segunda-feira, 27 de maio de 2013

Não trafegue na faixa!


Crônicas de militante

A ideia era ousada: içar uma faixa na Av. Pres. Vargas, no cruzamento com a Av. Passos, no Rio de Janeiro, na largura de cerca de 14 metros, de um lado a outro de uma das pistas centrais e numa altura de cerca de 17 metros das luminárias da avenida.  Na faixa, letras enormes, pintadas em vermelho, formavam a palavra LULA ao lado de um aparelho telefônico. Para garantir leveza e baixa resistência ao vento, o material usado foi isopor montado em uma rede de pescar. A construção foi no quintal de um companheiro e os construtores foram os militantes e familiares, incluindo crianças. Nosso objetivo era o comício em 10 de novembro de 1989, encerramento da campanha do primeiro turno da primeira eleição direta para presidente após o término da ditadura, e a categoria havia autorizado a participação das entidades.

A dificuldade estava na instalação. Sem outro recurso, dispúnhamos apenas de um longo fio de nylon que já havíamos estendido, em um evento anterior, desde uma sala no 17º. andar de um prédio na esquina até o topo de uma das luminárias. O projeto de içamento da faixa era uma obra de engenharia que se confundia com uma obra de arte. Um conjunto infindável e emaranhado de laços e nós entre cordões e pontos da faixa que deveriam ser passados, trespassados, puxados, repuxados, esticados, suspensos e ajeitados numa sequência rigorosa, cujo produto final, como num ato de ilusionismo, seria a faixa içada e esticada como queríamos. E essa mágica precisava ser realizada durante a madrugada do dia do comício, com trânsito mínimo, e pelos militantes que pudessem colaborar.

Foi grande a decepção dos colegas que sabiam do projeto e não viram a faixa quando chegaram pela manhã para trabalhar na Embratel. Ocorre que subestimamos as dificuldades e não conseguimos. Entre tantos problemas, um cordão de nylon que estava impregnado com cola e estendido na rua não pode ser recolhido a tempo ficando colado nos pneus de um maldito caminhão que passou. O conjunto foi arrastado danificando parte da faixa e embolando as linhas – um fracasso que nos fez desmontar o circo e abortar a operação. Fomos embora para um resto de madrugada de insônia e autocríticas. Mas, também de humor, porque um de nós que era um  projetistas da teia de aranha que viabilizaria a suspensão da faixa, sofria de uma surdez avançada que ele recusava tratar. Assim, apontamos a sua responsabilidade dizendo que a faixa foi arrastada porque ele não ouviu os insistentes gritos de alerta sobre a vinda do tal caminhão. Claro que ele não foi o responsável, mas o nosso bom humor e camaradagem permitia e não poderíamos deixar passar esta oportunidade.

Mas, a manhã seguinte, dia do comício, foi recompensadora. O estímulo dos companheiros que chegaram venceu o desânimo pelo fracasso na madrugada, e decidimos que a faixa seria reparada e que subiria, ainda durante o dia, visto que o expediente da tarde seria liberado e a avenida interditada para o comício. Formamos, então, uma operação de guerra, com militantes passando fios para lá e para cá, no meio da avenida, e sem que ninguém entendesse o que estava ocorrendo. Os militantes sabiam que se tratava de uma faixa, mas só uns poucos sabiam ou queriam compreender aquele complexo esquema de laços e nós. A garra e a confiança bastavam. Puxavam daqui e esticavam acolá, conforme fossem as instruções. Sem celular, as instruções eram dadas como comandos, aos gritos e por sinais, em meio a uma multidão que já se deslocava para o comício e alguns curiosos que assistiam. E a faixa subiu linda, ainda dia claro, sob aplausos e abraços. Resistiu bravamente ao vento durante todo o comício e podia ser vista desde a Candelária. A sua foto é uma grata lembrança.

O comício teve a presença estimada de mais de cem mil pessoas, e no segundo turno as forças de esquerda agregaram-se num embate (que foi perdido) contra o Collor, representante da direita. Mas, a partir daqui já é História do Brasil. 

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segunda-feira, 20 de maio de 2013

O deputado, um chulo. Os militantes, uns sacanas.



Crônicas de militante

Para convencer Constituintes de 1988 a votarem em favor da anistia dos trabalhadores que participaram de greves, uma das tarefas era abordá-los nos corredores do Congresso Nacional quando se dirigiam ao Plenário, especialmente nos dias de votação dos temas de maior destaque. Naqueles dias eles se deslocavam em grupos, exibiam-se para fotógrafos, faziam-se simpáticos e, geralmente, não rejeitavam abordagens. Mas, não era assim todo o tempo. Em grupos menores, nos seus gabinetes, sentindo-se seguros e poderosos, eles mostravam quem eram, mesmo que não assumissem explicitamente quem estavam representando. Brilhantes, medíocres, sinceros, dissimulados, humildes, arrogantes, batalhadores, coçadores, tinha constituinte de todo o tipo – nenhum bobo. Muitos medíocres, mas espertos.

Um deles odiava os sindicatos. E a CUT parecia ser a sua inimiga maior. Ele conhecia bem a campanha da anistia, sabia sobre o trabalho que estávamos fazendo e frequentemente cruzava com a moçada que estava distribuindo cartazes, visitando os gabinetes etc. Ele tinha um pavio curto e fez fama assim, de brigão, troglodita. Aliás, até representava este papel em um programa popular de TV de audiência nacional e que foi o trampolim para sua eleição.

Ao passar por nós ele não conseguia se controlar. Sem constrangimentos, em tom alto que garantisse que estávamos ouvindo, mas não o bastante para comprometê-lo, considerando que era o corredor do Congresso Nacional, ele vociferava: Vocês não me enganam! Se fazem de santinhos, mas é tudo agitador! Tudo da CUT! Querem anistia, né? Não vão ter anistia porra nenhuma, todos vão se fuder! Vou botar na bunda de vocês! E os gritos eram acompanhados de gestos. Usando o polegar e o indicador mostrava-nos orifícios, mas não era um Ok. Também nos brindava com uns “Top, Top” batendo a palma de uma das mãos sobre o punho fechado da outra. Na época ainda não havia na linguagem brasileira de sinais pornográficos o apontamento para cima do dedo médio, gestual que foi incorporado, mais tarde, dos americanos.

 Acontecia que entre os militantes também tinha gente de todo o tipo, felizmente. Alguns queriam brigar, partir pra cima do deputado, e isso era tudo o que ele queria. Outros engoliam a raiva. E havia militantes sacanas, provocadores, que faziam questão de botar pilha no deputado, de bater palmas para ver o maluco dançar. Ao cruzar com o deputado, uma troca de olhares, um cumprimento irônico, uma risada fingidamente abafada era o que bastava. O cara surtava. Nos dias em que o nosso ânimo estava baixo era até um divertimento quando esta cena acontecia. Mesmo com a crítica da coordenação que cuidava para o trabalho não desandar com a ultrapassagem de limites na brincadeira.

O melhor ocorria nos dias de grande movimentação nos corredores. Nestes dias o deputado baixava o facho. Não era burro e sabia de suas limitações. Os militantes, por sua vez, tratavam-no como aos demais. Apresentavam-se, informavam que estavam ali para buscar o voto favorável dos mesmos, solicitavam a permissão para afixar cartazes da campanha nas paredes externas dos seus gabinetes, pediam autorização para afixar um adesivo em suas lapelas, além do tradicional gesto da mão no ombro ao caminhar, uma oportunidade para colar um adesivo nas costas do deputado sem que ele percebesse. Assim, o parlamentar chulo circulou muitas vezes pelo Congresso exibindo adesivos da campanha pela anistia dos trabalhadores que ele odiava, e era alvo de chacotas, como ocorre nas brincadeiras de rabiola entre garotos nas escolas, até que algum dos seus pares ideológicos o alertasse.

Conquistamos a anistia e o deputado seguiu seu caminho, inglório e vergonhoso. Suas pragas e esconjuros viraram contra si próprio. Membro da “tropa de choque de Collor” e réu confesso no caso “mensalão”, teve o seu mandato cassado em 2005 por quebra de decoro parlamentar.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Fazendo queixas ao bispo


Crônicas de militante


Em 2013 o cardeal católico D. Paulo Evaristo Arns, símbolo da luta em defesa dos direitos humanos, completará 92 anos de idade, e foi com ele, ainda com 68 anos, que tivemos a oportunidade de conversar em audiência, eu e mais dois companheiros. Estávamos empenhados em denunciar, por todos os meios possíveis, a postura do ministro das Comunicações que se recusava a cumprir a anistia constitucional dos empregados do setor. Assim, a manifestação pública de uma autoridade como o cardeal Arns seria importante para os nossos objetivos. Com a intermediação de um parlamentar que tinha base em comunidades católicas conseguimos uma audiência, e lá estávamos, numa tarde de julho de 1989, na antessala do cardeal, em S. Paulo, aguardando e observando outros que também esperavam. Brasileiros e estrangeiros.  Alguns religiosos, outros não.

O encontro pessoal com o cardeal Arns reafirmou a imagem pública que conhecíamos. Ele nos recebeu com uma cortesia, afetuosidade e atenção que foi  além das nossas expectativas, ouvindo-nos sem demonstrar gestos de impaciência ou intolerância, e logo manifestou solidariedade e compromisso de ajuda, embora com um alerta. Disse-nos que tinha dúvidas se o seu engajamento seria positivo ou negativo para os nossos propósitos, considerando que ele também era um alvo das ações e posturas negativas do então Ministro das Comunicações.

O cardeal relatou-nos a situação da Rádio 9 de Julho, uma concessão do presidente Kubitscheck à Arquidiocese de São Paulo, feita em 1955, que cobria todo o estado, além de outros do país, muitos países latino-americanos e alguns países nórdicos europeus com grande audiência e repercussão. A concessão foi cassada em 1973, pelo governo Medici, face aos seus posicionamentos em defesa dos direitos humanos e denúncias de arbitrariedades do regime militar tais como a supressão das garantias individuais, as prisões política, torturas, desaparecimento de pessoas, etc.

Segundo o cardeal, a devolução da concessão teria sido um compromisso do falecido presidente Tancredo Neves, mas que não foi cumprido pelo ministro Antônio Carlos Magalhães e o presidente Sarney que lhe ofereceram, em contrapartida, uma emissora em Cotia cujo sinal nem chegava a São Paulo e que ele (o cardeal) declinou. Com outros relatos e nos dedicando um tempo generoso de sua agenda, o cardeal informou-nos que conversaria com os seus assessores sobre como poderia colaborar e assim o fez. Sabíamos desde o início das dificuldades do cardeal que já enfrentava batalhas em seus próprios domínios. O Papa João Paulo II, para reduzir a influência religiosa e política do cardeal, havia recentemente dividido a diocese de São Paulo em cinco novas dioceses. Ainda assim, alguns dias após a audiência, recebemos a notícia de uma carta da Arquidiocese, cuidadosa, mas exortando o Ministério das Comunicações para o cumprimento da Constituição no que se referia à anistia dos trabalhadores de Telecom.

A Rádio 9 de Julho só foi devolvida à Arquidiocese em 1996, no governo FHC, e foi também neste ano que o cardeal Arns, com 75 anos, apresentou sua renúncia e recolheu-se ao silêncio, de onde não saiu, nem mesmo para as celebridades de comemoração dos seus 90 anos.

Guardo este encontro como inesquecível, a oportunidade de conversar com um militante exemplar que, em 1973, ao ser nomeado bispo, vendeu o Palácio Episcopal, que seria a sua residência,  e com a grana financiou núcleos comunitários na periferia de S. Paulo; que denunciou e reclamou sobre a tortura diretamente no gabinete do ditador Medici, que de lá praticamente o expulsou, irritado, dizendo que o seu lugar era na sacristia; que abriu a Sé, em São Paulo, em 1975, para um culto em memória do jornalista Wladimir Herzog .

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Um grande susto e uma boa corrida


Crônicas de militante

Promover uma greve geral não é fácil. Enfrenta-se o patrão e sua segurança privada; o governo que via de regra confunde-se com o patrão e mobiliza as forças de segurança pública; a alienação de trabalhadores que não relacionam suas dificuldades com a necessidade de sua mobilização e capacidade de reação; as categorias não se relacionam como classe. Além do mais, há que atuar especificamente junto aos pontos que funcionam como símbolos, como estandartes de mobilização das lutas  No Rio de Janeiro, por exemplo, uma greve geral não se caracteriza se não pararem os ônibus urbanos.

Mesmo forte e com adesão expressiva, simbolicamente, a greve com ônibus rodando não será considerada greve. E com esta avaliação, patrões e governo usam todos os recursos para colocar os ônibus nas ruas, e os grevistas para pará-los. E parar um ônibus que já começou a circular, só com uso do miguelito, uma peça formada por dois pedaços de vergalhão de 8mm, de 12 a 14 cm cada, as pontas chanfradas para facilitar a perfuração, dobrados em L, unidos e soldados pelas alças dos L. Em qualquer posição que seja deixado, o miguelito sempre ficará apoiado em um tripé com uma das 4 pontas para cima, em posição ideal para arriar um pneu.

Mobilizados para o sucesso da greve geral de março 1989, convocada pela CUT e a CGT, contra o Plano Verão, saímos logo nas primeiras horas do dia para avaliar a mobilização e a paralisação dos rodoviários, uma categoria com uma história sindical complicada. O dia precisava amanhecer com cara de greve, ou seja, sem ônibus circulando. Os piquetes nas empresas de ônibus precisavam ser efetivos e os miguelitos precisavam cumprir a sua função junto às unidades com fura-greves que insistissem em circular.

Estávamos no subúrbio e avistamos um ônibus parado, em um ponto não convencional, possivelmente aguardando para começar a rodar. Aproximamo-nos para abordar o fura-greve, tentar convencê-lo a parar e, naturalmente, para posicionar convenientemente alguns miguelitos como precaução para um insucesso no convencimento. Batemos na lataria do ônibus anunciando a nossa chegada e caminhamos para as portas. Foi quando o ônibus, que parecia vazio, iluminou-se e ficou cheio de PMs. Policiais que não avistamos porque estavam escondidos ou porque descuidamos de verificar. O fato é que não deu para compreender o que acontecia e ninguém ficou para esclarecer. O ônibus criou vida, como uma colmeia atiçada, com abelhas fardadas descendo para nos encher de porrada. E nós ... corremos. Muito! O instinto apontava a direção e o medo dava energia. Felizmente, os instintos e medos, meus, de um companheiro e de uma companheira, os três telefônicos, estavam em sintonia, o que nos permitiu correr na mesma direção. Os demais dispararam, sei lá para onde.

A corrida da nossa companheira foi prejudicada por uma dificuldade respiratória, mas tivemos energia suficiente para puxá-la, de braços dados, e disparamos por ruas que não conhecíamos, entramos em quintal de residência e nos escondemos. Algo impossível nos dias atuais. Para sorte nossa, a polícia estava designada para proteger os empresários e suas frotas, não era um pelotão de extermínio como os noticiados hoje. E a nossa tática naquele momento, revolucionária, foi correr, esconder, e esperar para retornar quando o ambiente acalmasse.

Não vimos se o ônibus colmeia chegou a ser abatido. Logo que foi possível saímos dali e partimos para outras tarefas. Mas, os demais ônibus pararam, assim como o metro e os trens. Ao fim de dois dias de greve o Jornal do Brasil estampou em primeira página uma foto da Presidente Vargas, desde a Central até a Candelária, completamente vazia de ônibus. Uma greve geral vitoriosa, a maior do país, até hoje, com uma adesão estimada de cerca de 35 milhões de trabalhadores. Valeram o susto e a corrida.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

O afago do senador

Crônicas de militante


Era ano de Congresso Constituinte – 1988. Vários de nós, empregados em empresas estatais, estávamos em Brasília trabalhando no convencimento dos parlamentares para a aprovação da proposta de anistia aos trabalhadores de empresas estatais demitidos pela participação em movimento grevista. Alguns eram voluntários dedicando suas férias ou folgas em prol do movimento, outros eram dirigentes ou representantes sindicais liberados, e outros eram os próprios demitidos, aqueles que se dispuseram a participar da base de atuação montada no Congresso Nacional pelas entidades de categoria formando o “Comitê das Estatais”.

O convencimento ou lobby não era simples nem agradável. Tínhamos que abordar, tentar conversar e convencer a votar em favor da anistia justamente os parlamentares conservadores, a maioria deles representantes dos grupos ou das causas que motivaram as greves. Eles, por sua vez, sabiam que a parte maior dos que os abordavam eram figuras de destaque, cabeças ou lideranças dos movimentos grevistas em suas empresas nos diversos estados do Brasil, militantes ativos no movimento sindical e também nos diferentes partidos de esquerda.

Certo dia, a nossa missão era abordar um parlamentar ex-militar, liderança no golpe de 64, um destacado constituinte, senador de um partido da direita, que sabia bastante sobre a militância de esquerda e suas representações, seus inimigos, em especial a CUT.

Fomos recebidos com respeito e cordialidade, e ouvidos com atenção. O senador  fez algumas ponderações e contestações sobre como ele via o histórico da nossa atuação, sempre procurando algum elemento ou motivação que permitisse nos despachar sem contradizer a sua fama de, embora conservador, democrata.

Para o senador aquela também não era uma tarefa simples. Nossa abordagem era cuidadosa, identificando-nos com a causa da anistia, sem referências ideológicas ou partidárias. Não dávamos motivos para ele nos despachar. Éramos representados pelos colegas mais experientes e julgados com melhor preparação para as abordagens dos parlamentares considerados especiais pela sua representatividade política no congresso ou no seu partido.

Conversa vai e vem, transmitimos a nossa mensagem. O senador foi cordial todo o tempo com os jovens rebeldes. Com um braço sobre os nossos ombros nos dava tapinhas camaradas nas costas enquanto com a mão aberta do outro braço afagava carinhosamente o nosso peito entre a camisa e o paletó. Parecia um conselheiro mais velho orientando um jovem querido, um filho, sobrinho ou parente próximo.

Sabíamos porém que a raposa buscava os nossos broches de militância, do sindicato, da CUT ou do partido. Ele sabia que estava falando com militantes mais experientes, que era nossa prática ostentar estes adereços e que possivelmente estariam escondidos sob o paletó durante a entrevista.

Felizmente esta situação era prevista, aliás, justamente por conta destas situações a nossa organização determinava quem deveria ser abordado, por quem e, se possível, quando isto deveria ocorrer, Mesmo assim, nesse dia foi por um triz. O meu companheiro estava com uma estrelinha do PT na parte inferior do paletó. Por sorte, bem no fundo, quase no sovaco, e o senador não detectou.

A visita valeu. Depois o senador recebeu outras visitas e foi talvez a figura principal na defesa da nossa proposta de emenda que foi vitoriosa e anistiou os demitidos das estatais, entre eles, nós, os demitidos do setor de Telecom.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Um ministro malvado e uma categoria marrenta



Crônicas de militante


No Brasil pós-ditadura vivenciamos uma situação - estranha – para não rebuscar outros adjetivos. Saímos de um processo constituinte com um presidente – Sarney – e um ministro das Comunicações – ACM. Uma amostra clara que um sistema ditatorial pode cair, mas dependendo de como este processo ocorre a ditadura e suas representações podem não desaparecer imediatamente do cenário social. Situação quase desanimadora.

E, naturalmente, o ministro não deu a menor trela para cumprir a anistia constitucional dos empregados demitidos por participações em greve. Todos os setores cumpriram Constituição, menos o setor de Telecom. Não bastou o tanto que lutamos para garantir a Anistia, foi preciso, ainda, recorrer à justiça para garantir o cumprimento da Lei. Mas, como diz a sabedoria popular sobre os antagonismos entre deuses e demônios: se um tira os dentes, o outro alarga a goela. Assim, se as circunstâncias determinaram alguém com alcunha de malvadeza para mandar em um setor tão importante como as Telecom brasileiras, elas também determinaram uma categoria de trabalhadores com uma inusitada consciência da sua importância e do seu papel político e que nunca curvou a cabeça nem se deixou confundir com a figura do ministro do setor.

 Após idas e vindas à Justiça do Trabalho que duraram cerca de sete meses após a promulgação da Constituição, conseguimos, em 28 de abril de 1989, uma ordem judicial para a nossa readmissão na Embratel, uma alegria que durou pouco. Fomos encaminhados para exames de saúde admissionais e, antes mesmo de completá-los, a empresa conseguiu sustar a ordem judicial fazendo-nos retornar à luta por uma nova liminar que só foi obtida em junho de 1989. Porém, dessa vez seria diferente. A nova decisão, para evitar a manobra anterior da Empresa, mandava que retornássemos diretamente aos nossos postos de trabalho e que “... as eventuais rotinas burocráticas para a readmissão...” fossem procedidas sem prejuízo da permanência em nossos postos “... sob pena de desobediência (Rio, 16.06.89)”.

Não alardeamos a obtenção da nova liminar. Tratamos de saber exatamente quando a empresa seria intimada e nos organizamos para esse dia. Providenciamos um carro de som e nos  certificamos da presença do diretor administrativo em sua sala no dia e horário previstos para a intimação. Monitoramos as saídas laterais do prédio para detectar uma possível evasão do diretor e, com as informações em mãos, o oficial de justiça entrou e fez valer a decisão da juíza. Era início do horário de almoço e, providencialmente, os advogados da empresa estavam todos almoçando, sem fazer ideia do que ocorria. O diretor, uma figura medíocre para o cargo que ocupava e que se escudava nas suas relações serviçais com o ministro, sequer teve a quem recorrer. E foi uma festa! No mesmo instante da intimação o carro de som anunciou o que estava ocorrendo no andar da diretoria. Os colegas que sabiam do assunto iniciaram uma chuva de papel picado acompanhados por outros empregados que ainda estavam no interior do prédio. Os que entravam e saiam para o almoço agitaram a portaria principal da empresa. O corredor do andar onde eu e outro companheiro anistiado trabalhávamos encheu de colegas aguardando-nos chegar e sermos levados até os nossos postos, às 13 horas do dia 22 de junho de 1989 como o oficial de justiça lavrou nos autos, um retorno com nove meses de atraso. E a festa se repetiu no retorno de cada um dos anistiados aos seus respectivos postos.

Foi uma grande vitória. Não dos anistiados, mas do movimento dos trabalhadores, particularmente dos empregados da Embratel que engoliu o constrangimento da derrota e deixou de questionar o nosso retorno. Cada encontro no interior da empresa era acompanhado de abraços, de comemorações, de orgulho e também de reflexão sobre o que havíamos conquistado. Almas lavadas após um ano e sete meses de lutas desde as demissões.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O lixo da categoria


Crônicas de militante


Fazer piquete de greve na Rua Alexandre Mackenzie era um desafio. Eram dois prédios na mesma calçada, um da Embratel e outro da Telerj. Dois prédios operacionais onde os trabalhadores se revezavam em turnos de 24 horas. Eram poucos, mas não parava de entrar e sair gente. Os maiores contingentes eram os de telefonistas. No prédio da Embratel as telefonistas internacionais e no prédio da Telerj as telefonistas do serviço interurbano conhecido como 102. Havia telefonistas de ambos os sexos, mas usávamos o feminino, as telefonistas, porque as mulheres eram maioria absoluta.

As telefonistas internacionais da Embratel eram engajadas no movimento sindical e até mais avançadas que os demais trabalhadores da empresa. Jovens e universitárias em sua maioria, com outros projetos de carreira, o emprego de telefonista era uma circunstância favorável na medida em que a carga horária e os turnos permitiam que desenvolvessem outras atividades. O mesmo não acontecia com as telefonistas do 102, da Telerj. Estas eram em maioria senhoras com muitos anos de casa, muitas no limiar da aposentadoria, e acostumadas a uma relação de subserviência total à estrutura da empresa e aos seus supervisores que atuavam como verdadeiros capatazes numa relação sem qualquer respeito para com as mesmas.

Os dias de greve eram dias de crise com as telefonistas do 102. As greves eram decretadas a partir da meia noite quando, então, formavam-se os piquetes. Na Mackenzie, já sabíamos que no início da madrugada elas começariam a aparecer querendo entrar de qualquer jeito.

As primeiras apareciam na esquina da rua Mal. Floriano com a Mackenzie, e quando identificavam os piquetes elas reduziam o passo e aguardavam a chegada de outras colegas. Quando em número bastante para se sentirem fortalecidas caminhavam em direção à portaria, encolhidinhas, uma atrás da outra, acossadas pelos supervisores que, de dentro do prédio, faziam ameaças veladas pelas janelas. Jogavam-se contra os piquetes, era um caso sério. Bate boca, discursos de convencimento, ofensas, sem contar que algumas vinham acompanhadas por maridos, filhos etc. que se integravam ao conflito com os piquetes.

Certa vez, um grupo de estivadores do Porto do Rio de Janeiro estava dando um “apoio” ao movimento dos trabalhadores de Telecom e participando do piquete de greve. O tal “apoio” tornou-se um problema adicional porque, além de tratar dos fura greve, tínhamos que conter os piqueteiros estivadores que não entendiam a nossa atitude de fazer discursos de convencimento dos fura greve. Para eles fura greve deveria ganhar porrada, afinal para isto o piquete estava ali. Porém, como eles eram um grupo de apoio, mesmo a contragosto acatavam os nossos procedimentos e buscavam algum mecanismo para  viabilizar aquele piquete estranho e, na visão deles, tão delicado.

Na Mackenzie, diante o comportamento das telefonistas da Telerj, os estivadores pegaram os latões de lixo que ficavam na calçada e cuja coleta ocorreria pela manhã e despejaram uma montanha de lixo na portaria, deixando um único cantinho livre para quem quisesse sair do prédio. Adicionalmente, esticaram um fio de barbante com várias baratas penduradas, vivas e mortas, todas que conseguiram recolher ao revirar o lixo, de maneira que, quem quisesse atropelar o piquete teria que chafurdar no lixo e ultrapassar a barreira de baratas. Foi um caos. Uma comédia que fez aquele piquete inesquecível.

Pela manhã, após inúmeras cenas envolvendo tombos, lixo, brigas e  baratas, chegou o caminhão para fazer a coleta de rotina do lixo. Os lixeiros foram repelidos sob ameaça de um confronto. Recolher o lixo seria um boicote ao movimento dos trabalhadores de Telecom .  Afinal, aquele lixo pertencia à categoria!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Atrevida! Nem pediu licença.


Crônicas de militante


A ideia de formar uma associação de empregados não era nova. Tínhamos alguns relatos de iniciativas anteriores e sem sucesso. Numa empresa nascida e criada no ambiente autoritário do regime militar, qualquer iniciativa que alterasse o fluxo hierárquico era indisciplina, e ponto final. Entretanto, os tempos eram outros e também eram outros os que estavam ali, em 1984, conversando sobre o país, sobre suas possibilidades e sobre suas questões, entre elas o sistema estatal, o setor de Telecom e a Embratel.

Uma ação organizada dos empregados era necessária. Sindicato era uma palavra completamente estranha para os empregados. Cooperativa para a aquisição vantajosa de produtos e serviços era uma ideia que agregava. As investidas de grupos internacionais para as privatizações já era um fato e uma das preocupações. Quais seriam as reações diante da nossa iniciativa? E os demais empregados, o que pensavam? Afinal, a relação da empresa com os seus empregados era um dos principais assuntos motivadores da ideia de associação.

As reuniões prosseguiam, desde 1982. Algumas esvaziadas, outras concorridas. Umas sem conflitos, em outras quase luta corporal. As convocações eram boca-a-boca, sem alardes. Aconteciam após o expediente, ora em salas da empresa, ora no sindicato dos engenheiros e, nos últimos tempos, na Associação de Empregados da Eletrobrás, criada em abril de 1983, e que funcionou como uma espécie de madrinha do algo que ainda estava em gestação.

A primeira deliberação significativa foi colocar a cara na rua, em uma panfletagem na porta dos prédios com uma pesquisa consultando a opinião dos empregados sobre a formação de uma associação. Hoje parece que foi uma brincadeira de criança, mas há 30 anos foi um atrevimento. Um tempo em que muitos empregados encolhiam-se com receio de estender a mão e receber um panfleto na porta da empresa. A pesquisa mostrou uma aprovação quase unânime da ideia e, ato seguinte, realizamos uma convocação pública para discutir o assunto em uma reunião aberta, verdadeiramente ampliada em relação ao grupo original de militantes.

A presença na reunião ampliada foi enorme. Os participantes entusiasmados, um reflexo da agitação que tomou conta de muitos ambientes da empresa em decorrência dos panfletos com a pesquisa, com o seu resultado e com a convocação para a reunião. Mais tarde soubemos que o reflexo estendeu-se até a diretoria onde se discutiu a demissão dos “responsáveis”.

A pauta da reunião era prosseguir com o debate sobre a formação de uma associação, agora com a expectativa de um quorum bem superior aos das reuniões anteriores. E a reunião transcorria dentro do planejado: histórico das reuniões preliminares, possibilidades de encaminhamentos, dúvidas etc. Porém, aconteceu um momento mágico. Um dos colegas presentes, que nem fazia parte do grupo que vinha se reunindo até ali, um antigo, conhecido e respeitado empregado, de idade que era mais avançada que a nossa, cuja média ainda estava entre 30 e 35 anos, solicitou a palavra e com brevíssima exposição de motivos atropelou a pauta, afirmou que não devíamos perder tempo, e propôs que fundássemos ali, naquele momento, a nossa associação. Foi o que bastou. Uma gritaria e palmas tomou conta da sala aclamando a proposta que determinou o nascimento da Associação de Empregados da Embratel no Rio de Janeiro, batizada temporariamente como Associação de Funcionários.

A nossa associação já nasceu de um gesto de subversão da ordem, não pediu licença, e a sua história iria mostrar que foi bem nascida. Saímos da reunião orgulhosos. Era noite de segunda-feira, 09 de abril de 1984, data de aniversário de um dos nossos companheiros, militante desde as primeiras horas. Fomos para casa porque no dia seguinte, 10 de abril, outra tarefa importante nos aguardava: o comício das Diretas Já, na Candelária. A AEBT já se fez presente.

sábado, 30 de março de 2013

Sobre o filme Argo. Argh!!

Leituras para distrair


Durante o governo do presidente Carter, dos EUA, no episódio da invasão da embaixada americana no Irã, nos anos 1979/1980, logo após a deposição do Xá Rezha Pahlevi na revolução que levou o Aiatolá Khomeini ao poder, seis americanos refugiaram-se na embaixada canadense, sem o conhecimento dos iranianos que mantiveram cerca de 60 reféns na embaixada americana invadida.

A Central de Inteligência Americana – CIA elaborou e realizou um plano de resgate dos seis americanos simulando uma produção canadense de um filme de ficção científica que seria chamado Argo e rodado no Irã, um campo de pouso de naves extraterrestres do filme.

Para tal, a CIA montou uma produtora, elaborou roteiro, script etc. Simulou uma visita de locação das cenas para filmagens, obteve autorização dos iranianos e um dos seus agentes fazendo-se de membro da equipe de produção, foi ao Irã levando falsos documentos para viabilizar a fuga dos abrigados na embaixada canadense como se estes fossem os demais membros da equipe de filmagem.

A fuga foi um sucesso. Os canadenses assumiram a responsabilidade pelo ato e omitiram o papel da CIA para não prejudicar a vida dos reféns mantidos na embaixada americana e que permaneceram lá por mais de um ano.  Anos mais tarde, a história real veio a público revelando o papel da CIA, dos resgatados etc.

Este é o roteiro do filme – Argo - ganhador do prêmio Oscar 2013. Um grupo aprisionado em algum lugar hostil aos EUA, em circunstâncias que tornam quase impossível a sua libertação, é resgatado por um mocinho ou uma equipe de heróis a partir de uma ação corajosa e um plano ousado de fuga.  Quantas vezes já se produziu um filme assim?  Para mim é um filmeco, com um roteiro batido e rebatido. Não comento os demais aspectos que caracterizam as obras de cinema porque estes eu não saberia julgar. Não entendo da arte, nem valorizo. Os filmes me ganham pelo roteiro e, declaro, não sou muito exigente. Gosto de filmes de aventuras, sem pretensões, e Argo é filminho tipo Rambo, sem a tradicional violência explícita do personagem baixinho e machão de uma série que já deve estar no Rambo XXXVII.

Mas, essa preliminar é apenas para abordar ou manifestar o meu assombro com o que chamo de “cinema americano” sem maior rigor na definição. Refiro-me ao produto divulgado internacionalmente, produzido em estúdios possivelmente hollywoodianos e que mantém a indústria multimilionária do cinema.

O meu espanto e, até, admiração é a capacidade do cinema americano produzir aventuras, proezas e heróis também americanos, a partir de situações onde a participação Estados Unidos foi em realidade a mais escabrosa e indecente. É muita cara de pau!

Não estou falando de um falseamento da realidade ou mistificação de fatos. Não tenho a expectativa que uma obra comercial americana se transforme em um instrumento de resgate histórico ou um documentário que contradiga ou conteste as referências políticas daquela sociedade, embora isso possa ocorrer em circunstâncias especiais.  Também não me surpreendo com a existência de filmes que enalteçam a CIA, outros aparelhos ou instituições que caracterizem a sociedade americana. Refiro-me a um processo ou mecanismo que se transformou em uma habilidade, quase uma excelência. A capacitação do cinema americano em apresentar roteiros com um descaramento e desconsideração crítica que parece ultrapassar a ideologia e que nem mesmo se preocupa em ocultar os fatos.

O próprio filme relata, embora este não seja o foco, o papel dos EUA nos acontecimento do Irã, no golpe que levou o Xá ao poder, e na sustentação e apoio à sua ditadura torturadora e corrupta. O filme não omite o empenho americano em salvar a pele do Xá quando este foi derrubado. Fala sobre a fortuna em ouro levada pelo Xá quando este fugiu do Irã. O filme fala sobre a população com história de familiares perseguidos, torturados e mortos pelo aparelho de estado iraniano apoiado pelos americanos.  Fala sobre o motivo da revolta, invasão da embaixada e sobre captura de reféns americanos com o propósito de forçar os EUA a extraditarem o Xá para ser julgado. Enfim, tudo isto está lá, no filme.

Porém, ainda assim, sinto-me parvo, imbecil, ao ver que os caras tem o descaramento de contar a história sob uma ótica e com símbolos que invertem completamente os papéis. Barbas opulentas, vozes exaltadas, grosseria no trato com as pessoas, sugerem um povo iraniano de insanos e radicais fanáticos contrastados com americanos dóceis, gentis e, por uma empatia induzida pelo filme, inocentes.

Os agentes da CIA, por sua vez,  são personagens comprometidos em salvar o modo americano de vida ao mesmo tempo em que “humanamente” tratam os seus problemas pessoais e familiares. O filme tem até a tradicional cena de euforia do pessoal que participa nos bastidores da missão, dando suporte e na monitoração dos acontecimentos. Mostra uma retaguarda tensa e ansiosa com o desfecho que, quando ocorre, provoca lágrimas, abraços efusivos, cumprimentos e aqueles olhares cúmplices e comprometidos entre os que estão em pontos distantes dentro do mesmo ambiente.  Caralho!  Acho que literalmente todo o mundo já assistiu filmes com estas cenas.

O que chama a minha atenção, que me apalerma, não é o fato de serem peças medíocres ou de valorização de uma ação política com da qual discordo. Fico perplexo com o cinismo desavergonhado e com o investimento num descaramento cujos resultados positivos para os objetivos propostos não se pode negar.

Felizmente não precisei aturar o cheiro insuportável de pipoca nem a visão daquelas pessoas com caras retardadas deslocando-se na sala de cinema e tropeçando ao olhar para cima tentando identificar os acompanhantes, carregando os enormes baldes de pipoca e copos de coca – cola cujos restos e respingos garantirão a frequência e aumento da quantidade das baratas que habitam as salas de projeções (as notícias informam que a sobrevivência dos bichinhos já está assegurada pela natureza até mesmo no caso de explosões nucleares).

Assisti ao filme no ambiente higiênico e confortável da minha casa, numa sessão de TeleCine, e confesso sem constrangimentos: em vários momentos me vi torcendo pelos mocinhos da CIA, contra os bandidos da gangue do Aiatolá. Mas, não sinto culpa. Isto já aconteceu em filmes sobre o resgate de reféns na A. Latina, no Vietnã e até mais recentes, no Iraque e Afeganistão. No filme não tem problema. Desejo que eles se fodam na realidade.

Cachaça e cachaçólogos

Leituras para distrair



Volta e meia recebo  cópias de um texto descrevendo o que teria sido a origem da cachaça ou da pinga. O texto fala da condensação de vapores que pingavam nas costas dos escravos que trabalhavam nos engenhos e blá, blá, blá, uma história que se junta às demais lendas da internet. Entretanto,  valorizo a consideração de colegas que se lembram de mim e até dedicam tempo no repasse da informação, perguntam se eu já conhecia etc.

São gestos de consideração que agradeço e, com esse entendimento, tento retribuir enviando os registros de uma discussão (nada cordial) ocorrida a partir de um artigo sobre a Cachaça publicado pela Revista de História da Biblioteca Nacional.

Um leitor do artigo, o jornalista Marcelo Câmara, contestou e questionou alguns pontos do mesmo e enviou carta à revista. Três meses após o envio da carta a revista publicou o que seria uma reprodução parcial da carta junto com uma réplica dos autores do artigo: Luciano Figueiredo e Marcelo Scarrone.

Entendendo que a réplica continha tentava  desqualificá-lo frente ao status de “historiadores” dos autores do artigo, o jornalista Marcelo Câmara encaminhou uma tréplica que não foi publicada pela revista.

O assunto não é recente, data de 2008. E os textos eu copiei do site Amigos da Cachaça cujo acesso eu recomendo. O último texto inclui uma “abertura” que também foi copiada do site.

O site faz (ou fez) uma defesa dos posicionamentos do jornalista Marcelo Câmara que é um estudioso do assunto, um cachaçólogo, que eu já conhecia por artigos e livros. Uma particularidade deste jornalista é a sua opinião sobre as cachaças fabricadas em Paraty, no Rio de Janeiro, bem como a sua preferência pela pinga Coqueiro, aliás, uma preferência que compartilho.

De qualquer forma,  ganharam os demais leitores que já tiveram ou que vierem a ter a oportunidade de ler os textos – uma saudável distração que eu recomendo aos que apreciam a “marvada” seja em seus aspectos culturais ou organolépticos.