terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Vejo outra coisa!

 Opinião

Na CPI do MST, o professor José Geraldo, da UnB, fez uma intervenção que virou meme ao responder a uma deputada da direita (o nome pouco importa). Citando Octavio Paz, afirmou que ela não tinha cognição para compreender os temas em debate. Com fina ironia, disse que a deputada só enxergava o mundo pelo estreito recorte que fazia da realidade, o que tornava qualquer diálogo impossível. Não foi desrespeito, mas uma constatação dos limites dela. A cena, junto do comentário abobalhado da deputada, entrou para os anais da nossa política.

Lembrei disso hoje (30/11/2025), dia especial para muitos, com o tetracampeonato do Flamengo na Libertadores. Sempre que o assunto é futebol, sinto como se o professor estivesse falando comigo. Vejo a multidão em transe coletivo, sob o sol de domingo, superlotando o centro da cidade normalmente abandonado, idolatrando profissionais do futebol que carregam no peito o anúncio de uma empresa de apostas on-line.

No meu bairro, passam aos gritos: “ganhamos a porra toda!”, “o Rio de Janeiro é nosso!”. Justo aqui, nas mesmas ruas alagadas dois dias antes, atrasando o retorno dos trabalhadores; no mesmo estado cujo governador comemorou uma operação policial com 122 mortos; na mesma semana em que mais uma criança foi baleada durante uma operação policial.

Ninguém ergue a voz diante desses fatos, mas com a vitória de um campeonato de futebol todos parecem entrar em possessão, com surtos incontidos que os fazem urrar como guerreiros saídos de uma batalha campal.

Nada contra o futebol ou os flamenguistas, mas admito: não tenho cognição para entender. Como os indígenas citados pelo professor José Geraldo, que não viam as caravelas apesar de estarem lá; como a deputada incapaz de compreender o significado do MST; eu — talvez também um idiota — sem capacidade cognitiva, não consigo representar mentalmente essa horda de barões famintos e napoleões retintos venerando não sei o quê nas suas estranhas catedrais. ###


PROFESSOR DA UnB DEIXA SEM CHÃO DEPUTADA BOLSONARISTA NA CPI DO MST  -  Acesso em 02/12/2025

https://www.youtube.com/watch?v=Z8FsNvUwN9o

sábado, 22 de novembro de 2025

Teje preso!

 Opinião

 

Hoje foi um dia especial – 22 de novembro. Acordei lembrando a Revolta da Chibata e João Cândido, talvez meu herói nacional preferido. Nunca passo a data sem pensar no que ela representa.

Antes de ver as notícias, li uma mensagem sobre a prisão do Bozo e não entendi de imediato. Achei que fosse só formalização das condenações, até perceber que era prisão preventiva. Liguei a TV e confirmei.

A partir daí o dia virou um turbilhão de notícias, comentários e memes sobre o enquadramento do ex-presidente fascista. Até o encerramento da COP 30 ficou em segundo plano. A galera progressista comemorou numa catarse cheia de simbolismos.

Mesmo assim, em minhas ingênuas elucubrações algumas coisas não fecham. Apesar da alegria de ver o Bozo preso, achei estranha a violação tosca da tornozeleira. Tenho ferros de solda, estanho, pasta e sugador em casa e sei usar. Aquela maquininha cheia de marcas de solda, parecendo tentativa infantil de abrir um brinquedo, não convence. Talvez expliquem depois, mas ali tem algo errado que não está certo.

A propósito, o número da tornozeleira – 85916-5 – deverá estar cotado nas apostas no jogo do bicho, essa contravenção ainda tolerada pela ética nacional. A milhar deve bombar.

Lembraram também que hoje é aniversário da deputada Maria do Rosário, aquela que o então deputado escroto, em 2014, disse que não estupraria porque ela “não merecia”. Imagino que ela tenha recebido a notícia como presente.

A festa para João Cândido pode passar despercebida, mas o 22 de novembro ganha agora novo significado. Assim funciona nossa história.

A canção de Aldir Blanc e João Bosco lembra que, nas águas da Guanabara, o dragão do mar reapareceu na figura de um bravo marinheiro. Poucos sabem que o “dragão do mar” é o jangadeiro cearense Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde, que no fim do século XIX liderou os jangadeiros contra o embarque de escravizados no Ceará.

Chico da Matilde iluminou João Cândido no século seguinte, e acho que agora foi o Almirante Negro quem reapareceu para tornar este dia ainda mais memorável com a prisão de um fascista escroto. Quem sabe para compensar aquele almirante que aderiu ao golpe e ganhou 24 anos de cana por crime de organização criminosa e golpe de Estado?  Há motivos para celebrar!

Glória à farofa, à cachaça, às baleias e às lutas inglórias que não esquecemos. Salve o Almirante Negro, cujo monumento são as pedras pisadas do cais. ### (Jorge Santos – Rio, 22/11/2025)

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Um quantum de física

 Leituras para distrair

 

A física estuda os fenômenos da natureza em todas as escalas, buscando compreendê-los. O avanço desses estudos e observações tem revelado eventos em dimensões subatômicas que são invisíveis na escala humana e muitas vezes contrários ao senso comum.

Quando se fala em “escala”, vale uma pausa. O tamanho de um próton, por exemplo, é medido por seu “raio de carga”, da ordem de 10¹⁵ metros — um quatrilhão de vezes menor que o metro. Difícil até de imaginar.

Há partículas subatômicas chamadas mésons, presentes nos núcleos atômicos, cujo tempo de vida é de 10²⁴ segundos (elas se transformam em outras partículas), isso equivale a:

 

 0,000 000 000 000 000 000 000 001 s — um septilionésimo de segundo.

 

Essas quantidades são extraordinariamente pequenas, e a física quântica se ocupa justamente dos fenômenos que ocorrem nesse domínio que, embora pareçam distantes do cotidiano, eles são aspectos fundamentais da natureza. É o chamado mundo quântico.

Quando alguém afirma que uma partícula como o múon apresenta comportamento “estranhíssimo”, isso só impressiona o cientista que sabe o que  esperava observar, mas não traz qualquer surpresa para quem não faz a menor ideia do que seja um múon. Por isso, como em outras áreas, tenta-se traduzir para o público leigo as peculiaridades do mundo quântico por meio de analogias. Porém, quando replicadas sem cuidados, essas comparações trazem mais confusão do que esclarecimentos — sem contar quando se faz delas usos maliciosos.

Um dos fenômenos que deram origem à física quântica, e que inspirou seu nome, foi a constatação de que a energia de um sistema não varia de forma contínua, mas em quantidades discretas, pacotes, chamadas quanta (plural de quantum). Essa descoberta foi surpreendente porque, na experiência humana, as transformações de energia parecem sempre contínuas.

Pense em uma bola largada de certa altura. No alto, ela tem energia potencial,  ao cair, essa energia se converte em cinética (velocidade). Tudo parece ocorrer de forma suave, ininterrupta. Imaginar que a troca de energia se faz em “pacotes” — como se a bola caísse em saltos sucessivos, como em degraus de uma escada — soa absurdo para o senso comum.

Mas, em escala quântica, é exatamente isso que acontece. No caso de uma bola real, a diferença entre níveis de energia seria tão minúscula — trilhões de trilhões de níveis por milímetro — que se torna impossível de perceber. Por isso, no mundo macroscópico, o movimento parece contínuo, embora, em essência, resulte de um conjunto de trocas quantizadas.

Tentar aplicar diretamente as leis do mundo quântico à escala humana produz situações aparentemente absurdas, mas assim como a troca de energia em pacotes, fato experimentalmente comprovado, e que está na base de grande parte da tecnologia moderna, há outros efeitos quânticos que parecem estranhos ou absurdos para o senso comum, mas que são reais e indispensáveis para explicar a natureza.

Invisíveis ao olhar cotidiano, mas essenciais à estrutura da matéria, esses fenômenos desafiam o senso comum e isso provoca um fascínio, debates e avanços no conhecimento do nosso mundo. Eles estão ai, há mais de 100 anos, determinando praticamente todos os desenvolvimentos da tecnologia contemporânea.

Vale lembrar que a aparente contradição entre o mundo quântico e o senso comum também abriu espaço para os vendedores de ilusões. Multiplicam-se produtos e serviços “quânticos” — pomadas, terapias, rezas, e outros que usam o termo para soar científico e justificar absurdos. Esse charlatanismo é antigo, surgiu bem antes de Planck propor a energia quantizada, de Einstein introduzir o fóton como exemplo da quantização e de Bohr aplicar essas ideias para explicar a estabilidade dos átomos. ### (Jorge Santos – Rio, 07/11/2025).

domingo, 19 de outubro de 2025

A boiada da IA (Inteligência Artificial)

 Opinião

 

O Intercept Brasil fez uma serie especial de reportagens intitulada “A boiada da IA” tratando sobre como o aumento da demanda por inteligência artificial tornou o Brasil especialmente interessante para fornecer infraestrutura para big techs e sobre o impacto da indústria de data centers no Brasil. A última matéria da serie trata da construção, pela TikTok, de um mega data center em uma cidade com histórico de seca no Ceará.

Vale ressaltar que os interesses são de origens diversas e não existe um grupo “bonzinho”. Americanos, russos, chineses ou de outra identificação nacional competem entre si. O nome disso é capitalismo. E toda leitura precisa ser bem crítica, inclusive essa publicada aqui.

A reportagem especial do Intercept pode ser acessada pelo link a seguir. ###

 

A boiada da IA (Serie especial do Intercept Brasil – Acesso em 15/10/2025)

<https://www.intercept.com.br/especiais/a-boiada-da-ia/>

Colonialismo digital

 Opinião

 

O jornal O Globo de 15/10/2025 publicou uma longa matéria sobre tecnologia no Rio de Janeiro e menciona um projeto de data center na Barra da Tijuca. Segundo o texto, o consumo projetado seria de 1,5 GW, podendo chegar a 3,2 GW. O site da prefeitura confirma essa publicação – a criação do “Rio AI City” e anuncia consumos projetados de 1,8 a 3,0 GW.

A maioria dos leitores — eu incluso — não tem noção do que isso significa. Recorrendo ao ChatGPT, o oráculo digital do momento, para perguntar qual seria a demanda elétrica de uma cidade com 100 mil habitantes, a  resposta foi: entre 0,02 e 0,06 GW, dependendo do padrão de consumo. Por regra de três, e sem o rigor de um cálculo oficial, a demanda inicial desse data center equivaleria à de cinco cidades de porte médio, como Niterói (RJ).

Para comparar: Itaipu, uma das maiores hidrelétricas do mundo, tem uma capacidade energética instalada de 14 GW. Ou seja, esse único empreendimento consumiria cerca de 10% da capacidade instalada de Itaipu. A matéria, no entanto, não questiona os impactos desses números — e sequer menciona o enorme consumo de água necessário para resfriar as máquinas.

 Será que isso é bom para o país? 

O tema evoca os anos 1980, quando poucos entendiam o significado  de  “comunicação de dados” e a sua importância para os projetos estratégicos nacionais. Hoje, os data centers povoam esse universo tecnológico misterioso e acessível apenas ao iniciados — símbolos de modernidade, mas também de consumo absurdo de energia e recursos naturais. O Brasil parece ser um paraíso para as gigantes corporações digitais que vêm a exploração do nosso potencial hídrico como a possibilidade de uma versão atualizada da velha lógica de exploração colonial. Um amigo cunhou a expressão: um e-colonialismo.

É urgente discutir os impactos reais dessa corrida tecnológica. Como foi na década de 80 com as telecom, não faltarão os iludidos, fascinados ou emburrecidos pelas seduções tecnológicas, e que servirão como buchas de canhão na defesa da irreversibilidade desses processos e da inutilidade de questioná-los. Ainda assim, com alguns amigos, buscamos romper essas barreiras de silêncio e acomodação insistindo em provocar o debate do assunto. Um esforço necessário e justificado.

Seguem sugestões de leituras sobre o tema: um vídeo da BBC, um matéria da Revista Fapesp e um link para publicação da prefeitura do Rio de Janeiro. Os números impressionam e inquietam. ###

 

A água potável 'perdida' em data centers de Inteligência Artificial  (BBC News Brasil) – Acesso em 16/10/2025:

https://www.youtube.com/watch?v=JS-PRom-dpA

 

As estratégias para tornar os data centers mais sustentáveis (Revista FAPESP – Março de 2025)

https://revistapesquisa.fapesp.br/as-estrategias-para-tornar-os-data-centers-mais-sustentaveis/

 

Rio anuncia o projeto “Rio AI City”: o maior hub de data centers da América Latina e um dos dez maiores do mundo – Site da prefeitura do Rio de Janeiro

https://prefeitura.rio/noticias/rio-anuncia-o-projeto-rio-ai-city-o-maior-hub-de-data-centers-da-america-latina-e-um-dos-dez-maiores-do-mundo/

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Carta da Paz do Esquivel 2025

 Opinião

 

O mundo está estranho. No aniversário de 533 anos da chegada de Colombo às Américas, o governo argentino de Javier Milei divulgou vídeo afirmando que a colonização marcou “a prevalência da civilização sobre a selvageria” e que os povos originários viviam “ mergulhados na barbárie.”

É difícil conter a bronca contra os hermanos portenhos, mas no mesmo 12/10/2025, felizmente, o também argentino Adolfo Pérez Esquivel, Nobel da Paz de 1980, reagiu com em carta aberta à venezuelana Corina Machado, Nobel de 2025, que dedicou o seu prêmio a Donald Trump. Carajo!!

O vídeo do governo argentino está disponível na web. Nada fake. Ver link no final dessa publicação. A carta do Esquivel estou replicando a seguir.

 

Carta de Adolfo Pérez Esquivel (Nobel da Paz 1980) a Maria Corina Machado (Nobel da Paz 2025)

 

De Nobel para Nobel

 

Envio-lhe as saudações de Paz e Bem que a humanidade e os povos que vivem na pobreza, no conflito, na guerra e na fome tão desesperadamente necessitam. Esta carta aberta é para expressar sua gratidão e compartilhar algumas reflexões.

Fiquei surpreso com sua designação como Prêmio Nobel da Paz pelo Comitê Nobel. Isso me fez lembrar das lutas contra as ditaduras no continente e em meu país sob ditaduras militares que suportamos de 1976 a 1983 e resistimos às prisões, à tortura e ao exílio com milhares de pessoas desaparecidas, crianças sequestradas e desaparecidas e os voos da morte dos quais sou um sobrevivente.

Em 1980, o Comitê Nobel me concedeu o Prêmio Nobel da Paz. 45 anos se passaram e continuamos trabalhando a serviço dos mais pobres e ao lado dos povos latinoamericanos. Em nome de todos eles, assumi esta alta distinção, não pelo Prêmio em si, mas pelo compromisso ao lado dos povos compartilhando as lutas e esperanças para construir um novo amanhecer. A paz se constrói dia a dia, e devemos ser coerentes entre palavras e ações.

Aos 94 anos, continuo aprendendo com a vida e me preocupo com sua postura e suas decisões sociais e políticas. Por isso, envio estas reflexões.

O governo venezuelano é uma democracia com seus altos e baixos. Hugo Chávez abriu caminho para a liberdade e a soberania do povo e lutou pela unidade continental; foi um despertar da Pátria Grande.

Os Estados Unidos a atacaram constantemente; não podem permitir que nenhum país do continente escape de sua órbita e dependência colonial; continuam a sustentar que a América Latina é seu “quintal”. O bloqueio americano a Cuba há mais de 60 anos é um atentado à liberdade e aos direitos do povo. A resistência do povo cubano é um exemplo de dignidade e força.

Estou surpreso com o quanto você se apega aos Estados Unidos, e você deve saber que eles não têm aliados nem amigos, apenas interesses. As ditaduras impostas na América Latina foram instrumentalizadas por seus interesses de dominação, destruindo a vida e a organização social, cultural e política dos povos que lutam por sua liberdade e autodeterminação. Nós, o povo, resistimos e lutamos pelo direito de sermos livres e soberanos, não uma colônia dos Estados Unidos.

O governo de Nicolás Maduro vive sob a ameaça dos Estados Unidos e do bloqueio. Basta considerar as forças navais no Caribe e o perigo de invasão do seu país. Vocês não disseram uma palavra, ou apoiam a interferência desta grande potência contra a Venezuela. O povo venezuelano está pronto para enfrentar essa ameaça.

Corina, pergunto-lhe. Por que você pediu aos EUA que invadissem a Venezuela? – Quando recebeu o anúncio de que receberia o Prêmio Nobel da Paz, você o dedicou a Trump. O agressor do seu país, mentindo e acusando a Venezuela de narcotráfico, uma mentira semelhante à de George Bush, que acusou Saddam Hussein de possuir “armas de destruição em massa”. Um pretexto para invadir o Iraque e saqueá-lo, causando milhares de vítimas, mulheres e crianças. Eu estava em Bagdá no final da guerra, no hospital pediátrico, e vi a destruição e as mortes causadas por aqueles que se proclamam defensores da liberdade. A pior forma de violência é a mentira.

Não se esqueça, Corina, que o Panamá foi invadido pelos EUA, causando morte e destruição para capturar um antigo aliado, o General Noriega. A invasão deixou 1.200 mortos em Los Chorrillos. Hoje, os EUA tentam tomar novamente o Canal do Panamá. É uma longa lista de intervenções e sofrimento na América Latina e no mundo por parte dos EUA. As veias da América Latina continuam abertas, como diz Eduardo Galeano.

Preocupa-me que você não tenha dedicado o Prêmio Nobel ao seu povo, mas sim ao agressor da Venezuela. Acredito, Corina, que você precisa analisar e saber onde se posiciona, se você é apenas mais uma peça do sistema colonial estadunidense, sujeita aos seus interesses de dominação, que nunca poderão ser para o bem do seu povo. Como opositora do governo Maduro, suas posições e opções geram muita incerteza. Você recorre ao pior quando pede que os EUA invadam a Venezuela.

O importante a ter em mente é que construir a paz exige muita força e coragem para o bem do seu povo, que eu conheço e amo profundamente.

Onde antes havia barracos nas montanhas sobrevivendo na pobreza e na miséria, hoje há moradia digna, saúde, educação e cultura. A dignidade do povo não se compra nem se vende.

Corina, como diz o poeta: “Caminhante, não há caminho, o caminho se faz caminhando”. Agora você tem a oportunidade de trabalhar pelo seu povo e construir a paz, não de provocar mais violência. Um mal não se resolve com outro mal maior. Teremos apenas dois males e nunca uma solução para o conflito.

Abra sua mente e seu coração ao diálogo, ao encontro com seu povo, esvazie o jarro da violência e construa a paz e a unidade entre seus povos para que a luz da liberdade e da igualdade possa entrar.

Adolfo Pérez Esquivel 12-10-25


Link para o vídeo do governo argentino - Acesso em 15/10/2025

Casa Rosada 12 de outubro de 2025

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Copacabana - 21/09/2025

 

Opinião

 

Cheguei tarde no ato em Copacabana, ontem, domingo - 21/09/2025. Tive outro compromisso. Mas, fiz questão de comparecer para que a ferramenta da USP que contabiliza multidões incluísse a minha careca. Ainda assim, no período em que estive lá, teve Caetano, Ivan Lins, Zeca Baleiro, Frejat, outros . . . e Chico. Quem poderia pedir mais?

Festa boa e fim de festa especial, nada de bagaço da laranja. A cara de uma geração, a minha, certamente , talvez a nossa. As pessoas passavam cantando emocionadas. Bonito de ver.

O que mais ouvi e li  foram comentários falando da emoção. Até mais do que críticas políticas. Pudera! Um “revival” com a galera que participou desse evento é coisa de "machucar" o coração da nossa geração. Aprendemos assim.

As repercussões políticas saberemos depois. A direita fascista, incluindo alguns deputados petistas – esse fato não deveria ser esquecido - não teve constrangimentos em avançar seu projeto na Câmara dos Deputados. Assim, não creio que as manifestações tenham sido suficientes para inibi-los. O Senado, por sua vez, ainda  está com o pé atrás. Nosso papel é esse: pressionar.

Ouvi a indicação de um jornalista sugerindo que não deveríamos generalizar o termo "congresso". Afinal, 133 deputados votaram contra a PEC da bandidagem. Acho que faz sentido, pensarei nisso, mas é irresistível não traduzir  a sigla PCC como Primeiro Comando do Congresso.

O desdobramento da minha participação será ouvir, ver e ler os noticiários e como esses fatos reverberam. Outro dia registrei um comentário sobre a alternativa de fazermos atos musicais em vez dos enfadonhos discursos polítricos que não agregam nada e ninguém.

Uma amiga observou: "se essa história de comícios musicais colar, já pensou que desgraceira vai ser os comícios com Chitãozinho, Xororó, Gustavo Lima e por aí?"

Também tinha pensado nisso. Apavorei-me! #####


Um complemento

 O que me apavora não tem a ver com o conteúdo, preferência ou preconceito musical. Ao contrário, estou entre os admiradores da pluralidade artística em nosso país que vejo como mérito, especialmente no caso da música.

Não cago regras sobre qualidade artística, gosto é gosto, e tem gosto pra tudo. A minha avó dizia: “_mais vale um gosto que dez vinténs_”. Apavora-me é a consciência da capacidade de mobilização dos artistas sertanejos que citei, além de outros – que sequer conheço – e que são apoiadores, estimuladores ou apenas participantes de eventos patrocinados pela direita fascista, como já acontece em diversas cidades do país.

Os meus ídolos musicais (que ainda são os mesmos), talvez nossos, nunca foram artistas de mobilizar multidões, em que pese o brilhantismo de suas capacidades artísticas. E nesse aspecto, a direita leva uma enorme vantagem.

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sábado, 13 de setembro de 2025

Nem brasileira, nem popular

 Leituras para distrair

Um sujeito vestindo um saiote  estampado e tocando uma gaita de foles. Essa será a primeira lembrança trazida pela palavra “escocês”, quando não for o uísque.

O saiote chama-se Kilt e Tartan é o nome do tecido em xadrez. Eu sempre pensei que aquela vestimenta fosse uma tradição de identificação dos clãs escoceses, até aprender que a tal “tradição” é fake.

Mesmo aqueles rituais com os caras de saiotes tocando a gaita de foles, tudo aquilo é uma tradição inventada (1). Uma fake que pegou. Sobre o uísque,  ainda tenho muito o que aprender.

Lembro esse assunto ao pensar no Dia Nacional da Cachaça, 13 de setembro, celebrado  em data que resgata uma revolta por conta da corte portuguesa proibir a produção e o comercio da cachaça no Brasil.

Não foi um movimento qualquer, contudo apesar da importância cultural da nossa popular cachaça, cuja história é aderente à própria história da formação do nosso país, a revolta, onde se foi buscar a data de referência para o Dia Nacional da Cachaça, nada teve de brasileira e muito menos foi popular.

Foi uma trama de proprietários portugueses, latifundiários, senhores de escravos, fiéis à coroa e circunstancialmente indignados com as políticas tributárias da corte que prejudicavam os seus negócios. Na ocasião não existia sequer conceito de brasilidade ou de cidadania brasileira.

As circunstâncias que levaram à revolta nos anos seiscentos estão bem distantes dos aspectos que fizeram a cachaça tornar-se o que se tornou: um símbolo cultural da identidade brasileira, bebida nacional com centenas de designações pelo país afora, produzida em todas as unidades da federação, presente em todas as nossas representações artísticas e literárias e objeto de interesse e de uma quantidade enorme de estudos e pesquisas universitárias.

Assim, a relação direta de uma “revolta” com o Dia Nacional da Cachaça sem as devidas mediações históricas poderá ser a invenção de uma tradição. Mas, isso faz parte da história do mundo, um bom tema para se conversar lambendo umas.

(1) HOBSBAWN, Eric; RANGER, Terence. A invenção das tradições.  Paz e Terra – RJ, 1997.

Publicado originalmente em "Pinga nos III" - 33 -  Agosto - Setembro 2025, um jornal da Confraria de Cachaça Copo Furado Rio de Janeiro.

Para saber mais sobre esse assunto: Uma revolta sem heróis ; Um golpe gonçalense

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Êxtase e Agonia

 Opinião

Se o dia 09 de setembro, último, foi um dia de êxtase para a militância da esquerda, com os votos de Xandão e Dino condenando a cúpula fascista pela prática do golpe, o dia seguinte foi de agonia e desânimo com o voto do peruquento Fux.

O voto de Fux no não foi apenas um voto em favor do Bozo e da cúpula fascista, mas também um voto de desqualificação dos trabalhos de acusação da PGR, da relatoria, e até das investigações da Policia Federal. Foi também um voto de estímulo para a sanha golpista que não terminou com os atos de 8 de janeiro de 2023, mas que permanece viva e pululante entre as bancadas de oposição no congresso nacional.

A quarta-feira (10) foi um dia de frustração que pareceu que não iria terminar, com aquela figura escrota fazendo uma descrição dos fatos que deixou perplexas até mesmo as bancadas de defesa, embora elas tivessem uma certa expectativa otimista contando com algumas divergências já anunciadas pelo próprio Fux.

Contudo, surpresa! Boquiabertos e impedidos de fazer intervenções por um acordo preliminar proposto pelo próprio peruquento, a moçada da primeira turma do STF, assim como toda a militância progressista sofreu um dia torturante. A vontade comum era que o peruquento declarasse logo a absolvição da malta criminosa, desde que acabasse com o martírio provocado pela leitura do seu voto.

Os jornalistas que acompanham os trabalhos no STF com suas fontes e análises erraram feio. Todos subestimaram suas avaliações sobre o Fux. Nem os mais pessimistas imaginavam que ele desceria até onde foi. Se fosse o caso, se fizesse parte do processo, o peruquento seria capaz até de declarar que nunca existiu uma pandemia, nem as 700 mil mortes para as quais colaborou a prática genocida da cúpula fascista que ele absolveu.

Fica uma questão: será que também estarão erradas as expectativas em relação aos votos de Cármen Lucia e de  Zanin?

Hoje, 11/09, é data simbólica. Em 1973 o golpe no Chile e a morte de Allende. Em 2001 a derrubada das torres gêmeas nos EUA. Como será, para nós, esse 11 de setembro de 2025? #####

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Por um DJ engajado!

 Opinião

Estive presente na Marcha dos Excluídos (RJ) que esse ano incluiu em seus temas a manifestação contra a anistia dos fascista que estão sendo julgados no STF. A concentração para a Marcha foi na esquina das ruas Uruguaiana e Presidente Vargas, no centro da cidade, em ponto vizinho ao tradicional desfile militar que ocorreu no mesmo dia, 07/09/2025.

Em conversa com uma amiga, ao lado do carro de som onde desfilavam as “intervenções” de dois minutos dos representantes das entidades participantes do evento, surgiu uma questão:

 

Por que os discursos nos atos políticos da esquerda são tão chatos, tão desimportantes, e quase insuportáveis?

 

Salvo em situações ou oradores super especiais, não presto a mínima atenção aos discursos nos atos políticos, embora tenha que tolerá-los, contribuindo com a minha presença porque a quantidade de manifestantes valoriza o ato.

Discursos talvez sejam importantes para o gado direitista que via de regra precisa ser hipnotizado e guiado pelos ditos influencers. A galera da esquerda que comparece aos atos políticos não está lá por um impulso inconsequente nem atendendo a um chamado messiânico. Aliás, se for assim, a meu juízo é melhor que não compareça. Os participantes sabem o que estão fazendo lá, não precisam desse tipo de convencimento,  e as tais “falações” não contribuem com nada.

Na concentração, entre os discursos aporrinhantes  que ouvi, um orador, certamente sem ter o que falar, mas sem abrir mão de ocupar o microfone,  fez recomendações para que eu estivesse atento ao meu voto em 2026.

Puta que pariu!  Saio num domingo ou feriadão para engrossar e referendar um ato político que acho importante, e ouço uma recomendação desse tipo de um boquirroto que perdeu a oportunidade de ficar calado. Tenha paciência!

Seria bom se os coordenadores dos atos, via de regra emergentes das organizações sindicais, mudassem suas abordagens. Quem sabe uma cantoria, uma música, uma festa. Já estamos em campo, precisamos mais dos cantos e dos batuques de animação para as lutas do que essas falações água de batata, que só enchem o saco sem despertar a atenção de um único participante, e sem agregar uma vírgula sequer às nossas motivações.

Por razões históricas, o repertório musical nacional está repleto de obras de fundo e motivações políticas que embalam multidões de militantes em seus primeiros acordes. Seus refrões dizem muito mais que os recorrentes e insípidos discursos de representantes de entidades,  na medida em que são sínteses emocionais e poéticas de desejos e de experiências de lutas.

Não se trata de excluir completamente os discursos, há a necessidade de divulgar informações, apoios, participações etc. Contudo, vale resgatar que as cantorias políticas já decorrem justamente dos discursos e dos enfrentamentos. Em coro e por serem populares, são capazes de elevar as manifestações a um patamar bem superior de participações. Precisamos de um DJ engajado!  ###

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Burguesia quinta-coluna

 Opinião

Aparados os excessos ufanistas, as falsidades ou redações maliciosas, além dos memes que são divertidíssimos, as notícias mostram a robustez do monstro americano. Fera ferida, mas não de morte nem derrotada.

Trump é o que é. Um parafuso solto numa engrenagem complexa. É tão caótico como um pêndulo duplo, mas ele é parte de uma engrenagem e precisa obedecer a outras determinações. Pode até parecer e agir como doidão, mas não vai queimar dinheiro nem comer merda.

A burguesia nacional, por sua vez, há muito fez sua escolha, e não foi ontem. Uma escolha histórica de dependência e subordinação ao capital internacional. A burguesia nacional nem mesmo tentou construir uma independência.  Desde os seus primórdios optou por alinhar o país como nação dependente no contexto das nações capitalistas.

Nesse momento vivemos uma crise que não é um ponto fora da trajetória e que precisa ser corrigido para tudo voltar ao normal. Trata-se de uma mudança da própria trajetória. Não é uma perturbação na relação bilateral entre as economias dos EUA e a brasileira, mas uma mudança de trajetória para a economia mundial. Essa é uma observação do professor Marcelo Carcanholo (UFF) que assumo completamente.

Ao lado das corretas intervenções do governo que estão sendo realizadas para a redução de danos provocados pelo tarifaço, e de outras situações que possam vir, é hora de se pensar também em uma modificação radical em nossa estratégia de desenvolvimento

Segundo o professor (em entrevistas e participações em fóruns publicados na web), podemos não saber muito bem para onde as coisas caminham, mas é justamente nesses momentos que precisamos considerar os custos e benefícios dos cenários possíveis, e de colocar na mesa o debate de reformas estruturais que repensem a inserção e a subordinação do país no comercio internacional.

Outros pensadores, com observações que não divergem do professor Carcanholo, advertem sobre a necessidade de também baixarmos o olhar que mira distante, na direção de Trump. A necessidade de mirarmos  a burguesia nacional, esse adversário interno que sempre atuou como quinta-coluna das grandes corporações capitalistas, e que, agora, revela-se sem pudores como aliado assumido das práticas intervencionistas de Trump.

Sem perder de vista a conjuntura internacional, porém buscando uma  restauração e fortalecimento de nossas energias, antes de tentativas provavelmente ineficazes de longo alcance, deveríamos optar pelo combate  direto, exposição e, na medida do possível, a exclusão, desses inimigos internos.

Os partidos políticos que se autoproclamam como partidos de esquerda, bem como as organizações que se assumem como progressistas, deveriam assumir essas diretrizes como orientadoras de suas atuações.

É infantilidade ignorar as atuais correlações de forças e o que significa antagonizar o império americano. Contudo, nesse caso, não se trata de escolhas, mas de circunstâncias. Também não se trata de assumir um alinhamento político automático com o governo Lula ou seu partido, mas de adotar práticas e propostas que signifiquem enfrentamentos concretos e objetivos com esse inimigo próximo. Chega de tratar a burguesia nacional como se algo positivo pudesse sair dali. Ela fede!   ####

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Sem hora para terminar

Opinião

Lula já deu respostas satisfatórias e suficientes para as investidas do Trump. Elas nem são exatamente as que eu gostaria, mas eu não sou governo e, para mim, por ora, estão de bom tamanho. Por mim,  nesse momento, Lula rolaria a bola, sem réplicas. Não por submissão, mas por desconsideração.

Lula vem sendo instigado por interesses diversos e até maliciosos para responder cada vômito verbal do Trump. Não deveria desperdiçar munição. Já respondeu, e pronto! Até porque "quem fala muito acaba dando bom dia pra cavalo".

Outra vez os EUA buscam um golpe contra o Estado brasileiro. Já fizeram, no passado, com sucesso. Sempre como suporte para uma parte importante da burguesia nacional e seus gorilas militares. Agora a tentativa tem um aspecto diferente. Além de liderada, ela é  explicitada por um poderoso fascista que tenta se impor como imperador do mundo. Não tenhamos dúvidas, enquanto Trump for o líder político americano, a porrada descerá firme sobre o Brasil que nem é  visto como aliado político que refuta apoio, mas como um vassalo insurgente que recusa obediência quando deveria reconhecer o seu lugar.

Outro aspecto distinto é que os fascistas brasileiros, cabeças de ponte das investidas do Trump, possuem uma expressiva representação popular, embora, nesse momento,  não estejam contando com o apoio integral dessa representação em suas ações lesa-pátria. Por outro lado, com o com o domínio do que conquistaram no parlamento, avançam, eles próprios, chutando o pau da barraca da democracia liberal  na qual sempre se apoiaram.

Aproxima-se a data de julgamento do fascista tupiniquim. O ambiente é tenso e o momento é um marco histórico. Parece que estamos num jogo sem hora para terminar e até sem regras para cumprir. A sociedade brasileira está sendo forçada a optar sobre qual o nosso papel no contexto sociopolítico internacional, ainda que tratar esse assunto e fazer uma opção tenha sido  a menor de nossas prioridades. Mas, queiramos, ou não, é assim. ####

terça-feira, 26 de agosto de 2025

O morro nem chegou a descer

 Leituras para distrair

 

“ O dia em que o morro descer e não for Carnaval “”.

Esse é o primeiro verso de um samba do baterista Wilson das  Neves em parceria com o poeta Paulo Cesar Pinheiro. O samba segue: "Ninguém vai ficar pra assistir o desfile final - Não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral....” 

A letra é uma crônica atual da cidade do Rio de Janeiro, desigual como tantas outras do país e, também como tantas, com suas peculiaridades. Pensei nisso ao ver notícias de jornais que anunciam:

 "Samba do Morro do Pinto incomoda moradores do Porto " 

Para quem não conhece, o Morro do Pinto, no bairro Santo Cristo, é um dos morros que ladeiam a região portuária da cidade, e "moradores do Porto" refere-se à galera que está chegando agora àquela região do Rio, com a ocupação promovida pela prefeitura através do projeto Porto Maravilha, e que passou a implicar com os sons noturnos das já tradicionais rodas de samba locais.

A moçada local, que gosta do Morro do Pinto do jeito que ele é, tem reagido. As reações se propagam pela internet e são muitas, inclusive questionando o fato das soluções arquitetônicas do Porto Maravilha serem inadequadas para a região. Por que a prefeitura não fez incluir soluções acústicas nos projetos das construções?  Afinal, o Morro do Pinto está lá, há mais de 100 anos, e o samba faz parte dele.

A relação do samba com o Morro do Pinto não é uma invenção. Há 70 anos, Geraldo Pereira, sambista que dispensa apresentações, compôs um clássico da coleção de sambas cariocas, em que pese as incorreções políticas da letra se vista com olhares atuais.  Com o título “Escurinho”, o samba fala de um sujeito  que era direitinho, mas que virou um brigão,  e entre as suas tantas peripécias ele  subiu o Morro do Pinto justamente para acabar com o samba.

Não é novidade a segregação imposta por grupos mais favorecidos economicamente na ocupação imobiliária de alguma área geográfica, os exemplos são vários. Curiosa aqui, a meu juízo, embora não surpreendente, é a inversão das premonições dos compositores do samba com a direção desses movimentos. O morro nem chegou a descer.

Entre as réplicas às reclamações dos moradores recém-chegados ao Porto Maravilha algumas valem-se de argumentos poéticos e recorrem aos versos de outro samba do próprio Paulo Cesar Pinheiro, intitulado Nomes de Favela. O poeta escreveu: 

Por isso ainda prefiro ouvir um verso de samba, do que escutar som de tiro”. 

Vida que segue!




segunda-feira, 7 de julho de 2025

Baixar a cabeça, e dizer muito obrigado

 Opinião

Seria interessante se os elaboradores da campanha que furou bloqueios da mídia questionando o Congresso e usando como mote a questão do IOF, agregassem às publicações  itens propositivos de uma pauta progressista.

A campanha despertou a militância, chacoalhou a mídia e abalou próceres da direita que se fazem passar por centristas liberais comprometidos com a democracia e com o progresso social, além de outros discursos falaciosos. Contudo, a campanha precisa também atingir e angariar adeptos entre a população que tem se declarado crítica do governo, e que não está engajada nas disputas políticas no nível de abstração partidária .

O caminho para essa mudança de patamar é recolher, na própria realidade das necessidades populares, questões que estão entravadas pelo bloqueio político da direita, e divulgá-las como itens específicos de uma pauta que precisa ser viabilizada.

O discurso de Lula de gratidão com o Congresso que aprovou 99% dos encaminhamentos do governo é enganoso, joga contra os elementos vitoriosos da campanha  e precisa ser substituído.

O Congresso, se assim o quiser, tem como se aproximar da população necessitada. Para tanto, tem que trocar a prática recorrente de legislar para os ricos e aprovar pautas concretas (os exemplos são vários) de interesse da população.

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domingo, 6 de julho de 2025

A pancada foi forte e foi sentida

 Opinião

 

Não sei se os memes de reação ao Congresso no caso IOF chegaram a romper as bolhas direitistas e as do gado bozista, tenho dúvidas, mas certamente romperam as bolhas da mídia tradicional (jornais e tvs), além do próprio Congresso.

Talvez pela primeira vez no atual mandato presidencial  isso tenha ocorrido. Outras oportunidades não foram aproveitadas.

A pancada foi forte e foi sentida. Personagens importantes, além dos editoriais,  saíram dos seus disfarces para declarar que esses enfrentamentos não deveriam existir, que isso é colocar a população contra a população etc. Como se houvesse uma simetria entre a riqueza e a pobreza no país.

Outros questionam uma alegada ética dizendo que a esquerda está se igualando às práticas da direita. Iluminam a forma deixando, convenientemente, na sombra os conteúdos.

Acho que isso é uma onda, um momento. Uma oportunidade que precisaria ser mais e melhor aproveitada pelo governo. Avalio que esse aproveitamento está insuficiente. A onda passará.

O governo precisa chutar essa bola que está quicando na sua frente. É nesses momentos que Lula cresce, a história já mostrou isso.

Os memes precisam continuar. Estão ótimos, comunicativos e, o mais importante, estão consistentes, sem a necessidade de conteúdos fakes.

Essa história de reconciliação é uma armadilha. Cu (sem acento) não faz trato com pica!

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quinta-feira, 19 de junho de 2025

Garrafinha, rodinha e vulcão

 

Leituras para distrair

 

Dia desses, em conversa com um marceneiro amigo que tem a difícil missão de inventar um armário para a minha diminuta casa, ele contou que sua iniciação profissional foi a construção de barraquinhas caseiras de vendas de fogos de artifícios no período de festas juninas.

A lembrança da minha infância em Saigon foi imediata. Embora não tenha determinado o meu destino profissional, algumas vezes eu também fiz barraquinhas para vender produtos juninos. As barraquinhas faziam parte do cenário daquele período especial que se estendia desde as festas de Santo Antônio, no início de junho, até São Pedro e Santana, no final de julho.

Na construção usávamos caixotes de frutas que eram pequenos, leves, descartáveis e de madeira sem valor. Assentados com a maior dimensão na vertical e com abas superiores em "V"' invertidos, imitando telhados de casinhas, eram ocupados com os produtos oferecidos para a venda. O conjunto era encapado com papel de embrulho (papel manilha) a título de decoração.

As “barraquinhas” diferenciavam-se segundo padrões capitalistas. Nas pouquíssimas vezes em que fiz, eram bem simples e com suprimento mínimo para vendas: fósforos de cor, estrelinhas, estalinhos e bombinhas. Mas, havia barraquinhas de grande porte. Bem decoradas, iluminadas com lanternas juninas e com diversidade de produtos para a venda. Vendiam “cabeça de nêgo”  e “garrafinha” que eram bombas de maior poder explosivo do que as bombinhas tradicionais.

Sofisticadas, as maiores barraquinhas vendiam diversos tipos de fogos de artifício: “rodinha”, “vulcão”, “busca-pé”  e “balão japonês”. Aos olhos de hoje tudo aquilo seria um absurdo. Fogos e explosivos nas mãos e comercializados por crianças nas portas de suas casas.

A rotina era montar a barraquinha na calçada, em frente de casa, e avançar a noite aguardando algum comprador, ao mesmo tempo em que observávamos o céu procurando por balões apagados ou apagando, caindo para corrermos atrás.

Os pais eram coniventes. Não por prática desleixada ou pelo lucro que viesse a ser obtido com as vendas nas barraquinhas e que, aliás,  era praticamente nulo. Mas, principalmente porque preferiam um moleque na calçada, proprietário  e responsável pelo seu negócio, do que em lugares distantes, vagabundeando com os demais, trocando experiências e se formando como homens mais rápido do que a criação familiar gostaria.

Hoje, nas regiões que conheço e convivo, as barraquinhas de fogos deixaram de existir, de ser brincadeiras infantis e opcionais, partes do universo das comemorações juninas. As crianças deixaram de brincar de comerciantes e muitas delas precisaram virar comerciantes de verdade. Barraquinhas foram trocadas por  pacotinhos de chicletes, saquinhos de amendoins, doces e bugigangas. Uma atividade de sobrevivência e obrigatória, imperativa de uma sociedade que degenerou da pobreza para a miséria.

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segunda-feira, 26 de maio de 2025

Crescentia cujete

Leituras para distrair

 

Aprendi que existe uma árvore chamada Cuieira cujo fruto é o(a) coité, cabaça ou cuia. Nunca vi. Para mim foi um aprendizado tardio, fruto de curiosidade e busca de refinamento de conceitos. Bem antes disso, aprendi que o(a) coité também pode ser construída a partir de casca de coco verde, ressecada,  após a extração do miolo e um subsequente polimento.

Em minha casa de infância tinha coités. Eram feitas de cascas de coco ressecadas, polidas e pintadas com algum adorno. Podem ser adquiridas em casas de produtos para a religião umbanda.

Com um pouco de cachaça, e cumprindo os rituais seguidos pelos meus pais, elas eram colocadas embaixo das nossas camas por falta de espaço no pequenino quarto de dormir de 3 meninos onde um altar disputava espaço com uma cama de solteiro e um beliche.

Para nós, as coités eram uma aporrinhação. Eu e meus irmãos tínhamos como obrigação a limpeza da casa, e uma de nossas tarefas diárias era varrer o chão interior, além da limpeza da poeira dos móveis.

Apesar da prática diária, ao passar a vassoura embaixo das camas lá se ia uma vassourada na porra da coité que nunca era lembrada. Não falhava uma. A bagunça nem era grande, a cachaça já havia evaporado, mas era um inconveniente. Além de ganhar uma bronca pela falta de atenção, tínhamos que refazer a obrigação religiosa interrompida com a vassourada descuidada.

A situação era recorrente, sem crises nem frescuras, fazia parte da rotina. A bronca era pequena e carinhosa, quem fizesse a cagada tinha que refazer. Casa de macumbeiros pobres, isso era comum.

Gosto dessas lembranças, e elas sempre retornam quando ouço um samba/calango do Nei Lopes e Wilson Moreira. cuja audição eu recomendo. O título é Coité, Cuia.

 

Na coité bebi cachaça

De cana caiana purinha

Comendo com a mão na cuia

Pirão no molho é de farinha

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Segue um link:

<https://www.youtube.com/watch?v=zFOIyOPNoRw&t=9s> 

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Tarifaço e Concorrência

 Opinião

 

Acho um equívoco pensar que o Trump, ao amanhecer, dá uma espreguiçada e, enquanto jorra uma mijada matinal imperativa, resolve com os seus botões:

Hoje vou fazer um tarifaço e  aporrinhar o juízo do XI Jinping!

Certamente não é isso que ocorre, tenha sido, ou não, uma noite de festa na cama ao lado de dona Melania, embora as manchetes midiáticas e um jornalismo fajuto, que só sabe reforçar caricaturas, façam parecer assim.

O que assistimos e, por consequência, vivenciamos e sofremos,  é uma das mais importantes manifestações do modo de produção capitalista. O meio pelo qual as leis do capitalismo se manifestam e se impõem: *a concorrência,*

“A concorrência impõe a cada capitalista individual, como leis coercitivas externas, as leis imanentes do modo de produção capitalista. Obriga-o a ampliar continuamente seu capital a fim de conservá-lo, e ele não pode ampliá-lo senão por meio da acumulação progressiva” (Marx – O Capital – Livro I)

Naturalmente essas situações se manifestam no tempo com características conjunturais. Contudo, trata-se de um mesmo roteiro, embora agora desenvolvido em uma peça com representações insólitas: através de fantoches ou mamulengos, como é o caso do Trump.

Mas, nem por isso deixam de mostrar suas permanentes contradições. O sujeito quer sapecar tarifas nos produtos chineses, mas o americano, gado trumpista, ou não, não pode deixar de comprar celular nem computador. Então,  “revogue-se ou adapte-se a decisão!”

Mas, se esticar muito lá, o Musk, dono da Tesla, SpaceX, X  e novo secretário do Departamento de Eficiência perde dinheiro acolá. Novos ajustes são necessários.

O nome disso é “concorrência”. Segundo Max, são leis que decorrem do modo de produção e imperam sobre os capitalistas individuais independentemente de suas vontades.

Mark Zuckerberg, (Meta, Facebook, Instagram e WhatsApp); Jeff Bezos (Amazon); Tim Cook (Apple); Shou Zi Chew (TikTok); Sam Altman (Open AI); Sundar Pichai (Google) estavam todos lá, nas primeiras cadeiras durante a posse do ícone alaranjado. Todos resguardando seus interesses.

Esses são os caras que efetivamente estão provocando esse “pega pra capar” na ordem capitalista vigente. Fazem isso à moda Trump, desse jeito que parece atrapalhado. Em outros tempos seriam guerras com a população civil servindo de buchas de canhões.

O resultado, não tenhamos dúvidas, será pau no cu dos trabalhadores que sustentam essa canalha de filhos das putas. Desculpem-me as prostitutas, mas não abro mão do adjetivo. ### (Jorge Santos – Rio, 15/04/2025)

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Conjecturas

 Opinião

 

Sempre olhei com espanto aquelas cenas de enormes mobilizações populares alemães ovacionando Hitler e o seu governo nazista. Adultos diversos, jovens e até crianças abraçadas num ufanismo de raça superior e endossando o projeto de conquista e domínio do mundo numa guerra de âmbito mundial que matou mais de 70 milhões de pessoas.

Ignorante e capturado pela propaganda americana e europeia,  a minha referência sempre foi o nazismo alemão. Nunca me ative muito ao nazifascismo japonês de Hirohito e sua canalha, quase todos perdoados por interesses não menos canalhas que se satisfizerem com os cerca de 200 mil cadáveres de Hiroshima e Nagasaki.

Até certa época eu avaliava que os delírios absurdos e irracionais daquelas multidões resultavam tão somente da atuação de sujeitos com capacidades malignas excepcionais. Líderes políticos embusteiros, profetas do mal que convenciam populações oprimidas e desiludidas por não terem suas necessidades atendidas.

Com os aprendizados da vida e buscando o conhecimento de alguns pensadores do mundo, dei de cara com as indagações da filósofa Hannah Arendt sobre o que ela chamou de “banalidade do mal”.

Nos anos 60 do século 20, a filósofa alemã que vivia nos EUA, foi enviada por uma revista para cobrir o julgamento em Israel do carrasco nazista  Adolf Eichmann. Ela escreveu uma série de artigos que mais tarde foram reunidos em livro onde desenvolveu o conceito de banalidade do mal.

Em seus artigos, Arendt se contrapôs ao julgamento “espetáculo” que apontava o carrasco nazista como um super vilão. Arendt ressalvava que, em hipótese alguma, Eichmann deveria ser perdoado por suas atrocidades, mas em vez de apontá-lo como uma excepcionalidade humana e expressão encarnada do mal – como estava ocorrendo no julgamento – seria mais importante buscar saber porque indivíduos que eram “comuns” em suas práticas cotidianas, ao vestirem-se de oficiais nazistas incorporaram as atrocidades como fossem suas rotinas de trabalho e onde o mal era apenas uma tarefa a ser realizada como cumprimento de ordens.

Afinal, quais seriam as condições que levavam a esse tipo de situação? – Essa foi uma questão proposta pela Hannah Arendt.

Para Arendt, Eichmann era um criminoso que devia ser punido, porém o fenômeno a ser estudado não era a figura dos carrascos em si, mas quais as condições que levavam seres humanos comuns a praticarem os horrores nazifascistas até sob olhares da população civil que foram, no mínimo, tolerantes ou indiferentes.

As teses da Hannah Arendt, os contextos e circunstâncias de suas formulações são objetos de estudos de historiadores e pesquisadores, não desejo nem  tenho capacitação para tratá-los aqui. Mas, as leituras de suas observações mudaram o foco de minhas compreensões e avaliações de certas situações políticas, especialmente no momento atual onde figuras como Trump, Millei e Bozo chegam ao poder por vontade e voto de uma maioria da população.

Trump, em âmbito internacional, e seus dois macaquitos aqui, nos quintais dos EUA, são, de fato, figuras especialmente malévolas. Mas, o que dizer das multidões que os apoiam e que os levaram ao poder apesar de saberem sobre todos os valores que defendem e praticam?

Não se pode dizer que são casos de propaganda enganosa. Ainda assim, homens, mulheres, jovens, grupos familiares, religiosos, pessoas diariamente  engajadas em suas atividades de garantia de sustento, deslocam-se, reúnem-se, manifestam-se em apoio a esses líderes e suas bandeiras que incluem: discriminação, enganação, misoginia, violência, tortura e até assassinatos. Isso parece estar bem além de necessidades básicas insatisfeitas e inconformidade com as tratativas governamentais que estão sendo dadas.

Se o mal não é intrínseco da natureza humana, se não nascemos assim, então como criamos ou permitimos a criação das condições em que ele tem germinado e florescido com tanto vigor?

Não sei responder nem tenho a expectativa de respostas comprovadas, mas tento fazer conjecturas e gostaria de saber daquelas que outros tenham feito. ### (Jorge Santos – Rio, 12/04/2025)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Ainda estamos aqui

 Opinião

Naturalmente prefiro que seja assim, não faria sentido optar pela  prática canalha e filha da puta de qualquer sujeito valorizando a sua coerência. Mas, não dá para ignorar os editoriais dos jornais enaltecendo o sucesso da atriz que encenou uma das tantas passagens trágicas, possivelmente uma das mais simbólicas da ditadura. Cúmplices dos golpes de 1964, do golpe de 2016 e da consequente  eleição de um fascista, no caso da Folha de São Paulo fornecedores de infraestrutura para perseguições, prisões, torturas e assassinatos da ditadura de 64, publicam hoje editoriais cínicos e fingidos. Disfarçados como a cara de quem peidou dentro do elevador. Melhor que seja assim, mas é nossa obrigação lembrar. Nosso jeito de dizer que também ainda estamos aqui. ###

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

2025 - Ano Internacional da Ciência e da Tecnologia Quânticas

 Leituras para distrair

O ano de 2025 teve notoriedade despertada nos últimos dias de 2024 por memes divulgando um conjunto de propriedades aritméticas do número 2025 que o identificam como um “quadrado perfeito” (ver web). Mas, ele (ano 2025) também ganhou destaque por um aspecto de muito menor interesse popular. A Assembleia Geral da ONU de 07/06/2024 adotou uma Resolução (78/287) instituindo 2025 como “Ano Internacional da Ciência e da Tecnologia Quânticas” [1].

A instituição dos “anos internacionais” é uma prática da ONU visando orientar seus participantes  para a importância de ações relacionadas a temas que são ou parecem ser aderentes aos propósitos das políticas sociais da organização.

O ano de 2025 teria sido escolhido porque foi em 1925 que o físico Werner Heisenberg introduziu a aplicação da “mecânica matricial”, uma abordagem matemática diferente daquelas que sustentaram os avanços da física clássica. Heisenberg é considerado como o pai de uns dos mais importantes conceitos da física quântica, o Princípio da Incerteza, que afirma ser impossível medir com precisão a velocidade e a posição de uma partícula subatômica.

Ainda que os objetivos só venham a ser atendidos em parte, a busca por ampliar a divulgação do tema (ciência e tecnologia quânticas) é importante porque ao lado de uma ignorância social quase total do seu significado, trata-se de uma área do conhecimento científico que já cumpriu mais de 100 anos e que, queiramos, ou não, impacta de forma extraordinária a vida social contemporânea.

O número de aplicações desses conhecimentos  não para de crescer e vão desde sofisticados equipamentos dos mais diversos usos (industriais, médicos, bélicos etc.)  até corriqueiros produtos de usos cotidianos que podem ser comprados por merrecas e sem frete pela Shopee. Uma matéria da revista Scientific American estimou que no ano 2000 (lá se foram mais de 20 anos) cerca de 30% do PIB americano já dependia de invenções que só se tornaram possíveis graças à mecânica quântica. [2]

Com a facilidade atual de pesquisa na web, obviamente utilizando-se as filtragens necessárias para garantir consistências de conteúdos, encontraremos uma quantidade razoável de assertivas apontando a necessidade de ampliação crítica em assuntos e temas que por razões diversas ficam restritos aos considerados especialistas.

A economia, a política, a gestão, a educação, por exemplo, cada uma dessas áreas é importante demais para serem deixadas apenas nas mãos de economistas, políticos, gerentes ou família e escola. A sociedade precisa tomar consciência e se apropriar delas ditando os seus rumos.

Sem intenção de fazer juízo específico dessa ou aquela assertiva, um fato que chama a atenção é que parece haver um senso comum na importância de uma ampliação, sempre que for possível, no quadro de avaliadores de temas que implicações gerais, embora sequer tenhamos conhecimento de seus aspectos específicos.

A física quântica faz parte desse rol. É muito importante para ser deixada apenas nas mãos dos físicos, dos engenheiros e cientistas. ###

 

*Referências*

[1]

<https://documents.un.org/doc/undoc/gen/n24/175/79/pdf/n2417579.pdf>

78/287. International Year of Quantum Science and Technology, 2025 – acesso em 01/01/2025

 

[2]

< https://www.scientificamerican.com/issue/sa/2001/02-01/>

100 Years of Quantum Mysteries – acesso em 01/01/2025