quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

À toa, sem querer se impor

 

Leituras para distrair

Talvez por sermos politicamente jovens — afinal, a nação brasileira, como hoje a entendemos, tem pouco mais de 200 anos e, quem sabe, por nossa descolonização não decorrer de uma ruptura efetiva com o colonizador, ainda nos sentimos inibidos de assumir plenamente nossa nacionalidade cultural.

Nossa história é marcada por uma castração da autoestima e desqualificação de elementos das suas raízes. Um jornalista traduziu essa sofrência brasileira ao cunhar a expressão: complexo de vira-latas.

Curiosamente, copiamos facilmente costumes e comportamentos estrangeiros fúteis, mas raramente suas práticas de valorização cultural. Tome-se a cachaça como exemplo: bebida tradicionalmente brasileira, popular, produzida em quase todos os estados e com origens no início da nossa colonização, é o destilado nacional por excelência, mas sofre discriminação e exclusão.

Outros países valorizam os destilados que fazem parte de suas histórias: como o uísque na Irlanda e Escócia; a vodca na Rússia; o pisco no Chile e Peru; o rum no Caribe; a grapa na Itália; a tequila no México, entre outros. Isso sem falar nas bebidas fermentadas como o saquê, as cervejas e os vinhos. Muitos países até promovem incentivos e proteções oficiais.

Contudo, no Brasil, a cachaça, com um volume declarado de produção em 2024 maior que 290 milhões de litros (dados do MAPA - Ministério da Agricultura e Pecuária), ainda é escondida e mesmo proibida em muitos ambientes. Em certos ambientes ela só é admitida e valorizada quando está envolta em embalagens sofisticadíssimas e até adornada com ouro ou diamantes, isto é, vestida em trajes que não guardam qualquer relação com a sua origem popular.

Em várias situações, apesar de admirada, muitos admiradores renegam assumir essa condição e serem identificados como cachaceiros. Beber cachaça é vulgar. Degustar: pode! O complexo de vira-latas é forte quando se trata da “marvada”. Ainda assim, a cachaça segue por aí, vivendo à toa, sem querer se impor, como disse o samba-enredo do Salgueiro em 1977.

É nesse cenário que a Confraria de Cachaça Copo Furado do Rio de Janeiro atua, combatendo preconceitos e valorizando a cachaça de qualidade, promovendo eventos e contribuindo para a divulgação de boas práticas, incluindo a orientação de procedimentos adequados para o serviço da bebida nos pontos de atendimento. Faz muito bem essa tal de Copo Furado!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Peões, cabras, prendas e xodós

 

Leituras para distrair

 

No último dia 7 de setembro passei pelo Festival Brasilidades, uma feira de artesanato, gastronomia, música, teatro e literatura no Museu da República, no Catete, Rio de Janeiro.

Nos jardins, que adquirem uma beleza especial quando ocupados pela população, apresentava-se um grupo folclórico gaúcho muito aplaudido. Observando as danças e cantorias do grupo, refleti que, para mim, a região sul parece culturalmente mais distante do que o nordeste brasileiro. Apenas uma sensação, sem outro dado consistente, mas uma sensação forte. Será que outras pessoas aqui, do Sudeste, também se sentem assim?

Talvez isso decorra do fluxo das migrações populacionais que, por carências socioeconômicas históricas, foi mais expressivo no sentido nordeste para sudeste. Além de pessoas, o fluxo traz consigo costumes e culturas. O fato é que “cabra e xodó” são bem mais próximos de mim do que “peão e prenda”.

Esse desequilíbrio na balança cultural é ruim. Ficamos distantes do contato com o mundo cultural sulista, riquíssimo em sua variedade, e esse afastamento se desdobra, quase inevitavelmente, em uma indesejável e descabida discriminação entre as populações sulistas e as demais do país.

A essa altura da nossa história e num país do tamanho do nosso, acumulam-se essas distorções. Repará-las é uma tarefa difícil, um embrulho de três cocos para moçada que luta pela integração nacional.

Pensei com os meus botões em dois aspectos curiosos. A região sul, particularmente o Rio Grande do Sul, é onde está a maior proporção de praticantes de umbanda e candomblé, e onde está o maior número de casas de terreiro do Brasil (IBGE).

Também na região sul, a "densidade cachaceira", um índice que contabiliza a quantidade de estabelecimentos produtores de cachaça por habitante de uma região, é relevante. Segundo o Anuário da Cachaça 2025 (MAPA), dos 19 municípios mais bem servidos de cachaça no Brasil, 13 são mineiros, 3 são catarinenses, 2 são gaúchos e 1 capixaba. E nós, cachaceiros, sabemos bem sobre as pérolas de qualidade e delicias que são muitas das cachaças da região sul.

Não paro de pensar que talvez uma desejada integração cultural do nosso país passará por aí. Até arrisco apostar que não poderia ser outro o caminho das pedras. Ele passa por esses dois elementos tão representativos e originais da nossa cultura. Nossa integração se completará pela macumba e pela cachaça. ###

Publicado originalmente em "Pinga nos III" - 34 -  Janeiro 2026, um jornal da Confraria de Cachaça Copo Furado Rio de Janeiro.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Doces e enganosas ilusões

 Leituras para distrair

Quando um garfo mergulhado na água parece torto, ou quando o fundo da piscina parece mais raso do que é, estamos diante de um mesmo fenômeno: a refração da luz. Esse efeito ocorre quando a luz muda de direção ao atravessar meios diferentes, como ar-água ou entre camadas da atmosfera.

É por isso também que as estrelas que vemos estão em posições ligeiramente alteradas em relação às suas posições reais; por isso vemos o céu azul; vemos o horizonte avermelhado ao entardecer ou, ainda, que surgem as miragens nos desertos.

Cada substância desvia a luz de forma diferente, o que pode ser medido pelo chamado índice de refração da luz. Esse índice é tão preciso que sua medida permite calcular, por exemplo, a quantidade de açúcar dissolvido em uma solução. Assim nasceu a escala Brix usada para medir o teor de açúcares numa solução: 1 grau Brix corresponde a 1 grama de açúcar em 100 gramas de solução.

Na produção de cachaça, o Brix do caldo de cana é fundamental. Usando um refratômetro, o alambiqueiro mede o índice de refração e sabe se o caldo está pronto para a fermentação e destilação. Em geral, busca-se entre 16 graus e 20 graus Brix. Mestres mais experientes chegam a identificar o ponto ideal apenas pelo odor.

A escala leva o nome do engenheiro alemão Adolf Ferdinand Wenceslaus Brix, que a desenvolveu no século 19. Hoje, continua indispensável na indústria alimentícia e em engenhos de cachaça.

Vale lembrar que embora a refração explique ilusões como miragens, estrelas fora da posição ou algumas coisas parecendo tortas, ver o chão próximo ou o mundo girando depois de exagerar nas doses de cachaça já é outro fenômeno – nenhuma relação com o Brix! ### (Jorge Santos – Rio, 08/01/2026)