domingo, 14 de outubro de 2012

Greve da Vicom – 25 anos. Uma data para ser celebrada


A greve da Vicom foi determinante para a história das telecomunicações no Brasil. Como fato histórico será, naturalmente, sujeito a versões diferentes na sua narrativa e interpretação. Esta é uma narrativa a partir do olhar, privilegiado, de um dos tantos militantes na organização que foi um dos protagonistas especiais nos acontecimentos relatados, a Associação de Empregados da Embratel no Rio de Janeiro – AEBT-RJ, hoje extinta.

Neste mês, nos dias 22 e 23 de outubro de 2012, um fato histórico no setor de telecomunicações no Brasil completará 25 anos: a Greve da Vicom.

A greve da Vicom foi uma reação dos trabalhadores da Embratel, ainda uma empresa estatal, que contestaram a assinatura de um contrato ilegal entre a empresa e um consórcio formado pelos grupos empresariais Bradesco, Globo e Victori Comunicações – Vicom, que permitiria ao consórcio explorar um serviço de comunicação de dados, via satélite, embora a exploração de tais serviços fosse uma prerrogativa exclusiva Embratel estabelecida na própria lei que criou a empresa[1].

A diretoria da Embratel assinou o contrato em 14 de outubro de 1987, vésperas do presidente da empresa, Pedro Jorge Castello Branco, deixar o cargo e viajar para os Estados Unidos onde assumiria outro posto do Ministério das Comunicações.

Logo que tomaram conhecimento da assinatura do contrato, os empregados da Embratel promoveram manifestações públicas em todo o país que culminaram em uma greve de âmbito nacional e com a adesão de praticamente todos os trabalhadores, incluindo a alta gerência da empresa. A diretoria executiva da Embratel, a esta altura liderada pelo vice-presidente, ficou completamente isolada.

Pressionado pelo movimento dos trabalhadores, que deflagraram a greve e fizeram um ultimato ameaçando a paralisação total dos serviços caso o contrato não fosse revisto, o Ministro das Comunicações, Antonio Carlos Magalhães, determinou, num primeiro momento, a sustação do contrato, porém o ato seguinte foi a anulação do mesmo.

Os principais jornais do país  repercutiram nacionalmente o movimento. A  revista Veja chegou a reportar o fato em três edições. A primeira matéria (edição 999) foi em uma coluna com o título “Uma greve insólita”. No número seguinte, edição 1000, havia uma matéria paga, de página inteira, assinada pela Victori Comunicações, com o título “Esclarecimento sobre o contrato com a Embratel”. Na edição 1002, em duas páginas centrais ilustradas com fotos, o assunto foi reportado novamente com o título “O soviete da Embratel”. Um trecho da matéria avaliava “.. se depender da disposição do Ministro Antonio Carlos o soviete que surgiu dentro da empresa tem seus dias contados.”

Com o contrato anulado, o Ministério das Comunicações refreou temporariamente suas iniciativas para a privatização dos serviços, mas o ministro não tardou em fazer retaliações. Nas semanas seguintes à anulação do contrato ele demitiu a diretoria da Embratel por sua condescendência com os grevistas[2] e, dois meses depois, em 11 de dezembro do mesmo ano, 1987, durante a greve da campanha salarial da categoria, ele demitiu empregados em todas as empresas do grupo Telebrás e também nos Correios.

Entre os demitidos estavam alguns dirigentes da Associação de Empregados da Embratel no Rio de Janeiro, entidade que teve um papel fundamental no na Greve da Vicom.


Privatização, não, sô!
O caso Vicom não foi um fato isolado. O contrato ilegal foi parte de uma sequência de acontecimentos que vinham ocorrendo desde o ano anterior como parte das pressões para a privatização das telecomunicações brasileiras[3] e que contavam com a colaboração de autoridades no Ministério das Comunicações.

Desde o início de 1986, mais de uma ano antes da greve, eram cada vez mais frequentes as notícias sobre iniciativas para a quebra do monopólio e sobre a acolhida que elas encontravam no Ministério das Comunicações.

Manifestadamente contra estas iniciativas estavam os empregados da Embratel, incluindo a gerência intermediária da empresa[4].

Os empregados da Embratel, àquela altura, já estavam mobilizados numa campanha para que o monopólio estatal das telecomunicações, então determinado por uma lei ordinária, fosse estabelecido de forma definitiva na Constituição que também era um assunto em debate. O parlamentares eleitos em novembro de 1986 formaram a Assembleia Nacional Constituinte que foi instalada em 1º. de fevereiro de 1987.

 Atos públicos, palestras, seminários e campanhas vinham sendo promovidas pelas organizações dos empregados, desde o ano anterior à greve, nos diversos locais do país onde existiam unidades da Embratel[5].

Privatização, não, sô! Foi o nome  escolhido, em um concurso, para o arraiá da festa junina em 1986, promovido pela Associação dos Empregados no Rio de Janeiro – AEBT-RJ.

Em abril de 1987 a AEBT – RJ denunciou e questionou declarações públicas do vice-presidente da Embratel, Cleofas Uchoa, defendendo a privatização.  Em retaliação, em 28/04/1987, a diretoria da Embratel aplicou uma punição disciplinar aos 05 (cinco) empregados que compunham a direção executiva da Associação  com uma suspensão de 15 dias de suas funções na empresa[6].

Em 13 de maio de 1987, comemorando o retorno ao trabalho dos dirigentes punidos, os empregados da Embratel realizaram um abraço ao prédio sede da empresa e, de mãos dadas e cantando o Hino Nacional, envolveram, literalmente, todo o quarteirão onde está situado o edifício.

No ato do abraço à Embratel foi feito o lançamento de uma campanha para a coleta de assinaturas em uma emenda popular em defesa do monopólio e que deveria ser entregue à Assembleia Nacional Constituinte que já estava instalada.

Mais criativa que a Beija-Flor, mais garra que a Portela e mais segura que a Mangueira, assim foi descrita pelo jornal Tribuna da Imprensa, no Rio de Janeiro, a passeata até a Praça da Cinelândia, realizada em 17 de julho de 1987, com 22 alas e cerca de 50 mil pessoas no Dia Nacional de Mobilização das Emendas Populares.

 Os empregados da Embratel estavam lá, éramos a ala das Telecomunicações, contra a privatização das estatais e com um originalíssimo satélite, em isopor e suspenso por balões de gás, destacando-se em toda a passeata.

Em 13 de agosto foi formalizado o registro da Emenda Popular PE – 24 de 1987, em defesa do monopólio estatal das telecomunicações, com 111.992 assinaturas de eleitores, coletadas pelos empregados da Embratel em todo o Brasil.

Neste cenário ocorreu a vitoriosa greve da Vicom que foi um marco político importante, não apenas para o setor de Telecomunicações, mas para vários setores da vida pública do país. Foi uma manifestação de servidores públicos estatais que se contrapuseram com clareza e vigor a uma ação da alta administração que lesava o interesse público.

A atitude dos empregados da Embratel ao confrontar a direção da empresa e o vigor e disposição com que se lançaram em defesa do patrimônio público, sem deixarem espaço para serem acusados de corporativismo, foram fatos relevantes registrados nos noticiários em todo o Brasil e em um número importante de trabalhos e análises da história do setor, incluindo trabalhos acadêmicos de pós-graduação universitária.

A greve da Vicom, em outubro de 1987, impulsionou a luta pelo modelo de monopólio estatal que viria a se desdobrar ao longo do ano seguinte, 1988, em uma atuação direta no Congresso Nacional, e sustentadas por mobilizações dos empregados do setor.

Agregados através da Federação Interestadual dos Trabalhadores em Empresas de Telecomunicações – Fittel, alguns sindicatos do setor e Associações de Empregados da Embratel organizaram a participação voluntária de diversos empregados que se deslocaram para Brasília e realizaram um trabalho de esclarecimento e convencimento dos constituintes e lideranças partidárias para o voto em favor do monopólio estatal[7].

Assim, num ambiente de disputas contra grupos empresariais e seus representantes políticos que, além de objetivarem a privatização das telecomunicações, atuavam ilegalmente para fazer dela um fato consumado, o congresso Constituinte aprovou o texto do Capítulo II, Artigo 21 – inciso XI, estabelecendo o monopólio estatal constitucional a partir de 05 de outubro de 1988, data de promulgação da Constituição[8].

Foi uma vitória dos empregados da Embratel e dos trabalhadores de Telecomunicações, uma vitória da sociedade brasileira.


Muitas provas, mas sem julgamentos no STF
A aprovação do texto constitucional foi uma vitória expressiva, mas não encerrou as disputas nas telecomunicações. Foi, na verdade, o início de uma nova fase de enfrentamentos. Num primeiro momento o embate foi contra vários atos inconstitucionais, decretos e portarias, gerados dentro do próprio Ministério das Comunicações, para a quebra do monopólio, já constitucional. Mais adiante, a disputa foi contra as iniciativas de mudanças na Constituição de 88, recém-promulgada.

Marcos deste enfrentamento foram as lutas para tornar sem efeito portarias e decretos inconstitucionais emitidos nos gabinetes do Minicom, ainda nos anos 1988 e 1989; as tentativas de alteração de modelo inseridas no “Emendão do Collor”, em 1991; outros contratos ilegais que barrados por liminares na Justiça Federal, em 1992 e a Revisão Constitucional, em 1993.

Chegamos ao absurdo de precisar entrar com ações na justiça obrigando operadoras de telefonia a iniciarem a implantação e exploração da telefonia celular , visto que já dispunham de recursos para tal, porém não o faziam por ordens de autoridades e resguardando o mercado para a iniciativa privada, na expectativa da privatização daquele serviço

Foram muitas lutas e vitórias até que, finalmente, o monopólio foi quebrado na Reforma Constitucional, em 1995, graças às ações realizadas sob a liderança do presidente da república Fernando Henrique Cardoso, seu partido PSDB, seus aliados políticos e os grupos econômicos que o elegeram.

A Constituição foi modificada. O Sistema Telebrás foi desfeito e, após 10 anos de enfrentamentos, as operadoras de Telecom finalmente foram vendidas ao capital internacional. Entre elas, a Embratel, num leilão, em 29 de julho de 1998, considerado como a maior privatização da história.

Não demorou muito e, logo no ano seguinte, em 1989, vieram ao conhecimento público um conjunto de mais de 50 fitas de áudio com gravações de conversas obtidas por grampos em telefones do BNDES e que mostraram um leilão viciado e envolvendo a cúpula do governo para favorecer um dos potenciais compradores no negócio de 22 milhões de dólares.

As revelações de conversas do então Ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, do presidente do BNDES, André Lara Resende e de diretores do Banco do Brasil e da Previ provocaram a queda dos mesmos, embora, neste caso, não tenha havido: clamor indignado da grande mídia, instauração de  CPI, cassações e, muito menos, julgamentos no STF.


Nem Google, nem Facebook
Um brasileiro nascido em 1987 terá hoje 25 anos. Se tiver crescido em qualquer centro urbano do país e qualquer que seja a sua situação sócio - econômica, certamente terá dificuldade para imaginar um mundo sem computadores e celulares.

Notebooks, palmtops, smart-phones, ipad, wi-fi, facebook, instagram, megabytes, pixels e um sem número de elementos e funcionalidades tecnológicas fazem parte do cotidiano deste cidadão brasileiro, urbano, determinando o seu comportamento, suas relações e até seus valores.

Embora alguns destes elementos e funcionalidades sejam completamente abstratos, eles são tratados com naturalidade, como se sempre estivessem aí, em que pese nenhum deles existisse há 25 anos e nem mesmo fossem imaginado como possíveis, salvo nos centros de produção de tecnologia que ainda gestavam os embriões deste admirável mundo novo. Um mundo tão difícil de ser imaginado naquela ocasião quanto talvez seja para o cidadão de 25 anos imaginar, sob a óptica de hoje, como eram os recursos tecnológicos na época do seu nascimento.

Foi no cenário de 25 anos atrás que ocorreu a Greve da Vicom e a luta pelo monopólio e, naquele cenário as nossas dificuldades iam além da defesa específica das nossas teses.

Numa época em que o conhecimento público sobre Telecom reduzia-se quase que exclusivamente à televisão e telefone, nem mesmo o telex era um serviço popular de Telecom, falávamos, vejam, na importância de uma tal "comunicação de dados" e sobre as possibilidades da interação das telecomunicações com as tecnologias de computação e de informação. Temas que poucos tinham ideia do que se tratava.

Repórteres e jornalistas, nos diversos locais do país, atraídos pela repercussão do movimento dos empregados perguntavam: Que é isto? Do que se trata? Por que todo este movimento?

Cada entrevista ou depoimento precisava ser precedida de aulas sobre telecomunicações. Emissor, receptor, mensagem, conteúdo, rede de telecomunicações serviço de informação, comunicação de voz, comunicação de dados etc. Precisávamos explicar os conceitos e os termos.  Era preciso fazer analogias e, só então conseguíamos abordar o assunto, falar sobre a sua importância e as nossas teses.

Para chamar à atenção e angariar simpatizantes para as questões que apresentávamos era preciso explicar o salto tecnológico que estava ocorrendo. Explicar que a evolução tecnológica estava caminhando para viabilizar o uso popular das comunicações sem fio entre telefones, repito, telefones. Nada tinha a ver com os modernos microcomputadores, nem com os smart phones corriqueiros, hoje, em mãos de crianças conectadas por wi-fi.

Era necessário explicar que a tradicional rede de fios estava perdendo o seu cordão umbilical e que seria uma oportunidade para o Estado saldar a dívida que tinha com a população: a dívida da baixa densidade telefônica, ou seja, a falta de telefones. Que seria a oportunidade para um salto de qualidade no ambiente social com a implantação de redes de comunicação para serviços públicos.

Diga-se, desde já, que seria uma enorme presunção dizer que já se esboçava o cenário do mundo que vivemos hoje.  Um mundo com Internet, Google e Facebook .

Apenas como uma referência de tempo:  as primeiras iniciativas para viabilizar o acesso público à internet, no Brasil, ocorreram em 1994.  O Google foi criado em 1998 e o facebook em 2004.

Porém, sabíamos que estávamos apontando na direção certa. Que os avanços tecnológicos seriam inexoráveis e em saltos gigantescos. Saltos para um cenário que iria muito além da nossa imaginação e que se avizinhava um mundo de oportunidades e, naturalmente, de negócios. Os números projetados e o empenho das gigantes corporações internacionais na privatização das telecomunicações eram indícios.

Sabíamos que, para garantir o aproveitamento e a distribuição social destas oportunidades e dos ganhos advindos daí, era imprescindível a universalização do acesso às telecomunicações. Para tal,  seria necessário que a sociedade dispusesse de uma ferramenta especial de atuação neste novo mundo. Uma empresa pública explorando um serviço público.

Com esta análise e visão lutamos pelo modelo constitucional do monopólio e contra a privatização do sistema Telebrás. Um modelo que privilegiaria e possibilitaria a distribuição social das potenciais riquezas que este novo mundo tecnológico anunciava.

Em outro campo estavam aqueles que tentavam, até por meios ilegais, alterar o modelo vigente para a criação e exploração de novos negócios e para a apropriação privada dos ganhos advindos daí. Buscavam para si a apropriação do que até então era recurso público.

Infelizmente estes atores, corporações multinacionais que não atuaram exclusivamente no Brasil ou no setor de Telecom, contaram com a colaboração de uma quantidade significativa de brasileiros que ocupavam postos estratégicos do setor – público – e que cumpriram o papel de minar e destruir por dentro, de sabotar, qualquer ação que representasse um contraponto aos seus projetos de privatização.

Foi neste caldeirão que ocorreu a mudança do modelo de exploração de serviços e as privatizações no setor de telecomunicações do Brasil. O desmonte do sistema Telebrás e a venda ou entrega da empresa que, nos folhetos de propaganda internacional do processo de privatização no Brasil, era chamada de “a joia da coroa”, a empresa Embratel.


Deu no que deu!
O modelo atual de exploração dos serviços de telecomunicações no Brasil é, naturalmente, a consequência direta da opção pela privatização nos termos em que foi realizada.

Tal modelo foi justificado perante a sociedade com os compromissos das metas de universalização do acesso aos serviços telefônicos, a propósito, compromissos só foram estabelecidos em decorrência das lutas contra a privatização.

Sem as lutas pelo monopólio, nem mesmo as metas de universalização existiriam porque teriam vingado as teses iniciais dos defensores da privatização que afirmavam que as comunicações de dados e até mesmo a telefonia não eram serviços públicos, assim, deveriam estar excluídos do monopólio.

O resultado está aí, para quem quiser ver. Deu no que deu!

As metas de universalização não foram cumpridas. A evolução tecnológica trouxe a internet e as comunicações sem fio. E os empresários, descumpridores das metas de universalização, argumentam hoje que os serviços de internet e as comunicações sem fio não se enquadram nos compromissos das citadas metas.

Trata-se de um modelo que não só prioriza os acionistas e os atuais proprietários das operadoras, sem contrapartidas, como também é um modelo que inclui apenas uma parcela da sociedade. A parcela que cabe nos planos de investimentos e de taxas de lucros das corporações que fazem o que querem no setor.

A qualidade dos serviços é péssima. É tão frequentemente ruim que a população já acostumou com as quedas, ruídos, distorções e demora nas conexões.

As empresas operadoras, em nome de garantir os ganhos dos seus acionistas e altos executivos, desconsideram completamente os seus compromissos de concessionárias de serviços públicos.

O Estado deixou de dispor do importante recurso de complementação da formação de mão de obra especializada em tecnologia de ponta, papel que era desempenhado pelas empresas estatais. O proprietário privado, por sua vez, não se sente obrigado a tal porque o modelo não resguardou este compromisso.

A agência reguladora, Anatel, é um arremedo de poder regulador, motivo de piada nos ambientes das empresas.operadoras. Eventualmente, para manter a encenação da regulamentação do setor, ela provoca alguns espasmos com ameaças de multas milionárias que ninguém paga ou pagará.

 Um destes espasmos regulatórios  foi provocado recentemente com a proibição da comercialização de novas linhas celulares face a péssima qualidade dos serviços prestados e a enxurrada de reclamações. Mas, não passou disso, as empresas fingiram que vão atuar para a melhoria da qualidade e a proibição foi suspensa, foi uma espécie de feriado para balanço.

Os governos dos principais estados da federação estão sendo obrigados a constituir as suas próprias infraestruturas públicas de telecomunicações para viabilizar os seus projetos nas diversas áreas da administração pública. Porém, agora viabilizando os negócios das operadoras privadas através de acordos e convênios.

O governo federal, sem instrumento ou salvaguarda determinada pelo modelo privatista, promove a ressurreição da Telebrás como mecanismo de viabilização de um Plano Nacional de Banda Larga com um serviço a preço popular (1 Megabit por 35 reais). E, por incrível que pareça, só o anúncio de tal medida faz baixar preços e aumentar a oferta de serviços.

Esta é uma síntese do modelo de privatização das telecomunicações brasileiras que, a rigor, não se afasta muito do que ocorreu em outros setores estatais.

Importante e estratégico como nunca.
Não é incomum ver nas ruas do Rio de Janeiro trabalhadores da coleta de lixo falando ao celular enquanto realizam suas tarefas. Cena que deve se repetir em outros centros urbanos. Entre os jovens o uso do celular é uma febre. Parece que não há vida fora da comunicação em rede.

Alguém apressado formulará outros exemplos para agregar ao do gari, e os apontará como a evidência cabal do acerto das decisões que determinaram as privatizações das telecomunicações e o desmanche do sistema Telebrás com a venda das operadoras.  Os preconceituosos argumentarão: Até gari tem celular!

Infelizmente esta conclusão será um erro. Ao lado das mudanças radicais que as comunicações móveis provocaram em todo o mundo, independentemente das privatizações, a realidade é que as comunidades e os grupos mais carentes da sociedade brasileira ainda estão impedidos de participarem desta rede, embora alguns  até possuam um celular pré-pago.

Os dados mais recentes sobre esta distribuição de recursos são os da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio 2011, PNAD, do IBGE. O computador com acesso à internet foi o bem durável que registrou a maior expansão nos domicílios brasileiros entre 2009 e 2011. São 61,3 milhões de domicílios no país dos quais 36,5%, cerca de 22,4 milhões, contavam com internet ao final do ano passado.

As autoridades divulgam esta situação como importante e, de fato, ela é.Entretanto, o complemento desta informação é que 3,9 milhões de domicílios tinham computador na ocasião da pesquisa, mas estavam sem acesso à rede por falta de oferta da banda larga ou falta de grana para contratar um serviço de acesso. Além disto, outros 35 milhões de domicílios, 57,1% do total, não tinham nem computador nem internet porque a distribuição desta riqueza tem o mesmo perfil de desigualdade regional de outros itens com uma concentração de 76,18% do total de computadores do país nas regiões Sul e Sudeste.

Sem um instrumento que determine a orientação dos investimentos visando uma distribuição social desta riqueza, os efeitos econômicos da disponibilidade das telecomunicações concentram-se em cerca nos 780 municípios maiores e mais desenvolvidos do país que concentram 61% da população.

Não é agradável tratar estes números. Até a leitura é enfadonha. Mas, o que eles dizem efetivamente é que tais carências significam escolas sem um telefone fixo ou móvel ou, ainda, sem a possibilidade de conexão de computadores à WEB, mesmo que estes computadores existam.

Estes números representam a quantidade de brasileiros que não podem usufruir dos ganhos e benefícios viabilizados pelas tecnologias de informação e de telecomunicações. Estão excluídos e são tratados como uma espécie de “mercado reserva”. Ao mesmo tempo, os incluídos pagam pela má qualidade e sustentam  sustentam o modelo atual.

Evitar esta situação! Reduzir as chances da sua ocorrência! Criar alternativas! Estas foram as diretrizes que pautaram a defesa do monopólio estatal e os embates que decorreram daí, entre eles, a greve da Vicom.

Não faria muito sentido falar em luta contra a privatização das telecomunicações apenas como uma manifestação de nostalgia. Retomar esta questão seria propor uma estatização dos serviços, tese que não é descabida, mas que não será valorizada aqui. Porém, o país e as necessidades e projetos do seu povo continuam.

O setor de telecomunicações continua sendo mais importante e estratégico do que nunca. No exato momento em que este texto está sendo elaborado surgem notícias que uma comissão de parlamentares americanos sugere a elaboração de legislação específica para tratar do risco de fornecimento de equipamentos de telecomunicações por empresas estrangeiras com forte elo com seus governos e recomendam que empresas americanas não adquiram produtos de dois fornecedores específicos,chineses que a propósito, também são fornecedores no Brasil.

No Brasil, um importante periódico do setor informa sobre pesquisa onde executivos de empresas que representam 30% do PIB brasileiro consideram a infraestrutura de banda larga a principal entre as 10 obras mais necessárias para o desenvolvimento do país, embora  este item sequer esteja contido no PAC.

Há temas importantíssimos para tratar e a universalização do acesso é uma demanda que não pode sair da ordem do dia. Mas, as soluções não virão das corporações oligopolistas nem das decisões das assembleias de acionistas. Elas não virão do livre mercado, da concorrência, nem de outros mitos da organização de produção capitalista.

Na conjuntura em que vivemos as soluções precisam ser impostas pelo Estado, enquanto ele existir,  como representação da sociedade garantindo a apropriação e distribuição destes ganhos tecnológicos sob a forma de metas, compromissos, obrigações, impostos, taxações e, se necessário,reapropriação de patrimônio.

Mas, estes são assuntos para serem tratados em outra oportunidade. Tratamos aqui de celebrar e comemorar a greve da Vicom e o que ela ainda representa. Uma boa luta. Vitoriosa. Outras foram perdidas, porém  vale nestes casos a resgatar a mensagem do grande Darcy Ribeiro: .. em nenhum minuto da minha vida, eu queria estar do lado daqueles que ganharam.”

Rio, 12/10/2012
Referências:


[1] Quando ocorreu a greve da Vicom o monopólio estatal das Telecom ainda não era constitucional. Era uma exclusividade da Embratel determinada pela lei 4117 de 27/08/1962, a mesma  que determinou a criação de uma empresa que viria a ser a Embratel. O monopólio constitucional foi estabelecido  em 05 de outubro de 1988 com a promulgação da Carta atual.

[2] O ministro demitiu toda a diretoria executiva da empresa exceto o diretor Administrativo, Claudio de Chagas Freitas.

[3] Em 02/01/1986, o banqueiro Amador Aguiar (Bradesco) e o jornalista Roberto Marinho (Globo), donos brasileiros da Vicom, enviaram carta ao secretário Geral do Ministério das Comunicações, Rômulo Furtado, solicitando a emissão de uma portaria com permissão para a exploração do Serviço Limitado de Múltiplos Destinos. Isto seria, na prática, a quebra do monopólio (Ref. Acervo particular do autor)

[4] Em 18/06/1986,; 04/07/1986 e 07/071986, os gerentes Superintendentes da Embratel das áreas Norte, Comercial e Centro – Leste, respectivamente,  enviaram cartas – manifesto à diretoria da Embratel , em nome dos empregados e gerentes de suas áreas manifestando-se contra as iniciativas de quebra do monopólio que vinham sendo divulgadas pela imprensa ou por comentários nos ambientes da empresa (Ref. Acervo particular do autor)

[5] No esforço de fazer vir a público  as iniciativas dos grupos Globo e Bradesco AEBT-RJ realizou, em 17/06/1986, em parceria com o Clube de Engenharia RJ, o seminário Privatização x Monopólio Estatal – Quem ganha? Quem perde? Procurado pela imprensa, o ministro ACM admitiu os fatos denunciados pela Associação e a existência de estudos para acatar as solicitações da Victori (Ref. Acervo particular do autor)

[6] A AEBT-RJ distribuiu um boletim com o título Demissão Já onde denunciava e questionava declarações do vice-presidente em favor da privatização. O texto do boletim incluía as questões: Como reagiria o Sr Amador Aguiar ou o Sr. Roberto Marinho se um dos seus diretores defendesse a estatização dos bancos ou da Rede Globo? (Ref. Acervo particular do autor)

[7] A atuação dos trabalhadores do sistema Telebrás, particularmente da Embratel, junto aos constituintes, em Brasilia, constitui uma história especial a ser narrada. A  brilhante atuação dos empregados  fez jus ao movimento da Vicom com a aprovação do monopólio estatal.

[8] A aprovação do monopólio na Constituição ocorreu no primeiro turno das votações em 07/03/1988 com uma votação de 392 votos a favor, 04 contra e 04 abstenções (Ref. Diário da Assembléia Nacional Constituinte – No. 194, pág. 249 e 250). A ratificação da aprovação, no segundo turno, foi em 16/08/1988.


Jorge de Souza Santos
Engenheiro de Telecomunicações.
Trabalhou na Embratel, na Philips do Brasil e na Telesp.
Foi fundador, diretor e presidente da extinta Associação de Empregados da Embratel no Rio de Janeiro (AEBT-RJ).

Contatos:


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quarta-feira, 20 de junho de 2012

Em tempos de Rio+20


As questões ecológicas não estão entre os temas que me seduzem. Assim, em vez de tentar aprimorar conhecimentos específicos, procuro orientar-me por informações e opiniões de pessoas que valorizo e com quem identifico valores, ideias e ideais comprovadamente comuns. 

Em junho de 2012, o meu amigo Ciro Mendonça da Conceição publicou um ótimo artigo intitulado Sustentabilidade e Educação. Aproveitei a oportunidade  e registrei minhas observações sobre o tema Sustentabilidade, um tema "momentoso" plagiando o termo criado pelo Ciro. Segue o link: Em tempos de Rio+20

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Os bueiros das Telecom


O retrato da situação atual das Telecom no Brasil é feio. O acesso à telefonia não foi universalizado, a qualidade dos serviços celulares é péssima e o mesmo ocorre com prestação de serviços Internet. 

A gestão atual das empresas operadoras do setor, em nome de garantir os ganhos dos seus acionistas e altos executivos, desconsidera completamente os seus compromissos de concessionárias de serviços públicos.

Um espaço que antes se prestava à complementação da formação de profissionais do setor está minguante diante das políticas de aquisição de soluções tecnológicas em pacotes fechados, sem avaliações preliminares de desempenho e sem oportunidades para o desenvolvimento e formação de massa crítica dos técnicos que atuam em Telecom no Brasil.

Pagamos por um modelo que já explode aqui e acolá, como acontece com os bueiros das empresas de energia elétrica e de gás. São os bueiros das Telecom.

Ninguém é responsável. A sociedade reclama, mas é ela quem paga pelo prejuízo através do Estado que se vê obrigado a colocar mais dinheiro no setor. Representantes das empresas vêm a público dizer que estão fazendo o possível, que a situação será contornada em pouco tempo etc., e a vida segue.

Registrei outras observações sobre este assunto no texto: Operadoras de Telecom: elas não estão aí para incluir ninguém

domingo, 20 de maio de 2012

Devolução de diploma da UFF

Discordo da opinião de um ex-aluno da UFF, Universidade Federal Fluminense, que encaminhou carta ao reitor daquela universidade devolvendo o seu diploma de engenheiro como expressão de repúdio ao ato de concessão do título de Doutor Honoris Causa ao ex-presidente Lula, fato que ocorreu em 04 de maio de 2012.


Tomei conhecimento da carta através de e-mail recebido de uma amiga e as minhas observações foram encaminhadas originalmente para ela.


As observações que fiz, assim como a tal carta que as gerou estão no link a seguir  Devolução de diploma da UFF

quarta-feira, 16 de maio de 2012

AEBT RJ - 10 anos - Vídeo comemorativo

Este vídeo foi elaborado em 1994 quando comemoramos 10 anos da hoje extinta AEBT RJ, a Associação de Empregados da Embratel no Rio de Janeiro.
O vídeo é um trabalho do brilhante e muito querido amigo Carlos Trindade, um dos militantes fundadores da AEBT RJ, a “nossa associação” como era chamada.

O aspecto emocionante deste vídeo é que o protagonista principal são os empregados da Embratel aglutinados em sua associação e com manifestações que representaram, antes de tudo, um espírito de corpo e de responsabilidade com patrimônio público representado pela empresa onde trabalhavam.

Trindade centrou o vídeo na luta pela readmissão dos empregados da Embratel demitidos durante a greve de dezembro de 1987, um ato explícito de retaliação praticada pelo então ministro das comunicações, Antonio Carlos Magalhães, contra a AEBT RJ.
Com as demissões a Associação foi punida por seu papel em um fato dois meses antes, em outra greve, em outubro de 1987, a greve do caso Vicom.

O vídeo mostra os atos políticos realizados na porta da empresa durante mais de um ano contestando as demissões dos empregados, mostra cenas de audiências na Justiça do Trabalho e mostra a enorme e emocionante manifestação quando a Constituinte de 1988 aprovou a anistia dos empregados das estatais demitidos por motivos políticos.
Os empregados da Embratel desceram de suas salas no edifício sede e tomaram a Avenida Presidente Vargas para comemorar e festejar a anistia. Mais uma vitória dos empregados e da nossa Associação.

A luta vitoriosa pela Anistia sendo uma sequência da luta vitoriosa pela anulação do contrato ilegal assinado pela diretoria da Embratel em outubro de 1987 – o caso Vicom - e da consequente vitória na instituição do monopólio estatal na Constituição de 1988 expressou muito bem a vontade política que determinou a existência da AEBT RJ, assim como as cenas dos bailes e da festa de comemoração dos 10 anos representaram a altura o espírito de camaradagem e companheirismo que foi a marca principal da Associação enquanto ela existiu.  O Trindade acertou em cheio com este vídeo.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Eu ainda sei o que vocês fizeram no outono de 1964

Uma foto marcante. Difícil não se impressionar com ela e com o seu significado. Emir Sader comentou e eu peguei carona. Vale a pena ver a foto e ler o texto do Emir: A CARA DA DIGNIDADE

Sobre Portugal e Belgica

Registro de conversa em novembro de 2011, motivada pela situação da Belgica que passou mais de  um ano sem um  poder executivo ao mesmo tempo em que se apontava diversas ações de restrições econômicas para os países mais afetados na Europa em crise.
A Belgica, sem um governo executivo, não implementou as  tais ações e contraditoriamente apresentava, na ocasião, resultados econômicos positivos, fato que gerou as discussões SOBRE PORTUGAL E BELGICA

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Não é livre um país que ocupa outro

Em julho de 2011, ao menos quatro militares uruguaios das tropas militares da ONU no Haiti, lideradas pelo exército brasileiro, violaram coletivamente  um jovem garoto de 18 anos. Um vídeo do crime chegou a ser feito e divulgado pelos próprios militares.

Eduardo Galeano com a sua peculiar sensibilidade e brilhantismo tratou o assunto em um texto que eu reproduzi mais abaixo.

Desde 2004 o exército brasileiro lidera as tropas militares da ONU no Haiti, a chamada Minustah (do francês: Mission des Nations Unies pour la stabilisation en Haïti).

Para muitos, eu entre eles, as tais tropas são na verdade um exército de ocupação para a manutenção de uma ordem sócio-economica específica e estão longe de representar apoio e solidariedade ao povo do Haiti.

O Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) faz campanha permanente condenando e para a retirada das tropas brasileiras do Haiti.

Este desafio foi lançado ao novo ministro da Defesa e ao governo Dilma logo que ele assumiu. Não é livre um país que ocupa outro.

Em 29/09/2011, o site do Ministério da Defesa informou que o ministro, Celso Amorim, defendeu em exposição na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, a redução gradual dos efetivos militares dos países, entre os quais o Brasil, que compõem a Minustah.

Recentemente, em julho de 2011, ao menos quatro militares uruguaios da Minustah violaram coletivamente um jovem garoto de 18 anos. Um vídeo do crime feito pelos próprios militares, difundido pela agência Haiti Press Network (HPN) e só ficou disponível algumas horas na rede.

Segundo as notícias há dúvidas se foi uma ação diplomática da ONU ou do governo uruguaio. O Youtube justificou a retirada do vídeo dizendo que sua política não é a promoção do ódio, dado que muitos comentários (mais de 4 mil) condenavam a barbárie da ONU.

Não é fácil para qualquer brasileiro com a formação tradicional de “amor à pátria” assumir que as “nossas” tropas ocupam um outro país.

Não é fácil desvincular os conceitos de pátria e governo. E é muito menos fácil compreender e aceitar que as tais tropas não tem nada de “nossas”.

Felizmente há pessoas com a sensibilidade de um Eduardo Galeano (cujo texto estou enviando e sugerindo a leitura) que conseguem tratar este assunto com a indignação e a ternura necessárias, divulgando-o como precisa ser divulgado e sem se deixar cair na armadilha da raiva que em geral emudece ou provoca o desvario.

Os fatos estão aí. As declarações do ministro não bastam. O Haiti deve ser desocupado!

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. Haití.
País ocupado
VS 0 | | sección: web | 30/09/2011
EDUARDO GALEANO
Consulte usted cualquier enciclopedia. Pregunte cuál fue el primer país libre en América. Recibirá siempre la misma respuesta: Estados Unidos. Pero Estados Unidos declaró su independencia cuando era una nación con 650 mil esclavos, que siguieron siendo esclavos durante un siglo, y en su primera Constitución estableció que un negro equivalía a las tres quintas partes de una persona. Y si a cualquier enciclopedia pregunta usted cuál fue el primer país que abolió la esclavitud, recibirá siempre la misma respuesta: Inglaterra. Pero el primer país que abolió la esclavitud no fue Inglaterra sino Haití, que todavía sigue expiando el pecado de su dignidad. Los negros esclavos de Haití habían derrotado al glorioso ejército de Napoleón Bonaparte, y Europa nunca perdonó esa humillación. Haití pagó a Francia, durante un siglo y medio, una indemnización gigantesca, por ser culpable de su libertad, pero ni eso alcanzó. Aquella insolencia negra sigue doliendo a los blancos amos del mundo.
*** De todo eso sabemos poco o nada. Haití es un país invisible. Sólo cobró fama cuando el terremoto del año 2010 mató más de 200 mil haitianos. La tragedia hizo que el país ocupara, fugazmente, el primer plano de los medios de comunicación. Haití no se conoce por el talento de sus artistas, magos de la chatarra capaces de convertir la basura en hermosura, ni por sus hazañas históricas en la guerra contra la esclavitud y la opresión colonial. Vale la pena repetirlo una vez más, para que los sordos escuchen: Haití fue el país fundador de la independencia de América y el primero que derrotó a la esclavitud en el mundo. Merece mucho más que la notoriedad nacida de sus desgracias. ***
Actualmente, los ejércitos de varios países, incluyendo el mío, continúan ocupando Haití. ¿Cómo se justifica esta invasión militar? Pues alegando que Haití pone en peligro la seguridad internacional. Nada de nuevo. Todo a lo largo del siglo xix , el ejemplo de Haití constituyó una amenaza para la seguridad de los países que continuaban practicando la esclavitud. Ya lo había dicho Thomas Jefferson: de Haití provenía la peste de la rebelión. En Carolina del Sur, por ejemplo, la ley permitía encarcelar a cualquier marinero negro, mientras su barco estuviera en puerto, por el riesgo de que pudiera contagiar la peste antiesclavista. Y en Brasil, esa peste se llamaba "haitianismo". Ya en el siglo xx, Haití fue invadido por los marines, por ser un país "inseguro para sus acreedores extranjeros". Los invasores empezaron por apoderarse de las aduanas y entregaron el Banco Nacional al City Bank de Nueva York. Y ya que estaban, se quedaron diecinueve años. *** El cruce de la frontera entre la República Dominicana y Haití se llama "El mal paso". Quizás el nombre es una señal de alarma: está usted entrando en el mundo negro, la magia negra, la brujería... El vudú, la religión que los esclavos trajeron de África y se nacionalizó en Haití, no merece llamarse religión. Desde el punto de vista de los propietarios de la civilización, el vudú es cosa de negros, ignorancia, atraso, pura superstición. La Iglesia Católica, donde no faltan fieles capaces de vender uñas de los santos y plumas del arcángel Gabriel, logró que esta superstición fuera oficialmente prohibida en 1845, 1860, 1896, 1915 y 1942, sin que el pueblo se diera por enterado. Pero desde hace ya algunos años las sectas evangélicas se encargan de la guerra contra la superstición en Haití. Esas sectas vienen de Estados Unidos, un país que no tiene piso 13 en sus edificios, ni fila 13 en sus aviones, habitado por civilizados cristianos que creen que Dios hizo el mundo en una semana. En ese país, el predicador evangélico Pat Robertson explicó en la televisión el terremoto del año 2010. Este pastor de almas reveló que los negros haitianos habían conquistado la independencia de Francia a partir de una ceremonia
vudú, invocando la ayuda del Diablo desde lo hondo de la selva haitiana. El Diablo, que les dio la libertad, envió al terremoto para pasarles la cuenta. *** ¿Hasta cuándo seguirán los soldados extranjeros en Haití? Ellos llegaron para estabilizar y ayudar, pero llevan siete años desayudando y desestabilizando a este país que no los quiere. La ocupación militar de Haití está costando a las Naciones Unidas más de 800 millones de dólares por año. Si las Naciones Unidas destinaran esos fondos a la cooperación técnica y la solidaridad social, Haití podría recibir un buen impulso al desarrollo de su energía creadora. Y así se salvaría de sus salvadores armados, que tienen cierta tendencia a violar, matar y regalar enfermedades fatales. Haití no necesita que nadie venga a multiplicar sus calamidades. Tampoco necesita la caridad de nadie. Como bien dice un antiguo proverbio africano, la mano que da está siempre arriba de la mano que recibe. Pero Haití sí necesita solidaridad, médicos, escuelas, hospitales, y una colaboración verdadera que haga posible el renacimiento de su soberanía alimentaria, asesinada por el Fondo Monetario Internacional, el Banco Mundial y otras sociedades filantrópicas. Para nosotros, latinoamericanos, esa solidaridad es un deber de gratitud: será la mejor manera de decir gracias a esta pequeña gran nación que en 1804 nos abrió, con su contagioso ejemplo, las puertas de la libertad. (Este artículo está dedicado a Guillermo Chifflet, que fue obligado a renunciar a la Cámara de diputados cuando votó contra el envío de soldados uruguayos a Haití.) Brecha, Montevideo, 30/09/2011 http://www.brecha.com.uy/
Difundido por Correspondencia de Prensa germain5@chasque.net

Notas para a Educação

Em setembro de 2011 a revista Veja publicou um texto da Lya Luft sobre educação com o título "Educação: reprovada". Um amigo leu, gostou e divulgou o texto que serviu de base para alguns comentários sobre o assunto e que reproduzo a seguir:


 Amigo,

Abri e li sua mensagem ontem, à noite, quando estava assistindo na TV um programa que discutiu a Educação (Brasilianas.org).

Tentei organizar o meu pensamento sobre o assunto orientando-me pelo artigo que você encaminhou e que gostamos (já me inclui) tanto. Apoiei-me em duas afirmações que, a meu ver, refletem as alternativas vislumbradas pela Lia Luft para as suas indignações.

"... Faxinar a ignorância – que é uma outra forma de miséria – exigiria que nos orçamentos da União e dos estados a educação, como a saúde, tivesse uma posição privilegiada."
" ... Precisamos de atos e fatos, orçamentos em que educação e saúde (para poder ir a escola, prestar atenção, estudar, render e crescer) tenham um peso considerável: fora isso, não haverá solução. "

Arrisco afirmar que a Lia Luft imagina as suas propostas realizadas dentro das regras institucionais, assim o que existe de concreto hoje e que mais se aproxima das alternativas citadas é o Plano Nacional de Educação - PNE.

O PNE é um projeto de lei (PL 8035/2010) encaminhado ao Congresso Nacional pelo governo federal, em dezembro de 2010, propondo 20 metas de quantidade e de qualidade para a educação no Brasil nos próximos 10 anos (2011 - 2020). Além das metas , o PNE contém propostas de estratégias para o alcance das mesmas e "notas técnicas" que são informações e análises visando dar consistência às propostas e apresentando os valores atuais e os custos futuros para o cumprimento de cada uma das metas.

O projeto de lei está na Câmara dos Deputados onde já recebeu cerca de 3000 emendas. Não sei o ritual de tramitação. Até onde eu sei, ponto mais polêmico é a Meta 20 que determina um crescimento gradual dos investimentos em educação dos atuais 5% do PIB (2009) para 7% do PIB até o ano 2020.

Estes números significam (em relação ao PIB 2009 que foi três trilhões de reais) passar os investimentos em educação dos atuais 157 bilhões para 220 bilhões de reais.

Há os que acham que a grana é pouca e apontam 10% do PIB. Outros acham muito. Uns apontam que se trata de uma merreca face aos ao que se paga por juros da dívida externa. Há os que acham uma falácia usar porcentagem do PIB como referência, na medida em que "PIB" não é item de orçamento público em nenhuma das instâncias, federal, estadual ou municipal. Acham que os compromissos precisam estar vinculados à receita fiscal. Há, naturalmente, os lobbies que encaminham propostas que lhes beneficiarão quando aprovadas. Enfim, há de tudo.

Se eu encontrasse a Lia Luft, quem sabe num dos recitais poéticos que a ####  participa, ou num lançamento de um livro da ####, ou, ainda, em uma apresentação de um soneto do ###, eu tentaria convencê-la a ir além das suas afirmações que são afirmações de princípios, mas que precisam ser operacionalizadas.  Eu tentaria convencê-la a:

a) Divulgar propostas específicas para a realização dos princípios que ela defende no texto e

b) Desafiar o governo federal a priorizar a viabilização do PNE que ele próprio encaminhou ao Congresso.

Eu sugeriria:

a) Que ela estudasse ou buscasse saber por fontes que sejam referência para ela quais são as principais questões que ela defenderia ou mudaria no PNE;

b) Que ela utilizasse os espaços de divulgação que dispõe, para divulgar os pontos que apóia ou rejeita, mesmo que fosse o PNE como um todo;

c) Que ela fizesse isto sempre desafiando o governo federal a priorizar este assunto atuando junto ao Congresso, como ele costuma fazer em situações que define como prioritárias.

O próprio governo argumenta que apresentou uma proposta para a educação, mas que precisa ser debatida, ser negociada, barganhada com outras parcialmente divergentes ou totalmente conflitantes.

Eu concordo com esta linha de atuação, embora não creia que esta seja a determinação do governo Dilma, como não foi do governo Lula. Daí eu achar que o governo precisa ser desafiado a provar o seu comprometimento com as suas propostas.

Acho necessário que a sociedade intervenha e que atue para retirar o debate da exclusividade do poder legislativo que não é sequer um debate partidário. Não com campanhas genéricas do tipo "basta de corrupção" ou "contra a violência" nem "pela educação". Mas, com propostas específicas, comprometidas, nas quais se identifique com clareza quem estará a favor e quem estará contra. A identificação das motivações será uma consequência.

A educação é um direito da população, ao nível da alimentação e da saúde. Não acho que seja a tábua de salvação para o país, mas esta é uma questão para depois. Seria muito bom que pessoas com possibilidade de fazerem repercutir as suas opiniões, além de manifestarem as suas indignações, o seu "basta!", que avançassem que se comprometessem com as suas opiniões e propostas, tornando-se núcleos de aglutinação dos debates e de influência nas decisões.

Jorge  - 04 de outubro de 2011 

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A mensagem que recebi:

Sem uma revista que costuma me dar asco é essa tal de Veja. Hoje no consultório da Dra. Ana só tinha Veja e Caras para ler. Entre um lixo e outro, acabei folheando uma Veja e, para minha surpresa, li um belo texto da Lia Luft (eu gosto dela escrevendo, e foi o que me chamou a atenção para ler a Veja em vez da Caras naquele exato momento) sobre Educação logo no início da revista. Em face do teor do texto, cheguei em casa e fui para a Internet copiar para o ###. Segue em anexo, para nossas discussões de amanhã .  

#### – segunda-feira, 3 de outubro de 2011

EDUCAÇÃO: REPROVADA
Lya Luft
Há quem diga que sou otimista demais. Há quem diga que sou pessimista. Talvez eu tente apenas ser uma pessoa observadora habitante deste planeta, deste país. Uma colunista com temas repetidos, ah, sim, os que me impactam mais, os que me preocupam mais, às vezes os que me encantam particularmente. Uma das grandes preocupações de qualquer ser pensante por aqui é a educação. Fala-se muito, grita-se muito, escreve-se, haja teorias e reclamações. Ação? Muito pouca, que eu perceba. Os males foram-se acumulando de tal jeito que é difícil reorganizar o caos.
Há coisa de trinta anos, eu ainda professora universitária, recebíamos as primeiras levas de alunos saídos de escolas enfraquecidas pelas providências negativas: tiraram um ano de estudo da meninada, tiraram latim, tiraram francês, foram tirando a seriedade, o trabalho: era a moda do “aprender brincando”. Nada de esforço, punição nem pensar, portanto recompensas perderam o sentido. Contaram-me recentemente que em muitas escolas não se deve mais falar em “reprovação, reprovado”, pois isso pode traumatizar o aluno, marcá-lo desfavoravelmente. Então, por que estudar, por que lutar, por que tentar?
De todos os modos facilitamos a vida dos estudantes, deixando-os cada vez mais despreparados para a vida e o mercado de trabalho. Empresas reclamam da dificuldade de encontrar mão de obra qualificada, médicos e advogados quase não sabem escrever, alunos de universidades têm problemas para articular o pensamento, para argumentar, para escrever o que pensam. São, de certa forma, analfabetos. Aliás, o analfabetismo devasta este país. Não é alfabetizado quem sabe assinar o nome, mas quem o sabe assinar embaixo de um texto que leu e entendeu. Portanto, a porcentagem de alfabetizados é incrivelmente baixa.

Agora sai na imprensa um relatório alarmante. Metade das crianças brasileiras na terceira série do elementar não sabe ler nem escrever. Não entende para o que serve a pontuação num texto. Não sabe ler horas e minutos num relógio, não sabe que centímetro é uma medida de comprimento. Quase a metade dos mais adiantados escreve mal, lê mal, quase 60% têm dificuldades graves com números. Grande contingente de jovens chega às universidades sem saber redigir um texto simples, pois não sabem pensar, muito menos expressar-se por escrito. Parafraseando um especialista, estamos produzindo estudantes analfabetos.

Naturalmente, a boa ou razoável escolarização é muito maior em escolas particulares: professores menos mal pagos, instalações melhores, algum livro na biblioteca, crianças mais bem alimentadas e saudáveis – pois o estado não cumpre o seu papel de garantir a todo cidadão (especialmente a criança) a necessária condição de saúde, moradia e alimentação.

Faxinar a miséria, louvável desejo da nossa presidenta, é essencial para nossa dignidade. Faxinar a ignorância – que é uma outra forma de miséria – exigiria que nos orçamentos da União e dos estados a educação, como a saúde, tivesse uma posição privilegiada. Não há dinheiro, dizem. Mas políticos aumentam seus salários de maneira vergonhosa, a coisa pública gasta nem se sabe direito onde, enquanto preparamos gerações de ignorantes, criados sem limites, nada lhes é exigido, devem aprender brincando. Não lhes impuseram a mais elementar disciplina, como se não soubéssemos que escola, família, a vida sobretudo, se constroem em parte de erro e acerto, e esforço. Mas, se não podemos reprovar os alunos, se não temos mesas e cadeiras confortáveis e teto sólido sobre nossa cabeça nas salas de aula, como exigir aplicação, esforço, disciplina e limites, para o natural crescimento de cada um?

Cansei de falas grandiloquentes sobre educação, enquanto não se faz quase nada. Falar já gastou, já cansou, já desiludiu, já perdeu a graça. Precisamos de atos e fatos, orçamentos em que educação e saúde (para poder ir a escola, prestar atenção, estudar, render e crescer) tenham um peso considerável: fora isso, não haverá solução. A educação brasileira continuará, como agora, escandalosamente reprovada.


[TEXTO PUBLICADO NA REVISTA VEJA 2234 - 14/09/2011 - pg. 24]

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