do país. As nossas verdadeiras revoltas políticas, apesar de terem tido caráter popular, sequer chegaram a ser caracterizadas como revoluções. Foram reprimidas e dizimadas com tamanha força e violência que sequer ficaram resquícios suficientes para nos dividir, como sociedade, em grupos de opções políticas. Assim, depois do maior período de democracia formal da história republicana, nossas últimas e significativas experiências políticas foram disputas eleitorais. Disputas que atingiram um acirrado enfrentamento nas últimas eleições e que geraram conflitos que estamos vivenciando como uma novidade. Mas, queiramos, ou não, a realidade é que há divisões enormes de pensamentos entre nós (brasileiros) que, de uma forma ou de outra, precisam aflorar, se mostrar.

Estes conflitos estão repercutindo em nossos ambientes de coexistência. Entre os colegas de trabalho, nos ambientes escolares, entre familiares, amigos, vizinhos ou companheiros de bar. E possivelmente nos agrupamentos religiosos onde a instituição religiosa não constitui, ela própria, uma organização de caráter partidário oficioso.  Não tenho expectativas que tenhamos maturidade para tratar tais questões. Elas são emergentes, e esperar a maturidade seria uma contradição. Tomara, sim, que estes grupos tenham desenvolvido valores comuns consistentes que sirvam de sustentação e coesão social durante o tempo que precisarmos para amadurecer e avançar em nossas disputas, sem precisar chegar a um esfacelamento completo das nossas relações. Mas, não tenhamos dúvidas, vivemos um momento de apartação decorrente das nossas escolhas políticas, e os movimentos de 15 de março, último, e outros que estão sendo anunciados são expressões da direita tradicional retrógrada e reacionária, embora alguns manifestantes permaneçam enrustidos.

O falecido Leonel Brizola, em suas tiradas irônicas e cáusticas, dizia nestas situações: “tem olho de jacaré, boca de jacaré, balança o rabo igual a jacaré ... e você quer me convencer que não é jacaré?"

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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Palavras para 2015

Leituras para distrair

Em 2014 emocionei-me com a melodia e letra de uma canção executada durante as apresentações dos creditos finais do filme “Kamchatka”, uma produção argentina espanhola sobre a ditadura argentina na década de 1970. A canção, intitulada “Palabras para Julia”, é interpretada na trilha sonora do filme pela cantora argentina Liliana Herrero. Trata-se de uma composição com melodia de Paco Ibañez, espanhol que dispensa apresentação, e letra extraída do poema de mesmo nome (Palabras para Julia) do também espanhol José Augustín Goytisolo.
Até então eu só tinha alguma notícia do Paco Ibañez com a referência de ser um virtuoso violonista. Motivado pela beleza da canção, caí dentro da rede buscando informações sobre o poeta, sobre a música, sobre a interpretação que ouvi e sobre outras interpretações. Comprei o livro Palabras para Julia (Ed. Plaza & Janés – Barcelona 1997) de autoria do Goytsolo e acessei um programa da RTVE.ES  (Rádio e Televisão Espanhola, via Web), divulgado em março de 2013, com a participação da mulher que inspirou o poema, Julia Goytsolo, filha do poeta. Com a busca verifiquei que a canção é um clássico amplamente conhecido na Espanha e na América espanhola e que eu ignorava completamente, fato que não é uma novidade.
Conheci, então, o texto completo do poema Palabras para Julia, e mesmo considerando que ele não seja novidade para muitos como foi para mim, resolvi divulgar o poema e a canção como a minha forma de registrar, entre nós, o início de 2015 com as nossas esperanças e expectativas.
Palabras para Julia foi escrito por José Agustín como uma mensagem para a sua filha. O poeta diz que a vida nos empurra como se estivéssemos permanentemente perseguidos por uivos de lobos, e que não é possível voltar atrás. As agruras certamente virão, diz o poeta, mas devemos enfrentá-las e viver com a alegria das demais pessoas em vez de chorar, isolados, diante de um muro de lamentações.
Ele diz que escreve pensando na filha, mas não exclusivamente. Também escreve pensando em outras pessoas, nos outros homens. Um homem ou uma mulher vistos isoladamente, de um em um, não são nada, apenas grãos de poeira. O destino de cada um de nós, ensina o poeta, não está separado do destino dos demais seres humanos. A dignidade dela será a dignidade de todos.
Que Julia nunca se entregue e saiba que existem pessoas que contam até mesmo com a sua alegria como uma ajuda necessária. A vida é bela e ela verá que, apesar dos pesares, existem amor e amigos. O poeta pede desculpas pelas limitações dos seus conselhos e que a filha lembre que foram escritos pensando nela e que ele mesmo ainda está trilhando o seu próprio caminho.
A canção de Paco Ibañez popularizou os versos de Goytsolo,  e Palabras para Julia tornou-se uma espécie de referência de estímulo e encorajamento para os militantes que enfrentaram as ditaduras na America espanhola. Conforme um ex-prisioneiro político chileno da ditadura Pinochet (declarações exibidas no programa da RTVE – anexo) cantarolar a melodia ou recitar os versos da canção era um recurso frequente de prisioneiros que sem a expectativa de sobrevivência no cárcere. Julia Goytsolo, por sua vez, comenta sobre a dificuldade de ter crescido como um símbolo produto da sensibilidade poética do seu pai e do mito no qual a canção se tornou. O programa onde estas questões são abordadas é muito interessante.
Numa fase em que junto com tantos amigos queridos vivenciamos o florescer de uma geração de netos, acho que a leitura e audição de Palabras para Julia é um jeito gostoso de celebrar ano que começa e desejar tudo de bom especialmente para os nossos filhos e netos.
Além da íntegra do poema, copiei links com a interpretação da Liliana Herrero no filme (que me motivou), uma apresentação no palácio do Governo, em Buenos Aires,  e uma apresentação em dupla com a maravilhosa Mercedes Sosa.
Também segue um link com uma interpretação do Paco Ibañez , além do áudio do próprio José Augustín Goytsolo (falecido em 1999) recitando o poema. 
Finalmente, o link para o programa da Rádio – Televisão Espanhola.
Feliz 2015! Espero que vocês também gostem - Yo escribí pensando en vos. 

Palabras para Julia (José Agustín Goytsolo)
Tú no puedes volver atrás
porque la vida ya te empuja
como un aullido interminable.

Hija mía es mejor vivir
con la alegría de los hombres
que llorar ante el muro ciego.

Te sentirás acorralada
te sentirás perdida o sola
tal vez querrás no haber nacido.

Yo sé muy bien que te dirán
que la vida no tiene objeto
que es un asunto desgraciado.

Entonces siempre acuérdate
de lo que un día yo escribí
pensando en ti como ahora pienso.

Un hombre solo, una mujer
así tomados, de uno en uno
son como polvo, no son nada.

Pero yo cuando te hablo a ti
cuando te escribo estas palabras
pienso también en otros hombres.

Tu destino está en los demás
tu futuro es tu propia vida
tu dignidad es la de todos.

Otros esperan que resistas
que les ayude tu alegría
tu canción entre sus canciones.

Entonces siempre acuérdate
de lo que un día yo escribí
pensando en ti como ahora pienso.

Nunca te entregues ni te apartes
junto al camino, nunca digas
no puedo más y aquí me quedo.

La vida es bella, tú verás
como a pesar de los pesares
tendrás amor, tendrás amigos.

Por lo demás no hay elección
y este mundo tal como es
será todo tu patrimonio.

Perdóname no sé decirte
nada más pero tú comprende
que yo aún estoy en el camino.

Siempre siempre acuérdate
de lo que un día yo escribí
pensando en ti, pensando en ti como ahora pienso.






domingo, 14 de dezembro de 2014

Eu e o violão – nossas primeiras notas


Leituras para distrair

Em casa o violão está ali, nu, despido de sua capa que está na cadeira ao lado.

Lembrei que, quando eu era menino, em nossa casa ouvíamos um programa de rádio, possivelmente da Radio Nacional, cujo nome era algo parecido com “alma das coisas”. 

No programa o personagem principal era um objeto de uso doméstico, uma panela, um relógio etc. que narrava a sua história. Em cada programa um determinado objeto contava como foi parar ali, onde estava, narrava a sua relação com o ambiente, com outros objetos, com as pessoas em sua volta etc.

Fiquei imaginando que se o violão tiver uma “alma” como aqueles objetos das historias do rádio talvez esteja pensando com suas cordas, visto que não tem botões, “por que será que esse filho da puta me deixou aqui, desse jeito?”.

Ele certamente não sabe, mas eu segui a orientação de uma amiga querida. Um violão pelado, ao seu lado, impõe uma intimidade e permite que, a qualquer hora, você possa pegá-lo e treinar.

Achei uma boa sugestão e adotei. E aqui estamos, eu e esse aparelho que será para mim, mais tarde, um instrumento musical, embora não saiba exatamente quando.

Por ora estamos aqui. Vou me aproximar e autoritariamente tentar realizar os blim – blões da minha lição. Seguir à risca todas as instruções da professora. Tomara que dê certo.

Não estou muito preocupado com o violão. Se ele tiver uma alma ela saberá bem mais do que eu como estas coisas ocorrem e tratará disto.






quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Comentários pós-eleitorais - 2014

Opinião

A recente e acirrada disputa nas eleições presidenciais provocou ressentimentos entre os eleitores, mas também estimulou debates e aumentou a quantidade de pessoas tratando de política, ou seja, de escolhas. Até mesmo entre alguns que são useiros e vezeiros em declarar que “odeiam política”. 

Outro produto do acirramento foi provocar em alguns debatedores a explicitação das suas posições políticas que estavam veladas, tanto por conveniência e vontade, como por ignorância ou falta de oportunidade de reflexão sobre elas.

Ao defender ou fazer proselitismo da sua opção de voto, muita gente declarou ou deixou escapar quais são realmente os seus valores políticos, via de regra associados aos seus princípios éticos. Ao mesmo tempo, outras pessoas descobriram que valorizavam princípios políticos e éticos que nem mesmo elas sabiam ou haviam considerado.

Ainda sem fazer juízo das opções políticas de cada um, tomara que o saldo tenha sido uma quantidade maior de pessoas dispostas a continuar argumentando em defesa de suas posições e se arriscando, naturalmente, às possíveis réplicas ou exposições de contradições que as suas ideias possam conter. O futuro dirá se o saldo foi positivo.

A grande mídia do Rio de Janeiro e de São Paulo (não sei nos demais estados) e os grupos que ela representa não digeriram a derrota e promovem um clima pós- eleitoral como se quisessem reverter o resultado das urnas. Perdedores, numa espécie de tapetão eleitoral, agregaram até conclamações à intervenção militar, expressões minoritárias, diga-se de passagem, mas que não foram explicitamente, nem veementemente rejeitadas pelas importantes lideranças políticas da oposição.

O PSDB, partido representante da oposição, que nunca teve projeto alternativo, aferra-se exclusivamente em discursos de denúncias de corrupção no governo eleito. Visto que algumas denúncias são justificadas e, além do mais, são amplificadas por um fabuloso suporte de propaganda, esta prática tem trazido resultados favoráveis. A oposição avançou fortemente em áreas populares e de trabalhadores, cooptando estes espaços com um discurso reacionário, conservador e de rejeição às propostas socializantes. Tudo indica que esta será a linha de ação permanente da direita enquanto o governo eleito não der mostra de alterações nos rumos de sua gestão.

Por outro lado, há eleitores filiados ao PT, partido que liderou a candidatura vitoriosa, que reagem a qualquer oposição e crítica recebida, ignorando as mazelas que envolvem o governo reeleito. Fechados em um casulo partidário, não cobram autocrítica de suas lideranças e acusam qualquer opositor de colaboração com posições reacionárias e golpistas. Desconsideram que o resultado da votação recente, bem mais do que uma escolha de candidatos ou de partidos, foi uma manifestação de rejeição de projetos políticos e de práticas partidárias de ambos os lados concorrentes.

É preciso superar o maniqueísmo das discussões da campanha eleitoral aproveitando o engajamento político resultante da mesma provocando a continuidade dos debates e, quem sabe, transformando este debate em algum tipo de intervenção concreta. Tratar sobre a Reforma Política pode ser um caminho. Mesmo nos marcos da organização capitalista da produção, este tema, incluindo a discussão se a proposta de realizá-la é um fato ou um factoide, carrega consigo enorme parte das divergências e conflitos de ideias que agitaram os debates eleitorais entre os eleitores que se enfrentaram nas cozinhas, nos escritórios, nos bares, nas portarias, nas empresas, nas filas dos transportes e nas praças.

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