Leituras para distrair
Talvez por sermos politicamente jovens — afinal, a nação
brasileira, como hoje a entendemos, tem pouco mais de 200 anos e, quem sabe, por
nossa descolonização não decorrer de uma ruptura efetiva com o colonizador,
ainda nos sentimos inibidos de assumir plenamente nossa nacionalidade cultural.
Nossa história é marcada por uma castração da autoestima e
desqualificação de elementos das suas raízes. Um jornalista traduziu essa
sofrência brasileira ao cunhar a expressão: complexo de vira-latas.
Curiosamente, copiamos facilmente costumes e comportamentos
estrangeiros fúteis, mas raramente suas práticas de valorização cultural. Tome-se
a cachaça como exemplo: bebida tradicionalmente brasileira, popular, produzida
em quase todos os estados e com origens no início da nossa colonização, é o
destilado nacional por excelência, mas sofre discriminação e exclusão.
Outros países valorizam os destilados que fazem parte de suas
histórias: como o uísque na Irlanda e Escócia; a vodca na Rússia; o pisco no Chile
e Peru; o rum no Caribe; a grapa na Itália; a tequila no México, entre outros.
Isso sem falar nas bebidas fermentadas como o saquê, as cervejas e os vinhos. Muitos
países até promovem incentivos e proteções oficiais.
Contudo, no Brasil, a cachaça, com um volume declarado de
produção em 2024 maior que 290 milhões de litros (dados do MAPA - Ministério da Agricultura e Pecuária), ainda é escondida
e mesmo proibida em muitos ambientes. Em certos ambientes ela só é admitida e
valorizada quando está envolta em embalagens sofisticadíssimas e até adornada
com ouro ou diamantes, isto é, vestida em trajes que não guardam qualquer
relação com a sua origem popular.
Em várias
situações, apesar de admirada, muitos admiradores renegam assumir essa condição
e serem identificados como cachaceiros. Beber cachaça é vulgar. Degustar: pode!
O complexo de vira-latas é forte quando se trata da “marvada”. Ainda assim, a
cachaça segue por aí, vivendo à toa, sem querer se impor, como disse o samba-enredo
do Salgueiro em 1977.
É nesse cenário
que a Confraria de Cachaça Copo Furado do Rio de Janeiro atua, combatendo
preconceitos e valorizando a cachaça de qualidade, promovendo eventos e contribuindo
para a divulgação de boas práticas, incluindo a orientação de procedimentos
adequados para o serviço da bebida nos pontos de atendimento. Faz muito bem
essa tal de Copo Furado!